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Joinville, Santa Catarina, Brazil

OS CONTADORES DE HISTÓRIAS - 1ª PARTE



O carro de polícia fazia sua ronda no bairro. Lentamente os reflexos das árvores plantadas na calçada atravessavam o pára-brisa.

- Tudo OK por aqui – disse o motorista, através do rádio. – Acabou meu plantão.

Ele recebeu resposta e desligou o aparelho. Ajeitou os óculos escuros e guiou a viatura para uma área mais tranquila, estacionando na frente de uma casa cercada por altas grades de alumínio. Buzinou discretamente e logo uma moça apareceu no portão. Feliz, ela embarcou rapidamente no banco do passageiro e deu um beijo estralado no motorista.

- Oi, Tony. Eu pensei que você nunca mais iria chegar!

- Mas estou aqui. Sou todo seu agora, Paty.

Patrícia beijou-o avidamente, mas ele protestou, aplacando com delicadeza o furor da namorada adolescente.

- O que acha de darmos um passeio?

- Que legal! Eu vou adorar – respondeu ela, alegremente. – Então, aonde vamos? – perguntou ansiosa.

- Surpresa... – disse ele, divertindo-se com a curiosidade que despertara nela. – Mas vou dar uma dica: é bom você levar uma roupa de banho.

- Tá legal. Volto num minuto.

Enquanto ela se deslocava agilmente para dentro de casa, Antônio observara sua energia e vitalidade e suspirou. Estava apaixonado por Patrícia. Sorriu satisfeito quando ela voltou e novamente o beijou.

- Você é impossível, Paty.

- E você, irresistível!

Ele deu a partida no automóvel e seguiu para o local planejado.

Enquanto Antônio dirigia, Patrícia se calou e passara a observá-lo. De vez em quando ele lançava um rápido olhar para ela e sorria. As lembranças então vieram uma a uma e a garota deixou o olhar perdido no homem que amava para mergulhar em seus pensamentos.

..........

Conhecera Antônio no colégio onde estudava, por ocasião de uma campanha de combate às drogas e à violência. O projeto era uma iniciativa da polícia militar e Antônio dava palestras sobre o tema. Devido a seu porte atlético, ele provocava suspiros em todas as adolescentes, mas somente Patrícia sentiu desde o primeiro instante que ele seria o namorado ideal e tratou de lutar pelo amor dele. Antônio, por sua vez, se esquivou de todas as estratégias de conquista desenvolvidas pela garota, alegando a diferença incontestável de idade entre eles. Ele era o tipo de homem íntegro e refletia muito bem sobre todas as atitudes que tomava. Por esta razão, repudiava a ideia de um relacionamento com uma adolescente.

Mesmo assim, Patrícia insistira e casualmente fora criando um vínculo de amizade com Antônio. Ela percebera desde o início que a dedicação ao trabalho era o ponto forte dele e usara aquilo como forma de se aproximar e declarar o amor que sentia. Tanto empenho acabou por derreter o coração de Antônio, até que ele se entregou à paixão que estava crescendo de maneira disciplinada, mas constante.

Finalmente, Antônio estacionou o veículo logo após ter atravessado o pórtico de acesso ao parque aquático.

- Meu amor, que lugar maravilhoso! – exclamou Patrícia, saltando do carro para olhar melhor.

- Eu frequentava este parque aquático quando tinha a sua idade. Claro que, naquela época, nem sonhava em descer de tobogan.

- Como assim, minha idade? Você só tem 34, seu bobo!

- E você 16. Com tantos garotos te admirando, você foi logo escolher um vovô para amar.

- Tony, eu amo você e não os outros! – protestou ela, abraçando-o e cochichou no ouvido dele. Antônio riu alto e pressionou-a contra o peito.

- Não sabe como eu te amo, Paty.

- Ah, sei sim! Pode apostar que sei. E o passeio que você me prometeu?

- Vamos lá – disse ele, oferecendo o braço.

Eles deixaram o veículo no estacionamento e caminharam pela passarela que dava acesso às piscinas e à casa colonial que servia de vestiário, onde entraram para vestir as roupas de banho. Em seguida, continuaram caminhando, observando tudo com interesse crescente.

O parque fora construído em um vale e a paisagem formada pela vegetação nativa e pelos jardins resultava em um visual de rara beleza. Um riacho canalizado acompanhava a passarela, cercada de troncos de árvores pintados de branco, criando um efeito contrastante em relação ao verde da grama e dos cedros. Em alguns pontos do riacho, pequenas pontes fascinavam com a sugestão de trilhas ecológicas. As casas eram pequenas, possuíam várias janelas minúsculas e cada uma possuía um vaso de flores. O acabamento das paredes era branco e rugoso, dando a impressão de que era feito de papel crepom. Acima das janelas, troncos roliços formavam os caibros e as telhas brilhavam com o sol. Da metade para baixo, as paredes eram formadas por pedras incrustadas impecavelmente montadas. Alguns cogumelos de gesso enfeitavam o gramado e o local inteiro estava extremamente limpo, apesar das dezenas de pessoas que ali se encontravam. Ainda havia um moinho desativado, que servia como atração turística.

Finalmente, a enorme piscina onde terminava o tobogan recebia a iluminação solar em meio aos galhos das árvores que a circundavam. Mais adiante, outra piscina ornamental sofria pequenas ondas em sua água límpida. Para a esquerda, subia uma escadaria que dava acesso a uma casa maior, onde residiam os proprietários do recanto. A casa era construída de pedras e troncos de árvores envernizados, e as janelas eram formadas por grades menores com contornos delicados.

Uma roda de carroça dependurada em um tronco por uma corrente delimitava o acesso aos visitantes, que ali apenas tiravam fotos. O equilíbrio entre a natureza e o elemento humano era impressionante, e a leveza de espírito impulsionava as pessoas em sua diversão e relaxamento.

Patrícia procurou imaginar aquele local deserto e silencioso em um entardecer. Era romântico e exótico. Em um piscar de olhos, ela voltou à realidade da poluição sonora provocada pelas pessoas e seguiu o impulso de correr até a piscina.

- O último que chegar é mulher do padre! – exclamou Patrícia, saltando na água.

Antônio seguiu-a e atirou-se na água. Ficou de pé, tirando do rosto o excesso de água. Quando finalmente podia enxergar, exclamou:

- Não, Paty! – Já era tarde demais. Com as pernas magras muito ágeis, ela atirou nele uma cachoeira de água e ria, enquanto ele tentava se defender. – Agora eu vou te pegar, sua danadinha!

Antônio jogou-se sobre ela e levantou-a facilmente no colo, trazendo-a de volta à borda da piscina.

- Viu? Te peguei. Qual é o seu último pedido?

- Fazer amor com você... – sussurrou ela, sensual como uma mulher, mas inocente como a adolescente que era na verdade.

Antônio não respondeu e ficou sério de repente, desviando os olhos para algumas crianças que brincavam perto deles.

- Você é muito jovem, meu bem – respondeu, finalmente.

- Jovem? Só porque eu nunca...

- Não, não é isso. Eu tenho idade para ser seu pai.

- Ah, seu bobo! – protestou ela. – De novo com essa história? Eu estou aqui, estou pedindo... Não sou tão bonita como você gostaria, não é?

- Oh, Paty... – Ele sentiu-se arrependido por estar evitando aquilo. - Eu amo você e quero fazer as coisas do jeito certo. Quero falar com seus pais primeiro.

- Mas, Tony... eles não precisam saber.

Patrícia magoou-se com a rejeição e sentiu súbita vontade de chorar. Ela amava Antônio e seu desejo de se entregar a ele era intenso, quase uma necessidade para provar o que dizia sentir. Assim, ela saiu da piscina e caminhou a passos largos até uma pequena escadaria, onde sentou. Depois de alguns minutos, Antônio aproximou-se do local onde ela estava e ficou de pé, com os braços abertos, sorrindo para ela. Patrícia esperou um segundo para entender a sugestão dele e se atirou nos braços abertos que em seguida se fecharam, aninhando-a, acalmando a tempestade que ela criara.

- Desculpe, Paty. Não tive intenção de magoar você.

- Eu é que peço desculpas. Eu sempre quero fazer as coisas do meu jeito. Mas você tem razão. Quero que meus pais aceitem nosso namoro.

Antônio e Patrícia caminhavam de mãos dadas, conversando alegremente e de vez em quando paravam para se beijar rapidamente. Pararam na ponte e apoiaram-se no cercado, imaginando o mundo quando estivessem juntos, fazendo planos, trocando confidências, expondo desejos.

Enquanto o casal conversava, um sujeito uniformizado que fazia a limpeza próximo da ponte, observava a jovem com visível interesse e algo que pensou contraiu seu rosto em um sorriso de satisfação. Ele ajuntou as folhas secas e disfarçadamente seguiu Antônio e Patrícia quando estes foram ao vestiário. Depois disso, o estranho sumiu no meio dos visitantes.

Mais tarde, Antônio deixou Patrícia na porta de sua casa.

- Estamos de volta.

- Vamos nos ver amanhã? – perguntou ela, com voz chorosa.

- Não, querida. Tenho treinamento na corporação. Mas te dou um alô assim que me dispensarem.

Uma terceira pessoa chamou pelo nome de Patrícia e o casal virou-se abruptamente para a porta de entrada da casa. Parada na varanda e visivelmente contrariada, a mãe da moça chamou-a novamente. Patrícia andou rapidamente na direção de casa e Antônio aproveitou para acenar para a mãe dela com educação. Esta, porém, não retribuiu o gesto e fechou a porta assim que a filha entrara.

