Paulo esforçava-se para concluir a instalação do fio telefônico tipo dropp ao mesmo tempo em que tentava se equilibrar sobre a escada a uma altura de dez metros do chão. Parou um instante par ajustar o cinto de proteção que amarrara em torno do poste e o enlaçava pela cintura e notou que o vento havia mudado de direção, ganhando mais intensidade. Além da súbita ventania, o céu nublara de forma acelerada, ocultando as serras mais próximas e deixando a sensação angustiante de um novo temporal iminente, igual ou pior ao do dia anterior.
Antes que Paulo retomasse sua tarefa, seu celular tocou, identificando uma chamada do tronco-chave da empresa para a qual trabalhava, a Integração, que naquele mês assinara consórcio para trabalhar em conjunto com a Optical Telecomunicações numa parceria pela macroárea norte do Estado de Santa Catarina, formada pelas cidades de Joinville, Jaraguá do Sul, São Bento do Sul e região.
Naquele instante, a escada balançou perigosamente e Paulo se agarrou com firmeza ao cinto de proteção. Após sentir que a escada estabilizara, rapidamente apertou os parafusos da braçadeira e começou a descer do poste. Uma nova rajada de ventou atirou seu capacete para o chão e enfureceu o instalador, que reagiu com uma série de palavrões cujo final somente se deu quando ele pisou em solo firme. Exausto, Paulo enxugou o suor do rosto e tratou de recolher o material apressadamente para dentro do veículo. Novamente o celular tocou e antes mesmo de verificar a origem da chamada, Paulo atendeu.
- Alô, Paulo, é Guiomar que está falando. Em que área você está neste momento?
- No final da estrada Caminho Curto, zona norte de Pirabeiraba – respondeu ele, enquanto pegava o bloco de ASLA. – Qual é o problema?
-Tem um BD vencendo às 15:59 na sua área – informou a atendente, ansiosa e preocupada. – Há uma grande expectativa em torno desse defeito e é melhor você cuidar disso imediatamente.
O tom de urgência na voz da atendente deixou Paulo preocupado e nervoso, sobretudo ao saber que o telefone com defeito ficava na direção da rodovia estadual que ligava o município de Joinvile ao de Campo Alegre, em uma rua chamada Estrada do Pico. Ele calculou por baixo uns 30 km e ainda não havia abastecido o veículo. Como não houvesse escolha, ele preencheu a ASLA – formulário de Autorização de Serviço de Linha de Assinante, com os dados fornecidos pela atendente do Centro de Operações: nome e endereço do assinante, assinalou BD, anotou a rede física e escreveu a palavra “ruído” no defeito apresentado, concluindo com seu IRLA – Instalador/Reparador de Linha de Assinante, a matrícula de acesso ao sistema de transmissão de dados da operadora de telefonia e seu nome. Em seguida, atirou o bloco, a caneta e o celular sobre o painel do veículo e terminou de guardar o material no porta-malas do Fiat Uno branco. Olhou para as nuvens cinzentas que ocultavam a localidade a ser atendida e consultou o relógio de pulso que marcava 14:02.
- Um BD era tudo que eu precisava agora – ironizou ele, enquanto embarcava no automóvel.
Seguiu pela estrada de chão batido e quando atingiu a BR 101, a chuva despencou, prejudicando a visibilidade e obrigando Paulo a estacionar o veículo no posto Rudnick, onde pretendia abastecer. Resolveu aguardar o temporal, mas aquela decisão em nada ajudava. A situação de risco associada aquele fenômeno metereológico e a pressão em resolver o defeito do telefone gerou um nível acentuado de estresse e Paulo recostou-se no assento tentando relaxar.
Sorte que ainda são 14:05 – murmurou ele, imaginando que a chuva seria apenas momentânea.
Enquanto isso, na sala de treinamento do Consórcio Optical e Integração, Mauro apresentava os últimos indicadores de desempenho, relacionando-os aos prazos de vencimento e alertando para as multas cobradas no caso do não atingimento das metas. Mauro era gerente da Optical em Joinville e supervisionava as áreas de implantação de LA (Linha de Assinante), TUP (Telefonia Pública), ADSL e dados e laudos técnicos. Além disso, era o responsável pelas reuniões com a operadora que contratava os serviços da Optical – a Sul Telefonia, primeira operadora de telefonia no sul do país. Mauro também cuidava pessoalmente do Centro de Operações, ou Despacho, como chamavam o departamento que monitorava 24h por dia os serviços dos IRLA’s, ou seja, instaladores/reparadores de linha de assinante, despachando as ordens de serviço e finalizando-as no sistema da Sul Telefonia assim que executadas.
Prosseguindo seu treinamento da equipe de IRLA’s, contando com a presença dos supervisores de campo das diversas áreas e com a segunda equipe do Despacho, Mauro explicava sobre o QFC 3.1 – 24 h, indicador de BD (Bilhete de Defeito) residencial, cujo prazo era de 24h.
- Isso significa que nós aqui do consórcio Optical e Integração temos 24 horas para tirar o defeito após receber a informação da Sul Telefonia.
Mauro obtinha 100% da atenção dos ouvintes sobre os dados que repassava, visto a complexidade das novas regras da Sul Telefonia para 2003. Seu tom de voz era enérgico, pois necessitava convencer toda a equipe de que o novo contrato para os próximos quatro anos exigia responsabilidade e parceria, tanto aos funcionários da Optical quanto da Integração – esta ultima recém instalada após a reforma do prédio, e dependia do desempenho progressivo destas últimas O.S.’s em andamento.
Admirada e orgulhosa por participar de um treinamento de tal profundidade, Tatiana, uma funcionária recém contratada pela Optical Telecomunicações, procurava memorizar os indicadores que lia no diagrama distribuído logo no início do treinamento. Também anotava o que conseguia captar, mas dada sua curta experiência, pouco compreendia sobre os chamados FLC2 (defeito), FLC2-R (defeito repetido), QFC 3.3 (Serviços Públicos), ADSL, RNC (Relatório de Não-Conformidade), SIAC (justificativa) e mais uma série interminável de siglas. Não fazia a menor idéia de como era um armário digital ou um cabo de fibra óptica, apenas entendia do seu serviço de separação de ASLAS, conferência, digitação, batimento de relatórios, impressão de relatórios e arquivos. “O que estou fazendo aqui?”, pensava ela enquanto se lembrava das pilhas e mais pilhas de ASLA’s que precisava conferir. Ela não tinha noção alguma do aspecto físico das instalações, mas compreendia que o futuro das duas empresas parecia comprometido.
Mauro finalmente encerrou a reunião e voltou para a Coordenadoria, sua cabeça em ebulição por causa da manutenção do contrato. Caminhou apressadamente até o Centro de Operações para verificar pessoalmente a execução dos serviços. Tânia, a supervisora do departamento, verificou o SGA (software de Sistema de Gerenciamento Administrativo), emitindo um relatório minucioso sobre os BD’s que afetavam diretamente os indicadores. Mauro aguardou impaciente a impressão do documento e revisou-o assim que ele saiu na impressora.
- 352 BD’s! – exclamou Mauro, desnorteado. – Nós só temos até o final do dia para tirar 352 BD’s? O que é que está havendo, Tânia?
Mauro ergueu os braços, exasperado. O tom moreno de sua face ficou subitamente corado e ele não conteve a irritação. Ele era admirado por todos pela tranqüilidade com que sempre resolvia todas as situações, porém, naquela tarde, a última coisa que conseguia manter era a calma, sobretudo ao ler no relatório que dois BD’s venceriam dentro de meia hora e um outro exatamente às 15:59. Estes três defeitos constituíam os primeiros dos 352 que não poderiam, em hipótese alguma, ser fechados fora do prazo, sob pena de perda do contrato da macroárea norte de Santa Catarina. Além disso, todo o investimento com a associação das duas prestadoras de serviço causaria um prejuízo enorme.
- O que há com todos vocês? – bradou ele, agitado. – Vamos, mobilizem os IRLA’s para fechar tudo sem atraso. Meu pescoço está a prêmio! – desabafou.
Os despachantes começaram a se comunicar imediatamente com os IRLA’s, criando um burburinho na sala, antes quase silenciosa.
- Vamos, vamos! Alertem novamente os supervisores de campo! Não podemos perder este contrato!
Tânia interrompeu a reação intempestiva do gerente para comunicar que os dois primeiros BD’s haviam sido baixados naquele instante, mas o fato não aliviou a tensão de Mauro que questionou o BD das 15:59.
- Como é que o IRLA recebe a O.S. de 24h e deixa para a última hora? – perguntou ele, cada vez mais irritado.
Tânia deu uma explicação pouco convincente informando que a estação ficava em Pirabeiraba em uma lateral da rodovia estadual e prometeu cuidar do caso imediatamente. Ligou para o celular do instalador, mas este estava incomunicável. Mauro esfregou o rosto com as mãos e antes de sair da sala, exigiu contato urgente.
Tânia continuou tentando a ligação. Passava das 14:20.
"Para não perder a rota, é necessário seguir um caminho; se não puder desviar das pedras, ajunte-as e forme uma calçada sedimentada por palavras."
