Meu chapéu!
A Verônica
está novamente repuxando os lábios para frente e para trás, como se a revisão
dos documentos dependesse, efusivamente, desses movimentos involuntários.
Dou uma
olhada de soslaio e vejo a Solange fazendo uma análise de métodos e tempos e
gesticulando “apanhar e colocar no lugar” para tentar não perder a ponta do fio
da meada.
E eu, olhando
para a tela do computador, tentando avaliar por que a análise foi feita desse
modo se não condiz com a realidade.
E olho por
cima do monitor, bem de fininho, para o meu supervisor, que – graças aos céus!
–, está usando seus fones de ouvido e isso me garante pelo menos uma hora de
sossego, sem que ele chame inventando mais uma planilha de controle para
gerenciar e evidenciar nosso desenvolvimento pessoal dentro do departamento.
(Quando foi
que me tornei tão observadora? Ou melhor, desde quando sou tão chata?).
Bem, voltando
ao que disse no início. “Meu chapéu!”
provém de algum continente longínquo da minha pré-adolescência, porque não
devíamos nos expressar por palavrões. Então, “meu chapéu!” corresponde a um bem colocado “filho-da-puta”, “caralho” e mais alguns do gênero. Ah! E não posso
me esquecer de que não se podia blasfemar. Dessa forma, “Meu Deus!” estava total e vergonhosamente fora de cogitação de uso.
Assim, o equivalente passou a ser o companheiro de todas as horas: “meu chapéu!”.
Além disso,
essa expressão é um ótimo coringa, pois pode ser usada como interjeição no caso
de alguém contar um episódio hilário, uma anedota. Basta aplicar a entonação
correta e... tchanam! Você consegue dar o devido valor que a piada merece.
Outra forma
bem atraente de usar “meu chapéu!” é
quando você não consegue verbalizar algo que tenha apreciado muito e em vez de
dizer que ficou sem palavras ou mencionar “que
legal”, você usa “meu chapéu!” e
faz parecer que você é muito inteligente e de opinião, tipo Marília Gabriela
entrevistando uma celebridade polêmica.
(Desculpe,
fui longe demais, não é?).
Bem, voltando
agora àquilo que estou fazendo no momento (ou que, pelo menos, estou tentando
fazer) que é cuidar da minha análise e não dos trejeitos faciais da minha
colega, resta muito pouco, pelo menos, uma fila de duzentas avaliações, e nesse
ritmo que estou conduzindo, terminarei antes da inauguração da nossa fábrica em
Marte (hum... parece próximo demais; acho melhor me garantir com a instalação
de uma filial em Urano).
Caí nesse
negócio de avaliar movimentos graças a meu inquestionável comprometimento
profissional, dinamismo, perspicácia industrial, flexibilidade e versatilidade.
Afinal, foi um cargo concorridíssimo, com meia pessoa (eu própria estava metade
concorrendo e a outra metade doida para dar no pé). Bem, tinha outra opção
bastante tentadora, que qualquer pessoa no meu lugar poderia afirmar como:
“essa nova atividade será importante para a minha carreira”. Ou isso, ou a fila
da Caixa.
(Sabem como
é, em tempos de crise.).
A propósito,
tem tanto funcionário disputando esse heroico lugar na fila do Seguro
Desemprego, que tem gente indo para as cidades vizinhas fazer o encaminhamento
da papelada. Parece que nossa cidade, por ser a maior do Estado, tem também um
maior número de adeptos do sistema de voluntariado do GLB (Grupo Dos Que
Levaram Um Pé Na Bunda).
Já me
alertaram de que o meu maior problema é foco. Então, acho melhor eu me
concentrar na análise de uma vez.
Acabo de
voltar do DOA – Departamento de Operações Arbitrárias. Calma, não é nenhum
ministério novo criado pelo governo federal para disfarçar a corrupção no país.
É apenas o chão de fábrica, onde encontramos as mais tenebrosas criaturas da
galáxia. Exatamente! Criaturas como eu e você, umas cheias de timidez, outras
sobrecarregadas de marras, com
milhões de pensamentos conflitantes.
