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Joinville, Santa Catarina, Brazil

HUMOR - MEU CHAPÉU!


 MEU CHAPÉU!

Meu chapéu!
A Verônica está novamente repuxando os lábios para frente e para trás, como se a revisão dos documentos dependesse, efusivamente, desses movimentos involuntários.
Dou uma olhada de soslaio e vejo a Solange fazendo uma análise de métodos e tempos e gesticulando “apanhar e colocar no lugar” para tentar não perder a ponta do fio da meada.
E eu, olhando para a tela do computador, tentando avaliar por que a análise foi feita desse modo se não condiz com a realidade.
E olho por cima do monitor, bem de fininho, para o meu supervisor, que – graças aos céus! –, está usando seus fones de ouvido e isso me garante pelo menos uma hora de sossego, sem que ele chame inventando mais uma planilha de controle para gerenciar e evidenciar nosso desenvolvimento pessoal dentro do departamento.
(Quando foi que me tornei tão observadora? Ou melhor, desde quando sou tão chata?).
Bem, voltando ao que disse no início. “Meu chapéu!” provém de algum continente longínquo da minha pré-adolescência, porque não devíamos nos expressar por palavrões. Então, “meu chapéu!” corresponde a um bem colocado “filho-da-puta”, “caralho” e mais alguns do gênero. Ah! E não posso me esquecer de que não se podia blasfemar. Dessa forma, “Meu Deus!” estava total e vergonhosamente fora de cogitação de uso. Assim, o equivalente passou a ser o companheiro de todas as horas: “meu chapéu!”.
Além disso, essa expressão é um ótimo coringa, pois pode ser usada como interjeição no caso de alguém contar um episódio hilário, uma anedota. Basta aplicar a entonação correta e... tchanam! Você consegue dar o devido valor que a piada merece.
Outra forma bem atraente de usar “meu chapéu!” é quando você não consegue verbalizar algo que tenha apreciado muito e em vez de dizer que ficou sem palavras ou mencionar “que legal”, você usa “meu chapéu!” e faz parecer que você é muito inteligente e de opinião, tipo Marília Gabriela entrevistando uma celebridade polêmica.
(Desculpe, fui longe demais, não é?).
Bem, voltando agora àquilo que estou fazendo no momento (ou que, pelo menos, estou tentando fazer) que é cuidar da minha análise e não dos trejeitos faciais da minha colega, resta muito pouco, pelo menos, uma fila de duzentas avaliações, e nesse ritmo que estou conduzindo, terminarei antes da inauguração da nossa fábrica em Marte (hum... parece próximo demais; acho melhor me garantir com a instalação de uma filial em Urano).
Caí nesse negócio de avaliar movimentos graças a meu inquestionável comprometimento profissional, dinamismo, perspicácia industrial, flexibilidade e versatilidade. Afinal, foi um cargo concorridíssimo, com meia pessoa (eu própria estava metade concorrendo e a outra metade doida para dar no pé). Bem, tinha outra opção bastante tentadora, que qualquer pessoa no meu lugar poderia afirmar como: “essa nova atividade será importante para a minha carreira”. Ou isso, ou a fila da Caixa.
(Sabem como é, em tempos de crise.).
A propósito, tem tanto funcionário disputando esse heroico lugar na fila do Seguro Desemprego, que tem gente indo para as cidades vizinhas fazer o encaminhamento da papelada. Parece que nossa cidade, por ser a maior do Estado, tem também um maior número de adeptos do sistema de voluntariado do GLB (Grupo Dos Que Levaram Um Pé Na Bunda).
Já me alertaram de que o meu maior problema é foco. Então, acho melhor eu me concentrar na análise de uma vez.



Acabo de voltar do DOA – Departamento de Operações Arbitrárias. Calma, não é nenhum ministério novo criado pelo governo federal para disfarçar a corrupção no país. É apenas o chão de fábrica, onde encontramos as mais tenebrosas criaturas da galáxia. Exatamente! Criaturas como eu e você, umas cheias de timidez, outras sobrecarregadas de marras, com milhões de pensamentos conflitantes.
Não sou cinegrafista – longe disse um bilhão de anos-luz! Não tenho a menor vocação –, mas levo minha câmera digital a tiracolo para filmar a atividade sendo realizada e avaliar o tempo de execução. E verdade seja dita, sou sempre educada (bom... talvez nem sempre, mas a maior parte do tempo) e explico para o operador de produção qual o motivo de eu estar ali aborrecendo sua vida. Convém explicar que sou um tanto ansiosa, ou talvez, oportunista, em casos assim, e com um medo terrível de que o modelo que eu precise avaliar não seja mais fabricado na linha de montagem nenhuma vez durante o século XXI, que cheguei diretamente apontando minha arma letal contra o pobre operador. E, que legal, ele sentiu-se intimidado e parou de trabalhar. Ficou lá com os braços cruzados, estático, me passando um sermão sobre direitos de imagem. E eu, apatetada, estarrecida, pois estreava na situação. Embaraçada, gaguejei as explicações que deveria dar a ele antes de começar a filmagem. E enquanto meu hiato com o operador ocorria, perdi a montagem do produto!
Vê o que adianta a ansiedade: se tivesse feito o certo desde o início, teria conseguido realizar meu trabalho no departamento de operações arbitrárias da primeira vez. O lado bom da coisa é que eu voltaria melhor guarnecida para a próxima cena de batalha.
Enquanto eu me formava no curso Lidando com o Ego Alheio, a Solange voltou inteiramente satisfeita por ter filmado cinco postos de trabalho. Não é uma grande zombaria da vida uma situação como estas?
O operador pensou o quê? Que eu estivesse filmando as tatuagens no corpo dele para publicar em alguma rede social? O problema maior é que ele tinha razão (não! Não entenda errado! Eu quis dizer que ele tinha razão, pois ninguém iria gostar que filmassem seu trabalho sem explicar o motivo).
Lembro-me de outra ocasião em que eu quase deixara a câmera desabar dentro de um produto, ser embalada junto com o produto e chegar na casa do cliente, que iria ficar satisfeito com o brinde que a fábrica generosamente enviara com sua compra.
(Eu não lhe avisei desde o início que o meu forte não é foco?).
O supervisor do departamento de operações arbitrárias gritou atrás de mim algo como “O que você está fazendo aí?” e eu, na cara-de-pau (ou no susto mesmo, vamos ser realistas), lhe respondi “filmando”. O homem agitou freneticamente os braços e me lançou um olhar de lutador de boxe com sede de violência, que dizia “Isso eu posso ver”.
Então, puxei ar, me sentindo flagrada em atitude ilícita. Permaneci parada com a câmera na direção do produto da minha filmagem, totalmente fora de ângulo, feito uma estátua de cera. Um transeunte desprevenido poderia pensar que eu havia sido embalsamada viva, tão estática eu estava.
O supervisor daquela área se aproximou e acho que se compadeceu do meu aspecto esverdeado (estava nauseada devido ao cagaço com o berro dele), e falou calmamente que é de bom tom passar um rádio para ele toda vez que minha equipe fosse à sua linha de montagem. Agradeci como se ele estivesse me fazendo um enorme favor (ele acreditava com toda a confiança de que estava mesmo me prestando o maior favor do planeta!) e continuei meu trabalho.
Como dizia uma professora da minha época do ginásio (ensino fundamental atualmente, só para constar; têm certos hábitos que a gente não perde, mesmo se atualizando): cansei minha beleza, que já não é muita.


