O amor pela leitura cresceu
junto comigo, paralelamente à vontade de criar histórias e de aprender.
Aos seis anos de idade,
pedi para ir à escola, mas ao contrário do que eu imaginava, percebi, desde os
primeiros dias, que para o ofício de estudante não bastava somente o desejo de me
instruir: necessitava dedicação e persistência elevadas à milésima potência!
Não tinha qualquer
habilidade para segurar o lápis, contudo, persisti. Após alfabetizada, treinava
a caligrafia em casa e decorava a tabuada. Quando pensei que dominava a arte, fui
incumbida de escrever uma redação, tarefa que antipatizei de imediato pelo modo
como me foi imposta. Depois de horas de martírio tentando colocar alguma coisa
no papel, obtive o seguinte resultado:
Eu tenho um cachorro.
O nome do meu cachorro é Doguinho.
O pelo do meu cachorro é marrom.
Eu gosto do meu cachorro.
Na época, recebi apenas o
sinal de “certo” enquanto meus colegas exibiam a “estrelinha” em seus cadernos,
e praticavam comigo o que hoje se chama bullying.
Se, por um lado, escrever
tivesse se transformado em aversão, por outro, o entretenimento era garantido. Ávida
por ler, eu assemelhava-me à formiga em busca de açúcar. O inverno da
ignorância poderia advir, pois eu abastecia meu formigueiro com os gibis da Turma da Mônica, os personagens de Walt
Disney e de Monteiro Lobato e os livros pedagógicos usados que eu ganhara de
meus tios. O entusiasmo aflorava a criatividade e eu ansiava o momento de, juntamente
com minha irmã, desbravarmos territórios não explorados da nossa imaginação e
continuarmos a saga que nossas bonecas viviam, defendendo o planeta dos ataques
dos inimigos...
Criatividade de sobra para
brincar, e bom texto, qual nada! Embora as redações já não se tratassem de
instrumentos indecifráveis, nem de grandes monstros que assolavam o planeta que
minhas heroínas defendiam, os fiascos prosseguiam exorbitantes, desconcertando
as inexoráveis professoras de português. Temas mal compreendidos, economia de
pontuação e textos mal estruturados pululavam em minhas tarefas como equívocos inevitavelmente
hilários. Parecia que eu jamais seria capaz de escrever uma boa redação.
Anos mais tarde, trabalhei
na biblioteca do colégio em que estudava – o Olavo Bilac, em Pirabeiraba. Que tentação aquele acervo! A leitura,
naturalmente, se intensificou e, como já não era suficiente, passei também a frequentar
assiduamente a biblioteca pública distrital Gustavo
Ohde. Precisava renovar a carteirinha que eu utilizava para empréstimo pelo
menos duas vezes por ano, e ainda sou capaz de sentir o cheiro agradável que
exalava dos livros.
Sem perceber, desenvolvi
espírito crítico em relação ao que lia e, a certa altura, não concordava mais
com o desfecho das histórias. Decidi, então, escrever um livro. Planejamento,
pesquisas e dedicação diária foram essenciais para tornar o texto atrativo.
Cada vez que a história não retratava algum aspecto que eu queria evidenciar, como
os valores que eu pretendia que os personagens transmitissem, mudava os rumos
das ocorrências. Foi assim que nasceu o livro Tempo de Fuga, publicado dezoito anos
depois.
A grande motivação
veio da curiosidade, do desejo incessante de conhecimento, da leitura constante
e – por que não dizer? – do aroma característico dos livros. E em pensar que tudo
começou com “Eu tenho um cachorro. O nome
do meu cachorro é Doguinho. O pelo do meu cachorro é marrom...”. Afinal, a
gente tem que começar por algum lugar.
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