DO OUTRO LADO DA LINHA - Sinopse
Tatiana é auxiliar administrativa de uma prestadora de serviços telefônicos e conhece Paulo, profissional responsável pela instalação de linhas telefônicas, com o qual sofre incompatibilidade de gênios.
Paulo, por sua vez, se envolve com Elisabete, mulher dominadora que denuncia o instalador por maus tratos e este, para se livrar da prisão, se vê obrigado a aceitar a chantagem e casar com ela.
Tatiana ainda tenta ajudá-lo e piora a situação, porque sofre ao descobrir que o ama. Apesar de casado, Paulo se recusa a consumar o casamento, porque também descobriu sua paixão por Tatiana e precisa resgatar sua dignidade para tomar as rédeas da própria vida e se livrar da vilã.
Entretanto, se soltar das amarras do próprio remorso exigirá uma profunda transformação.
SUSPENSE - A GUERRA DAS PALAVRAS
A GUERRA DAS PALAVRAS
1º CAPÍTULO
Uma garota estudiosa de 14 anos encontra na biblioteca do
distrito um livro grosso e velho, com capa dura e páginas com aspecto de
pergaminho. Ela começa a folhear o livro e percebe que as palavras estão
embaralhadas. Aí ela inicia uma saga para descobrir o que o livro revela.
Ela tem somente uma amiga na escola, uma menina mulata da
mesma idade. Elas se conheceram no 2º ano do ensino fundamental. Sua amiga fica
curiosa, mas desiste nas primeiras tentativas. Biblioteca realmente não é o
lugar preferido dessa amiga.
A palavra que mais desperta a curiosidade de Paula é
perseverança, e essa palavra aparece repetidamente durante todas as páginas em
que vai lendo mas continua muito longe de compreender o sentido do livro.
Resolve emprestar o livro por duas semanas e decide que, se
dentro desse prazo não conseguir compreendê-lo, devolverá para a biblioteca
esquecerá dele.
Então descobre junto à bibliotecária que o livro não está
catalogado por não conter título nem autor ou dados de impressão. Curiosa,
pergunta a Paula onde ela o encontrou e a garota a leva até a prateleira e
mostra o lugar exato de onde o retirara.
Entretanto, naquele lugar não há qualquer espaço para o
livro que Paula segura nas mãos, tanto em dimensão das prateleiras quanto a
quantidade de páginas.
A bibliotecária lhe dá um sermão para que não a engane e
abandona qualquer auxílio após verificar no computador que os livros estão
devidamente organizados. A mulher lhe diz com convicção inabalável que, após
vinte anos trabalhando na biblioteca distrital, não comete erros. Expulsa Paula
da biblioteca e manda que ela leve o livro consigo.
O livro é grande e pesado e ela fica com raiva da
bibliotecária e tem o impulso de jogar o livro na primeira lata de lixo
reciclável que encontrar, mas a palavra perseverança vem em sua mente com força
e nitidez, de forma quase palpável. A garota desiste do intento de jogar o
livro fora e o carrega até sua casa.
O livro foi colocado lá por alguma razão, Paulo começa a
refletir. Mas a pergunta que não queria calar era quem poderia ter feito aquilo
e se o livro caiu nas mãos da pessoa certa.
Paula examinou-o. Como a bibliotecária mencionara, não havia
título nem autor, mas era impresso em caracteres gráficos bastante antigos.
Suzana acha tudo muito idiota e simplesmente sugere que Paula se desfaça do
livro.
Paula começa a desembaralhar as palavras parágrafo por
parágrafo. Em muitos casos, faltam termos para identificar o sentido exato do
que está lendo, em outros, as mesmas palavras se repetem nos parágrafos adiante,
mas com sentidos distintos.
A garota desiste daquele quebra-cabeça, fecha o livro e o
deixa fechado sobre a escrivaninha.
Na manhã seguinte, ao despertar, ela vê que o livro está
aberto e se pergunta se uma corrente de ar teria feito aquilo. Impossível,
reflete, já que a capa parece de madeira.
Resolve perguntar para a mãe e o pai se estiveram no quarto
dela durante a noite e eles negam. Ela fica confusa e volta para o livro. Vê
que os parágrafos que ela lera no dia anterior se embaralharam outra vez.
Pensando que o livro quer que ela descubra o que há nele, a
palavra determinação aparece em realce nos mesmos parágrafos onde a palavra
perseverança aparecia no dia anterior.
Na página sete ela encontrou ênfase na palavra perfeição.
Ótimo, pensou Paula, somente palavras de sentido positivo. Já na página 13 ela
desembaralhou as palavras em torno da palavra TABU e conseguiu entender que o
parágrafo se referia ao 13º mês do ano, com ano previsto para acontecer uma
hecatombe mundial.
Assustada, ela fotografa a página com seu smartphone e vai
para a escola. Pela primeira vez em sua vida, esquece completamente das tarefas
de casa e os professores acham estranho.
Sua professor ade Física critica sua “cabeça de purungo
podre” e o professor de matemática julga-a apaixonada.
Suzana tira satisfações e irrita-se com a amiga por não ter
ainda dado um fim ao livro.
No dia seguinte, todos os parágrafos foram reescritos
daquela forma embaralhada e para ter certeza de que não está louca, Paula
confere a página 13 com a foto do smartphone. E apesar de ter certeza do que
lera e de lembrar-se de como as palavras estavam misturadas no dia anterior e
de como estão hoje, a foto e a página são idênticas.
Impossível, pensa. Minha imaginação está criando tudo isso.
Suzana prova isso quando lê em voz alta o que parece um romance comercial.
Mas para Paula, as palavras continuam embaralhadas.
Novamente a palavra perseverança salta aos olhos.
Realmente o livro está querendo contar uma história mas
somente Paula poderá decifrar.
Ela resolve mostrar o livro para o professor de História,
mas para ele o livro estava totalmente em branco. Ele só enxergava as páginas
cuja textura lembrava pergaminhos. Pergunta onde Paula conseguiu o livro e após
a resposta interroga a estudante sobre se ela mostrou o livro a mais alguém. “A
bibliotecária e a minha amiga”. E todas as duas me disseram para jogá-lo fora.
O professor pediu para que ela deixasse o livro com ele e
por um momento Paula aliviou-se por se livrar do misterioso livro, mas algo no
olhar do professor deixou-a assustada e ela saiu da sala levando o livro
consigo. Colocou-o na mochila e voltou para a sala de aula.
Depois que voltou para casa livrou-se da mochila e foi ao
banho. Quando retornou para pegar seu material, levantou o livro e sentiu que
suas mãos estavam pegajosas.
Ela gritou. Escorria sangue das páginas e ela caiu no chão,
horrorizada. A mãe chegou para acudi-la, e então Paula viu que o livro estava
normal. A mãe ralhou com ela e voltou para a cozinha.
A estudante ergueu-se lentamente do chão e se aproximou do
livro que a mãe colocara sobre a escrivaninha momentos antes. Sim, o livro
estava igual a antes, com as palavras embaralhadas. Ela lembrou-se da página 7
e abriu por um momento, pensou que havia um facho de luz branca levantando da
página.
Pensou que depois disto precisava urgentemente consultar um
psicólogo.
Então colocou o que estava escrito ao redor da palavra
perfeição. Descobriu um novo sentido.
“O mundo não é movido pelas perguntas ou pelas respostas,
mas sim, pela possibilidade de perguntar e pela capacidade de transformar a
resposta em uma reação produtiva”.
Estranho. Tudo estranho, louco, bizarro, apavorante.
Paula resolve aceitar o conselho da amiga e atira o livro na
lata de lixo da escola.
Antes do final da aula, uma colega aparece carregando o
livro e lhe entrega, eufórica e excitada. Paula não tinha mostrado o livro a
muita gente, então pergunta como ela sabe que o livro é seu.
Está escrito o seu nome na capa, com a sua caligrafia. Você deixou
na mesa da cantina.
Paula apanha o livro com absoluta surpresa e abre a página.
Realmente, é o seu nome que está lá, e pior, com sua caligrafia.
Antes de voltar para casa, ela pede a ajuda de Suzana e lhe
fala em segredo que está enlouquecendo. Suzana concorda, porque tudo que vê e
faz questão de ler em voz alta, é o mesmo parágrafo que trata de uma descrição
de lugar. E ela mesma leva o livro consigo. Joga-o na lixeira do supermercado,
quando vai fazer compras com o pai.
Resolvido, ela espana as mãos. Ora bolas, acreditar num
livro bobo desse.
Quando se afasta, a lixeira parece sacudir no ar.
Aliviada, Paula se prepara para dormir e então ouve a
campainha. Logo o pai aparece e lhe diz que estava na soleira da porta o livro.
A Suzana vai se ver comigo amanhã cedo!, promete e guarda o
livro dentro do guardarroupa.
Suzana aparece na manhã seguinte muito animada e confirma
que jogou fora o livro. Ainda faz umas caretas para assustar a amiga, mas assim
que Paula retirar o livro do armário e mostra para ela, Suzana cai sentada.
- Acredita agora?, pergunta Paula.
- Isso é coisa do demo, Paula!
- Não, deve ser alguma brincadeira do Pierre.