Não sou
cinegrafista – longe disse um bilhão de anos-luz! Não tenho a menor vocação –,
mas levo minha câmera digital a tiracolo para filmar a atividade sendo
realizada e avaliar o tempo de execução. E verdade seja dita, sou sempre
educada (bom... talvez nem sempre, mas a maior parte do tempo) e explico para o
operador de produção qual o motivo de eu estar ali aborrecendo sua vida. Convém
explicar que sou um tanto ansiosa, ou talvez, oportunista, em casos assim, e
com um medo terrível de que o modelo que eu precise avaliar não seja mais fabricado
na linha de montagem nenhuma vez durante o século XXI, que cheguei diretamente
apontando minha arma letal contra o pobre operador. E, que legal, ele sentiu-se
intimidado e parou de trabalhar. Ficou lá com os braços cruzados, estático, me
passando um sermão sobre direitos de imagem. E eu, apatetada, estarrecida, pois
estreava na situação. Embaraçada, gaguejei as explicações que deveria dar a ele
antes de começar a filmagem. E enquanto meu hiato com o operador ocorria, perdi
a montagem do produto!
Vê o que
adianta a ansiedade: se tivesse feito o certo desde o início, teria conseguido
realizar meu trabalho no departamento de
operações arbitrárias da primeira vez. O lado bom da coisa é que eu
voltaria melhor guarnecida para a próxima cena de batalha.
Enquanto eu
me formava no curso Lidando com o Ego
Alheio, a Solange voltou inteiramente satisfeita por ter filmado cinco
postos de trabalho. Não é uma grande zombaria da vida uma situação como estas?
O operador
pensou o quê? Que eu estivesse filmando as tatuagens no corpo dele para
publicar em alguma rede social? O problema maior é que ele tinha razão (não!
Não entenda errado! Eu quis dizer que ele tinha razão, pois ninguém iria gostar
que filmassem seu trabalho sem explicar o motivo).
Lembro-me de
outra ocasião em que eu quase deixara a câmera desabar dentro de um produto,
ser embalada junto com o produto e chegar na casa do cliente, que iria ficar
satisfeito com o brinde que a fábrica generosamente enviara com sua compra.
(Eu não lhe
avisei desde o início que o meu forte não é foco?).
O supervisor
do departamento de operações arbitrárias
gritou atrás de mim algo como “O que você
está fazendo aí?” e eu, na cara-de-pau (ou no susto mesmo, vamos ser
realistas), lhe respondi “filmando”.
O homem agitou freneticamente os braços e me lançou um olhar de lutador de boxe
com sede de violência, que dizia “Isso eu
posso ver”.
Então, puxei
ar, me sentindo flagrada em atitude ilícita. Permaneci parada com a câmera na
direção do produto da minha filmagem, totalmente fora de ângulo, feito uma
estátua de cera. Um transeunte desprevenido poderia pensar que eu havia sido
embalsamada viva, tão estática eu estava.
O supervisor
daquela área se aproximou e acho que se compadeceu do meu aspecto esverdeado
(estava nauseada devido ao cagaço com o berro dele), e falou calmamente que é
de bom tom passar um rádio para ele toda vez que minha equipe fosse à sua linha
de montagem. Agradeci como se ele estivesse me fazendo um enorme favor (ele
acreditava com toda a confiança de que estava mesmo me prestando o maior favor
do planeta!) e continuei meu trabalho.
Como dizia
uma professora da minha época do ginásio (ensino fundamental atualmente, só
para constar; têm certos hábitos que a gente não perde, mesmo se atualizando):
cansei minha beleza, que já não é muita.
Embora eu
esteja profissional há mais de três anos, ainda não estou segura de que
realmente domino minha atividade.
Estranhou o “esteja profissional”? Pior que é isso
mesmo. Eu não tenho profissão, assim como um frentista, um motorista, um
mecânico, uma manicure, uma empregada doméstica, porque eu sou (e aqui vale
mesmo a flexão do verbo ser) auxiliar
administrativa, o que em termos realmente práticos, é o mesmo que NPD, ou seja,
Nenhuma Profissão Definida.
