Minha foto
Joinville, Santa Catarina, Brazil

CAPÍTULO 3 - PARTE II - REVIVENDO O PASSADO

Eram 20h e Paulo chegou finalmente em sua residência. Retirou o uniforme e foi para o banho. Após, abriu uma garrafa de cerveja e bebeu o primeiro copo em apenas um gole. Em seguida, colocou um peito de frango para cozinhar.

- Uma lasanha vai cair muito bem hoje – disse ele.

Enquanto cozinhava, Paulo recordava que este era o prato predileto de sua esposa Evelin. Assim, ele voltou ao passado.






Ele era o responsável pelos ensaios musicais do grupo de jovens de uma comunidade evangélica. Tocava violão e cantava. Conhecera Evelin quando ela começou a participar do coral. Desde o princípio, admirou seu carisma, porque ela possuía o poder de cativar as pessoas com sua voz doce e melodiosa. Ela não era a garota mais bonita ou a mais popular, mas marcava presença onde quer que fosse. As crianças da catequese adoravam-na, os amigos sempre procuravam-na para ouvir as palavras de consolo que era capaz de dizer, os adultos frequentavam as tardes de louvor para ouvi-la cantar, onde ela doava toda sua alma. E a admiração desenvolveu um sentimento mais forte que Paulo já não conseguia esconder.

Certo dia, em uma pausa dos ensaios, Paulo tomou coragem e decidiu abrir seu coração. Estavam sozinhos na sala e ele aproveitou a oportunidade:

- Eu tenho uma coisa muito importante para dizer, Evelin.

- E o que é? – perguntou ela, curiosa.

- É que eu te amo...

- Eu sei – interrompeu ela, sorrindo com doçura e surpreendendo-o. – Eu também te amo porque você é meu irmão.

Ele teve a intenção de explicar que ela estava enganada, mas perdeu a chance, porque o Pastor entrou naquele instante para acompanhar o ensaio. Paulo julgou que Evelin não deu importância a sua declaração e sentiu-se muito magoado.

Apesar disso, houve uma chance para ele declarar-se de verdade por ocasião de um retiro em uma propriedade rural. Após as orações e os cantos, os jovens aproveitaram para tomar banho no rio. Naquele instante em que todos se divertiam, Evelin afastou-se e ficou perdida em seus próprios pensamentos. Paulo observou que ela estava quieta, o que não era de seu costume, e apanhou uma flor silvestre para ir ao seu encontro.

- Uma flor para outra flor – comentou ele, estendendo para ela o presente e sentando-se ao lado dela.

- Obrigada, você é muito gentil.

- Gentil? É isso que você pensa que sou? Só isso? – Ela, confusa, apenas movimentou a cabeça para confirmar. – Acho que você nunca percebeu nada, não é? – Evelin não respondeu e desviou os olhos para a flor em sua mão. Ele tentou outra vez. – Por que você está aqui, triste e isolada dos outros?

- Porque nesse momento acabei sentindo uma solidão muito grande. Eu sei que não devo reclamar, porque Papai do Céu está sempre fazendo companhia pra gente.

- Mas você não está só.

Paulo segurou a mão dela e os olhos de ambos permaneceram fixos durante um longo minuto. De repente, uma lágrima desceu pelo rosto dela.

- Paulo, você está falando sério?

- Pensei que tivesse compreendido naquele dia que falei que te amava.

- É que eu achei que poderia ser uma brincadeira sua e não quis me iludir, porque já te amava.

- Eu jamais pensaria em te enganar, Evelin. Te amo, te amo e é isso aí – falou ele, subitamente nervoso.

Ela deu um beijo no rosto dele e Paulo abraçou-a. O tempo passou e eles resolveram se casar. Todos os amigos do grupo foram convidados. Na cerimônia, Evelin cantou para Paulo, surpreendendo-o com sua declaração de amor. Viveram quatro anos muito felizes. Ele formou-se em telecomunicações e começou a trabalhar em uma empresa do ramo como técnico em instalações telefônicas. Evelin formara-se em pedagogia e trabalhava em uma instituição pré-escolar.

Eles amavam-se muito, eram amigos inseparáveis e gozavam de uma vida plena de felicidade. Como tudo estava correndo bem, decidiram ter um filho. Evelin, então, fez diversos exames e descobriu que não podia engravidar. Aquele resultado apagou sua alegria e vontade de viver. Ela tornara-se depressiva e seu trabalho trazia-lhe ainda mais sofrimento.

Paulo jamais cobrou dela o filho que eles gostariam de ter, mas mesmo assim, ela não aceitou a idéia de que jamais poderia ser mãe. Assim, abandonou seu trabalho, começou a sofrer crises nervosas que terminavam no pronto-socorro sem causa aparente, tinha sintomas de gravidez e, ao contrário do que os médicos afirmavam, acreditava que conseguiria conceber o filho tão desejado. Cada sintoma fazia com que ela imediatamente realizasse o teste de gravidez e a cada vez que o resultado era negativo, Evelin isolava-se para remoer sua mágoa.

Paulo tentou de todas as formas suprir as necessidades dela, desdobrando-se em atenção e carinho. Chegou a sugerir a adoção, o que ela repudiava sempre que se tocava no assunto.

- Meu bem, tem tanta criança precisando de pai e mãe – argumentou ele, enquanto afagava os cabelos dela. – Pense bem, será que não é isso que Deus espera de nós?

Evelin, entretanto, mudava de assunto ou se fechava em seu sofrimento. Com frequência ela telefonava para Paulo, pedindo ajuda porque se sentia mal, e ele, sem hesitar, voltava para casa para consolá-la.

Um dia, ele foi designado para cobrir a rota de outro instalador além da própria rota e não deu atenção quando a esposa ligou em seu celular.

- Evelin, se controla que eu já estou chegando.

Passava das 15 horas quando ela ligou, mas ele estava atarefado demais para atendê-la naquele momento. Voltou para casa somente depois das 19 horas quando finalmente conseguira vencer todo o trabalho.

- Amor, cheguei!

Normalmente ela vinha ao seu encontro para abraçá-lo e beijá-lo. Entretanto, não aparecera. Paulo sentiu uma súbita preocupação e chamou-a de novo, procurando-a por todos os cômodos da casa. Finalmente, encontrou-a no quarto, desmaiada sobre a cama, com os olhos abertos e a pele arroxeada.

- Evelin! Sou eu, me responde!