Antônio ficara imaginando que Patrícia sofreria nova repreensão, como acontecera todas as vezes que saíra com ela. Tanto a mãe quanto o pai não consentiam com o envolvimento entre ela e Antônio, pois provinham de famílias tradicionais e preconceituosas, em que a educação rigorosa não abria espaço para mudanças nos costumes. Antônio decidiu por se apresentar o quanto antes para os pais da namorada e convencê-los de que suas intenções com a filha eram dignas. Sorrindo com o pensamento, ele ligou o veículo e se foi.

Enquanto isso, Patrícia era severamente repreendida pela mãe, que mesmo ciente de com quem a filha se encontrava, ameaçava contar ao pai sobre a continuação de seu relacionamento com o policial.

- O nome dele é Antônio, mãe! – exclamou irritada com a maneira pela qual a mãe se referia ao namorado. – An – tô – nio! Ouviu?

O desabafo de Patrícia contrariou a mãe ainda mais, e esta obrigou a filha a se afastar de Antônio. Patrícia, ressentida, correu para o quarto, onde chorou.

- Por que eles não entendem? O Tony é a última pessoa que me faria mal.

Finalmente se acalmou e tratou de reunir argumentos para convencer a mãe a aceitar seu namoro. Sua mãe era muito boa, mas o defeito era sua submissão ao pai, que tornava tudo mais difícil. Então, ela desceu, disposta a conversar melhor com a mãe.

- Mãe... – chamou ela, quando entrou na cozinha. – Eu queria falar com você.

- Se quer me convencer a mudar minha opinião, pode esquecer – interrompeu a mãe, secamente.

- Eu sei que você quer o meu bem, mas não tem o direito de me privar da felicidade – começou Patrícia, com doçura.

A mãe largou os afazeres e olhou melhor para a filha. Então tiveram uma longa conversa, que fez Patrícia readquirir ânimo e esperança. Ao final da conversa, a mãe anunciou:

- Muito bem, vou dar uma chance.

Patrícia abraçou a mãe e beijou-a no rosto diversas vezes, agradecendo pela compreensão.

- Mas não se esqueça – tornou a mãe –, você tem apenas dezesseis anos e, portanto, ainda deve obediência a seu pai.

..........

Após uma boa noite de sono, Patrícia se sentia revigorada. Ansiava por um novo encontro com Antônio, entretanto, tinha obrigações para cumprir, como ir ao colégio pela manhã e se reunir com uma equipe de colegas para dar continuidade a um trabalho extraclasse. Ela suspirou e ganhou coragem para enfrentar o dia atribulado.

Mais tarde, quando concluiu a prova, Patrícia foi liberada mais cedo e resolveu ir para casa e adiantar algumas coisas. Ela caminhava distraidamente pela calçada, enquanto pensavam em suas tarefas.

De repente, uma viatura de polícia cortou sua frente quando a garota resolveu atravessar a rua e ela recuou para a calçada. Ela então imaginou que fosse Antônio e aguardou sorrindo, enquanto a porta do motorista se abria. O sorriso foi sumindo de seu rosto quando o policial saiu de dentro do veículo e andou em sua direção. Ele empunhou uma arma de fogo e ameaçou-a, agarrando-a com brutalidade. Ela tentou reagir, mas foi agredida no rosto, perdendo o equilíbrio e a força.

- Entra aí, doçura! – ordenou o sujeito, empurrando-a para dentro do veículo. – Agora nós vamos dar um gostoso e merecido passeio.

OS CONTADORES DE HISTÓRIAS - SINOPSE



Antônio, policial com carreira já estabelecida, e Patrícia, estudante do ensino médio, se apaixonam, porém, os pais da garota se opõem a esse romance precoce. E antes que Antônio e Patrícia possam viver o seu amor, ela torna-se vítima de violência e as provas apontam o namorado como responsável.

Enquanto todos acusam Antônio, Cláudia e a amiga Fernanda, jovens universitárias que participam do grupo de Contadores de Histórias, se envolvem no caso com o firme propósito de restabelecer a união do casal. Para tanto, Cláudia não mede esforços e nem se resigna quando a situação se torna mais difícil, transmitindo mensagens de otimismo e esperança mesmo quando tudo parece irremediavelmente perdido.

CAPÍTULO 11 - VIAGENS E HISTÓRIAS


Tatiana segurou firmemente a mão de Paulo enquanto aguardava ansiosamente a decisão do juiz. Outras audiências haviam acontecido durante as semanas que se passaram, mas aquela audiência era decisiva.

O juiz, um senhor já experiente e respeitável por sua boa reputação, leu mentalmente a sentença, refletindo antes de anunciar o veredicto. Observara mais uma vez a ré e sentiu pesar, porém, analisou a votação dos jurados que, por unanimidade, decidiram a vida da acusada e, optando pela justiça, acima de qualquer circunstância, finalmente anunciou:

- As denúncias levantadas e comprovadas neste tribunal contra Elisabete Schroeder são gravíssimas e o júri decidiu, por unanimidade, que a ré é culpada! Mas, tendo em vista seu atual estado de saúde, cumprirá pena de vinte anos em regime semiaberto em local apropriado para sua reabilitação física e moral.

Tatiana e Paulo abraçaram-se aliviados pelo fim da perseguição e foram cumprimentados por todas as pessoas presentes, inclusive os representantes do Consórcio Optical e Integração. Paloma, Natália, Luíza e Valéria vibraram e, enquanto o recinto estava em clima de festa, Mauro e Laércio aproximaram-se para cumprimentar Paulo.

- Parabéns, Paulo – falou Mauro, apertando firmemente a mão de Paulo.

- Obrigado.

- A justiça foi feita, afinal! – afirmou Laércio, enquanto cumprimentava o ex-funcionário. – Estamos aqui para fazer uma proposta. Estamos precisando de um novo supervisor de L.A. Então, nos lembramos de você.

Paulo surpreendeu-se com a facilidade com que uma pessoa muda de lado e pensou um instante, tomado de um súbito orgulho. Ao seu lado Tatiana aguardava, sorrindo tranquilizadoramente. Paulo então, observando-lhe o ventre levemente dilatado, sentiu que havia chegado o momento de optar pela família que desejava formar, e aceitou o emprego de volta.

Elisabete, por sua vez, estava sentada na cadeira de rodas, com o rosto e as mãos totalmente coberto por ataduras. Havia tido lesões de terceiro grau, perdera quase todos os dedos das mãos, o cabelo caíra, as pernas e braços ficaram atrofiados e seu rosto agora estava irremediavelmente deformado. Pela primeira vez ela chorou, odiando ter sobrevivido. Como se não bastasse, meses após o acidente, fora julgada e condenada e nem todas as cirurgias plásticas ajudariam a restabelecer seu rosto desfigurado.

- Vamos, querida – falou Augusto, empurrando a cadeira de rodas. – Vamos apelar da sentença. Vai dar tudo certo.

Ele sorriu. Sabia que Elisabete não poderia oferecer mais nada, mas mesmo assim, ele decidira tomar conta dela até seu último dia de vida, pois o amor que sentia superava o aspecto horrível causado pelo acidente. Discretamente saiu da sala de audiência com Elisabete sendo conduzida por um policial.

Enquanto isso, Tatiana observava Elisabete até ela sumir pelo corredor e ficou momentaneamente triste.

- Não está contente? – perguntou Paulo, subitamente preocupado com ela.

- Sim e não. Acho que ela não merecia tanto...

- Ela apenas colheu o que plantou. Não se preocupe mais com ela, combinado?

- Sim.

Paulo, Tatiana, a família e os amigos formavam um grupo eufórico e tagarela e tomaram o corredor que dava para a saída. Quando chegaram à saída do prédio, foram barrados por uma senhora com aparência distinta, que pediu um momento para falar com Tatiana.

- Meu nome é Joana d’Ávilla e sou editora. Soube de seu trabalho, Tatiana, e gostaria de conhecê-lo melhor – explicou a mulher, com cortesia.

Tatiana ficou paralisada com a surpresa e ficou imaginando de que forma aquela senhora chegara a conhecê-la, pois jamais tinha divulgado seu trabalho antes. Ainda em silêncio, Tatiana sondou o rosto de Paulo e como se pudesse ler os seus pensamentos, sorriu para ele, entusiasmada:

- Foi você? Mas, como?

- Isso é um segredo – disse ele, com ar casual.

Paulo sorriu para ela e se sentiu grato quando ela lhe abraçou comovida. As lágrimas que rolavam em sua face naquele momento eram lágrimas de esperança, um presente para uma pessoa que mereceu conquistar a vitória, porque batalhou pelo sonho. As dificuldades apareceram, mas ela não desistiu nunca.

Natália, muito contente e orgulhosa, foi ao encontro de Tatiana para lhe dar os parabéns e contar que passara para um cargo efetivo dentro da empresa. Paloma, que acompanhava a cena em silêncio juntamente com as outras amigas, refletiu como o sonho de Tatiana era importante. Sentiu-se arrependida por não ter dado o devido valor às “viagens” da amiga e sorriu, envergonhada. “Afinal, viajar faz mesmo parte de sua alma”, pensou ela.





Paulo pousou o arranjo de flores sobre a lápide de mármore, e leu a inscrição onde constava o nome de Evelin e uma mensagem de saudades. Afinal, agora ele se sentia feliz novamente, livre do remorso e mais preparado e disposto para aproveitar a nova chance que recebera. Conquistara não somente uma carreira profissional, como também ganhara uma nova esposa e um filho que tanto desejara. Então abraçou Tatiana, que permanecia calada, tentando compreender os sentimentos dele.

- Se ela estivesse viva, hoje seria seu aniversário – disse ele, suspirando, – mas quem ganhou o presente fui eu.

Tatiana olhou para ele com curiosidade.

- Como assim?

- Deus me deu uma família. – Ele tocou na barriga saliente e sorriu, enquanto segurava a mão de Tatiana e brincava com a aliança. Havia deixado seu passado para trás para viver uma nova vida, definitivamente reencontrando seu equilíbrio, acreditando sempre em sua dignidade e agradecendo por todas as experiências enfrentadas e por tudo que conquistara.