(Perdoem-me
todos os colegas dessa profissão de extremada e vital importância. Mas não é a
mais pura verdade? Não somos pau pra toda obra? Quando o bicho pega, quem é que
vai resolver a pendenga? O auxiliar administrativo, nem que tenha que ele
próprio por mãos à obra.)
Muitas vezes
somos a Tia do Café, seres iluminados de tamanha bonomia. Outras vezes, agimos
como o mais cruel dos cobradores, azucrinando a vida de nossos clientes
inadimplentes com ligações quase diárias. Há quem nos compare com o substituto
do chefe quando quer pedir um adiantamento no momento em que estamos como auxiliar de recursos
humanos, e outros juram de joelhos dobrados que somos os responsáveis para
resolver as reclamações dos clientes. Ah! Tem também a parte do telefonista barra recepcionista e os
talentos de contador e agente financeiro.
Meu chapéu! E
aqui tome isso como uma expressão de completa admiração. Acredite. Já vivi esse
drama na pele, na carne, no osso e até no espírito.
E outra, sabe
por que nos “batizam” de auxiliar administrativo, não sabe? Porque é mais
barato, porque os impostos são menores. Nem sempre a CLT (consolidação das leis
trabalhistas) é justa. Quisera Getúlio Vargas que fosse assim quando instituiu
as leis favorecendo a classe trabalhadora. Pena não ter sido beatificado ou coisa
do gênero.
Imagine um
auxiliar administrativo antes das leis do trabalho. Seria um office boy pela
madrugada, um chefe da equipe de limpeza no turno matutino (no caso, a equipe é
o próprio auxiliar administrativo), o cozinheiro na hora do almoço, um contador
e assistente financeiro na parte da tarde, faria o inventário do estoque
durante o noturno, sem direito a vale-refeição, vale-transporte, lanche, horas
extras e para completar deveria servir as excentricidades do patrão nas horas
improvavelmente vagas. Não duvido que as horas de descanso entre um dia e outro
ainda lhe fossem descontadas do salário que os patrões lhe fazem o favor de
pagar.
Ah, quando é
que vou corrigir a minha falta de foco? Ouvi dizer que pau que nasce torto,
morre torto, então não tem remédio nem terapia de choque que resolva. Mas será
que quando chegava a hora de eu vir ao mundo, eu já tinha tantas prioridades
para perder o foco, tipo: minha mãe no limite das dilatações suportáveis para
eu nascer, eu me preocupasse com o que deixaria lá dentro do útero? E aí minha
mãe tivesse que me dar uma palmada por sobre a barriga, tipo uma “pedalada”
para me lembrar de que ela estava toda arregaçada aguardando por mim? Isso
explicaria a intervenção. “Cesariana na criança, porque ela perdeu o foco do
seu nascimento!”.
Mas eu quero
mesmo lhe dizer sobre a minha “lida” atual. Não é assim que autores como
Bernardo Guimarães ou Machado de Assis se referiam aos afazeres profissionais,
mesmo para os escravos? Então, minha lida é essa de assistir vídeo. Bem, videozinhos,
por assim dizer, amadores, desprovidos de efeitos especiais e narrados pela
minha grave-sotaque-indefinida-voz. Estou perdendo dinheiro. Poderia usar
minhas cordas vocais nas traduções contextualizadas do Google.
“Ah, que
legal”, disse eu certa vez, sem qualquer entonação, o que me rendeu a alcunha
de “Voz do Google”, dentre meus fãs, uma equipe inteira (bom, cinco pessoas, e
entenda que é uma equipe inteira) e um ou dois simpatizantes de outras áreas.
Você
provavelmente imagina que eu passe os dias inteiros assim, devaneando enquanto
o serviço espera? Poxa, assim você me magoa profundamente. (Psiu? Você por
acaso tem um bola de cristal aí? E a bateria dela está carregada? Parece que
você me conhece há anos e eu fiquei emocionada de tão honrada).
