O despertador do celular toca a música que
mais gosto, só que às duas horas da madrugada qualquer composição musical que
interrompa meu sono repousante acaba se tornando a mais desprezível. Solto um
bocejo e troco por um gemido. Ai, que despertador insuportável!
-
Ó, céus! Agora me lembrei!
Preciso dar no pé!
Levanto de um salto no quarto escuro, pego
a roupa que deixei separada sobre o encosto da cadeira e, com os olhos
semiabertos, vejo-me em desabalada carreira pelo corredor e me enfio embaixo de
uma ducha quente. Ainda sinto “areia” nos olhos. Ai, minha cama tão
quentinha...
Termino o banho, volto para o quarto. No
meio do caminho, dou uma topada na porta. Com todo esse barulho meu marido deve
ter caído sem paraquedas de seus sonhos. Enfim, procuro a bolsa e sigo para a
cozinha. Passo café; depois mastigo um pão dormido; tomo meu antidepressivo, escovo
os dentes, lavo mais uma vez o rosto para afugentar os resquícios de sono
interrompido. Abro a tranca superior da porta, em seguida, a inferior e,
finalmente, dou dois giros na chave e pronto! Estou livre para observar as
estrelas e o luar de ontem... Ops! Onde é que foram parar aquelas estrelas
faiscantes? E aquele luar tão intenso? Bom, ao menos não está chovendo. Penduro
minha bolsa no guidão da minha bike,
atravesso o corredor da garagem e ganho a rua. Sigo pela madrugada cinzenta com
o objetivo de chegar a tempo de garantir uma vaga para consultar a clínica
geral com a qual estou me tratando. Puxo fôlego e aspiro o ar noturno... Cof,
cof, cof! Tosse de última hora ainda por cima!
Chego ao meu destino, o posto de saúde do Costa e Silva, bairro
onde resido. Para minha grata surpresa, não há ninguém. Ora essa! Então sou a
primeira? Que inédito! Olho para o relógio e suspiro aliviada: 03:40. São somente três horas de espera aqui neste
solitário posto. Começo a pensar se não seria melhor que já tivesse chegado
mais pessoas. Não faz mal, não estou completamente só, minha proteção vem do
alto. Nada de ruim vai acontecer comigo e posso aproveitar para exercitar a virtude
da paciência (logo eu, que sou a paciência em pessoa, número e grau superlativo!
Mas como é mesmo que anda minha ansiedade? Até torci meu tornozelo devido a
minha controladíssima paciência...). Por sorte, trouxe meu ponto cruz.
Lá se vão os minutos e as horas. Alivio-me
ao presenciar a chegada do segundo corajoso da madrugada. Conversamos um pouco
durante um quarto de hora, quando um senhor toma a terceira posição na fila do sistema único de saúde. Único mesmo, já
que nós, pobres trabalhadores, não temos mesmo muita opção.
E assim os minutos prosseguem seu curso
ininterrupto até formarem as horas. Chega a quarta pessoa. Os minutos não
cansam. Chega o quinto. As horas empilham os minutos. Vem o sexto e o sétimo e
o oitavo...
Espere aí! O que houve hoje? Impressionante!
Não é que sobraram vagas!
O posto de saúde abre, enfim, às sete horas.
Em seguida, a agente comunitária nos cumprimenta e distribui as tão merecidas
fichas. Aí volto a me lembrar da música chata do celular, da minha cama
quentinha, do turismo na escuridão da casa, da topada na porta do quarto, do
café, das trancas da porta, da decepção com o tempo nublado, das pedaladas, da
tosse, do bordado que larguei para participar das conversas e, finalmente, da
primeira posição da fila do SUS.
Abro um sorriso, pois nem tudo está
perdido. Até que enfim saí na frente, com honras de um maratonista vitorioso.

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