Estéfanie trabalhou na panificadora até às 20 horas. Sente o corpo e o cabelo pesados de gordura, e a mistura de aromas provoca-lhe náuseas. Por sorte, mora em um loteamento do outro lado da rua principal a poucos metros da panificadora e logo poderia se livrar dos odores da comida, tomando um demorado banho.
Embaixo do chuveiro, reflete quanto tempo suportaria essa situação, se para a primeira noite de trabalho se sentia debilitada. Terminado o banho, enxuga-se, veste o roupão, seca os cabelos com o secador e se apronta. Pelo menos, poderia ser ela mesma, vestir o que lhe agrada, usar seus piercings, correntes, e vestir-se de um jeito despojado, longe do uniforme da panificadora. O bom de toda essa história é que podia economizar seu salário e levaria apenas dois anos para levantar a soma exigida pelo chantagista.
Ocorre-lhe denunciá-lo à polícia, mas ela não tem provas. Ainda poderia ser acusada por alguma coisa qualquer porque o promotor afirmara que ela assinara um contrato de pagamento, fato que ela não recorda, porém, em sua inexperiência, o medo acaba suplantando suas certezas.
Vai até a sala onde os pais assistem os noticiários. Logo eles iriam dormir porque acordam às 4 horas da madrugada todos os dias, e mesmo aos sábados, eles gostavam de manter igual ritmo de organização do dia.
A mãe pergunta-lhe se havia jantado quando cumprimentada com um beijo da filha. O pai, por sua vez, se oferece para levar a filha ao trabalho, fato que deixa Estéfanie mais alegre, pois vira que os pais se preocupam com ela. Assim, poderia descansar durante uma hora até ir para o outro trabalho.
Acomoda-se na cama, sentada no encosto e fecha os olhos. Quis lembrar onde havia parado em suas tentativas de trabalhar profissionalmente com a banda. O pensamento colide na reação agressiva do pai e da mãe que culminara em jogar toda a aparelhagem na rua. A lembrança causa uma onda de náuseas e Estéfanie procura afastar essa lembrança ruim. Afinal, já havia acontecido, e por generosidade, a vizinha recolhera tudo.
Estéfanie sente-se desmotivada, cansada, deprimida. Talvez seja resultado da dupla jornada, mas continua disposta a enfrentar isso em nome de sua família, pois não poderia permitir que prendessem seu pai como estelionatário, logo ele, que passara a vida toda trabalhando honestamente, enfrentando anos e anos na tecelagem, construindo a casa por conta própria, tijolo a tijolo, enxugando o suor do rosto, para dar dignidade à família.
Lembra-se de, ainda pequenina, apreciar como o pai preparava os alicerces da casa, dia a dia, lentamente, e o resultado final está lá, uma casa construída com as próprias mãos.
Os pensamentos geram emoções fortes e ela derrama algumas lágrimas. Levanta-se de imediato para se olhar no espelho e limpar com cuidado o filete que se formara no rosto. A maquiagem que usa não é à prova de água e ela não dispõe de mais tempo para retocar. Enfim, apanha uma jaqueta e uma bolsa pequena e volta para a sala.
Iracema, sempre enérgica defensora da disciplina e pouco interessada em sentimentos, age inesperadamente ao ajeitar o cabelo da filha.
- Você tá bonita.
Estéfanie sorri discretamente, pois a mãe nunca a elogiava.
- Vou junto com vocês para seu pai não voltar sozinho. Estou orgulhosa de você, filha.
A garota quase desaba nos braços da mãe, porém, acostumada a não demonstrar emoções, apenas agradece. Enquanto embarcam no automóvel, ela fica imaginando se a mãe reagiria bem a um abraço forte, que é do que Estéfanie está urgentemente precisando.
- A que horas venho pegar você, filha? – pergunta Acildo, solícito.
- Eu não sei bem, mas não se preocupe, pai. Decerto eu consigo carona com alguém.
- Filha, eu te amo, e mesmo que você diga para eu não me preocupar, eu me preocupo, sim.
Estéfanie esgueira-se no meio dos bancos e dá um beijo no rosto deles. Em seguida, desembarca. Acena enquanto eles se afastam e uma onda de remorso provoca-lhe vontade de gritar de tanto chorar, mas se contém.