(“Meu
chapéu!”, penso, me pavoneando como balões inflados a gás).
E eu nem
cheguei ainda a contar sobre minhas atrocidades linguísticas quando trabalhava
em uma central de ordens de serviço.
Desculpe pela
enésima interrupção.
Eu estava
dizendo que faço vídeos amadores, baixo no computador e assisto as operações de
uma linha de montagem. Pois bem, preciso analisar cada movimento, calcular a
distância entre uma operação ou outra, aplicar o grau de dificuldade de uma
“pega” e transformar isso em um código para o sistema calcular o tempo de
execução. Ah! Mas não se preocupe, pois não pretendo dar treinamento a ninguém.
Agora vou lhe
explicar por que é tão difícil manter o foco. Estou com a página da avaliação
aberta em uma janela no computador e o vídeo em outra. Deixo o vídeo seguir até
a finalização de um movimento, retrocedo, assisto novamente, dou uma pausa e
avalio. Pronto. Duas horas depois consigo entender que o movimento em questão é
de “pega” difícil, que o “colocar no lugar” tem um nível de precisão, que a
faixa de distância é acima de vinte centímetros, que quatro ciclos de
movimentos são necessários para complementar a tarefa e que são necessários
dois movimentos de força para encaixe. Ah! Mas a peça não pode aparecer como
mágica na mão do operador. Esqueço-me de calcular a distância em passos que ele
precisa para chegar até o estoque de peças e retornar para o posto de montagem.
Enfim, está aí, tudinho marcado na minha memória que muita gente diz que é como
de elefante (mas eu duvido, às vezes). Começo a garimpar o sistema atrás do
programa de tempo correto para a atividade que acabo de analisar. Enquanto
minhas escavações arqueológicas prosseguem, infrutíferas, um colega vem ao lado
e reclama que o condicionador de ar começou a derramar água.
Gostaria
muito de lhe dizer que mandei meu colega plantar bananeira e que eu não sou
técnica em refrigeração, mas, usando a coroa da Rainha da Perda de Foco,
respondo a ele que vou abrir uma nota. Quando ele se afasta, observo ao meu
redor (não é a primeira vez que isso ocorre e já sei o que está prestes a
acontecer) e vejo subir da cabeça da Solange borbulhas ferventes de ira
vulcânica.
–
Que abusado! – ela entra em erupção e eu corro
até o alto do vale para me proteger da lava incandescente de seu olhar.
Penso que
estou em segurança e retorno para meu lugar. Percebo, então, que a Cintia está
na moda O Incrível Hulk, com o atentado do meu colega ao andamento da atividade
para a qual eu sou remunerada. E reflito que se ela fosse o Superman, eu teria alguma chance de me
defender de algum ataque de lealdade conseguindo um estoque de criptonitas nos
estúdios de gravação do seriado Smalville.
Afinal,
descobri o código de identificação do aparelho e abri a nota. E agora, posso
abrir novamente minha tela de análise e prosseguir com...
Ops! Onde eu
estava mesmo? Ai, acho que fui dar um pulinho em Saturno, voltei mareada com a
órbita dos anéis em torno do planeta e larguei todo o meu raciocínio anterior
gravitacionando no espaço sideral.
Corajosamente,
retomo meu trabalho, mas em vez de continuar, tenho de voltar ao meridiano de
Greenwich, ou seja, ao ponto zero outra vez.
Teve épocas
em que eu fui, indubitavelmente, irresponsável no mundo profissional. Hoje sou
o oposto, meio Caxias, por assim dizer. Mas quem era meu conselheiro nessa
época da Idade da Pedra? Sim, acertou: a falta de foco.
Lembro-me de
que havia rivalidade entre as turmas do segundo grau noturno (tá bom, esqueci,
é ensino médio), por motivo da gincana para angariar brindes para a festa
junina da escola. E eu trabalhava na escola – meio período, mas trabalhava (ao
menos eu achava que estava começando a ter uma carreira profissional).
Bem, enquanto
isso, uma aluna da sala rival trabalhava na escola também no outro turno, e
havia dias da semana em que dávamos expediente juntas.
