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Joinville, Santa Catarina, Brazil

ENGRENAGEM DO CRIME – 5ª CAPÍTULO - MASSACRE MUSICAL




Vera entra em um sobrado no subúrbio do bairro Paraíso. Despe-se e retira a cabeleira loira. Toma uma ducha gelada, tentando suavizar a responsabilidade que lhe enrijecia os músculos e tendões. Esfrega a esponja na pele com vigor, pretendendo renovar a superfície cutânea de seu ser desalmado e grosseiro. Representa um papel importante na novela da vida real, e seu inimigo – um homem de pele clara, corpo sarado e riquíssimo, contracena com ela as estratégias de uma tragédia em massa. Vera adota tal codinome para manter em sigilo sua verdadeira identidade. Filha ilegítima de um empresário joinvilense de excelente nível social, é desconhecida da mídia e por isso pode exercer sua profissão com coragem, determinação e extrema ousadia. Investigadora da polícia federal, formada em direito pela UFRJ, 32 anos, oito de experiência em laboratório de investigação criminal, possuidora de atributos físicos invejáveis como pele morena clara, lábios volumosos, olhos cor de mel, cabelo cacheado quase negro, pernas bem torneadas, excelente preparo físico, Vera tem tudo para ser bem sucedida em qualquer área relacionada à moda ou beleza. Ao contrário, respira patriotismo e é adepta à sentença de morte. Incitada contra alguma ameaça iminente não se intimida, sacando de seu calibre 38 com agilidade, precisão e impiedade. Respeita os cidadãos comuns que necessitam proteção. Ademais, julga e condena sem misericórdia nem arrependimento.

Após tomar banho e se vestir, principia a leitura de um relatório em seu notebook. Uma ligação vem interromper seu momento de ser quem de fato é.

- Olá, querido – inicia nova encenação. Imagina as grandes e respeitadas atrizes brasileiras aplaudindo sua performance. – Em que posso ajudar o meu docinho?

- Convenceu o guri. – Vera estremece, momentaneamente desarmada. Isso não é nenhuma pergunta e ela não pode queimar seu filme logo nessa hora.

- Por enquanto ele não tem condições de agir – responde ela, num tom de voz sério e obediente. – O Marcelão exagerou no susto e colocou o pobre no hospital. Mas tenho um plano.

- Ãh?

- Ele vai colocar aquela garota ridícula na jogada, quer queira, quer não. Senti certa afinidade entre os dois, coisa de irmãos, e eles não vão escapar do esquema.

- Sem erros desta vez. Minha confiança no seu projeto tá por um fio.

A voz rouca e enérgica do sujeito retumba na memória de Vera, que encolhe as pernas, subitamente amedrontada. Não poderia falhar em hipótese alguma. Entretanto, nova onda de entusiasmo lhe arrebata o espírito oprimido pelo peso da violência da qual seria testemunha. Enquanto cumpre ordens para que o terrorista plante a bomba em um ponto estratégico da cidade, Vera trabalha pelo outro lado com a promessa de evitar que o esquema seja desativado a tempo.

- Bem, amanhã vou fazer uma visitinha para minha mais recente amiga – fala Vera para a própria imagem no espelho. Caracteriza-se novamente e sai para a rua com o notebook a tiracolo.



Vanessa passara um final de semana longo, angustiante e solitário, pois mal conseguira falar com Pedro já que ele preferiu ir vender seus lanches a conversar com ela e entender os motivos que a deixam tão magoada.

Pedro exerce uma espécie de tirania em seu lar e o egoísmo fala mais alto, por isso raramente reconhece seus erros ou tenta melhorar o convívio com a esposa. É do tipo que acha que mulher deve trabalhar somente dentro de casa e o fato de o salário mensal da esposa ser o carro-chefe das despesas torna Pedro agoniado, infeliz e frustrado. Deseja mudar de atitude, fumar menos, por exemplo, mas não tem força para vencer o vício. Mas ele sabe que é o errado, aquele que cobra da esposa o que ele próprio não consegue proporcionar. Vanessa imagina que ele jamais pensa no bem dela, mas se engana, porque o rapaz fica o tempo inteiro matutando o que fazer para melhorar a renda familiar. Por essa razão, apareceram alguns caras oferecendo para ele alguns serviços extras, que ele aceitou de bom grado, sem analisar ou prever as consequências de seus atos.

Vanessa, por sua vez, inicia a semana de trabalho destruída em seu íntimo. Imagina ser a mulher mais feia, mais ignorante e a pior esposa do mundo. Pudera, o marido ajuda a baixar sua autoestima a níveis consideravelmente perigosos para uma possível depressão.

Entretanto, Vanessa suporta com paciência todas as suas agruras, pois tem a esperança de que a vida deles melhore, não somente a parte financeira como também a questão emocional de ambos. Os pensamentos vem e vão em uma sucessão repetitiva de imagens e ela já está muito mais angustiada do que antes, pensando que aquele incidente de final de semana irá provocar mais infelicidade e que Pedro não chegará a reconhecer que estava errado e que a ofendera profundamente.

Em meio a tantos conflitos, não percebe que Renato para a seu lado na mesa de acabamento. Quando se vira para guardar a produção embalada na caixa, gela e quase desfalece.

- Não precisa se assustar – Renato abre um sorriso e arregala os olhos como quem diz: Surpresa! Cumpri minha promessa e voltei para te ver!

Ele havia se aproximado demais e tanto atrevimento deixa Vanessa inquieta. Ela fecha a cara e ele, compreendendo o recado mudo, retira-se.

O corpo de Vanessa treme de cima abaixo, o rubor cobre sua face e o coração descompassa. Sem compreender estranha reação, ela procura desviar o pensamento de Renato, que agora a invade seguidamente.


*****

Estéfanie não vai à escola. Volta para casa depois de sair do hospital e sente-se aniquilada por um sentimento destrutivo de culpa. Ninguém lhe explicara que o amigo precisava de um tratamento de desintoxicação e que sofria as consequências do consumo de entorpecentes. Que ele usava droga ela já tinha conhecimento; o que não engole é o fato de ter sido acusada por desencaminhar Vinícius, se é a pessoa que sempre o censura. O fato de se sentir injustiçada machuca sua alma sincera e de boas intenções.

O celular toca. Quando Estéfanie vê que a chamada é do celular de Peter, faz um trejeito de desagrado com o rosto, mas atende mesmo assim.

- Que você quer?

- Onde é que você tá, cara? Tá todo mundo estranhando sua falta...

- Todo mundo falta à escola – responde, zangando-se. – Cuida da sua vida que da minha cuido eu...

- Ô, gata! Calma aí! Tá chateada comigo, tô sabendo. Mas, ó, não esquenta...

Impaciente, ela interrompe a chamada. Peter insiste, mas ela, irredutível na decisão de não atendê-lo, prefere desligar o aparelho de uma vez.

Resolve reagir porque não adianta continuar nessa fossa mesmo. Vinícius está sob cuidados médicos e ela precisa pensar no evento que irá acontecer. Pega o violão, antes encostado ao lado da cama e começa a dedilhar uma melodia. Tenta compor, mas lhe falta motivação, pois os pensamentos negativos parecem querer castigá-la. Canta um pouco, toca. Erra as letras, desafina as cordas do instrumento. Que coisa! Parece que não é para ela fazer isso. Para tudo e inspira profundamente.

Fecha os olhos e, de repente, as primeiras notas começam a flutuar em sua mente. Ouve a melodia tocada em vários instrumentos, que rodopiam, com vida. É como se, em vez de olhar para as coisas que estão diante de seus olhos, ela pudesse olhar para dentro de si mesma. Sente a vibração dos acordes, a sutileza dos tons, pode perceber a amplitude dos tipos diversos de som. Foge do universo tangível para seguir a sua imaginação, esquece os sofrimentos e encara o mundo onde tudo são notas. Cada nota corresponde, na realidade, a sons distintos, porém, no seu mundo, Estéfanie é capaz de atribuir sabor e perfume a casa som. Doces, salgados, acres, adstringentes, suaves. Fragrâncias incomparáveis misturam-se a sons doces e sutis. Assim nasce a música que, na última nota, faz Estéfanie chorar de emoção.

Estéfanie termina de escrever a música na partitura e, contente, liga para Eduardo.

- Edu, depois do colégio você vem pra cá? – A empolgação aparece em sua voz e ela se esquece de que ambos haviam se desentendido no último encontro.

- Claro, dou uma passada lá depois. Mas por quê?

- Preciso mostrar uma coisa muito importante...

Eduardo é a primeira pessoa a quem ela recorre para mostrar sua criação. Estéfanie confia nele porque ele consegue incentivá-la e simultaneamente corrige o que acha: algum arranjo mal feito, sugere outras batidas, outros instrumentos, é seu estimulador. Ela sabe que algum dia a banda fará sucesso. Tem esperança e trabalha para isso.

O promotor de eventos a quem Estéfanie fora apresentada é um sujeito sarado e de boa aparência. Tendo consciência dos seus atributos físicos, é um presunçoso de primeira. Arrogante, fala de um jeito característico, arrastando as últimas sílabas de cada palavra proferida. Estéfanie antipatiza-o logo de cara, porém, precisa engoli-lo, já que é a oportunidade mais tangível até o momento. Fora obrigada a aceitar condições inescrupulosas para fazer o show, uma vez que cedia o cachê para a casa e ainda deveria pagar o equivalente a um ano de salário do pai ou da mãe.

Até aquele momento, de nenhum destes estratagemas do promotor ela desconfiava e só o que imaginava era a noite de apresentação. O difícil era conseguir o dinheiro da extorsão. Os pais não estão ao seu lado, pois são do tipo que acreditava somente na corrupção do meio artístico. Provém de famílias que os educaram de forma a não aceitar que um artista é também um trabalhador. Suas mentes confinam a ideia de trabalho operário, artesanal, profissões anônimas serem as únicas corretas. E desse jeito, a pobre Estéfanie está sozinha em um luta desigual pelo seu espaço nos palcos e dentro de casa.

Às 11:30 apressa-se a preparar o almoço para os pais, que chegarão duas horas após.


*****


Por volta das 13h45, os pais de Estéfanie chegam do trabalho, tomam cada um seu banho e se sentam à mesa junto com a filha para almoçar.

- Gostaram da comida? – pergunta, antes de devorar uma garfada de macarrão com carne moída.

- Está bom – responde o pai, com o esgotamento físico transparecendo em seu semblante.

- Um pouco salgado – fala a mãe, mas, para animar a filha, declara: – Mas o gosto está muito bom.

Estéfanie sorri, satisfeita. Fazia tempo que os pais não a elogiavam. Entretanto, ela fica receosa.

- Filha, eu e seu pai estivemos pensando... – Ih, Estéfanie sentiu uma pontada de ansiedade travando seu esôfago.

- Achamos melhor que você comece a trabalhar.

- Trabalhar?! – Estéfanie não pôde disfarçar sua surpresa. A comida desce atravessada e ela toma um copo de refrigerante em um só gole.

- Isso mesmo! – o pai continua, momentaneamente empolgado. – Até conseguimos um emprego pra você.

Estéfanie tosse, se engasga, toma mais um copo de refrigerante e fica subitamente deprimida. Atendente de panificadora: é só chegar, se apresentar e começar a trabalhar.

- Eu e seu pai vamos sair. Precisamos acertar as contas do mês. Quer vir junto?

Estéfanie leva a louça até a pia, enquanto a mãe arruma a mesa. Explica, com certo receio, que chamara Eduardo para visitá-la, pois sabe que aquilo poderia aborrecer os pais, já que não queriam que ela continuasse a cantar. Um murmurado “comporte-se” que sai dos lábios da mãe provoca grande surpresa para Estéfanie, que enruga a fronte, desconfiada.

- Nós não vamos demorar, filha. Lembre-se que amanhã é o seu primeiro dia de trabalho e deve estar descansada. Tchau.

“Ah, então é por isso que ela tá tão legal”, reflete, desvendando o mistério. Tanto a mãe como o pai queriam há muito tempo arranjar um trampo para ela, pois assim resolveriam dois problemas de uma só vez: Estéfanie teria seu próprio dinheiro, que era a preocupação secundária; e obrigar-se-ia a afastar-se da banda, pois com horários preestabelecidos com escola e trabalho, ela teria pouco tempo e disposição para a música.

*****


Enquanto Estéfanie aguarda o amigo e passa os minutos matutando a respeito da iniciativa dos pais em lhe arranjar uma renda, Eduardo espreguiça-se ao se levantar da cama, após uma sesta. Lembra-se da voz ansiosa de Estéfanie pedindo que ele vá vê-la, e já imagina que o motivo é alguma nova composição. Deita-se novamente, cruza os braços abaixo da nuca e fixa os olhos no teto, como se ali pudesse avistar uma foto imaginária da garota pela qual está apaixonado. Sente calor no rosto pensando nela, em cada detalhe do rosto, na maciez do cabelo, na delicadeza das mãos, no jeito de se vestir, até mesmo nas formas físicas. Imagina que o convite fosse algum tipo de pretexto para se encontrar com ele, que ela também gosta dele, que podem até ficar, mas logo seus sonhos se desvanecem, pois Estéfanie tem o amor de sua vida, um adversário difícil de aplacar: a paixão pela música. Com essa Eduardo não se atreve a concorrer, dada a disputa injusta.

Em tão intensas reflexões Eduardo se perde, nem nota que uma carreta manobra diante da casa e se prepara para estacionar. O motorista guia o veículo com irritação e impaciência. Em sua face nervosa, a fronte divide-se em profundos sulcos, de onde escorrem pesadas gotas de suor. As sobrancelhas unem-se, espessas e compridas, demonstrando raiva crescente. As narinas abrem e fecham seguidamente, inspirando desgosto e exalando ódio. Os lábios formam apenas uma linha reta desproporcional ao queixo anguloso.

Terminada a manobra, desliga o gigante veículo de carga, abre a porta e pula para fora, sem utilizar os degraus. O homem robusto segue para dentro da casa. Passa pela garagem, olhando para todos os lados. A porta de serviço está apenas encostada e ele chega até a cozinha. Bebe um copo de água que retira da geladeira. O silêncio irrita-o mais ainda.

Toda essa movimentação passa despercebida pelo pobre Eduardo, que continua divagando e não imagina em que sua inércia culminará.

- Eu aqui me fodendo pra sustentar vagabundo! – soa a voz rouca, impregnada de ódio e pronunciada entre dentes trincados.

- Pai?! – Eduardo levanta em um salto e ficou de frente para o homem. – Vo... você... o senhor che... chegou? – gagueja.