- Isso vai render uma bonita história – comentou Tatiana, com tranquilidade. – Eu sou incorrigivelmente favorável a um final feliz.

Paulo sorriu, concordando, pois naquele momento acreditava realmente no que ela afirmava e acrescentou:

- Não somente a um final feliz, mas também a um novo começo.

Abraçaram-se e caminharam lentamente lado a lado, enquanto conversavam e faziam planos para sua nova vida.



Fim

CAPÍTULO 10 - PARTE III - DO OUTRO LADO DA LINHA


Paulo chegou finalmente ao sítio que Elisabete descrevera. Quando avistou o Scenic, seu coração descompassou temendo que Tatiana estivesse sendo torturada. Desceu do automóvel que emprestara e observou a mata silenciosa, a casa, o rancho. Toda aquela paisagem era desoladora, porque não havia ninguém naquele lugar sombrio. O sol, que brilhava intensamente momentos antes, fora oculto por nuvens escuras de chuva. Uma ventania começara a soprar criando redemoinhos de folhas secas em volta dele.

Então avistou a estrada que parecia levar para dentro da mata e seguiu por aquele caminho até o rio, onde atravessou com cautela, observando a pequena queda d’água que provocava barulho. Subiu a colina e olhou ao redor. Um cheiro de óleo diesel dominava o ar e Paulo deduziu ser proveniente das máquinas paradas ao lado de um barracão. A densidade das nuvens trazia maus presságios  e ele novamente sentiu medo.

Quando se afastou do rio escutou um choro que vinha do barracão e seguiu adiante, esquecendo seus receios.

- Tatiana! Tatiana! – Ele encontrou-a amarrada e amordaçada e correu para socorrê-la. Viu no chão a poça de sangue e a perna ferida e abraçou Tatiana com ternura. – Meu amor, o que foi que ela fez a você...

Tatiana gemia desesperadamente e sinalizava com os olhos para trás de Paulo. Ele se apressou em retirar sua mordaça, mas antes que ela proferisse alguma palavra, Elisabete encostara o revólver na cabeça dele, que levantou vagarosamente seus braços.

- Ora, veja só! Tatiana, não disse que seu herói tentaria salvá-la?

Paulo respirou profundamente, pensando em uma maneira de deixar Tatiana em segurança.

- Elisabete, o que há? – perguntou ele, com calma. – Você me quer, estou aqui. Não acha que podemos parar de brincar de gato e rato?

- Não, está tão divertido...

Ela afastou-se e começou a caminhar cautelosamente em torno dele, que continuava ajoelhado no chão de frente para Tatiana. Paulo sinalizava para Tatiana manter a calma, mas ela chorava copiosamente. Um ou outro soluço cortava o ar e no mais, Tatiana estava em profundo silêncio.

- Isto é entre eu e você, Elisabete – tornou ele, com firmeza. – Envolver mais pessoas não vai resolver nosso impasse.

- Pode ser. – Elisabete caminhava em círculos, observando o casal com atenção. – Mas creio que não tenhamos mais nenhuma chance.

- Vamos, Elisabete, faço tudo o que você mandar.... – Ele abaixou os braços, levantou-se e virou-se na direção de Elisabete, que havia sentado em uma grande pedra afastada do barracão.

- Não se mexa!

- Calma, eu só quero olhar para você.

- Você teve todas as chances do mundo para olhar para mim, mas nunca deu a mínima.

- Não é verdade – retrucou.

- É verdade, sim. Você estragou tudo. – Ela ficou subitamente em silêncio. Abaixou a arma e olhou a paisagem. – Está vendo isso aqui? Foi de meu pai. – Em sua voz havia tristeza, talvez remorso, e Paulo continuou em silêncio observando o momento oportuno para desarmá-la. – Quando ele morreu, eu vendi esse lugar para uma próspera empresa de terraplenagem, onde possuo uma parcela razoável de ações. Meu pai era um homem muito rico, proprietário de metade deste lugar: terras férteis, mata nativa, água em abundância... mas, com toda essa fortuna, eu nunca pude usufruir por causa do advogado dele.

- O que houve? – Cautelosamente, Paulo deu alguns passos na direção dela.

- O advogado conseguiu convencer meu pai de que eu era irresponsável e inconsequente e não saberia administrar a herança, porque eu queria tudo a um só tempo, não refletia sobre a utilidade das coisas que consumia. Então, eu só poderia conseguir a herança quando me casasse e tivesse um filho com meu marido. Eu tentei evitar que essa cláusula tivesse validade, mas quando envenenei o café do advogado com mão branca já era tarde. Meu pai já havia assinado o testamento e este já havia sido lavrado em cartório.

- Você assassinou o advogado de seu pai com veneno de rato? – Paulo sentiu náuseas.

- Sim – afirmou ela, tratando do assassinato como uma banalidade. – Rapidamente contratei o Dr. Augusto, que controlou a situação. Mas não houve jeito de alterar o testamento, mesmo que tentássemos argumentar que meu pai tivesse sido influenciado a tomar a decisão. Assim, eu precisava me casar o quanto antes.

- Aí eu apareci – deduziu ele, sentindo-se parte do jogo sujo. A partir daquelas confissões, ele começou a compreender toda a perseguição que sofreu. – Por que eu, Elisabete? O seu doutor não servia para seus préstimos?

- Não. Desde a primeira vez que te vi me apaixonei loucamente e quis você a todo custo – revelou ela, com amargura. – Mas você nunca me aceitou.

- Você me chantageou o tempo inteiro, Elisabete! Chama isso de paixão?

- Eu ofereci tudo, você poderia ter o mundo a seus pés, mas teve a infeliz ideia de se aproximar desta criatura desprezível!

Tatiana encolheu-se, como se as palavras de Elisabete a tivessem chicoteado.

- Elisabete, escute – continuou Paulo, tentando tranquilizá-la. – Tatiana sofreu um acidente, e não se lembra de nada. Portanto, não representa uma ameaça para você.

- Você acredita mesmo que ela não se lembre de nada? – Elisabete riu, achando graça das próprias palavras. – Vai me dizer que acredita também em anjos, duendes e fadas... – Paulo enrugou a fronte e olhou bruscamente para Tatiana, que baixou a cabeça, evitando olhar para ele. – Vamos, Tatiana, confesse que você o enganou – insistiu Elisabete. – Aproveite também para comunicar sua gravidez.

Tatiana engoliu em seco ao enfrentar o olhar indignado de Paulo.

- Tatiana, é verdade? Você está grávida? – Ele aproximou-se dela e ajoelhou-se em sua frente. – Meu filho?

- Sim, Paulo – afirmou Elisabete antes que Tatiana respondesse. – É essa mulher que você ama? Que escondeu de você toda a verdade e ainda por cima não lhe confiou o filho que está esperando?

- Por que não me contou? – perguntou ele, sacudindo-a. – Por que não me contou?

- Eu quis te proteger – respondeu Tatiana, enquanto chorava.

- Me proteger? Você acha que está me protegendo escondendo meu filho de mim?

Ele levantou-se e afastou-se dela, sentindo-se traído. Tatiana caiu em um choro convulsivo e Elisabete sorria enquanto observava o desentendimento deles.

- É, Paulo – tornou Elisabete, levantando calmamente da pedra, com a satisfação visível em seu semblante –, acho que suas mulheres sempre o decepcionam, não é mesmo? Primeiro sua amada Evelin, agora essa mentirosa da Tatiana.

Paulo respirava profundamente, procurando organizar seus sentimentos. Estava decepcionado sem dúvida nenhuma e os comentários de Elisabete contaminavam ainda mais sua mente.

- Mas fique certo de que todo esse sofrimento tem data e horário para terminar. Quem vai ser o primeiro? Você ou ela?

Elisabete apontou o revólver na direção dele, em seguida apanhou o isqueiro. – Pensando bem, posso acabar com os dois, ou melhor, os três, ao mesmo tempo.

- Não, Elisabete! Não faça isso – pediu ele, voltando a ficar nervoso e angustiado. “Deus, nos ajude por favor!”, implorou ele, acompanhando as reações de Elisabete.

O dia continuava nublado e a aproximação de uma trovoada carregava o ambiente. As árvores deitavam-se com o vento e algumas nuvens que se chocavam entre si lançavam línguas de fogo no céu. Um trovão isolado estremeceu a terra. Elisabete continuou brincando com o revólver e com o isqueiro, ameaçando ora atirar ora atear fogo no barracão.

Subitamente o vento trouxe som de sirenes que tocavam bem longe dali, mas que alertaram Elisabete. Ela permaneceu em silêncio, procurando distinguir aqueles sons que ora se aproximavam ora se perdiam com as rajadas de vento. Quando não mais ouviu as sirenes, Elisabete deu continuidade a sua vingança. Disparou um tiro na direção de Paulo, mas, inexplicavelmente, o tiro não o atingiu e se perdeu na vegetação. Elisabete, sem compreender como errara, ficou atônita.

Naquele momento, som de portas sendo batidas fez com que ela virasse bruscamente, avistando uma equipe de policiais civis e militares e um grupo de resposta tática, o GRT, vindo ao encontro deles. Logo atrás, Augusto os seguia.

- Elisabete – chamou ele –, por favor, se renda ou eles vão matar você!

- Augusto? Como me encontrou aqui? – A surpresa com toda aquela multidão provocou a ira dela.

- Eu já convivo com você há bastante tempo para poder entender sua psicologia – respondeu Augusto, tentando se aproximar dela. – Eu vim para te defender, querida, e te levar para uma clínica de recuperação.

- Clínica de recuperação? Que piada!

