Estéfanie prepara um drinque com habilidade. Já não se desgasta tanto com sua dupla jornada e ainda se diverte com os clientes do bar, muitos, amigos seus. Para os mais ousados, ela já desenvolvera uma estratégia:
- Coloco chá no lugar do uísque, engraçadinho!
Fora as gorjetas que lhe rendiam um dinheiro para aplicar futuramente, Estéfanie anda mais despreocupada: vai bem no colégio; como ela não ocupa mais tempo com ensaios, os pais baixaram a guarda com ela; Peter dera um tempo nas perseguições; ela tem bons patrões na panificadora; Vinícius parece mais responsável depois do tratamento; Eduardo está também se tratando para se adaptar a surdez parcial e aproveita para estudar música de um jeito novo.
Jairo é o único que, quando aparece, tira-lhe do sério com suas propostas supostamente mais lucrativas. Insinua formas mais remuneradas de Estéfanie apressar o pagamento da dívida que nem sequer existe. Inicialmente, ela pouco entendia o que o patrão queria sugerir, mas aos poucos ele foi dando sinais evidentes de quais “formas” eram os tais adiantamentos de quitação da dívida, das quais ela sempre se esquivou. Nos últimos finais de semana, contudo, ele não apareceu para perturbá-la e a garota está alegre e satisfeita.
Prepara outro drinque para um cliente e dá de cara com Peter.
- Preciso falar com você – diz ele, tentando vencer o volume da música.
- Não posso. Não vê que eu tô trabalhando?
- É importante.
Estéfanie convence-se e sai do bar, dando a volta até se encontrar com o amigo. Quando se aproxima, vê que ele, decerto, participara de um “esquenta” antes de vir para a danceteria.
- Eu quero dizer que eu tô na tua – fala, embriagado, mas parecendo sincero. – Eu quero te pedir em namoro, Fan.
- Peter, isso não é local para isso, então, a gente conversa outro dia, tá bom? – responde, furiosa.
Irritado, o garoto segue-a até a entrada do bar, mas ela o ignora. Quando volta para o seu trabalho, Nano avisa-a que Jairo mandou que ela fosse ao escritório.
- Hoje todas as assombrações resolveram fazer hora extra? – Nano observa-a, perplexo. – Deixa pra lá.
Bufando, Estéfanie se encaminha ao escritório de Jairo. Quando ia subir o primeiro lance da escadaria, Peter aparece na frente dela exigindo explicações. Estéfanie, afoita, expulsa o garoto e sobe, decidida.
Leva a mão até o botão do interfone, mas a porta se abre antes de ela chamar. Jairo pede para ela entrar. Ela toma fôlego e acata a ordem.
Jairo encosta a porta, que não se fecha como ele pretendia e nesse momento Peter aparece na entrada. Quis bater, mas vê que a porta está entreaberta. “Por que me chamou aqui?”, escuta Estéfanie perguntar e então aguarda.
Jairo circula no pequeno escritório enquanto beberica um drinque, o que deixa Estéfanie atenta e apreensiva. Ele sempre bebia na frente dela, mas algo em sua expressão deixa-a preocupada. Começa a se afastar quando Jairo se aproxima demais e não fala nada, apenas observa-a com um olhar estranho.
Então ele começa a falar, a intimidá-la, a oferecer coisas que ela já explicara não estar interessada. E durante esse ensaio, revela que mentira, que Estéfanie não havia assinado nenhum contrato. Naturalmente, ela se enfurece. Estava trabalhando de graça para ele havia meses por causa de um falso contrato.
- Seu bandido nojento! Por que fez isso? – diz, aos gritos.
- Por que eu queria você por perto – revela –, e ofereci de várias maneiras o meu interesse por você.
- Nojento! – repete, com uma revolta que jamais imaginara sentir.
Com um movimento muito rápido, Jairo agarra-a para beijá-la à força.