Há poucas pessoas na danceteria e ela não tem dificuldade para entrar. Identifica-se para o segurança e ele indica o caminho para o escritório de Jairo.
Atravessa a pista de dança praticamente vazia nesse horário e sobe alguns degraus. Levanta o braço para bater à porta, mas se sente idiota quando observa o interfone. Aperta a campainha e se identifica.
Nem bem termina de falar, a porta destranca e ela, respirando fundo, entra.
- Oi, venha até aqui, Estéfanie – pede Jairo, sorrindo amavelmente.
Ela obedece e se aproxima da mesa, insegura e desconfiada, já que desde a última vez que ele lhe falara, foi por ameaça. Ao convite dele, ela se senta.
- A gente precisa acertar alguns detalhes. Já que vou ter a honra de ter como funcionária a vocalista de uma banda, quero que você faça um showzinho particular.
Estéfanie fica confusa. Ele não queria abrir a casa noturna para a banda e agora vem com esse papo de showzinho. Enquanto ele aguarda sua reação, serve-se de um drinque e oferece para ela.
- Obrigada, não bebo, ainda mais em serviço – afirma, convincente.
- Muito bom! Vejo que vamos ter uma grande profissional aqui!
A ironia não ajudou em nada a tranquilizar Estéfanie. Ao contrário, ela está cada vez mais desconfiada.
- Pode beber, você é minha funcionária – volta a falar sem o sarcasmo anterior. – Eu permito...
- Olha, por que não me diz logo o que eu tenho que fazer?
- Não tenha pressa. A casa ainda tá vazia...
- E então? – insiste, inclinando-se para frente, extenuada com a conversa fiada.
- Muito bem – ele aperta algumas teclas do celular e logo em seguida, aparece um moço um pouco mais velho que Estéfanie.
- Este é o Nano, é ele que vai mostrar o que você tem que fazer.
- Até que enfim! – exclama, levantando-se e encaminhando-se para a porta. – Ei, o que você tá esperando?
Nano olha para o patrão, surpreso com a iniciativa de Estéfanie e, a um sinal de confirmação, segue-a.
- Você tem personalidade – diz Nano, assim que fecha a porta.
- O que eu tenho, na verdade, é vontade de sumir! – ela se atreve a dizer, mas logo se arrepende quando observa a reação de espanto que causara em Nano. Reflete que certamente é leal a Jairo e não quis comprometer ainda mais seus pais. – Nada, não. É só TPM.
- Ufa! – Nano suaviza a expressão e até ri. Tudo que não está disposto a enfrentar são as explosões de uma mulher na tal fase.
*****
- Oi, amor! Que tal darmos uma esticadinha hoje? O quê? Ah, por favor, tô tão carente... Ótimo! Lá mesmo!
O pensamento em Castro e em sua noite de prazer acende o desejo de Vera. Instantaneamente, sua região intima começa a trazer-lhe as boas lembranças e a se preparar para mais. Teria que tomar cuidado, porque em nenhum momento poderia se apaixonar. Sua libido está inconvenientemente tomando o controle da situação e Vera parece momentaneamente insegura.
Larga o pensamento e passa para a parte prática: preparar-se para o encontro com Castro, decidindo o que vestir, como se produzir. Resolveram encontrar-se na Avenida Getúlio Vargas.
Horas depois, Vera e Castro encontram-se na lanchonete de um estacionamento da Avenida JK. Castro assobia ao vê-la: scarpans e um microvestido cavado nas costas. Combinam jantar no restaurante do Blue Tree Tower Hotel e para lá se encaminham.
- Vou ficar com ciúmes – comenta, caminhando ao lado dela.
- E eu também, com tantas garotas lançando olhares maliciosos sobre você.
- Ah, é mesmo?
Ele segura seu pulso e a abraça calorosamente, ali mesmo na calçada. Vera dá um tapinha nas costas dele e se afasta um pouco.
- O que acha de eu beijar você aqui?
- Hum... nada bom – sorri. – Eu daria adeus a minha maquiagem.
Ele ameaça beijá-la e Vera, resistente, ri e diz que está com fome.
Sentam-se a uma mesa ao lado da parede de vidro cuja vista é a avenida, estudam o cardápio e decidem o que pedir.
- Caiu muito bem o seu convite, Vera.
- É mesmo! A comida está deliciosa!
- Não é só isso.
Castro debruça-se na mesa e faz um carinho na mão de Vera. Ele fica subitamente sério e Vera percebe.