Ela correu na direção do barracão e levantou Tatiana do chão. Esta gritou de dor e continuou chorando, implorando pela vida do filho. Paulo foi protegido pelo esquadrão de elite, mas se recusava a se afastar de Tatiana.

- Não podem me prender aqui! – exclamou ele, tentando desvencilhar-se dos policiais que o seguravam. – Ela vai matar minha mulher e meu filho!

- Nós tomaremos conta deles! – informou o comandante da operação, que se dirigiu para o barracão.

- Deu tudo certo! Nós conseguimos alertar a polícia com sua ideia do cruzamento das linhas telefônicas, mas Elisabete fugiu do meu controle – lamentou Augusto, aproximando-se de Paulo.

- Quando me procurou para ajudá-lo a prender Elisabete, você garantiu que não envolveria a Tatiana, seu mentiroso! – Paulo soltou-se dos homens e avançou contra Augusto, pronto para dar-lhe uma surra, mas foi novamente contido pelos policiais.

- Não foi culpa minha, também quero a segurança da mulher que amo...

- Acontece que a mulher que você ama está a um passo de matar a mulher que eu amo! – rosnou Paulo. – E você sabia o tempo todo que ela está grávida!

- Calma, senhor! – interferiu o policial, que se identificou como detetive. – No momento, ela e o bebê estão a salvo, porque Elisabete precisa deles para se proteger. A nossa equipe de resgate possui treinamento para esse tipo de situação. Veja!

Paulo olhou na direção indicada. O lugar estava todo cercado por atiradores. Havia homens armados atrás das retroescavadeiras e sobre o morro que ficava atrás do barracão, ocultos pela vegetação e por grandes monturos de pedras resultantes da exploração do rio. O grupo era controlado por um homem, que se comunicava através do rádio.

- Não façam nada antes que eu dê a ordem, entendido? – alertou o comandante da operação.

Uma dezena de atiradores estava com Elisabete em sua mira, prontos para disparar. Entretanto, Elisabete continuava mantendo Tatiana em seu poder, segurando-a pelos braços amarrados nas costas, com seu revólver apontado para a cabeça dela.

Tatiana, por sua vez, observava toda a movimentação através da visão turva. Estava procurando manter suas forças para proteger Paulo e quando o viu em segurança próximo do grupo de policiais, ela começou a ceder. De repente, devido à dor torturante na perna machucada, ela entregou-se ao cansaço, caindo de joelhos no terreno árido. Elisabete segurou firmemente o cabelo de Tatiana, mantendo sua cabeça levantada e, em seguida, soltou uma gargalhada doentia antes de iniciar a contagem regressiva.

Subitamente, Tatiana teve a sensação de que flutuava, semelhante ao dia que fora estrangulada. A dor sumira, não havia mais nenhum som e nenhuma chance. Sua linha de visão parecia apresentar tudo em câmera lenta, e Tatiana observou assombrada Elisabete acendendo o isqueiro. As forças tinham-na abandonado e ela não conseguiu correr. Assim, fechou os olhos e rezou:

- Deus, precisamos de ajuda! Nos salve!

De repente, ouviu-se um disparo e Tatiana caiu no chão. Paulo gritou seu nome e correu até ela enquanto Elisabete era arremetida contra os tambores de combustível, derramando o restante do conteúdo e causando a primeira explosão.

- Evacuar! Evacuar! – ordenou o comandante enquanto ajudou Paulo a resgatar Tatiana. Carregaram-na para perto das viaturas paradas no alto da colina. Em seguida, sucessivas explosões lançaram pedaços de madeira incendiados para todos os lados e todos se protegeram atrás dos veículos. As chamas ganharam altura por causa do vento forte.

Quando as explosões terminaram, Elisabete correu do local do acidente como uma tocha humana, gritando de horror. Os policiais apanharam extintores de incêndio e socorreram-na.

Tatiana foi desamarrada, mas continuava inconsciente. Paulo segurou-a no colo, afastando o cabelo desgrenhado do rosto sujo de fuligem, terra e sangue. Lágrimas saltaram de seus olhos, pois ele imaginava que ela não tinha sobrevivido. Um dos médicos que acompanhara a operação aproximou-se para examiná-la.

- A pulsação está fraca. Rápido! Precisamos levá-la para a ambulância!

- Tatiana, por favor, aguente firme! – pediu Paulo, chorando muito.

Enquanto ele soluçava, ela abriu os olhos e sorriu para ele.

- Que coincidência... – falou ela, com a voz fraca, inconsciente de onde estava. – Eu estava agora mesmo sonhando com você...

Paulo parou de chorar e abraçou-a, rindo e agradecendo a Deus pelo milagre. Os policiais até então apreensivos, vibraram de alegria e cumprimentaram-se.

- Acabou, meu amor – falou Paulo, acariciando o rosto dela e beijando-a docemente nos lábios. – Está tudo bem agora.

- Não está mais zangado comigo? – indagou ela, seu corpo flexível e sem forças.

- Não, não estou. Eu te amo, nunca se esqueça disso.

- E o bebê... o nosso bebê? – lembrou-se, em pânico.

- Ele também está a salvo... – falou, carinhosamente tocando na barriga dela.

Os paramédicos levaram-na para a ambulância e seguiram para o hospital. Uma equipe continuou no local para terminar de controlar o fogo, ajudada por uma chuva fina que começara a cair na região.


CAPÍTULO 10 - PARTE II - DO OUTRO LADO DA LINHA



A delegada Rosana e o policial Luiz invadiram a casa de itaúba à procura de Elisabete. Revistaram os cômodos e encontraram o dossiê jogado no chão, perto da porta. Também observaram os objetos quebrados no escritório.

- E agora, delegada?

Rosana voltou rapidamente para a viatura e comunicou-se pelo rádio.

- Acione todas as viaturas e mande que interditem as saídas principais da cidade. Estamos lidando com uma assassina em potencial e é preciso ter cautela. Mande uma equipe para vigiar esse lugar. – Ela virou-se para o policial e continuou: – Fique aqui até a equipe de investigação chegar. Preciso tomar algumas providências.
- Certo, delegada!


Tatiana chegou ofegante à casa dos pais e percebeu que não se enganara ao ver o Scenic estacionado próximo do portão de entrada. Ela respirou profundamente, procurando coragem para enfrentar Elisabete, e então entrou.

- Elisabete! Que surpresa! Veio me visitar? – perguntou Tatiana, tentando representar.

- Sim, querida Tati! Aproveitei também para conhecer sua família. Eles são adoráveis.

Tatiana olhou para a mãe e o pai e as duas irmãs para se certificar de que estavam bem.

- Ela disse que é sua amiga – declarou a mãe, inocentemente.

- Ah, claro mãe. Ela é minha amiga, sim.

- Exatamente, e como amiga vim aqui para oferecer alguns cuidados indispensáveis para a futura mamãe.

- Futura mamãe? Do que está falando? – Tatiana sentiu o mundo girar.

- Ora, meu bem, não precisa disfarçar. Eu já sei de tudo.

Tatiana olhou assustada para sua família, imaginando que eles tivessem contado o segredo para ela e ficou ainda mais zonza quando todos negaram com um discreto balançar de cabeça. Elisabete então continuou, mudando drasticamente seu tom de voz:

- Além disso, não precisa mais fingir a amnésia. Sei que é farsa sua.

- Mas então o que quer? – Tatiana sentou-se em uma cadeira, tentando controlar seus nervos.

- Como eu disse, a sua família é muito querida e eu não gostaria de fazer mal a eles – ironizou, enquanto retirava o revólver da bolsa e apontava na direção da irmã mais nova que se encolheu com medo.

- Não! Por favor, não atire! – implorou Tatiana, levantando-se e parando em frente à arma engatilhada. Seus olhos encheram-se de lágrimas. – Deixe-os em paz, eu faço tudo que você quiser...

- Ah, agora estamos nos entendendo. Venha comigo, Tatiana! – ordenou ela, apontando para o veículo. – Depressa, entre no carro! E quanto a vocês, espero que fiquem bem quietinhos. Eu vou levar a filha e o neto de vocês para dar um longo passeio.

Impotentes, os pais de Tatiana viram-na ser levada e quando o veículo sumiu no horizonte, todos entraram em desespero.



Tatiana estava imóvel em seu lugar no banco do passageiro, rezando para Elisabete não disparar a arma que mantinha apontada o tempo inteiro para ela enquanto dirigia pela estrada rural. Não fazia a menor ideia para onde estava sendo levada e observava com temor constante e crescente as plantações intermináveis.

Elisabete cantarolava a música que tocava em seu aparelho no automóvel e mantinha a guarda em Tatiana. De vez em quando lançava um olhar fulminante para a moça. Sua segurança inabalável provocava em Tatiana pânico ainda maior.

- Para onde estamos indo, Elisabete?

- Você já vai saber.

Elisabete desligou o som e parou o carro em uma casa abandonada no final da estrada. A casa estava depredada e o mato tomara conta. Limoeiros e pessegueiros dividiam lugar com a vegetação que crescera assustadoramente. Um tanque de pesca ficava há alguns metros da casa e a cerca de arame que o circundava servia de apoio para maracujazeiros carregados de frutas verdes. Atrás da casa, um rancho abrigava alguns equipamentos agrários e ferramentas enferrujadas.

Assim que Tatiana desceu do veículo, pode ouvir o som de cachoeiras e sentiu calafrios.

- Onde estão os moradores deste lugar?

- Não se preocupe, meu bem. Ainda não chegou a pessoa que vai testemunhar a sua morte. Vá andando!

- Porque você me trouxe para cá, afinal? Se vai me matar, porque não acaba com isso de uma vez?

- Nossa, que corajosa – zombou Elisabete, conduzindo a prisioneira para o rancho onde apanhou uma corda para amarrar as mãos de Tatiana. – Você vai ser a minha isca.

