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Joinville, Santa Catarina, Brazil

Anedota - TOALHA DE “SEGUNDA”

Conversávamos eu e meu marido, quando eu lhe disse que precisava ir a uma loja para comprar algumas toalhas de segunda. Ele, rapidamente, perguntou-me:
- Por que de segunda?
- Ah, pra eu... - gaguejei.
- Por que não pode ser de domingo, de terça, de quarta? - Ele continuou, sério.
Eu caí na gargalhada. Mas que furo!

IDEOLOGIAS

“Uma das virtudes do ser humano é a capacidade de aprender, outra a humildade de ensinar.”

“Felizes somos nós que podemos escolher qual o alimento que iremos ingerir primeiro.”

Crônica - ESPELHOS DA ALMA

Meu exacerbado complexo de inferioridade repele os espelhos, visto que estes me mostram o que sou de verdade: minhas imperfeições físicas, as características hirsutas, a falta de vaidade. Além de honestos, os espelhos devolvem o reflexo do contingente intrínseco do meu ser, desbravando corajosamente minha personalidade, descortinando meu temperamento e desafiando as fronteiras intransponíveis de meus pensamentos.
Não é que eu decida abominar os espelhos; é que estes objetos invadem o território que segrego à minha limitada existência, exercendo um poder absoluto de atração. Se passo por eles, volto logo os olhos e até mesmo estagno o passo para fitar a imagem que insiste em me encarar. Como se não bastassem a superioridade e o autoritarismo em me plantar diante do espectro, os espelhos racham minha estrutura ao notabilizarem a minha passagem.
Não quero parecer bela, e os espelhos insistem em contrariar meu propósito. “Por que não refletem meus escrúpulos, meu senso de decência, minha integridade moral, meus princípios éticos e meu aspecto espiritual, sem os quais eu não sobreviveria?”, assim penso enquanto volvo os olhos e interajo com a imagem inerte: sobrancelhas unidas em uma linha quase contínua de incompreensão e desatino.
Tento ignorá-los, espelhos de minha alma, mas por que me atraem? Vasculho nos seus olhos os segredos e respostas que vigiam e, consequentemente, abro os portões quando decifro a senha. Adentro no obscuro aposento de vaidades, no recôndito calabouço dos complexos infundados. Permito-me um momento de contemplação. Descubro-me.
Sou eu mesma dentro dos espelhos: uma criatura singularmente atraente, dotada de características exclusivas que me agradam, de subjetividades únicas e preciosas que me orgulham. Não tem jeito. Aceito-me. Que me perdoe o obstinado complexo de inferioridade, mas amo meu reflexo e adoro ser exatamente do jeito que sou.

Crônica - A REALIDADE PARA QUEM SONHA

Cintia é mãe e pai há 13 anos, idade que o Pedro Henrique completou por esses dias. Cabe a ela também a tarefa de ser mãe da própria mãe, que às vezes, parece ter menos idade que o neto.
-     Sim, a mãe pensa que é criança pequena agora que não pode ficar uma noite sozinha? – pergunta Cintia, irritada.
Cintia agora quer viver, já não aceita críticas, pois cuida da própria vida há mais anos do que muito marmanjo por aí. Vive com pouco mais de um salário mínimo; o pai do garoto não paga pensão. Como se o dinheiro compensasse o filho da falta de interesse do próprio pai. Dinheiro não traz felicidade, contudo, ajuda a pagar a conta do mercado, o material escolar, o tênis que apertou, a calça jeans que encurtou. Provavelmente melhoraria a autoestima do garoto que sofre bullyng devido ao precoce excesso de peso. Cintia então segue sua vida: assalariada, com pouco dinheiro e muito suor, autoestima quase nenhuma, mas tem fé e um propósito: casar.
Depois de anos impacientemente longos, de muitas dores, desprezos, acertos e enganos, Cintia enxerga sobre as nuvens de chuva de sua luta desigual um homem com ternura, apaixonada, aquele com quem ela sonhara, orara e Deus concedera. Na ânsia de amar e ser amada, mergulha no mar de inquietude de sua alma sofrida e resgata a pérola da felicidade reprimida, com esplendor, glória, alento, complemento, magnitude, vestimenta de saudade, nudez angelical.
Mas tem sua mãe, que agora se sente renegada a um plano inferior e usa artifícios e chantagens para desmotivar a vida de seguir seu curso. Dentro do ser humano impera o egoísmo. Compartilhar a filha, a mãe e recentemente a mulher é dose demais. Estão todos ainda encontrando seus subtons para harmonizar e pacificar a convivência e gerar amor incondicional ao lar.

Poesia - MAIS UM ANO QUE SE PASSA

Mais um ano que se passa
Outra vez você esquece
no convívio junto a ti
transformava sua presença
e curava minha carência
te busco em toda parte
e luto contra o pavor
que sinto em te perder.

Vem, amor, veja quem sou
Não esqueça o que passou
Os anos passam
Mas meu amor por você não.

Quem sabe, você sozinha
No quarto, na cozinha,
Sem vontade para nada
Possa vir à sua lembrança
Bons momentos que vivemos
E então sentirá saudades
E a saudade lhe mostrará
O quanto fomos felizes.

Vejo teu olhar
Em todo lugar
Encontro você
No meu pensamento
Basta amar
E depois sonhar
Em teus braços
Busco alento
Preciso de você.

Poesia - AMIGO-IRMÃO

Simplesmente serias
Amigo-irmão,
que transcende proteção,
tu mesmo vivias,
no intervalo dos dias,
estendendo tua mão.