Pierre é um garoto daqueles que vive pregando peças em todo
o mundo. Paula o detesta. E ele detesta Paula. Sempre vivem se xingando.
Paula e Suzana chegam na escola e esfregam o livro na cara
dele. Ameaçam contar para a diretora o que ele anda tramando, mas Pierre jura
que não sabe de nada. Ele também enxerga as palavras embaralhadas, mas ao
contrário de Paula e de Suzana, ele vira o livro de cabeça para baixo pois para
ele as palavras estão escritas de perna para cima.
Curioso, ele fica na hora do recreio com as garotas para
investigar tudo aquilo. Chegam a conclusão de que o livro só pode ser uma coisa
do mal.
Juntos, eles começam a pesquisar formas de destruí-lo.
Tentaram queimá-lo, mas o livro é indestrutível. Fogo, ar, explosão, corte,
enterrar. Nada funciona. Nada.
Paula, enfim, decide procurar formas de decifrar aquele
enigma. Se Suzana enxergava uma historia comum, ela enxergava os parágrafos
embaralhados que se moviam a cada dia, e Pierre enxergava embaralhado mas as
palavras como que impressas do lado contrário da página, havia três tipos de
pessoas, ou características pessoais que o livro se fazia – ou não –, conhecer.
Suzana se ofendeu. Eu joguei fora também, então eu também
faço parte deste mistério.
- Não foi isso que eu quis dizer, replica Paula. Talvez o
livro queira mostrar o próprio poder, como se fosse uma pessoa.
- E se ele chegou até Paula, ele quer ser descoberto.
- Mas alguém colocou ele na biblioteca.
- Ou o livro tem vida própria?!
Pierre se sentiu importante.
- Baixa a bola – disse Paula, envolvida pela tensão do
desconhecido.
Paula fecha o livro e o sacode. Parecia oco e algo se mexia
lá dentro. Ela remexeu as páginas do alto e dela caíram algumas palavras.
Quando os três ajuntaram, viram que eram de madeira e começaram a montar a
frase que elas formavam.
“A caligrafia é a
chave da perfeição”.
Caligrafia. Será por isso que minha caligrafia estava na
contracapa?
Pierre teve uma ideia. Pediu para que Paula escrevesse as
palavras em uma folha de papel qualquer. Ela escreveu e entregou para ele.
- Tá me achando idiota? Não tem nada aqui! – vocifera Pierre,
indignado.
- Mas escrevi!
Suzana interveio. Abriu o livro. Na contracapa estava a
frase que Paula acabara de escrever e tinha sumido da folha de papel...
HUMOR - MEU CHAPÉU!
Meu chapéu!
A Verônica
está novamente repuxando os lábios para frente e para trás, como se a revisão
dos documentos dependesse, efusivamente, desses movimentos involuntários.
Dou uma
olhada de soslaio e vejo a Solange fazendo uma análise de métodos e tempos e
gesticulando “apanhar e colocar no lugar” para tentar não perder a ponta do fio
da meada.
E eu, olhando
para a tela do computador, tentando avaliar por que a análise foi feita desse
modo se não condiz com a realidade.
E olho por
cima do monitor, bem de fininho, para o meu supervisor, que – graças aos céus!
–, está usando seus fones de ouvido e isso me garante pelo menos uma hora de
sossego, sem que ele chame inventando mais uma planilha de controle para
gerenciar e evidenciar nosso desenvolvimento pessoal dentro do departamento.
(Quando foi
que me tornei tão observadora? Ou melhor, desde quando sou tão chata?).
Bem, voltando
ao que disse no início. “Meu chapéu!”
provém de algum continente longínquo da minha pré-adolescência, porque não
devíamos nos expressar por palavrões. Então, “meu chapéu!” corresponde a um bem colocado “filho-da-puta”, “caralho” e mais alguns do gênero. Ah! E não posso
me esquecer de que não se podia blasfemar. Dessa forma, “Meu Deus!” estava total e vergonhosamente fora de cogitação de uso.
Assim, o equivalente passou a ser o companheiro de todas as horas: “meu chapéu!”.
Além disso,
essa expressão é um ótimo coringa, pois pode ser usada como interjeição no caso
de alguém contar um episódio hilário, uma anedota. Basta aplicar a entonação
correta e... tchanam! Você consegue dar o devido valor que a piada merece.
Outra forma
bem atraente de usar “meu chapéu!” é
quando você não consegue verbalizar algo que tenha apreciado muito e em vez de
dizer que ficou sem palavras ou mencionar “que
legal”, você usa “meu chapéu!” e
faz parecer que você é muito inteligente e de opinião, tipo Marília Gabriela
entrevistando uma celebridade polêmica.
(Desculpe,
fui longe demais, não é?).
Bem, voltando
agora àquilo que estou fazendo no momento (ou que, pelo menos, estou tentando
fazer) que é cuidar da minha análise e não dos trejeitos faciais da minha
colega, resta muito pouco, pelo menos, uma fila de duzentas avaliações, e nesse
ritmo que estou conduzindo, terminarei antes da inauguração da nossa fábrica em
Marte (hum... parece próximo demais; acho melhor me garantir com a instalação
de uma filial em Urano).
Caí nesse
negócio de avaliar movimentos graças a meu inquestionável comprometimento
profissional, dinamismo, perspicácia industrial, flexibilidade e versatilidade.
Afinal, foi um cargo concorridíssimo, com meia pessoa (eu própria estava metade
concorrendo e a outra metade doida para dar no pé). Bem, tinha outra opção
bastante tentadora, que qualquer pessoa no meu lugar poderia afirmar como:
“essa nova atividade será importante para a minha carreira”. Ou isso, ou a fila
da Caixa.
(Sabem como
é, em tempos de crise.).
A propósito,
tem tanto funcionário disputando esse heroico lugar na fila do Seguro
Desemprego, que tem gente indo para as cidades vizinhas fazer o encaminhamento
da papelada. Parece que nossa cidade, por ser a maior do Estado, tem também um
maior número de adeptos do sistema de voluntariado do GLB (Grupo Dos Que
Levaram Um Pé Na Bunda).
Já me
alertaram de que o meu maior problema é foco. Então, acho melhor eu me
concentrar na análise de uma vez.
Acabo de
voltar do DOA – Departamento de Operações Arbitrárias. Calma, não é nenhum
ministério novo criado pelo governo federal para disfarçar a corrupção no país.
É apenas o chão de fábrica, onde encontramos as mais tenebrosas criaturas da
galáxia. Exatamente! Criaturas como eu e você, umas cheias de timidez, outras
sobrecarregadas de marras, com
milhões de pensamentos conflitantes.
Não sou
cinegrafista – longe disse um bilhão de anos-luz! Não tenho a menor vocação –,
mas levo minha câmera digital a tiracolo para filmar a atividade sendo
realizada e avaliar o tempo de execução. E verdade seja dita, sou sempre
educada (bom... talvez nem sempre, mas a maior parte do tempo) e explico para o
operador de produção qual o motivo de eu estar ali aborrecendo sua vida. Convém
explicar que sou um tanto ansiosa, ou talvez, oportunista, em casos assim, e
com um medo terrível de que o modelo que eu precise avaliar não seja mais fabricado
na linha de montagem nenhuma vez durante o século XXI, que cheguei diretamente
apontando minha arma letal contra o pobre operador. E, que legal, ele sentiu-se
intimidado e parou de trabalhar. Ficou lá com os braços cruzados, estático, me
passando um sermão sobre direitos de imagem. E eu, apatetada, estarrecida, pois
estreava na situação. Embaraçada, gaguejei as explicações que deveria dar a ele
antes de começar a filmagem. E enquanto meu hiato com o operador ocorria, perdi
a montagem do produto!
Vê o que
adianta a ansiedade: se tivesse feito o certo desde o início, teria conseguido
realizar meu trabalho no departamento de
operações arbitrárias da primeira vez. O lado bom da coisa é que eu
voltaria melhor guarnecida para a próxima cena de batalha.
Enquanto eu
me formava no curso Lidando com o Ego
Alheio, a Solange voltou inteiramente satisfeita por ter filmado cinco
postos de trabalho. Não é uma grande zombaria da vida uma situação como estas?
O operador
pensou o quê? Que eu estivesse filmando as tatuagens no corpo dele para
publicar em alguma rede social? O problema maior é que ele tinha razão (não!
Não entenda errado! Eu quis dizer que ele tinha razão, pois ninguém iria gostar
que filmassem seu trabalho sem explicar o motivo).
Lembro-me de
outra ocasião em que eu quase deixara a câmera desabar dentro de um produto,
ser embalada junto com o produto e chegar na casa do cliente, que iria ficar
satisfeito com o brinde que a fábrica generosamente enviara com sua compra.
(Eu não lhe
avisei desde o início que o meu forte não é foco?).
O supervisor
do departamento de operações arbitrárias
gritou atrás de mim algo como “O que você
está fazendo aí?” e eu, na cara-de-pau (ou no susto mesmo, vamos ser
realistas), lhe respondi “filmando”.
O homem agitou freneticamente os braços e me lançou um olhar de lutador de boxe
com sede de violência, que dizia “Isso eu
posso ver”.