Embora eu esteja profissional há mais de três anos, ainda não estou segura de que realmente domino minha atividade.
Estranhou o “esteja profissional”? Pior que é isso mesmo. Eu não tenho profissão, assim como um frentista, um motorista, um mecânico, uma manicure, uma empregada doméstica, porque eu sou (e aqui vale mesmo a flexão do verbo ser) auxiliar administrativa, o que em termos realmente práticos, é o mesmo que NPD, ou seja, Nenhuma Profissão Definida.
(Perdoem-me todos os colegas dessa profissão de extremada e vital importância. Mas não é a mais pura verdade? Não somos pau pra toda obra? Quando o bicho pega, quem é que vai resolver a pendenga? O auxiliar administrativo, nem que tenha que ele próprio por mãos à obra.)
Muitas vezes somos a Tia do Café, seres iluminados de tamanha bonomia. Outras vezes, agimos como o mais cruel dos cobradores, azucrinando a vida de nossos clientes inadimplentes com ligações quase diárias. Há quem nos compare com o substituto do chefe quando quer pedir um adiantamento no momento em que estamos como auxiliar de recursos humanos, e outros juram de joelhos dobrados que somos os responsáveis para resolver as reclamações dos clientes. Ah! Tem também a parte do telefonista barra recepcionista e os talentos de contador e agente financeiro.
Meu chapéu! E aqui tome isso como uma expressão de completa admiração. Acredite. Já vivi esse drama na pele, na carne, no osso e até no espírito.
E outra, sabe por que nos “batizam” de auxiliar administrativo, não sabe? Porque é mais barato, porque os impostos são menores. Nem sempre a CLT (consolidação das leis trabalhistas) é justa. Quisera Getúlio Vargas que fosse assim quando instituiu as leis favorecendo a classe trabalhadora. Pena não ter sido beatificado ou coisa do gênero.
Imagine um auxiliar administrativo antes das leis do trabalho. Seria um office boy pela madrugada, um chefe da equipe de limpeza no turno matutino (no caso, a equipe é o próprio auxiliar administrativo), o cozinheiro na hora do almoço, um contador e assistente financeiro na parte da tarde, faria o inventário do estoque durante o noturno, sem direito a vale-refeição, vale-transporte, lanche, horas extras e para completar deveria servir as excentricidades do patrão nas horas improvavelmente vagas. Não duvido que as horas de descanso entre um dia e outro ainda lhe fossem descontadas do salário que os patrões lhe fazem o favor de pagar.
Ah, quando é que vou corrigir a minha falta de foco? Ouvi dizer que pau que nasce torto, morre torto, então não tem remédio nem terapia de choque que resolva. Mas será que quando chegava a hora de eu vir ao mundo, eu já tinha tantas prioridades para perder o foco, tipo: minha mãe no limite das dilatações suportáveis para eu nascer, eu me preocupasse com o que deixaria lá dentro do útero? E aí minha mãe tivesse que me dar uma palmada por sobre a barriga, tipo uma “pedalada” para me lembrar de que ela estava toda arregaçada aguardando por mim? Isso explicaria a intervenção. “Cesariana na criança, porque ela perdeu o foco do seu nascimento!”.
Mas eu quero mesmo lhe dizer sobre a minha “lida” atual. Não é assim que autores como Bernardo Guimarães ou Machado de Assis se referiam aos afazeres profissionais, mesmo para os escravos? Então, minha lida é essa de assistir vídeo. Bem, videozinhos, por assim dizer, amadores, desprovidos de efeitos especiais e narrados pela minha grave-sotaque-indefinida-voz. Estou perdendo dinheiro. Poderia usar minhas cordas vocais nas traduções contextualizadas do Google.
“Ah, que legal”, disse eu certa vez, sem qualquer entonação, o que me rendeu a alcunha de “Voz do Google”, dentre meus fãs, uma equipe inteira (bom, cinco pessoas, e entenda que é uma equipe inteira) e um ou dois simpatizantes de outras áreas.
Você provavelmente imagina que eu passe os dias inteiros assim, devaneando enquanto o serviço espera? Poxa, assim você me magoa profundamente. (Psiu? Você por acaso tem um bola de cristal aí? E a bateria dela está carregada? Parece que você me conhece há anos e eu fiquei emocionada de tão honrada).
(“Meu chapéu!”, penso, me pavoneando como balões inflados a gás).
E eu nem cheguei ainda a contar sobre minhas atrocidades linguísticas quando trabalhava em uma central de ordens de serviço.
Desculpe pela enésima interrupção.
Eu estava dizendo que faço vídeos amadores, baixo no computador e assisto as operações de uma linha de montagem. Pois bem, preciso analisar cada movimento, calcular a distância entre uma operação ou outra, aplicar o grau de dificuldade de uma “pega” e transformar isso em um código para o sistema calcular o tempo de execução. Ah! Mas não se preocupe, pois não pretendo dar treinamento a ninguém.
Agora vou lhe explicar por que é tão difícil manter o foco. Estou com a página da avaliação aberta em uma janela no computador e o vídeo em outra. Deixo o vídeo seguir até a finalização de um movimento, retrocedo, assisto novamente, dou uma pausa e avalio. Pronto. Duas horas depois consigo entender que o movimento em questão é de “pega” difícil, que o “colocar no lugar” tem um nível de precisão, que a faixa de distância é acima de vinte centímetros, que quatro ciclos de movimentos são necessários para complementar a tarefa e que são necessários dois movimentos de força para encaixe. Ah! Mas a peça não pode aparecer como mágica na mão do operador. Esqueço-me de calcular a distância em passos que ele precisa para chegar até o estoque de peças e retornar para o posto de montagem. Enfim, está aí, tudinho marcado na minha memória que muita gente diz que é como de elefante (mas eu duvido, às vezes). Começo a garimpar o sistema atrás do programa de tempo correto para a atividade que acabo de analisar. Enquanto minhas escavações arqueológicas prosseguem, infrutíferas, um colega vem ao lado e reclama que o condicionador de ar começou a derramar água.
Gostaria muito de lhe dizer que mandei meu colega plantar bananeira e que eu não sou técnica em refrigeração, mas, usando a coroa da Rainha da Perda de Foco, respondo a ele que vou abrir uma nota. Quando ele se afasta, observo ao meu redor (não é a primeira vez que isso ocorre e já sei o que está prestes a acontecer) e vejo subir da cabeça da Solange borbulhas ferventes de ira vulcânica.
      Que abusado! – ela entra em erupção e eu corro até o alto do vale para me proteger da lava incandescente de seu olhar.
Penso que estou em segurança e retorno para meu lugar. Percebo, então, que a Cintia está na moda O Incrível Hulk, com o atentado do meu colega ao andamento da atividade para a qual eu sou remunerada. E reflito que se ela fosse o Superman, eu teria alguma chance de me defender de algum ataque de lealdade conseguindo um estoque de criptonitas nos estúdios de gravação do seriado Smalville.
Afinal, descobri o código de identificação do aparelho e abri a nota. E agora, posso abrir novamente minha tela de análise e prosseguir com...
Ops! Onde eu estava mesmo? Ai, acho que fui dar um pulinho em Saturno, voltei mareada com a órbita dos anéis em torno do planeta e larguei todo o meu raciocínio anterior gravitacionando no espaço sideral.
Corajosamente, retomo meu trabalho, mas em vez de continuar, tenho de voltar ao meridiano de Greenwich, ou seja, ao ponto zero outra vez.


