Um dia, Helena deparou-se com um desafio
bastante sério, que exigia não só comprometimento, mas uma firme coragem,
porque ela possuía apenas uma chance.
Chegou a uma construção, em que um lado
assemelhava-se a uma igreja, e outro a um shopping. Uma parte correspondia à
vida. A outra, por onde um número incontável de seres humanos entrava,
representava a experiência da morte. E era justamente a decisão que Helena
deveria tomar.
As pessoas que adentravam a portaria do “shopping”
não retornavam, o que a aterrorizou. Embora apavorada, ela decidiu se
encaminhar para a “construção da morte”. Ergueu sua mão para sinalizar que
estava preparada para levitar e em seguida ser "enterrada". Haviam-na
alertado de que "arderia" muito até morrer. Ela pensou em Jesus
Cristo, pois se fosse mesmo morrer, que ele tivesse piedade, pois ela temia
"queimar".
Helena levitou devagar para dentro da câmara
e então seu corpo começou a receber uma espécie de ondas elétricas. Mosaicos se
formaram enquanto "morria". Mas estava consciente e procurou se
acalmar para o momento em que parasse de respirar.
Acordou depois de um profundo e longo sono,
na areia de uma praia. A temperatura era agradável. Ela, contudo, estava
totalmente enfraquecida. A onda, mesmo que lenta, arrastava seu corpo. Então ela
olhou para os lados e observou centenas de pessoas que, deduziu, também haviam
"morrido". Porém, muitas delas haviam morrido de fato. Helena percebeu
que somente ela recebera o "bônus" de passar pela experiência da
morte e então teria a oportunidade de regressar, caso cumprisse seu dever.
Ela não conseguia sustentar o próprio corpo, e
então surgiram homens que tinham a missão de devolver energia para as pessoas
que atravessaram da vida para a morte.
Segurou-se no braço de um homem obeso e de
olhos esbugalhados por um instante e sentiu uma vibração dentro de si, como se lhe
injetassem energia por meios intravenosos. Mesmo assim, ainda não fora suficiente.
Agarrou-se de novo a ele e o mesmo homem assumiu um tipo físico saudável.
O grupo de “mortos” seguiu instruções. Ela
participou de tudo, e às vezes, levitava porque parece que sua boa atuação na
Terra tinha lhe concedido certos “poderes” para passar para fases na frente de
outras pessoas.
Uma cena materializou-se diante de todos. Era
um porão com uma passagem muito estreita em uma rua abaixo de uma grande
igreja. Uma médica fazia promessas para mulheres que desejavam filhos, mas se
via tratar-se de um truque para ganhar dinheiro. Uma recepcionista encaminhava
as mães para dentro do porão, e em vez de parto, a “médica” provocava o aborto
das crianças. A cena então sumiu no ar como fumaça.
Sem compreender o motivo daquela aparição, Helena
continuou seguindo as instruções dos “monitores da morte”, andando de um lado
para outro. Em um momento, ela estava coberta de lama; em outro, dentro de um
avião que estava pousando. Morrer era estarrecedor, parecia levar à loucura.
A certa altura, Helena voltara para a Terra, invisível,
para acompanhar algumas pessoas. Sem que lhe exigissem, ela ajudou uma mulher a
preparar bolos e salgados para uma festa. Outra mulher aparecera e levantava o
dedo para ela como se a estivesse enxergando. Então Helena olhou para trás e viu
que se desse mais um passo cairia em um buraco.
Mas ela precisava passar novamente pela
câmara da morte. Daquela vez, seu corpo sofreu e quando acordou ela não conseguia
respirar, porque estava no fundo do oceano. Subiu à tona para se “salvar”,
embora não entendesse qual a finalidade de todo aquele martírio.
Helena precisava alcançar as outras pessoas e
se perdeu. Então, em vez de subir pela rua, ela lembrou que podia levitar. Alguém
a avisou que poderia voar mais alto do que o prédio e então ela estaria “morta”
para sempre. Por isso, segurou em alguns galhos de árvores e levitou para
dentro do shopping. Voltara ao início.
Entrou em um local decorado com mesas de
restaurante, mas não havia pessoas sentadas nos lugares. Ela preparava uma
massa semelhante a pão e distribuía para as pessoas atirando pequenos pedaços
de massa para as pessoas que estavam abaixo dela.
Seu temor maior era voltar àquela espécie de
consultório. Ela não queria que lhe fosse tirada a oportunidade de ter um
filho.
Sentiu um sopro em sua nuca e, de repente, acordou
no meio de uma estrada. A noite estava fria e o paralelepípedo que cobria a rua
estava molhado. Helena caminhou a esmo e parou diante de um portão de aparência
lúgubre, que se abriu por conta própria e ela entrou.
Assim que passou, o portão se fechou e, pela terceira
vez, ela viu a câmara e os arrepios percorreram todo seu corpo, pois ela não se
achava forte para suportar mais sofrimento e dor. Em um ímpeto de coragem, “atravessou”
o extremo da vida e da morte, e acordou caindo do céu em direção a uma
floresta.
Acordara em sua cama, a cabeça fervilhando. Conseguira
retornar, afinal.

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