- Quero que saiba, Vera, que você é a pessoa mais incrível que eu já conheci. Uma profissional destemida, determinada, altamente especializada.
Vera sorri, afinal, não é a primeira vez no dia que lhe falam de seus talentos. Porém, o tom das palavras de Castro é diferente e ela ergue um escudo.
- Quando você ingressou na minha equipe, confesso que não dava nada por você. Detestava sua arrogância, sua autoconfiança, mas você superou todos os meus preconceitos.
- Castro, eu... – Vera quis interromper o discurso dele, pois assim evitaria também o descompasso de seu coração e curaria aquela súbita ansiedade.
- Além de tudo isso, você e a mulher mais linda que eu já vi.
Vera percebe a sinceridade nas palavras dele e tenta disfarçar. Quando retira sua mão, Castro segura-a com vigor.
- Vera, aceita um compromisso comigo? Pra valer? Para pensarmos em um futuro juntos?
- Castro, você é meu chefe... – tenta recuar.
- Não, não é com olhar de chefe que eu vejo você, e sim, olhar de homem apaixonado e convicto do que deseja.
- Eu... eu...
Vera olha para os lados, procurando uma saída. Seu coração grita dentro do peito: aceite! Ele é o homem de sua vida. Entretanto, não é simples. Há planos superiores que dependem da atuação direta dela na vida de Castro e lá está ele, diante dela, declarando-se e sonhando com uma vida juntos.
- Eu já imaginava que seria difícil para você, Vera. Seu desapego emocional causa essa confusão.
- Eu não esperava, Castro.
- Não precisa decidir agora – ele acaricia novamente a mão dela. – Quero que pense com carinho a respeito do que lhe propus.
Ele paga a conta e descem pela escadaria até o hall de entrada.
- Que tal esquecermos um pouco nossas idades e cairmos na balada?
- Como assim, Castro? – pergunta, perplexa.
- Vamos ver como os jovens de hoje se divertem? O que acha de entrarmos na Mansão Getúlio? Dá umas três quadras caminhando.
- Topo.
Conversam muito enquanto seguem até a casa noturna. Ao chegarem à portaria, o vigilante somente abre passagem.
Ambos imaginavam encontrar a casa cheia de rostos bem jovens, acima de 18 anos e se surpreendem com a quantidade de gente madura por lá. A casa ferve e não passam despercebidos aos olhares treinados dos investigadores alguns detalhes por lá. A casa estava com uma programação para adultos, os adolescentes das décadas de 80 a 90, o que explica a faixa etária dos frequentadores.
Som e luzes, barulho e finalmente, uma música lenta. Castro e Vera dançam agarrados, rolam beijos quentes e amassos. Vera podia sentir o desejo dele e seu corpo responder.
Passava das 2 horas da madrugada quando decidem ir para casa. Castro vai ao bar, pede um refrigerante e Vera fica observando os bartender’s. Olha mais atentamente e reconhece Estéfanie, fato que a intriga. Ela lavava os copos e cada vez que precisava servir um pedido, perguntava algo para um rapaz um pouco mais maduro que ela.
“Será possível que aquele miserável me traiu?”, reflete. Avista em seguida Jairo, o sujeito para o qual pagara uma boa soma para afastar a garota dali. Esgueira-se ao lado de Castro para não ser reconhecida por Jairo e prossegue com uma minuciosa observação.
Jairo aproxima-se de Estéfanie e lhe fala algo que a garota não dá a mínima. Depois fala com o rapaz. Estéfanie enxuga as mãos em um pano de prato, retira o avental e pega uma jaqueta.
- Vamos?
- Ãh?
- Vamos indo?
- Ah, sim, vamos.
Vera olha um segundo para responder a Castro e perde Estéfanie de vista.
- Vou buscar o carro... você vem comigo?
- Olhe, Castro, está tarde e eu ainda estou um pouco confusa com o que falamos...
- Tudo bem, não precisa ficar aí arrumando desculpas – fala ele, serenamente. – Mas posso ter o prazer de sua companhia por mais dois quarteirões?
- Cla... claro.
Vera acompanha Castro pela calçada em direção ao estacionamento. De vez em quando lança um olhar para trás para tentar localizar Estéfanie.
“Traíra”, pensa, enquanto se despede de Castro sem que este desconfie de suas suspeitas.