Teve épocas em que eu fui, indubitavelmente, irresponsável no mundo profissional. Hoje sou o oposto, meio Caxias, por assim dizer. Mas quem era meu conselheiro nessa época da Idade da Pedra? Sim, acertou: a falta de foco.
Lembro-me de que havia rivalidade entre as turmas do segundo grau noturno (tá bom, esqueci, é ensino médio), por motivo da gincana para angariar brindes para a festa junina da escola. E eu trabalhava na escola – meio período, mas trabalhava (ao menos eu achava que estava começando a ter uma carreira profissional).
Bem, enquanto isso, uma aluna da sala rival trabalhava na escola também no outro turno, e havia dias da semana em que dávamos expediente juntas.
Já pode imaginar o que aconteceu? Então, deixei que a rivalidade viesse à tona entre nós e como eu nunca fui boa de argumentação, fiquei umas dúzias de pilhas de nervos e chorei. Meu chapéu! (Na verdade, quero dizer: “Que coisa mais infantil!”). E pior: avisei a secretária da escola que eu não estava me sentindo bem e que ia embora.
Imagine que pessoa mais sem noção. Saí logo informando que iria embora mais cedo. Perceba que meu expediente era de quatro horas e eu não fui capaz de aguentar mais uma hora para voltar para casa choramingando por não ser uma pessoa de opinião. E acho que jamais teria percebido isso se não fosse a lição verbal que ouvi de minha mãe quando ela me viu chegando em casa mais cedo. Não me lembro de absolutamente nenhuma palavra do que ela tenha dito, mas deve ter surtido efeito, pois eu nunca mais saí do emprego por uma bobagem dessas. Isso mesmo! Por causa de assunto gincana, nunca mais mesmo, verdade!
Entretanto, teve vezes que eu soltei meu vocabulário em cima de um cliente, esmaguei um documento importante na frente da minha chefe, fui a uma entrevista de emprego bem no primeiro dia em que eu deveria cobrir férias de uma colega do financeiro, bati a porta do departamento até quase se soltar dos caixilhos, vi e imprimi mensagens de e-mails – dessas que quase fazem a gente chorar –, e levei para casa para colecionar (ufa! Larguei esse vício anos depois quando percebi que dois roupeiros e uma cômoda já não comportavam tanto papel. Acho que essa mania nasceu por causa das coleções de papel de carta que todo mundo na minha sala de aula do ensino fundamental – acertei! – fazia e eu nunca me iludi porque só meu pai trabalhava e eu não me sentia no direito de pedir dinheiro a ele para um souvenir como esses, mas isso é uma história para outro livro).
Resumindo, a falta de foco estava realmente no trabalho. Todos os outros detalhes da vida e da convivência eram prioridade.


Quando vi que esse negócio de análise de método tornava meu ânimo glacial como a Era do Gelo e eu me vi perseguindo minha noz por todo o meu labirinto cerebral, procurei meu superlegal (minha aglutinação para supervisor + legal) recém-nomeado (minha área nunca antes tivera supervisor e nos reportávamos diretamente ao chefe do departamento) para lhe informar de que meu aprendizado está em um nível próximo do péssimo, justificando que não vou alcançar os resultados previstos.
Imaginei que usando a honestidade como subterfúgio, ele poderia desistir de mim e mandar treinar outra pessoa, enquanto eu retornava ao meu antigo cargo de revisora de instrução de trabalho. E não pense que o superlegal me criticou, dizendo aquelas coisas esperadas de chefes, como as afamadas mijadas. Nada disso. Ele, ao ouvir minhas lamentações, me encorajou e ainda afirmou que daqui a uns três meses vou estar melhor do que esse pessoal que já tem experiência de anos.
Que ultraje! Afinal, não se fazem mais supervisores como antigamente, daqueles que tratam o subalterno como uma tropa de cavalo xucro, na base do arreio e do grito, ou daqueles chefes indecisos e insatisfeitos, que nunca o trabalho ou os lucros estão de acordo com o aguardado?
Bem, admito: perdi essa batalha para o meu histórico, ou seja, a da profissional que não rejeita serviço e aprende bem qualquer função que lhe ensinem. E acredite, em vez de sair da sala do superlegal com grilhões nos pés para não sair flutuando sob o efeito do meu ego superinflado, me senti esmagada pela gravidade.
Afinal, quanto mais aprendo sobre mim, menos eu me entendo.
Meu chapéu! Essa vale para “Que porra!”, com todo respeito.


Estou diante da página da análise de método. Não outro posto de trabalho, absolutamente, mas a mesma que comecei com você há dois dias. E juro para você que vou manter o foco do início ao final.
Que é isso, Edilene? Você tá fazendo algum feitiço? – pergunta a Verônica, com olhar de puro divertimento.
Eu ri, porque parecia mesmo um gesto dos aprendizes de bruxo da escola de magia de Hogwarts, da saga Harry Potter. Na verdade, eu estava repetindo um gesto em que o operador colava uma fita duplaface em torno de uma peça e tentava avaliar esse movimento circular. E parecia, ao espectador externo, que eu estava agitando uma varinha invisível no ar e murmurando algum encantamento.
Bem que eu poderia ter a determinação voraz de leitura da Hermione Granger para devorar minha apostila de método, ou talvez sua perspicácia insalubre para solucionar mistérios. Poderia até pedir a ela emprestado o Viratempo para acelerar o meu aprendizado, alterando o tempo para eu estar em várias fases simultaneamente (felizmente eu não teria de enfrentar uma aula sobre Criaturas Mágicas e nem salvar nenhum hipogrifo).
Ah, meus tempos de atendente de ordens de serviço. Monitorava a produção das máquinas e em caso de quebra cumpria a cadeia de ajuda: abrir nota, chamar mecânico/ferramenteiro/eletricista e informar supervisores e chefes. Mal sabia falar ao rádio (ainda posso me lembrar do iceberg na barriga quando precisava utilizar o rádio nas primeiras chamadas).
O pessoal da manutenção, sempre com atendimento diplomático tipo Jurassic Park (acontece que os bichinhos do filme perdiam feio para a ferocidade desse pessoal), reclamava que eu falava demais no rádio. Que minhas polidas frases – O senhor poderia, por gentileza, atender a máquina X, que está parada devido ao defeito Y? –, eram de péssima escolha quando eles estavam enfurnados dentro de um molde, ou de bruços dentro de uma máquina em algum local abaixo da linha dos joelhos e com as mãos ocupadas com ferramentas, isso nos melhores casos.
Aí, empenhada em fazer valer a seleção da minha pessoa no recrutamento interno, fui apresentada ao lado tosco da minha psique: Fulano na escuta. Máquina X parada, peça trancada na estação Y, parada de linha de montagem em dez minutos. (Aplausos!).
Meu chapéu! Perdi meu foco no corredor e quando me dei conta, vi que ele ficou esmagado pela empilhadeira.