Ele sentou-se na cama e puxou-a para o colo. Evelin ainda sussurrou que o amava antes de perder completamente os sentidos. Ele abraçou seu corpo frio e quase sem vida e chorou. Retirou o celular do cinto e chamou uma ambulância, que pareceu levar horas para chegar. Os socorristas levaram-na com vida até o hospital, onde ela faleceu assim que chegou. A causa da morte havia sido intoxicação devido a superdosagem de calmantes, mas Paulo sabia que a depressão havia sido responsável por sua morte, pois Evelin desistira de lutar pela vida quando ele, a única pessoa que estivera sempre presente, se negou a ir vê-la.




Paulo voltou de sua viagem ao passado e por um momento o aroma saboroso do refogado de frango provocou-lhe náuseas. Sorveu o último gole de cerveja e engoliu com dificuldade. Emoções conflitantes como saudade e culpa tiraram seu apetite e ele desligou o fogo, indo se deitar, embora soubesse que passaria mais uma noite em claro.


CAPÍTULO 3 - PARTE I - A CHAMADA AO 0800

Paloma e Luíza haviam ido ao refeitório para uma pausa e Natália tirara a manhã de folga, portanto Tatiana ficara sozinha no departamento. O fone da central de atendimento ao cliente que ficava em sua sala tocou e ela logo atendeu. Ela trivialmente disse o nome da empresa seguido do cumprimento e o cliente perguntou-lhe:

- Tá falando da empresa que instala telefone na casa da gente?

- Sim – respondeu Tatiana, já impaciente. – O que o senhor deseja?

Após entender que o cliente desejava saber qual o prazo para a instalação de sua linha telefônica, ela solicitou o número do CPF para fazer a busca no sistema de informação e descobriu que a ordem de serviço daquele assinante havia entrado na pendência por endereço não localizado e a próxima tentativa de instalação fora agendada após dois meses. Tatiana voltou a falar com o assinante para confirmar o endereço, cadastrar um ponto de referência e explicar sobre o prazo. O assinante ficara irritado e afirmou que sua residência era perfeitamente localizável.

- Escute, senhor, vou fazer o possível para que seu telefone seja instalado o mais depressa possível, mas não posso prometer uma data específica, porque vai depender da fila de serviços.

O assinante pareceu mais tranquilo e satisfeito com o comprometimento, porém, ameaçou procurar o serviço de defesa do consumidor caso o telefone não fosse instalado dentro de uma semana. 

- Ai, ninguém merece – resmungou ela, providenciando urgência para a O.S.

Paloma e Luíza chegaram naquele instante e logo perceberam o nervosismo de Tatiana.

- O que aconteceu, Tati?

- Ah, o 0800 me estressou.

- Mentira – disse Luíza em tom de brincadeira. – Você já veio estressada hoje. O que viu no final de semana para ficar desse jeito?

- Se eu estou de mau humor hoje é tudo culpa daquelas duas jarras de vinho...

- Vinho, é? – chateou Paloma. – Sei...

Paloma entregou em seguida uma ASLA para Tatiana devolver para o instalador, porque faltou parentesco da pessoa que assinou. Ela não gostou ao verificar que se tratava de uma ASLA de Paulo.

- Não vou falar com aquele grosso agora – decidiu ela, deixando o documento em um canto da mesa.

- Você que sabe – respondeu Paloma. – Por que não aproveita para perguntar como ele está? 

- Era só o que me faltava!

Algumas horas depois chegou Valéria, a supervisora do setor. Ela havia estado na matriz em Florianópolis para uma reunião de lideranças acerca do novo contrato de serviço.

Luíza então comentou sobre as novas exigências que o funcionário da matriz fez para atualização da planilha de combustível e Valéria, irritada com a petulância do sujeito em dar ordens para sua subordinada, apanhou o telefone imediatamente, disposta a esclarecer a situação. Após ter questionado as exigências, ela procurou inteirar-se sobre o desempenho das tarefas, perguntando a respeito das atividades de Luíza, Tatiana, Paloma e Natália. Assim que verificou que os procedimentos estavam sendo rigorosamente seguidos, ela ficou satisfeita e voltou para sua mesa para atender o telefone. Em seguida, dirigiu-se até a sala do Sr. Laércio, coordenador geral da filial de Joinville.

No mesmo dia, houve tumulto na sala de Telefonia Pública, devido à revogação de contrato por parte da Sul Telefonia em relação à área de TP (telefone público). A notícia chegou de repente e a diretoria deu ordens para que tudo que se relacionasse à área fosse suspenso. Desta forma, Valéria ligou rapidamente para a gráfica para suspender a tiragem do lote de blocos de serviço. Para alegria dela, a impressão ainda não havia sido encaminhada.

Zilda, a assistente de Recursos Humanos da macroárea norte do Estado voltou da sala da diretoria e iniciou o encaminhamento das rescisões dos colaboradores responsáveis pela manutenção de TP’s, o que gerou cerca de trinta demissões.

Tatiana estava cobrindo a recepção pela manhã no momento em que os funcionários estavam chegando para a reunião. Somente mais tarde ela foi descobrir o motivo de tanta agitação. Ao passar pelo corredor, observou a sala de TP em polvorosa e os rostos apreensivos dos funcionários e deduziu a situação.

Diante de tanta aflição, Tatiana lembrou das palavras de Valéria com relação à redução de custos prevista para os próximos meses: “O Seu Laércio me pressiona todos os dias porque quer reduzir o quadro de funcionários deste setor”. Tatiana temia por seu emprego.

Todos os fantasmas passaram por sua cabeça e ela não conseguiu disfarçar quando entrou na sala. Olhou mais uma vez para a ASLA de Paulo, embora não tivesse a mínima vontade de falar com ele. Decidiu entrar em contato com ele somente depois do almoço. À tarde, sem alternativa, apanhou a planilha onde constava o número do celular dele e ligou.

- Paulo? Aqui é Tatiana, do controle de produção. Tudo bem?

- Se você está ligando pra mim é porque não está tudo bem.

Tatiana ignorou a indireta e procurou informar-se com ele acerca do grau de parentesco. Ele solicitou alguns dados e lembrou que fora a filha da assinante que assinara a ASLA. Entretanto, estaria burlando o procedimento caso ela própria escrevesse na ASLA e pediu para Paulo passar no departamento para incluir o dado esquecido.