Já pode
imaginar o que aconteceu? Então, deixei que a rivalidade viesse à tona entre
nós e como eu nunca fui boa de argumentação, fiquei umas dúzias de pilhas de
nervos e chorei. Meu chapéu! (Na verdade, quero dizer: “Que coisa mais
infantil!”). E pior: avisei a secretária da escola que eu não estava me
sentindo bem e que ia embora.
Imagine que
pessoa mais sem noção. Saí logo
informando que iria embora mais cedo. Perceba que meu expediente era de quatro
horas e eu não fui capaz de aguentar mais uma hora para voltar para casa
choramingando por não ser uma pessoa de opinião. E acho que jamais teria
percebido isso se não fosse a lição verbal que ouvi de minha mãe quando ela me
viu chegando em casa mais cedo. Não me lembro de absolutamente nenhuma palavra do
que ela tenha dito, mas deve ter surtido efeito, pois eu nunca mais saí do
emprego por uma bobagem dessas. Isso mesmo! Por causa de assunto gincana, nunca
mais mesmo, verdade!
Entretanto,
teve vezes que eu soltei meu vocabulário em cima de um cliente, esmaguei um
documento importante na frente da minha chefe, fui a uma entrevista de emprego
bem no primeiro dia em que eu deveria cobrir férias de uma colega do
financeiro, bati a porta do departamento até quase se soltar dos caixilhos, vi
e imprimi mensagens de e-mails – dessas que quase fazem a gente chorar –, e levei
para casa para colecionar (ufa! Larguei esse vício anos depois quando percebi
que dois roupeiros e uma cômoda já não comportavam tanto papel. Acho que essa
mania nasceu por causa das coleções de papel de carta que todo mundo na minha
sala de aula do ensino fundamental – acertei! – fazia e eu nunca me iludi
porque só meu pai trabalhava e eu não me sentia no direito de pedir dinheiro a
ele para um souvenir como esses, mas isso é uma história para outro livro).
Resumindo, a
falta de foco estava realmente no trabalho. Todos os outros detalhes da vida e
da convivência eram prioridade.
Quando vi que
esse negócio de análise de método tornava meu ânimo glacial como a Era do Gelo
e eu me vi perseguindo minha noz por todo o meu labirinto cerebral, procurei
meu superlegal (minha aglutinação
para supervisor + legal) recém-nomeado (minha área nunca antes tivera
supervisor e nos reportávamos diretamente ao chefe do departamento) para lhe
informar de que meu aprendizado está em um nível próximo do péssimo,
justificando que não vou alcançar os resultados previstos.
Imaginei que
usando a honestidade como subterfúgio, ele poderia desistir de mim e mandar
treinar outra pessoa, enquanto eu retornava ao meu antigo cargo de revisora de
instrução de trabalho. E não pense que o superlegal
me criticou, dizendo aquelas coisas esperadas de chefes, como as afamadas
mijadas. Nada disso. Ele, ao ouvir minhas lamentações, me encorajou e ainda
afirmou que daqui a uns três meses vou estar melhor do que esse pessoal que já
tem experiência de anos.
Que ultraje!
Afinal, não se fazem mais supervisores como antigamente, daqueles que tratam o
subalterno como uma tropa de cavalo xucro, na base do arreio e do grito, ou
daqueles chefes indecisos e insatisfeitos, que nunca o trabalho ou os lucros
estão de acordo com o aguardado?
Bem, admito:
perdi essa batalha para o meu histórico, ou seja, a da profissional que não
rejeita serviço e aprende bem qualquer função que lhe ensinem. E acredite, em
vez de sair da sala do superlegal com
grilhões nos pés para não sair flutuando sob o efeito do meu ego superinflado,
me senti esmagada pela gravidade.
Afinal,
quanto mais aprendo sobre mim, menos eu me entendo.
Meu chapéu!
Essa vale para “Que porra!”, com todo
respeito.
Estou diante
da página da análise de método. Não outro posto de trabalho, absolutamente, mas
a mesma que comecei com você há dois dias. E juro para você que vou manter o
foco do início ao final.