Peter, tonto por causa da bebida, não conseguia compreender o que eles diziam, mas a partir do momento em que presencia essa cena, sente uma raiva incontrolável e invade a sala. Dá uma chave de braço em Jairo, que facilmente se liberta e esmurra o garoto, que é arremessado para longe. Estéfanie corre para socorrê-lo, mas é fortemente agredida e forçada contra a parede.
A cabeça de Peter ribomba uma tonelada de fogos de artifício e do lugar em que está caído, enxerga descoordenadamente. Estéfanie pede socorro, mas ele não consegue se mover. Juntando todas as forças, o garoto levanta, apanha o lixeiro de metal debaixo da mesa do escritório e golpeia Jairo, nocauteando-o.
- Vem, Fan, vamos sair daqui.
Estéfanie chora e aceita a oferta de Peter. Qualquer coisa para sair desse lugar horrível. Na saída do estabelecimento, Peter pergunta se ela quer chamar a polícia, ao que ela nega energicamente.
Enquanto aguardam um táxi, Vera se preparava para entrar na danceteria e percebe a situação. Aproxima-se da jovem e pergunta o que havia acontecido. Estéfanie não gosta de Vera, mesmo assim, relata o fato, mas implora para ir embora. Vera leva-os até o estacionamento, deixando-os dentro de seu carro.
- Volto logo, não saiam daqui.
Vera volta para a danceteria. Pede para falar com o chefe da segurança e é levada até uma sala geral. Enquanto aguarda o retorno do segurança, Vera invade a sala de monitoramento, aciona alguns comandos no painel e localiza a câmera que fica na entrada do escritório de Jairo. Ela aciona outro comando e rapidamente substitui o CD-ROM do drive e esconde-o na cintura da saia, por baixo da blusa. Sai da sala de monitoramento e fecha a porta no exato momento em que o chefe dos vigilantes aparece. Ela apresenta a credencial de policial e avisa que ouviu o suposto planejamento de um arrastão que aconteceria na danceteria. Depois da denúncia, volta para o estacionamento e procura acalmar Estéfanie. Sem revelar sua verdadeira identidade, Vera sugere que Estéfanie abra boletim de ocorrência contra Jairo. Em seguida, leva a ambos para casa.
*****
Ricardo amarga outra noite mal dormida desde que fora envolvido no golpe de Afonso. Pela centésima vez naqueles dias, relembra o momento em que fora algemado e detido.
- Está preso, Ricardo, quer que eu leia os seus direitos? – ironiza Vera.
- Agente, não é melhor averiguar antes de deter os meliantes? – questiona Castro.
- Ok. Vamos conferir a carga de coca.
- Coca?! – Ricardo empalidece. – Do que está falando? Aquele motorista trouxe chocolate – ri Ricardo, inocentemente.
- Chocolate – diz Vera. – Boa estratégia.
Com as armas em punho, Vera e Castro se aproximam do caminhão e, cautelosamente, verificam a carga. Metade da encomenda já havia sido guardada.
Castro abre o lacre de uma caixa e levanta as abas. Começa a suspeitar de que Vera havia se precipitado. Olha de soslaio para a agente, que o incentiva a prosseguir com o flagrante. As caixas de bombons estão normais, aparentemente. Castro rasga a embalagem plástica e ergue a aba superior. Confere o conteúdo. São bombons, nada mais, nada menos, que bombons de chocolate. Abre outra caixa: somente bombons. Vera observa impassível enquanto Castro começa a se enfurecer.
- Capitão, vou lhe mostrar.
Vera apanha um canivete e perfura a segunda fileira de embalagens. Quando retira a lâmina, aspira e passa-a para o capitão que, convencido, faz um corte atravessando toda a fileira de caixas. As caixas de cima camuflam a verdadeira carga: pasta base para produção de cocaína.
Algema também o motorista, que aponta Alberto como responsável. Vera aciona o comando central que, quarenta minutos após, chega com novas viaturas. Ricardo, Alberto e o motorista são detidos e levados para a delegacia prestar esclarecimento.