- Muito bem, se não quiser pagar a O.S. não tem problema. Rasga e joga fora – retrucou ele, com sarcasmo. 

- Mas, Paulo, não posso fazer isso...

Ele desligou na cara dela e Tatiana procurou compreender o motivo de ele ser tão estressado. Virou-se para Luíza e Paloma para perguntar se elas o conheciam, mas foi interrompida pelo supervisor que entrou na sala.

- Boa tarde!

- Boa tarde, Bolacha! – responderam elas.

- Bolacha, preciso falar contigo – começou Tatiana.

- Por que é que eu fui entrar aqui? – lamentou ele, por brincadeira.

- É que eu emiti um RACP (Relatório de Ação Corretiva) pra você, porque o Gilmar escreveu umas ASLAS com caneta cor-de-rosa...

- E com cheiro de morango – completou Luíza.

- Gilmar? – pensou ele. – Quem é esse? Será o Sorriso?

- Esse mesmo! – respondeu Paloma, com desdém.

- Agora o procedimento mudou e é o supervisor que recebe o relatório – continuou Tatiana.

- Coloca o nome dele aqui em cima...

- Já tá lá, Bolacha – atalhou Luíza, rindo dele.

Ele saiu com o relatório e Tatiana atendeu seu ramal. Era Andréia pedindo para ela cobrir a recepção, enquanto faria um lanche.

- Vou para a central – avisou Tatiana ao sair da sala.

Tatiana substituiu Andréia na recepção e imediatamente atendeu a chamada que observou na janela do aplicativo.

- Quem está falando?

- Tatiana.

- Tatiana? E a Andréia?

- É horário do lanche dela.

- Ah, e você pode dar uma ordem pra eu abastecer?

- Claro, qual é o seu nome? – Ela anotou os dados da autorização de abastecimento, comprometeu-se a enviar o fax imediatamente e atendeu a próxima ligação.

- Alô, Andréia, me passa lá com o Bolacha...

- Não é a Andréia, é a Tatiana – irritou-se ela, corrigindo a pessoa com que falava. – Quem está falando?

- Paulo.

“Que perseguição”, pensou, enquanto acessava o ramal e transferia a ligação sem anunciar.

Alguns minutos se passaram sem que a central tocasse. Tatiana abriu o jornal para ler o horóscopo, mas voltou para atender nova ligação.

- Boa tarde – cumprimentou a mulher que ligara. – Eu estou precisando do número do celular do Paulo.

- Que Paulo? – perguntou Tatiana, sobressaltada. – Quem está falando?

- Meu nome é Elisabete. É que ele esteve na minha casa na semana passada instalando meu telefone, que agora está mudo.

- Ah, entendi. Mas infelizmente não estou autorizada a informar número de celular dos funcionários da empresa e eu vou pedir para você ligar no 0800...

- Mas você não pode ajudar? – insistiu a mulher.

- O que eu poderia fazer é anotar o número do seu telefone e dar o recado para ele ligar para você. Qual é o número?

A mulher informou o número do celular dela e enquanto anotava, Tatiana clicou também no aplicativo para verificar de que telefone a assinante estava falando. Estranhou que o número fosse o mesmo do qual Elisabete reclamava. Tatiana não compreendeu e informou novamente o número do 0800.

Andréia voltou do lanche e Tatiana tratou de retornar para o setor.

- Sabe aquele seu amigo... – começou Paloma, quando Tatiana entrou na sala.

- Amigo? – estranhou Tatiana.

- É, o Paulo...

- Ah, o estressado, o que ele fez agora?

Paloma explicou que recebera a ligação de uma assinante que queria o número do celular dele para consertar o defeito no telefone dela.

- Mas tem que ser o Paulo – Paloma repetiu o que a assinante solicitou, enfatizando o nome dele.

- Qual era o nome dela? – perguntou Tatiana, achando a história familiar.

- Elisabete.

- Bobagem dela, Paloma. Ela acabou de ligar na central contando a mesma história. E adivinha de que telefone ela ligou?

- Do mesmo número que ela diz estar mudo! – deduziu Paloma, enquanto ria da situação.

- Exatamente!

- O cara é bom, hein! – continuou Paloma. – Liga pra ele, Tatiana...

- Por que eu? – protestou Tatiana.

- “Poisque” sim... – brincou Paloma, sem dar maiores explicações.


CAPÍTULO 2 - PARTE III - O ENCONTRO

Elisabete estacionou o carro na garagem de sua casa e antes de abrir a porta para sair, deu um beijo rápido em Paulo. Em seguida, convidou-o para entrar na casa.

- Quer comer alguma coisa? – perguntou ela, enquanto colocava a bolsa em uma mesa.

- Não, obrigado. Aliás, eu nem devia estar aqui – respondeu ele, um pouco leve por causa da bebida. – Onde estão seus pais?
- Deixe de se preocupar e relaxe, Paulo. Eu já disse que sou a dona da casa. Faz muito tempo que cuido do meu próprio nariz. Vem...

Ela pegou a mão dele e puxou-o para a sala, provocando-o com beijos rápidos. Ele  sentou na poltrona e observou-a, surpreso, enquanto ela tirava seus sapatos.

- Isso é pra você se sentir mais à vontade – explicou ela, totalmente segura das atitudes que estava tomando.

Ela apanhou um controle remoto que estava sobre a mesa de centro e ligou o aparelho de som, que tocou um CD de música romântica, criando um clima mais afetivo entre eles.

- Quer dançar?

Após alguns instantes de hesitação, ele levantou e tirou-a para dançar.

- Não fique na defensiva – sussurrou ela, enquanto dançavam. – Eu apenas quero que me ame. Eu me sinto tão sozinha. Você também sofre com a solidão?

- Sim – murmurou ele.

Ela beijou-o e empurrou-o devagar de volta para a poltrona. Sentou em seu colo e desabotoou sua camisa.

- Você está tenso – comentou ela, enquanto massageava os ombros másculos. Mordiscou os lóbulos das orelhas e então ele se rendeu, abraçando-a impulsivamente.

- Elisabete, não é certo... – contestou ele, beijando o corpo dela.

- Por que? O fato de você ser casado não significa absolutamente nada para mim...

Paulo parou com as carícias repentinamente, recuperando o autocontrole. Empurrou-a de seu colo, vestiu a camisa e calçou rapidamente os sapatos, apressando-se em voltar para seu refúgio. Elisabete ficou terrivelmente frustrada com seu fracasso e exigiu explicações enquanto ele se vestia. Paulo, por sua vez, explodiu em uma exclamação colérica e sofrida.

