"Para não perder a rota, é necessário seguir um caminho; se não puder desviar das pedras, ajunte-as e forme uma calçada sedimentada por palavras."
ENGRENAGEM DO CRIME – 4ª CAPÍTULO - NA BALADA DO PERIGO – 1ª PARTE
Castro mantém sua concentração enquanto conduz a viatura. Primeiramente, o trânsito, depois as informações preliminares sobre o esquema de um crime excêntrico. Investiga o furto de uma planta predial, com detalhes sobre a instalação da rede de gás natural de Joinville inteira. A empresa responsável pela manutenção da rede solicita sigilo absoluto sobre a questão, temendo que os assaltantes fizessem parte do seu quadro de funcionários, o que era probabilíssimo. Por mais que raciocinasse, Castro não chega à exata compreensão de motivos para o furto. A criminalística poderia encaminhar aquela investigação para qualquer equipe, mas o caso curioso depende de esclarecimentos de um agente experiente.
- Dane-se experiência! – resmunga. – Tenho coisa séria para tratar.
Castro para no sinaleiro do cruzamento da Av. Santos Dumont com a Rua Tuiuti. Confere o endereço e o nome do cidadão que pretende capturar. Tão logo o sinal verde acende, manobra o veículo para a direita e segue para o bairro Paraíso. Lembra que está quebrando uma regra importante para o flagrante: está sozinho. Caso o perigo seja iminente, não terá o reforço de que necessita. É de um temperamento egocêntrico, recusando sugestões, age conforme suas próprias convicções. Nada teme, nem mesmo a dor ou a morte. Caso necessário, corre riscos, já que não tem família. Defende a lei, e tal virtude é admirada em seu meio profissional.
Circula durante aproximadamente dez quilômetros e alcança o local indicado no mandato de busca por volta da 11 horas. Desliga o motor e desembarca, olhando em torno para a vizinhança visivelmente apreensiva. As crianças são levadas para dentro das casas. Cachorros latem. O pó da estrada de terra é levantado por veículos de passeio que circulam em velocidade baixa. Castro empunha o rifle e segue para o portão da casa de alvenaria. As janelas da frente estão fechadas. Não avista ninguém do lado de dentro do terreno. De repente, aparece uma senhora franzina, muito assustada.
- Tenho ordem de busca para Adriano Moraes. Ele mora aqui?
- Mora. Vou chamar.
Castro não espera que a senhora o convide e vai logo entrando. Prepara a algema para dar voz de prisão assim que ela aparecer com o sujeito.
- Ele já tá vindo – ela avisa quando retorna. Esfrega o cabelo grisalho maltratado. Castro repara que a mulher tem poucos dentes e mesmo a movimentação lenta provocava-lhe fadiga. Imagina que o criminoso seja seu neto, dada a idade que consta no laudo de Dalva.
Uma figura toma forma na escuridão da casa e se move para a porta.
- Adriano Moraes? Está preso! – antecipa-se já com a algema a meio palmo do pulso do criminoso que precisa capturar.
- Eu não fiz nada, doutor!
O sujeito aparece totalmente à fraca claridade do dia nublado. Trata-se de um senhor ainda mais idoso do que a senhora que atendera. Perplexo, Castro estuda novamente o mandato. A captura é para um homem com aproximadamente 29 anos.
- Adriano Moraes é o senhor?! Cadê seu documento?
- Tá aqui – trêmulo e amedrontado, o idoso entrega o RG, onde consta somente o carimbo com o polegar. Depois de conferir, Castro brada enraivecido:
- Dalvaaaa!!!
Pede desculpas ao casal de idosos e imediatamente parte com sua viatura de volta ao laboratório da criminalística.
No prédio, segue abrindo e batendo portas. A cara fechada que exibe enquanto atravessa na frente dos colegas provoca murmúrios.
- O que deu nele? – indaga um funcionário.
- Ih! O tempo vai fechar!