*****
Ricardo está no pátio da clínica quando vê um veículo chegar.
- Merda! – resmunga ao lembrar-se de que era o domingo das visitas. Estava preparado para perder os pacientes após o escândalo.
Começa a tecer mentalmente argumentos para manter as pessoas na clínica. Quando vê a morena de cabelos cacheados sair de dentro do carro, ele se belisca.
Ângela veste short, blusa de renda, sandálias e usa óculos de sol. Ricardo acha-a deslumbrante e se apressa a recebê-la.
- Oi, sei que pode não ser um bom dia para visitas, mas aceitei seu convite para conhecer a clínica.
Ele beija-lhe no rosto e sente o perfume amadeirado que ela usa.
- Lamento por seu marido, Ângela. Ele deve ter sido envolvido nesse golpe tanto quanto eu.
- Não tenho tanta certeza – responde, enquanto retira os óculos escuros. – Nós não somos mais uma família – diz, com expressão séria. Ricardo pensou não ter compreendido e ela esclarece: – Nós não estávamos bem havia muito tempo, e esse assunto ajudou a resolver as coisas entre nós.
- Mas, pense melhor, ele é louco por você – Ricardo defende, com sinceridade. – Ele me contou naquele dia.
Ângela não reage com essa informação, pois percebe que não adianta mais mentir para si mesma. A rotina tinha engolido a vida dela e a de Alberto; conviver apenas por hábito não condizia com ela, embora houvesse de fato amado Alberto. Nem tudo era tão ruim, ela reflete, pois aprendera a ser uma mulher mais íntegra e independente, e menos fútil.
- Posso te oferecer um café? – pergunta Ricardo, subitamente nervoso. – Depois levo você para conhecer as dependências da clínica.
Ela aquiesce e entra no local onde funciona a cozinha. Dois pacientes cuidam dos afazeres com o café e preparam o ambiente para a chegada dos familiares.
Ricardo pede licença e apanha duas xícaras, café puro para ele, com leite e adoçante para a convidada e ambos vão se sentar a uma mesa na varanda.
- Quer comer alguma coisa? Busco num minuto – oferece, solícito.
- Não, obrigada, o café está ótimo.
Conversam inicialmente sobre a emboscada em que Ricardo havia se metido e que teria de provar inocência. Depois Ricardo mostra a Ângela toda a propriedade e explica o tipo de trabalho que realiza ali. Ela ouve tudo, demonstrando sincero interesse. Logo, suas insatisfações pessoais são trazidas à tona e Ângela revela que admira a dedicação de Ricardo pela comunidade terapêutica.
Eles caminham lado a lado e começam a avistar os primeiros grupos de familiares chegarem para a visita. Todos os pertences são inspecionados com cuidado e então quando os filhos reencontram os pais, ou as mães choram ao abraçar filhos, ou esposas beijam os companheiros, há um momento de grande comoção em Ângela, que logo trata de pedir desculpas.
Ricardo, embevecido com a presença dela, acha-a mais linda que nunca com os olhos e nariz vermelhos após ter chorado.
Convida-a para passar o dia com eles e ao contrário do que Ricardo imaginara, os familiares dos pacientes vieram até ele para expressar sua profunda revolta com o erro da polícia e transmitiram-lhe conforto e confiança.
*****
Estéfanie acorda às 11h30, como em todos os domingos, pois a mãe e o pai faziam questão de almoçar pontualmente às 12 horas.
Eles estão alegres e falam sem parar, contando histórias ocorridas entre os parentes e os vizinhos, relembram situações da época em que se conheceram, mas Estéfanie se força a engolir o travo e o amargor na boca. Subitamente lembra que seus pais haviam comentado que estão completando vinte anos de casamento. Ela procura sorrir, pede desculpas pela desatenção e parabeniza os pais com abraços.