- Se o casamento não significa nada para você, para mim é tudo!

- Mas, Paulo, eu não quis dizer isso... Aonde você vai?

- Pra minha casa, como eu já devia ter feito há muito tempo!

- Deixe que eu levo você...

- Não! Me deixe em paz!

Ele saiu da casa e correu na rua escura, enquanto enxugava as lágrimas que escorriam por sua face.

Elisabete observou-o até sumir de vista. Uma confusão de sentimentos ameaçava sua segurança, porque fora a primeira vez que ela experimentara a rejeição. Ódio e frustração opunham-se à sensação ardente causada pela lembrança do toque de Paulo e, de certa forma, ela soube que ele era o homem de que precisava.

- Paulo, você não poderia ter escolhido hora melhor para surgir em minha vida – falou ela, enquanto sorria contente com a súbita ideia que iluminara sua mente.

Capítulo 2 - Parte II - ESCLARECENDO O MAL ENTENDIDO



   Depois de se lembrar de todos os detalhes, Paulo se remexeu em seu lugar na cama e suspirou. Afinal, não era sempre que uma mulher deslumbrante como Elisabete convidava para uma visita. Os outros instaladores, quando se reuniam, invariavelmente narravam casos semelhantes, o que lhes dava orgulho. Mas Paulo não era do tipo. Era evidente o interesse que mulheres como Elisabete nutriam pelos homens e Paulo não desejava fazer parte desta categoria.

   Apesar de seus idealismos, não conseguiu adormecer imediatamente. Quando cochilava, a imagem dela aparecia em sua mente, perturbando seu sono.


ESCLARECENDO O MAL ENTENDIDO

   Alguns dias após o término do fechamento da produção dos instaladores, Luíza explodia em gargalhadas enquanto lia seus e-mails.

  - Acho que a minha amiga Fernanda não é bem certa.

  - Por que você diz isso? – perguntou Paloma, rindo do divertimento da amiga.

  - Vem cá ver o que ela escreveu pra mim.
Paloma foi até a mesa onde Luíza trabalhava, leu o texto do e-mail e também riu, enquanto fazia comentários zombeteiros. Tatiana e Natália observavam-nas e riam, mesmo sem imaginar qual o motivo do riso, apenas porque a alegria delas era contagiante. Logo todas voltaram às respectivas atividades e Tatiana continuou sua tarefa de separar os documentos que haviam sido entregues no dia anterior. Ela estava de frente para a porta e sentiu um frio no estômago quando viu Paulo entrando no departamento.

  - Tem bloco de ASLA? – solicitou ele, nada amistoso.

  - De quantos você precisa? – perguntou ela, tentando parecer natural, mas receando que ele a ofendesse novamente.

  - Vê dois pra mim.

   Enquanto ia até o depósito, Tatiana procurava reunir coragem para pedir desculpas para o instalador. Por um acaso tomara conhecimento da dificuldade que Paulo enfrentara no dia do incidente com ela e refletiu. Em vez de se sentir ofendida, a própria Tatiana fora culpada. Admitira a culpa para si mesma e necessitava esclarecer a situação para ficar em paz com sua própria consciência. Um minuto depois, ela voltou com mais blocos do que podia carregar e acabou por derrubá-los no chão aos pés de Paulo. As garotas viram tudo e começaram a rir, e Tatiana, nervosa e embaraçada, abaixou-se rapidamente para colocar tudo em ordem.

  - Deixa eu te ajudar – ofereceu ele, impassível.

   Paulo também se abaixou, pegando todos os blocos e, sob a orientação dela, colocou-os sobre a prateleira de um armário. Dois blocos ficaram nas mãos de Tatiana e ela, bastante constrangida, estendeu-os para ele.

  - Acho que estes são seus...

  - Obrigado.

  - Paulo? – Ela chamou antes que ele saísse da sala.

  - Sim?

  - Eu queria me desculpar pelo que falei outro dia. Não tive intenção de te ofender. Não é do meu feitio ficar julgando ninguém, além do que sou nova por aqui.

  - Tudo bem – respondeu ele, com a expressão um pouco mais suave.

   Quando ele deixou a sala, Tatiana virou-se para Luíza, Paloma e Natália, que ainda riam da cena anterior, e comentou:

  - Tem certas coisas que a gente não deve deixar de dizer.

   Em seguida sentou, procurando se concentrar em seu trabalho.


UMA NOITE DE DESCONTRAÇÃO


   Na sexta-feira, Luíza, Paloma, Tatiana e Natália resolveram sair para se divertir. O local escolhido foi o Tratu’s Bar, pois era o dia em que o “Peça Cantando”, nome de um programa de rádio que dava oportunidade para os ouvintes participarem da programação cantando um trecho da música desejada, era apresentado ao vivo diretamente do local.

  Após se acomodarem, decidiram pedir uma jarra de vinho que foi servida dentro de poucos instantes. O garçom se retirou sob os olhares atentos delas, que explodiram em gargalhadas após um comentário malicioso de Paloma. A bebida estimulava os sentidos e tudo era motivo de riso, inclusive os calouros que subiam ao palco para cantar.

   Tatiana sentia-se leve e acompanhava as amigas nas brincadeiras, respondendo sempre com alguma outra gracinha. A noite estava divertidíssima até Paloma comentar:

  - Olha lá quem chegou, Tatiana! O seu amigo...

  - Amigo, vírgula!

   Tatiana viu Paulo sentar-se a uma mesa próxima a elas. Em seguida, ele pediu uma bebida e ficou ali por muito tempo, calado, apenas observando a balada. Quando o show acabou, ele baixou os olhos para o copo que alisava.

  - Posso me sentar com você?

   Paulo olhou para a mulher que o abordara e apenas fez um gesto para que ela se sentasse.

  - O que faz aqui, assim, sozinho? – perguntou ela, com um sorriso nos lábios. – Está esperando alguém? – Elisabete acendeu um cigarro e olhou para ele pretensiosamente. – Acredita em destino, Paulo?

  - Não – respondeu ele, rispidamente.

  - Pois eu acredito. Desde que você foi instalar o meu telefone, não deixei de pensar em você um dia sequer. Eu fiquei te esperando naquela noite, sabia? Alimentei uma esperança de te encontrar novamente e olhe só o que consegui. Isso então não se chama destino?