Castro irrompe a sala onde César e Dalva examinam evidências de outro crime. Sua voz de extremada irritação estremece os móveis. Dalva observa com assombro a recriminação abrupta. Por sua vez, César disfarça um sorriso de satisfação com o fracasso da estagiária.
- Identidade falsa! – repete Castro ao ouvido da estagiária, que quase desfalece de temor. Pior ainda é saber que, seguramente, todos no prédio ouvem Castro chamá-la de incompetente.
Depois da explosão de raiva, Castro deixa o local. Dalva engole em seco e mordisca os lábios, tentando conter o choro. Observa que César lança olhares especulativos sobre ela e procura desviar o rosto. Porém, o colega não perde a deixa para criticá-la.
- É bom para você aprender a ser mais humilde da próxima vez – comenta, com sarcasmo evidente. Em seguida, levanta e sai da sala, com ar de vitorioso.
- Vamos ver quem aqui precisa aprender a ser humilde – promete Dalva, antes de abandonar-se a uma torrente de lágrimas.
*****
Por todos os lugares aonde se vai, veem-se placas de propaganda política. Ano de eleições e da campanha eleições limpas, proibindo a compra de votos através da troca de favores. Época mais tranquila apesar da opção por cinco candidatos de uma só vez: deputado estadual e federal, senador, governador e presidente. Finalmente a consciência toma a frente e a campanha motiva eleições limpas também no sentido da poluição visual que acontecia em campanhas anteriores. Nada mais de postes com a foto do candidato ou de lixo jogado pelas ruas. Apenas membros dos comitês eleitorais divulgando através de civilizadas bandeiras, poucos comícios, aparentemente com esmero pelo respeito à lei.
Ricardo acompanha o horário eleitoral gratuito pela TV e depois vai almoçar na sombra do chorão. Ao seu lado, leal e companheiro, está o cão, roendo um osso que ganhara do dono.
Um automóvel surge na curva do arvoredo que faz divisa com a outra propriedade, levantando uma nuvem de poeira e lançando no ar o cheiro dos resíduos do catalisador. Ricardo olha o carro com interesse. Uma pick-up S10 preta, cabine dupla, com películas escuras, estilizada, não era comum aparecer fora da área urbana. Um homem de boa aparência, vestindo terno e gravata, barba feita, cheio de classe, abre a porta do motorista, desembarca tranquilamente, retira do banco do passageiro uma mala de notebook e segue na direção de Ricardo. O cão larga imediatamente seu osso e late de encontro ao visitante.
- Boa tarde! – cumprimenta, estendendo a mão para Ricardo e observando com relativo cuidado o cachorro. – Presumo que seja o proprietário destas instalações.
- Boa tarde. – Ricardo levanta, cumprimenta o visitante e não dissimula a insatisfação com sua chegada. – Creio que tenha vindo para auditar as reformas. Vamos direto ao ponto, que não gosto de rodeios. Vou pegar os projetos e o senhor pode conferir que tudo está sendo executado dentro da lei...
- Desculpe, senhor...
- Ricardo.
- Ah, sim. Parece que o senhor está cometendo um pequeno equívoco. Ricardo, deixe eu me apresentar. Sou Afonso, assessor de Maurício Fontes, candidato a deputado estadual.
- O que quer aqui? – Ricardo não é adepto à política, embora tem sã consciência de que depende do sistema para sobreviver.
- Nossa campanha traçou vários projetos para a candidatura de Maurício Fontes e, uma vez eleito, o primeiro projeto a ser colocado em prática a partir da verba existente será o da municipalização de centros de tratamentos para alcoólicos e toxicômanos como o seu recanto.
- O quê!?
- Calma, Ricardo. Temos uma excelente proposta para você e seus negócios irão alavancar...
- Desculpe, Afonso, mas não tenho pretensão nenhuma de alavancar meus negócios. As coisas estão boas do jeito que andam – interrompe Ricardo, revoltando-se.
- Permita que lhe mostre o projeto de construção do espaço alternativo...
- Não quero ouvir nada. Tenha a bondade de se retirar para que eu possa terminar meu almoço. Tenho ocupações para cuidar.