Então, puxei
ar, me sentindo flagrada em atitude ilícita. Permaneci parada com a câmera na
direção do produto da minha filmagem, totalmente fora de ângulo, feito uma
estátua de cera. Um transeunte desprevenido poderia pensar que eu havia sido
embalsamada viva, tão estática eu estava.
O supervisor
daquela área se aproximou e acho que se compadeceu do meu aspecto esverdeado
(estava nauseada devido ao cagaço com o berro dele), e falou calmamente que é
de bom tom passar um rádio para ele toda vez que minha equipe fosse à sua linha
de montagem. Agradeci como se ele estivesse me fazendo um enorme favor (ele
acreditava com toda a confiança de que estava mesmo me prestando o maior favor
do planeta!) e continuei meu trabalho.
Como dizia
uma professora da minha época do ginásio (ensino fundamental atualmente, só
para constar; têm certos hábitos que a gente não perde, mesmo se atualizando):
cansei minha beleza, que já não é muita.
Embora eu
esteja profissional há mais de três anos, ainda não estou segura de que
realmente domino minha atividade.
Estranhou o “esteja profissional”? Pior que é isso
mesmo. Eu não tenho profissão, assim como um frentista, um motorista, um
mecânico, uma manicure, uma empregada doméstica, porque eu sou (e aqui vale
mesmo a flexão do verbo ser) auxiliar
administrativa, o que em termos realmente práticos, é o mesmo que NPD, ou seja,
Nenhuma Profissão Definida.
(Perdoem-me
todos os colegas dessa profissão de extremada e vital importância. Mas não é a
mais pura verdade? Não somos pau pra toda obra? Quando o bicho pega, quem é que
vai resolver a pendenga? O auxiliar administrativo, nem que tenha que ele
próprio por mãos à obra.)
Muitas vezes
somos a Tia do Café, seres iluminados de tamanha bonomia. Outras vezes, agimos
como o mais cruel dos cobradores, azucrinando a vida de nossos clientes
inadimplentes com ligações quase diárias. Há quem nos compare com o substituto
do chefe quando quer pedir um adiantamento no momento em que estamos como auxiliar de recursos
humanos, e outros juram de joelhos dobrados que somos os responsáveis para
resolver as reclamações dos clientes. Ah! Tem também a parte do telefonista barra recepcionista e os
talentos de contador e agente financeiro.
Meu chapéu! E
aqui tome isso como uma expressão de completa admiração. Acredite. Já vivi esse
drama na pele, na carne, no osso e até no espírito.
E outra, sabe
por que nos “batizam” de auxiliar administrativo, não sabe? Porque é mais
barato, porque os impostos são menores. Nem sempre a CLT (consolidação das leis
trabalhistas) é justa. Quisera Getúlio Vargas que fosse assim quando instituiu
as leis favorecendo a classe trabalhadora. Pena não ter sido beatificado ou coisa
do gênero.
Imagine um
auxiliar administrativo antes das leis do trabalho. Seria um office boy pela
madrugada, um chefe da equipe de limpeza no turno matutino (no caso, a equipe é
o próprio auxiliar administrativo), o cozinheiro na hora do almoço, um contador
e assistente financeiro na parte da tarde, faria o inventário do estoque
durante o noturno, sem direito a vale-refeição, vale-transporte, lanche, horas
extras e para completar deveria servir as excentricidades do patrão nas horas
improvavelmente vagas. Não duvido que as horas de descanso entre um dia e outro
ainda lhe fossem descontadas do salário que os patrões lhe fazem o favor de
pagar.
Ah, quando é
que vou corrigir a minha falta de foco? Ouvi dizer que pau que nasce torto,
morre torto, então não tem remédio nem terapia de choque que resolva. Mas será
que quando chegava a hora de eu vir ao mundo, eu já tinha tantas prioridades
para perder o foco, tipo: minha mãe no limite das dilatações suportáveis para
eu nascer, eu me preocupasse com o que deixaria lá dentro do útero? E aí minha
mãe tivesse que me dar uma palmada por sobre a barriga, tipo uma “pedalada”
para me lembrar de que ela estava toda arregaçada aguardando por mim? Isso
explicaria a intervenção. “Cesariana na criança, porque ela perdeu o foco do
seu nascimento!”.
Mas eu quero
mesmo lhe dizer sobre a minha “lida” atual. Não é assim que autores como
Bernardo Guimarães ou Machado de Assis se referiam aos afazeres profissionais,
mesmo para os escravos? Então, minha lida é essa de assistir vídeo. Bem, videozinhos,
por assim dizer, amadores, desprovidos de efeitos especiais e narrados pela
minha grave-sotaque-indefinida-voz. Estou perdendo dinheiro. Poderia usar
minhas cordas vocais nas traduções contextualizadas do Google.
“Ah, que
legal”, disse eu certa vez, sem qualquer entonação, o que me rendeu a alcunha
de “Voz do Google”, dentre meus fãs, uma equipe inteira (bom, cinco pessoas, e
entenda que é uma equipe inteira) e um ou dois simpatizantes de outras áreas.
Você
provavelmente imagina que eu passe os dias inteiros assim, devaneando enquanto
o serviço espera? Poxa, assim você me magoa profundamente. (Psiu? Você por
acaso tem um bola de cristal aí? E a bateria dela está carregada? Parece que
você me conhece há anos e eu fiquei emocionada de tão honrada).
(“Meu
chapéu!”, penso, me pavoneando como balões inflados a gás).
E eu nem
cheguei ainda a contar sobre minhas atrocidades linguísticas quando trabalhava
em uma central de ordens de serviço.
Desculpe pela
enésima interrupção.
Eu estava
dizendo que faço vídeos amadores, baixo no computador e assisto as operações de
uma linha de montagem. Pois bem, preciso analisar cada movimento, calcular a
distância entre uma operação ou outra, aplicar o grau de dificuldade de uma
“pega” e transformar isso em um código para o sistema calcular o tempo de
execução. Ah! Mas não se preocupe, pois não pretendo dar treinamento a ninguém.
Agora vou lhe
explicar por que é tão difícil manter o foco. Estou com a página da avaliação
aberta em uma janela no computador e o vídeo em outra. Deixo o vídeo seguir até
a finalização de um movimento, retrocedo, assisto novamente, dou uma pausa e
avalio. Pronto. Duas horas depois consigo entender que o movimento em questão é
de “pega” difícil, que o “colocar no lugar” tem um nível de precisão, que a
faixa de distância é acima de vinte centímetros, que quatro ciclos de
movimentos são necessários para complementar a tarefa e que são necessários
dois movimentos de força para encaixe. Ah! Mas a peça não pode aparecer como
mágica na mão do operador. Esqueço-me de calcular a distância em passos que ele
precisa para chegar até o estoque de peças e retornar para o posto de montagem.
Enfim, está aí, tudinho marcado na minha memória que muita gente diz que é como
de elefante (mas eu duvido, às vezes). Começo a garimpar o sistema atrás do
programa de tempo correto para a atividade que acabo de analisar. Enquanto
minhas escavações arqueológicas prosseguem, infrutíferas, um colega vem ao lado
e reclama que o condicionador de ar começou a derramar água.
Gostaria
muito de lhe dizer que mandei meu colega plantar bananeira e que eu não sou
técnica em refrigeração, mas, usando a coroa da Rainha da Perda de Foco,
respondo a ele que vou abrir uma nota. Quando ele se afasta, observo ao meu
redor (não é a primeira vez que isso ocorre e já sei o que está prestes a
acontecer) e vejo subir da cabeça da Solange borbulhas ferventes de ira
vulcânica.
–
Que abusado! – ela entra em erupção e eu corro
até o alto do vale para me proteger da lava incandescente de seu olhar.
Penso que
estou em segurança e retorno para meu lugar. Percebo, então, que a Cintia está
na moda O Incrível Hulk, com o atentado do meu colega ao andamento da atividade
para a qual eu sou remunerada. E reflito que se ela fosse o Superman, eu teria alguma chance de me
defender de algum ataque de lealdade conseguindo um estoque de criptonitas nos
estúdios de gravação do seriado Smalville.
Afinal,
descobri o código de identificação do aparelho e abri a nota. E agora, posso
abrir novamente minha tela de análise e prosseguir com...
Ops! Onde eu
estava mesmo? Ai, acho que fui dar um pulinho em Saturno, voltei mareada com a
órbita dos anéis em torno do planeta e larguei todo o meu raciocínio anterior
gravitacionando no espaço sideral.
Corajosamente,
retomo meu trabalho, mas em vez de continuar, tenho de voltar ao meridiano de
Greenwich, ou seja, ao ponto zero outra vez.
Teve épocas
em que eu fui, indubitavelmente, irresponsável no mundo profissional. Hoje sou
o oposto, meio Caxias, por assim dizer. Mas quem era meu conselheiro nessa
época da Idade da Pedra? Sim, acertou: a falta de foco.
Lembro-me de
que havia rivalidade entre as turmas do segundo grau noturno (tá bom, esqueci,
é ensino médio), por motivo da gincana para angariar brindes para a festa
junina da escola. E eu trabalhava na escola – meio período, mas trabalhava (ao
menos eu achava que estava começando a ter uma carreira profissional).
