Meu exacerbado complexo de inferioridade repele os espelhos, visto que estes me mostram o que sou de verdade: minhas imperfeições físicas, as características hirsutas, a falta de vaidade. Além de honestos, os espelhos devolvem o reflexo do contingente intrínseco do meu ser, desbravando corajosamente minha personalidade, descortinando meu temperamento e desafiando as fronteiras intransponíveis de meus pensamentos.
Não é que eu decida abominar os espelhos; é que estes objetos invadem o território que segrego à minha limitada existência, exercendo um poder absoluto de atração. Se passo por eles, volto logo os olhos e até mesmo estagno o passo para fitar a imagem que insiste em me encarar. Como se não bastassem a superioridade e o autoritarismo em me plantar diante do espectro, os espelhos racham minha estrutura ao notabilizarem a minha passagem.
Não quero parecer bela, e os espelhos insistem em contrariar meu propósito. “Por que não refletem meus escrúpulos, meu senso de decência, minha integridade moral, meus princípios éticos e meu aspecto espiritual, sem os quais eu não sobreviveria?”, assim penso enquanto volvo os olhos e interajo com a imagem inerte: sobrancelhas unidas em uma linha quase contínua de incompreensão e desatino.
Tento ignorá-los, espelhos de minha alma, mas por que me atraem? Vasculho nos seus olhos os segredos e respostas que vigiam e, consequentemente, abro os portões quando decifro a senha. Adentro no obscuro aposento de vaidades, no recôndito calabouço dos complexos infundados. Permito-me um momento de contemplação. Descubro-me.
Sou eu mesma dentro dos espelhos: uma criatura singularmente atraente, dotada de características exclusivas que me agradam, de subjetividades únicas e preciosas que me orgulham. Não tem jeito. Aceito-me. Que me perdoe o obstinado complexo de inferioridade, mas amo meu reflexo e adoro ser exatamente do jeito que sou.
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