Palavra dita na hora certa, um tanto inquieta, sugestão onírica de demasiado enlevo; sensação vaga, porém, pulsante, corre desvairada por entre litros de glóbulos vermelhos.
O olhar curioso, irracional, capta na menina dos olhos – pupilas semelhantes a portas abertas da alma, a melancolia daqueles que são surpreendidos como alvos de perscrutação.
As palavras e o olhar – determinantes de direção como seres independentes que esquadrinham a rocha, destroçam-na e em seguida a lapidam com paciência, agem na robustez aparente e tornam dóceis as emoções fervilhantes.
Dias e noites chegam e se vão, entretanto, o pensamento, ansioso, permanece feito flor trepadeira, crescendo a cada instante e se emaranhando em derredor do coração.
Fadas, duendes, princesas, reis, heróis participam da fábula e, do encantamento ao êxtase basta um faz-de-conta.
O amor a primeira vista é culminante para o conflito de emoções e a peneira dos valores é sacudida. Resta o interesse sincero, a devoção, a confiança e a sede pela continuidade da história primaveril.
A fragrância exalada no primeiro contato evoca a pureza do espírito, este despido de qualquer mediocridade, não menos iludido com a perspectiva da felicidade.
Um abraço parceiro – convite para a inocência, busca o prêmio mais almejado. A respiração rarefeita, o corpo trêmulo e sem força para se desvencilhar da intensidade do aconchego, permite o primeiro toque, indeciso, suave, sôfrego, material e simultaneamente sublime.
As mãos se alcançam e se tocam e os dedos também se entrelaçam como um abraço. A epiderme nua recolhe impressões táteis que conduz ao hipotálamo e os neurônios, nervosos, estralam feito galhos secos, depois explodem em delirante fusão.
A face ruboriza-se, atraindo a temperatura pirética e os olhos se fecham, deixando a audição amplificada e aflorando a sensibilidade latente. Subitamente, o maestro congela o tempo e paralisa a batuta no ar até movimentá-la freneticamente indicando o clímax do concerto.
Arrepios, como ondas elétricas, percorrem a região periférica das terminações nervosas durante o momento em que os lábios se tocam; estes macios, delicados, paciente, doces. A orquestra toca em desvario, os acordes soam no compasso cardiorrespiratório dos seres que se consagram em um só através da reciprocidade de sentimentos.
Palavras, nesse momento de eternidade, cedem lugar aos aplausos dos corações resgatados pelo júbilo. Olhos sorriem ao se encontrar imersos na águas do desejo que se acalmam. Dúvidas findam a quimera e o universo se torna apenas um esboço da plenitude.
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