Pronto. Resgatei o meu Foco (que ficara reduzido a uma folha de papel amarrotada), tratei de seus ferimentos e convidei-o para auxiliar no relacionamento com meu novíssimo Desafio. E, digo-lhe, com muita satisfação, que desta vez consegui finalizar a avaliação do posto de trabalho.
Agora, partiu próximo posto (com hash tag, para fazer bonito).
De volta ao DOA – departamento de operações arbitrárias, e sem a preguiça provocada pelos cinquenta graus centígrados dentro da fábrica, trato de contratar mais uma modelo exclusiva para a passarela da montagem de um produto de ponta, a Srta. Operadora de Produção da Silva, que fez a gentileza de nomear os bois – ou melhor, as peças –, me apresentando aos batentes, borrachas, parafusos sextavados, chaves phillips, parafusadeiras múltiplas, rodapés, etc, etc, além de explicar todas as atividades que executa no detalhe. Sem imprevistos desta vez, nem ninguém me acusando de uso indevido de imagens, voltei à minha sala e botei a engrenagem cerebral na quinta marcha, disparando pela fiação elétrica do sistema neurológico.
Agora passei a traçar o meu mapa de raciocínio (ideia brilhante, não acha?) e mesmo que ocorra alguma interferência externa, continuo a articular a avaliação sem medos. Poderia aparecer a sombra de As Luzes de Setembro, que não conseguiria me causar distração.
Vencida essa etapa, passei para a conferência de uma pessoa com uma vasta experiência – oito meses (qualquer pessoa com mais de duas semanas de atuação eu consideraria experiente ao extremo). Minha professora barra conferente barra colega confere movimento aqui, confere movimento ali, e minha sensação de brilhantismo vai esmorecendo, murchando feito um balão. O sentimento de “Merda! Você não aprende mesmo!” começa a me dominar, massacrando meu ânimo. Quem foi que disse que seria fácil, hein? E a correção foi criada para crescimento e aprendizado, mas não concorda que dá um baixo astral?
Então me lembro da época em que trabalhei em um call center. Adorava trabalhar naquela atividade. Eu, por vezes, me achava incrível (guardei a modéstia dentro da gaveta e passei a chave), porque eu fazia atualizações de cadastro e todo mês eu estava no topo do ranking, realizando mais que o dobro que todas as atendentes juntas. Contudo, até chegar a esse nível melhorado, foi sofrido como arar milhares de hectares de terra para o plantio e cuidar da plantação até a chegada da colheita.
Eu ficava na escuta do telefone que a atendente barra professora me treinava no script da coisa. “Posso dar conta disso”, jubilei, mas quando foi minha vez de atender, eu penava mais do que aprender a guiar um veículo. Até o boa tarde, tudo ia bem. Acontece que o cliente não conhece script. Poxa, deveria existir uma cartilha para saber o que perguntar em uma ligação para um setor de atendimento telefônico, tipo: primeiro você se identifica, depois diz o que precisa, depois recebe as informações, escuta, diz até logo e desliga, sem desvios. Nem tudo é perfeito.
E como o cliente não seguia o script, eu me embananava toda. Em vez de pesquisar no sistema, escutava o cliente e quando ele terminava de falar, eu já tinha esquecido o que ele pedira. E isso tudo porque quando você está sob treinamento, você se folga, confiando que a pessoa que treina irá salvar você na hora certa, como na autoescola quando o instrutor usa o freio do passageiro antes que a gente saia cruzando a frente de outro veículo. Só que eu não contava com a impaciência e severidade dela (acho que ela havia tido umas aulas com o Severo Snape, corrigindo Harry Potter em sua aula de poções).
Eu tinha acabado de superar uma depressão, doença que parece desativar a autoconfiança e soterrar a sua autoestima. A doença havia sido provocada por trabalhar em um emprego anterior embaixo de berros, humilhações e de os patrões acharem que estavam lhe fazendo um favor pagando seu salário, que era mais baixo que o da funcionária da limpeza (lembra o que lhe falei a respeito do auxiliar administrativo ser uma profissão miseravelmente sem reconhecimento digno?).
A profissional do call center nunca berrou comigo, nem me humilhou. O problema é que eu me sentia tão pouco importante, tão bestamente fazendo número nesse mundo, que travei durante as dezenas de primeiras ligações lastimáveis (pobres daqueles clientes; eram todos uns santos em pessoa, e digo isso com sinceridade).
Eu não dava certo de jeito nenhum, até que certo dia, como não havia atendentes em número suficiente devido a folgas, férias e absenteísmo, a minha treinadora foi obrigada a atender para agilizar a demanda, sendo que eu esbarrei no muro mais alto da minha existência. Ou voltava, derrotada, ou subia e pulava o muro. E antes que minha barriga entrasse em pânico, cliquei no ícone e a ligação caiu no meu ramal. E foi uma bênção, porque o cliente conhecia o nosso script, então facilitou as coisas. Quando me despedi, uma sensação balsâmica começou a se espalhar no meu corpo. E dali em diante, foi só alegria. Desliguei-me da empresa apenas por causa do salário, e onde fui parar na produção de uma fábrica. E agora estou aqui, soterrada novamente pela incapacidade inicial de aprender.
Eu me sinto como um peixe de água salgada preso dentro de um aquário. Eis aí uma descoberta: a falta do Sr. Foco Aparecido da Luz pode significar que estou realmente deslocada em matéria de profissão.

Bem, já dizia Monteiro Lobato: “A arte nasce da dor, como a pérola”. E prometo a você que um dia vou ter, finalmente, um colar. E quem sabe, até substituir minha estimada expressão “meu chapéu!” por um sutil “minhas pérolas!”.

A CIDADE DOS CICLISTAS – MOTORIZADOS



Para Joinville, que recebeu de aniversário dos seus cento e cinquenta anos o título de A Cidade das Bicicletas, por ter registrado por volta dos anos 1900 o importante dado histórico de uma bicicleta para cada dois habitantes, o município parece não muito interessado em seus ciclistas.
Quando estou transporte-coletivista, observo com satisfação, que o corredor de ônibus em diversas ruas possibilita que eu chegue ao meu destino mais rapidamente do que quando estou volantista. Por outro lado, quando estou ciclista, a sensação de desgosto por falta de uma via segura empurra meu ânimo para as bocas-de-lobo.
No Distrito Industrial, já parei sob as rodas de um caminhão (que por pouco não me transforma em uma massa feito carne moída) devido à inexistência de ciclovia de acesso. Já na Rua Blumenau, um caminhão me atira para a calçada quebrada por ultrapassar pelo corredor de ônibus. Felizes daqueles que podem pedalar em ruas mais recentes, tipo a Timbó, que já foram planejadas com ciclovia! E mais felizes ainda aqueles que produzem asas em suas bicicletas quando cruzam outra rua mais adiante em que a ciclovia transforma-se em área de decolagem!
Além das pistas de skate fantasiadas de calçadas, ou dos buracos interrompidos por pedaços de rua – que ousadia!,   existem também os ciclistas motorizados que sofrem de súbita amnésia ao se depararem com um joinvileciclista, ou ainda, um turistociclista, e cortam-lhe a frente, sem cerimônia. Engraçado que, logo que voltam a embarcar nas próprias bicicletas, suas memórias retornam rapidamente ao normal. Ainda pretendo pedir-lhes a fórmula do medicamento poderoso que tomam!
           Fato é que, revoltas e acidentes à parte, a comunidade ciclista necessita de mais segurança para transitar e manter o nome que tão bem retrata nossa cidade: A Cidade das Bicicletas, porque pedalar faz bem, porque pedalar também faz parte da história.

A senhora dos por quês

As crianças perguntam quase que involuntariamente “por quê”, já que isso faz parte de sua natureza e da fase de seu crescimento. Os adultos, em nome da maturidade, param de perguntar por quê, mas esquecem que são as perguntas que movem as descobertas.
Colegas de trabalho zombavam da minha habilidade, já que enquanto eu divagava no meio dos por quês, tentando entender o sistema ou algum processo, parecia alheia à realidade. Um deles até me apelidou afetuosamente de “a garota dos por quês”, porém, não posso deixar de retificar este codinome para “a senhora dos por quês”, já que faz tempo que passei da fase de garota.
Eu bem que tentei parar de perguntar por que para tudo o que não entendo, mas como a idade que atinjo não declina a curiosidade, inviabilizei todos os meus esforços.
Desenvolvi, então, uma estratégia: procuro camuflar os por quês através do uso de outras formas interrogativas, tais como: “de que forma? Qual a finalidade disso? Para que serve tal coisa?” e outras variedades. Policio-me o tempo inteiro durante uma conversação para não entediar as pessoas com o uso frequente do por que e fico satisfeita quando alcanço a minha meta. Então relaxo. E quando penso que parei efetivamente com a mania, alguém faz algum comentário e eu, inocentemente, acabo frustrando todas as minhas tentativas e pergunto: “Por quê?”.
Sorrio amarelo, porque...