O sol estava aproximando-se de seu horário de maior incidência, mas as árvores o ocultavam à medida que as mulheres adentravam na floresta. O barulho do rio ficava mais audível e a mata parecia apinhada de olhares curiosos de pássaros e animais silvestres. Alguns metros adiante a estrada terminava na beira de um riacho raso.

- Atravesse! – ordenou Elisabete e Tatiana deu os primeiros passos dentro da água gelada, tentando equilibrar-se com as mãos amarradas.

Assim que chegaram à outra margem e subiram uma colina, avistaram duas retroescavadeiras que estavam inoperantes. Ao lado, uma construção precária abrigava alguns galões de combustível. O sol voltara a bilhar sem nenhum obstáculo na área devastada da vegetação nativa. Elisabete obrigou Tatiana a sentar-se do lado de fora do barracão e amarrou-a em uma pilastra.

- Está preparada para ser devorada pelos abutres, querida? Finalmente você vai sair do meu caminho.

- Tenha piedade, Elisabete. Eu imploro! – Tatiana começou a respirar sofregamente e gotas de suor formaram-se em suas têmporas.

- Piedade? – Elisabete riu. – Mas vamos ter ainda muito tempo para conversar. – Ela fez uma ligação no celular. – Olá, meu bem! Escute quem está aqui comigo... – Elisabete acocorou-se ao lado de Tatiana, pressionou a arma em seu pescoço e encostou o celular no rosto da garota. – Fale, sua imprestável!

Tatiana transpirava e mal podia engolir, pois o cano de metal feria sua garganta. Ela respirava irregularmente, mas se recusou a falar quando ouviu a voz de Paulo no aparelho.

- Fale! – Elisabete engatilhou a arma e pressionou-a contra o ventre de Tatiana. – Senão ele morre primeiro!

- Paulo – disse ela, com voz trêmula.

- Tatiana? – Do outro lado da linha, Paulo teve um sobressalto. – Tatiana, você está bem? Onde você está?

- Não sei – respondeu ela, enquanto continha o choro. – Paulo, desculpe...

Elisabete afastou-se dela e voltou a falar com Paulo.

- Viu? Agora acredita em mim?

- Elisabete, é a mim que você quer, não machuque a Tatiana – pediu ele, engolindo em seco.

- Pode deixar.

Elisabete aproximou o aparelho do revólver e disparou. Tatiana deixou escapar um grito estridente. Paulo ouviu o disparo e andou às cegas pela casa.

- Não! – gritou ele. – Elisabete, você não...

- Calma, querido. Esse foi só o começo. Ela ainda está viva.

- O que quer que eu faça? – Ele levou as mãos à cabeça tentando conter seu desespero.

- Venha buscá-la. Se demorar muito, pode chegar aqui e ter uma surpresa.

- Onde?

Ele rapidamente rabiscou as coordenadas em um pedaço de papel.

- Sem truques, Paulo. Venha sozinho, entendeu?

- Sim, mas deixe eu ouvir Tatiana mais uma vez.
Ela aproximou-se novamente de Tatiana, que gemia de dor.

- Satisfeito? – Em seguida, ela desligou o aparelho.

- Elisabete? Alô, Elisabete? Droga!

Paulo cobriu o rosto com as mãos e imediatamente fez uma ligação.

- Escute – falou ele ao telefone –, nós não temos mais tempo. A Elisabete sequestrou a Tatiana.

Paulo informou a direção para onde Elisabete havia levado Tatiana e desligou o aparelho. Em desespero, esfregou os olhos para conter as lágrimas, levantou os braços para o céu e orou. Depois que a esposa havia falecido, ele se revoltara contra Deus e praticamente abandonara sua fé. Sentindo culpa, responsabilizava o Criador pela solidão e dificuldades que vivia constantemente. Entretanto, naquele instante ele percebeu que Deus havia dado a ele uma nova chance quando conhecera Tatiana e pediu perdão por todos os seus erros. A comoção invadiu seu ser e, aliviado, Paulo chorou, pedindo ajuda para salvar a mulher que amava.  Em seguida, confiante e com nova coragem, saiu correndo para o lugar indicado.



Enquanto aguardava a chegada de Paulo, Elisabete rondava o lugar e torturava psicologicamente sua prisioneira, que ficava cada vez mais abalada e mais fraca devido ao ferimento na perna.

- Que romântico – dizia ela, ironicamente. – O seu herói virá salvá-la.

- Elisabete – Tatiana estava ofegante. – O que pretende?

- Você é muito curiosa e está me irritando. Aliás, você é insuportável. Mas não vou precisar olhar para você por muito tempo. Quando ele chegar, aí a família estará completa e eu poderei dar meus parabéns.

Ela bateu palmas devagar enquanto sorria, ironicamente. Depois colocou o revólver no cós da calça jeans e seguiu para o barracão. Arrastou um dos galões e deitou-o, enquanto olhava divertida para o líquido espalhando-se no chão. Ela rolou o tambor para perto de Tatiana, observando com divertimento o medo estampado no semblante dela.




CAPÍTULO 10 - PARTE I - DO OUTRO LADO DA LINHA



Na mesma noite, sentada à frente da escrivaninha em seu escritório, Elisabete analisava o papel em sua mão. Amassou-o com raiva e observou a expressão petulante no rosto de Augusto.

- Ela chegou na sua frente, querida.

No mesmo instante, ela ergueu-se da cadeira e derrubou todos os objetos de cima de sua mesa, inclusive o notebook, que se espatifou no chão.

- Aquela maldita! Eu preciso acabar com ela e com aquele bebê de uma vez por todas!

- Não é necessário – disse Augusto, calmamente. – Além de estar com uma incurável amnésia, Tatiana se demitiu do emprego e voltou a morar com os pais não muito longe daqui.

- Seu idiota, é claro que é necessário tomar uma atitude contra esta mulher! – esbravejou Elisabete, enquanto fumava um cigarro após o outro. – Não percebe que ela está fingindo?

- Acalme-se, o desespero não é bom conselheiro...

- Cale a sua boca ou eu mato você também! – ameaçou ela. – Eu preciso agir rapidamente antes que o Paulo fique sabendo sobre o bebê.

- O que pretende fazer?

- Eu vou matá-la, e desta vez, vou me certificar de que ela nunca mais vai atravessar o meu caminho.

- Elisabete, ela está esperando um filho... Você não vai ser insensível a ponto de... – falou ele, começando a ficar preocupado.

- Ela não tinha o direito, entendeu? – Elisabete àquela altura estava berrando, disposta a tudo.

- Pense melhor, Elisabete. A criança não tem culpa...

- E você acha que eu me importo com ela? Eu odeio a Tatiana e aquele bebê que ela espera. Vou dizer o que você deve fazer...

- Você não vai dizer coisa alguma – anunciou Augusto, levantando calmamente da cadeira. Ele apanhou sua valise, arrumou os punhos da camisa e fez menção de sair do escritório.

- Onde você pensa que vai? – perguntou ela, colérica.

- Não vou participar desse jogo sujo, não quando envolve uma criança que ainda nem nasceu.

- Não me faça acreditar que agora você é um homem de princípios. Ou acata minhas ordens ou vou arranjar outro advogado.

- Nesse caso, pode começar a procurar outro. Eu me demito.

Ele saiu do escritório e Elisabete seguiu-o.

- Escute, Augusto, você não disse que me ama? – Ela controlou-se, procurando seduzi-lo. Sabia que o tinha nas mãos. Então, passou os braços em volta de seu pescoço e beijou-o. – Se você me ama de verdade, vai me ajudar, não vai?

Ele olhou diretamente nos olhos dela.

- Se eu te ajudar desta vez, você me promete que vai esquecer o Paulo e ficar comigo? Elisabete, nós podemos ser tão felizes juntos.

- Claro que prometo! – mentiu ela. – Faço tudo o que você quiser. Sabe que o Paulo é um capricho meu. Depois que ele me satisfizer, vou mandá-lo para o olho da rua.

- Você ainda espera conseguir algo com ele, Elisabete? Está se iludindo com um projeto que jamais vai conquistar.

- Do que está falando? – Elisabete percebeu que Augusto ocultara uma informação valiosa e estava usando-a em seu favor.

- Querida, não tente me enganar – ele riu sonoramente, aguardando o momento de revelar seu trunfo. – Acha que em todos esses anos que me dedico exclusivamente a você, não tive a curiosidade de investigar sua vida?

- Pare com isso imediatamente! Você está blefando – ela saiu novamente de controle.

- Eu sei de tudo, inclusive sobre sua obsessão por Paulo – afirmou ele, retirando de sua valise uma encadernação. – Tome.

- O que é isso? – Ela arrancou o volume das mãos dele e folheou rapidamente as páginas, enquanto Augusto dominava a situação.

- Isso, minha querida, é um dossiê completo sobre sua vida. Contém fatos sobre sua infância e adolescência, relata a doença de seu pai e seu falecimento, ainda apresenta um relatório detalhado de como o advogado de seu pai foi morto após o envenenamento, e de como o caso foi abafado na justiça, além de toda a trama que você armou para cima do Paulo.

- Seu crápula! Isso tudo é uma mentira! – Ela atirou o dossiê no chão e ameaçou esbofetear Augusto.

- Não é mentira. Basta eu apresentar esse documento para as autoridades e você será condenada por homicídio.

- Espera que acreditem em um absurdo destes? Você é mesmo ingênuo e não tem provas. – Elisabete riu sem se intimidar com as acusações.

- Aí que você se engana. As provas existem e estão muito bem guardadas. Basta que você se precipite e elas aparecerão.

- Mais um blefe. Pare de me chantagear, doutor. Está se achando o máximo, não é mesmo? Mas vai ter o que merece.

- Não seja estúpida. Eu sou uma bomba-relógio.

