Quando Marisa entrou na sala,
teve uma surpresa: havia um par de sapatos masculinos no tapete abaixo do sofá.
Ela logo imaginou que fosse Aristides, seu marido, quem tivesse chegado mais
cedo do trabalho, embora não reconhecesse os calçados de muito boa qualidade.
Ficou estagnada, divagando onde
Aristides comprara aqueles sapatos pretos de ponta mais afunilada. Então, sentiu
cheiro de sabonete e ouviu a água do chuveiro. Agora sim, ela tinha certeza:
era Aristides.
Saiu da inércia provocada pela
aguçada curiosidade e, resignada com a realidade, deixou a bolsa e a jaqueta no
sofá e seguiu para a cozinha. Preparou agua e deixou a cafeteira em atividade;
pôs louças na mesa; fatiou o pão; deixou salgadinhos refrigerados sobre uma
travessa para aquecer tão logo Aristides terminasse o banho.
Foi em direção do quarto,
passando pela sala e novamente a curiosidade com aquele par de sapatos aguçou
seus sentidos.
No quarto, despiu-se parcialmente
e permaneceu um instante em frente ao espelho contemplando os quilos extras
emergindo da cintura. Fez um gesto contrafeita, embora se sentisse bonita
daquele jeito mesmo.
Pelo espelho, ainda, acompanhou
as ranhuras na pela da região das nádegas. Se a Aristides não incomodava aquele
mapa desenhado em seu corpo, porque a ela incomodaria?
Abandonou o espelho e se virou.
Tomou mais um susto com a camisa preta e a calça jeans dependuradas no encosto
da cadeira. O coração acelerou. Entrara em apartamento errado, será? De vez em
quando saía com alguma pérola, mas porventura, cometera trapalhada tão
inusitada?
Não, não podia ser.
A água do chuveiro fora
desligada, o box aberto. Ainda tinha chance de cair fora, pensou, contudo, o
resquício de curiosidade misturado ao temor formavam um conjunto arrebatador.
Ela esperou.
Agora, diante dela, surgira um
ser de extrema beleza, envolto em sua toalha branca. Alto, magro, pele
bronzeada, braços longos sem músculos excessivos, mãos fortes, rosto marcante,
barba por fazer, sobrancelhas espessas, olhos negros e brilhantes, e a boca
mais sedutora da face do planeta.
Marisa nunca vira antes Aristides
tão maravilhoso. Envolveu-o em um abraço e, apetecida, beijou-o como nunca o
fizera nos últimos dez anos.

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