"Para não perder a rota, é necessário seguir um caminho; se não puder desviar das pedras, ajunte-as e forme uma calçada sedimentada por palavras."
ENGRENAGEM DO CRIME – 2ª CAPÍTULO - A COR DA AMEAÇA – 1ª PARTE
Um chuvisco enregelante começa a cair nessa madrugada de segunda-feira. Em vão, as pessoas que saem às ruas tentam se proteger com seus guarda-chuvas ou sombrinhas coloridas. Os mais apressados caminham sob a garoa de outono, parecendo não se importar com a umidade. Outros, aborrecidos com a manhã cinzenta, resmungam enquanto enxugam os óculos a cada instante na roupa, ou porque ficara para trás o tão grato dia de descanso.
Senhoras idosas com acompanhantes aguardam nos pontos de ônibus. Visto a hora, provavelmente se encaminham para algum posto de saúde ou alguma unidade de pronto atendimento médico especializado com o intuito de garantir vaga nas filas do SUS. Triste sistema de saúde este em nosso país, sobrecarregado, de difícil utilização para a maioria que mais necessita. Quanto mais doente, mais tempo de espera, mais humilhação, menos consideração, quando deveria ser o contrário.
Muitos jovens que, por outro lado, estão no auge de sua saúde, agilmente embarcam nos ônibus e, sem qualquer cerimônia, se afundam nas poltronas e fingem dormir, para se eximirem da cortesia de ceder o conforto para os idosos que, com dificuldades de locomoção e equilíbrio, ficam de pé bem ao lado deles.
O motorista, que para a maioria dos usuários do transporte coletivo é somente uma peça inanimada como qualquer outra do veículo, mal recebe um olhar, quanto menos uma saudação ou agradecimento. Tais profissionais, incumbidos de importantíssima tarefa – conduzir pessoas em segurança, passam despercebidos como o monótono vaivém dos limpadores dos para-brisas.
Pedro ainda dorme e Vanessa, ao contrário de tantos outros, acorda disposta e animada. Ao sair de casa, ela não avista o carrinho de lanche na garagem. Começa a imaginar onde é que o marido o deixara, pois se tinha vendido tão bem a ponto de poder comprar o aparelho de DVD, não há razões para se desfazer do equipamento.
*****
São seis horas da manhã e Estéfanie custa a abrir os olhos. Espreguiça-se na cama, revira-se, puxa o edredom até o pescoço. O despertador do celular soa o segundo round e a moça esbugalha os olhos com a primeira lembrança da manhã. “Matemática!” grita sua mente subitamente agitada. Uma tão temida prova e ela esquecera completamente! Ela levanta de um salto e sai do quarto. Verifica que os pais já saíram para o trabalho e a casa está sob sua inteira responsabilidade. O café está pronto na mesa, mas o almoço é por sua conta a partir de hoje, bem como a organização e limpeza diárias. É o castigo pela desobediência às regras da casa.
Estéfanie volta para o quarto e recolhe seu material de estudo. Enfia tudo dentro da mochila. Veste-se com descuido, mastiga sem gosto uma fatia de pão com margarina, empurra com café com leite. Sai de casa e põe-se a caminhar devagar, com o livro de matemática aberto no conteúdo que supõe cair na avaliação. Os números confundem-na. As letras multiplicadas também. As equações numéricas estão muito além de sua compreensão adolescente. Imagina a letra de uma música, utilizando todos aqueles difíceis cálculos aritméticos. Chega a sorrir com a própria criatividade. Tem o impulso de voltar para casa e pôr a composição em prática. Mas vê, amargurada, que já está diante do portão do Giovani Pasqualini Faraco.
- Prova de matemática na segunda-feira é pra acabar! – Peter surge de repente, enlaçando-a pela cintura. Seu gesto atrevido põe a garota na defensiva e ela se desvencilha sem o menor constrangimento.
- Você tem que aparecer deste jeito, assim, do nada? Dá cada susto na gente...
- Desculpa, gata, foi mal.
- Foi mesmo! – resmunga ela, deixando-o totalmente sem graça diante dos colegas que se reúnem em torno deles e zoam pra caramba do fora que Estéfanie dá nele. Peter dá muita bandeira e todo mundo sabe que ele arrasta a asa por causa da colega de classe e de banda. O rapaz quer parecer o gostosão da escola, mas suas atitudes insolentes provocam efeito contrário à popularidade que almeja.
O cara nunca se sentira tão humilhado e sai de fino do meio da turma que agitava. Para o outros é só gozação, mas ninguém podia imaginar o que se passa dentro do coração de Peter. Enquanto Estéfanie já havia esquecido o incidente e voltado a pensar na prova de matemática, ele deixa amadurecer o rancor associado ao desejo de vingança e já começa a articular um plano para a desforra.
O dia continua nublado e chuvoso, mas Eduardo aparece usando óculos escuros dos maiores que já haviam sido vistos. Piadas sem graça provocam gargalhadas tanto dos garotos como das garotas do terceirão. Estéfanie, preocupada, chama-o para longe da turma e pergunta o que está acontecendo.