- Espere. – Elisabete ficou séria de repente. Tentava articular uma armadilha e ainda não entendia o que ele queria de verdade. – Quanto quer para esquecer tudo?

- Não é uma questão financeira. Eu quero você.

- Esqueça. Eu podia matar você – ela falou, porém, cansada e derrotada, deu as costas para ele.

- E o que está esperando? – Ele abriu os braços. – Você possui uma arma e um silenciador. Acabe comigo agora, só que seu segredo não vai morrer comigo. Eu garanto.

- Ainda acho que você está blefando – insistiu ela, enquanto se virava para ele novamente.

- Quer arriscar?

Ela permaneceu em silêncio, enquanto vagava pela casa. Esperava ter uma grande ideia para enganar o trapaceiro advogado, silenciar Tatiana e obrigar Paulo a manter-se casado com ela. Entretanto, Augusto sempre cuidara da parte suja de seus planos e o que ela não poderia esperar era aquela traição repugnante.

Abalada com a confissão que deixara escapar a Paulo, Elisabete pensou em matá-lo também, pois ele representava tudo o que ela mais repudiava: caráter, senso de justiça, escrúpulos, honestidade e a fidelidade inabalável a seus princípios éticos e moralistas. Para ela a vida não passava de um jogo, em que vence o mais astuto, aquele que não se prende a regra alguma. Desde criança ela aprendera a valorizar o dinheiro em lugar dos sentimentos. Percebera que um ser humano não é nada sem status, que sua mísera vida só ganha proporções à custa do sofrimento alheio. Porém, toda essa concepção se mostrou inoportuna ao comparar forças com aquele homem que no primeiro momento pareceu perfeito.

A lembrança do último encontro com Paulo chegou a aquecer novamente seu sangue. Ela cerrou o punho ao imaginá-lo fazendo amor com Tatiana, a seu modo de ver, uma mulher de poucos atributos. Não tinha mais o que fazer e ela estava decidida a acabar com todos eles, até mesmo com Augusto, pois faria com que revelasse o nome da pessoa que estava acobertando toda sua chantagem.

Ao final do que parecia ter passado uma eternidade, ela reagiu, esbravejando contra todos aqueles que decidiram estragar seus planos, principalmente com Paulo por todas as vezes que a rejeitara. Ela jamais admitira tal atitude e não compreendia seus motivos.

Augusto, que ouvira os desabafos dela em silêncio, aproximou-se com cautela e tocou em seus ombros.

- Elisabete... – sussurrou ele. – Você está infeliz e tudo isso é culpa daquele ignorante que você escolheu para casar.

Ela não o repeliu e manteve-se em silêncio, observando-o como se fosse capaz de sentir algo por ele. Mas admitiu para si mesma que ele estava certo, pois se sentia muito infeliz e negligenciada.

- Augusto, me ajude... – pediu ela, sem desviar seus olhos dos dele.

- Sim, querida, acalme-se. Vai dar tudo certo.

Ele acariciou-a lentamente no rosto e beijou os lábios, que a princípio mostraram não aceitar a iniciativa. Entretanto, mais algumas carícias fizeram-na ceder e eles consumaram o ato sexual de um modo totalmente desprovido de emoção, principalmente da parte de Elisabete, que deixou seu corpo a mercê dos prazeres mundanos e nada mais. Augusto, por sua vez, procurou satisfazê-la, pois sabia que era disso que ela precisava, do prazer apenas, não do amor que sentia por ela. E constatou essa verdade ao fim do ato quando ela se afastou dele após satisfazer seu ego terrivelmente ferido pelas rejeições.

- Suma daqui agora! – ordenou ela, arrependida, mas sem se alterar, enleando-se no lençol e saltando da cama.

- Eu irei, mas antes quero dizer que te amo, te amo muito e faço tudo por você. Eu te quero...

- Sai, sai! – continuou ela, rispidamente. – Amanhã você me contará tudo, mas no momento não estou suportando olhar para sua cara.

- Cuidado, querida... – alertou ele em tom sarcástico, enquanto vestia as calças e tentava disfarçar a mágoa. – Lembre-se de tudo o que falamos.

- Sai! – ela gritou, atirando nele os sapatos. Ele defendeu-se dos ataques, apanhou os sapatos e o restante de seus pertences e seguiu para a porta de saída, mas antes ameaçou:

- Cuidado para não se arrepender, Elisabete – e fechou a porta antes de ser atingido pelo abajur que se espatifou no chão.

- Vamos ver quem é que vai se arrepender aqui, seu idiota – disse ela, deixando escapar uma gargalhada demente que ficou ecoando na casa vazia.

Do lado de fora da casa, Augusto podia ouvir perfeitamente a gargalhada de escárnio da mulher que cegamente teimava em amar. Humilhado e ao mesmo tempo revoltado, ele sentou-se à direção do veículo e digitou alguns números em seu celular.

- Pode dar continuidade ao plano – falou ele com a pessoa do outro lado. Após desligar ele sorriu, falando para si mesmo: – Ah, Elisabete, você ainda vai ser minha. – Em seguida, girou a chave na ignição e foi embora.

Não muito longe dali, um homem desligou o aparelho de celular e oculto pelas sombras da noite, arrombou um armário digital, prosseguindo com algumas alterações nas linhas telefônicas. Em seguida, o sujeito apanhou o badisco, uma espécie de telefone fixo-portátil, e fez uma ligação clandestina.

O telefone tocou e Elisabete saiu do banho para atender. Ao mesmo tempo, no centro de Pirabeiraba, o telefone da delegacia de polícia soou. Um policial de plantão atendeu, mas não estava com a menor disposição para trotes e usou de xingamentos vulgares que o sujeito misterioso ouvia.

- Alô!

Ao perceber que Elisabete atendera sua chamada, ele cruzou as linhas e começou a falar com ela:

- Assassina...

- O quê? Quem está falando?

- Olá, Elisabete, pensou que ninguém iria descobrir seus crimes, não é mesmo? Seu erro é confiar demais em si mesma.

- Já ouvi isto esta noite. Você é o informante de Augusto, está claro. Não adianta me ameaçar. Ninguém vai acreditar nesta história.

- Você é uma assassina! Tentou estrangular Tatiana e eu tenho as provas aqui comigo.

- Como assim? Que provas? – O homem sentiu uma insegurança na voz da mulher que há instantes parecia totalmente controlada. – Você está mentindo. Pare com isso ou acabo de uma vez com sua raça maldita! Alô! Alô!

Enquanto isso, o policial que acompanhava atentamente a conversa, se apressou em anotar o número do telefone no identificador de chamadas. Rapidamente consultou o sistema para verificar o endereço, ao passo que gravava as ameaças de Elisabete.

- Você vai se arrepender por se meter comigo! Acabo com você e com aquela maldita criança!

Ela bateu o telefone e o policial redigiu um relatório.

- É, moça – falou ele consigo mesmo, imaginando uma decolada na própria carreira –, não sei como isso aconteceu, mas você se meteu numa cilada.

O homem no armário digital ouviu tudo e reativou as linhas. Na sequência, fez uma ligação no celular.

- Tudo correu conforme o combinado – anunciou, desligando em seguida.





Assim que a delegada entrou no prédio na manhã seguinte, o policial foi ao seu encontro e, no caminho, relatou o que ocorrera.

- Escute isso, Rosana – pediu ele, ligando o gravador após chegar ao departamento.

- Esta é mais uma de suas brincadeiras, Luiz? Onde conseguiu esta fita? – perguntou ela, recostando-se na cadeira.

- Não sei como aconteceu, Rosana, mas parece que alguém cruzou as linhas de propósito para nos alertar.

- E quem é Elisabete? E Tatiana? E Augusto? Investigou esses relatos?

- Sim, e descobri que o telefone pertence à Elisabete Schroeder, a mesma que causou aquele escândalo porque um instalador de linhas telefônicas teria abusado dela sexualmente.

- Sim, eu lembro do caso, mas e daí? O que uma coisa tem a ver com a outra?

- O delegado que trabalhava neste local não abriu ficha criminal, mesmo após duas acusações da tal da Elisabete.

- Continue.

- Mais tarde, ela retirou as acusações e se casou com o instalador. Não parece estranho?

- Isso está me cheirando a suborno.

- E tem mais: a Tatiana trabalhava na mesma empresa que o Paulo, o marido de Elisabete. Não consegui apurar qual era a ligação deles, mas os registros do cartório indicam que ela iria se casar com ele. E, de repente, a noiva passou a ser a Elisabete. Mais tarde, a Tatiana sofreu estrangulamento, mas sobreviveu e recebeu alta há dois dias.

- E ela prestou depoimento sobre quem tentou assassiná-la?

- Não, ela não registrou nenhum boletim de ocorrência. Parece que perdeu a memória.

- A pessoa que está acusando Elisabete disse que tinha provas. É possível que Tatiana tenha revelado o nome do criminoso para alguma pessoa que esteja chantageando Elisabete em troca de dinheiro – deduziu Rosana, levantando-se de imediato. – Luiz, redija uma ordem de prisão e me encontre na viatura. Temos obrigação de evitar uma tragédia.

- Imediatamente, chefe!

Luiz saiu rapidamente da sala para providenciar os documentos e dentro de instantes já seguia para a viatura onde Rosana o aguardava. Assim que embarcou, ligaram a sirene e partiram.

Elisabete passara a noite em claro, elaborando uma vingança. O telefonema deixara-a ainda mais nervosa e ela decidiu pôr seu plano em execução. Assim que decidiu o que faria, caminhou até a cômoda, abriu uma gaveta e retirou uma arma de dentro de uma caixa. Desta vez queria se certificar de que nem Tatiana nem Paulo sobreviveriam. E Augusto seria o próximo. Guardou o revólver dentro da bolsa e saiu de automóvel.