- Ah, não tava esperando... você precisa de um corretivo, filho de uma...! – rosna.

- Não, pai! Não, pai! – implora, segundos depois era arremessado contra o roupeiro com um safanão na orelha. Eduardo ouve um estouro dentro de seu ouvido e em seguida sente um líquido viscoso descendo pelo pescoço. O zumbido forte confunde-o. Através da visão turva observa o semblante enraivecido com que o pai o enfrenta e um novo estrondo em sua cabeça estonteia o garoto, que cai ao chão, tal qual um pugilista derrotado. O oxigênio não passa pelas vias nasais, totalmente obstruídas por sangue coagulado. O ataque brutal e sem propósito deixa o rapaz a mercê de um destino irremediável.

- Levanta e vai trabalhar! Aqui não tem lugar pra vagabundo!

Eduardo é alto, mas muito fraco perto do pai e fica em desvantagem. Ouve o pai xingá-lo, mas a voz parece vir de quilômetros de distância. A violência implacável anula as possibilidades de defesa e Eduardo pensa que dessa surra não sobreviverá. O zumbido no ouvido atingido toma proporções graves. Subitamente, o pai o larga e Eduardo deixa-se cair ao chão. Recebe um chute na cabeça e, quase inconsciente, pede que Deus o livre desse martírio. As notas da música Ameno, do Era, vem à sua mente. Está praticamente nas mesmas condições do soldado que, entrincheirado e ferido, implora para que Deus o livre de tamanha dor. Olha para o homem a quem chama de pai e pede:

- Pai, me mata de uma vez! O senhor não queria mesmo que eu nascesse! Me mata de uma vez!

Para pronunciar seu derradeiro pedido, o garoto despende toda a energia que lhe resta e perde a consciência. O pai, que se prepara para segundo violento chute, recua inesperadamente. Observa o filho, mas seu coração gélido não busca arrependimento. Sai de casa, embarca no caminhão e se vai, inconsciente do crime praticado.

Caído ao lado do corpo inerte, o celular vibra incessantemente.


*****

Estéfanie aguarda com sufocante ansiedade a chegada de Eduardo. Precisa mostrar-lhe a música e contar sobre suas expectativas quanto ao trabalho que seus pais lhe arranjaram e insiste no celular.

Soa a campainha e Estéfanie corre para abrir a porta da frente.

- Como você demorou, Edu! – queixa-se antes de abrir a porta por completo.

- Olá! Vejo que você estava esperando outra pessoa... tá com uma carinha de desapontada...

- É, mas quem é você? Minha mãe vai demorar um pouco...

- Ué? Você não se lembra de mim, querida? – Estéfanie ensaia uma careta. – Sou a Vera, lembra? Do hospital?

- Ah. – Estéfanie desinteressa-se totalmente por essa visitante inesperada. Vai começar a se desculpar, dizendo que está ocupada, mas Vera adentra a sala mesmo sem ser convidada. – Eu acho melhor você sair. Tô mesmo esperando meu amigo pra gente terminar de compor mais uma música...

- Mas se é justamente sobre seu talento que eu vim falar! O Víni já tinha comentado que vocês estão tentando se lançar. – Vera observa que sua explicação provoca nova reação em Estéfanie, que fecha a porta e se volta para ela.

Estéfanie procura simular empolgação e credulidade absoluta, além de disfarçar sua preocupação com o amigo Eduardo. Há também a sensação indesculpável em relação a Vinícius. Sabe ser esse um ponto fraco e temia que a presença de Vera viesse entornar seus dilemas. Estéfanie possui essa malícia que predomina na maioria das adolescentes. Já andava desconfiada com o assédio do promoter que contratara. Vera não inspira maior confiança do que o primeiro.

- Se queria minha atenção, conseguiu – declara, abrindo um largo sorriso. – Me deixou curiosa.

- Você já tem um empresário, Estéfanie? Ou quem sabe, uma empresária? – Vera contorce-se, perambulando entre os móveis da sala.

- Cuido de tudo sozinha, Vera – responde, cruzando os braços. – Por acaso conhece alguém do ramo? – finge interesse.

- Mas é claro, minha querida. Tenho planos perfeitos para você e sua banda. Em três tempos, vocês vão se tornar a banda número um do Brasil!

Ressabiada, Estéfanie pede para que a prospecta empresária se sente e explique o que planeja. O projeto favorece a banda e Vera diz possuir fontes de renda para a campanha de lançamento. Estéfanie não precisa desembolsar nenhum real antes da estreia e nem se preocupará com nada, pois Vera cuidará de todo o processo.

- Primeiro, a gravadora; mais tarde a agenda de shows – explana.

“Parece fácil demais”, reflete Estéfanie, lembrando-se de que havia marcado sua primeira apresentação. Decidida, recusa a oferta. Vera perde subitamente todo seu rebolado e, sem proferir palavra, gesticula que Estéfanie está louca.

- Uma oferta destas não dá pra desprezar! E você tem que aguardar a opinião dos seus companheiros, não é bem assim...

Estéfanie observa pela janela da frente que sua mãe abre o portão e o pai entra de carro. Depois que fecha o portão, Iracema entra pela porta da frente, estranhando que está entreaberta. Depara-se com Vera, que assumira de imediato uma postura arrogante e pretensiosa. A agente secreta exagera nos ademanes da personagem que representa e coloca Iracema ainda mais desconfiada do que naturalmente é.

- Chegou a mãe que vai ser a mais orgulhosa e a mais assediada do Brasil! – afirma, correndo na frente de Estéfanie ao encontro da austera senhora. Discursa então sobre os projetos que tem com relação à prodigiosa cantora e insinua que Iracema certamente poderia melhorar o guarda-roupa ultrapassado.

Vera se torna o centro das atenções nesses aproximados dez minutos em que usa de um monólogo paradoxal, carregado de frases grotescas, expressões banais, gírias e exageros linguísticos. Suas especulações lançam chamas de impaciência nos olhos de Iracema, que trata de esfriar o entusiasmo da presença inconveniente:

- Eu não quero que minha filha cante para não se tornar uma imoral como você. Agora, dá licença.

Vera é convidada a se retirar e sai com o mesmo ar insolente com que manipulara toda a cena.

- Agora nós duas vamos ter uma conversinha, dona Estéfanie...

O pai aproxima-se das duas com o semblante carregado de repulsa. Ouvira tudo, embora tivesse aguardado pacientemente o final da conversação. Estava convicto de que a filha tinha largado aquela bobagem de se tornar famosa. Pensava que suas recriminações tivessem surtido efeito e que Estéfanie obedecesse, porém, verificara que a filha não tivera respeito algum por suas ordens. Um assomo de raiva enrubesce sua face bochechuda e ele explode uma torrente de implicações altamente ofensivas em direção ao ego abalado da filha.

Estéfanie tenta justificar, respondendo em tom mais ameno, porém, suas explicações em nada aplacam a fúria verbal de seu pai. Ousa revelar que já se antecipara à dramática mulher e que agendara a estreia de sua banda. Com isso, lamentavelmente, desferiu o golpe fatal contra as próprias ambições.

- Proíbo você de voltar a formar banda! Iracema! Joga agora mesmo toda aquela tralha no lixo!

Sem demora, Iracema segue para o quarto da menina e retira todos os instrumentos, aparelhos, pautas e o que tem relação com a música que a filha insistia em manter. Ensaca tudo e coloca no lixo fora do portão. Nem mesmo os protestos pungentes da filha, que parece desfalecer de desgosto, atenuam tanta loucura. Não sobra nada, tampouco a música que acabara de compor. Soluçando desesperadamente, Estéfanie se debruça sobre o saco de lixo na calçada e tenta recolher o que pode. Uma vizinha idosa vem ao encontro da menina, que se esforça para carregar os materiais. De dentro da casa, a voz do pai vocifera a ameaça:

- Se trouxer qualquer coisa de volta, é você quem vai pro olho da rua!

Estéfanie larga o corpo sobre a calçada, dorida, desnorteada, massacrada em seu âmago.

- Não se preocupe, querida – diz a bondosa senhora. – Vou ajudar você. Fique tranquila, porque vou guardar tudo na minha casa.

- Obrigada – consegue murmurar, extenuada.

- Agora entre, tome água com açúcar e vá se deitar. Não enfrente seus pais nesse momento. Fique com Deus.

Estéfanie observa a vizinha levando suas coisas e obedece suas recomendações. Passa cabisbaixa pelo pai, que aguardava na porta e vai para a cama, onde desaba em um profundo e restaurador sono.

ENGRENAGEM DO CRIME – 4ª CAPÍTULO - NA BALADA DO PERIGO – 2ª PARTE




Vanessa ansiava pelo final de semana prolongado do feriado de Páscoa para se dedicar inteiramente a seu marido Pedro.

Depois que volta para casa, come alguma coisa, organiza tudo, lava e estende roupas e ainda vai ao mercado. Havia pagado a conta de seis reais com uma nota de dez e o vendedor, distraído, juntou a mesma nota ao troco.

- Você me deu vinte, não foi?

- Não, não, foi só dez. Depois seu caixa não vai fechar e você vai ter que tirar do seu bolso – diz ela, orgulhosa com a própria honestidade.

- Obrigado – agradece o vendedor.

Retorna, prepara o jantar e então Pedro aparece. Ela corre ao encontro dele e abraça-o com paixão. Ele, cansado, se solta dos braços dela em menos de dez segundos e vai tomar banho. Depois volta à garagem para tomar algumas cervejas e fumar. Vanessa, por sua vez, se senta em uma cadeira e começa a tagarelar.

Pedro fala de seu serviço e da vida difícil que levava. Faz reclamações de que queria crescer para acabar com a inveja das pessoas, que parecia afundá-los em dívidas cada vez maiores.

- Aqui tem algo de errado – ele começa a se alterar, falando mais alto.

Vanessa então levanta e o abraça com carinho, pedindo que mudassem de assunto e que namorassem um pouco. Contrariado, ele se irrita e mostra o cigarro lançando fumaça no ar.

- Você fala o tempo todo que não gosta disso – apontou o cigarro e afasta-se do abraço dela.

- Você que não gosta de carinhos, não é? – arrisca, porém, com a sensibilidade provocando uma ponta de tristeza.

- Adoro, mas isso tem hora e tem lugar. Agora eu tô raciocinando, tô numa sequência boa de ideias...

- Mas, Pedro, eu quero ficar perto de você... – tenta motivar-se, mesmo que a afetividade que procurava pareça inalcançável.

Pedro não dá atenção à queixa quase chorosa e continua reclamando da vida decadente. Lembrou que quando se conheceram, estava muito bem empregado e que se tivesse continuado naquele ritmo, atualmente seriam bem mais felizes. Pedro associava a felicidade às conquistas materiais e firmava-se nessa crença, coisa que Vanessa sempre lamentava, pois para ela a felicidade era alcançada com a presença de seu marido e com o carinho que sempre buscava. Pouquíssimas vezes ele lhe dizia que a considerava uma mulher bonita ou reconhecia o esforço que ela desprendia por amor a ele. Sempre voltava cansada da confecção, mas procurava servi-lo em tudo, ajudando a vender até tarde, mesmo que precisasse acordar de madrugada no dia seguinte. Mesmo indisposta ou deprimida, ela estava sempre à disposição dele, até mesmo quando ele a procurava para a intimidade. Diversas vezes ela quis dizer que não se sentia bem ou que não sentia desejo, mas dava o que seu corpo nem tinha mais para tentar agradá-lo. Depois do ato, Pedro virava-se para o lado satisfeito e dormia, enquanto ela, humilhada, chorava por não ter sentido prazer no que fizera por obrigação.

Um assunto que Pedro comentara fez com que Vanessa mencionasse o equívoco do vendedor.

- E você respondeu que sim, né? – a pergunta, na verdade, uma afirmação, é praticamente gritada.

- Não, claro que não. Fiz o que é certo – ela responde sorridente e satisfeita.

- Mas você é mesmo burra! – vocifera com súbita raiva e Vanessa se encolhe assustada com a reação. – Por isso que você tá assim! A gente tem que levar vantagem quando tem oportunidade! Igual eu, hoje, o cara veio com uma nota de R$ 50,00 para pagar dez lanches. Ficou em dúvida e eu lhe devolvi somente R$ 30,00. Ele nem notou. Vanessa, tem que aprender a ser esperta, Vanessa! Batalha onde você tá. Com esse seu jeito de boazinha não vai chegar a lugar nenhum nunca! E outra coisa: tem que voltar a ser o que era pra gente economizar e sair desse poço. Tem alguma coisa errada, você tá gastando muito...

Vanessa ouve todas as palavras chicoteadas em alta voz e se encolhe com os gestos ásperos das mãos de Pedro, que apontam para ela e se fixam no ar com a violência de golpes secos. Começa a chorar e deseja que se abra um buraco no chão para engoli-la. Pedro não tem emprego fixo e, ainda por cima, bebe latas e mais latas de cerveja e queima quase duas carteiras de cigarro todos os dias. É ela quem paga praticamente todas as contas da casa e lamenta que não possa adquirir nada para si própria. Como é que o marido pode acusá-la de esbanjar dinheiro?

- E você tem que falar desse jeito? Brigando comigo assim?

- Isso não é briga, Vanessa! – ele larga os braços ao lado do corpo, impaciente. – Isso é apenas uma conversa.

- Conversa?! Me xingando desse jeito? Eu só posso trabalhar, não sei mais de que outra forma ajudar a gente...

- Esse é meu tom de conversar...

As exprobrações não haviam encerrado e Vanessa dá as costas para ele, magoada e ofendida. Toma banho e vai deitar sem jantar, soluçando o tempo inteiro. Chora madrugada adentro. Que vida tinha escolhido? Por que Pedro a tratava daquele jeito estúpido? Será que merecia receber um sermão daqueles se estava tentando fazer a coisa certa? Mais uma vez se questionava pelas injustiças e sofria por sua incapacidade de compreensão.


*****


Estéfanie dança sobre uma pista ao lado de pessoas estranhas. As luzes colorem seu cabelo e rosto com vários tons, mas seu semblante não é o de uma jovem que se diverte. Há um quê de preocupação em seu olhar. Ela usa uma blusa preta brilhante e uma minissaia comportada e seus gestos não são extravagantes como das outras garotas que a circundam.