Afonso franze o cenho, visivelmente contrariado. Não imaginara que um projeto de um milhão e meio de reais e verba vitalícia esbarrasse na insensatez de um sujeito osso duro de roer. Observa que o proprietário do recanto volta a se sentar e almoça despreocupadamente, ignorando por completo sua presença diante dele. O cão parara de latir, mas faz marcação cerrada de todos os seus movimentos. O homem não está disposto a perder uma negociação evidentemente lucrativa para ambos os lados e coloca seus neurônios em atividade. Não conhece Ricardo, portanto, não tem noção de suas ambições, necessidades, caprichos, caráter. Enquanto avalia o futuro aliado, uma preciosa ideia passa pela sua mente.
- Pensei que o senhor fosse altruísta e se preocupasse verdadeiramente com o futuro dos jovens de nossa cidade, mas vejo que me enganei. Tenha uma boa tarde.
Dando as costas, Afonso afasta-se de forma premeditada e calma, mantendo sua cabeça baixa e demonstrando profunda decepção. Seu plano alcança êxito quando Ricardo chama-o de volta.
- Espere! Eu me preocupo sim com essas pessoas. O que tem a me dizer?
Afonso ri interiormente. As pessoas que não são movidas por ambição, certamente o são pela solidariedade. Acertara em cheio. É convidado a entrar no escritório, retira o laptop da mala, liga-o e começa a apresentação do projeto.
Ricardo, atento, acompanha toda a exposição do planejamento de municipalização. No final, parabeniza o assessor do candidato com grande satisfação por poder participar de um projeto tão audacioso e importante para toda a sociedade.
*****
- Sai fora! Sai fora!
Ivo corre com o celular pela casa e literalmente enxota as pessoas que estão lhe servindo. Não se pode saber se a torrente de impropérios é lançada para o interlocutor no aparelho ou se direciona os palavrões para seu próprio sistema, que obviamente, dada sua exasperação, fornecia provas de que havia falhado.
Apanha o controle remoto e liga a TV no noticiário da tarde. Larga o celular e esmurra violentamente a mesa de centro.
O noticiário apresenta uma ação envolvendo cerca de 200 policiais na captura de um trio de marginais que havia assassinado um delegado de polícia e um servidor público no Estado do Paraná. A fuga seguiu a rota do município de Campo Alegre, na SC 280, descida da Serra Dona Francisca. Perseguidos, os criminosos tomaram a BR 101 no sentido Curitiba e escaparam pela Estrada d’Oeste, onde tomaram duas senhoras como reféns. O helicóptero Águia acompanhou a fuga dos assaltantes no veículo da família e atirou. Entretanto, três disparos atingiram uma das senhoras, que ficou gravemente ferida. A equipe policial verificou então que apenas um dos criminosos havia fugido no carro e recebeu a notícia de que os outros dois envolvidos haviam sido mortos enquanto escapavam por outra região próxima. O último, porém, se embrenhara na mata virgem, dificultando a perseguição.
Ivo desliga o aparelho de TV e atira o controle remoto para longe. As artérias temporais dilatadas ao extremo concorrem com o rubor da face e do pescoço. Os punhos cerrados mostram maiores sinais de estresse. Apanhando o celular, Ivo prossegue com uma conversação entrecortada por palavrões e gírias. Indignado, toma satisfações com seu comparsa e procede com novas ordens, mais urgentes que as primeiras. Desliga e digita novos números. Relata a ocorrência, deflagrando uma série de ameaças. Desliga e sai da casa imediatamente.
Próximo dali, Vera desliga seu aparelho celular com tranquilidade.
- Você me diverte, cara. – Ela ri sardonicamente. – Acha mesmo que está no controle, Ivo? Pois veremos. Chegou a hora de botar o esquema pra funcionar.
Depois de meia dúzia de ligações em que mantém linha dura com os envolvidos no esquema, ela se atira na cama, satisfeita e com ar de vitoriosa.
- E aí, gato? Vamos sair pra dançar?
*****
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