Bem, enquanto
isso, uma aluna da sala rival trabalhava na escola também no outro turno, e
havia dias da semana em que dávamos expediente juntas.
Já pode
imaginar o que aconteceu? Então, deixei que a rivalidade viesse à tona entre
nós e como eu nunca fui boa de argumentação, fiquei umas dúzias de pilhas de
nervos e chorei. Meu chapéu! (Na verdade, quero dizer: “Que coisa mais
infantil!”). E pior: avisei a secretária da escola que eu não estava me
sentindo bem e que ia embora.
Imagine que
pessoa mais sem noção. Saí logo
informando que iria embora mais cedo. Perceba que meu expediente era de quatro
horas e eu não fui capaz de aguentar mais uma hora para voltar para casa
choramingando por não ser uma pessoa de opinião. E acho que jamais teria
percebido isso se não fosse a lição verbal que ouvi de minha mãe quando ela me
viu chegando em casa mais cedo. Não me lembro de absolutamente nenhuma palavra do
que ela tenha dito, mas deve ter surtido efeito, pois eu nunca mais saí do
emprego por uma bobagem dessas. Isso mesmo! Por causa de assunto gincana, nunca
mais mesmo, verdade!
Entretanto,
teve vezes que eu soltei meu vocabulário em cima de um cliente, esmaguei um
documento importante na frente da minha chefe, fui a uma entrevista de emprego
bem no primeiro dia em que eu deveria cobrir férias de uma colega do
financeiro, bati a porta do departamento até quase se soltar dos caixilhos, vi
e imprimi mensagens de e-mails – dessas que quase fazem a gente chorar –, e levei
para casa para colecionar (ufa! Larguei esse vício anos depois quando percebi
que dois roupeiros e uma cômoda já não comportavam tanto papel. Acho que essa
mania nasceu por causa das coleções de papel de carta que todo mundo na minha
sala de aula do ensino fundamental – acertei! – fazia e eu nunca me iludi
porque só meu pai trabalhava e eu não me sentia no direito de pedir dinheiro a
ele para um souvenir como esses, mas isso é uma história para outro livro).
Resumindo, a
falta de foco estava realmente no trabalho. Todos os outros detalhes da vida e
da convivência eram prioridade.
Quando vi que
esse negócio de análise de método tornava meu ânimo glacial como a Era do Gelo
e eu me vi perseguindo minha noz por todo o meu labirinto cerebral, procurei
meu superlegal (minha aglutinação
para supervisor + legal) recém-nomeado (minha área nunca antes tivera
supervisor e nos reportávamos diretamente ao chefe do departamento) para lhe
informar de que meu aprendizado está em um nível próximo do péssimo,
justificando que não vou alcançar os resultados previstos.
Imaginei que
usando a honestidade como subterfúgio, ele poderia desistir de mim e mandar
treinar outra pessoa, enquanto eu retornava ao meu antigo cargo de revisora de
instrução de trabalho. E não pense que o superlegal
me criticou, dizendo aquelas coisas esperadas de chefes, como as afamadas
mijadas. Nada disso. Ele, ao ouvir minhas lamentações, me encorajou e ainda
afirmou que daqui a uns três meses vou estar melhor do que esse pessoal que já
tem experiência de anos.
Que ultraje!
Afinal, não se fazem mais supervisores como antigamente, daqueles que tratam o
subalterno como uma tropa de cavalo xucro, na base do arreio e do grito, ou
daqueles chefes indecisos e insatisfeitos, que nunca o trabalho ou os lucros
estão de acordo com o aguardado?
Bem, admito:
perdi essa batalha para o meu histórico, ou seja, a da profissional que não
rejeita serviço e aprende bem qualquer função que lhe ensinem. E acredite, em
vez de sair da sala do superlegal com
grilhões nos pés para não sair flutuando sob o efeito do meu ego superinflado,
me senti esmagada pela gravidade.
Afinal,
quanto mais aprendo sobre mim, menos eu me entendo.
Meu chapéu!
Essa vale para “Que porra!”, com todo
respeito.
Estou diante
da página da análise de método. Não outro posto de trabalho, absolutamente, mas
a mesma que comecei com você há dois dias. E juro para você que vou manter o
foco do início ao final.
Que é isso, Edilene?
Você tá fazendo algum feitiço? – pergunta a Verônica, com olhar de puro
divertimento.
Eu ri, porque
parecia mesmo um gesto dos aprendizes de bruxo da escola de magia de Hogwarts, da saga Harry Potter. Na verdade,
eu estava repetindo um gesto em que o operador colava uma fita duplaface em
torno de uma peça e tentava avaliar esse movimento circular. E parecia, ao
espectador externo, que eu estava agitando uma varinha invisível no ar e
murmurando algum encantamento.
Bem que eu
poderia ter a determinação voraz de leitura da Hermione Granger para devorar minha apostila de método, ou talvez
sua perspicácia insalubre para solucionar mistérios. Poderia até pedir a ela
emprestado o Viratempo para acelerar
o meu aprendizado, alterando o tempo para eu estar em várias fases
simultaneamente (felizmente eu não teria de enfrentar uma aula sobre Criaturas Mágicas e nem salvar nenhum hipogrifo).
Ah, meus
tempos de atendente de ordens de serviço. Monitorava a produção das máquinas e
em caso de quebra cumpria a cadeia de ajuda: abrir nota, chamar
mecânico/ferramenteiro/eletricista e informar supervisores e chefes. Mal sabia
falar ao rádio (ainda posso me lembrar do iceberg na barriga quando precisava
utilizar o rádio nas primeiras chamadas).
O pessoal da
manutenção, sempre com atendimento diplomático tipo Jurassic Park (acontece que os bichinhos do filme perdiam feio para
a ferocidade desse pessoal), reclamava que eu falava demais no rádio. Que
minhas polidas frases – O senhor poderia,
por gentileza, atender a máquina X, que está parada devido ao defeito Y? –,
eram de péssima escolha quando eles estavam enfurnados dentro de um molde, ou
de bruços dentro de uma máquina em algum local abaixo da linha dos joelhos e
com as mãos ocupadas com ferramentas, isso nos melhores casos.
Aí, empenhada
em fazer valer a seleção da minha pessoa no recrutamento interno, fui
apresentada ao lado tosco da minha psique: Fulano
na escuta. Máquina X parada, peça trancada na estação Y, parada de linha de
montagem em dez minutos. (Aplausos!).
Meu chapéu!
Perdi meu foco no corredor e quando me dei conta, vi que ele ficou esmagado
pela empilhadeira.
Pronto.
Resgatei o meu Foco (que ficara reduzido a uma folha de papel amarrotada),
tratei de seus ferimentos e convidei-o para auxiliar no relacionamento com meu
novíssimo Desafio. E, digo-lhe, com muita satisfação, que desta vez consegui
finalizar a avaliação do posto de trabalho.
Agora, partiu
próximo posto (com hash tag, para
fazer bonito).
De volta ao
DOA – departamento de operações
arbitrárias, e sem a preguiça provocada pelos cinquenta graus centígrados dentro
da fábrica, trato de contratar mais uma modelo exclusiva para a passarela da
montagem de um produto de ponta, a Srta. Operadora de Produção da Silva, que
fez a gentileza de nomear os bois – ou melhor, as peças –, me apresentando aos
batentes, borrachas, parafusos sextavados, chaves phillips, parafusadeiras
múltiplas, rodapés, etc, etc, além de explicar todas as atividades que executa
no detalhe. Sem imprevistos desta vez, nem ninguém me acusando de uso indevido
de imagens, voltei à minha sala e botei a engrenagem cerebral na quinta marcha,
disparando pela fiação elétrica do sistema neurológico.
Agora passei
a traçar o meu mapa de raciocínio (ideia brilhante, não acha?) e mesmo que
ocorra alguma interferência externa, continuo a articular a avaliação sem
medos. Poderia aparecer a sombra de As
Luzes de Setembro, que não conseguiria me causar distração.
Vencida essa
etapa, passei para a conferência de uma pessoa com uma vasta experiência – oito
meses (qualquer pessoa com mais de duas semanas de atuação eu consideraria
experiente ao extremo). Minha professora
barra conferente barra colega confere movimento aqui, confere movimento
ali, e minha sensação de brilhantismo vai esmorecendo, murchando feito um
balão. O sentimento de “Merda! Você não
aprende mesmo!” começa a me dominar, massacrando meu ânimo. Quem foi que
disse que seria fácil, hein? E a correção foi criada para crescimento e
aprendizado, mas não concorda que dá um baixo astral?
Então me
lembro da época em que trabalhei em um call center. Adorava trabalhar naquela
atividade. Eu, por vezes, me achava incrível (guardei a modéstia dentro da
gaveta e passei a chave), porque eu fazia atualizações de cadastro e todo mês
eu estava no topo do ranking, realizando mais que o dobro que todas as
atendentes juntas. Contudo, até chegar a esse nível melhorado, foi sofrido como
arar milhares de hectares de terra para o plantio e cuidar da plantação até a
chegada da colheita.