Na escuridão interrompida pelas luzes de neon surge um moço alto, magro, cabelo modelado com gel, sorriso e olhos luminosos. Veste um jeans, de onde pende um acessório em forma de corrente, camiseta justa com frases em inglês e tênis de uma marca famosa. Eduardo aproxima-se de Estéfanie e sorridente inclina o corpo para lhe dar um beijo no rosto, mas desiste do intento. Peter, com seu jeito abusado, chega antes e tasca um beijão na boca da gata. Eduardo, por sua vez, acha melhor não misturar as coisas: banda pra cá, sua admiração por Estéfanie pra lá. O sorriso que momentos antes abrilhantava suas feições comovidas foi trancado pelos dentes que mordiscam os lábios e tremem no espaço dos segundos que paralisaram no tempo.

- Pleft!

Não fosse o som ensurdecedor dentro da danceteria, todos, até mesmo Eduardo que dera as costas e se afastara, teriam escutado a bofetada que Estéfanie dera em Peter. Irritada com a tremenda ousadia de seu companheiro, censura-o até esgotar um vocabulário pouco usual e nada – nada mesmo! – gentil. Peter não se altera. Parece até satisfeito com o tapa e sorri presunçosamente. Percebera há um tempão que Eduardo arrastava a asa pro lado da sua pretendida e gesticula com os dois braços dobrados um sinal de vitória quando vê que o cara se mandara, arrasado. O resultado atingido com a estratégia inescrupulosa e improvisada de avançar sobre a gata deixa Peter orgulhoso de seu triunfo.

Estéfanie esgueira-se na multidão para não olhar mais na cara arrogante de Peter. Essa azaração estava passando dos limites e ela se indigna. Dá o fora antes que Peter pudesse segui-la. Na rua, avista Eduardo, com mãos nos bolsos, encostado no muro da danceteria.

- Finalmente!

Eduardo percorre os olhos pelo corpo dela e estranha sua presença e frieza, pois a tinha visto no maior amasso há minutos. Fica na defensiva.

- Então? – ela coloca as mãos na cintura. Imóvel na frente dele aguarda um cumprimento, um beijo ou simplesmente uma resposta.

- Então o quê?

- Não tem nada pra me contar?

- Contar?! – Eduardo remexe-se. Coloca o pé no muro e cruza os braços. – Contar o quê? Tá viajando?

- A sua conversa com seu pai... – As palavras foram esmorecendo, pois o desprezo com que ele a tratou a espanta. Eram sempre tão unidos. Não havia conseguido conversar com o amigo quando o seguira depois da prova e durante a semana inteira ele se esquivara.

- Ah. Não, tá tudo legal.

- Mesmo?

- Mesmo.

- Conta outra.

- Deixa de se meter na vida dos outros, Estéfanie! Que coisa mais insuportável! – ele perde a paciência. É muito difícil se alterar desse jeito.

- Insuportável? Ora essa! – Estéfanie fica cada vez mais chocada com as atitudes do amigo. – Eu só tô querendo ajudar, Edu...

- Então se manda, vai, vai! Me deixa quieto...

- Não dá outra!  Tô saindo fora – responde ofendida, enquanto dá as costas para Eduardo. – Ah! Só por obrigação, vou dar o recado: o promoter da Mansão Getúlio vai liberar um lance pra gente...

- Como é que é? – Eduardo interrompe-a e praticamente salta sobre ela.

- Ué? Não faz um minuto que você me mandou vazar... – ironiza. – Agora quem não quer ficar sou eu! Fui!

Ao avistar a amiga se afastando em passos rápidos e gestos ríspidos, Eduardo cai em si com a tremenda besteira que provocara. Enquanto lamenta que ela não enxergasse nele o interesse que o ilude, reconhece que Estéfanie é a única que realmente age para divulgar a banda. Considera detestável o próprio comportamento frente à injustiça que acabara de cometer. Ele e os outros vivem se queixando quando ela decide os dias e horários para ensaiar e cobra a presença como se todos devessem seguir uma rotina profissional pra valer. Na cabeça dos garotos, a banda não passa de um passatempo divertido e eles estão comprometidos com a própria curtição e não com a formação da carreira musical. Eduardo leva pouco a sério o talento nato que facilita os arranjos e composições, a sua audição aguçada e a habilidade com a guitarra. O amor que sente pela vocalista é a razão pela qual participa da banda, pois quer simplesmente estar próximo a ela. Peter, um tremendo baixista, daí o motivo pelo qual Estéfanie o atura na banda, não se importa em partir pra cima e tentar conquistar a garota. Vinícius é desajuizado e largadão, paparicado demais pela mãe e não sabe o que quer da vida.

- Sou uma besta! – Eduardo não se conforma e esmurra a própria cabeça para se punir. Pensa em aproveitar a balada até o dia amanhecer, visto que seu pai – um caminhoneiro com mais de vinte anos de profissão, está em viagem, entretanto, os incidentes desse início de noite o desmotivam e ele resolve voltar para casa.


*****


Vinícius fica com uma mulher de cabelo tingido de loiro, sensual, visivelmente mais madura do que ele. Dado o ritmo de seu envolvimento, percebe-se que se conhecem há mais tempo e que boa coisa não há ali. Extrovertida em excesso, a loira não se intimida em descer até o chão no rebolado de um funk. Cigarros e bebidas passam sem cerimônia por suas mãos frenéticas.

- Isso daqui é do melhor! – berra o garoto, para ser compreendido no meio daquele fervo. – Experimenta, gata! Não vai se arrepender...

Ela toma um comprimido da mão dele e engole junto com um gole de uísque. Os efeitos começam a saltar aos olhos dela. Vinícius, por sua vez, fica satisfeito. Gosta da moral que ganha ficando com ela. Seus corpos roçam um no outro, aumentando a energia e provocando em ambos desejos lascivos.

De repente, surgem dois sujeitos encorpados ao lado da mulher e, propositalmente, ela aponta o dedo para o garoto. Ele é menor de idade e havia entrado na danceteria graças à influência dela. Então, cercam-no e, discretamente, ameaçam-no com revólveres. Retiram-no da pista de dança e levam-no até uma sala privativa no mesmo prédio.

Vinícius nem respira. Confuso devido à embriaguez e ao consumo recente de extasy nada enxerga. Há uma lâmpada dependurada no centro da sala sobre uma mesa, que o cega.

- A coisa ficou preta pro teu lado, fedelho!

Forçam-no a sentar e um dos sujeitos brutais afunda os dedos nas bochechas do garoto, que nada distingue.

- Tá fudido! – ameaça outro indivíduo. – Foi cutucar a onça com vara curta e agora vai tomar uma lição!

O segundo sujeito enfia os dedos nos olhos de Vinícius, que urra de dor e urina nas calças.

Duas horas depois, Vinícius é atirado para fora de um carro no portão de sua residência. O automóvel sai cantando pneus, despertando os moradores. As luzes da casa se acendem e os pais de Vinícius, ouvindo os apelos do garoto, correm para socorrê-lo.

- Filho! Meu Deus, filho! – grita a mãe, em desespero crescente. – O que fizeram com você, filho?

- Mãe, eu tô cego, mãe... – soluça.

O pai levanta-o da calçada e carrega-o no colo para dentro de casa.

- Vamos levar ele pro P.A. 24 horas, Leda. Pega a chave e os documentos do carro, rápido!

Algumas horas depois do atendimento, o médico plantonista aparece na sala de espera para dar notícias do estado do paciente para os pais. Informa-lhes que as agressões não haviam provocado cegueira como temiam e o casal se abraçou com alívio.

- Mas há outra coisa... – pigarreia o médico, interrompendo aquele momento de alegria.

- Conte, doutor – pede Leda, subitamente angustiada.

- Os exames de sangue e de urina revelam presença de álcool e consumo de entorpecentes. – O médico observa a perplexidade estampada no rosto dos pais do garoto e verifica que, como imaginara, os pais não tinham conhecimento da vida desregrada que o filho leva. – Ele precisará de internamento urgente para desintoxicação...

Leda choca-se e começa a chorar. O pai de Vinícius, Marcos, limita-se a esfregar a cabeça calva e suspira.


*****


Amanhece e, enquanto o médico conversa com os pais de Vinícius, a mulher loira da danceteria entra sorrateiramente no quarto onde o garoto está internado.

- Olá, Víni!

- Quem t’aí? – remexe-se no leito, retesando-se. Há curativos em seus olhos.

- Sou eu, queridinho... a Vera.

- Sua traiçoeira! Como cê se atreve a invadir meu quarto? Sai daqui!

- Que corajoso... – desdenha. Ela caminha em torno do leito com demasiada vulgaridade e expressa-se através de um dialeto cheio de gírias. – O Ivo mandou uma surpresinha pra t’incentivar... – continua, colocando dinheiro na mão do rapaz.

- Não quero – balbucia. – Leva isso daqui – larga o dinheiro com aversão.

- Vai recusar uma nova oferta do Ivo, querido Víni? – Aproxima-se do rosto dele e seus cabelos roçam no pescoço do garoto. Sopra de leve sobre a fronte logo acima dos curativos e afaga o peito por cima da camisola do hospital. – Você sabe que ele aprova os seus serviços e ainda oferece uma recompensa muito boa. E sabe também que ninguém nega serviço pro Ivo, logo ele, que é tão generoso...

- Vai embora! – ordena o garoto, com súbita impaciência.

- Não sem antes dar todas as informações de que você vai precisar.

Vinícius, embora contrariado, ouve tudo com atenção.

- Até que enfim encontrei você! – exclama a garota que irrompe o quarto com ofegante sofreguidão. – Cara, como é que você tá?

- Fan?! – indaga, sobressaltado e, ao mesmo tempo, contente com a interrupção oportuna. Depois do corretivo que recebera, ele não tinha a mínima intenção de participar dos planos de Vera nem do tal Ivo.

- Eu vim assim que soube do seu acidente. Mas cara, sai dessa logo, eu bem que avisei.

- Então é você a vocalista da banda em que ele toca? – atalha Vera, visivelmente interessada na repentina e propícia informação. Estéfanie afirma, mas não demonstra qualquer desconfiança. Vinícius, por sua vez, limitado com a falta de visão, mas com a audição mais sensível a variações de fala, percebe um sinal de alerta para tal interpelação. – Víni, você não tinha apresentando a gente ainda, que garoto mal-educado – zomba. Trata de se despedir, mas para na porta do quarto. – Tchauzinho, queridos. A gente se vê logo.

Vinícius sua frio e treme. Esconde o dinheiro entre o colchão e o lençol ao alcance de sua mão e começa a passar mal.

- Eu vim dar uma ótima notícia – informa Estéfanie, sorridente e esperançosa. Não se deu conta de que o amigo estava no início de uma crise de abstinência. – Nós vamos tocar lá na Mansão no dia 25 do próximo mês. Por isso, você tem que ficar inteirão...

- O quê?! Mansão? Dia 25? Mas não pode... – delira, dizendo coisas absurdas e desconexas.

Repete o tempo todo que eles não podem se apresentar, que têm que esperar ou encontrar outro evento para aparecer. De repente, os pais do garoto entram junto com uma enfermeira, que logo alerta a equipe para socorrê-lo. O médico retorna e a mãe de Vinícius, em insana revolta, aponta para Estéfanie:

- Essa daí é a responsável por meu filho estar aqui! – Em seguida, grita para que retirem a garota do quarto, alegando que é traficante de drogas. Estéfanie tenta se defender da ira de Leda, mas só consegue enfurecê-la ainda mais. – Nós vamos denunciar você, sua delinquente!

Estupefata, Estéfanie obedece à ordem, embora ofendida e contrariada com a injustiça e as infâmias. O amigo estava recebendo medicações, pois seu organismo estava fora de controle. Apenas nesse instante Estéfanie percebe que Vinícius está mal. Chora logo após ser expulsa do quarto. Ressentida pelas acusações de Leda e preocupada com o restabelecimento de Vinícius, volta para casa, e no quarto entorna no travesseiro toda sua mágoa.

ENGRENAGEM DO CRIME – 4ª CAPÍTULO - NA BALADA DO PERIGO – 1ª PARTE





Castro mantém sua concentração enquanto conduz a viatura. Primeiramente, o trânsito, depois as informações preliminares sobre o esquema de um crime excêntrico. Investiga o furto de uma planta predial, com detalhes sobre a instalação da rede de gás natural de Joinville inteira. A empresa responsável pela manutenção da rede solicita sigilo absoluto sobre a questão, temendo que os assaltantes fizessem parte do seu quadro de funcionários, o que era probabilíssimo. Por mais que raciocinasse, Castro não chega à exata compreensão de motivos para o furto. A criminalística poderia encaminhar aquela investigação para qualquer equipe, mas o caso curioso depende de esclarecimentos de um agente experiente.

- Dane-se experiência! – resmunga. – Tenho coisa séria para tratar.

Castro para no sinaleiro do cruzamento da Av. Santos Dumont com a Rua Tuiuti. Confere o endereço e o nome do cidadão que pretende capturar. Tão logo o sinal verde acende, manobra o veículo para a direita e segue para o bairro Paraíso. Lembra que está quebrando uma regra importante para o flagrante: está sozinho. Caso o perigo seja iminente, não terá o reforço de que necessita. É de um temperamento egocêntrico, recusando sugestões, age conforme suas próprias convicções. Nada teme, nem mesmo a dor ou a morte. Caso necessário, corre riscos, já que não tem família. Defende a lei, e tal virtude é admirada em seu meio profissional.

Circula durante aproximadamente dez quilômetros e alcança o local indicado no mandato de busca por volta da 11 horas. Desliga o motor e desembarca, olhando em torno para a vizinhança visivelmente apreensiva. As crianças são levadas para dentro das casas. Cachorros latem. O pó da estrada de terra é levantado por veículos de passeio que circulam em velocidade baixa. Castro empunha o rifle e segue para o portão da casa de alvenaria. As janelas da frente estão fechadas. Não avista ninguém do lado de dentro do terreno. De repente, aparece uma senhora franzina, muito assustada.

- Tenho ordem de busca para Adriano Moraes. Ele mora aqui?

- Mora. Vou chamar.

Castro não espera que a senhora o convide e vai logo entrando. Prepara a algema para dar voz de prisão assim que ela aparecer com o sujeito.

- Ele já tá vindo – ela avisa quando retorna. Esfrega o cabelo grisalho maltratado. Castro repara que a mulher tem poucos dentes e mesmo a movimentação lenta provocava-lhe fadiga. Imagina que o criminoso seja seu neto, dada a idade que consta no laudo de Dalva.

Uma figura toma forma na escuridão da casa e se move para a porta.

- Adriano Moraes? Está preso! – antecipa-se já com a algema a meio palmo do pulso do criminoso que precisa capturar.

- Eu não fiz nada, doutor!

O sujeito aparece totalmente à fraca claridade do dia nublado. Trata-se de um senhor ainda mais idoso do que a senhora que atendera. Perplexo, Castro estuda novamente o mandato. A captura é para um homem com aproximadamente 29 anos.