Ela sempre admirara seus pais, porque nunca se abalavam com as dificuldades. Normalmente eles entravam em acordo para resolver os problemas, um ajudava o outro, independente da tarefa a ser realizada. Em sua família não exista “serviço de homem” ou “serviço de mulher”. Tanto o pai lavava e enxugava louças, varria a casa, cuidava da roupa ou arrumava as camas, como sua mãe pintava a casa, lavava o carro, carregava telhas ou tijolos ou preparava concreto, entre outras atividades. Isso era algo diferente do que Estéfanie ouvia de seus colegas de escola e amigos, em cujas casas, as atividades domésticas ficavam exclusivamente a cargo da mulher.
Diante de suas reflexões, Estéfanie considera contar os apuros pelos quais passara, mas resiste à ideia de roubar de seus pais esse momento de sincera alegria. Assim, dissimula o abalo que a covardia de Jairo lhe causara, almoça, ajuda os pais com a louça e vai para seu quarto.
Chorara sem parar até quase amanhecer quando a exaustão a arrastara para um sono profundo e sem sonhos. A lembrança de ter sido enganada provoca-lhe grande tristeza, mas o ato de violência da qual quase fora vítima tornara-a mais frágil. Tivera vontade de abraçar alguém para sentir que não estava sozinha e Eduardo apareceu em sua mente. O retrato do amigo mais próximo, e da sutileza com que a tratava fez com que ela pedisse para se encontrarem na casa de Zenaide. Avisa a mãe de que sairia e bateu no portão da vizinha.
- Oi, filha! – atende, animadamente.
- Dona Zenaide, será que eu posso pedir para meus amigos virem até aqui, na casa da senhora?
- Só se... – pensa Zenaide.
- Se? – aguarda Estéfanie.
- Só se vocês tocarem um pouco. Essa casa vazia anda tão monótona ultimamente.
Estéfanie confirma e vai entrando. Envia mensagem para os garotos pelo celular e começa a tocar e a cantar uma música romântica, com o incentivo de Zenaide.
Eduardo é o primeiro a bater à porta. Zenaide leva-o até o estúdio e incentiva-o a tocar também. No início, fica apreensivo, pois ainda erra as notas, mas continua. Estéfanie larga o violão e apenas canta outra música que eles haviam composto antes do acidente de Eduardo. Percebem como Zenaide aprecia a música deles e isso os alegra. Zenaide bate palmas e, com dois dedos na boca, assovia com força para aplaudi-los. Depois, deixa-os a sós enquanto vai preparar lanche para todos.
- Acontece uma coisa muito ruim comigo – conta Estéfanie, movimentando bem os lábios para que ele possa entender.
- Como assim? O que foi?
Ela então relata todo o caso de ameaça que sofrera, da tentativa de pagar uma dívida que não existia e, por último, da agressão que só não terminou mal porque Peter estava lá.
- Que miserável! – resmunga Eduardo, abraçando-a. – E eu nunca estou por perto quando você precisa – lamenta.
Enquanto estão abraçados, Peter e Vinícius entram.
- Fan, eu já contei pro Vini – explica Peter, sinceramente penalizado.
- Puxa, Peter, eu nem te agradeci direito. Você me salvou.
Eduardo olha para o gesto de gratidão de Estéfanie e sente ciúmes, mas procura se controlar. Afinal, Peter estava lá e realmente merece a gratidão dela.
- Conta comigo – encoraja Vinícius.
Estéfanie, então, conta tudo também para os dois companheiros que, boquiabertos, admiram a coragem dela. Já sabiam que ela é determinada e que encontraria um meio de lançar a banda, mas ela superara qualquer expectativa.
- Bom, isso quer dizer que não tem mais noite de estreia na Mansão – conclui Vinícius, demonstrando alívio em adiar a apresentação.
- Nada disso! Vai ter, sim! É questão de honra agora – anuncia Estéfanie.
- Mas… mas… não podíamos adiar a data ou arranjar outro lugar? Assim… só pra dar um tempo pra você… - retorque Vinícius, tentando por todos os meios, arranjar outra solução.
