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Joinville, Santa Catarina, Brazil

Morte como Experiência

Um dia, Helena deparou-se com um desafio bastante sério, que exigia não só comprometimento, mas uma firme coragem, porque ela possuía apenas uma chance.
Chegou a uma construção, em que um lado assemelhava-se a uma igreja, e outro a um shopping. Uma parte correspondia à vida. A outra, por onde um número incontável de seres humanos entrava, representava a experiência da morte. E era justamente a decisão que Helena deveria tomar.
As pessoas que adentravam a portaria do “shopping” não retornavam, o que a aterrorizou. Embora apavorada, ela decidiu se encaminhar para a “construção da morte”. Ergueu sua mão para sinalizar que estava preparada para levitar e em seguida ser "enterrada". Haviam-na alertado de que "arderia" muito até morrer. Ela pensou em Jesus Cristo, pois se fosse mesmo morrer, que ele tivesse piedade, pois ela temia "queimar".
Helena levitou devagar para dentro da câmara e então seu corpo começou a receber uma espécie de ondas elétricas. Mosaicos se formaram enquanto "morria". Mas estava consciente e procurou se acalmar para o momento em que parasse de respirar.
Acordou depois de um profundo e longo sono, na areia de uma praia. A temperatura era agradável. Ela, contudo, estava totalmente enfraquecida. A onda, mesmo que lenta, arrastava seu corpo. Então ela olhou para os lados e observou centenas de pessoas que, deduziu, também haviam "morrido". Porém, muitas delas haviam morrido de fato. Helena percebeu que somente ela recebera o "bônus" de passar pela experiência da morte e então teria a oportunidade de regressar, caso cumprisse seu dever.
Ela não conseguia sustentar o próprio corpo, e então surgiram homens que tinham a missão de devolver energia para as pessoas que atravessaram da vida para a morte.
Segurou-se no braço de um homem obeso e de olhos esbugalhados por um instante e sentiu uma vibração dentro de si, como se lhe injetassem energia por meios intravenosos. Mesmo assim, ainda não fora suficiente. Agarrou-se de novo a ele e o mesmo homem assumiu um tipo físico saudável.
O grupo de “mortos” seguiu instruções. Ela participou de tudo, e às vezes, levitava porque parece que sua boa atuação na Terra tinha lhe concedido certos “poderes” para passar para fases na frente de outras pessoas.
Uma cena materializou-se diante de todos. Era um porão com uma passagem muito estreita em uma rua abaixo de uma grande igreja. Uma médica fazia promessas para mulheres que desejavam filhos, mas se via tratar-se de um truque para ganhar dinheiro. Uma recepcionista encaminhava as mães para dentro do porão, e em vez de parto, a “médica” provocava o aborto das crianças. A cena então sumiu no ar como fumaça.
Sem compreender o motivo daquela aparição, Helena continuou seguindo as instruções dos “monitores da morte”, andando de um lado para outro. Em um momento, ela estava coberta de lama; em outro, dentro de um avião que estava pousando. Morrer era estarrecedor, parecia levar à loucura.
A certa altura, Helena voltara para a Terra, invisível, para acompanhar algumas pessoas. Sem que lhe exigissem, ela ajudou uma mulher a preparar bolos e salgados para uma festa. Outra mulher aparecera e levantava o dedo para ela como se a estivesse enxergando. Então Helena olhou para trás e viu que se desse mais um passo cairia em um buraco.
Mas ela precisava passar novamente pela câmara da morte. Daquela vez, seu corpo sofreu e quando acordou ela não conseguia respirar, porque estava no fundo do oceano. Subiu à tona para se “salvar”, embora não entendesse qual a finalidade de todo aquele martírio.
Helena precisava alcançar as outras pessoas e se perdeu. Então, em vez de subir pela rua, ela lembrou que podia levitar. Alguém a avisou que poderia voar mais alto do que o prédio e então ela estaria “morta” para sempre. Por isso, segurou em alguns galhos de árvores e levitou para dentro do shopping. Voltara ao início.
Entrou em um local decorado com mesas de restaurante, mas não havia pessoas sentadas nos lugares. Ela preparava uma massa semelhante a pão e distribuía para as pessoas atirando pequenos pedaços de massa para as pessoas que estavam abaixo dela.
Seu temor maior era voltar àquela espécie de consultório. Ela não queria que lhe fosse tirada a oportunidade de ter um filho.
Sentiu um sopro em sua nuca e, de repente, acordou no meio de uma estrada. A noite estava fria e o paralelepípedo que cobria a rua estava molhado. Helena caminhou a esmo e parou diante de um portão de aparência lúgubre, que se abriu por conta própria e ela entrou.
Assim que passou, o portão se fechou e, pela terceira vez, ela viu a câmara e os arrepios percorreram todo seu corpo, pois ela não se achava forte para suportar mais sofrimento e dor. Em um ímpeto de coragem, “atravessou” o extremo da vida e da morte, e acordou caindo do céu em direção a uma floresta.

Acordara em sua cama, a cabeça fervilhando. Conseguira retornar, afinal.

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