Amigo-irmão,
presente na incerteza
de conhecidos ou não,
que entende a beleza
da pintura e da demão
com toques de leveza.

Adulto com jeito de garoto,
de coração puro,
olhar de artista maroto,
alma pintada de ouro,
Amigo-irmão,
anjo de percepção.

Um risco, um rabisco
logo se transforma em hibisco;
dentro de tua essência,
Amigo-irmão,
é revelada tua aptidão,
motivo de reverência.

Cantas lindas canções,
ablas espanhol,
speaking english,
parla italiano,
equivales ao artista,
Amigo-irmão.

Buscas, com tua presença,
alegrar e emocionar,
ao amigo na convalescença
procuras ajudar,
isso é realmente dom,
Amigo-irmão.

És tu estupendo,
um artista a quem rendo
respeito e admiração,
e, assim sendo,
de enorme coração,
serás sempre meu amigo-irmão.

Crônica - ELOGIO VERSUS CRÍTICA

Hoje retornei do trabalho com a satisfatória sensação do dever cumprido graças a um elogio indireto que partiu do líder da equipe em que exerço minhas funções de auxiliar de produção. O olhar de admiração que ele lançou ao ver o estoque recuperado e garantido para o próximo turno bastou para meu bem-estar.
Recentemente meu marido revelou sentir admiração por mim, pelo meu senso de responsabilidade, pela força de vontade de trabalhar e por atributos que dizem respeito apenas a nós dois. Posso comparar seu elogio a um combustível altamente poderoso capaz de me superar dia a dia. E é desse tipo de “combustível” que todas as pessoas necessitam.
Entretanto, agimos corretamente durante a vida inteira, sendo bons profissionais ou cuidando de nossas famílias e somente somos lembrados quando, eventualmente, cometemos alguma espécie de incorreção. Parece que todos observam o último instante e não a dedicação de anos a fio. Não é possível tomarmos todas as decisões corretas o tempo todo ou acertarmos sempre. Mas a crítica aparece, submetendo o responsável pelo engano a advertências e até mesmo punições.
Elogiar proporciona sensação de bem-estar para quem está sendo aplaudido. O elogio deve ser transparente e sincero e deve demonstrar gratidão e satisfação por parte do líder e da equipe. A motivação acontece naturalmente.
A crítica, por sua vez, pode ser prejudicial quando expressada de maneira indelicada, já que o mau uso da linguagem exerce um poder negativo de depreciação. É possível transformar um excelente profissional em um autômato devido a influência de um julgamento precipitado em relação a um fato ou, em contrapartida, alavancar a capacidade produtiva do mesmo profissional através da comunicação correta ao criticar. A crítica, neste caso, é altamente eficaz.
Também não elogie o tempo inteiro. Saiba quem elogiar. Muitas vezes, um bom profissional pode se tornar prepotente, arrogante e acreditar que é imbatível por ser bajulado, desqualificando o próprio trabalho. É indispensável elogiar seu subordinado no trabalho, seu patrão, sua esposa ou marido, seus filhos, amigos, vizinhos, e também saber o momento certo para criticar, fazendo isso sempre de forma educada para valorizar o ser humano.

Crônica - A “DOENÇA DO PENSAMENTO”

Se há algo com o qual me preocupo é em ser útil para as pessoas que me circundam, sejam elas parentes, vizinhos, conhecidos ou não. Ademais, não encontraria razão plausível para merecer viver sem promover a bem-aventurança e sem exercer o ofício da solidariedade de acordo com as habilidades que desenvolvi.
Você já conviveu com algum depressivo ou já vivenciou na própria pele os efeitos altamente nocivos da depressão? Saiba que antigamente, por volta da década de 70, já existiam pessoas com esta que denomino como a “doença do pensamento”. Na época, os sintomas do sistema nervoso não eram levados a sério e aqueles que relatavam, por exemplo, sentir pânico, tão comum nos dias atuais, era considerado manhoso, vadio, fraco, além de ser submetido a humilhações e desvalorizado publicamente, acarretando maior incidência de baixa autoestima. Quando a depressão se alastrou de forma a exigir a produção de farmacocinéticos para combater a doença, é que ela foi tratada como um mal físico e psicológico, indispensável de tratamento a médio e longo prazo.
A depressão não é caracterizada por um estado ou sentimento isolado de desmotivação ou desgosto. Estar deprimido porque algum acontecimento lhe afeta é um aspecto, contudo, estar depressivo significa um conjunto de sintomas, estados, em que não há circunstâncias os provocando diretamente, mas um ciclo de contribuições malfazejas capazes de afetar crianças ou adultos saudáveis, pessoas que sobrevivem sem dignidade ou milionários, homens ou mulheres, independentemente de idade ou qualquer fator de diferença social.
Quando você está deprimido apenas consegue pensar em coisas ruins. Pensamentos ruins atraem energia ruim. Você julga-se inútil, desprovido de beleza exterior, desproporcional fisicamente, ignorante, confuso e não merece continuar vivendo. O complexo de inferioridade atinge o ápice produzindo emoções negativas e transmite a “bactéria” da “doença do pensamento” para todo o sistema nervoso. O doente delira em sua febre imaginária e, inconscientemente, decide sofrer, embora ninguém goste do sofrimento. Então se desencadeia uma série de sintomas de mal-estar, como sudorese e calafrios, tonturas, enjoos, fraqueza, cansaço e a pessoa começa a acreditar que está gravemente doente, necessitando urgente de apoio, mas sem disposição para se ajudar.
Caso você esteja com algum destes sintomas, avalie se não é vítima da “doença do pensamento”. Consulte um médico e se o resultado for um tratamento com antidepressivos, aceite e siga a orientação médica rigorosamente. Lembre-se de que a depressão também é uma doença e somente será curada se você decidir interromper o processo de desenvolvimento do negativismo. Pense sempre positivamente, mesmo quando acredita que todo problema que enfrenta é irreversível. Comece a olhar mais no espelho e dizer coisas boas a respeito de si mesmo. O melhor antídoto para a “doença do pensamento” está na forma como você se vê e enxerga o mundo ao seu redor.