Estéfanie não aceita e confirma a decisão de manter a data e o local. Ela imagina que Vinícius está somente preocupado com seu bem-estar, e parte é verdade, mas não percebe o nervosismo que acomete o garoto.
Zenaide volta trazendo biscoitos, suco e café. Estéfanie confidencia a ela seus planos e a vizinha mais uma vez vibra com a conquista. Pede para eles tocarem e ensaiarem sempre que quiserem, a qualquer hora do dia ou da noite, garantindo que não é dessas senhoras que vão para a cama junto com as galinhas.
Cada um deles fica empolgado com os preparativos. Vinícius, entretanto, se mantém em silêncio, com algo muito perturbador incomodando-o.
*****
Já havia anoitecido quando os últimos parentes se despedem e vão embora. A lua começa a surgir, muito alva, por trás da vegetação e Ângela anuncia seu regresso. Havia almoçado com Ricardo, jogado cartas com o pessoal da clínica, caminhado nas trilhas ecológicas da fazenda, jogado futebol com as crianças e depois de um dia com tantas atividades recreativas, ela sentia-se fisicamente cansada, mas emocionalmente revigorada.
- Está tarde para você pegar a BR – fala Ricardo. – Fique por aqui esta noite e amanhã bem cedo você vai.
- Sou muito grata pela sugestão, Ricardo, mas sou grandinha para me cuidar, não acha? Ah! E pro seu governo, eu dirijo muito bem à noite também.
Ricardo ri sonoramente, e pede desculpas, pois não tivera intenção de subestimar suas habilidades. Insiste para que ela fique.
- Não! Não trouxe… ãh… “material de sobrevivência” – explica.
- Mas eu consigo pra você… por favor – pede, fechando a porta do carro dela e prendendo a porta com o próprio corpo antes que ela pudesse entrar no veículo.
Ângela titubeia, já que o pedido dele é tão gentil, e finalmente cede. Embarca no carro e o estaciona na garagem mais próxima ao alojamento principal e segue Ricardo até a casa onde ele fica hospedado. Ricardo entrega a ela toalhas, material de higiene e, como não dispusesse de nenhuma roupa feminina, empresta uma camiseta sua. Antes de ela se preparar, vão até a cozinha preparar lanches para eles. Após comerem, Ricardo separa lençol, fronha e cobertor limpos e coloca sobre a cama. Como perfeito cavalheiro, deseja boa noite e vai se recolher a outro alojamento.
Ângela toma um banho rápido e veste a camiseta que ele emprestara. Enxuga o cabelo enquanto relembra cada minuto desse dia. Depois de ouvir a empolgação de Ricardo ao oferecer uma vida nova e melhor em termos de saúde para aquelas pessoas, ela sente que também poderia ser útil, que também desejava contribuir com aquela tarefa.
Estica o lençol, coloca a fronha no travesseiro, deixa o cobertor dobrado nos pés da cama e deita. Deixa a luz do abajur acesa um pouco e começa a imaginar se Ricardo fora casado ou se tinha alguém. Então se lembra do dia em que quase perderam o controle e ela procura afastar esse pensamento. Não viera até ali para conquistar Ricardo, e começa a lamentar ter ficado.
Ouve alguém bater à porta e levanta abruptamente.
- Ângela? Sou eu, Ricardo – ele logo avisa.
Tranquilizando-se, ela vai até a porta e abre. A camiseta de Ricardo cobre-a até a metade das coxas.
- Tudo bem? – pergunta, preocupado. – Vi a luz acesa e imaginei que poderia estar precisando de alguma coisa…
- Sim, eu realmente estou precisando... – assume, puxando-o pela camiseta, para o interior do quarto.
*****
- Temos algumas coisas a acertar – diz Vera, ao telefone. – Ótimo! Encontro você lá.
Ela troca o uniforme policial por um vestido. Maquia-se, perfuma-se e vai até a danceteria.