Cheiro de livros

O amor pela leitura cresceu junto comigo, paralelamente à vontade de criar histórias e de aprender.
Aos seis anos de idade, pedi para ir à escola, mas ao contrário do que eu imaginava, percebi, desde os primeiros dias, que para o ofício de estudante não bastava somente o desejo de me instruir: necessitava dedicação e persistência elevadas à milésima potência!
Não tinha qualquer habilidade para segurar o lápis, contudo, persisti. Após alfabetizada, treinava a caligrafia em casa e decorava a tabuada. Quando pensei que dominava a arte, fui incumbida de escrever uma redação, tarefa que antipatizei de imediato pelo modo como me foi imposta. Depois de horas de martírio tentando colocar alguma coisa no papel, obtive o seguinte resultado:
Eu tenho um cachorro.
O nome do meu cachorro é Doguinho.
O pelo do meu cachorro é marrom.
Eu gosto do meu cachorro.
Na época, recebi apenas o sinal de “certo” enquanto meus colegas exibiam a “estrelinha” em seus cadernos, e praticavam comigo o que hoje se chama bullying.
Se, por um lado, escrever tivesse se transformado em aversão, por outro, o entretenimento era garantido. Ávida por ler, eu assemelhava-me à formiga em busca de açúcar. O inverno da ignorância poderia advir, pois eu abastecia meu formigueiro com os gibis da Turma da Mônica, os personagens de Walt Disney e de Monteiro Lobato e os livros pedagógicos usados que eu ganhara de meus tios. O entusiasmo aflorava a criatividade e eu ansiava o momento de, juntamente com minha irmã, desbravarmos territórios não explorados da nossa imaginação e continuarmos a saga que nossas bonecas viviam, defendendo o planeta dos ataques dos inimigos...
Criatividade de sobra para brincar, e bom texto, qual nada! Embora as redações já não se tratassem de instrumentos indecifráveis, nem de grandes monstros que assolavam o planeta que minhas heroínas defendiam, os fiascos prosseguiam exorbitantes, desconcertando as inexoráveis professoras de português. Temas mal compreendidos, economia de pontuação e textos mal estruturados pululavam em minhas tarefas como equívocos inevitavelmente hilários. Parecia que eu jamais seria capaz de escrever uma boa redação.
Anos mais tarde, trabalhei na biblioteca do colégio em que estudava – o Olavo Bilac, em Pirabeiraba. Que tentação aquele acervo! A leitura, naturalmente, se intensificou e, como já não era suficiente, passei também a frequentar assiduamente a biblioteca pública distrital Gustavo Ohde. Precisava renovar a carteirinha que eu utilizava para empréstimo pelo menos duas vezes por ano, e ainda sou capaz de sentir o cheiro agradável que exalava dos livros.
Sem perceber, desenvolvi espírito crítico em relação ao que lia e, a certa altura, não concordava mais com o desfecho das histórias. Decidi, então, escrever um livro. Planejamento, pesquisas e dedicação diária foram essenciais para tornar o texto atrativo. Cada vez que a história não retratava algum aspecto que eu queria evidenciar, como os valores que eu pretendia que os personagens transmitissem, mudava os rumos das ocorrências. Foi assim que nasceu o livro Tempo de Fuga, publicado dezoito anos depois.
A grande motivação veio da curiosidade, do desejo incessante de conhecimento, da leitura constante e – por que não dizer? – do aroma característico dos livros. E em pensar que tudo começou com “Eu tenho um cachorro. O nome do meu cachorro é Doguinho. O pelo do meu cachorro é marrom...”. Afinal, a gente tem que começar por algum lugar.

Poesia - A Estrela Esperança

Chego ao denso arvoredo
e escalo íngreme penedo;
vejo tremular estrela brilhante
como centelha no horizonte.

De arco-íris, inocente, brinca
sob o índigo firmamento;
minha alma, em reavivamento,
sente como brilha ainda mais linda.

Pontilhando o universo
Surge bela constelação;
Admirada, com Deus converso,
reacendo a luz do coração.

Por meio da estrela o Criador
transmite mensagem pungente;
diante do brilho incandescente:
filha, não sinta mais dor.

Com vigor o anoitecer atravessa
Mostra que a esperança nunca cessa;
Madruga junto com o alvorecer.

Revigorada, da rocha desço,
da bela estrela me despeço,
e vou com o Pai novamente em meu ser.



Poesia - Arrebol

Toda vez que vejo você
Sinto, não sei por que
Uma vontade de te beijar

Encontro em sua face
Um sorriso a estampar
Não, não disfarce

Conheço seus dilemas
Mas falta você se entregar
Esqueça seus problemas

Tenho tanto para mostrar
Quero sua vida compartilhar
Não tente me esquecer.

De todas as manhãs
Você é o sol

Das tardes o arrebol

Morte como Experiência

Um dia, Helena deparou-se com um desafio bastante sério, que exigia não só comprometimento, mas uma firme coragem, porque ela possuía apenas uma chance.
Chegou a uma construção, em que um lado assemelhava-se a uma igreja, e outro a um shopping. Uma parte correspondia à vida. A outra, por onde um número incontável de seres humanos entrava, representava a experiência da morte. E era justamente a decisão que Helena deveria tomar.
As pessoas que adentravam a portaria do “shopping” não retornavam, o que a aterrorizou. Embora apavorada, ela decidiu se encaminhar para a “construção da morte”. Ergueu sua mão para sinalizar que estava preparada para levitar e em seguida ser "enterrada". Haviam-na alertado de que "arderia" muito até morrer. Ela pensou em Jesus Cristo, pois se fosse mesmo morrer, que ele tivesse piedade, pois ela temia "queimar".
Helena levitou devagar para dentro da câmara e então seu corpo começou a receber uma espécie de ondas elétricas. Mosaicos se formaram enquanto "morria". Mas estava consciente e procurou se acalmar para o momento em que parasse de respirar.
Acordou depois de um profundo e longo sono, na areia de uma praia. A temperatura era agradável. Ela, contudo, estava totalmente enfraquecida. A onda, mesmo que lenta, arrastava seu corpo. Então ela olhou para os lados e observou centenas de pessoas que, deduziu, também haviam "morrido". Porém, muitas delas haviam morrido de fato. Helena percebeu que somente ela recebera o "bônus" de passar pela experiência da morte e então teria a oportunidade de regressar, caso cumprisse seu dever.
Ela não conseguia sustentar o próprio corpo, e então surgiram homens que tinham a missão de devolver energia para as pessoas que atravessaram da vida para a morte.
Segurou-se no braço de um homem obeso e de olhos esbugalhados por um instante e sentiu uma vibração dentro de si, como se lhe injetassem energia por meios intravenosos. Mesmo assim, ainda não fora suficiente. Agarrou-se de novo a ele e o mesmo homem assumiu um tipo físico saudável.
O grupo de “mortos” seguiu instruções. Ela participou de tudo, e às vezes, levitava porque parece que sua boa atuação na Terra tinha lhe concedido certos “poderes” para passar para fases na frente de outras pessoas.
Uma cena materializou-se diante de todos. Era um porão com uma passagem muito estreita em uma rua abaixo de uma grande igreja. Uma médica fazia promessas para mulheres que desejavam filhos, mas se via tratar-se de um truque para ganhar dinheiro. Uma recepcionista encaminhava as mães para dentro do porão, e em vez de parto, a “médica” provocava o aborto das crianças. A cena então sumiu no ar como fumaça.
Sem compreender o motivo daquela aparição, Helena continuou seguindo as instruções dos “monitores da morte”, andando de um lado para outro. Em um momento, ela estava coberta de lama; em outro, dentro de um avião que estava pousando. Morrer era estarrecedor, parecia levar à loucura.
A certa altura, Helena voltara para a Terra, invisível, para acompanhar algumas pessoas. Sem que lhe exigissem, ela ajudou uma mulher a preparar bolos e salgados para uma festa. Outra mulher aparecera e levantava o dedo para ela como se a estivesse enxergando. Então Helena olhou para trás e viu que se desse mais um passo cairia em um buraco.
Mas ela precisava passar novamente pela câmara da morte. Daquela vez, seu corpo sofreu e quando acordou ela não conseguia respirar, porque estava no fundo do oceano. Subiu à tona para se “salvar”, embora não entendesse qual a finalidade de todo aquele martírio.
Helena precisava alcançar as outras pessoas e se perdeu. Então, em vez de subir pela rua, ela lembrou que podia levitar. Alguém a avisou que poderia voar mais alto do que o prédio e então ela estaria “morta” para sempre. Por isso, segurou em alguns galhos de árvores e levitou para dentro do shopping. Voltara ao início.
Entrou em um local decorado com mesas de restaurante, mas não havia pessoas sentadas nos lugares. Ela preparava uma massa semelhante a pão e distribuía para as pessoas atirando pequenos pedaços de massa para as pessoas que estavam abaixo dela.
Seu temor maior era voltar àquela espécie de consultório. Ela não queria que lhe fosse tirada a oportunidade de ter um filho.
Sentiu um sopro em sua nuca e, de repente, acordou no meio de uma estrada. A noite estava fria e o paralelepípedo que cobria a rua estava molhado. Helena caminhou a esmo e parou diante de um portão de aparência lúgubre, que se abriu por conta própria e ela entrou.
Assim que passou, o portão se fechou e, pela terceira vez, ela viu a câmara e os arrepios percorreram todo seu corpo, pois ela não se achava forte para suportar mais sofrimento e dor. Em um ímpeto de coragem, “atravessou” o extremo da vida e da morte, e acordou caindo do céu em direção a uma floresta.