Que é isso, Edilene?
Você tá fazendo algum feitiço? – pergunta a Verônica, com olhar de puro
divertimento.
Eu ri, porque
parecia mesmo um gesto dos aprendizes de bruxo da escola de magia de Hogwarts, da saga Harry Potter. Na verdade,
eu estava repetindo um gesto em que o operador colava uma fita duplaface em
torno de uma peça e tentava avaliar esse movimento circular. E parecia, ao
espectador externo, que eu estava agitando uma varinha invisível no ar e
murmurando algum encantamento.
Bem que eu
poderia ter a determinação voraz de leitura da Hermione Granger para devorar minha apostila de método, ou talvez
sua perspicácia insalubre para solucionar mistérios. Poderia até pedir a ela
emprestado o Viratempo para acelerar
o meu aprendizado, alterando o tempo para eu estar em várias fases
simultaneamente (felizmente eu não teria de enfrentar uma aula sobre Criaturas Mágicas e nem salvar nenhum hipogrifo).
Ah, meus
tempos de atendente de ordens de serviço. Monitorava a produção das máquinas e
em caso de quebra cumpria a cadeia de ajuda: abrir nota, chamar
mecânico/ferramenteiro/eletricista e informar supervisores e chefes. Mal sabia
falar ao rádio (ainda posso me lembrar do iceberg na barriga quando precisava
utilizar o rádio nas primeiras chamadas).
O pessoal da
manutenção, sempre com atendimento diplomático tipo Jurassic Park (acontece que os bichinhos do filme perdiam feio para
a ferocidade desse pessoal), reclamava que eu falava demais no rádio. Que
minhas polidas frases – O senhor poderia,
por gentileza, atender a máquina X, que está parada devido ao defeito Y? –,
eram de péssima escolha quando eles estavam enfurnados dentro de um molde, ou
de bruços dentro de uma máquina em algum local abaixo da linha dos joelhos e
com as mãos ocupadas com ferramentas, isso nos melhores casos.
Aí, empenhada
em fazer valer a seleção da minha pessoa no recrutamento interno, fui
apresentada ao lado tosco da minha psique: Fulano
na escuta. Máquina X parada, peça trancada na estação Y, parada de linha de
montagem em dez minutos. (Aplausos!).
Meu chapéu!
Perdi meu foco no corredor e quando me dei conta, vi que ele ficou esmagado
pela empilhadeira.
Pronto.
Resgatei o meu Foco (que ficara reduzido a uma folha de papel amarrotada),
tratei de seus ferimentos e convidei-o para auxiliar no relacionamento com meu
novíssimo Desafio. E, digo-lhe, com muita satisfação, que desta vez consegui
finalizar a avaliação do posto de trabalho.
Agora, partiu
próximo posto (com hash tag, para
fazer bonito).
De volta ao
DOA – departamento de operações
arbitrárias, e sem a preguiça provocada pelos cinquenta graus centígrados dentro
da fábrica, trato de contratar mais uma modelo exclusiva para a passarela da
montagem de um produto de ponta, a Srta. Operadora de Produção da Silva, que
fez a gentileza de nomear os bois – ou melhor, as peças –, me apresentando aos
batentes, borrachas, parafusos sextavados, chaves phillips, parafusadeiras
múltiplas, rodapés, etc, etc, além de explicar todas as atividades que executa
no detalhe. Sem imprevistos desta vez, nem ninguém me acusando de uso indevido
de imagens, voltei à minha sala e botei a engrenagem cerebral na quinta marcha,
disparando pela fiação elétrica do sistema neurológico.
Agora passei
a traçar o meu mapa de raciocínio (ideia brilhante, não acha?) e mesmo que
ocorra alguma interferência externa, continuo a articular a avaliação sem
medos. Poderia aparecer a sombra de As
Luzes de Setembro, que não conseguiria me causar distração.