- Adriano Moraes é o senhor?! Cadê seu documento?

- Tá aqui – trêmulo e amedrontado, o idoso entrega o RG, onde consta somente o carimbo com o polegar. Depois de conferir, Castro brada enraivecido:

- Dalvaaaa!!!

Pede desculpas ao casal de idosos e imediatamente parte com sua viatura de volta ao laboratório da criminalística.

No prédio, segue abrindo e batendo portas. A cara fechada que exibe enquanto atravessa na frente dos colegas provoca murmúrios.

- O que deu nele? – indaga um funcionário.

- Ih! O tempo vai fechar!

Castro irrompe a sala onde César e Dalva examinam evidências de outro crime. Sua voz de extremada irritação estremece os móveis. Dalva observa com assombro a recriminação abrupta. Por sua vez, César disfarça um sorriso de satisfação com o fracasso da estagiária.

- Identidade falsa! – repete Castro ao ouvido da estagiária, que quase desfalece de temor. Pior ainda é saber que, seguramente, todos no prédio ouvem Castro chamá-la de incompetente.

Depois da explosão de raiva, Castro deixa o local. Dalva engole em seco e mordisca os lábios, tentando conter o choro. Observa que César lança olhares especulativos sobre ela e procura desviar o rosto. Porém, o colega não perde a deixa para criticá-la.

- É bom para você aprender a ser mais humilde da próxima vez – comenta, com sarcasmo evidente. Em seguida, levanta e sai da sala, com ar de vitorioso.

- Vamos ver quem aqui precisa aprender a ser humilde – promete Dalva, antes de abandonar-se a uma torrente de lágrimas.


*****


Por todos os lugares aonde se vai, veem-se placas de propaganda política. Ano de eleições e da campanha eleições limpas, proibindo a compra de votos através da troca de favores. Época mais tranquila apesar da opção por cinco candidatos de uma só vez: deputado estadual e federal, senador, governador e presidente. Finalmente a consciência toma a frente e a campanha motiva eleições limpas também no sentido da poluição visual que acontecia em campanhas anteriores. Nada mais de postes com a foto do candidato ou de lixo jogado pelas ruas. Apenas membros dos comitês eleitorais divulgando através de civilizadas bandeiras, poucos comícios, aparentemente com esmero pelo respeito à lei.

Ricardo acompanha o horário eleitoral gratuito pela TV e depois vai almoçar na sombra do chorão. Ao seu lado, leal e companheiro, está o cão, roendo um osso que ganhara do dono.

Um automóvel surge na curva do arvoredo que faz divisa com a outra propriedade, levantando uma nuvem de poeira e lançando no ar o cheiro dos resíduos do catalisador. Ricardo olha o carro com interesse. Uma pick-up S10 preta, cabine dupla, com películas escuras, estilizada, não era comum aparecer fora da área urbana. Um homem de boa aparência, vestindo terno e gravata, barba feita, cheio de classe, abre a porta do motorista, desembarca tranquilamente, retira do banco do passageiro uma mala de notebook e segue na direção de Ricardo. O cão larga imediatamente seu osso e late de encontro ao visitante.

- Boa tarde! – cumprimenta, estendendo a mão para Ricardo e observando com relativo cuidado o cachorro. – Presumo que seja o proprietário destas instalações.

- Boa tarde. – Ricardo levanta, cumprimenta o visitante e não dissimula a insatisfação com sua chegada. – Creio que tenha vindo para auditar as reformas. Vamos direto ao ponto, que não gosto de rodeios. Vou pegar os projetos e o senhor pode conferir que tudo está sendo executado dentro da lei...

- Desculpe, senhor...

- Ricardo.

- Ah, sim. Parece que o senhor está cometendo um pequeno equívoco. Ricardo, deixe eu me apresentar. Sou Afonso, assessor de Maurício Fontes, candidato a deputado estadual.

- O que quer aqui? – Ricardo não é adepto à política, embora tem sã consciência de que depende do sistema para sobreviver.

- Nossa campanha traçou vários projetos para a candidatura de Maurício Fontes e, uma vez eleito, o primeiro projeto a ser colocado em prática a partir da verba existente será o da municipalização de centros de tratamentos para alcoólicos e toxicômanos como o seu recanto.

- O quê!?

- Calma, Ricardo. Temos uma excelente proposta para você e seus negócios irão alavancar...

- Desculpe, Afonso, mas não tenho pretensão nenhuma de alavancar meus negócios. As coisas estão boas do jeito que andam – interrompe Ricardo, revoltando-se.

- Permita que lhe mostre o projeto de construção do espaço alternativo...

- Não quero ouvir nada. Tenha a bondade de se retirar para que eu possa terminar meu almoço. Tenho ocupações para cuidar.

Afonso franze o cenho, visivelmente contrariado. Não imaginara que um projeto de um milhão e meio de reais e verba vitalícia esbarrasse na insensatez de um sujeito osso duro de roer. Observa que o proprietário do recanto volta a se sentar e almoça despreocupadamente, ignorando por completo sua presença diante dele. O cão parara de latir, mas faz marcação cerrada de todos os seus movimentos. O homem não está disposto a perder uma negociação evidentemente lucrativa para ambos os lados e coloca seus neurônios em atividade. Não conhece Ricardo, portanto, não tem noção de suas ambições, necessidades, caprichos, caráter. Enquanto avalia o futuro aliado, uma preciosa ideia passa pela sua mente.

- Pensei que o senhor fosse altruísta e se preocupasse verdadeiramente com o futuro dos jovens de nossa cidade, mas vejo que me enganei. Tenha uma boa tarde.

Dando as costas, Afonso afasta-se de forma premeditada e calma, mantendo sua cabeça baixa e demonstrando profunda decepção. Seu plano alcança êxito quando Ricardo chama-o de volta.

- Espere! Eu me preocupo sim com essas pessoas. O que tem a me dizer?

Afonso ri interiormente. As pessoas que não são movidas por ambição, certamente o são pela solidariedade. Acertara em cheio. É convidado a entrar no escritório, retira o laptop da mala, liga-o e começa a apresentação do projeto.

Ricardo, atento, acompanha toda a exposição do planejamento de municipalização. No final, parabeniza o assessor do candidato com grande satisfação por poder participar de um projeto tão audacioso e importante para toda a sociedade.



*****


- Sai fora! Sai fora!

Ivo corre com o celular pela casa e literalmente enxota as pessoas que estão lhe servindo. Não se pode saber se a torrente de impropérios é lançada para o interlocutor no aparelho ou se direciona os palavrões para seu próprio sistema, que obviamente, dada sua exasperação, fornecia provas de que havia falhado.

Apanha o controle remoto e liga a TV no noticiário da tarde. Larga o celular e esmurra violentamente a mesa de centro.

O noticiário apresenta uma ação envolvendo cerca de 200 policiais na captura de um trio de marginais que havia assassinado um delegado de polícia e um servidor público no Estado do Paraná. A fuga seguiu a rota do município de Campo Alegre, na SC 280, descida da Serra Dona Francisca. Perseguidos, os criminosos tomaram a BR 101 no sentido Curitiba e escaparam pela Estrada d’Oeste, onde tomaram duas senhoras como reféns. O helicóptero Águia acompanhou a fuga dos assaltantes no veículo da família e atirou. Entretanto, três disparos atingiram uma das senhoras, que ficou gravemente ferida. A equipe policial verificou então que apenas um dos criminosos havia fugido no carro e recebeu a notícia de que os outros dois envolvidos haviam sido mortos enquanto escapavam por outra região próxima. O último, porém, se embrenhara na mata virgem, dificultando a perseguição.

Ivo desliga o aparelho de TV e atira o controle remoto para longe. As artérias temporais dilatadas ao extremo concorrem com o rubor da face e do pescoço. Os punhos cerrados mostram maiores sinais de estresse. Apanhando o celular, Ivo prossegue com uma conversação entrecortada por palavrões e gírias. Indignado, toma satisfações com seu comparsa e procede com novas ordens, mais urgentes que as primeiras. Desliga e digita novos números. Relata a ocorrência, deflagrando uma série de ameaças. Desliga e sai da casa imediatamente.

Próximo dali, Vera desliga seu aparelho celular com tranquilidade.

- Você me diverte, cara. – Ela ri sardonicamente. – Acha mesmo que está no controle, Ivo? Pois veremos. Chegou a hora de botar o esquema pra funcionar.

Depois de meia dúzia de ligações em que mantém linha dura com os envolvidos no esquema, ela se atira na cama, satisfeita e com ar de vitoriosa.

- E aí, gato? Vamos sair pra dançar?

*****

ENGRENAGEM DO CRIME – 3ª CAPÍTULO - A PLANTA DO GASODUTO – 2ª PARTE




São 10h30 de uma quarta-feira cinzenta e Pedro vende lanches na Praça do Bosque. Parece nervoso e angustiado. Atende uma freguesa e não consegue controlar o tremor na mão que estende o troco.

Já aprontara muita coisa sem o conhecimento de Vanessa, que o venera como um marido sinônimo de nobreza e dignidade. É fiel, apesar de agir de má fé repetidas vezes. Esconde-se atrás de uma farsa do verdadeiro caráter que possui e manipula a esposa de maneira que ela se sinta culpada pelas cobranças ou acusações que faz. Julga-se um cara boa pinta, de modesto não tem nada quando vende a própria imagem e talvez por tais extravagâncias de gênio não arranje um emprego com carteira assinada. Falando a verdade, Pedro é uma dessas pessoas que não gosta de se sentir preso a rotinas, horários pré-estabelecidos, cobranças de chefias. Prefere sempre lucrar sem ter muito trabalho. Suar a camisa? Só se for no futebol com os amigos.

A freguesa recebe o troco e a sacola plástica contendo dois xis-saladas e volta para seu trabalho. Enquanto Pedro raspa as sobras de hambúrguer na chapa com uma espátula, outra cliente se aproxima.

- Olá! Vê três bem passados!

- Prá já!

Ele coloca os hambúrgueres sobre a chapa para iniciar a fritura e sente a mão da mulher pressionando sua nádega. Sobressaltado, vira de frente para a assediadora.

- O que é? Vai me dizer que você torce pro outro time?

- Ô, moça! Assim você me ofende... mas olha, sou casado, tô trabalhando sossegado, numa boa... Não faz uma coisa destas...

- Cheio de marra. Gosto de caras assim. Dão mais trabalho, mas acabo conquistando todos vocês.

- Mas o que é isso, dona? Me deixa quieto, por favor.

- Vou deixar você quieto, sim. Me disseram que você vende umas parada, é verdade?

Pedro contempla a mulher com mais atenção. Cabeleira loira, maquiagem, unha feita, corpinho malhado, dente tudo enfileiradinho, bolsa chique, sapato de salto fino, roupa boa. As observações não param por aí. Sabe o que ela quer realmente e ele pode fornecer o objeto de sua cobiça, mas alguma coisa alerta Pedro para não se envolver com aquela dona. Os hambúrgueres começaram a passar do ponto.

Já que ele não responde, a cliente abre a carteira e mostra muito, muito dinheiro. Os olhos de Pedro parecem saltar das órbitas. “Mas e se ela for policial?”, pensa. “Canja demais dá pra desconfiar.”

- Não sei do que a senhora tá falando.

- Ah! Você é mesmo besta! Passa aí o que você tem.

- Não tenho nada do que a senhora tá pensando – ele insiste.

- Bom, se o meu dinheiro não tem valor, pode ser que eu tenha...

A mulher volta a se insinuar e Pedro, aflito, não sabe o que fazer. Pesa entre sua própria segurança ou o negócio aparentemente rentável. Podia então passar o resto do dia em casa descansando. Não, não, aí tinha que aturar o grude da esposa, e isso ele não está afim. Mas resolveria de outra forma depois que oferecesse seus préstimos à formosa cliente. Toma a decisão e abre uma bolsa, de onde retira alguns papelotes. Entrega para a mulher, que parece toda derretida por ele.

- 700 pila – cobra, sorrindo em retribuição aos gestos afetados da mulher.

- Isso aqui paga o seu serviço!

A mulher acerta um golpe com o joelho na região flácida do sujeito, que se encolhe, gemendo de dor. Em seguida, imobiliza-o com uma gravata e pressiona a espinha dele com uma arma de baixo calibre.

Pedro suplica por sua vida, dizendo que ela pode levá-lo preso que não oferecerá resistência alguma, porém, a mulher ri com o desvario.

- Tá achando que eu sô polícia? Pois eu sô muito pior! Isso aqui é só um aviso pra você fazer as coisa certa da próxima vez. Você deixô o maior furo, incompetência! Vai se ferrá... Hoje só tô avisando, na próxima não tem perdão.

Largando o homem, ela guarda a arma, ajeita o cabelo e a roupa, caminha normalmente pela praça. Pedro senta em uma banqueta plástica. O suor pinga de sua fronte e ensopa a camisa. Ele sabe de onde partira aquela ameaça. A coisa está começando a se complicar. Desliga o fogareiro. Os três hambúrgueres viraram carvão. Com ele poderá acontecer a mesma coisa.


*****


Passa das 17 horas e Ângela acaba de chegar do salão de beleza, onde retocara as raízes de seu cabelo com um tom forte de chocolate, fizera manicure, depilação e tratamento facial.

Prepara uma refeição rápida e arruma a mesa com artigos para um jantar romântico. Troca a roupa de cama, espalha pelo ambiente um spray que contém uma fragrância suave de jasmim. Liga o som em volume audível e vai para o banho. Perfuma-se, veste-se com apurado gosto estético, combinando uma lingerie preta com um vestido tomara-que-caia bordô. Calça scarpins e aconchega-se na cama à espera do marido. Fazia surpresas habitualmente, pois Alberto, apesar de quieto e desinteressado, sempre aprova suas iniciativas.

Alberto chega do trabalho uma hora depois e nem procura pela esposa. Primeiramente abre uma lata de cerveja, enganando-se de que o álcool poderá aliviar a tensão acumulada no dia.

- Alberto... – chama ela, com voz suave.

Não há resposta. Ela encosta-se na cabeceira da cama, ajeita o vestido e aguarda. Os minutos passam e ele não aparece. Ângela ouve o estalo da segunda lata de cerveja. Começa a ficar zangada. Levanta-se e sai furiosa do quarto.

- O que ele pretende me fazendo de boba? – pensa alto, trincando os dentes, pois essa situação nunca acontecera antes.