Crônica - OS LIMITES DE NOSSO PODER

O salmo 139,16 afirma que Deus escreveu todos os dias de cada ser humano no livro da vida mesmo antes de termos nascido. Mas então porque tanto padecimento, apesar das pessoas tentarem agir conforme a vontade de Deus?
Quantas milhares de gotas formam uma tempestade? Quantas centenas de milhares de folhas constituem uma floresta? Quantas dezenas de milhares de toneladas de pedra formam um rochedo? É humanamente impossível medir tais dimensões com precisão, no entanto, o Pai celeste criou tudo o que se vê e o que não se vê e conhece as minúcias de sua obra. Feliz daquele que crê mesmo sem ter visto, disse Jesus, ao manifestar-se ao grupo de apóstolos após sua ressurreição. A essência da fé cristã é esta: aceitar com complacência o poder absoluto do Criador, mesmo sem compreender de que forma Ele intercede por suas criaturas ou sem conhecer a Sua receita.
Quando interagimos com Deus, encontramos a segurança necessária para nosso desenvolvimento intelectual e espiritual, de tal sorte que entregamos nossa vida à sua obra, incondicionalmente. Observemos o exemplo de Paulo que, de perseguidor de cristãos, tornou-se anunciador do Evangelho a diversos povos. Deus elegeu-o para a missão de evangelização e Paulo aceitou e se entregou ao plano do Senhor. Quão felizes poderemos ser quando abnegarmos nossas próprias ambições em favor de um trabalho grandioso para o qual o Pai nos chama! Que extrema felicidade encontraremos agradando ao nosso Criador! Paulo não se preocupou antes da hora e no momento em que foi chamado atendeu prontamente aos planos de Deus.
Importante não é saber de que jeito as coisas acontecem, e sim, agradecer por aquilo que ocorre, pois as experiências conflitantes nos fazem subir um degrau na escala da vida. Confiar que Deus dirige nossa vida desde antes de sermos formados é abrir as portas da alegria e do autoconhecimento. Em todos os momentos, bons ou ruins, sejam erguidos louvores a Deus, que tudo vê e tudo sabe e que a vivência diária não passe perto do abismo da descrença e da dúvida!

Infantil - O PAVÃO E A CORUJA

O PAVÃO E A CORUJA

Rosimeri chegou em casa do trabalho e foi brincar de pega-pega com o Caio, que de tão feliz, fugia dela e dava altas gargalhadas. Lá pelas tantas, quando os dois cansaram da brincadeira, o Caio sentiu sono e adivinhe o que ele pediu para a zelosa mãe: contar uma história.
Rosimeri estava tão cansada do serviço, que não tinha mais disposição para criar nenhuma história, mas de tanto o filho insistir, ela se deitou com ele na cama e pensou em alguma coisa. Então se lembrou de um colega de trabalho que era extremamente exibido e pedante. Resolveu então contar uma história que ensinasse ao Caio sobre pedantismo.
      Pedantismo?! – estranhou o Caio, em sua voz infantil.
      Isso, filho! Pedantismo significa uma pessoa que se exibe mostrando conhecimentos que não tem. Mas você vai entender melhor depois que eu contar esta história.
      Ah, bom – disse ele, com os olhinhos atentos, cheio de curiosidade.