Assim que o veículo saiu da Rua João Fleith e trafegou na SC 301, passou por uma viatura da polícia civil que seguia velozmente com a sirene ligada. Pelo retrovisor, Elisabete verificou que a viatura atravessava a ponte e seguia pela esquerda na direção de sua casa.

- Já imaginava isso – falou Elisabete, acelerando o automóvel.





Tatiana apreciava a manhã ensolarada de outono enquanto deixava o pensamento voar. Ela estava encostada no tronco da árvore onde seu filho fora gerado, redigindo um novo romance, quando uma folha caiu sobre o caderno, tirando sua concentração. Ela apanhou a folha verde com cuidado e rodopiou-a nos dedos, imaginando o momento mágico em que finalmente estaria com seu filho nos braços. “Meu filho, vou poder contar a você que homem maravilhoso era seu pai”, pensava ela, sentindo-se infeliz por não poder contar com a presença de Paulo. “Vai ter que se contentar com duas tias bajuladoras, um avô e uma avó corujas e uma mãe ainda mais orgulhosa”, falava ela, acariciando seu ventre e acostumando-se à ideia de que dentro em breve seria mãe.

Voltou então a se concentrar em sua história, que nada mais era que o relato de sua própria vida, mas, oposto à vida real, o casal que se amava viveria feliz para sempre com o filho que estava por nascer.

Após reler o penúltimo capítulo, Tatiana se levantou e se espreguiçou e um arrepio percorreu seu corpo que se contorceu em um espasmo. Ela procurou ignorar o súbito pressentimento, mas seu coração acelerara. Ela não costumava ouvir seu coração, pois julgava que o coração não fosse capaz de definir alguma coisa, só que ele gritava “perigo!” e ela começou a ficar assustada.

- A maternidade deve estar afetando meus nervos – deduziu ela. – É melhor eu voltar para casa.

Ela fechou seu caderno e abaixou-se para apanhar a caneta que caíra no chão. Assim, sentiu uma trepidação proveniente da estrada e levantou-se para tentar ver o veículo em meio à vegetação. O som aproximou-se e ela fixou o olhar em uma clareira que dava para a estrada. Quando o veículo passou, imediatamente ela desejou gritar, mas sufocara. Ela largou o caderno na relva e saiu correndo pelo mato, desesperada por chegar em casa e avisar sua família.

Enquanto isso, a brisa brincava com as páginas do caderno, que ficou caído sobre o tapete de folhas secas, à espera da conclusão da narrativa...


CAPÍTULO 9 - PARTE II - VERDADES


   - E isso é tudo – Luíza finalizou sua narrativa e observou enquanto Valéria tomava um gole de água. Paloma e Natália mantiveram-se em silêncio, aguardando uma reação mais significativa por parte de Valéria. Esta, porém, recostou-se na cadeira e olhou em torno da sala de reuniões. Seu olhar percorreu o ambiente e voltou-se para os rostos das garotas.

   - E eu que pensava que ele fosse um canalha – manifestou-se finalmente. – Por que não me contaram isso desde o começo?

   - Nós não podíamos contar a ninguém antes do casamento de Tatiana com Paulo, porque havia o risco de Elisabete descobrir tudo – explicou Paloma.

   - Só que descobriu do mesmo jeito. – Valéria, por um momento, pareceu decepcionada com o fato de não terem confiado nela. – Eu acreditei que a Tatiana estava se casando de verdade. Fui enganada, eu e o resto do planeta.

   - Valéria, se isso serve de consolo, a Tatiana não chegou a contar nem para os pais – argumentou Natália.

   - Nem eu, nem a Paloma nem a Natália tivemos culpa de termos sido envolvidas, não acha? – perguntou Luíza.

Valéria não respondeu imediatamente e pareceu refletir por um momento. Depois de alguns minutos, suas palavras serviram para suavizar o clima que pairava sobre elas:

   - Vocês agiram com o coração e foram leais e isso é admirável. Tatiana pode se orgulhar de vocês.

 - Quer dizer que não está mais zangada? – sorriu Natália, a mais nova da equipe.

 - Claro que não. Vocês são as minhas garotas e eu fico feliz por tê-las trabalhando comigo – respondeu Valéria, sorrindo. As três levantaram-se e abraçaram Valéria ao mesmo tempo, voltando a fazer bagunça.

- Que bom que você entendeu – desabafou Luíza.

- Essa é a nossa Negona! – comemorou Paloma, com o apelido carinhoso pelo qual a chamavam.

- Muito bem, garotas, vocês já viram que horas são? – alertou Valéria.

- Nossa! Tá super tarde! – exclamou Natália. Deixa eu ir, tchau, gente.

Natália saiu primeiro da sala de reuniões e Valéria pediu para Luíza e Paloma aguardarem.

O que foi, Valéria?

- Tem uma coisa que eu não entendi.

- E o que foi? – Paloma ficou intrigada.

- Se a Elisabete já tinha se casado com o Paulo, porque haveria o interesse de matar Tatiana?

- Ah, Valéria... – as garotas entreolharam-se, buscando a resposta. – Isso é apenas uma suspeita – alegou Luíza.

- Sim, a única que poderia falar a respeito é a própria Tatiana, mas sofreu amnésia após o acidente, como você sabe - lembrou Paloma.

- E além disso, ela deve ter bloqueado. Imagine, Valéria, sofrer um ataque assim, do nada, acho justo ela não lembrar ou não querer reviver o trauma.

- É verdade – aceitou Valéria. – Ela está traumatizada e não é pra menos. Obrigada, garotas, obrigada por me contarem.

Luíza e Paloma despediram-se e voltaram ao setor para apanharem suas bolsas. Assim que saíram do prédio, Luíza perguntou:

A polícia vai nos chamar pra depor. Você acha que devemos revelar nossas suspeitas?

- Acho difícil que a polícia investigue por conta própria, porque a Tatiana não registrou queixa, mas se acontecer, não pretendo me envolver.

- Mas, Paloma... – Luíza se surpreendeu com a decisão dela.

- A Valéria tem razão, Luíza. O Paulo agora está casado e a Tatiana não oferece riscos para a Elisabete.

- Mas a Tatiana pode se lembrar do que aconteceu com ela.

- Fala sério, Luíza. Você acha que ela vai querer denunciar a Elisabete? Claro que ela vai querer se proteger.

- Paloma, você está dizendo que ela fingiu a amnésia?

- Não estou dizendo nada. Agora, é melhor esquecermos isso tudo.

- É fácil pra você falar, o problema é deitar a cabeça no travesseiro e dormir tranquila sem imaginar que vai acontecer uma tragédia.

- Agora você está viajando igual à Tatiana. Deixa eu ir embora. Essa mania de viagem pode ser contagiosa.

    Paloma beijou o rosto da amiga e atravessou a rua. Luíza observou o prédio e um arrepio percorreu seu corpo quando lembrou da tragédia que ali acontecera. Refletiu sobre o comentário da amiga e concordou com ela, pois a imaginação exagerada parecia mesmo uma mania causadora de grandes transtornos. Mesmo assim, seguiu seu caminho, apesar da apreensão acompanhá-la continuamente.


CAPÍTULO 9 - PARTE I - O SEGREDO

Pela primeira vez em semanas, Paulo pôde dormir satisfeito consigo mesmo. Tomara uma atitude digna e lamentou que demorasse tanto para chegar a tal decisão. Finalmente, Elisabete estava fora de sua vida.

Apesar da sensação de vitória, ele despertou na manhã seguinte com um gosto amargo na boca. Lavou o rosto e olhou no espelho o que sobrara do homem que ganhara a liberdade afastando sua rival e que perdera a mulher que amava, tudo no mesmo dia. Ele sentia-se velho, entorpecido pelos problemas, perdera o brilho nos olhos que era tão comum em sua juventude. Pensou em Tatiana e viu uma lágrima deslizar pela face de sua imagem no espelho. Limpou a gotícula com as costas da mão e foi até a sala onde acendeu um cigarro e sentiu a fumaça penetrando em seus pulmões. Olhou em torno e viu o violão apoiado em um canto. Imediatamente lembrou o dia em que conheceu Evelin. Ela agora era somente uma lembrança, mas lhe fazia falta. Paulo observava mentalmente Evelin e Tatiana, sendo-lhe impossível definir qual delas mais amava. Apagou o cigarro no cinzeiro, apanhou o violão e começou a dedilhar uma melodia. Fazia anos que não tocava. As primeiras notas pareceram-lhe desafinadas e grotescas, mas pacientemente ele conseguiu tocar uma música que cantava junto com Evelin nos cultos de louvor de sua pequena comunidade.

Após cantar, Paulo devolveu cuidadosamente o instrumento ao lugar e ergueu a face para o alto, fazendo uma prece para Evelin. Uma brisa suave soprou em seguida e ele preparou-se para ir para o trabalho e recomeçar sua vida.

Quando chegou na empresa e antes que pegasse seu veículo, seu supervisor chamou-o e com total falta de diplomacia informou que Paulo havia deixado ordens de serviço vencerem, o que prejudicou os indicadores, e por aquela razão estava sendo desligado da Integração. A última obrigação a ser cumprida era passar na sala do coordenador para assinar a rescisão de contrato.

Novamente Paulo sentiu seu mundo ruir. Lembrara-se como Elisabete havia sujado seu nome, mas desta vez não poderia culpá-la e, cabisbaixo, encaminhou-se para a sala do coordenador. Quando se preparava para tocar na maçaneta, a porta se abriu.

Tatiana?!

- Paulo?!

- Está de saída? – Ele observou a bolsa que ela levava pendurada no ombro.

- Eu... acabei de me demitir – respondeu ela, sem conseguir olhar nos olhos dele. – E você?

- Eu estou sendo desligado. Deixei ordens de serviço vencerem.

