A GUERRA DAS PALAVRAS
1º CAPÍTULO
Uma garota estudiosa de 14 anos encontra na biblioteca do
distrito um livro grosso e velho, com capa dura e páginas com aspecto de
pergaminho. Ela começa a folhear o livro e percebe que as palavras estão
embaralhadas. Aí ela inicia uma saga para descobrir o que o livro revela.
Ela tem somente uma amiga na escola, uma menina mulata da
mesma idade. Elas se conheceram no 2º ano do ensino fundamental. Sua amiga fica
curiosa, mas desiste nas primeiras tentativas. Biblioteca realmente não é o
lugar preferido dessa amiga.
A palavra que mais desperta a curiosidade de Paula é
perseverança, e essa palavra aparece repetidamente durante todas as páginas em
que vai lendo mas continua muito longe de compreender o sentido do livro.
Resolve emprestar o livro por duas semanas e decide que, se
dentro desse prazo não conseguir compreendê-lo, devolverá para a biblioteca
esquecerá dele.
Então descobre junto à bibliotecária que o livro não está
catalogado por não conter título nem autor ou dados de impressão. Curiosa,
pergunta a Paula onde ela o encontrou e a garota a leva até a prateleira e
mostra o lugar exato de onde o retirara.
Entretanto, naquele lugar não há qualquer espaço para o
livro que Paula segura nas mãos, tanto em dimensão das prateleiras quanto a
quantidade de páginas.
A bibliotecária lhe dá um sermão para que não a engane e
abandona qualquer auxílio após verificar no computador que os livros estão
devidamente organizados. A mulher lhe diz com convicção inabalável que, após
vinte anos trabalhando na biblioteca distrital, não comete erros. Expulsa Paula
da biblioteca e manda que ela leve o livro consigo.
O livro é grande e pesado e ela fica com raiva da
bibliotecária e tem o impulso de jogar o livro na primeira lata de lixo
reciclável que encontrar, mas a palavra perseverança vem em sua mente com força
e nitidez, de forma quase palpável. A garota desiste do intento de jogar o
livro fora e o carrega até sua casa.
O livro foi colocado lá por alguma razão, Paulo começa a
refletir. Mas a pergunta que não queria calar era quem poderia ter feito aquilo
e se o livro caiu nas mãos da pessoa certa.
Paula examinou-o. Como a bibliotecária mencionara, não havia
título nem autor, mas era impresso em caracteres gráficos bastante antigos.
Suzana acha tudo muito idiota e simplesmente sugere que Paula se desfaça do
livro.
Paula começa a desembaralhar as palavras parágrafo por
parágrafo. Em muitos casos, faltam termos para identificar o sentido exato do
que está lendo, em outros, as mesmas palavras se repetem nos parágrafos adiante,
mas com sentidos distintos.
A garota desiste daquele quebra-cabeça, fecha o livro e o
deixa fechado sobre a escrivaninha.
Na manhã seguinte, ao despertar, ela vê que o livro está
aberto e se pergunta se uma corrente de ar teria feito aquilo. Impossível,
reflete, já que a capa parece de madeira.
Resolve perguntar para a mãe e o pai se estiveram no quarto
dela durante a noite e eles negam. Ela fica confusa e volta para o livro. Vê
que os parágrafos que ela lera no dia anterior se embaralharam outra vez.
Pensando que o livro quer que ela descubra o que há nele, a
palavra determinação aparece em realce nos mesmos parágrafos onde a palavra
perseverança aparecia no dia anterior.
Na página sete ela encontrou ênfase na palavra perfeição.
Ótimo, pensou Paula, somente palavras de sentido positivo. Já na página 13 ela
desembaralhou as palavras em torno da palavra TABU e conseguiu entender que o
parágrafo se referia ao 13º mês do ano, com ano previsto para acontecer uma
hecatombe mundial.
Assustada, ela fotografa a página com seu smartphone e vai
para a escola. Pela primeira vez em sua vida, esquece completamente das tarefas
de casa e os professores acham estranho.
Sua professor ade Física critica sua “cabeça de purungo
podre” e o professor de matemática julga-a apaixonada.
Suzana tira satisfações e irrita-se com a amiga por não ter
ainda dado um fim ao livro.
No dia seguinte, todos os parágrafos foram reescritos
daquela forma embaralhada e para ter certeza de que não está louca, Paula
confere a página 13 com a foto do smartphone. E apesar de ter certeza do que
lera e de lembrar-se de como as palavras estavam misturadas no dia anterior e
de como estão hoje, a foto e a página são idênticas.
Impossível, pensa. Minha imaginação está criando tudo isso.
Suzana prova isso quando lê em voz alta o que parece um romance comercial.
Mas para Paula, as palavras continuam embaralhadas.
Novamente a palavra perseverança salta aos olhos.
Realmente o livro está querendo contar uma história mas
somente Paula poderá decifrar.
Ela resolve mostrar o livro para o professor de História,
mas para ele o livro estava totalmente em branco. Ele só enxergava as páginas
cuja textura lembrava pergaminhos. Pergunta onde Paula conseguiu o livro e após
a resposta interroga a estudante sobre se ela mostrou o livro a mais alguém. “A
bibliotecária e a minha amiga”. E todas as duas me disseram para jogá-lo fora.
O professor pediu para que ela deixasse o livro com ele e
por um momento Paula aliviou-se por se livrar do misterioso livro, mas algo no
olhar do professor deixou-a assustada e ela saiu da sala levando o livro
consigo. Colocou-o na mochila e voltou para a sala de aula.