Acordara em sua cama, a cabeça fervilhando. Conseguira retornar, afinal.

PAR DE SAPATOS

Quando Marisa entrou na sala, teve uma surpresa: havia um par de sapatos masculinos no tapete abaixo do sofá. Ela logo imaginou que fosse Aristides, seu marido, quem tivesse chegado mais cedo do trabalho, embora não reconhecesse os calçados de muito boa qualidade.
Ficou estagnada, divagando onde Aristides comprara aqueles sapatos pretos de ponta mais afunilada. Então, sentiu cheiro de sabonete e ouviu a água do chuveiro. Agora sim, ela tinha certeza: era Aristides.
Saiu da inércia provocada pela aguçada curiosidade e, resignada com a realidade, deixou a bolsa e a jaqueta no sofá e seguiu para a cozinha. Preparou agua e deixou a cafeteira em atividade; pôs louças na mesa; fatiou o pão; deixou salgadinhos refrigerados sobre uma travessa para aquecer tão logo Aristides terminasse o banho.
Foi em direção do quarto, passando pela sala e novamente a curiosidade com aquele par de sapatos aguçou seus sentidos.
No quarto, despiu-se parcialmente e permaneceu um instante em frente ao espelho contemplando os quilos extras emergindo da cintura. Fez um gesto contrafeita, embora se sentisse bonita daquele jeito mesmo.
Pelo espelho, ainda, acompanhou as ranhuras na pela da região das nádegas. Se a Aristides não incomodava aquele mapa desenhado em seu corpo, porque a ela incomodaria?
Abandonou o espelho e se virou. Tomou mais um susto com a camisa preta e a calça jeans dependuradas no encosto da cadeira. O coração acelerou. Entrara em apartamento errado, será? De vez em quando saía com alguma pérola, mas porventura, cometera trapalhada tão inusitada?
Não, não podia ser.
A água do chuveiro fora desligada, o box aberto. Ainda tinha chance de cair fora, pensou, contudo, o resquício de curiosidade misturado ao temor formavam um conjunto arrebatador.
Ela esperou.
Agora, diante dela, surgira um ser de extrema beleza, envolto em sua toalha branca. Alto, magro, pele bronzeada, braços longos sem músculos excessivos, mãos fortes, rosto marcante, barba por fazer, sobrancelhas espessas, olhos negros e brilhantes, e a boca mais sedutora da face do planeta.

Marisa nunca vira antes Aristides tão maravilhoso. Envolveu-o em um abraço e, apetecida, beijou-o como nunca o fizera nos últimos dez anos.

SUJEIRA NO VENTILADOR

Fernanda estava furiosa porque deixara cair o celular. Brava de verdade com a própria incompetência de segurar o aparelho, a bolsa, a jaqueta e o guarda-chuva ao mesmo tempo.
Esbarrou no vizinho, esbravejou, desculpou-se e explicou que estava na TPM. Nem estava, era só para justificar sua pamonhice.
Mais adiante, o ventou armou seu guarda-chuva ao contrário e quebrou meia dúzia de varões, ou seja, quase todos. Mais uma vez Fernanda vociferou, desta feita contra as intempéries da natureza, que nenhuma culpa tinha por sua instabilidade emocional.
Chegou à empresa, fechou o que restou do guarda-chuva e procurou o crachá. Esquecera-o em casa! Ela quase se autonocauteou com a própria imbecilidade. E agora, voltar? Nada!
Passou pela portaria e na faixa de pedestre, um motorista cortou sua frente. Para brindar seu início de dia, a roda do veículo passou em uma poça de lama. Fernanda estremecera de tão transtornada.
Finalmente a primeira boa notícia do dia: reunião adiada. Agora as coisas começariam a render. Quando recebe a ordem de preencher a escala de outra área, Fernanda se exaspera, o coração arrebenta, a pressão decola.
Em um único arremesso, ela acerta o guarda-chuva quebrado no ventilador que, por sorte, estava desligado.

MORAL DA HISTÓRIA: Resolva suas frustrações antes de atirá-las no ventilador, porque elas podem se voltar contra você.

DIETA “DE LUA”

Francine anda na dieta da moda. Come alface porque é chique, depois se vinga no sorvete diet.
Começa a semana com a dieta da lua. Lê na rede social que está ultrapassada e que o barato da hora é a dieta da sopa: sopa no desjejum, sopa no almoço, sopa no jantar. Com tanto caldo circulando na corrente sanguínea, a linfática começa a estranhar, o corpo incha e a balança teima em subir.
Dieta agora que é batata é a do jejum; simples: não se come agora, não se come depois, não se come por dois dias.
Francine topa a onda do jejum e alcança a meta de três dias a fio e uma enxaqueca ainda mais persistente.
Entretanto, não desiste. Pesquisa, pesquisa, não encontra; já praticou todas as dietas publicadas na web. “Que pessoal sem criatividade!”, resmunga.
Começa a se entupir com fritura e chocolate, refrigerante e bolo e para compensar, coloca adoçante no café com leite integral.

Empanturrada, volta à web à caça desenfreada de uma dieta milagrosa, enquanto belisca uns amendoins...

Julgamentos

Mercedes sai para a rua em seu salto quinze e caminha um quarteirão. Bem vestida e perfumada, não escapa de uma buzinada aqui, uma cantada mais adiante. Tudo passa despercebido para uma mulher como ela, resolvida e autoconfiante.
Para no ponto de táxi e olha o relógio de pulso que usa mais por ornamento do que funcional. Cruza os braços, impaciente.
Alguns minutos depois, chega um táxi, no qual ela embarca rapidamente.
-        Para o motel de luxo mais próximo – ordena, sem cerimônia.
O taxista, através do espelho, lança um olhar de aprovação e sorri. Conduz o veículo para o local solicitado, estaciona e informa o preço da corrida. Fica estupefato quando Mercedes, com jeito de déspota, lhe desafia para entrar. Contudo, obedece.
-        Olhe que minha patroa não vai gostar nada disso...
-        Pelo contrário, ela vai adorar.
Algum tempo depois, eles retornam para o veículo. Ela não orienta a rota dessa vez, mas o motorista a deixa no portão de uma casa. Antes de desembarcar, Mercedes sorri, beija o taxista e afirma:
-        Viu como sua patroa adorou?
Quando ela está abrindo o portão, o taxista torna a falar:

-        Ah, querida! Não se esqueça de pegar as crianças na casa da mamãe às 11 horas, hein!

DO OUTRO LADO DA LINHA - 2002



Tatiana é auxiliar administrativa de uma prestadora de serviços telefônicos e conhece Márcio, profissional responsável pela instalação de linhas telefônicas, com o qual sofre incompatibilidade de gênios. Márcio, por sua vez, se envolve com Elisabete, mulher dominadora que denuncia o instalador por maus tratos e este, para se livrar da prisão, se vê obrigado a aceitar a chantagem e casar com ela. Tatiana ainda tenta ajudá-lo e piora a situação, porque sofre ao descobrir que o ama. Apesar de casado, Márcio se recusa a consumar o casamento, porque também descobriu sua paixão por Tatiana e precisa resgatar sua dignidade para tomar as rédeas da própria vida e se livrar da vilã. Entretanto, se soltar das amarras do próprio remorso exigirá uma profunda transformação.


...