  - É, talvez.

   Ele não tinha qualquer interesse nela e pretendia ficar sozinho buscando recordações dos tempos felizes que vivera com a esposa. Ainda usava a aliança, porque era uma forma de manter vivas as lembranças de seu grande amor. Sempre lamentava a morte de Evelin, sentindo o remorso consumi-lo dia-a-dia. Mesmo assim, não insistiu para que Elisabete se afastasse.

   Elisabete permaneceu calada, enquanto o observava atentamente. Tentou imaginar o que ele poderia estar pensando, pois parecia ausente e demonstrava uma carência irresistível. Seu dedo circulava em torno da borda do copo e ela pode perceber a aliança no anular esquerdo. Imaginando que ele tivesse sofrido uma grande decepção com a esposa, motivo pelo qual estaria sozinho em um bar, Elisabete sorriu interiormente. O sabor da aventura deu-lhe ainda mais incentivo e, com um pouco de paciência, palavras meigas e carícias, induziu-o a acompanhá-la.

   Tatiana observou o casal sair e embarcar em um Scenic zero. Acompanhou toda a troca de carícias entre eles e nem ouviu a conversa entre Paloma, Luíza e Natália.

  - Tatiana, você e as suas viagens! – criticou Luíza.

  - Ãh? – fez Tatiana, meio alienada.

   Elas caíram na gargalhada, porque sabiam que Tatiana tinha por hábito “viajar”,  esquecendo o mundo a sua volta.

  - Eu tenho certeza de que ela estava seguindo o manual – declarou Paloma, relembrando, ao mesmo tempo em que ria, o “Manual da Viagem” que Tatiana escrevera certo dia.

  - Você tava longe, hein, amiga! – falou Natália.

   Tatiana ficou subitamente cansada. Deixou dinheiro para pagar a sua parte e levantou-se para ir embora sob os protestos das amigas. Ela saiu do ambiente que se tornara subitamente desagradável, tentando apagar de sua cabeça as imagens de Paulo e da namorada. Achou tolo estar pensando neles e não admitiu para si mesma que tivessem sido eles os responsáveis por sua noite ter ficado chata e aborrecida.






Capítulo 2 - QUEM FALA O QUE QUER, OUVE O QUE NÃO QUER


   Após ter resolvido o problema do abastecimento, Paulo fez mais três instalações e, no final do dia, deixou o carro na garagem do almoxarifado que ficava na Rua Dona Francisca no bairro Saguaçu. Apanhou as O.S.’s (ordens de serviço) e seguiu até o prédio onde ficava o setor administrativo de controle de produção.

   Chegando lá, cumprimentou as funcionárias e deixou os documentos dentro da caixa de coleta que ficava na prateleira de uma estante.

  - É tudo culpa desses instaladores – resmungou Tatiana. – Se a letra não fosse tão feia, eu não teria digitado errado.

  - Fala pra ele, Tatiana, fala – incentivou Luíza, imaginando que Paulo fosse levar na brincadeira.

  - Falo mesmo. Eu queria que cada um de vocês, instaladores, viesse trabalhar no fechamento da produção pra ver as baianadas que vocês aprontam – declarou Tatiana, enquanto conferia um relatório.

   Depois de tudo o que Paulo passara em campo, a reclamação da garota esgotou o instalador e este a xingou até extravasar seu estresse.

   Ele saiu e Tatiana sentiu vontade de chorar, pois ficara magoada com a repreensão. As outras pessoas sempre falavam o que bem entendiam e Tatiana pensava que poderia agir da mesma maneira, mas ninguém lhe dava o direito de desabafar. O instalador foi apenas mais um em sua lista de reprovações. Ela respirou profundamente e engoliu as lágrimas, lembrando para si mesma que já não era mais uma garotinha. Pelo contrário, era adulta e independente, mas faltava aprender a se defender de ofensas e não se magoar tão facilmente.

  - Eu não pensei que ele fosse acreditar no que eu falei...

  - Deixa, Tatiana, ele pensa que é gente – logo respondeu Paloma, demonstrando um certo preconceito.

  - Fica calma – tranqüilizou Natália, enquanto digitava.

   Paulo saiu do prédio sentindo muita raiva da funcionária que o recriminara. O cansaço daquele dia, aliado à tensão haviam gerado em Paulo uma impaciência agressiva, por essa razão fora incapaz de conter a irritação. Ele sentiu necessidade de ar puro e, em vez de atravessar a rua e ir até o terminal João Colin, decidiu ir a pé pela avenida Santos Dumont. Sua casa ficava em uma lateral da avenida e ele levaria uns 20 minutos para chegar, tempo suficiente para se acalmar. Quando finalmente chegou em sua residência, sentia-se um pouco mais tranqüilo. Ele procurou roupas limpas e foi direto para o banho, tomando uma ducha fria. Em seguida, preparou uma refeição rápida.

   Após terminar, Paulo deitou-se na cama e, como era de hábito, avaliou seu dia de trabalho. Se não tivesse ocorrido aquele fato logo cedo, seu dia estaria totalmente arruinado.


O PERIGO TEM NOME E ENDEREÇO

   Paulo chegou ao almoxarifado às 8 horas para apanhar o carro para trabalhar. Já dentro do veículo, ligou para a plataforma de serviços e anotou os dados dos serviços que estavam gravados em sua caixa. Em seguida, procurou a ordem de serviço, cujo vencimento era mais urgente, ligou para o Centro de Operações e solicitou ao atendente verificar no sistema a existência de um contato com o assinante. Então ligou para o celular informado. Uma voz feminina suave e meiga atendeu. Paulo identificou-se e após confirmar com a mulher se ela desejava realmente a instalação, dirigiu-se para o endereço.

   A casa da assinante ficava quase no final da Estrada do Pico e Paulo receou que não pudesse concluir a instalação por ser FATB, ou seja, fora da área de tarifação básica, fato que se fosse confirmado, obrigaria a assinante a solicitar orçamento para a operadora de telefonia. Enquanto dirigia, ele observava os postes e constatou que não se tratava de FATB e, portanto, este não seria um impedimento para a execução do serviço.

   Ele chegou na casa de itaúba descrita pela assinante da linha telefônica e estacionou o carro. Uma moça loira estava sentada em uma cadeira de vime e logo se levantou para atender o instalador.