Depois que voltou para casa livrou-se da mochila e foi ao
banho. Quando retornou para pegar seu material, levantou o livro e sentiu que
suas mãos estavam pegajosas.
Ela gritou. Escorria sangue das páginas e ela caiu no chão,
horrorizada. A mãe chegou para acudi-la, e então Paula viu que o livro estava
normal. A mãe ralhou com ela e voltou para a cozinha.
A estudante ergueu-se lentamente do chão e se aproximou do
livro que a mãe colocara sobre a escrivaninha momentos antes. Sim, o livro
estava igual a antes, com as palavras embaralhadas. Ela lembrou-se da página 7
e abriu por um momento, pensou que havia um facho de luz branca levantando da
página.
Pensou que depois disto precisava urgentemente consultar um
psicólogo.
Então colocou o que estava escrito ao redor da palavra
perfeição. Descobriu um novo sentido.
“O mundo não é movido pelas perguntas ou pelas respostas,
mas sim, pela possibilidade de perguntar e pela capacidade de transformar a
resposta em uma reação produtiva”.
Estranho. Tudo estranho, louco, bizarro, apavorante.
Paula resolve aceitar o conselho da amiga e atira o livro na
lata de lixo da escola.
Antes do final da aula, uma colega aparece carregando o
livro e lhe entrega, eufórica e excitada. Paula não tinha mostrado o livro a
muita gente, então pergunta como ela sabe que o livro é seu.
Está escrito o seu nome na capa, com a sua caligrafia. Você deixou
na mesa da cantina.
Paula apanha o livro com absoluta surpresa e abre a página.
Realmente, é o seu nome que está lá, e pior, com sua caligrafia.
Antes de voltar para casa, ela pede a ajuda de Suzana e lhe
fala em segredo que está enlouquecendo. Suzana concorda, porque tudo que vê e
faz questão de ler em voz alta, é o mesmo parágrafo que trata de uma descrição
de lugar. E ela mesma leva o livro consigo. Joga-o na lixeira do supermercado,
quando vai fazer compras com o pai.
Resolvido, ela espana as mãos. Ora bolas, acreditar num
livro bobo desse.
Quando se afasta, a lixeira parece sacudir no ar.
Aliviada, Paula se prepara para dormir e então ouve a
campainha. Logo o pai aparece e lhe diz que estava na soleira da porta o livro.
A Suzana vai se ver comigo amanhã cedo!, promete e guarda o
livro dentro do guardarroupa.
Suzana aparece na manhã seguinte muito animada e confirma
que jogou fora o livro. Ainda faz umas caretas para assustar a amiga, mas assim
que Paula retirar o livro do armário e mostra para ela, Suzana cai sentada.
- Acredita agora?, pergunta Paula.
- Isso é coisa do demo, Paula!
- Não, deve ser alguma brincadeira do Pierre.
Pierre é um garoto daqueles que vive pregando peças em todo
o mundo. Paula o detesta. E ele detesta Paula. Sempre vivem se xingando.
Paula e Suzana chegam na escola e esfregam o livro na cara
dele. Ameaçam contar para a diretora o que ele anda tramando, mas Pierre jura
que não sabe de nada. Ele também enxerga as palavras embaralhadas, mas ao
contrário de Paula e de Suzana, ele vira o livro de cabeça para baixo pois para
ele as palavras estão escritas de perna para cima.
Curioso, ele fica na hora do recreio com as garotas para
investigar tudo aquilo. Chegam a conclusão de que o livro só pode ser uma coisa
do mal.
Juntos, eles começam a pesquisar formas de destruí-lo.
Tentaram queimá-lo, mas o livro é indestrutível. Fogo, ar, explosão, corte,
enterrar. Nada funciona. Nada.
Paula, enfim, decide procurar formas de decifrar aquele
enigma. Se Suzana enxergava uma historia comum, ela enxergava os parágrafos
embaralhados que se moviam a cada dia, e Pierre enxergava embaralhado mas as
palavras como que impressas do lado contrário da página, havia três tipos de
pessoas, ou características pessoais que o livro se fazia – ou não –, conhecer.
Suzana se ofendeu. Eu joguei fora também, então eu também
faço parte deste mistério.
- Não foi isso que eu quis dizer, replica Paula. Talvez o
livro queira mostrar o próprio poder, como se fosse uma pessoa.
- E se ele chegou até Paula, ele quer ser descoberto.
- Mas alguém colocou ele na biblioteca.
- Ou o livro tem vida própria?!
Pierre se sentiu importante.
- Baixa a bola – disse Paula, envolvida pela tensão do
desconhecido.
Paula fecha o livro e o sacode. Parecia oco e algo se mexia
lá dentro. Ela remexeu as páginas do alto e dela caíram algumas palavras.
Quando os três ajuntaram, viram que eram de madeira e começaram a montar a
frase que elas formavam.
“A caligrafia é a
chave da perfeição”.
Caligrafia. Será por isso que minha caligrafia estava na
contracapa?
Pierre teve uma ideia. Pediu para que Paula escrevesse as
palavras em uma folha de papel qualquer. Ela escreveu e entregou para ele.
- Tá me achando idiota? Não tem nada aqui! – vocifera Pierre,
indignado.
- Mas escrevi!
Suzana interveio. Abriu o livro. Na contracapa estava a
frase que Paula acabara de escrever e tinha sumido da folha de papel...
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