Alberto está de pé na garagem, com braços cruzados, olhar vago e pensamento distante. Usa a camiseta do trabalho, um short e os chinelos de sempre. Ângela fica extremamente aborrecida quando ele chega do trabalho, não toma banho e vai deitar com a mesma roupa suada e cheirando a cigarro. Tal comportamento irrita-a ainda mais.

- Não escutou que estou chamando por você? – chega à garagem, armada de desaforos.

- Não – Alberto nem sequer olha para ela.

- O que há com você? Não vê que eu tô te esperando?

Desta feita, Alberto olha para a esposa. Observa-a de alto a baixo e parece não enxergar nada de diferente nela. Ele costuma ser muito reservado, evitando assuntos que o aborrecem. Hoje ele prefere ficar calado no seu canto.

Ângela repete a pergunta e ele continua taciturno. Faz exigências de atenção, pede para que ele dê uma opinião sobre sua beleza, e como nada adiantasse, começa a censurá-lo, colocando em dúvida sua conduta e até mesmo sua masculinidade.

Alberto procura ignorar as reclamações da esposa, pois não está disposto a discutir. Entretanto, as agressões verbais tomam maior vulto e acabam por exaltá-lo de maneira semelhante ao descontrole de Ângela.

Alberto surpreendia-se todas as vezes que a esposa inventava coisas novas para incrementar seu relacionamento. Amava-a, desejava-a, respeitava-a, contudo, as diferenças provocavam desentendimentos que ambos não estavam ainda preparados para enfrentar. Reconhecia em Ângela um temperamento forte que fazia com que ela agisse de forma a subjugar as necessidades dele, a desmotivá-lo de suas preferências, a direcionar tudo para ela mesma. Tudo, até o dinheiro que ambos recebiam. Tudo deveria girar em torno dela e Alberto estava se cansando das obrigações que ela lhe impunha. Ângela nunca parava para ouvi-lo, e como ele já tinha tendência a não expor seus pensamentos e sentimentos mais íntimos, as limitações de expressão ocorriam com maior frequência.

Ângela, transtornada com o desprezo do marido, atira um copo contra a parede. Não aceita quando as coisas não acontecem do jeito como planeja. Atira o segundo copo e quase atinge o esposo.

Alberto sua frio, tentando controlar o nervosismo. Seu sangue ferve. Desejava apenas um pouco de descanso para engolir a trapaça que seu chefe fizera, desviando-lhe a comissão de uma grande venda. Como se não bastasse a injustiça, ainda fora capaz de acusá-lo de fraude no sistema contábil. E para fechar a noite com chave de ouro, a esposa parece uma desequilibrada. Sem se dar conta, fecha o punho com toda a força. Sente vontade de esmurrar toda a falcatrua e gritar com toda a força existente em seus pulmões. Ângela está do outro lado da sala de jantar em atitude de ataque, como dois leões disputando o território.

“Deus, que situação é esta?”, Alberto pensa, e antes que toda raiva contida seja descontada na esposa, ele sai de casa e começa a andar a esmo pela rua. O ar frio da noite provoca tosse e calafrios, mas de sua fronte despencam grandes gotas de suor. A caminhada oferece-lhe alívio para os músculos extremamente tensos. Anda durante quarenta minutos e retorna.

Enquanto Alberto sai de casa sem dar a menor satisfação, Ângela fica ainda mais enfurecida. Começa a se despir, jogando as peças de roupa por onde passa. Entra no box e abre o registro. O contato da água gelada com a pele quente provoca choque térmico e ela geme alto, mas permanece sob a ducha. Chora e escorrega pela parede até sentar no chão. Soluça, fecha a água e veste o roupão. Havia preparado tudo com tanto cuidado. Em que errara?

Enxuga o cabelo com a toalha e tiritando de frio, veste um pijama de algodão e vai para baixo do cobertor. Não consegue conter as lágrimas, que descem ininterruptamente por seu rosto. Escuta Alberto fechar as pantográficas da garagem e trancar a porta da saída, mas prefere não vê-lo. Finalmente, é dominada pela exaustão.

Alberto ainda se sente abalado e não consegue se alimentar. Pensa em conversar com a esposa, mas observando que ela já se deitara, decide deixar as coisas como estão. Apaga as luzes e se deita, cruzando os braços atrás da cabeça. Tenta afugentar o sono, pois deseja pensar em uma forma de reverter a situação que compromete seu emprego, mas a sonolência invade-o e ele adormece facilmente.


*****



- Sem digitais.

- E o lote que foi produzido?

- Estava riscado como fazem com os chassis dos carros.

- Sem digitais, sem procedência, sem testemunhas. Mas que merda!

César coça a cabeça e retorce o rosto em uma feição preocupada, enquanto caminha pelo corredor do prédio ao lado do capitão Castro em direção ao laboratório de perícias. Atravessam a porta de vai-e-vem envidraçada e param em torno de uma mesa repleta de tubos de ensaio, microscópio e, em meio aos diversos materiais disponíveis para análise, encontra-se a lata de tinta fosforescente.

- Se o autor da pintura não deixou impressões digitais, ninguém o viu e não é possível rastrear o fabricante, o que nos resta? – pergunta Castro, exasperado.

- Temos alguma coisa – retorque César, alcançando um farrapo retangular de um tecido branco muito fino. – Isto aqui foi localizado pela equipe de campo grudado no arame farpado da cerca que dá acesso aos vizinhos do centro de tratamento.

- O que pode ser? Algodão? Poliéster?

- Um tipo de uniforme talvez – César examina o tecido contra o facho azul de uma espécie de lanterna. – Mas não temos nenhuma pista que relacione este ao seu caso do roubo da planta do gasoduto.

- Chefe! Chefe! Acho que encontramos uma pista!

Castro e César voltam-se abruptamente para a entrada indiscreta da investigadora estagiária.

- Vejam! O estudo grafológico bate com um ex-dependente que recebeu alta há pelo menos quatro anos.

- Excelente trabalho, Dalva! – reconhece Castro.

- Viu, viu, César? Eu não disse que eu dou conta do recado? – provoca, com ares de falsa modéstia.

- Menos, Dalva, menos – César sacode levemente a cabeça e bufa, impaciente. A euforia desenfreada da estagiária desconcentra-o, além de que ele detesta interrupções e galhardeio.

- Precisamos de um mandato – retoma Castro.

- Já está aqui – Dalva estende uma página impressa para o capitão, orgulhosa por ter providenciado tudo. Castro apanha o papel, devolve um sorriso de agradecimento e segue para o local.

ENGRENAGEM DO CRIME – 3ª CAPÍTULO - A PLANTA DO GASODUTO – 1ª PARTE




Os primeiros raios de sol despontam no alto da serra e se projetam através da copa das árvores para incidir nas colinas mais abaixo. A cerração desce pesadamente sobre a região e prenuncia um dia quente e ensolarado. Em meio às brumas, circulam luzes vermelhas das sirenes silenciosas. Faz frio.

A comunidade terapêutica está apinhada com policiais, suspeitos, investigadores, e até a equipe de reportagem de uma televisão local. Dois funcionários da DIC – Divisão de Investigação Criminal, recolhem fragmentos e fotografam a inscrição na parede. Enquanto outra dupla interroga os rapazes que encontraram a mensagem, um casal de idosos se aproxima.

- Ô, Castro! – chama um dos investigadores, logo após trocar algumas palavras com o casal de idosos. – Vem cá, capitão!

Castro é um policial corpulento, que atua no GRT – Grupo de Resposta Tática da polícia militar do município. Usa uniforme camuflado, botas especiais de cano alto e colete à prova de balas. No momento, porém, não porta seu armamento de combate, mas sim, uma prancheta, na qual anota informações junto à equipe técnica.

- O que é? – aproxima-se do investigador.

- Este senhor tem uma informação e é melhor que você mesmo ouça.

- Nóis moramo aqui na outra propriedade e essa noite eu e a minha senhora escutamo uma barulheira danada na estrebaria – inicia Seu Artur, assim que o capitão Castro lhe concede o direito de falar. – Nóis pensava que a nossa vaca tinha se soltado e derrubado os balde de metal que nóis usa pra tirar leite. Eu olhei pela janela e vi um homem correndo do nosso rancho.

- Pode fazer um retrato falado do indivíduo? – indaga Castro, de cara fechada.

- Não, tava muito escuro. Depois que ele correu, a gente só escutou barulho de motor de carro.

- Viram o carro? – Os idosos meneiam a cabeça, entristecidos. – Francamente, César! Achei que você tinha realmente alguma boa informação – satiriza, enquanto cruza os braços, firma os pés e olha com desdém para o investigador da criminalística.

- Espera... – solicita César. – Escuta o resto. – E virando-se gentilmente para a miúda senhora, encoraja: – Continue.

- Enquanto meu marido foi ver se o homem tinha levado alguma coisa do rancho, eu fui pelo lado do curral e encontrei uma lata de tinta jogada no esterco.

- Hum... e...

- Já coletamos o material para análise e enviamos ao laboratório – adianta-se César, antes de Castro perguntar. – Estou seguindo para o laboratório e dou um alô quando sair o laudo – avisa e embarca na viatura.

- Obrigada pela informação... isso vai ajudar – reconheceu Castro.

- Não tem de quê, senhor – respondem os idosos e voltam para casa.

Castro continua rondando a área até que todas as pistas estejam devidamente coletadas e protegidas.


*****


Os estudantes, entediados com a explicação sobre genética vegetal, redirecionam o foco de seu interesse para um bilhete minúsculo que passa de mão em mão na sala de aula.

- Passa pro Edu – pedem, satisfeitos por fazer algo que fugisse da monotonia.

Peter acompanha o vaivém do bilhete com demasiada atenção. Sopra com crescente aborrecimento a mecha de cabelo que cai em seus olhos, pois observara de onde o pedaço de papel partira. “Preciso dar um jeito de saber o que ela escreveu”, pensa o garoto, já extremado pelo ciúme. Vê quando o papel chega ao destino e não esconde a satisfação quando o adversário ignora o recado. Encara Estéfanie, do outro lado da sala, aguardando em vão a resposta que certamente não virá. Volta o olhar para Eduardo, que colocara o papel embaixo do caderno, com uma ponta caída para fora da carteira. Age rapidamente. Levanta-se de seu lugar, esgueira-se entre as carteiras, recebe algumas recriminações dos colegas que se sentem incomodados com a forçada passagem e consegue a atenção da professora. Ergue a mão direita que empunha uma caneta e pede que a professora repita a última explicação. Quando percebe que os olhos de todos estão no braço estendido, tranquilamente apanha o bilhete com a mão esquerda e camufla com a folha que segura.

- E então? Entendeu agora? – indaga a professora, alheia ao estratagema do aluno.

- Tá tudo beleza. Valeu – Peter agradece e volta para o seu lugar.

Satisfeito com sua recente, ousada e vitoriosa peripécia, Peter disfarça e lê o bilhete. Por sorte, não é mais alvo da atenção de ninguém, pois seu rosto fica ruborizado e a fronte enrugada feito um Shar Pei.

Por volta da 9 horas, o professor encerra a aula, mas Eduardo nem sequer aguarda o sinal. Levanta-se com estardalhaço, arrastando a mesa e a cadeira, em um estado visivelmente agitado e intempestivo. Peter continua atento a toda movimentação e surpreende-se por Estéfanie não ter ido atrás do companheiro quando este sai da sala. Quando a garota se levanta, aí sim, ele resolve segui-la.

Estéfanie caminha rapidamente pelo pátio, mas perde Eduardo de vista depois que o vigilante fecha o portão. Peter aproveita a situação e se aproxima dela.

- E aí?

- E aí o quê?

- Quando é nosso próximo ensaio? – Peter tenta uma deixa.

- Ensaio? Você perguntando sobre ensaio? Tô ouvindo direito? – pergunta, usando de uma surpresa sarcástica e descrente. – Quando você não falta aos nossos ensaios, chega atrasado...

- Ô, Estéfanie! Isso é jeito de tratar seu amigo do peito aqui? Tô querendo a mesma coisa que você e o resto dos caras. Quero ser um baixista da hora, superantenado em sucesso...

- Calma aí! – Estéfanie para de andar e olha diretamente para ele. – Pra ser superantenado em sucesso, como você mesmo acabou de dizer, tem que trabalhar, e trabalhar duro – repreende. – Até agora, não vi você tocar uma nota sequer pra acertar nosso compasso!

- Então... é... – tartamudeia, apreensivo. – Então... eu sei disso... eu quero me comprometer de verdade – mente, já que seu legítimo interesse é a cantora.

A garota afasta-se com desdém, atitude que ira o apaixonado rapaz. Ele pega o bilhete de dentro do bolso da jaqueta e lê novamente. Desta vez, trinca os dentes.

- Isso não vai ficar assim!


*****


É terça-feira e Vanessa trabalha na mesa de acabamento. Passa das 11h30 quando a amiga Márcia lhe traz um lote de panos de copa para revisar, cortar as sobras das costuras e embalar.

- Deu tudo certo ontem? – pergunta-lhe Márcia.

- Como? – indaga Vanessa, concentrada no trabalho. – Ah, sim! Tudo certo – afirma, após se lembrar de ter saído mais cedo do encontro com as amigas.

- Você ficou chateada por termos convidado o Renato, né?

- Não, claro que não! – mente.

- Ficou, sim, e eu queria pedir desculpas. É que ele apareceu de repente e a Sandra ficou doidinha por ele. Ela quase se ajoelhou na minha frente para deixar ele ficar lá.

- Não dá nada – responde Vanessa. – Tem coisas que obrigam a gente a ter jogo de cintura. Espero que a Sandra tenha se dado bem...

- Que nada! Depois que você saiu, a gente resolveu ir para a praça de alimentação e a Sandra foi dar uma intimada no Renato. Adivinha o que aconteceu.

- Não faço ideia.

- Ele não topou. Disse que com ela era só amizade. A Sandra ficou furiosa!

Continuam conversando enquanto cumprem suas atividades quando outra colega se aproxima, fingindo aborrecimento porque a máquina de costura tinha trancado e fora obrigada a chamar a manutenção.

- Tô tão triste... – ironiza.

- Olha quem vem aí – alerta Márcia.

Vanessa olha para o lado que Márcia indicara e repara no mecânico que vem ao encontro delas. Toma um susto quando reconhece Renato.

- Desde quando esse sujeito trabalha aqui? – deixa escapar, com os dentes trincados.

- Faz tempo, já. Ele veio do turno da noite – explica Márcia.

Renato para na frente delas e logo encara Vanessa, que trata de dobrar os panos de copa e empacotar. A operária explica o que acontecera com a máquina de costura e ele vai atender. Depois de uns vinte minutos, a máquina retorna à operação normal e ele volta a se aproximar de Vanessa, que trabalha sem olhar para os lados.

