Certas ocorrências marcam nossa vida ora de forma positiva, ora de forma negativa, naturalmente. E quando somos crianças, o impacto de determinadas recriminações recai atrozmente sobre nosso âmago em incalculável proporção.
Sempre me esforçara para ser uma boa filha e uma ótima aluna. Preocupava-me sobremaneira agradar a todos em minha volta, pois, ainda infante, o complexo de inferioridade teimava em me desvalorizar. Obedecia prontamente as petições da professora do 3º ano fundamental, uma vez que a estimava como que devota a uma celebridade. Por conseguinte, minha idolatria retornava em estímulos como nota 10 com estrelinhas ou um recado amistoso no caderno ou ainda elogios oriundos da professora que estufavam meu pai de orgulho. Já minha mãe era indiferente, porque dizia que o estudo não passava de uma obrigação minha, uma vez que ela não exigia que eu auxiliasse nas tarefas domesticas.
Um dia, estávamos brincando no recreio eu e todos os colegas; eu ouvia as outras crianças se queixando umas das outras para a professora. Eu observava que a professora ouvia a todos com atenção e eu também senti necessidade daquele momento de exclusividade. Lá fui eu, decidida e alegre, reclamar que meu colega tinha esbarrado em mim e ainda por cima puxado meu uniforme com força. Tratava-se da verdade que eu aproveitei como oportunidade para me aproximar da professora. Esta, porém, reagiu com uma inesperada repreensão:
Não gosto de aluna fofoqueira!
Enquanto ela dava as costas, indiferente a meus sentimentos, eu fiquei imóvel, face translúcida, peito oprimido e glote dilatada. As lagrimas não tardaram. Os soluços inconsoláveis também vieram acompanhar a reação. Não fora a primeira vez que a professora desprezara. No ano anterior, havia ela me beliscado durante a execução do hino nacional. Em 1983, o hino era cantado por todos os alunos uma vez por semana em posição de sentido e com hasteamento da bandeira nacional. Certamente eu estava fora do tom, mas não perguntei por que ela me beliscara e emudeci no mesmo instante. As outras crianças não se aborreciam ou choravam com qualquer coisa, porém, eu fora extremamente sensível e insegura e o resultado desse tipo de tratamento se reflete em minha vida adulta. Prevalece a indecisão, a ausência de iniciativa, o estado depressivo intercalado com rompantes de alegria e otimismo. Contudo, a “aluna fofoqueira” cresceu e aprendeu a se valorizar, embora as experiências do passado tivessem deixado danos ao emocional. Além disso, a mesma “aluna fofoqueira” sente aversão por fofoca. Ela somente não se permite cantar.
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