Ela deu as costas para ir até o depósito, mas antes que pudesse dar cinco passos, sentiu um fio ser tencionado em torno de seu pescoço e não conseguiu mais respirar. Suas mãos imediatamente tentaram libertá-la do fio, porém, estava perdendo as forças à medida que lhe faltava o ar. Deixou-se desabar no chão, onde seu corpo convulsionava violentamente à procura de ar. Um espasmo atingiu o boné do instalador, que caiu no chão revelando uma cabeleira loira.
        Desgraçada! Isso vai te ensinar a não se meter comigo!
        Eli... sabete? Por quê...
Ela deu outra volta com o fio telefônico no pescoço de Tatiana até esta ficar completamente imóvel. Elisabete ajeitou o cabelo sob o boné e manteve o olhar fixo no corpo imóvel. Os olhos de Tatiana estavam saltados, a boca entreaberta, a pele começara a ficar arroxeada, o peito já não arfava como há um minuto. Sua rival estava definitivamente fora de ação e Elisabete sorriu com a vitória tão fácil. Ela saiu com tranqüilidade, satisfeita por atingir seus objetivos.
Tatiana não respirava mais. Aos poucos sentia que o sangue parava de circular e seu corpo frio perdia quase toda a atividade vital. Seus olhos fixos perceberam que o teto se aproximava e subitamente ela soube que estava morrendo. “Deus, já chegou a minha hora? Então não tenho mais medo.” Ela não sentia dor nem angústia, apenas estava se sentindo levitar e alcançar o teto, que começara a girar, aumentando gradativamente a velocidade. De repente, ela teve a impressão de que despencara de um precipício e seu corpo antes imóvel voltara a se mexer.

...

LEMBRANÇAS DE UM BILHETE - 2000



                  Fernando tem um pesadelo que o deixa inseguro e amedrontado e procura Ezequiel para decifrar o sonho. O interpretador de sonhos revela que Fernando precisa se curar de um trauma vivido na infância, mas os pais do garoto desaprovam o tratamento psicológico sugerido por Ezequiel. Fernando, então, se envolve em uma situação perigosa, entra em coma e é desenganado pelos médicos. O sofrimento faz com que seu pai volte atrás em sua decisão e procure Ezequiel, que cura o garoto. Em seu período de reabilitação, Fernando precisará resgatar suas lembranças para salvar a prima Rafaela do perigoso envolvimento com Anderson. Contará com a experiência de Ezequiel e terá que acreditar em si mesmo para resgatar Rafaela e descobrir seu verdadeiro destino.


OS CONTADORES DE HISTÓRIAS - 1997


            Antônio, um policial com carreira já estabelecida e de boa índole, se apaixona por Patrícia, uma adolescente de dezesseis anos, com a qual deseja se casar. Porém, enfrenta a oposição dos pais da garota, que não aceitam o relacionamento amoroso precoce da filha. Antônio convence Patrícia a conversar com seus pais para autorizarem o namoro, mas antes que isso aconteça, Patrícia se torna vítima de abuso sexual e as provas apontam o namorado como criminoso. Antônio precisará de todo seu talento profissional para capturar o criminoso e provar sua inocência, mas principalmente, testará seus princípios na tentativa de dominar seus próprios preconceitos para aceitar Patrícia, ajudando-a a superar o trauma causado pelo acidente. Enquanto todos duvidam de sua inocência, Elaine, uma jovem universitária acompanhada pela também estudante e amiga Priscila - que participam do grupo de Contadores de Histórias, mantém a fé no caráter de Antônio e se envolve no caso com o firme propósito de restabelecer a união do casal. Para tanto, não mede esforços e nem se resigna quando a situação se torna mais difícil, transmitindo mensagens de otimismo e esperança mesmo quando tudo parece irremediavelmente perdido.



Trechos de Engrenagem do Crime



“Estéfanie dava o máximo de sua habilidade vocal e juntamente com Eduardo na guitarra, Vinícius na bateria e Peter no baixo, recebia em dobro os aplausos e ovações de uma plateia extasiada. Centenas de adolescentes cantavam as músicas de sua autoria e pulavam freneticamente, contagiados pelo som dos instrumentos. Estéfanie encerrou o show com um caprichado agudo e Vinícius triunfou com suas últimas notas na bateria. O delírio extravasou todas as expectativas e eles maravilharam-se com o sucesso que atingiram naquela noite especial. O nome da banda, Engrenagem, era repetido pelo coral de vozes entusiasmadas, sucessiva e ininterruptamente...”.

      Tá viajando, cara?!

...
Os tímpanos de Carla enfrentavam uma batalha colossal para ouvir o diálogo entre os dois adolescentes. Balada não é a opção mais interessante para ela, já que gosta de sossego e da luz do dia, mas fazia muito tempo que ela desejava escrever uma história real e julgou que frequentar um local como aquele, onde sentisse a vibração das pessoas, pudesse ajudá-la a descobrir o motivo que as levava a gostar daquele empurra-empurra, daquele barulho.
Carla esgueirou-se no meio daquela multidão de rostos quase infantis, sem saber ao certo o que procurava. Até cantou trechos de algumas canções que conhecia. Todavia, para seu desapontamento, não encontrara nenhum foco de inspiração.
...

      Ei! Calma aí!
      Calma nada, fura-olho! Vou te dar uma lição!
Logo, dezenas de garotas fecharam círculo em torno de Estéfanie e da garota que iniciara a briga.
      Ei, deixa meu cabelo! Não fiz nada! – protestou, tentando se defender do canivete que roçava em seu rosto.
Àquela altura, Carla, que acompanhava parte da conversa, sentira uma vontade incontrolável de buscar socorro com um policial militar que estava próximo, mas decidiu aguardar porque precisava ver onde aquela encrenca ia dar. Deu sorte, já que o desfecho logo aconteceu.

...



Ainda no sábado, por volta das três horas da madrugada, ouviram-se consecutivos disparos de armas de fogo no bairro Costa e Silva e um estudante fora gravemente ferido. A ambulância dos bombeiros voluntários de Joinville fora acionada e chegou rapidamente para o socorro, porém, os médicos conseguiram somente aliviar a expiação do jovem. Por conseguinte, a polícia agiu e evidenciou que a vítima, na madrugada do ocorrido, se envolvera em uma pancadaria com um traficante de drogas que frequentava o Clube 17. Os fragmentos de pedras de crack encontrados na jaqueta do estudante assassinado levaram os investigadores a alertar imediatamente outras viaturas para varrer o quarteirão e passar um pente fino na galera que se espalhava com medo da represália.
O clube é caminho da casa de Carla e ela dirigia devagar, já desconfiada com tanto alvoroço. Percebeu que ocorrera alguma sucessão não habitual de fatos ao avistar vários homens se refugiando nas sombras das ruas e, em seguida, viaturas de polícia circulando pelo local. Ela era extremamente sensata, no entanto, seu ponto fraco, que é a insaciável curiosidade, vencera e então ela estacionar seu veículo nas imediações.
Naquele momento, ela notou que dois policiais caminhavam em sua direção. Acometeu-a um medo danado e começou a procurar os documentos do carro e a carta de habilitação, que sabia estarem rigorosamente em dia, assim como os impostos. Imaginou-se sendo detida e levada para a delegacia. O que a família pensaria se tivesse que pagar fiança para tirá-la da cadeia? Seriam capazes de deixá-la lá, trancafiada juntamente com criminosas da pior índole. Em meio a sua aflição, ela viu que os policiais ignoraram a presença de seu veículo e revistaram o vendedor de xis-salada logo adiante, que esmagava o quepe com as mãos trêmulas e apontadas para o alto. Tomou fôlego, pois para ela o perigo havia passado.
Do outro lado da rua, na Praça do Bosque, um casal de adolescentes permanecera em um dos bancos de concreto trocando carícias e, apesar de tamanha agitação, não percebeu a aproximação de outro policial armado que foi logo os interrogando. Sobressaltada, a garota ficou em pé em um milésimo de segundo e o garoto – Carla imaginou que, com a intenção de ganhar moral diante da menina, empertigou-se e enfrentou o policial.

 “Ih!”, lamentou ela, “ele devia ter ficado na dele”. Carla cobriu os olhos com as mãos, como se aquele gesto a protegesse, mas deixou uma fresta entre os dedos para poder enxergar. A atitude irrefletida do garoto em peitar a lei provocou a ira do policial, que tratou de punir o rapaz com o cassetete.

...