  - Moça, sua mãe está em casa? – perguntou ele, observando a jovem parada em sua frente. Esta abriu um sorriso zombeteiro e cruzou os braços, sem responder. Paulo tentou outra vez. – Eu vim instalar o telefone da Elisabete Schroeder e...

  - Eu sou Elisabete Schroeder – corrigiu a moça, porque ele havia pronunciado seu sobrenome de forma incorreta.

  - Desculpe – falou ele, sem graça. – Você é tão jovem que eu não pensei...

  - Que fosse eu a Elisabete? Se isso é um elogio, então eu agradeço – falou ela, esboçando um sorriso encantador.

  - Muito bem – ele procurou mudar de assunto. – A instalação interna está pronta? – A jovem afirmou e pediu para Paulo acompanhá-la.

   Elisabete despertou a curiosidade dele, pois agia como uma mulher independente e segura de si, e ao mesmo tempo, revelava educação e cordialidade como poucas das pessoas que o recebiam. Sobretudo, sua beleza exuberante o desconcertava, enquanto a seguia. Quando ela parou na porta do escritório e apontou para a tomada que aguardava a instalação definitiva, Paulo tentou dissimular sua perturbação e voltou para o veículo para retirar o material que necessitava.

   Ao terminar a instalação do fio nos postes, Paulo recolheu o material e seguiu de carro até o AD (armário digital), onde ativou o par primário e o par secundário. Usou seu celular para testar a linha e voltou para a casa de itaúba. Preencheu o documento no carro e desembarcou, seguindo para a varanda, onde Elisabete se encontrava.

  - Pode assinar isto? – perguntou ele, estendendo o documento.

  - Sente-se – pediu ela, enquanto assinava.

  - Muito obrigado pela gentileza, mas eu tenho outras coisas para fazer.

  - Eu imagino que seu trabalho seja estressante. Os clientes devem ser todos chatos e exigentes.

Ele não respondeu. Aguardou que ela assinasse e destacou a segunda via.
Isto é seu.

  - Obrigada. – Ela observou o nome dele no crachá e após uma breve pausa, tornou a falar. – Fique mais um pouco, Paulo. Você é muito agradável.

  - Eu gostaria muito, mas como já disse, estou ocupado o dia inteiro.

   Elisabete não demonstrou ressentimento pela recusa e levantou tranquilamente da cadeira, permanecendo imóvel diante dele. Paulo, por sua vez, não conseguia desviar a atenção daquele olhar cativante, porém, não gostava de se envolver com assinantes.

  - Agora você já conhece o caminho. Venha até aqui mais tarde. Eu moro sozinha e a solidão é tão desgastante...

Ele não se comprometeu e foi embora.

Capítulo 1 - Parte II - UM "BD" FORA DE HORA, PARA VARIAR


   No mesmo horário, Paulo ligara o celular e telefonara para o consórcio Optical e Integração solicitando uma autorização para abastecer. Voltou a desligar o aparelho que estava quase sem bateria e manobrou o veículo até a bomba de gasolina. Desceu do carro e foi até a loja de conveniência para aguardar o fax.

  - Desculpe, moço, mas o nosso aparelho foi danificado por uma descarga elétrica no temporal de ontem.
  - Como assim? Eu preciso abastecer – falou Paulo, impaciente.
  - Impossível – respondeu a funcionária. – Precisa pagar com cheque ou dinheiro. Sem a ordem emitida por fax, não podemos liberar.
 
   Paulo não sabia da gravidade da O.S. que tinha nas mãos, mas independente disso, ficou irritado com a recusa na autorização e xingou a moça. Estava sem dinheiro naquele momento e não havia tempo a perder. Calculou que o combustível seria suficiente e voltou bufando para o carro. Deu a partida e saiu cantando pneus, passando por baixo do viaduto recém construído na localidade de Canela, durante a duplicação da BR 101. Entretanto, a pista estava ainda molhada e ele precisou reduzir a velocidade, mesmo após passar da polícia rodoviária que ficava alguns metros antes da entrada de Pirabeiraba. Então tomou a SC 301 e entrou na Rua João Fleith no quilômetro sete. A estrada de chão batido estava ensopada e o carro deslizava. Não chovia naquele momento, mas a rua ficara daquele jeito devido a um outro temporal que ocorrera na tarde do dia anterior.

   Enquanto Paulo dirigia na direção da ponte baixa, se concentrava na solução do B.D. Ficou tenso com a possibilidade de não encontrar o assinante em casa já que o prazo estava se esgotando rapidamente.
De repente, um ponto de luz vermelha piscou no painel do veículo.

  - Merda! Entrou na reserva mais cedo do que eu previa!

   Com mais aquela dificuldade, Paulo continuou o percurso, mas freou abruptamente poucos metros antes da ponte baixa. Incrédulo, observou o rio que transbordara sobre a ponte, formando uma enorme e perigosa cachoeira, resultado dos temporais que atingiram a região nos últimos dois dias.

“Meu Deus, o que mais pode dar errado?” pensou Paulo, saltando para fora do carro. A passagem de apenas cinco metros naquele instante tornou-se intransponível, mas o instalador raciocinava para encontrar uma solução. A entrada alternativa para a estrada do Pico era a rua que dava acesso ao parque aquático Davet, mas Paulo logo desistiu da idéia, porque certamente a região também estaria alagada e o combustível da reserva não seria suficiente para fazer tal manobra. Resignado, ele decidiu informar a situação para o Centro de Operações. Mal havia ligado o celular, este já recebera uma chamada.

  - Finalmente! – era Tânia, nervosa e ao mesmo tempo aborrecida.
  - Tânia, eu ia agora mesmo te ligar – desculpou-se Paulo, também nervoso, mas já conformado com o fracasso.

   Tânia então cobrou a execução do B.D. imaginando que o defeito estivesse a ponto de ser resolvido. Entretanto, sua paciência foi drasticamente substituída por desespero mudo quando o instalador explicou a situação afirmando que não havia como chegar ao assinante. Para completar o desespero dela, Mauro voltou ao departamento e ao tomar conhecimento da situação, arrancou o monofone de sua mão e gritou com o instalador:

  - Você só tem uma opção: ou baixa o serviço dentro do prazo ou está no olho da rua! – finalizou Mauro, no limite de seu estresse.

A bateria do celular de Paulo descarregou totalmente no segundo seguinte à ameaça do gerente e o instalador passou do conformismo à revolta de um momento para outro.