Eu ficava na
escuta do telefone que a atendente barra
professora me treinava no script da coisa. “Posso dar conta disso”,
jubilei, mas quando foi minha vez de atender, eu penava mais do que aprender a
guiar um veículo. Até o boa tarde,
tudo ia bem. Acontece que o cliente não conhece script. Poxa, deveria existir
uma cartilha para saber o que perguntar em uma ligação para um setor de
atendimento telefônico, tipo: primeiro você se identifica, depois diz o que
precisa, depois recebe as informações, escuta, diz até logo e desliga, sem
desvios. Nem tudo é perfeito.
E como o
cliente não seguia o script, eu me embananava toda. Em vez de pesquisar no
sistema, escutava o cliente e quando ele terminava de falar, eu já tinha
esquecido o que ele pedira. E isso tudo porque quando você está sob
treinamento, você se folga, confiando que a pessoa que treina irá salvar você
na hora certa, como na autoescola quando o instrutor usa o freio do passageiro
antes que a gente saia cruzando a frente de outro veículo. Só que eu não
contava com a impaciência e severidade dela (acho que ela havia tido umas aulas
com o Severo Snape, corrigindo Harry Potter em sua aula de poções).
Eu tinha
acabado de superar uma depressão, doença que parece desativar a autoconfiança e
soterrar a sua autoestima. A doença havia sido provocada por trabalhar em um
emprego anterior embaixo de berros, humilhações e de os patrões acharem que
estavam lhe fazendo um favor pagando seu salário, que era mais baixo que o da
funcionária da limpeza (lembra o que lhe falei a respeito do auxiliar
administrativo ser uma profissão miseravelmente sem reconhecimento digno?).
A
profissional do call center nunca berrou comigo, nem me humilhou. O problema é
que eu me sentia tão pouco importante, tão bestamente fazendo número nesse
mundo, que travei durante as dezenas de primeiras ligações lastimáveis (pobres
daqueles clientes; eram todos uns santos em pessoa, e digo isso com
sinceridade).
Eu não dava
certo de jeito nenhum, até que certo dia, como não havia atendentes em número
suficiente devido a folgas, férias e absenteísmo, a minha treinadora foi
obrigada a atender para agilizar a demanda, sendo que eu esbarrei no muro mais
alto da minha existência. Ou voltava, derrotada, ou subia e pulava o muro. E
antes que minha barriga entrasse em pânico, cliquei no ícone e a ligação caiu
no meu ramal. E foi uma bênção, porque o cliente conhecia o nosso script, então
facilitou as coisas. Quando me despedi, uma sensação balsâmica começou a se
espalhar no meu corpo. E dali em diante, foi só alegria. Desliguei-me da
empresa apenas por causa do salário, e onde fui parar na produção de uma
fábrica. E agora estou aqui, soterrada novamente pela incapacidade inicial de
aprender.
Eu me sinto
como um peixe de água salgada preso dentro de um aquário. Eis aí uma
descoberta: a falta do Sr. Foco Aparecido da Luz pode significar que estou
realmente deslocada em matéria de profissão.
A CIDADE DOS CICLISTAS – MOTORIZADOS
Para Joinville,
que recebeu de aniversário dos seus cento e cinquenta anos o título de A Cidade
das Bicicletas, por ter registrado por volta dos anos 1900 o importante dado histórico
de uma bicicleta para cada dois habitantes, o município parece não muito interessado
em seus ciclistas.
Quando estou transporte-coletivista, observo com
satisfação, que o corredor de ônibus em diversas ruas possibilita que eu chegue
ao meu destino mais rapidamente do que quando estou volantista. Por outro lado, quando estou ciclista, a sensação de desgosto por falta de uma via segura
empurra meu ânimo para as bocas-de-lobo.
No Distrito Industrial,
já parei sob as rodas de um caminhão (que por pouco não me transforma em uma massa
feito carne moída) devido à inexistência de ciclovia de acesso. Já na Rua Blumenau,
um caminhão me atira para a calçada quebrada por ultrapassar pelo corredor de ônibus.
Felizes daqueles que podem pedalar em ruas mais recentes, tipo a Timbó, que já foram
planejadas com ciclovia! E mais felizes ainda aqueles que produzem asas em suas
bicicletas quando cruzam outra rua mais adiante em que a ciclovia transforma-se
em área de decolagem!
Além das pistas
de skate fantasiadas de calçadas, ou dos buracos interrompidos por pedaços de rua
– que ousadia!, existem também os ciclistas motorizados que sofrem
de súbita amnésia ao se depararem com um joinvileciclista,
ou ainda, um turistociclista, e cortam-lhe
a frente, sem cerimônia. Engraçado que, logo que voltam a embarcar nas próprias
bicicletas, suas memórias retornam rapidamente ao normal. Ainda pretendo pedir-lhes
a fórmula do medicamento poderoso que tomam!
Fato é que, revoltas e acidentes à parte, a comunidade
ciclista necessita de mais segurança para transitar e manter o nome que tão bem
retrata nossa cidade: A Cidade das Bicicletas, porque pedalar faz bem, porque pedalar
também faz parte da história.
A senhora dos por quês
As crianças perguntam quase que
involuntariamente “por quê”, já que
isso faz parte de sua natureza e da fase de seu crescimento. Os adultos, em
nome da maturidade, param de perguntar por
quê, mas esquecem que são as perguntas que movem as descobertas.
Colegas de trabalho zombavam da minha habilidade, já que enquanto eu divagava
no meio dos por quês, tentando
entender o sistema ou algum processo, parecia alheia à realidade. Um deles até me
apelidou afetuosamente de “a garota dos
por quês”, porém, não posso deixar de retificar este codinome para “a
senhora dos por quês”, já que faz tempo que passei da fase de garota.
Eu bem que tentei parar de perguntar por que para tudo o que não entendo, mas
como a idade que atinjo não declina a curiosidade, inviabilizei todos os meus
esforços.
Desenvolvi, então, uma estratégia: procuro
camuflar os por quês através do uso
de outras formas interrogativas, tais como: “de que forma? Qual a finalidade
disso? Para que serve tal coisa?” e outras variedades. Policio-me o tempo
inteiro durante uma conversação para não entediar as pessoas com o uso frequente
do por que e fico satisfeita quando alcanço
a minha meta. Então relaxo. E quando penso que parei efetivamente com a mania,
alguém faz algum comentário e eu, inocentemente, acabo frustrando todas as
minhas tentativas e pergunto: “Por quê?”.
Sorrio
amarelo, porque...
Cheiro de livros
O amor pela leitura cresceu
junto comigo, paralelamente à vontade de criar histórias e de aprender.
Aos seis anos de idade,
pedi para ir à escola, mas ao contrário do que eu imaginava, percebi, desde os
primeiros dias, que para o ofício de estudante não bastava somente o desejo de me
instruir: necessitava dedicação e persistência elevadas à milésima potência!
Não tinha qualquer
habilidade para segurar o lápis, contudo, persisti. Após alfabetizada, treinava
a caligrafia em casa e decorava a tabuada. Quando pensei que dominava a arte, fui
incumbida de escrever uma redação, tarefa que antipatizei de imediato pelo modo
como me foi imposta. Depois de horas de martírio tentando colocar alguma coisa
no papel, obtive o seguinte resultado:
Eu tenho um cachorro.
O nome do meu cachorro é Doguinho.
O pelo do meu cachorro é marrom.
Eu gosto do meu cachorro.
Na época, recebi apenas o
sinal de “certo” enquanto meus colegas exibiam a “estrelinha” em seus cadernos,
e praticavam comigo o que hoje se chama bullying.
Se, por um lado, escrever
tivesse se transformado em aversão, por outro, o entretenimento era garantido. Ávida
por ler, eu assemelhava-me à formiga em busca de açúcar. O inverno da
ignorância poderia advir, pois eu abastecia meu formigueiro com os gibis da Turma da Mônica, os personagens de Walt
Disney e de Monteiro Lobato e os livros pedagógicos usados que eu ganhara de
meus tios. O entusiasmo aflorava a criatividade e eu ansiava o momento de, juntamente
com minha irmã, desbravarmos territórios não explorados da nossa imaginação e
continuarmos a saga que nossas bonecas viviam, defendendo o planeta dos ataques
dos inimigos...
Criatividade de sobra para
brincar, e bom texto, qual nada! Embora as redações já não se tratassem de
instrumentos indecifráveis, nem de grandes monstros que assolavam o planeta que
minhas heroínas defendiam, os fiascos prosseguiam exorbitantes, desconcertando
as inexoráveis professoras de português. Temas mal compreendidos, economia de
pontuação e textos mal estruturados pululavam em minhas tarefas como equívocos inevitavelmente
hilários. Parecia que eu jamais seria capaz de escrever uma boa redação.
Anos mais tarde, trabalhei
na biblioteca do colégio em que estudava – o Olavo Bilac, em Pirabeiraba. Que tentação aquele acervo! A leitura,
naturalmente, se intensificou e, como já não era suficiente, passei também a frequentar
assiduamente a biblioteca pública distrital Gustavo
Ohde. Precisava renovar a carteirinha que eu utilizava para empréstimo pelo
menos duas vezes por ano, e ainda sou capaz de sentir o cheiro agradável que
exalava dos livros.