- Você me deixou chateado ontem – puxa conversa.

- Eu? Você deve estar enganado... – procura ignorar.

Renato continua sua conversa fiada enquanto Vanessa tenta não se aborrecer. Finalmente, ela reage dizendo que é casada e que ele está atrapalhando seu trabalho. O mecânico, por sua vez, olha-a profundamente nos olhos e não se dá por vencido, avisando que logo a procurará novamente.


*****


Vinícius levanta de mau humor. Ontem o pai havia recriminado diversas de suas atitudes, como falta de compromisso com relação a horários, desobediência às regras da casa, falta de interesse em contribuir com as tarefas domésticas, preguiça e sonolência e mais uma série interminável de exprobrações. O garoto está com a cabeça dando mais voltas do que competição de Fórmula Indy.

Pudera, o pai de Vinícius, sozinho, sustenta a casa, dando um duro danado na construtora. É um pedreiro de mão cheia, nunca lhe falta serviço, chega a trabalhar até dezoito horas todos os dias e é muito bem pago pela sua competência. Exige apenas que a esposa cuide da casa e o filho, dos estudos. Porém, não é adepto à ideia do filho escolher a música como profissão. Aprecia cantores de sua época, mas isso que o filho chama de música não passa, em sua opinião mais antiquada, de barulheira.

Vinícius embarca na bike e segue para a escola, mas, no caminho, pensa na hipótese de gazear aula, pois se lembra de um lance com um camarada que lhe deve uma grana. Ainda lembra de que na quarta-feira tem uma aula importante e ele precisa de nota, contudo, esse motivo não é suficiente para impedi-lo do impulso. Em vez de atravessar o portão da escola, vira o guidom e por pouco não atropela Estéfanie.

- Ei! – chama Estéfanie, sacudindo vigorosamente o braço magro. – Pra onde você vai? – Como ele não a atende, a garota segue junto com as amigas.

Vinícius desvia dos demais alunos que vem no sentido contrário – e correto, que é para dentro da escola, e pedala na direção do Centro.

- Que besteira! Esqueci de ligar pro cara!

Para abruptamente a bicicleta próximo ao ponto de ônibus e uma senhora pergunta-lhe se havia falado com ela. Vinícius, estressado, responde algum desaforo que faz a mulher retorquir com palavras não menos educadas.

- Ô cara! O Ivo tá em casa? – pergunta para alguém no celular. – Não, não... Tô indo pra aí... não esquenta... Dou um jeito de falar direto com ele... esfria tua cabeça, bicho... Tô nem aí pras ameaças dele... ele pensa que é quem, aquele velho remelento? Tá, cara, tá...

Seguindo pela rua Dona Francisca, Vinícius corta caminho à direita, atravessa a rua Prudente de Morais, pedala até a rua Indaial e cruza a Coelho Neto até o final. Passa por uma rua de terra que liga a rua com a Aracaju, e logo avista a casa onde mora o mau pagador de seus favores. Muro alto, portão de ferro totalmente fechado, interfone. Uma verdadeira fortaleza, reflete Vinícius.

Toca o interfone, informa a razão da visita e o portão é destravado. Entra na boca sem cerimônia e larga a bike. Encontra o velho remelento sentado na varanda, enquanto circulam dentro da sala duas mulheres quase nuas.

- Não são pro teu bico – previne Ivo, já que Vinícius não desgruda os olhos das prostitutas. – Tá aqui o teu pagório.

- É muito bom fazer negócio contigo – sorri, estendendo a mão para o pacote pardo que o homem lhe entrega. – Quando precisar, tô às ordens.

- Tô de olho. Fica na tua – ameaça novamente o sujeito.

- Fica frio. Bico fechado não entra mosca. Tô vazando.

Satisfeito, Vinícius dá as costas, pega a bike e segue para fora do portão. Abre o pacote e conta as notas recebidas. Dá para comprar um notebook incrementado com essa grana.

Ivo escorraça as mulheres e estreita os olhos, pensativo. Apanha um papelote e cheira o pó que havia dentro. Não confia no garoto, mas precisa dos serviços dele por mais algum tempo. Permite que o moleque imagine que tem poder de barganha. Sorri sarcasticamente. Dará corda até o momento que julgar oportuno para que o garoto se enforque com a própria soberba.

ENGRENAGEM DO CRIME – 2ª CAPÍTULO - A COR DA AMEAÇA – 2ª PARTE




Ângela encosta seu carrinho de compras em um balcão de frutas e escolhe os legumes, verduras e hortaliças de que precisava. No balcão das maçãs, seleciona e coloca as frutas dentro do pacote plástico. Quando pega a última, coloca sua mão sobre a mão de outro comprador, que também escolhera a mesma maçã.

- Desculpe... – encabulada, ela retira a mão.

- Pegue, é sua – diz o homem, gentilmente, oferecendo a fruta para Ângela, que de tão envergonhada, cora subitamente.

- Não, não... é... imagina... você escolheu primeiro – gagueja.

- Não se preocupe, pois há muitas outras. Para mim basta o que já tenho no meu carrinho – continua.

Ângela observa o carrinho repleto de grandes quantidades de alimentos e fica imaginando que o sujeito poderia ser dono de um restaurante.

- Puxa! – exclama, erguendo suas sobrancelhas. – Sua família deve ser grande...

O sujeito observa-a com mais atenção e sorri com benevolência.

- É, até que você não está tão enganada. Eu sempre faço compras para a comunidade terapêutica da qual tomo conta, que é, por assim dizer, o prolongamento da minha família biológica.

Ângela fica em silêncio por um instante, fitando-o com curiosidade. Os olhos castanhos muito claros desse homem brilham e a luz própria atenua as pequenas rugas que se formam em sua face quando sorria. A calva inicia um pequeno vão no topo da cabeleira lisa penteada para o lado direito. Talvez pese 80 quilos distribuídos em uma altura próxima dos 1,80 m. Veste camisa polo de cor vinho com bolso, bermudão jeans e chinelos tipo Havaianas. É um sujeito totalmente normal, mas a simpatia e generosidade despertam os sentidos de Ângela.

- Muito prazer. Ricardo. – Ele oferece a mão para um cumprimento formal.

- Ah, sim, desculpe. Ângela. O prazer é meu. – Ela sai da inércia com movimentos estabanados e a maçã que ambos disputaram anteriormente rola para longe, embaixo de outro balcão.

- Espere, pego outra pra você. – Ele escolhe cuidadosamente outra maçã e oferece para Ângela, que aceita educadamente.

- Obrigada. Bem, tenho que ir andando. Tudo de bom.

- Igualmente. Ãh? Ângela?

Ela havia apoiado as mãos em seu carrinho e volta-se ao ouvir seu nome.

- Não, nada. Eu só queria memorizar o seu nome. Vou deixar o folder da comunidade terapêutica. Será bem vinda para conhecer o local. Até breve.

Ele encaminha o carrinho para outro corredor do supermercado, saindo da linha de visão dela. Ângela olha para o folder, mas na verdade não enxerga nada. Sentira atração por aquele sujeito, algo diferente de quando conhecera o próprio marido. Alberto. “Nossa, o Alberto vai me pegar às cinco!” Já passa das cinco da tarde e ela se dirige para o caixa. Sua azáfama trai todo o seu interior. Enquanto passa suas compras, olha de soslaio para o caixa onde se encontra Ricardo. Ele acena desinteressadamente e ela, por sua vez, suspira temendo as próprias reações.

Empacota tudo e segue para o estacionamento onde logo avista o marido do lado de fora de seu carro. Fuma cigarro após cigarro. Ela empalidece porque sabe que ele detesta circular de carro após às 17h30min, no horário de pico. Segue até o carro, direciona o carrinho de compras no sentido do porta-malas, vai até Alberto e ele, amuado, esquiva-se do beijo dela. Ela reconhece que aquele gesto não representa boa coisa. Quer pedir desculpas ou inventar algum motivo para o atraso, porém, reflete que se fizer isso, provocaria maior desconfiança no marido. Afinal, não cometera nenhum crime.

- Precisava comprar o mercado todo? – indaga sarcasticamente. A secura abala levemente o sistema nervoso de Ângela, que procura controlar suas manifestações de defesa.

- Na verdade, nem trouxe tudo o que falta. O mercado está lotado – responde, tentando sorrir despreocupadamente.

Guardam as compras, embarcam no veículo e mantém silêncio absoluto durante o caminho de casa. Ao chegarem, Ângela armazena os mantimentos e começa a preparar uma refeição rápida para eles enquanto Alberto vai para o banho.

Aquele clima pesado surgia frequentemente no relacionamento do casal e ameaçava uma precipitação explosiva de sentimentos. Bastava estarem alegres e satisfeitos com a união e, sem aviso, aparecia uma pequenina desavença para escurecer seus sorrisos. E a situação de silêncio perdurava, porque Alberto se afastava de qualquer desentendimento. Detestava quando Ângela começava a dizer que precisavam discutir a relação. O problema é que, agindo dessa forma, abria espaço para suposições incorretas, ciúmes, desconfianças que afetavam o ambiente familiar, fazendo com que ambos sofressem por motivos presumidos, fruto da falta de diálogo.

Ângela havia se transformado após o casamento. Por amor a Alberto, abandonara as baladas, os comportamentos levianos e atitudes obscenas. Trocara o guarda-roupa sensual por roupas mais adequadas à nova situação civil. Pensava ter acertado na escolha, pois Alberto era um verdadeiro cavalheiro, um homem trabalhador e responsável, marido fiel e zeloso e um bom amante. No início da vida a dois, ele se tornara a prioridade da vida dela. Não tinham muitas economias, mas viviam bem e satisfeitos e, durante alguns anos de convívio absoluto, alguns problemas começaram a aparecer.

Ângela é uma mulher bonita, alta e esbelta, bem arrumada, cabelo castanho escuro encaracolado, rosto bem definido. Cuidava da aparência com apurado esmero, chegando aos limites de uma espécie de compulsão. Parecia sempre saída do camarim de uma estrela, sempre perfumada, bem vestida e maquiada. Enquanto caminhava atraía olhares indisfarçados e isso a orgulhava. Arrumava-se com o objetivo de ser vista e apreciada. Sentia-se a tal. A arrogância assumida logo se percebia em seus maneirismos, diálogos, narrações. Os rapazes disputavam-na, mas ela só ficava com aquele que lhe trouxesse mais comodidade, que lhe servisse para comentários invejosos no dia seguinte.

Extremamente materialista, alimentava o desejo de ter luxo, dinheiro e poder. Oferecia seu corpo delineado sem escrúpulos e encontrava prazer nos atos mais extravagantes e lascivos. Tinha necessidade de aparecer em público, reservando toda sua energia para arrasar.

Tais características eram encontradas nela antes da união. Então conhecera Alberto e tudo, subitamente, mudara. Aquela vida desenfreada perdera a emoção e os atos delirantes que praticara envergonhavam-na. Aceitara ser a esposa dedicada, recatada e isso lhe fazia feliz. Entretanto, como Alberto era extremamente caseiro, detestava multidões e barulho, algo dentro dela ficava sempre insistindo com sugestões enganosas sobre esse comportamento. Algo que fomentava o orgulho de Ângela, dizendo que ela era muito bonita para ficar trancada em casa, que o marido não a valorizava e não a merecia. Por menor que fosse o desentendimento, aquela voz interior consumia Ângela em pensamentos negativos, egoístas e mundanos. Porém, ela tentava lutar contra tais sugestões, que ameaçavam a sua estabilidade moral.

Alberto não a esperara nessa noite. Deitara-se cedo e adormecera. Enquanto ele ressona, Ângela não consegue dormir e se frustra. Pensa em Ricardo e no encontro fortuito. O episódio da maçã fora-lhe bastante sugestivo e o corpo dela incendeia-se. Não praticara nenhum ato para desrespeitar o marido, mas não é capaz de conter seus pensamentos e necessidades físicas.


*****


Enquanto trabalha, Vanessa imagina o que teria acontecido com o carrinho de lanche. Conjectura diversas possibilidades e acaba se conformando com a sugestão de Pedro ter levado o equipamento para a oficina.

Volta para casa, come um sanduíche e cuida da roupa e do jantar de Pedro. Passa das 17 horas quando termina seus afazeres e então se prepara para sair. Ela quase não se divertia e Pedro havia concordado que ela fosse passear com algumas colegas de trabalho.

Vestira calça jeans e uma blusa leve com mangas, scarpans e acessórios discretos. Quando chega ao shopping no Centro da cidade, logo avista as colegas tagarelando na escadaria principal do estabelecimento. Ela acena, aguarda o semáforo abrir para pedestres e atravessa a rua. Cumprimenta as seis garotas, elogia seus looks e encaminham-se para a escada rolante.

- Espera, gente! – pede Márcia. – Olha aí quem vem chegando!

Todas observam o rapaz que vem ao encontro de Márcia. Tem idade aproximada de 25 anos, magro, estatura em torno dos 1,75m, cabelo negro e barba por fazer. Veste jeans, camisa e sapatos sociais, e foi logo cumprimentando a amiga com um beijo no rosto.

- Esse é o Renato, meu amigo.

Renato cumprimenta todas com um beijo no rosto e logo é assediado por uma amiga solteira de Márcia. Ele ignora o comentário atrevido e continua cumprimentando as demais. Vanessa não gosta de beijo no rosto por ser casada e estende a mão, de longe, gesto que o rapaz ignora por completo, beijando-a também no rosto. Antes de se afastar, ele observa-a nos olhos durante alguns segundos, coisa que deixa Vanessa desconfortável. Então ele se vira para as outras e pergunta-lhes aonde vão. É de se esperar que a amiga da Márcia, que logo de cara havia se interessado pelo moço, convide Renato para fazer um lanche com elas. Vanessa pouco gosta dessa inoportuna presença, mas precisa ceder por pura educação. Ela deixa que as outras subam na frente. Renato conversa com a amiga, mas lança olhares especulativos para Vanessa, que sente vontade de ir embora antes mesmo de chegar.

Uma das amigas resolve entrar em uma das lojas de departamentos e todas seguem-na. Vanessa prefere ficar para trás, disfarçando interesse por uma peça de roupa.

- Pode levar, vai ficar perfeito em você.

Ela vira-se abruptamente na direção de voz e flagra Renato sorrindo para ela. Olha-a diretamente nos olhos outra vez, e Vanessa se afasta sem responder. Procura as amigas e inventa que recebeu uma ligação e precisava voltar para casa. Todas lamentaram, mas não se opuseram. Vanessa despediu-se delas e saiu apressadamente do shopping.