- Não era para menos, depois de toda essa confusão... – disse ela. – E como você se sente?

- Um perdedor. – Ela olhou rapidamente para ele, mas desviou novamente o olhar. – Mas por que está saindo? – ele quis saber.

- Eu preciso reaprender tudo, Paulo. Além disso, a amnésia provocou um desequilíbrio emocional difícil de ser revertido e eu estou voltando para o campo.

- Lembrou de seus pais? – indagou ele, surpreso.

- Algumas coisas, o suficiente para eu encontrá-los – ela estava nervosa e inquieta e ele percebeu isso. – Eu preciso ir – ela tentou sorrir.

- Tatiana – chamou ele antes que ela sumisse no corredor.

- Que foi? – ela engoliu em seco.

- Eu não estou mais na casa de Elisabete. Agora tenho armas para lutar de igual para igual com ela. E eu te amo. Você vai deixar saudades. Tem certeza de que não posso ter mais uma chance?

- Já falamos sobre isso – respondeu ela, tentando ser forte.

- Eu perdi você pra sempre?

- Você vai ficar bem. Adeus.

Paulo acompanhou seus últimos passos até ela desaparecer na escadaria. Abaixou a cabeça, desconsolado, e entrou na sala do supervisor.

Quando Tatiana desceu as escadas, ela sentia o peito comprimido e só pensou em fugir. Saiu da empresa, embarcou na bicicleta e pedalou o mais depressa que podia, sentindo o vento secar suas lágrimas, grudando-as na face. Paulo perdera até mesmo o emprego e ela estava tirando dele a chance de ser feliz.  Enquanto pedalava sem destino, ela avistou o parque em que Paulo havia confiado suas aflições. Ela parou a bicicleta e sentou-se no banco, observando as crianças brincarem, mas com a mente e o coração condenando-a pela atitude de fazê-lo sofrer. Tatiana recobrara a memória pouco a pouco e demorou algum tempo até que conseguiu organizar seus pensamentos. A primeira abertura de seu passado deu-se quando ela estava saindo do hospital. Quando Paulo mencionou que eles haviam se amado, então, como um flash, ela lembrou dos momentos em que eles declararam seu amor. Dessa forma, o mapeamento de sua memória recebera um ponto de partida. E a conversa que tivera com Natália pouco antes de tomar a decisão de se demitir foi decisiva para Tatiana lembrar de tudo o que ocorrera. Após a reunião dos fatos, ela começou a sentir medo pela vida de Paulo e continuou fingindo amnésia para protegê-lo.

Apesar da decisão que tomara de ocultar a verdade, Tatiana ficou com o coração dividido após receber a comprovação de uma suspeita, que também ajudou na recuperação de suas lembranças. Ela abriu a bolsa e retirou o resultado de um exame médico. Lágrimas afloraram-lhe aos olhos e ela sentiu-se desamparada e solitária. Por outro lado, seu coração dizia-lhe para que ficasse feliz, porque recebera de Paulo o presente maravilhoso que era o filho que crescia em seu ventre. O pensamento trouxe um sorriso aos seus lábios e ela acariciou a barriga, dizendo:

Meu bebê, está na hora de dar a boa notícia aos seus avós.

    Então ela foi para casa e depois de algumas horas já estava em um ônibus com destino ao seu refúgio.




CAPÍTULO 8 - PARTE II - A CONFISSÃO

Paulo chegou em casa após ter rodado muito. Quase se envolvera em um acidente por estar dirigindo perigosamente e ganhara uma multa por excesso de velocidade. Desembarcou do carro e chutou o pneu com raiva tantas vezes até sentir dor no pé. Diante do olhar confuso e embaçado por causa das lágrimas, Paulo observou os cômodos acesos da casa de Elisabete e finalmente tomara uma decisão digna de um homem. Deixou a chave do veículo na ignição e caminhou resoluto para o quarto. Dentro de minutos, ele apanhou as coisas dele dentro de uma mala, certificou-se de não haver ninguém o observando e abandonou o local.

Já passava da uma hora da madrugada enquanto ele caminhava pela rua deserta e escura quando os faróis de um veículo projetaram sua sombra mais adiante e logo o mesmo veículo parou ao seu lado.

Quer uma carona?

- Não.

Paulo ignorou o sorriso de Elisabete e continuou caminhando. Ela desceu do automóvel e insistiu:

Não vim atrás de você para levá-lo de volta, Paulo.

- Então para que veio? – perguntou ele, parando e virando-se na direção dela.

- Para levá-lo para onde desejar. Venha. Sei que está voltando para sua casa e o caminho é longo.

Ele pensou um instante e resolveu aceitar a oferta. Mas sabia que havia algo por trás daquela atitude. Embarcou no lado do passageiro, mas nem olhou para ela.

Sabe, Paulo, eu não me dou por vencida facilmente, mas quando é inevitável, sei aceitar a derrota.

- Por que está dizendo isso? – ele olhou mais atentamente para ela, que dirigia muito calma.

- Nosso começo foi uma catástrofe porque eu vi em você um desafio e quis me divertir e provar que mais uma vez sou a melhor.

Elisabete olhava para ele com ternura quando podia desviar rapidamente os olhos da estrada. Aquela conversa começou a deixá-lo intrigado.

Mas eu brinquei com fogo e acabei me queimando. Estou apaixonada de verdade. Nunca senti isso antes na minha vida, Paulo, e me arrependo de fazer você sofrer como sofreu. Eu estou disposta a fazer qualquer coisa para compensá-lo das lamentáveis situações que eu criei.

- Não estou entendendo, Elisabete – Paulo remexeu-se no banco, preparando-se para mais uma tramóia dela.

- Eu amo você, mas não quero que fique preso a mim por obrigação. Já providenciei o cancelamento do contrato de casamento.

- Você o quê?

Elisabete estacionou o Scenic na frente da casa dele e desligou o motor.

Não é isso que você sempre quis? – falou ela, demonstrando surpresa.

- Sim, mas... Como mudou de ideia?

- Não sei, acho que o amor por você me transformou. Já não sou mais a mesma pessoa. Eu quero que você seja feliz com a Tatiana.

Paulo não acreditou no absurdo que estava ouvindo, porque as pessoas, principalmente Elisabete, não mudam de opinião de uma hora para outra. Ocorreu-lhe que ela não queria que ele a processasse como havia ameaçado. Talvez ela não quisesse sujar sua reputação.

Não tenho nada com a Tatiana – revelou ele, com cautela.

- Paulo, não precisa mentir, eu sei de tudo.

- Então imagino que saiba que ela me deu o fora – falou ele, ressentido.

- Ela fez isso? – Elisabete demonstrou incompreensão, mas sorriu intimamente. Mais uma vez saíra vitoriosa. Da primeira vez, não conseguira nocautear Tatiana, que sobrevivera por milagre. – Ela está confusa, você deve entender.

- Não, é pra valer.

- Quer conversar? Eu sou boa ouvinte. Prometo que não falo nada. Eu tenho certeza que posso consolá-lo.

Elisabete apagou a luz de teto do automóvel e aproximou-se dele, fazendo carícias que ele não reprovou.

Que tal entramos? – sugeriu ele.

Eles entraram na casa e Paulo agarrou Elisabete, beijando-a com urgência. Levou-a até o quarto e atirou-a contra a cama, deitando-se em cima dela e beijando cada parte de seu corpo. Elisabete sorriu, satisfeita com a vitória. A partir daquele momento, nada mais poderia aplacar a fúria dele. Enquanto sentia o sabor das carícias que ele fazia, ela ouviu-o sussurrar, mas não entendeu.

O que você disse, meu amor?

- Que eu perdi muito tempo pensando em uma mulher que não me merecia enquanto eu tinha uma mulher maravilhosa como você.

- Não precisa lembrar disso, meu querido, apenas me faça feliz...

Ele abriu a blusa dela e levantou a saia, enquanto ela gemia de ansiedade. Estava tudo certo como ela planejara e ela não cabia em si de contentamento. Ele tirou a camisa e continuou a beijá-la no pescoço, sussurrando, quando falou:

Você é muito melhor nisso do que matando. Para assassina você foi um fracasso.

- Você tem razão. Eu errei quando confiei demais em mim mesma e não fiquei para ter certeza do resultado. Mas como sabe que fui eu? – perguntou ela, quase inocente, jogando o jogo dele.

- Você acabou de confessar.

Dizendo isso, ele levantou-se, rindo zombeteiramente. Elisabete ficou enfurecida por ter caído na armadilha dele e levantou da cama atirando nele um objeto que apanhou na mesa de cabeceira.

Fora daqui, Elisabete! Minha casa não tem lugar para uma assassina.

- Não admito isso, ouviu? Exijo que você termine o que começou!

- Por quê? Vai tentar me matar também? – ele riu, sarcástico.

- Seu... seu nojento! Como é possível que você chegue até esse ponto e pare?

- Eu sou eu – respondeu ele. – Não sou qualquer homem que você coloca na sua cama.

Ela deu uma bofetada no rosto dele, mas Paulo não se moveu do lugar.

Você está querendo me convencer de que é íntegro – retrucou ela, recuperando o controle da situação. – De que é um homem fiel, leal, cheio de princípios e escrúpulos. Mas quero lhe avisar uma coisa – ela deu uma gargalhada que ecoou na casa silenciosa. – Um homem assim não existe!

- Engano seu, Elisabete – desta vez foi ele que riu. – Esse homem existe. Agora, saia daqui antes que eu tenha que usar métodos não muito sutis para te expulsar.

Elisabete parou diante dele com o olhar fulminando de ódio.

Você não tem como provar nada, meu bem – falou sarcástica.

- Fora!

Quando ela finalmente saiu, Paulo começou a rir e repetiu:

Ah, Elisabete, esse homem existe, não se esqueça disso.