Sem perceber, desenvolvi
espírito crítico em relação ao que lia e, a certa altura, não concordava mais
com o desfecho das histórias. Decidi, então, escrever um livro. Planejamento,
pesquisas e dedicação diária foram essenciais para tornar o texto atrativo.
Cada vez que a história não retratava algum aspecto que eu queria evidenciar, como
os valores que eu pretendia que os personagens transmitissem, mudava os rumos
das ocorrências. Foi assim que nasceu o livro Tempo de Fuga, publicado dezoito anos
depois.
A grande motivação
veio da curiosidade, do desejo incessante de conhecimento, da leitura constante
e – por que não dizer? – do aroma característico dos livros. E em pensar que tudo
começou com “Eu tenho um cachorro. O nome
do meu cachorro é Doguinho. O pelo do meu cachorro é marrom...”. Afinal, a
gente tem que começar por algum lugar.
Poesia - A Estrela Esperança
Chego ao denso arvoredo
e escalo íngreme penedo;
vejo tremular estrela brilhante
como centelha no horizonte.
De arco-íris, inocente, brinca
sob o índigo firmamento;
minha alma, em reavivamento,
sente como brilha ainda mais linda.
Pontilhando o universo
Surge bela constelação;
Admirada, com Deus converso,
reacendo a luz do coração.
Por meio da estrela o Criador
transmite mensagem pungente;
diante do brilho incandescente:
filha, não sinta mais dor.
Com vigor o anoitecer atravessa
Mostra que a esperança nunca cessa;
Madruga junto com o alvorecer.
Revigorada, da rocha desço,
da bela estrela me despeço,
e vou com o Pai novamente em meu ser.
Poesia - Arrebol
Toda vez que vejo você
Sinto, não sei por que
Uma vontade de te beijar
Encontro em sua face
Um sorriso a estampar
Não, não disfarce
Conheço seus dilemas
Mas falta você se entregar
Esqueça seus problemas
Tenho tanto para mostrar
Quero sua vida compartilhar
Não tente me esquecer.
De todas as manhãs
Você é o sol
Das tardes o arrebol
Morte como Experiência
Um dia, Helena deparou-se com um desafio
bastante sério, que exigia não só comprometimento, mas uma firme coragem,
porque ela possuía apenas uma chance.
Chegou a uma construção, em que um lado
assemelhava-se a uma igreja, e outro a um shopping. Uma parte correspondia à
vida. A outra, por onde um número incontável de seres humanos entrava,
representava a experiência da morte. E era justamente a decisão que Helena
deveria tomar.
As pessoas que adentravam a portaria do “shopping”
não retornavam, o que a aterrorizou. Embora apavorada, ela decidiu se
encaminhar para a “construção da morte”. Ergueu sua mão para sinalizar que
estava preparada para levitar e em seguida ser "enterrada". Haviam-na
alertado de que "arderia" muito até morrer. Ela pensou em Jesus
Cristo, pois se fosse mesmo morrer, que ele tivesse piedade, pois ela temia
"queimar".
Helena levitou devagar para dentro da câmara
e então seu corpo começou a receber uma espécie de ondas elétricas. Mosaicos se
formaram enquanto "morria". Mas estava consciente e procurou se
acalmar para o momento em que parasse de respirar.
Acordou depois de um profundo e longo sono,
na areia de uma praia. A temperatura era agradável. Ela, contudo, estava
totalmente enfraquecida. A onda, mesmo que lenta, arrastava seu corpo. Então ela
olhou para os lados e observou centenas de pessoas que, deduziu, também haviam
"morrido". Porém, muitas delas haviam morrido de fato. Helena percebeu
que somente ela recebera o "bônus" de passar pela experiência da
morte e então teria a oportunidade de regressar, caso cumprisse seu dever.
Ela não conseguia sustentar o próprio corpo, e
então surgiram homens que tinham a missão de devolver energia para as pessoas
que atravessaram da vida para a morte.
Segurou-se no braço de um homem obeso e de
olhos esbugalhados por um instante e sentiu uma vibração dentro de si, como se lhe
injetassem energia por meios intravenosos. Mesmo assim, ainda não fora suficiente.
Agarrou-se de novo a ele e o mesmo homem assumiu um tipo físico saudável.
O grupo de “mortos” seguiu instruções. Ela
participou de tudo, e às vezes, levitava porque parece que sua boa atuação na
Terra tinha lhe concedido certos “poderes” para passar para fases na frente de
outras pessoas.
Uma cena materializou-se diante de todos. Era
um porão com uma passagem muito estreita em uma rua abaixo de uma grande
igreja. Uma médica fazia promessas para mulheres que desejavam filhos, mas se
via tratar-se de um truque para ganhar dinheiro. Uma recepcionista encaminhava
as mães para dentro do porão, e em vez de parto, a “médica” provocava o aborto
das crianças. A cena então sumiu no ar como fumaça.
Sem compreender o motivo daquela aparição, Helena
continuou seguindo as instruções dos “monitores da morte”, andando de um lado
para outro. Em um momento, ela estava coberta de lama; em outro, dentro de um
avião que estava pousando. Morrer era estarrecedor, parecia levar à loucura.
A certa altura, Helena voltara para a Terra, invisível,
para acompanhar algumas pessoas. Sem que lhe exigissem, ela ajudou uma mulher a
preparar bolos e salgados para uma festa. Outra mulher aparecera e levantava o
dedo para ela como se a estivesse enxergando. Então Helena olhou para trás e viu
que se desse mais um passo cairia em um buraco.
Mas ela precisava passar novamente pela
câmara da morte. Daquela vez, seu corpo sofreu e quando acordou ela não conseguia
respirar, porque estava no fundo do oceano. Subiu à tona para se “salvar”,
embora não entendesse qual a finalidade de todo aquele martírio.
Helena precisava alcançar as outras pessoas e
se perdeu. Então, em vez de subir pela rua, ela lembrou que podia levitar. Alguém
a avisou que poderia voar mais alto do que o prédio e então ela estaria “morta”
para sempre. Por isso, segurou em alguns galhos de árvores e levitou para
dentro do shopping. Voltara ao início.
Entrou em um local decorado com mesas de
restaurante, mas não havia pessoas sentadas nos lugares. Ela preparava uma
massa semelhante a pão e distribuía para as pessoas atirando pequenos pedaços
de massa para as pessoas que estavam abaixo dela.
Seu temor maior era voltar àquela espécie de
consultório. Ela não queria que lhe fosse tirada a oportunidade de ter um
filho.
Sentiu um sopro em sua nuca e, de repente, acordou
no meio de uma estrada. A noite estava fria e o paralelepípedo que cobria a rua
estava molhado. Helena caminhou a esmo e parou diante de um portão de aparência
lúgubre, que se abriu por conta própria e ela entrou.
Assim que passou, o portão se fechou e, pela terceira
vez, ela viu a câmara e os arrepios percorreram todo seu corpo, pois ela não se
achava forte para suportar mais sofrimento e dor. Em um ímpeto de coragem, “atravessou”
o extremo da vida e da morte, e acordou caindo do céu em direção a uma
floresta.
Acordara em sua cama, a cabeça fervilhando. Conseguira
retornar, afinal.
PAR DE SAPATOS
Quando Marisa entrou na sala,
teve uma surpresa: havia um par de sapatos masculinos no tapete abaixo do sofá.
Ela logo imaginou que fosse Aristides, seu marido, quem tivesse chegado mais
cedo do trabalho, embora não reconhecesse os calçados de muito boa qualidade.
Ficou estagnada, divagando onde
Aristides comprara aqueles sapatos pretos de ponta mais afunilada. Então, sentiu
cheiro de sabonete e ouviu a água do chuveiro. Agora sim, ela tinha certeza:
era Aristides.
Saiu da inércia provocada pela
aguçada curiosidade e, resignada com a realidade, deixou a bolsa e a jaqueta no
sofá e seguiu para a cozinha. Preparou agua e deixou a cafeteira em atividade;
pôs louças na mesa; fatiou o pão; deixou salgadinhos refrigerados sobre uma
travessa para aquecer tão logo Aristides terminasse o banho.
Foi em direção do quarto,
passando pela sala e novamente a curiosidade com aquele par de sapatos aguçou
seus sentidos.
No quarto, despiu-se parcialmente
e permaneceu um instante em frente ao espelho contemplando os quilos extras
emergindo da cintura. Fez um gesto contrafeita, embora se sentisse bonita
daquele jeito mesmo.
Pelo espelho, ainda, acompanhou
as ranhuras na pela da região das nádegas. Se a Aristides não incomodava aquele
mapa desenhado em seu corpo, porque a ela incomodaria?
Abandonou o espelho e se virou.
Tomou mais um susto com a camisa preta e a calça jeans dependuradas no encosto
da cadeira. O coração acelerou. Entrara em apartamento errado, será? De vez em
quando saía com alguma pérola, mas porventura, cometera trapalhada tão
inusitada?
Não, não podia ser.
A água do chuveiro fora
desligada, o box aberto. Ainda tinha chance de cair fora, pensou, contudo, o
resquício de curiosidade misturado ao temor formavam um conjunto arrebatador.
Ela esperou.