Jairo aguarda a chegada de Vera com grande ansiedade. Mandara preparar alguns petiscos e escolhera um vinho especial para acompanhar, imaginando que ganhara uma noite especial de brinde.
Vera insinua-se e aguarda que ele se envolva o suficiente.
- Sempre tive vontade de conhecer a sala dos seguranças, sabia? Parece um lugar perfeito para realizar algumas fantasias…
- Vem comigo, eu garanto que vou realizar todas elas... – afirma, presunçosamente.
Entram na sala de monitoramento e Vera puxa-o para um beijo, que desvia de sua boca e roça a orelha. Quando percebe que o sujeito está totalmente entregue, ela pede para que ele veja uma coisa.
- Agora não, gata, temos tempo depois…
Com um movimento ágil que as pessoas com ótimo preparo físico adquirem, ela se desvencilha do sujeito e coloca um CD ROM no drive do equipamento.
- Querido, olhe bem – pede, com falsa ternura.
O vídeo começa a rodar a partir do momento em que Estéfanie entra na sala de Jairo. Peter surge na câmera, olha pela abertura e fica à espreita. E lá dentro, Jairo pôde ver a si próprio partindo para a jovem. E Peter avançar contra ele e ser derrubado em seguida. E então, Jairo agarrar novamente a garota e, nitidamente, abaixar a própria calça para forçar uma relação íntima.
Vera afasta-se, vitoriosa, enquanto Jairo explode em inúmeros xingamentos de baixo calão. Vera saca o revólver e apresenta o distintivo de polícia. Jairo estarrece.
- Tenho provas incontestáveis sobre seu mau procedimento e posso detê-lo agora mesmo – explica Vera, enquanto o homem aguarda, calado, com as mãos para o alto. – Você será indiciado por crime hediondo e irá para a penitenciária tão logo saia seu julgamento.
- Não… não podemos… entrar em um acordo? – gagueja, transpirando irregularmente.
- Hum… muito inteligente de sua parte, garanhão!
Sem desviar o revólver do criminoso, Vera abre a bolsa e retira alguns documentos.
- Assine isso e teremos um acordo.
Jairo apanha os papéis e lê apressadamente.
- Mas isso aqui é uma procuração! Não vou assinar porra nenhuma!
- A escolha é sua – ela remexe na bolsa e retira um rádio de comunicação e algemas. – Aqui é a agente Vera, na escuta, Capitão?
- Na escuta! – responde prontamente e Jairo retesa-se. Gesticula para que ela aguarde, pega uma caneta e assina todas as vias do documento.
Vera pega os papéis e confere página por página.
- Agente Vera na escuta?
- Suspeita de furto na zona norte não confirmada, capitão.
- Mantenha contato.
Jairo enxuga o suor da fronte, aliviado. Vera, por sua vez, continua com a arma em punho e diz:
- Ao trabalho! Temos muita coisa para resolver.
*****
Alberto chega à empresa pronto para seu primeiro dia de trabalho após o afastamento. Débora aguarda-o no estacionamento e acompanha-o até o departamento de vendas, área em que ele trabalha.
- Seja bem-vindo – diz e beija-lhe no rosto.
Um dos colegas pede que ele aguarde a chegada do supervisor e Alberto imagina que é apenas para verificar seu estado de saúde e pedir para que entregasse o laudo da perícia no ambulatório.
Fica um pouco ansioso, afinal, precisa voltar à ativa ainda mais que não tem ainda lugar para morar. Quando o supervisor aparece, ele levanta-se de imediato e cumprimenta-o com um aperto de mão.
- Vamos até a sala de reuniões, por favor.
Acomodam-se nas cadeiras e Alberto adianta-se, ansioso:
- Luís, obrigado por me ajudar, mas eu quero logo voltar aos meus compromissos com os clientes...
- Isso não será possível – atalha Luís, friamente.
- Como?
- Alberto, eu tentei evitar seu desligamento e consegui que a diretoria voltasse atrás na decisão após o primeiro escândalo. Mas depois do último, não foi mais possível argumentar.