O Pavão circulava na área e se sentia o tal. Era exibido, espalhafatoso, ostentava beleza e inteligência e se achava acima dos outros bichos. Ele, caminhando devagar – o verdadeiro modelo de passarela, como ele mesmo se intitulava, de humilde não tinha nada. Com todo bicho com o qual o Pavão se encontrasse, falava com tal pedantismo que se criava uma péssima imagem do empenado esnobe.
Acontece que os bichos respeitavam a sabedoria da Coruja e mesmo que esta tivesse hábitos noturnos, aguardavam ansiosamente a vigilante da natureza para lhe pedir conselhos.
O Pavão dormia cedo, pois não queria prejudicar sua beleza com olheiras e também porque precisava da luz do dia para se exibir. Entretanto, cedeu seu precioso sono de pluma para esperar o anoitecer e debater com sua concorrente.
Então, chegou até a árvore onde a Coruja se encontrava e a viu com óculos debruçada sobre um grosso livro.
      Ô, Dona Coruja! Quero falar com a senhora! – chegou o Pavão, cheio de orgulho e autoritarismo.
      Boa noite pra você também, meu filho! – cumprimentou a Coruja, baixando seu livro e fitando o visitante. – Em que posso ajudar, querido garoto? – tornou ela, solícita.
      Disseram-me que a senhora é o bicho mais sábio de todo o reino da bicharada – respondeu o Pavão, em tom sarcástico. – E eu vim provar que não é! Veja! Trouxe minhas testemunhas!
Tão logo o Pavão anunciou, alguns bichos acionaram holofotes, câmeras de vídeo e aparelhos de som, todos preparados para transmitir um novo recorde, que predizia o reconhecimento do Pavão como o novo bicho mais inteligente do mundo animal. Uma grande correria de diversas espécies animais se formou para encontrar um bom lugar para apreciar o prometido debate.
Observando todo aquele aparato, a Coruja calmamente retirou seus óculos e voou para próximo do Pavão.
      Filho, ninguém é melhor que ninguém – explicou, bondosamente. – Se os bichos me reconhecem como sábia é apenas uma consequência de muito aprendizado e respeito pelos outros. Só que eu ainda estou aprendendo.
      Ah! Então já venci a competição antes mesmo de começar – comemorou o Pavão, abrindo seu leque de plumas exóticas. – A senhora Coruja reconhece que não é a mais inteligente. E eu entendo de tudo! – afirmou, cheio de gestos e rodopios. – Conheço Biologia, Química, Geografia, Matemática, Zoologia, sei o nome de todas as espécies, entendo de beleza, culinária, artes, Física e Astronomia.
      Nossa! Você é o bicho mais pedante que eu já conheci – riu-se a Coruja, despreocupadamente.
      Olhe lá o respeito, Dona Coruja! Eu não preciso pedir nada pra ninguém, não! Ora, chamar-me de pedinte é demais para minhas belas plumas! – revoltou-se o Pavão, ofendido.
      Meu garoto que sabe tudo, eu quis dizer pedante e não pedinte.
A Coruja voou para o seu lugar à árvore e abriu novamente sua enciclopédia. Calmamente, ela procurou nas páginas do espesso volume o significado do termo pedante. Os holofotes foram todos direcionados para ela.
      Conforme nosso dicionário, pedante é aquele que exibe conhecimentos que não tem. Caro Pavão, você pode saber de muita coisa, mas desta vez aprendeu algo novo.
O Pavão foi vaiado e, envergonhado com a gafe, fechou seu lindíssimo leque. Depois, pediu desculpas à Coruja e reconheceu que ninguém é melhor que ninguém e a cada instante adquirimos novos conhecimentos.
No dia seguinte, o Pavão, menos vaidoso, começou a conversar com a bicharada para aprender também a agir com sabedoria, porque inteligência é a capacidade que um bicho tem para aprender e sabedoria é a habilidade de pôr em prática aquilo que se aprende. Assim, passou a ser mais humilde com a importante lição.


      Entendeu agora, meu filho? – perguntou Rosimeri, enquanto fazia cafuné no Caio. Como ele não respondesse, ela desconfiou que ele tinha dormido e não escutara o final da história. Mas o Caio, muito arteiro, piscou para uma corujinha de pelúcia que tinha no quarto, para mostrar que tinha perfeitamente compreendido.

Crônica - MANUAL DA VIAGEM

Se você está cansado (a) da realidade e deseja “viajar” em espaços desco-nhecidos, como, por exemplo, outras galáxias que existem eu seu subconsciente, observe os procedimentos a seguir e... Boa “Viagem”!

1. Concentre-se em um foco: pode ser uma lembrança, um sonho que você deseje tornar realidade, ou ainda o que bem entender.
2. Selecionado o objetivo, comece a pensar. Imagine pessoas, lugares, sinta perfumes, lembre o sabor das coisas, deixe sua imaginação guiá-lo (a).
3. Não se preocupe para onde vai, apenas imagine.
4. Não perca a concentração, senão você corre o risco de ter que come-çar tudo de novo.
5. Certamente, enquanto estiver se projetando para dentro de si mesmo, algumas coisas chamarão a sua atenção. Pense nestas coisas, em fatos antigos com os quais elas poderiam se encaixar.
6. Viu? Não é difícil, não é mesmo? Ah, esqueci de avisar que você não deve preparar mala alguma. Vá sozinho (a), sem contrapeso, sem objetos que poderiam firmar seus pés no chão.
7. Seja autêntico (a)! Não deixe que os outros interrompam a sua “via-gem”! Esqueça o mundo ao seu redor.
8. Se você for muito longe, não se desespere. Você nem vai perceber.
9. A política da qualidade da “viagem” é a seguinte: A viagem dedica-se a atender exclusivamente o Id e o Ego, seus clientes diretos, através da criativida-de exacerbada e de um complexo controle de concentração que vise aprimorar continuamente seu talento imaginativo.
10. A missão da “viagem” é transpor as barreiras da coerência. Portanto, “viaje”! O seu mundo interior aguarda você de braços abertos.

Querida Amiga Oculta:

Você é uma linda e admirável Mulher, pois cumpre com seus compromissos com responsabilidade e determinação. Mas também consegue parecer uma Garotinha brincalhona e despreocupada. Ou ainda, uma Mãe carinhosa que conta histórias para os filhos. Além de tudo, você tem um talento culinário especial, já que o lanche de sábado não seria o mesmo sem o agradável tempero de suas mãos. Você é Pequena em estatura, porém Gigante quando se trata do comprometimento com sua família. Sua família certamente lhe admira – mesmo que não expresse tal sentimento em palavras ou gestos, e tem enorme gratidão por sua generosidade. O seu Sorriso luminoso irradia-se no ambiente em que convivemos harmoniosamente graças a sua presença. A banda que recentemente toca em sua boca propaga o som do seu riso contagiante e alegra a todos aqueles que consegue alcançar. Talvez o Maurício de Souza houvesse se inspirado no seu jeito intelectual e brava, de passos decididos, se tivesse lhe conhecido antes de criar a Mônica; ou você tenha servido de inspiração para Walt Disney quando este criou a Minnie, com seu jeito meigo e delicado; quem sabe ainda seus movimentos admiravelmente hábeis, ou a sua força que, como a formiga, que ergue 10 vezes o peso do próprio corpo, tenham sugerido os poderes das Garotinhas Superpoderosas. Você poderia ser a Bailarina da caixinha de música, mas há pouco espaço para suas poderosas asas que, como o beija-flor, pairam no ar aspirando a doce essência do companheirismo e amizade que você incentiva, ou as asas da possante águia que cruza os horizontes em busca da sobrevivência. Você assim tão pequena é como a Canoa que, mesmo tão frágil, singra os oceanos com bravura. É a Mulher com alma de Criança. É a Rosa que exala a fragrância da nobreza do seu espírito puro. Você não é apenas a Estrela, que reflete o brilho de outros astros; você é o próprio Sol, com brilho próprio que ofusca em meio ao breu. Ter a condição de participar de um décimo de sua vida e ainda alegrar-me ao tê-la sorteado nesta gostosa brincadeira, é o que acredito tratar-se de uma dádiva preciosíssima de Deus.
Obrigada por permitir que eu faça parte de sua história,minha grande, forte, imbatível, corajosa e exuberante amiga Denise.

Crônica - Atrás de um atendimento telefônico

Eu trabalhei durante dois anos em call Center. Aconteceu no dia 24 de abril de 2009, por volta das 21h42 um fato inusitado para o qual eu não tinha recebido treinamento.
A cliente solicitara um serviço de mototáxi 24h na rua Minas Gerais em Join-ville. Após fornecer a informação, segui com o script:
- Podemos ajudá-la com mais informações? – Tomada de súbita surpresa, ouvi a cliente responder:
- Ah, se tiver um homem fiel, companheiro e de bom coração e você puder passar o telefone dele eu agradeço...
Seu tom era melancólico e longe de parecer ironia ou alguma espécie de provocação. Observei em minha tela de atendimento que o telefone do qual se originava a ligação estava cadastrado e perguntei-lhe:
- É Denise quem está falando?
- Ãh? Como você sabe?! – assustou-se.
- Nós apenas confirmamos o cadastro para gerar mais um bilhete para você participar do sorteio...
Naquele momento, percebi que eu criara uma situação bastante constran-gedora tanto para mim, como profissional, como para Denise, como cliente. Tentei contornar o problema me desculpando para me livrar o mais rapidamente possível daquela ligação, já que nossa central estava “estourando”.
- Desculpa, moça, sabe o que é, é que eu tô numa deprê danada... Você sa-be o que é amar com paixão seu marido, chegar em casa todo dia depois de 12 horas de trabalho, mas ainda preparar uma janta só porque ele gosta? Eu era assim. Vivi quatro anos maravilhosos, mas, de repente, ele foi embora, porque tinha outra... – E assim, a cliente foi desfiando sua história e eu preocupada com as ligações da fila de espera.
- Nossa, lamento... – respondi. – Isso que lhe aconteceu é muito triste. Mas você vai se recuperar. Tenha uma boa noi...
- Sabe, com tudo isso, eu sempre vou no bailão do Floresta pra tentar en-contrar alguém, sei lá, quem sabe a gente encontra... O problema é que eu encho a cara e acabo fazendo um monte de coisa errada... – Ela riu, parecia encabulada. Desculpa, eu sei que o serviço de vocês não tem nada a ver com essas coisas que eu estou dizendo, mas ajudou muito. Como é mesmo o seu nome?
- Edilene. – “Minha nossa... as ligações...” Era tudo o que eu pensava, em meu trabalho solitário de início da madrugada de domingo. “Espera aí!” dei um basta em minhas preocupações. “Os demais clientes certamente vão solicitar os telefones de bares, restaurantes, disk pizzas, disk lanches e até motéis. Existe na ligação atual a possibilidade de uma importante mensagem para alguém que está realmente precisando de algum consolo...” – Denise, realmente o nosso serviço não pertence a esse segmento de autoajuda, mas creio que possa fazer algo a mais por você. Perceba que beber demais é a conseqüência de seu sofrimento, que por sua vez, é uma fraqueza. Porém, é na fraqueza que nós somos mais fortes, pois Deus nos dá exatamente o peso que conseguimos carregar. Você deve reagir.
- É, quem tem Deus tem tudo, né?
Finalmente, desejei a ela um ótimo final de semana e que ficasse em paz. Ainda perguntou se poderia ligar para mim no mesmo telefone da nossa central, pois ela estava se sentindo muito melhor. Respondi-lhe afirmativamente, mesmo saben-do que as possibilidades de me encontrar seriam mínimas devido aos horários das escalas que eu cumpria.
A central, que até momentos antes bipava incessantemente, silenciara. Silenciei também. Respirei profundamente. Retirei o head set e olhei em torno. A sala, repleta de bancadas de atendimento, porém, sem ninguém para operá-las, parecia vazia de sentido. A única lâmpada acesa, bem acima da minha bancada, iluminava com deficiência. Entretanto, percebi que não fui apenas uma estrela, que reflete a luz, mas o sol, que tem luz própria e irradiei paz para uma pessoa desconhecida, de uma forma que jamais previra. Deixara meu profissionalismo de lado e não recomendo que ninguém faça isso em uma central de telemarketing receptivo, mas aquele fato me transbordara de satisfação. Afinal, por que não agir com diferencial quando se tem a oportunidade?
A central voltara a tocar. Hora de voltar ao trabalho.

Infantil - RUA ITAJUBÁ

Ei, amiguinho(a)! Vamos brincar de imaginação? Imagine então que você tem um computador diretamente ligado a um satélite (desses aparelhos sofisticados que flutuam no espaço na órbita de nosso planeta Terra). Agora você vai digitar as coordenadas para encarar uma emocionante viagem. Preparar, apontar... localizar!

Continente América do Sul, país Brasil, Estado Santa Catarina, cidade Joinville, Bairro Bom Retiro, Rua Itajubá e, finalmente, o nosso alvo: a Escola de Educação Básica Avelino Marcante. Agora você precisará de um aparelho de raio-X para ver com os olhos da imaginação o que acontece por lá. Um detalhe: aquilo que ocorre por lá não é imaginação coisa nenhuma! É a mais pura verdade...

Ah! Antes de acionarmos nosso ultramoderno equipamento, precisamos convidar uma pessoa para nos acompanhar. Essa pessoa é sensacional! É um homem cheio de amor e de ensinamentos para compartilhar com você. Ele irá protegê-lo, segurando a sua mão. Aceite a sua companhia e não se esqueça dele jamais. Eu lhe apresento seu novo amigo: Jesus.

Brrr... ai que frio! Ainda bem que tem esse lindo sol! Veja que maravilha de céu azul! E esse vento! Venha e me acompanhe. Estamos quase chegando. Não se esqueça de agradecer a Deus por este lindo dia. Tudo bem?

Mais alguns passos... ufa! A caminhada foi longa. Mas já estamos no portão de entrada de nossa escola. Vamos depressa! Jesus está nos esperando lá dentro!

Jesus disse “Vinde a mim os pequeninos, porque deles é o reino dos céus”. É por isso que ele está nos convidando, porque tem uma porção de coisas legais para nos contar.

Pode aproveitar para brincar com seus companheiros, amiguinho (a). Enquanto isso, nós nos preparamos para receber o Espírito Santo para que ele nos oriente qual a melhor forma de ajudar você.

Veja como a escola é agradável. Imagine as salas de aula, os banheiros, a cantina, a quadra, o pátio. Lembre que o vento está super gelado e você, de tanto correr, está com o rosto pegando fogo.

Não esqueça que você precisa pegar seu crachá. Vamos, não sinta vergonha. Jesus sabe seu nome de cor, mas nós, irmãos, também queremos conhecê-lo. Brinque, pule, divirta-se! Afinal, Jesus ama você e quer ver você feliz!

Agora, escute. Tem alguém te chamando! Vamos bem ligeirinho para a sala de aula, porque Jesus quer sua presença. Venha, amiguinho (a)! Coragem! Um mundo novo Deus quer dar a você.

Anedota - QUEM TEM Q.I. CHEGA NA FRENTE

- Meus parabéns! você passou no primeiro teste. Geralmente as pessoas conseguem somente passar após o quinto teste.
- Isso não foi nada, porque eu tenho Q.I.
- Q.I.?
- Sim: “Quem Indique”. Meu irmão trabalha como coordenador de PCP.

Crônica - NÃO SOU TROUXA

Amadurecimento e desenvolvimento são paralelos, caminham juntos em um estreito e equilibrado relacionamento. Aproximam-se do discernimento, o ato de separar o que é certo daquilo que é equivocado de acordo com princípios morais, éticos, religiosos e profissionais.
Compreender o que significa amadurecer não é possível sem que as atitudes comprovem o próprio entendimento. Não basta dizer: “Eu sou uma pessoa madura e me relaciono muito bem com os outros” se, diante de situações imprevistas, os atos demonstrem o inverso.
Há casos de pessoas que, embora dotadas de exuberante beleza e contem com a juventude, lamentavelmente transmitem mensagens inadequadas como egoísmo, instabilidade emocional voltada à irritabilidade ao menor sinal de contrariedade, vingança e distorção de caráter. Tais pessoas, em ambiente profissional, esforçam-se apenas por si mesmas, não aprenderam a aceitar a diversidade de opiniões e por isso mesmo sofrem ao receberem respostas negativas as suas sugestões autoritárias. Não têm a visão geral da atividade que realizam, porque dão as costas quando são recriminadas e não admitem quando estão erradas.
Recentemente presenciei um companheiro de trabalho sendo “levado nas costas” pelos outros membros da nossa equipe, e não bastasse sua fraca atuação na execução das tarefas, deliberadamente provocava queda na produtividade. Alertado sobre as sérias dificuldades e o prejuízo gerado, alegou em própria defesa: “Não sou trouxa para trabalhar pelos outros.” Porém, eu mesma fui um dos “burros de carga”.
A visão de companheirismo, bonomia e lealdade é alicerçada nos ditames do amadurecimento e desenvolvimento. Todos têm os mesmos direitos e as mesmas obrigações e é imprescindível saber expressar a verdade de forma que ninguém se sinta agredido verbalmente, pois o que diferencia é a forma como as convicções pessoais são expostas. Toda ação provoca uma reação. Temos a possibilidade de escolher entre a aceitação da crítica ou a imposição dos argumentos que julgarmos convenientes. Podemos ser os “burros de carga”, pessoas adultas envolvidas e determinadas à realização de um compromisso comum, ou nos contentarmos em evitar ser “trouxas” em prol de interesses particulares. Continuo do primeiro lado, apesar da carga da responsabilidade, pois é o caminho do desenvolvimento.