*****
Vinícius levanta da cama, a contragosto, às oito da manhã, devido à exigência e implicância do pai. O garoto responde com desobediência e falta de respeito, o suficiente para levar uma chave de braço do pai.
- Tá machucando!
Mais meia dúzia de palavras nada amistosas fazem o pai apertar o abraço.
- Eu pensei que você ia tomar jeito depois de ter saído da clínica! – berra. – Se por bem você não tomar juízo, vai ter que ser por mal!
- Seu velho idiota!
O pai, já alterado, perde definitivamente o controle. Retira o cinto e Vinícius reage empurrando-o contra a parede.
- É isso aqui que faltou, meu filho! Você cresceu pensando que tá tudo certo, do seu jeito, sem regras, sendo protegido. Eu não soube educar você, mas ainda dá tempo!
O garoto leva uma surra, se desvencilha e corre para a rua com o par de tênis em uma mão, boné e jaqueta na outra. Agacha na calçada para calçar os tênis e vai até a casa do amigo emprestar a moto. Mesmo sem habilitação, guia a motocicleta até a residência do homem que lhe vende droga. Essa confusão com o pai deixou-o nervoso e inseguro, e ele necessita do poder de excitação e coragem das “balas”.
Aproveita que a porta lateral está destrancada e entra. Não havia nenhum vigia e ele esgueira-se pelo corredor até sentir cheiro de erva queimada. Temendo um corretivo por causa de sua petulância em entrar na casa sem ser autorizado, volta alguns passos. Depois ouve uma conversa que o intriga e ele fica parado no vão da porta, de onde podia ver Ivo debruçado sobre a mesa da sala, braços esticados, cigarro na boca, estudando um mapa. Usa uma caneta permanente vermelha e assinala alguns locais, e enquanto explica a estratégia, Afonso ouve atentamente.
- Aqui temos a clínica ao norte da cidade. Nesse outro ponto está a Mansão Getúlio e o posto de gasolina onde você vai plantar a rede... e aqui...
Afonso arregala os olhos. Então, ele realmente plantaria a placa principal na rede subterrânea do gás natural.
- ... Hospital Municipal São José.
Vinícius dá um salto para trás e esbarra em uma estante metálica, derrubando algumas peças de decoração que se espatifam no chão. Ivo imediatamente ergue-se, apanha o revólver de dentro de uma gaveta e se encaminha vagarosamente com a arma empunhada, pronto para qualquer ataque.
Afonso esconde-se atrás de uma parede e Ivo prossegue, esgueirando-se pela parede até próximo da porta. Quando o barulho recomeça, ele sai do esconderijo e grita.
Vinícius, que tentava recolocar no lugar as peças que continuavam inteiras, ergue as mãos e implora por piedade quando sente o metal gelado do revólver em sua nuca.
- Que faz aqui? Quem deixou você entrar? Tava espionando, seu verme!
- Nã... nã... não... eu juro... eu vim só pra comprar...
- Levanta! Levanta!
- Por... favor... eu só...
- Entra aqui!
Ivo agarra o garoto pelo cabelo e com uma força impressionante, joga o corpo do garoto no sofá da sala.
- Fala, fala, fala! O que você tava fazendo aqui? Tá querendo outra liçãozinha?
O olhar de ódio por si só já atemorizava o garoto, que se lembrou da última represália.
- Por favor, Seu Ivo, eu não fiz nada... não fiz nada.
Ivo controla-se e manda o garoto ficar de pé.
- Tá. Escapou de tiro certo, moleque. Que afronta!
- Desculpa... eu só vim...
- Calado!
Se o garoto ficara estressado com o pai, nesse momento, preferiu ter obedecido. Ivo avança contra ele e começa a estrangulá-lo sem qualquer piedade. Não fosse a intervenção de Afonso, Vinícius teria sufocado até a morte. Deixam o garoto agonizante no chão, enquanto Ivo tira satisfações com Afonso sobre a interferência. Afonso pede que Ivo se acalme, pois o garoto é somente um viciado e não oferece perigo. Convencido, Ivo berra para dois capangas ajuntarem o garoto e o colocarem para a rua.
Igual a um saco de batatas, Vinícius é lançado na calçada, perto da motocicleta. Cambaleante, liga a moto e se manda.
Nenhum comentário:
Postar um comentário