- É só conjuntivite hemorrágica, não esquenta. Não dá nada – explica, desviando o olhar.
- Não mente pra mim, Edu. Você não ia pagar todo esse mico por causa de uma conjuntivite, te conheço. Deixa eu ver isso...
Estéfanie ergue o corpo na ponta dos pés, tentando ignorar os seus 1,67 m para alcançar os 1,79 m do amigo. Ele protesta quando ela puxa os óculos escuros e esconde o rosto.
- Cara! O que foi isso? – pergunta, atônita com o que vira.
Receoso e encabulado, Eduardo evita encará-la. Arranca com agastamento os óculos da mão da colega e cobre os olhos sem demora. Ela suplica explicações e ele, finalmente, cede.
- O meu velho...
- Foi ele?! Mas por quê? – Estéfanie está cada vez mais assustada. Alarmada, deixa escapar que vai denunciar o caso para o conselho tutelar.
- Não! Pelo amor de Deus, não! Você é louca? – arremete, olhando em volta para verificar se não estão sendo ouvidos. – Aí mesmo que meu velho me enche de porrada – tenta explicar. – Esse negócio da gente querer ir atrás do sonho de cantar tá botando pilha lá em casa.
- Mas não é possível! Com você também?
Eduardo estranha a pergunta e Estéfanie explica a própria situação. Nesse momento, esquecem prova, agressões físicas, escola. Focam uma solução para continuar a banda, já que os pais desaprovam. Se dependesse de seus pais, Estéfanie estaria com o destino traçado para ser balconista de panificadora, um trabalho que ela não desmerece, mas que a afasta de seu verdadeiro talento. Estéfanie acredita em si mesma e nos companheiros da Engrenagem. Não é à toa sua constante preocupação em praticar, compor, ensaiar, divulgar o trabalho, tudo em nome da habilidade que desenvolvera e de um sonho – que sabe, haver toda possibilidade de concretizar, independente das dificuldades.
Cada pessoa nasce com um talento especial – reflete Estéfanie, algo que a diferencia do grupo ao qual pertence e que a torna única. Enquanto há mulheres que nasceram para constituir família e cuidar do lar e o fazem por prazer, outras não têm a menor vocação para as atividades domésticas. A tradição dita profissões para homens e mulheres, mas mesmo assim, há mulheres exercendo a profissão de mecânicas de automóveis e homens que se tornam exímios dançarinos. Afinal, quem foi que definiu que tipo de tarefas devem ser executadas por homens ou por mulheres? Existem crianças que desenvolvem habilidades precocemente e, com a sorte de serem bem encaminhadas, no futuro tornar-se-ão adultos realizados. Outras pessoas sonham em alcançar grandes fortunas e para tal não medem esforços, nem que suas atitudes comprometam seu caráter, acreditando firmemente que o fim justifica os meios. Esta crença alguém certamente inventou para burlar a honestidade alheia sem se comprometer. Outros sonham pelo simples fato de sonhar. Os que acreditam verdadeiramente em si e impõem metas para as próprias vidas, alcançam fama, glória, fortuna, sucesso e o mais importante, se sentem felizes porque encontram seu verdadeiro caminho.
As reflexões transtornam a jovem Estéfanie, que se encaminha para a sala de aula visivelmente angustiada. Podia compreender que seus pais alimentavam preocupações quanto ao possível envolvimento com entorpecentes, razão pela qual procuram boicotar o trabalho da banda. Porém, em sua concepção, eles somente estão sendo injustos e egoístas.
- Bom dia, pessoal! – cumprimenta o professor, sorrindo de orelha a orelha. A colega de trás cutuca Estéfanie e já faz mau juízo do fim de semana do professor.
- Cala boca, Bárbara! Não tô de bom hoje...
- Ih... não tá mais aqui quem falou...
- Ei, gente, relaxa – concilia o professor de matemática. – Como hoje eu estou muito bonzinho e sei que a maioria de vocês frequentou altas baladas no final de semana, vou permitir que vocês façam a prova com consulta...
Mal termina de falar, a classe inteira já vibra. Até Estéfanie se entusiasma, já que sabe pouco ou quase nada sobre o assunto da prova.
- É prova com consulta no próprio caderno, não do vizinho, viu, pessoal? – lembra o professor, simpaticamente, ao distribuir as provas.
Instantes depois, a classe está toda em silêncio. Eduardo é o primeiro a terminar e entregar a prova. Cochicha algo com o professor e sai, provocando a curiosidade de Estéfanie, que acompanha seus movimentos. Ela se apressa para passar a limpo na folha da prova o último resultado, entrega a prova e segue Eduardo. Enquanto ela sai, Peter ficara mordido e também se apressa para alcançar os dois pombinhos – pensamentos irônicos que passam pela cabeça do garoto no momento do ocorrido. Suspeitas que poderiam ser até mesmo infundadas, pois ele ficara cego pelo ciúme e irado pelo mico de ser passado para trás.
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário