O PAVÃO E A CORUJA
Rosimeri estava tão cansada do serviço, que não tinha mais disposição para criar nenhuma história, mas de tanto o filho insistir, ela se deitou com ele na cama e pensou em alguma coisa. Então se lembrou de um colega de trabalho que era extremamente exibido e pedante. Resolveu então contar uma história que ensinasse ao Caio sobre pedantismo.
– Pedantismo?! – estranhou o Caio, em sua voz infantil.
– Isso, filho! Pedantismo significa uma pessoa que se exibe mostrando conhecimentos que não tem. Mas você vai entender melhor depois que eu contar esta história.
– Ah, bom – disse ele, com os olhinhos atentos, cheio de curiosidade.
O Pavão circulava na área e se sentia o tal. Era exibido, espalhafatoso, ostentava beleza e inteligência e se achava acima dos outros bichos. Ele, caminhando devagar – o verdadeiro modelo de passarela, como ele mesmo se intitulava, de humilde não tinha nada. Com todo bicho com o qual o Pavão se encontrasse, falava com tal pedantismo que se criava uma péssima imagem do empenado esnobe.
Acontece que os bichos respeitavam a sabedoria da Coruja e mesmo que esta tivesse hábitos noturnos, aguardavam ansiosamente a vigilante da natureza para lhe pedir conselhos.
O Pavão dormia cedo, pois não queria prejudicar sua beleza com olheiras e também porque precisava da luz do dia para se exibir. Entretanto, cedeu seu precioso sono de pluma para esperar o anoitecer e debater com sua concorrente.
Então, chegou até a árvore onde a Coruja se encontrava e a viu com óculos debruçada sobre um grosso livro.
– Ô, Dona Coruja! Quero falar com a senhora! – chegou o Pavão, cheio de orgulho e autoritarismo.
– Boa noite pra você também, meu filho! – cumprimentou a Coruja, baixando seu livro e fitando o visitante. – Em que posso ajudar, querido garoto? – tornou ela, solícita.
– Disseram-me que a senhora é o bicho mais sábio de todo o reino da bicharada – respondeu o Pavão, em tom sarcástico. – E eu vim provar que não é! Veja! Trouxe minhas testemunhas!
Tão logo o Pavão anunciou, alguns bichos acionaram holofotes, câmeras de vídeo e aparelhos de som, todos preparados para transmitir um novo recorde, que predizia o reconhecimento do Pavão como o novo bicho mais inteligente do mundo animal. Uma grande correria de diversas espécies animais se formou para encontrar um bom lugar para apreciar o prometido debate.
Observando todo aquele aparato, a Coruja calmamente retirou seus óculos e voou para próximo do Pavão.
– Filho, ninguém é melhor que ninguém – explicou, bondosamente. – Se os bichos me reconhecem como sábia é apenas uma consequência de muito aprendizado e respeito pelos outros. Só que eu ainda estou aprendendo.
– Ah! Então já venci a competição antes mesmo de começar – comemorou o Pavão, abrindo seu leque de plumas exóticas. – A senhora Coruja reconhece que não é a mais inteligente. E eu entendo de tudo! – afirmou, cheio de gestos e rodopios. – Conheço Biologia, Química, Geografia, Matemática, Zoologia, sei o nome de todas as espécies, entendo de beleza, culinária, artes, Física e Astronomia.
– Nossa! Você é o bicho mais pedante que eu já conheci – riu-se a Coruja, despreocupadamente.
– Olhe lá o respeito, Dona Coruja! Eu não preciso pedir nada pra ninguém, não! Ora, chamar-me de pedinte é demais para minhas belas plumas! – revoltou-se o Pavão, ofendido.
– Meu garoto que sabe tudo, eu quis dizer pedante e não pedinte.
A Coruja voou para o seu lugar à árvore e abriu novamente sua enciclopédia. Calmamente, ela procurou nas páginas do espesso volume o significado do termo pedante. Os holofotes foram todos direcionados para ela.
– Conforme nosso dicionário, pedante é aquele que exibe conhecimentos que não tem. Caro Pavão, você pode saber de muita coisa, mas desta vez aprendeu algo novo.
O Pavão foi vaiado e, envergonhado com a gafe, fechou seu lindíssimo leque. Depois, pediu desculpas à Coruja e reconheceu que ninguém é melhor que ninguém e a cada instante adquirimos novos conhecimentos.
No dia seguinte, o Pavão, menos vaidoso, começou a conversar com a bicharada para aprender também a agir com sabedoria, porque inteligência é a capacidade que um bicho tem para aprender e sabedoria é a habilidade de pôr em prática aquilo que se aprende. Assim, passou a ser mais humilde com a importante lição.
– Entendeu agora, meu filho? – perguntou Rosimeri, enquanto fazia cafuné no Caio. Como ele não respondesse, ela desconfiou que ele tinha dormido e não escutara o final da história. Mas o Caio, muito arteiro, piscou para uma corujinha de pelúcia que tinha no quarto, para mostrar que tinha perfeitamente compreendido.
Muito bom prima...Gostei muito.
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