Vencida essa
etapa, passei para a conferência de uma pessoa com uma vasta experiência – oito
meses (qualquer pessoa com mais de duas semanas de atuação eu consideraria
experiente ao extremo). Minha professora
barra conferente barra colega confere movimento aqui, confere movimento
ali, e minha sensação de brilhantismo vai esmorecendo, murchando feito um
balão. O sentimento de “Merda! Você não
aprende mesmo!” começa a me dominar, massacrando meu ânimo. Quem foi que
disse que seria fácil, hein? E a correção foi criada para crescimento e
aprendizado, mas não concorda que dá um baixo astral?
Então me
lembro da época em que trabalhei em um call center. Adorava trabalhar naquela
atividade. Eu, por vezes, me achava incrível (guardei a modéstia dentro da
gaveta e passei a chave), porque eu fazia atualizações de cadastro e todo mês
eu estava no topo do ranking, realizando mais que o dobro que todas as
atendentes juntas. Contudo, até chegar a esse nível melhorado, foi sofrido como
arar milhares de hectares de terra para o plantio e cuidar da plantação até a
chegada da colheita.
Eu ficava na
escuta do telefone que a atendente barra
professora me treinava no script da coisa. “Posso dar conta disso”,
jubilei, mas quando foi minha vez de atender, eu penava mais do que aprender a
guiar um veículo. Até o boa tarde,
tudo ia bem. Acontece que o cliente não conhece script. Poxa, deveria existir
uma cartilha para saber o que perguntar em uma ligação para um setor de
atendimento telefônico, tipo: primeiro você se identifica, depois diz o que
precisa, depois recebe as informações, escuta, diz até logo e desliga, sem
desvios. Nem tudo é perfeito.
E como o
cliente não seguia o script, eu me embananava toda. Em vez de pesquisar no
sistema, escutava o cliente e quando ele terminava de falar, eu já tinha
esquecido o que ele pedira. E isso tudo porque quando você está sob
treinamento, você se folga, confiando que a pessoa que treina irá salvar você
na hora certa, como na autoescola quando o instrutor usa o freio do passageiro
antes que a gente saia cruzando a frente de outro veículo. Só que eu não
contava com a impaciência e severidade dela (acho que ela havia tido umas aulas
com o Severo Snape, corrigindo Harry Potter em sua aula de poções).
Eu tinha
acabado de superar uma depressão, doença que parece desativar a autoconfiança e
soterrar a sua autoestima. A doença havia sido provocada por trabalhar em um
emprego anterior embaixo de berros, humilhações e de os patrões acharem que
estavam lhe fazendo um favor pagando seu salário, que era mais baixo que o da
funcionária da limpeza (lembra o que lhe falei a respeito do auxiliar
administrativo ser uma profissão miseravelmente sem reconhecimento digno?).
A
profissional do call center nunca berrou comigo, nem me humilhou. O problema é
que eu me sentia tão pouco importante, tão bestamente fazendo número nesse
mundo, que travei durante as dezenas de primeiras ligações lastimáveis (pobres
daqueles clientes; eram todos uns santos em pessoa, e digo isso com
sinceridade).
Eu não dava
certo de jeito nenhum, até que certo dia, como não havia atendentes em número
suficiente devido a folgas, férias e absenteísmo, a minha treinadora foi
obrigada a atender para agilizar a demanda, sendo que eu esbarrei no muro mais
alto da minha existência. Ou voltava, derrotada, ou subia e pulava o muro. E
antes que minha barriga entrasse em pânico, cliquei no ícone e a ligação caiu
no meu ramal. E foi uma bênção, porque o cliente conhecia o nosso script, então
facilitou as coisas. Quando me despedi, uma sensação balsâmica começou a se
espalhar no meu corpo. E dali em diante, foi só alegria. Desliguei-me da
empresa apenas por causa do salário, e onde fui parar na produção de uma
fábrica. E agora estou aqui, soterrada novamente pela incapacidade inicial de
aprender.
Eu me sinto
como um peixe de água salgada preso dentro de um aquário. Eis aí uma
descoberta: a falta do Sr. Foco Aparecido da Luz pode significar que estou
realmente deslocada em matéria de profissão.