Ao chegar à sua casa, vê que o carrinho de lanche está no lugar e se tranquiliza. Imagina que Pedro já está dormindo, pois a casa está às escuras. Sorridente, vai até o quarto, mas a cama continua arrumada do jeito que ela deixara. Procura-o pela casa e como não o encontrasse, sua preocupação aumenta.


*****


São 23 horas e Ricardo acaba de apagar as luzes de seu quarto. Apenas pensa em orar a Deus em agradecimento por mais um dia, é interrompido com as batidas insistentes à sua porta.

- Seu Ricardo! – alguém chama.

Em um pulo, Ricardo levanta-se e abre a porta. Está com cara de sono e fica de mau humor.

- O que foi?

- Seu Ricardo, desculpe, mas o senhor precisa ver uma coisa.

Nessa altura, Ricardo perde totalmente o sono. Segue o rapaz que o buscara pelo facho de luz da lanterna que segura.

- Por que não acendem as luzes? – resmunga, após ter chocado a perna em algum móvel.

- Não dá pra ver... tem que ser no escuro.

- Se isso for alguma brincadeira, todos vocês vão se ver comigo – resmunga, continuando atrás do garoto, que caminha para o lado externo do alojamento principal.

- Garanto que aqui não tem ninguém querendo rir, Seu Ricardo...

- Mas... pra que tanto mistério? – Essa expectativa provoca o sistema nervoso de Ricardo, que não tolera brincadeiras de mau gosto e detesta que testem sua paciência.

- Olhe o senhor mesmo.

O rapaz ilumina a parede do alojamento, revelando palavras escritas com tinta fosforescente. Ricardo coça a cabeça e gela. Imagina tratar-se de uma brincadeira sem graça de algum deles e se enfurece. Começa a esbravejar, o que atrai mais pessoas para o local.

- EU QUERO SABER QUEM FOI O IRRESPONSÁVEL QUE FEZ ESSA MERDA AQUI! – Ele olha de um em um na escuridão e move-se com extrema impaciência. – VAMOS! NINGUÉM AQUI É MACHO O SUFICIENTE PRA ASSUMIR ESSA PORCARIA?

Todos permanecem em silêncio, sem compreender. Ricardo continua vociferando, julgando e condenando antes mesmo de analisar os fatos. Saindo da inércia, um dos dependentes químicos em tratamento anuncia:

- Depois dessa eu não fico mais aqui!

A afirmação provoca um estado nervoso nos demais e todos murmuram, repetindo que desejam ir embora. Ricardo, por sua vez, cede o lugar da sua cólera para um abatimento lúgubre. A barba por fazer e o cabelo desgrenhado dão-lhe maior ar de prostração.

- Escutem. – Desta feita, ele pede com educação. Sente-se como que desfalecendo após um mal súbito. – Vocês não podem abandonar o tratamento, estão quase todos vencendo a dependência. Eu lhes peço: não façam isso...

- Temos medo, Seu Ricardo – adianta-se um jovem galego. – Isso aí na parede parece coisa de filme de terror.

- Israel, entendo seu medo – fala, afagando o ombro do garoto. – Mas você se lembra de como chegou aqui e percebe como está hoje?

- Eu sei, mas...

- Não decepcione as pessoas que confiaram em você, cara – argumenta, calmamente. – Eu sou uma delas.

Israel baixa os olhos e tenta balbuciar alguma queixa que não consegue articular. Pensa melhor e acha que Ricardo tem mesmo razão.

- Eu não vou me entregar, Seu Ricardo – declara depois de alguns segundos.

- É isso aí, garoto! – comemora Ricardo.

Em seguida, ele pede desculpas por todas as acusações que fizera minutos antes. Em um gesto de confraternização, os quase cinquenta homens dão as mãos uns aos outros. De qualquer maneira, Ricardo decide chamar a polícia para investigar, pois essa frase pode representar claramente uma ameaça. “Mas por que razão?”, pensa Ricardo, enquanto lê e relê a inscrição dezenas de vezes:

“QUEM PERMANECER AQUI VAI MORRER.”


*****


É quase meia noite quando Vanessa acorda devido ao rangido da porta da cozinha, que dá acesso à garagem. Mesmo com toda a preocupação por não ter visto o marido o dia inteiro, fora vencida pelo cansaço e adormecera enquanto o esperava voltar para casa.

Ele entra no quarto escuro e começa a despir-se. Vanessa observa nele um brilho alaranjado que corta o ar em riscos rápidos, acompanhando os movimentos dos braços apreensivos.

- Oi, amor – fala sonolenta.

- Desculpa, não queria te acordar – responde ele, enquanto se deita. E para amenizar: – Quis chegar mais cedo, mas o negócio tava bombando hoje...

- Que bom! – faz ela, com interesse. O carrinho tava em casa quando eu cheguei do shopping... onde é que você tava?

- Eu... ah... fui até o mercado comprar os itens dos lanches...

- Ah, é verdade. Tinha me esquecido. Trabalhou com tinta hoje? – pergunta despretensiosamente.

- Tinta?! – Ele emudece e demonstra ter prendido a respiração. – Ah! Quase ia me esquecendo, é que fui fazer teste pra um emprego hoje à tarde. É num negócio que trabalha com sinalização de trânsito.

Vanessa não percebeu o pigarro nervoso no fundo de sua garganta e, crédula, parabeniza o marido por tamanha energia.

- Finalmente você vai conseguir um emprego fixo! – alegra-se, arrimando o corpo no dele. – Isso merece uma comemoração, não acha?

Aliviado, Pedro enlaça-a e fazem amor.



ENGRENAGEM DO CRIME – 2ª CAPÍTULO - A COR DA AMEAÇA – 1ª PARTE





Um chuvisco enregelante começa a cair nessa madrugada de segunda-feira. Em vão, as pessoas que saem às ruas tentam se proteger com seus guarda-chuvas ou sombrinhas coloridas. Os mais apressados caminham sob a garoa de outono, parecendo não se importar com a umidade. Outros, aborrecidos com a manhã cinzenta, resmungam enquanto enxugam os óculos a cada instante na roupa, ou porque ficara para trás o tão grato dia de descanso.

Senhoras idosas com acompanhantes aguardam nos pontos de ônibus. Visto a hora, provavelmente se encaminham para algum posto de saúde ou alguma unidade de pronto atendimento médico especializado com o intuito de garantir vaga nas filas do SUS. Triste sistema de saúde este em nosso país, sobrecarregado, de difícil utilização para a maioria que mais necessita. Quanto mais doente, mais tempo de espera, mais humilhação, menos consideração, quando deveria ser o contrário.

Muitos jovens que, por outro lado, estão no auge de sua saúde, agilmente embarcam nos ônibus e, sem qualquer cerimônia, se afundam nas poltronas e fingem dormir, para se eximirem da cortesia de ceder o conforto para os idosos que, com dificuldades de locomoção e equilíbrio, ficam de pé bem ao lado deles.

O motorista, que para a maioria dos usuários do transporte coletivo é somente uma peça inanimada como qualquer outra do veículo, mal recebe um olhar, quanto menos uma saudação ou agradecimento. Tais profissionais, incumbidos de importantíssima tarefa – conduzir pessoas em segurança, passam despercebidos como o monótono vaivém dos limpadores dos para-brisas.

Pedro ainda dorme e Vanessa, ao contrário de tantos outros, acorda disposta e animada.  Ao sair de casa, ela não avista o carrinho de lanche na garagem. Começa a imaginar onde é que o marido o deixara, pois se tinha vendido tão bem a ponto de poder comprar o aparelho de DVD, não há razões para se desfazer do equipamento.


*****


São seis horas da manhã e Estéfanie custa a abrir os olhos. Espreguiça-se na cama, revira-se, puxa o edredom até o pescoço. O despertador do celular soa o segundo round e a moça esbugalha os olhos com a primeira lembrança da manhã. “Matemática!” grita sua mente subitamente agitada. Uma tão temida prova e ela esquecera completamente! Ela levanta de um salto e sai do quarto. Verifica que os pais já saíram para o trabalho e a casa está sob sua inteira responsabilidade. O café está pronto na mesa, mas o almoço é por sua conta a partir de hoje, bem como a organização e limpeza diárias. É o castigo pela desobediência às regras da casa.

Estéfanie volta para o quarto e recolhe seu material de estudo. Enfia tudo dentro da mochila. Veste-se com descuido, mastiga sem gosto uma fatia de pão com margarina, empurra com café com leite. Sai de casa e põe-se a caminhar devagar, com o livro de matemática aberto no conteúdo que supõe cair na avaliação. Os números confundem-na. As letras multiplicadas também. As equações numéricas estão muito além de sua compreensão adolescente. Imagina a letra de uma música, utilizando todos aqueles difíceis cálculos aritméticos. Chega a sorrir com a própria criatividade. Tem o impulso de voltar para casa e pôr a composição em prática. Mas vê, amargurada, que já está diante do portão do Giovani Pasqualini Faraco.

- Prova de matemática na segunda-feira é pra acabar! – Peter surge de repente, enlaçando-a pela cintura. Seu gesto atrevido põe a garota na defensiva e ela se desvencilha sem o menor constrangimento.

- Você tem que aparecer deste jeito, assim, do nada? Dá cada susto na gente...

- Desculpa, gata, foi mal.

- Foi mesmo! – resmunga ela, deixando-o totalmente sem graça diante dos colegas que se reúnem em torno deles e zoam pra caramba do fora que Estéfanie dá nele. Peter dá muita bandeira e todo mundo sabe que ele arrasta a asa por causa da colega de classe e de banda. O rapaz quer parecer o gostosão da escola, mas suas atitudes insolentes provocam efeito contrário à popularidade que almeja.

O cara nunca se sentira tão humilhado e sai de fino do meio da turma que agitava. Para o outros é só gozação, mas ninguém podia imaginar o que se passa dentro do coração de Peter. Enquanto Estéfanie já havia esquecido o incidente e voltado a pensar na prova de matemática, ele deixa amadurecer o rancor associado ao desejo de vingança e já começa a articular um plano para a desforra.

O dia continua nublado e chuvoso, mas Eduardo aparece usando óculos escuros dos maiores que já haviam sido vistos. Piadas sem graça provocam gargalhadas tanto dos garotos como das garotas do terceirão. Estéfanie, preocupada, chama-o para longe da turma e pergunta o que está acontecendo.

- É só conjuntivite hemorrágica, não esquenta. Não dá nada – explica, desviando o olhar.

- Não mente pra mim, Edu. Você não ia pagar todo esse mico por causa de uma conjuntivite, te conheço. Deixa eu ver isso...

Estéfanie ergue o corpo na ponta dos pés, tentando ignorar os seus 1,67 m para alcançar os 1,79 m do amigo. Ele protesta quando ela puxa os óculos escuros e esconde o rosto.

- Cara! O que foi isso? – pergunta, atônita com o que vira.

Receoso e encabulado, Eduardo evita encará-la. Arranca com agastamento os óculos da mão da colega e cobre os olhos sem demora. Ela suplica explicações e ele, finalmente, cede.

- O meu velho...

- Foi ele?! Mas por quê? – Estéfanie está cada vez mais assustada. Alarmada, deixa escapar que vai denunciar o caso para o conselho tutelar.

- Não! Pelo amor de Deus, não! Você é louca? – arremete, olhando em volta para verificar se não estão sendo ouvidos. – Aí mesmo que meu velho me enche de porrada – tenta explicar. – Esse negócio da gente querer ir atrás do sonho de cantar tá botando pilha lá em casa.

- Mas não é possível! Com você também?

Eduardo estranha a pergunta e Estéfanie explica a própria situação. Nesse momento, esquecem prova, agressões físicas, escola. Focam uma solução para continuar a banda, já que os pais desaprovam. Se dependesse de seus pais, Estéfanie estaria com o destino traçado para ser balconista de panificadora, um trabalho que ela não desmerece, mas que a afasta de seu verdadeiro talento. Estéfanie acredita em si mesma e nos companheiros da Engrenagem. Não é à toa sua constante preocupação em praticar, compor, ensaiar, divulgar o trabalho, tudo em nome da habilidade que desenvolvera e de um sonho – que sabe, haver toda possibilidade de concretizar, independente das dificuldades.

Cada pessoa nasce com um talento especial – reflete Estéfanie, algo que a diferencia do grupo ao qual pertence e que a torna única. Enquanto há mulheres que nasceram para constituir família e cuidar do lar e o fazem por prazer, outras não têm a menor vocação para as atividades domésticas. A tradição dita profissões para homens e mulheres, mas mesmo assim, há mulheres exercendo a profissão de mecânicas de automóveis e homens que se tornam exímios dançarinos. Afinal, quem foi que definiu que tipo de tarefas devem ser executadas por homens ou por mulheres? Existem crianças que desenvolvem habilidades precocemente e, com a sorte de serem bem encaminhadas, no futuro tornar-se-ão adultos realizados. Outras pessoas sonham em alcançar grandes fortunas e para tal não medem esforços, nem que suas atitudes comprometam seu caráter, acreditando firmemente que o fim justifica os meios. Esta crença alguém certamente inventou para burlar a honestidade alheia sem se comprometer. Outros sonham pelo simples fato de sonhar. Os que acreditam verdadeiramente em si e impõem metas para as próprias vidas, alcançam fama, glória, fortuna, sucesso e o mais importante, se sentem felizes porque encontram seu verdadeiro caminho.

As reflexões transtornam a jovem Estéfanie, que se encaminha para a sala de aula visivelmente angustiada. Podia compreender que seus pais alimentavam preocupações quanto ao possível envolvimento com entorpecentes, razão pela qual procuram boicotar o trabalho da banda. Porém, em sua concepção, eles somente estão sendo injustos e egoístas.

- Bom dia, pessoal! – cumprimenta o professor, sorrindo de orelha a orelha. A colega de trás cutuca Estéfanie e já faz mau juízo do fim de semana do professor.

- Cala boca, Bárbara! Não tô de bom hoje...

- Ih... não tá mais aqui quem falou...

- Ei, gente, relaxa – concilia o professor de matemática. – Como hoje eu estou muito bonzinho e sei que a maioria de vocês frequentou altas baladas no final de semana, vou permitir que vocês façam a prova com consulta...

Mal termina de falar, a classe inteira já vibra. Até Estéfanie se entusiasma, já que sabe pouco ou quase nada sobre o assunto da prova.

- É prova com consulta no próprio caderno, não do vizinho, viu, pessoal? – lembra o professor, simpaticamente, ao distribuir as provas.

