Um grande evento estava prestes a acontecer no plano mais alto do planeta Terra : o eclipse entre o planeta Saturno e o Sol. Pessoas de todas as idades e todas as etnias se reuniram no topo de uma montanha, onde brotava a fonte de toda a água doce do nosso planeta. Em volta da fonte líquida de riqueza mineral, fora construída uma sacada com vista para o fenômeno espacial. As pessoas se acotovelavam para se aproximarem do local onde melhor poderiam presenciar o eclipse. Eu me esgueirava no meio da multidão, acompanhando todos os movimentos. Vi então um menino de pele morena clara perto dos pais e algo naquela cena me empertigou.
Ainda era dia quando o planeta Saturno, com seu anel, iniciou sua etapa de aproximação com o astro rei. As pessoas ficaram eufóricas. Uma mulher tentou se equilibrar no muro à esquerda da área da vista para a nascente, mas depois de alguns segundos, não suportou o peso do próprio corpo e pulou para o chão, procurando novamente lugar no meio das pessoas que acompanhavam o eclipse. Enquanto isso, eu desci do topo do planeta e comecei a caminhar no meio da vegetação. Parei atrás da equipe de fotografia e imagem de uma rede de TV, observei os veículos estacionados em ângulo e um garoto de uns quatro anos andando de bicicleta. Ele estava pedalando diretamente para a borda do precipício que dava para a nascente. O meu medo aumentou quando vi que ele não parou a bicicleta. Tentei sair do lugar, mas meus olhos estavam presos ao céu: Saturno estava se sobrepondo ao sol e o dia começara a desaparecer.
A água da represa onde ficava a nascente começara a se agitar com o vento que soprava assustadoramente. O menino continuava pedalando para a borda da represa e desabou no precipício, e foi levado pela água turbulenta. Pessoas começaram a se agitar para resgatá-lo, mas foi naquele momento que uma descarga elétrica atingiu a barragem e a passagem para o topo do planeta. Houve gritos de desespero frente ao tornado que passou pelo local. As pessoas se agarraram no que sobrava da vegetação. Quando o planeta serenou e o eclipse terminara, observei o mesmo menino de pele moreno-clara, sozinho, andando a esmo na praia que se formara ao lado da barragem destruída, e deduzi que provavelmente estava à procura dos pais, que haviam desaparecido durante o cataclisma.
Um homem se apressou em alcançar umas tábuas encharcadas caídas no meio do mato para formar passagem para os sobreviventes seguirem seu rumo. Atravessei pelas tábuas e em seguida, cheguei a um vilarejo devastado pelo temporal. Uma mulher procurava no meio dos entulhos um chinelo que faltava ao par que ela trazia calçado, um homem com a barba por fazer reclamava de suas roupas encharcadas, havia lixo, cadeiras e bancos de madeira espalhados, restos de construção, uma ou outra árvore desfolhada ou caída, deixando à mostra suas raízes. O que mais me chocou foi ver crianças matando sua sede com a água suja das poças e vomitando a lama da qual haviam se alimentado, porque a escassez de comida era completa. O menino moreno-claro continuava caminhando sem direção, e em seu rosto pude notar sinais de abatimento e preocupação.
Um casal surgira no meio daquela imagem desoladora. Pelo que pude ouvir, eles precisavam sair daquele vilarejo e voltar para a terra natal, onde moravam os pais da mulher. Segui-os sem saber para onde iam. Imaginei que fossem eles os pais daquele menino que perambulava pelos entulhos e senti urgência em comunicar isso àquele casal. Entretanto, eu era somente um fantasma, eles não podiam me ver nem ouvir, e isso provocou em mim enorme frustração. Eles continuaram seguindo a pé, ela dando a mão a ele, como que para não se separarem também os dois. Chegaram em uma estrada pedregosa que subia. Ouvi uma exclamação de felicidade: "Eu não estou acreditando! O destino nos trouxe de volta ao nosso lugar de origem!" e observei o que havia deixado a mulher tão animada. Consegui enxergar apenas pinheiros monumentais, que formavam um corredor para a estrada. O casal então chegou ao seu destino: encontraram os pais da mulher, que ficaram extasiados por terem sobrevivido ao desastre. As instalações eram precárias, eles viviam embaixo das árvores de uma floresta escura, onde não penetrava luz solar, entretanto, pareciam felizes.
O casal foi para o local de descanso e eu continuei minha exploração. Estava cansada com tanta escuridão, e só então percebi que já havia anoitecido. Cheguei a um local semelhante a um criadouro de animais, mas só vi valas, coxos e baias. Não havia animais. Encontrei uma mulher conversando com um homem e subitamente ela começou a correr para fugir de algum perigo que a estava atemorizando. Ouvi a voz rude de uma mulher ordenando aos capangas para apanhar a intrusa. Observei que a mulher que estava sendo perseguida escapou, porque deitou em uma das valas e ficou submersa nos resíduos fecais dos animais. Quando a equipe de busca passou pelo local, ela imediatamente se levantou e correu para o lado contrário. Fui atrás dela, queria perguntar porque razão ela fugia. Mas ela não me dava ouvidos, estava ocupada demais tentando se salvar. Subiu em uma parede, atravessou algumas tábuas e se jogou sobre o telhado ao lado. O barulho da queda atraiu os homens que a perseguiam. Latidos e exclamações abafadas misturavam-se ao pânico e à escuridão derradeira. Mas ela conseguira escapar e a equipe se espalhou.
Subitamente voltou à minha memória o menino que se perdera dos pais. Eu o vi novamente, mas os anos haviam dado a ele barba, tamanho e uma boa idade. Foi naquele momento que ouvi sua voz, lamentando todo o sofrimento que passara ao se separar dos pais logo na infância.
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