Vinícius espreguiçou-se na cama, colocou os pés para fora, esfregou energicamente a cabeça e, sentindo um súbito mal-estar, apressou-se a ir ao banheiro na outra extremidade do corredor. A boca estava azeda e seca, a cabeça doía, o aparelho digestivo desregulado se agitava após um período razoavelmente longo de jejum alimentar. Lavou o rosto e enquanto tentava resistir à zonzeira que lhe acometia, escutou sua mãe chamá-lo para jantar e ficou ainda mais confuso. “Como que ela quer que eu vá jantar se eu ainda nem tomei o café da manhã?” Voltou ao quarto e viu que estava escuro lá fora. “Mas que dia é hoje?”, perguntara-se, incapaz de raciocinar. Teclou o celular e olhou a data e o horário: sábado, 18h30min. Nada parecia fazer sentido. Caminhou com dificuldade até a cozinha e se sentou à mesa. O cheiro da comida pareceu-lhe agradável e despertou seu apetite. A mãe enchia-o de mimos, ao passo que o pai mastigava seu alimento, distraído.

...
      Um minuto! – Vinícius havia se levantado, mas voltou a sentar. Percebeu que seu pai não parecia nada satisfeito. Quando lhe perguntou o que seu velho queria, este depositara sobre a mesa o que restara de um baseado. – Isto foi encontrado no bolso de sua bermuda. Como você explica isso, filho?
Vinícius sobressaltou-se quando viu que tinha esquecido o cigarro no bolso e tentou se defender, argumentando que desconhecia aquele troço e não tinha a menor ideia de que jeito aquilo viera parar em sua roupa. As explicações ambíguas do garoto não convenceram o pai, que resolveu castigá-lo proibindo-o de sair de casa.
      Pai, você não pode fazer isso com um futuro artista! – protestou. – Depois eu já tenho dezoito, portanto, sou maior de idade...
      Maior de idade e ainda no ensino médio – recomeçou o pai, extenuado com os protestos –, você deve aprender que ter dezoito, vinte ou trinta anos pouco importa se você mesmo não desenvolver seu caráter e assumir as responsabilidades pelas atitudes que toma. A vida é sua, viva como quiser, mas entenda que eu, na qualidade de seu pai, tenho a obrigação – discorreu, enfatizando as últimas palavras e repetindo-as –, obrigação de alertar pra você não se meter em fria.
      Que fria que nada, pai! Chega de mijada, tá? Não mais criança. Além disso, com uma puta dor de cabeça... tá sendo injusto!
Enquanto Vinícius debandava da cozinha, resmungando, o pai balançou a cabeça, preocupado. Andava desconfiado a algum tempo de que o filho estava se envolvendo com drogas e deduziu que só podia ser culpa das companhias daquela banda barulhenta, cujo som irritava seu gosto musical, que preferia um bom “sertanejo raízes”. Ouviu a porta do quarto do garoto ser batida fortemente em sinal de insatisfação com o castigo e alimentou a esperança de que o filho mudaria de comportamento após o afastamento daquelas péssimas influências. A esposa, até então calada, murmurou algumas palavras amenizadoras e começou a recolher a louça do jantar.
“Quanto engano!” desesperou-se Carla. O projeto para sua história estava começando a lhe provocar dor de cabeça. “É bom você parar por aí”, recomendou sua consciência, todavia, Carla se julgava a mãe da teimosia.


...




São seis horas da manhã e Estéfanie custa a abrir os olhos. Espreguiça-se na cama, revira-se, puxa o edredom até o pescoço. O despertador do celular soou o segundo round e a moça esbugalha os olhos com a primeira lembrança da manhã. “Matemática!” grita sua mente subitamente agitada. Uma tão temida prova e ela esquecera completamente! Ela levanta de um salto e sai do quarto. Verifica que os pais já saíram para o trabalho e a casa está sob sua inteira responsabilidade. O café está pronto na mesa, mas o almoço é por sua conta a partir de hoje, bem como a organização e limpeza diárias. É o castigo pela desobediência às regras da casa.


....



Eram 23 horas e Ricardo acabara de apagar as luzes de seu quarto. Apenas pensara em orar a Deus em agradecimento por mais um dia, foi interrompido com as batidas insistentes à sua porta.
      Seu Ricardo! – alguém chamou.
Em um pulo, Ricardo levantou-se e abriu a porta. Estava com cara de sono e ficou de mau humor.
      O que foi?
      Seu Ricardo, desculpe, mas o senhor precisa ver uma coisa.
Àquela altura, Ricardo perdera totalmente o sono. Seguiu o rapaz que o buscara pelo facho de luz da lanterna que segurava.
      Por que não acendem as luzes? – resmungou, após ter chocado a perna em algum móvel.
...
“QUEM PERMANECER AQUI VAI MORRER.”

...
      Pai, me mata de uma vez! O senhor não queria mesmo que eu nascesse! Me mata de uma vez!
Para pronunciar seu derradeiro pedido, o garoto usou toda a energia que lhe restava e perdeu a consciência. O pai, que se preparava para segundo violento chute, recuou inesperadamente. Observou o filho, mas seu coração gélido não buscou arrependimento. Saiu de casa, embarcou no caminhão e se foi, inconsciente do crime praticado.

Caído ao lado do corpo inerte, o celular vibrava incessantemente.

...



...
Na mesma balada, Vinícius ficava com uma mulher de cabelo tingido de loiro, sensual, visivelmente mais madura do que ele. Dado o ritmo de seu envolvimento, percebia-se que se conheciam há mais tempo e que boa coisa não havia ali. Extrovertida em excesso, a loira não se intimidava em descer até o chão no rebolado de um funk. Cigarros e bebidas passavam sem cerimônia por suas mãos frenéticas.
      Isso daqui é do melhor! – berrou o garoto, para ser compreendido no meio daquele fervo. – Experimenta, gata! Não vai se arrepender...
Ela tomou um comprimido da mão dele e engoliu junto com um gole de uísque. Fiquei pensando que tipo de droga era aquela. No mínimo, extasy ou algo do gênero. Os efeitos começaram a saltar aos olhos dela. Vinícius, por sua vez, ficara satisfeito. Gostava da moral que ganhava ficando com ela. Seus corpos roçavam um no outro, aumentando a energia e provocando em ambos desejos lascivos. Agora me imagine lá no meio, observando aquelas cenas. Eu, toda educada e correta, acabei ficando vermelha de vergonha sem querer. Ainda bem que ninguém prestou atenção nisso.
De repente, surgiram dois sujeitos encorpados ao lado da mulher e, propositalmente, ela apontou o dedo para o garoto. Ele era menor de idade e havia entrado na danceteria graças à influência dela. Então, cercaram-no e, discretamente, ameaçaram-no com revólveres. Retiraram-no da pista de dança e levaram-no até uma sala privativa no mesmo prédio.

...




Vanessa abriu a pequena caixa com grande entusiasmo. Retirou o aparelho de celular – o primeiro que tinha comprado, e imediatamente começou a testá-lo. Tirou algumas fotos de si mesma, saiu filmando os cômodos da casa. Já eram 18h30 e ela seguiu pela rua ansiosa por mostrar para o esposo sua aquisição, um sonho de bastante tempo.
Chegou próximo da barraca e começou a filmar Pedro, que atendia dois garotos. Em seu estado de euforia, Vanessa acenou para o marido e o chamou:
      Querido! Olha pra cá!
Pedro atendeu ao chamado e olhou na direção da filmadora do celular. Os garotos também voltaram a visão e um deles soltou um palavrão.
      O que tá fazendo, sua besta? – Desta vez, fora Pedro que esbravejara. – Larga já essa porra!
      Pega aquela câmera! – ordenou o outro cliente de Pedro.

Confusa, Vanessa abaixou o celular, guardou-o no bolso da calça jeans e deu alguns passos para trás até começar a correr pela rua lateral da Praça do Bosque, enquanto era perseguida pelos dois garotos. Ela fugiu sem parar até o final da rua quando avançou pela rua Rui Barbosa. De repente, um motoqueiro a interceptou, parando diante dela e estendendo um capacete.


...




A Ponte


A ponte entre o sonho e a realização é a força de vontade, a persistência e a crença de que você conseguirá.