Instantes depois, a classe está toda em silêncio. Eduardo é o primeiro a terminar e entregar a prova. Cochicha algo com o professor e sai, provocando a curiosidade de Estéfanie, que acompanha seus movimentos. Ela se apressa para passar a limpo na folha da prova o último resultado, entrega a prova e segue Eduardo. Enquanto ela sai, Peter ficara mordido e também se apressa para alcançar os dois pombinhos – pensamentos irônicos que passam pela cabeça do garoto no momento do ocorrido. Suspeitas que poderiam ser até mesmo infundadas, pois ele ficara cego pelo ciúme e irado pelo mico de ser passado para trás.

ENGRENAGEM DO CRIME – 1ª CAPÍTULO - O SABOR DO XIS-SALADA – 3ª PARTE



Vinícius espreguiça-se na cama, coloca os pés para fora, esfrega energicamente a cabeça e, sentindo um súbito mal-estar, apressa-se a ir ao banheiro na outra extremidade do corredor. A boca está azeda e seca, a cabeça dói, o aparelho digestivo desregulado se agita após um período razoavelmente longo de jejum alimentar. Lava o rosto e enquanto tenta resistir à zonzeira que lhe acomete, escuta sua mãe chamá-lo para jantar e fica ainda mais confuso. “Como que ela quer que eu vá jantar se eu ainda nem tomei o café da manhã?” Volta ao quarto e vê que está escuro lá fora. “Mas que dia é hoje?”, pergunta-se, incapaz de raciocinar. Tecla o celular e olha a data e o horário: sábado, 18h30min. Nada parece fazer sentido. Caminha com dificuldade até a cozinha e se senta à mesa. O cheiro da comida parece-lhe agradável e desperta seu apetite. A mãe enche-o de mimos, ao passo que o pai, distraído, mastiga seu alimento.

- Filho, como foi o show ontem? – o pai sai do silêncio absoluto e puxa conversa.

- Foi super irado, pai! – responde Vinícius, animado. – Os caras são fera!

Em sua linguagem extremamente informal, descreve a apresentação da banda, da qual é fã. Depois comenta que ele e os companheiros da Engrenagem estão procurando um empresário que facilite a estreia da banda em alguma balada da cidade.

Sua mãe, orgulhosíssima, parabeniza-o e garante total apoio. Após o término do jantar, informa-lhe que Estéfanie telefonara enquanto estava dormindo.

- O Eduardo e o Peter também ligaram – continua.

- Ah, decerto vamos ensaiar. Vou ver o que eles querem...

- Um minuto! – Vinícius havia se levantado, mas volta a sentar. Percebe que seu pai não parece nada satisfeito. Quando lhe pergunta o que seu velho quer, este deposita sobre a mesa o que restara de um baseado. – Isto foi encontrado no bolso de sua bermuda. Como você explica isso, filho?

Vinícius sobressalta-se quando vê que tinha esquecido o cigarro no bolso e tenta se defender, argumentando que desconhecia aquele troço e não tinha a menor ideia de que jeito aquilo viera parar em sua roupa. As explicações ambíguas do garoto não convencem o pai, que resolve castigá-lo proibindo-o de sair de casa.

- Pai, você não pode fazer isso com um futuro artista! – protesta. – Depois, eu já tenho dezoito, portanto, sou maior de idade...

- Maior de idade e ainda no ensino médio – recomeça o pai, extenuado com os protestos –, você deve aprender que ter dezoito, vinte ou trinta anos pouco importa se você mesmo não desenvolver seu caráter e assumir as responsabilidades pelas atitudes que toma. A vida é sua, viva como quiser, mas entenda que eu, na qualidade de seu pai, tenho a obrigação – discorre, enfatizando as últimas palavras e repetindo-as –, obrigação de alertar pra você não se meter em fria.

- Que fria que nada, pai! Chega de mijada, tá? Não sô mais criança. Além disso, tô com uma puta dor de cabeça... tá sendo injusto!

Enquanto Vinícius debanda da cozinha, resmungando, o pai balança a cabeça, preocupado. Andava desconfiado a algum tempo de que o filho está se envolvendo com drogas e deduz que só podia ser culpa das companhias daquela banda barulhenta, cujo som irritava seu gosto musical, que preferia um bom “sertanejo raízes”. Ouve a porta do quarto do garoto ser batida fortemente em sinal de insatisfação com o castigo e alimentou a esperança de que o filho mudaria de comportamento após o afastamento daquelas péssimas influências. A esposa, até então calada, murmura algumas palavras amenizadoras e começa a recolher a louça do jantar.


*****


Peter é o único que não toma bronca pelas trapalhadas da noite anterior. Pudera, seu pai e sua mãe haviam viajado para uma cidade do interior de São Paulo para mobiliar a casa onde passarão a morar e o garoto está largado em casa, sossegado e livre para aprontar quando bem entender. Os pais bem que tentaram persuadi-lo a se mudar, mas ele negou terminantemente, alegando que podia cuidar de si mesmo.

- Ah! Tem também nossa banda... – lembrou aos pais no dia em que eles optaram pela mudança de cidade.

Passa das 19 horas e Peter telefona para Estéfanie e insinua que deseja ficar com ela essa noite. Ele gosta dela pra caramba, mas é muito vacilão quando se trata de azarar a gata. Acaba levando o maior fora dela, que avisa que não pode sair de casa. Indignado, desliga o telefone, cogitando se aquela história de castigo não passava de pura desculpa para evitá-lo. “No mínimo, a gata tá de rolo com outro”, fantasia, mal-humorado.

Já está quase telefonando para Eduardo, mas nem se arrisca, porque sabe que o pai do cara não é brincadeira. No mínimo, tinha enchido o filho de porrada depois de ter sido convocado pela patrulha para recolher o amigo da rua. Com Vinícius Peter não quer muita conversa, porque o cara só se mete em furada e ferra todo mundo.

Em um estado crescente de irritação, Peter liga o aparelho de som no volume máximo, tocando um funk de baixíssimo nível. Podia convidar alguns amigos e dar uma festa, mas está sem inspiração. Aí lembra que Vinícius o convencera a cheirar um negócio irado e ele se sentiu a mil. Procura ligeiramente o papelote que tinha sobrado e, nessa empolgação de arranjar uma curtição para o final de semana, acaba desperdiçando o “pó mágico de alto astral”. “Que ideia mais besta!” julga, repetindo as palavras que inventara na hora para caracterizar a eficácia do pó estimulante. De repente, sente como se algo dentro de seu organismo ameaçasse se romper ao lembrar a sensação experimentada ontem. Sente urgência por aquele bem-estar passageiro que aparentemente beneficiará seu organismo.

Sôfrego, Peter desliga o som e só então ouve o telefone tocar. Quando atende, foi como se Vinícius tivesse adivinhado seus pensamentos. Do outro lado, mesmo de castigo como acabara de informar, Vinícius tinha seus truques e é bem de uma “mágica” assim que Peter precisa nesse momento para aliviar a tensão e afastar o baixo astral causado pela solidão.


*****


São aproximadamente 21 horas quando Vanessa termina seus afazeres domésticos e resolve sair para encontrar o esposo na Praça do Bosque, onde ele prepara e vende lanches rápidos a R$ 0,98. Arruma-se um pouco, disfarçando as manchas que aparecem nos olhos e sobe a rua Inambu até o ponto mais alto. Depois desce pela escadaria e segue até a praça.

Ao longe, Vanessa avista Pedro atendendo os fregueses – garotos menores de idade na maioria, e sente uma pontada de arrependimento, pois ele está lá se dedicando, trabalhando honestamente. Um serviço informal, verdade, mas ajuda no orçamento doméstico, embora no início faturasse mais. Ultimamente carrinhos muito mais equipados, como vans adaptadas com fogareiro e chapa, tomam espaço. Seu marido ainda monta uma barraca e prepara tudo com um carrinho de empurrar.

- Oi... – cumprimenta, com um pouco de receio e pudor.

- Oi! Chegou bem na hora de me ajudar – alegra-se, como se nada tivesse acontecido.

Ela está exausta depois de meio período na costura e mais meio período na faxina da casa, mas se prontifica a ajudá-lo com o preparo dos xis-saladas. Vanessa então procura o avental, prende o cabelo e calça as luvas plásticas descartáveis, recomendações de Pedro, que sempre se compromete com a higiene.

- Isso mesmo, minha linda! – elogia, como se tivesse lido os pensamentos da esposa.

Trabalham ainda por quase duas horas até que o último lanche é vendido. Enquanto Pedro guarda os materiais, Vanessa senta no banco um instante para descansar e fica pensando em tudo o que ocorrera na madrugada anterior. O marido tem mesmo essa capacidade de esquecer as desavenças. Ela, ao contrário, remói as mágoas, se iludindo ao pensar que a autocompaixão pode beneficiá-la. Estranhamente se sente culpada por ter provocado aquela briga. Cobrava dele mais ajuda no serviço doméstico, pois ela andava cansada e abatida com a dupla jornada.

Ela e Pedro moram juntos há quase dois anos. Formam um belo casal e se compreendem mutuamente. Vanessa jamais poderia imaginar que ele chegaria a agredi-la fisicamente na primeira contrariedade. Sente-se confusa e desiludida, pronta para dizer que não quer mais morar com ele. Entretanto, observando o marido, que age naturalmente, procura ver onde ela própria errara.

Enquanto se condena, Vanessa observa dois garotos se aproximarem de Pedro e cochicharem ao seu ouvido. Pedro, apesar de já ter guardado tudo, continua falando com os dois e de vez em quando olha em volta com preocupação. Cautelosamente retira do bolso do jaleco minúsculos embrulhos e entrega um para cada garoto. Vanessa não dispõe de ângulo para perceber que Pedro recebera algumas notas em troca, mas ficara curiosa e resolve se aproximar. Os garotos somem na rua escura quando ela aparece ao lado do marido.

- O que eles queriam? – pergunta, casualmente.

- Queriam lanche, mas expliquei que já tinha acabado – seu tom é ríspido e não encoraja novas indagações. Vanessa decide esquecer o assunto. – Vamos indo.

- É verdade, precisamos estrear o DVD.

Ela acompanha o marido, que empurra o carrinho em silêncio durante o trajeto, dando a volta em outra rua porque o carrinho não tem acesso por meio da escadaria. Quando chegam em casa, Pedro se ajeita na cama e adormece imediatamente. Vanessa troca de roupa e, fatigada, também cai no sono.


*****


Ângela espia pela janela da cozinha os fundos da casa do vizinho, de onde se propaga som alto desde a madrugada, uma mistura de música eletrônica com pagode e funk, ritmos que Ângela desconsidera, pois era fã de pop rock. Os vizinhos são pessoas de respeito, mas ela soube que haviam conseguido trabalho em outra cidade e se arrepia em pensar nos transtornos que enfrentaria com a música ensurdecedora que o filho do casal – um rapaz de 17 anos, aprecia e faz questão de compartilhar com todo o quarteirão de moradores.

Contudo, o som é o que menos aborrece Ângela, que vive preocupada com suas ambições, anseios, desejos íntimos. A monotonia dos afazeres domésticos desmotiva-a, pois não se sente recompensada. Anseia trocar esse marasmo por algum entretenimento, como uma viagem ao lado do marido, saírem juntos para experimentar algum prato diferente em um restaurante da moda, marcarem presença em alguma choperia, frequentarem o cinema. Ele, entretanto, não se importa com a vida social. Ângela, por sua vez, almeja luxo e riquezas, sonha com bens e prestígio, quer conforto e ostentação acima de tudo. O casamento mudara sua vida, porque ela ama o marido e ele sempre está presente nos seus sonhos mais extraordinários. Espera também acolhimento nos braços do companheiro a quem jurara fidelidade, amor, compreensão, tanto nos bons momentos como nas horas incertas, na saúde ou na doença. Todas essas promessas estão sendo cumpridas por ambos, mas então, se ela se casara com um bom homem, de excelente caráter, trabalhador, que até cozinhava melhor do que ela, o que está faltando para ela ser feliz de verdade? Filhos? Ainda não tocaram no assunto. Melhores rendimentos financeiros? Pagam dívidas como todo mundo. Resolvem pacificamente os problemas que normalmente surgem e quando não há nada com que se inquietarem, inventam novos motivos de preocupação, bobagens como fumaça, que se desvanecem rapidamente sem deixar fuligens ou fragmentos em suas vidas. Formam um casal absolutamente normal, mas mesmo assim, ela sofre com seus conflitos.

Ângela olha o relógio marcando dez horas e enquanto prepara o almoço de domingo, pensa, pensa. O marido Alberto, diante da televisão, assiste a corrida de fórmula um, torcendo pelo seu favorito, um norte americano. Depois, virá para a cozinha, abrirá uma lata de cerveja. Jogarão conversa fora, farão amor depois do almoço, dormirão algumas horas, abraçados, fatigados, satisfeitos por se alimentarem e se amarem.

- Mas que droga!

Uma queimadura leve para “esfriar” suas lamentações. “Eu mereço”, queixa-se ela, repreendendo-se por ser tão avoada. Enquanto pega rapidamente uma pomada, ela reflete que, de fato, está tudo tão bem, tão normal, tão rotineiro. Ambos trabalham no segmento do comércio, na rotina fatigante da informação superficial – números, papéis, mercadorias, notas fiscais, dados que mudam a cada instante. O que está errado, então? Ela não compreende e se martiriza, tentando buscar uma explicação dentro dos próprios conceitos. Que insensatez querer mais, se dispõe de tudo o que precisa para viver: casa para morar, comida, trabalho e um marido bondoso, que mal lhe conta as próprias dores. Além disso, sente-se culpada por navegar nas nuvens.

Coloca o liquidificador em atividade. Pronto! Mais uma queda livre das suas fantasias aladas para a famigerada rotina, que gosta, apesar de tudo. E lá vai ela, se perguntar pela centésima vez o que há de errado para ela tanto se questionar.

Assim que termina o almoço, começa a dar um jeito na louça acumulada na pia. Escuta uns passos e logo o marido aparece atrás dela, pousa as mãos ligeiramente em suas nádegas e dá-lhe um beijo no pescoço, local que sabe quebrar qualquer resistência. Ângela sorri, diluindo-se em emoções, e acabam antecipando o momento mais íntimo ali mesmo, ela com as mãos ensaboadas com detergente. Ora, não fora ela mesma que pensara a poucos instantes na exaustão da rotina? Enfim, nem reclamou e amou aquele momento de fuga do tédio.

Alberto acende um cigarro e dá uma volta até o portão para, segundo ele, “tomar fôlego”, coisa meio difícil visto que vai fumar. Ela termina a louça e põe à mesa, enquanto viaja novamente, desta vez, com pensamentos mais favoráveis de aceitação da vida como ela é.