  - Droga! Droga! Droga! – xingou ele, chutando com violência o pneu enlameado. – Não é justo eu perder meu emprego por causa da porcaria de um B.D.!

   Instintivamente consultou o horário e ao verificar 15:01 entrou em desespero. Aproximou-se da ponte para ver se tentava atravessar, mas era impossível. Morte na certa. “Meu Deus, e agora?”.

   Quando tudo parecia irremediavelmente perdido, Paulo observou o Uno branco com logotipo da Optical se aproximar do lado oposto do rio e dois homens desembaracaram do carro. Reconheceu Alfredo, o supervisor da Operação, e o ajudante e pediu socorro, forçando sua voz ao máximo que podia para ser entendido acima do barulho da cachoeira que descia sobre a ponte.

  - O quê? – perguntava Alfredo.
  - Liga pra Tânia! É urgente!

   Quando compreendeu, Alfredo ligou imediatamente e dentro de alguns segundo sinalizou positivamente para Paulo, embarcando com pressa no veículo. Paulo observou o veículo afastar-se e suspirou aliviado, porque a bomba já não estava mais em suas mãos. Porém, a preocupação continuou o acompanhando depois que partiu e ele nem notou o arco-íris que se formava sobre o rio, ganhando o céu com suas cores reluzentes.


   No Consórcio, a tensão predominava, embora os mais de 30 IRLA’s estivessem baixando suas O.S.’s rapidamente, principalmente as das estações de São Bento do Sul e Jaraguá do Sul. Os B.D.’s que oneravam os indicadores cujo acompanhamento estava sendo praticamente feito minuto a minuto causavam alívio assim que os IRLA’s entravam na URA (sigla usada para Unidade de Resposta Audível) e baixavam o serviço.

   Tânia exercia uma tarefa-chave dentro de todo o processo e ficava cada vez mais tensa ao ver que o prazo se esgotava.
15:30.

   “Vamos Alfredo”, rezava Tânia, enquanto acompanhava o sistema. “Acaba com isso de uma vez...” Seu telefone tocou e ela atendeu imediatamente. Mauro aproximara-se outra vez.

  - Tânia – falou Alfredo apressado, – faz manobra de pares no BD da estação PIRB.
Graças a Deus – murmurou ela. Enquanto digitava os dados informados referente à mudança de pares do AD (Armário Digital), Mauro acompanhava com expectativa. Finalmente, para alívio de todos os funcionários do consórcio, ela anunciou a baixa do BD dentro do prazo, exatamente às 15:48.

   Mauro sentiu que sua tensão se dissipou instantaneamente e ele pôde relaxar um pouco. A responsabilidade que recebera para garantir o contrato da macroárea norte de Santa Catarina e manter o primeiro lugar no ranking de concorrência com outras prestadoras de serviços telefônicos dentro do Estado tirara seus minutos de sossego. Havia muita coisa em jogo além do contrato: projetos de novas redes e restauração das antigas, milhares de empregos nas diversas filiais da Optical: norte e oeste de Santa Catarina e Cambé no Paraná. O aspecto humano sempre fora a maior preocupação de Mauro e ele pediu desculpas aos funcionários pelas atitudes anteriores. Mais calmo, pediu a Tânia que continuasse acompanhando os demais B.D.’s e se retirou.

   No dia seguinte, ele participaria da reunião com a Sul Telefonia, e assinaria o contrato por mais quatro anos. Transmitiria então a notícia a todos os colaboradores do consórcio.


Capítulo 1 - Parte I - UM "BD" FORA DE HORA, PARA VARIAR

   Paulo esforçava-se para concluir a instalação do fio telefônico tipo dropp ao mesmo tempo em que tentava se equilibrar sobre a escada a uma altura de dez metros do chão. Parou um instante par ajustar o cinto de proteção que amarrara em torno do poste e o enlaçava pela cintura e notou que o vento havia mudado de direção, ganhando mais intensidade. Além da súbita ventania, o céu nublara de forma acelerada, ocultando as serras mais próximas e deixando a sensação angustiante de um novo temporal iminente, igual ou pior ao do dia anterior.

   Antes que Paulo retomasse sua tarefa, seu celular tocou, identificando uma chamada do tronco-chave da empresa para a qual trabalhava, a Integração, que naquele mês assinara consórcio para trabalhar em conjunto com a Optical Telecomunicações numa parceria pela macroárea norte do Estado de Santa Catarina, formada pelas cidades de Joinville, Jaraguá do Sul, São Bento do Sul e região.

   Naquele instante, a escada balançou perigosamente e Paulo se agarrou com firmeza ao cinto de proteção. Após sentir que a escada estabilizara, rapidamente apertou os parafusos da braçadeira e começou a descer do poste. Uma nova rajada de ventou atirou seu capacete para o chão e enfureceu o instalador, que reagiu com uma série de palavrões cujo final somente se deu quando ele pisou em solo firme. Exausto, Paulo enxugou o suor do rosto e tratou de recolher o material apressadamente para dentro do veículo. Novamente o celular tocou e antes mesmo de verificar a origem da chamada, Paulo atendeu.

  - Alô, Paulo, é Guiomar que está falando. Em que área você está neste momento?
  - No final da estrada Caminho Curto, zona norte de Pirabeiraba – respondeu ele, enquanto pegava o bloco de ASLA. – Qual é o problema?
  -Tem um BD vencendo às 15:59 na sua área – informou a atendente, ansiosa e preocupada. – Há uma grande expectativa em torno desse defeito e é melhor você cuidar disso imediatamente.


O tom de urgência na voz da atendente deixou Paulo preocupado e nervoso, sobretudo ao saber que o telefone com defeito ficava na direção da rodovia estadual que ligava o município de Joinvile ao de Campo Alegre, em uma rua chamada Estrada do Pico. Ele calculou por baixo uns 30 km e ainda não havia abastecido o veículo. Como não houvesse escolha, ele preencheu a ASLA – formulário de Autorização de Serviço de Linha de Assinante, com os dados fornecidos pela atendente do Centro de Operações: nome e endereço do assinante, assinalou BD, anotou a rede física e escreveu a palavra “ruído” no defeito apresentado, concluindo com seu IRLA – Instalador/Reparador de Linha de Assinante, a matrícula de acesso ao sistema de transmissão de dados da operadora de telefonia e seu nome. Em seguida, atirou o bloco, a caneta e o celular sobre o painel do veículo e terminou de guardar o material no porta-malas do Fiat Uno branco. Olhou para as nuvens cinzentas que ocultavam a localidade a ser atendida e consultou o relógio de pulso que marcava 14:02.