Crônica - VISÃO DOS 10 MANDAMENTOS

Deus, na plenitude da vida tu nos ensinas a viver, proporcionas ao nosso espírito momentos de honra e tornas mais alegres os nossos dias.
A felicidade é a expectativa que cada um, em todo seu ser almeja, Deus querido, e tu tratas de manter a fé, porque é o que tu queres para nós. E assim sendo, glorificamos a tua perfeição e exaltamos a sua generosidade, pois tu, pai, em quem podemos alegremente confiar, nos abençoa, nos ilumina, e com sincera devoção podemos afirmar:

1. Tu pediste que te amássemos sobre todas as coisas e pessoas, pois sabeis que não seríamos ninguém e não alcançaríamos a felicidade sem nossa grata devoção a ti;
2. Ordenaste que teu santo nome não fosse usado desnecessariamente e não fosse desonrado, porque tu tens todo o poder;
3. Disseste para separarmos os dias santos e domingos para refletirmos e te louvarmos;
4. Guiaste nosso coração para respeitarmos os pais para os quais nos encaminhaste, porque sabeis que a família é de importância SALUTAR;
5. Mandaste não tiramos de ninguém a vida, porque virá buscar todos os seus filhos no cronograma da vida que estabeleceste para nós;
6. Indicaste que não pequemos contra nossa castidade enquanto ainda não estamos casados, pois conheces que uniões instáveis, momentâneas e frívolas podem gerar frutos que sofrerão por não ter uma família completa;
7. Instruíste para não enganarmos nossos irmãos, sob pena de errarmos contra ti mesmo;
8. Conduziste que a mentira é um pecado muito grave e provocador de injustiças e que não devemos prejudicar nossos irmãos com falsos comentários;
9. Permitiste aos seus filhos o livre arbítrio, mas convenceste de que não se deve se envolver o cônjuge de um irmão, porque, na sua sabedoria, mostras que a alegria e a satisfação de instantes de delírio não substituem uma vida de casal levada a sério;
10. Ensinaste que a inveja é um fator comparativo que provoca martírio, porque se está sempre desejando algo que alguém possui e outro não, almejando ser uma pessoa que não somos apenas porque a outra se encontra em situação mais favorável.

Deus, tu nos modificas a cada instante para que nos adiantemos e nos aproximemos cada vez mais de ti. Tu nos instruis e nos fazes compreender os preceitos da vida feliz: tentando nos aproximar de tua infinita bondade e do teu caráter, nós nos tornamos cristãos melhores e na sabedoria da tua luz edificamos a nossa vida e nos conduzimos à felicidade. Amém.

Crônica - BORBOLETAS AZUIS

Vejo borboletas azuis voando em torno de mim. Em suas frágeis patas levam a essência da dignidade e a riqueza do caráter para polinizar as flores do conhecimento humano, segregado a um cérebro limitado e não menos importante, porque cada indivíduo traz dentro de si a capacidade adequada à realização pessoal de acordo com os planos de Deus.
As borboletas azuis desenham no ar linhas prateadas de sonhos que me inspiram, de desejos que conspiram contra meu crescimento, não por culpa dessas criaturinhas tão sensíveis, mas inteiramente por minha própria fraqueza. Enquanto elas sobrevoam os limites do meu pensamento, os neurônios “estralam” como labaredas em galhos secos, superaquecendo a constante emissão de fluidos desgastantes.
As borboletas multiplicam-se e me dominam, cercando-me, elevando-me no encanto de seu vôo colorido e leve. Suspendem meus desatinos e lançam por terra minhas mediocridades resumidas em pensamentos pessimistas. Suas pequenas asas incansáveis ventilam a transpiração do medo que me ocorre, soprando sobre meu ser uma brisa suave, fresca, pura como um bálsamo que vem do céu. As feridas começam a cicatrizar. As borboletas espalham-se lentamente, levando consigo minhas dores.

Crônica - BRUXAS DA NOITE

As mariposas evocam lembranças de meus tempos de criança. Nasci na época em que não existia energia elétrica, então nós usávamos os chamados liquinhos, ou seja, lampiões a gás, que lançavam sombras e faziam a imaginação tremer de medo.
A casa ficava no meio de uma floresta (bem, pelo menos era o que parecia para mim aos quatro anos de idade). Tudo era enorme e assustador, inclusive as tais mariposas que esbarravam no vidro do lampião e que eu chamava de bruxas. Quando elas ficavam imóveis em um local ao alcance de meus olhos, eu ficava observando-as de longe, com tanto medo que, a qualquer bater de asas era eu quem batia em retirada para baixo do meu cobertor.
Lembro-me da coceira que eu sentia no nariz, provocada pelo pó macio que se desprendia das asas dos insetos quando voavam. Talvez eu fosse alérgica e ninguém pensava em tal hipótese. Minha mãe contava que no tempo em que ela era criança ninguém reclamava de dor-aqui-dor-ali; cólicas menstruais, então, nem pensar! Qualquer mal-estar que sentissem era muito bem dissimulado para não levar uma respeitosa bronca.
A energia elétrica fora instalada em 1980, o que alegrou a comunidade e trouxe também novidade para minha vida. Naquela época, eu enfrentava um período turbulento, já que precisava me adaptar a dividir meu tão precioso colinho com a irmã que nascera recentemente.
Crescemos e eu havia ficado mais corajosa. Enfrentava as mariposas e torcia para que faltasse energia para vê-las bem de perto, sombras agigantadas pelo lampião a gás.