Agora, diante dela, surgira um
ser de extrema beleza, envolto em sua toalha branca. Alto, magro, pele
bronzeada, braços longos sem músculos excessivos, mãos fortes, rosto marcante,
barba por fazer, sobrancelhas espessas, olhos negros e brilhantes, e a boca
mais sedutora da face do planeta.
Marisa nunca vira antes Aristides
tão maravilhoso. Envolveu-o em um abraço e, apetecida, beijou-o como nunca o
fizera nos últimos dez anos.
SUJEIRA NO VENTILADOR
Fernanda
estava furiosa porque deixara cair o celular. Brava de verdade com a própria
incompetência de segurar o aparelho, a bolsa, a jaqueta e o guarda-chuva ao
mesmo tempo.
Esbarrou
no vizinho, esbravejou, desculpou-se e explicou que estava na TPM. Nem estava,
era só para justificar sua pamonhice.
Mais
adiante, o ventou armou seu guarda-chuva ao contrário e quebrou meia dúzia de
varões, ou seja, quase todos. Mais uma vez Fernanda vociferou, desta feita
contra as intempéries da natureza, que nenhuma culpa tinha por sua
instabilidade emocional.
Chegou
à empresa, fechou o que restou do guarda-chuva e procurou o crachá. Esquecera-o
em casa! Ela quase se autonocauteou com a própria imbecilidade. E agora,
voltar? Nada!
Passou
pela portaria e na faixa de pedestre, um motorista cortou sua frente. Para
brindar seu início de dia, a roda do veículo passou em uma poça de lama.
Fernanda estremecera de tão transtornada.
Finalmente
a primeira boa notícia do dia: reunião adiada. Agora as coisas começariam a
render. Quando recebe a ordem de preencher a escala de outra área, Fernanda se
exaspera, o coração arrebenta, a pressão decola.
Em
um único arremesso, ela acerta o guarda-chuva quebrado no ventilador que, por
sorte, estava desligado.
MORAL
DA HISTÓRIA: Resolva suas frustrações antes de atirá-las no ventilador, porque
elas podem se voltar contra você.
DIETA “DE LUA”
Francine
anda na dieta da moda. Come alface porque é chique, depois se vinga no sorvete
diet.
Começa
a semana com a dieta da lua. Lê na rede social que está ultrapassada e que o
barato da hora é a dieta da sopa: sopa no desjejum, sopa no almoço, sopa no
jantar. Com tanto caldo circulando na corrente sanguínea, a linfática começa a
estranhar, o corpo incha e a balança teima em subir.
Dieta
agora que é batata é a do jejum; simples: não se come agora, não se come
depois, não se come por dois dias.
Francine
topa a onda do jejum e alcança a meta de três dias a fio e uma enxaqueca ainda
mais persistente.
Entretanto,
não desiste. Pesquisa, pesquisa, não encontra; já praticou todas as dietas
publicadas na web. “Que pessoal sem criatividade!”, resmunga.
Começa
a se entupir com fritura e chocolate, refrigerante e bolo e para compensar,
coloca adoçante no café com leite integral.
Empanturrada,
volta à web à caça desenfreada de uma dieta milagrosa, enquanto belisca uns
amendoins...
Julgamentos
Mercedes
sai para a rua em seu salto quinze e caminha um quarteirão. Bem vestida e
perfumada, não escapa de uma buzinada aqui, uma cantada mais adiante. Tudo
passa despercebido para uma mulher como ela, resolvida e autoconfiante.
Para
no ponto de táxi e olha o relógio de pulso que usa mais por ornamento do que
funcional. Cruza os braços, impaciente.
Alguns
minutos depois, chega um táxi, no qual ela embarca rapidamente.
-
Para o motel de luxo mais próximo – ordena, sem
cerimônia.
O
taxista, através do espelho, lança um olhar de aprovação e sorri. Conduz o
veículo para o local solicitado, estaciona e informa o preço da corrida. Fica
estupefato quando Mercedes, com jeito de déspota, lhe desafia para entrar.
Contudo, obedece.
-
Olhe que minha patroa não vai gostar nada
disso...
-
Pelo contrário, ela vai adorar.
Algum
tempo depois, eles retornam para o veículo. Ela não orienta a rota dessa vez,
mas o motorista a deixa no portão de uma casa. Antes de desembarcar, Mercedes
sorri, beija o taxista e afirma:
-
Viu como sua patroa adorou?
Quando
ela está abrindo o portão, o taxista torna a falar:
-
Ah, querida! Não se esqueça de pegar as crianças
na casa da mamãe às 11 horas, hein!
DO OUTRO LADO DA LINHA - 2002
Tatiana é auxiliar administrativa de uma prestadora de
serviços telefônicos e conhece Márcio, profissional responsável pela instalação
de linhas telefônicas, com o qual sofre incompatibilidade de gênios. Márcio,
por sua vez, se envolve com Elisabete, mulher dominadora que denuncia o
instalador por maus tratos e este, para se livrar da prisão, se vê obrigado a
aceitar a chantagem e casar com ela. Tatiana ainda tenta ajudá-lo e piora a
situação, porque sofre ao descobrir que o ama. Apesar de casado, Márcio se
recusa a consumar o casamento, porque também descobriu sua paixão por Tatiana e
precisa resgatar sua dignidade para tomar as rédeas da própria vida e se livrar
da vilã. Entretanto, se soltar das amarras do próprio remorso exigirá uma
profunda transformação.
...
Ela deu as costas para ir até o depósito, mas antes que pudesse dar
cinco passos, sentiu um fio ser tencionado em torno de seu pescoço e não
conseguiu mais respirar. Suas mãos imediatamente tentaram libertá-la do fio,
porém, estava perdendo as forças à medida que lhe faltava o ar. Deixou-se
desabar no chão, onde seu corpo convulsionava violentamente à procura de ar. Um
espasmo atingiu o boné do instalador, que caiu no chão revelando uma cabeleira
loira.
–
Desgraçada!
Isso vai te ensinar a não se meter comigo!
–
Eli...
sabete? Por quê...
Ela deu outra volta com o fio telefônico no pescoço de Tatiana até esta
ficar completamente imóvel. Elisabete ajeitou o cabelo sob o boné e manteve o
olhar fixo no corpo imóvel. Os olhos de Tatiana estavam saltados, a boca
entreaberta, a pele começara a ficar arroxeada, o peito já não arfava como há
um minuto. Sua rival estava definitivamente fora de ação e Elisabete sorriu com
a vitória tão fácil. Ela saiu com tranqüilidade, satisfeita por atingir seus
objetivos.
Tatiana não respirava mais. Aos poucos sentia que o sangue parava de
circular e seu corpo frio perdia quase toda a atividade vital. Seus olhos fixos
perceberam que o teto se aproximava e subitamente ela soube que estava
morrendo. “Deus, já chegou a minha
hora? Então não tenho mais medo.” Ela não sentia dor nem angústia,
apenas estava se sentindo levitar e alcançar o teto, que começara a girar,
aumentando gradativamente a velocidade. De repente, ela teve a impressão de que
despencara de um precipício e seu corpo antes imóvel voltara a se mexer.
...
LEMBRANÇAS DE UM BILHETE - 2000
Fernando
tem um pesadelo que o deixa inseguro e amedrontado e procura Ezequiel para
decifrar o sonho. O interpretador de sonhos revela que Fernando precisa se
curar de um trauma vivido na infância, mas os pais do garoto desaprovam o
tratamento psicológico sugerido por Ezequiel. Fernando, então, se envolve em
uma situação perigosa, entra em coma e é desenganado pelos médicos. O
sofrimento faz com que seu pai volte atrás em sua decisão e procure Ezequiel,
que cura o garoto. Em seu período de reabilitação, Fernando precisará resgatar
suas lembranças para salvar a prima Rafaela do perigoso envolvimento com
Anderson. Contará com a experiência de Ezequiel e terá que acreditar em si
mesmo para resgatar Rafaela e descobrir seu verdadeiro destino.
OS CONTADORES DE HISTÓRIAS - 1997
Antônio,
um policial com carreira já estabelecida e de boa índole, se apaixona por Patrícia,
uma adolescente de dezesseis anos, com a qual deseja se casar. Porém, enfrenta
a oposição dos pais da garota, que não aceitam o relacionamento amoroso precoce
da filha. Antônio convence Patrícia a conversar com seus pais para autorizarem
o namoro, mas antes que isso aconteça, Patrícia se torna vítima de abuso sexual
e as provas apontam o namorado como criminoso. Antônio precisará de todo seu
talento profissional para capturar o criminoso e provar sua inocência, mas principalmente,
testará seus princípios na tentativa de dominar seus próprios preconceitos para
aceitar Patrícia, ajudando-a a superar o trauma causado pelo acidente. Enquanto
todos duvidam de sua inocência, Elaine, uma jovem universitária acompanhada
pela também estudante e amiga Priscila - que participam do grupo de Contadores
de Histórias, mantém a fé no caráter de Antônio e se envolve no caso com o
firme propósito de restabelecer a união do casal. Para tanto, não mede esforços
e nem se resigna quando a situação se torna mais difícil, transmitindo
mensagens de otimismo e esperança mesmo quando tudo parece irremediavelmente
perdido.
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