- Mas eu não fiz nada! Sou inocente! – defende-se.
- Alberto, acredito em você, mas a diretoria não pretende deixar o nome da empresa associado a... a... um suspeito de furto ou tráfico de drogas – Luís escolhe as palavras com cuidado.
- Luís, se a empresa me demitir, vai estar me incriminando, isso é uma injustiça!
Luís cala-se. Alberto transpira, atônito, e finalmente, compreende a situação.
- Eu não aceito, mas compreendo. Vou direto pro RH.
Levanta e sai da sala, deixando a porta escancarada. Observa todos os colegas olhando para ele, como se compartilhassem do mesmo julgamento estúpido. Havia trabalhado 20 anos na companhia e agora saía com fama de criminoso.
Não se despede de ninguém e segue até o departamento de RH. Recebe as instruções para se encaminhar ao sindicato dentro do prazo previsto em lei e sai do parque fabril. Quando passa pela portaria, o vigilante o barra e pede para abrir o porta-malas, situação que humilha Alberto ainda mais.
Quando chega ao quarto que alugara, ele joga as chaves e os papéis sobre a mesa e senta na cama. Abaixa a cabeça e chora. Todas as coisas que mais prezava haviam sido arrancadas dele: integridade, o casamento, o trabalho. Faltava somente a injustiça se consumar, privando-o também da liberdade.
*****
- O caso será encerrado, Capitão. Não há pistas suficientes para decifrar o enigma e também não há qualquer ligação entre esse caso com os outros de que o sujeito tenha participado.
Castro ouve a informação e detém-se por alguns instantes em uma reflexão. Com Pedro procurado, não se sabe quem o pagara pelo delito do roubo de uma planta, e de qualquer maneira, aquele leiaute não trazia risco algum para a população.
- Capitão, uma mulher está procurando pelo senhor. Ela informou que o senhor é que a mandou vir.
Castro aborrece-se com a interrupção, libera César e vai até a outra sala, onde a mulher aguarda. Quando ele se aproxima, percebe que ela tira um envelope de CD ROM de dentro da bolsa.
- Boa tarde – cumprimenta. – Em que posso ajudar?
- Boa tarde, sou a Vanessa, ex-esposa do Pedro, o homem que vocês procuravam quando invadiram a minha casa na semana passada.
Ele lembra-se de imediato do caso. Quase fora delatado por Vera por causa do procedimento de invasão. Nesse instante, observando a moça frágil diante dele, teve um sentimento próximo de compaixão. "Impossível ela não saber que o marido era traficante”, duvida. Recorda que ela o havia finalmente denunciado após uma gravíssima agressão.
Ela possui olhos de um azul acinzentado e o cabelo loiro parece natural, mas Castro percebe nela um misto de receio e pudor. Desejou que Vera estivesse ali para colher o depoimento ou o que Vanessa tinha para dizer. Oferece que ela sente e encoraja-a a falar.
Vanessa engole em seco e por um instante aparecem lágrimas em seus olhos que evaporam antes mesmo de descerem pela face. Ela olha para baixo, para o envelope de CD que segura, e o alisa com as pontas dos polegares, indecisa e insegura. “Não tenho o dia todo”, Castro quis resmungar diante de tanta relutância, contudo, aguarda até que ela, finalmente, lhe entregue o envelope.
- Quero fazer uma denúncia contra meu ex-marido. Aqui está a prova para a polícia juntar ao processo.
O policial apanha o envelope da mão dela, retira o CD, desliza com a cadeira até a mesa do computador e coloca o CD no drive. Ao final do reconhecimento da mídia digital, Castro dá um clique, aumenta o som da caixa externa e assiste ao curto vídeo. Reinicia mais duas vezes, para o programa e ejeta o CD.
- Pelo que aparece aqui, você não é mesmo cúmplice dele – conclui. – Em nome do departamento, peço desculpas. E em meu nome, garanto que cuidarei pessoalmente da sua segurança. Por favor, vamos até aquela outra mesa registrar a sua queixa.