Crônica - NA PASSARELA DA BIODIVERSIDADE

Na marginal da rua vice-prefeito Luiz Carlos Garcia, aqui perto, a prefeitura construiu um passeio público, aproveitando o espaço vago entre a rua e o rio. Houve até inauguração do novíssimo espaço de lazer. Placas com a história dos rios da região e com leis sobre a preservação ambiental foram incrustadas em enormes pedras de granito lapidadas em formato de colunas. A base do passeio (ora essa! Passeio? Desculpe, ainda não atualizei meu vocabulário arcaico. Hoje em dia a palavra apropriada é calçada. Cal-ça-da. Somente para eu me lembrar) foi feita com placas de pedras usadas com esta finalidade. Paralelamente ao passeio, ou melhor, à calçada, foram plantadas grama e diversas árvores, das ornamentais às frutíferas. Grandes lixeiras foram instaladas e a iluminação complementou a paisagem que, anteriormente, não passava de uma extensão de capim, onde somente existia uma estreita trilha para as pessoas caminharem.
Alguns anos depois, a tão utilizada calçada apresenta alguns problemas. Sem dreno, as enchentes provocam erosão nas margens do rio, as chuvas torrenciais de verão, veranico, primavera e até outono (ô tempo bom em que se sabia em que estação do ano nos encontrávamos!) encharcam o gramado e as placas de pedra não possuem mais o devido apoio no solo irregular. Por sorte, a comunidade do Jardim Resplendor toma conta daquele caminho, fazendo a limpeza. A prefeitura mantém o passeio preservado apesar dos vândalos terem destruído as lixeiras. Sempre existe alguém que não gosta de dividir nada com ninguém e aproveita para estragar o bem comum.
Mas não são esses detalhes que impedem a comunidade de aproveitar a academia ao ar livre. É preciso caminhar na passarela em um final de tarde de domingo para sentir o frescor do vento na beira-rio após um quente dia de verão. Então se vêem o desfile de chinelos, sandálias, rodas, tênis, famílias inteiras, inclusive seus animais de estimação, caminhando em segurança no passeio. Crianças brincando de bicicleta, namorados marcando encontros, casais se recuperando das tensões do dia-a-dia, idosos aproveitando o pequeno espaço para aquecer os ossos enrijecidos, desportistas praticando corrida, empresários trocando as gravatas por camisetas soltas e bermudões, mães passeando com seus filhos, pessoas de todas as raças se misturando no vaivém da marginal.

Crônica - VITÓRIA NA MADRUGADA

O despertador do celular toca a música que mais gosto, só que às duas horas da madrugada qualquer composição musical que interrompa meu sono repousante acaba se tornando a mais desprezível. Solto um bocejo e troco por um gemido. Ai, que despertador insuportável!
-     Ó, céus! Agora me lembrei! Preciso dar no pé!
Levanto de um salto no quarto escuro, pego a roupa que deixei separada sobre o encosto da cadeira e, com os olhos semiabertos, vejo-me em desabalada carreira pelo corredor e me enfio embaixo de uma ducha quente. Ainda sinto “areia” nos olhos. Ai, minha cama tão quentinha...
Termino o banho, volto para o quarto. No meio do caminho, dou uma topada na porta. Com todo esse barulho meu marido deve ter caído sem paraquedas de seus sonhos. Enfim, procuro a bolsa e sigo para a cozinha. Passo café; depois mastigo um pão dormido; tomo meu antidepressivo, escovo os dentes, lavo mais uma vez o rosto para afugentar os resquícios de sono interrompido. Abro a tranca superior da porta, em seguida, a inferior e, finalmente, dou dois giros na chave e pronto! Estou livre para observar as estrelas e o luar de ontem... Ops! Onde é que foram parar aquelas estrelas faiscantes? E aquele luar tão intenso? Bom, ao menos não está chovendo. Penduro minha bolsa no guidão da minha bike, atravesso o corredor da garagem e ganho a rua. Sigo pela madrugada cinzenta com o objetivo de chegar a tempo de garantir uma vaga para consultar a clínica geral com a qual estou me tratando. Puxo fôlego e aspiro o ar noturno... Cof, cof, cof! Tosse de última hora ainda por cima!
Chego ao meu destino, o posto de saúde do Costa e Silva, bairro onde resido. Para minha grata surpresa, não há ninguém. Ora essa! Então sou a primeira? Que inédito! Olho para o relógio e suspiro aliviada: 03:40. São somente três horas de espera aqui neste solitário posto. Começo a pensar se não seria melhor que já tivesse chegado mais pessoas. Não faz mal, não estou completamente só, minha proteção vem do alto. Nada de ruim vai acontecer comigo e posso aproveitar para exercitar a virtude da paciência (logo eu, que sou a paciência em pessoa, número e grau superlativo! Mas como é mesmo que anda minha ansiedade? Até torci meu tornozelo devido a minha controladíssima paciência...). Por sorte, trouxe meu ponto cruz.
Lá se vão os minutos e as horas. Alivio-me ao presenciar a chegada do segundo corajoso da madrugada. Conversamos um pouco durante um quarto de hora, quando um senhor toma a terceira posição na fila do sistema único de saúde. Único mesmo, já que nós, pobres trabalhadores, não temos mesmo muita opção.
E assim os minutos prosseguem seu curso ininterrupto até formarem as horas. Chega a quarta pessoa. Os minutos não cansam. Chega o quinto. As horas empilham os minutos. Vem o sexto e o sétimo e o oitavo...
Espere aí! O que houve hoje? Impressionante! Não é que sobraram vagas!
O posto de saúde abre, enfim, às sete horas. Em seguida, a agente comunitária nos cumprimenta e distribui as tão merecidas fichas. Aí volto a me lembrar da música chata do celular, da minha cama quentinha, do turismo na escuridão da casa, da topada na porta do quarto, do café, das trancas da porta, da decepção com o tempo nublado, das pedaladas, da tosse, do bordado que larguei para participar das conversas e, finalmente, da primeira posição da fila do SUS.

Abro um sorriso, pois nem tudo está perdido. Até que enfim saí na frente, com honras de um maratonista vitorioso.