Meia hora depois, Vanessa sai da delegacia e vai ao encontro de Renato, que aguardava, sobre a moto. Quando ela se aproxima, as lágrimas começam a despencar. Ele envolve-a em um abraço protetor.
- Você agiu certo – parabeniza. – E sabe que pode contar comigo.
Ela tranquiliza-se e sorri. Vestem os capacetes e vão para casa.
*****
- Estéfanie, tenho algo importante para lhe dizer – explica Vera, enquanto a garota a atendia no balcão da panificadora.
- Desculpe, Vera, sei que você é amiga do Vini, mas agora tenho muitos clientes para servir.
- Não vai demorar, prometo.
- Tá, bom – assente, pois percebe que Vera esperaria de qualquer maneira. – Assim que der uma folga, converso com você.
Vera senta-se a uma mesa e enquanto aguarda, aproveita para tomar café. O celular vibra e, subitamente, ela fica tensa. A “coisa” quer acontecer, independente de todos os seus esforços.
- Alô – fala, fingindo despreocupação. – Não, o inquérito foi arquivado e o idiota do Pedro está desaparecido – responde. – Não acho necessário. O irresponsável foi enquadrado na lei Maria da Penha e eu soube que a ex-esposa o entregou por tráfico de drogas. Ela também revelou um dado importante sobre a roupa suja com tinta de sinalização. Além disso, ele está sendo acusado pelo roubo da carga de dinamite, garanto que vai ficar entocado um bom tempo... já disse que não vejo necessidade disso, temos coisas mais urgentes para resolver... sim, ainda sei quem é que manda...
Vera desliga o aparelho e está com o rosto corado de indignação. “Maldito, agora tenho que resgatar um idiota desaparecido. Quero ser a primeira a chutar seus ovos”, promete.
Estéfanie aparece e Vera dissimula a irritação.
- Quero lhe dizer que, apesar de você não ter aberto o B.O. contra o Jairo, está tudo resolvido.
- Resolvido? – Estéfanie, com uma expressão de alienamento, tenta entender do que Vera está falando.
- Sim, eu agora sou sócio-proprietária da danceteria. Vi que você já agendou o show da sua banda e estou aqui para garantir que tudo corra perfeitamente. Além disso, já quero fechar seu cachê. Providenciei a preparação de fotolitos para nós divulgarmos os outdoors e cartazes.
Estéfanie ouve tudo em silêncio, pois já tinha caído em armadilha anteriormente. Alguns meses de sua vida desgastaram-na e ela não estava disposta a errar outra vez.
- Sim, eu tinha agendado –, mas não vou mais querer apresentar a banda lá – explica, ao contrário daquilo que garantira para os companheiros da banda. – Não ponho mais os pés lá.
Vera volta a ficar irritada. Não dispunha de tempo para agendar com outra banda e precisava garantir a casa cheia para que os planos de Ivo sejam executados. Senão, adeus missão.
Ainda tenta persuadir Estéfanie a aceitar e dobra o cachê com pagamento parcial adiantado, mas percebe que o dinheiro não faz diferença para a vocalista. Se a perspectiva de lucro não atraía Estéfanie, Vera usa outro recurso.
- Você não quer o orgulho dos seus pais conquistando seu espaço? Não espera que seus pais, os professores, vizinhos, amigos reconheçam o seu esforço, dedicação e talento? Não pode desperdiçar uma oportunidade quando ela aparece – insiste, atenta para as reações da garota. Sabia que a estratégia funcionaria, afinal, o sonho de ser orgulho para a família era conhecido em Estéfanie.
A garota olha em volta, depois, encara Vera e concorda:
- Tudo bem, o show não pode parar – e volta para o balcão para atender os fregueses, que formavam fila com suas senhas.
Vera, satisfeita, sai da panificadora. Agora, tem outras tarefas para cuidar.
*****
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