  - Um BD era tudo que eu precisava agora – ironizou ele, enquanto embarcava no automóvel. 

   Seguiu pela estrada de chão batido e quando atingiu a BR 101, a chuva despencou, prejudicando a visibilidade e obrigando Paulo a estacionar o veículo no posto Rudnick, onde pretendia abastecer. Resolveu aguardar o temporal, mas aquela decisão em nada ajudava. A situação de risco associada aquele fenômeno metereológico e a pressão em resolver o defeito do telefone gerou um nível acentuado de estresse e Paulo recostou-se no assento tentando relaxar.

   Sorte que ainda são 14:05 – murmurou ele, imaginando que a chuva seria apenas momentânea.



   Enquanto isso, na sala de treinamento do Consórcio Optical e Integração, Mauro apresentava os últimos indicadores de desempenho, relacionando-os aos prazos de vencimento e alertando para as multas cobradas no caso do não atingimento das metas. Mauro era gerente da Optical em Joinville e supervisionava as áreas de implantação de LA (Linha de Assinante), TUP (Telefonia Pública), ADSL e dados e laudos técnicos. Além disso, era o responsável pelas reuniões com a operadora que contratava os serviços da Optical – a Sul Telefonia, primeira operadora de telefonia no sul do país. Mauro também cuidava pessoalmente do Centro de Operações, ou Despacho, como chamavam o departamento que monitorava 24h por dia os serviços dos IRLA’s, ou seja, instaladores/reparadores de linha de assinante, despachando as ordens de serviço e finalizando-as no sistema da Sul Telefonia assim que executadas.

   Prosseguindo seu treinamento da equipe de IRLA’s, contando com a presença dos supervisores de campo das diversas áreas e com a segunda equipe do Despacho, Mauro explicava sobre o QFC 3.1 – 24 h, indicador de BD (Bilhete de Defeito) residencial, cujo prazo era de 24h.

  - Isso significa que nós aqui do consórcio Optical e Integração temos 24 horas para tirar o defeito após receber a informação da Sul Telefonia.

Mauro obtinha 100% da atenção dos ouvintes sobre os dados que repassava, visto a complexidade das novas regras da Sul Telefonia para 2003. Seu tom de voz era enérgico, pois necessitava convencer toda a equipe de que o novo contrato para os próximos quatro anos exigia responsabilidade e parceria, tanto aos funcionários da Optical quanto da Integração – esta ultima recém instalada após a reforma do prédio, e dependia do desempenho progressivo destas últimas O.S.’s em andamento.
Admirada e orgulhosa por participar de um treinamento de tal profundidade, Tatiana, uma funcionária recém contratada pela Optical Telecomunicações, procurava memorizar os indicadores que lia no diagrama distribuído logo no início do treinamento. Também anotava o que conseguia captar, mas dada sua curta experiência, pouco compreendia sobre os chamados FLC2 (defeito), FLC2-R (defeito repetido), QFC 3.3 (Serviços Públicos), ADSL, RNC (Relatório de Não-Conformidade), SIAC (justificativa) e mais uma série interminável de siglas. Não fazia a menor idéia de como era um armário digital ou um cabo de fibra óptica, apenas entendia do seu serviço de separação de ASLAS, conferência, digitação, batimento de relatórios, impressão de relatórios e arquivos. “O que estou fazendo aqui?”, pensava ela enquanto se lembrava das pilhas e mais pilhas de ASLA’s que precisava conferir. Ela não tinha noção alguma do aspecto físico das instalações, mas compreendia que o futuro das duas empresas parecia comprometido.
   
   Mauro finalmente encerrou a reunião e voltou para a Coordenadoria, sua cabeça em ebulição por causa da manutenção do contrato. Caminhou apressadamente até o Centro de Operações para verificar pessoalmente a execução dos serviços. Tânia, a supervisora do departamento, verificou o SGA (software de Sistema de Gerenciamento Administrativo), emitindo um relatório minucioso sobre os BD’s que afetavam diretamente os indicadores. Mauro aguardou impaciente a impressão do documento e revisou-o assim que ele saiu na impressora.

  - 352 BD’s! – exclamou Mauro, desnorteado. – Nós só temos até o final do dia para tirar 352 BD’s? O que é que está havendo, Tânia?
  
   Mauro ergueu os braços, exasperado. O tom moreno de sua face ficou subitamente corado e ele não conteve a irritação. Ele era admirado por todos pela tranqüilidade com que sempre resolvia todas as situações, porém, naquela tarde, a última coisa que conseguia manter era a calma, sobretudo ao ler no relatório que dois BD’s venceriam dentro de meia hora e um outro exatamente às 15:59. Estes três defeitos constituíam os primeiros dos 352 que não poderiam, em hipótese alguma, ser fechados fora do prazo, sob pena de perda do contrato da macroárea norte de Santa Catarina. Além disso, todo o investimento com a associação das duas prestadoras de serviço causaria um prejuízo enorme.

  - O que há com todos vocês? – bradou ele, agitado. – Vamos, mobilizem os IRLA’s para fechar tudo sem atraso. Meu pescoço está a prêmio! – desabafou. 

   Os despachantes começaram a se comunicar imediatamente com os IRLA’s, criando um burburinho na sala, antes quase silenciosa.
  
  - Vamos, vamos! Alertem novamente os supervisores de campo! Não podemos perder este contrato!

   Tânia interrompeu a reação intempestiva do gerente para comunicar que os dois primeiros BD’s haviam sido baixados naquele instante, mas o fato não aliviou a tensão de Mauro que questionou o BD das 15:59.

  - Como é que o IRLA recebe a O.S. de 24h e deixa para a última hora? – perguntou ele, cada vez mais irritado.

   Tânia deu uma explicação pouco convincente informando que a estação ficava em Pirabeiraba em uma lateral da rodovia estadual e prometeu cuidar do caso imediatamente. Ligou para o celular do instalador, mas este estava incomunicável. Mauro esfregou o rosto com as mãos e antes de sair da sala, exigiu contato urgente.

   Tânia continuou tentando a ligação. Passava das 14:20.

DO OUTRO LADO DA LINHA - Sinopse


   Tatiana é auxiliar administrativa de uma prestadora de serviços telefônicos e conhece Paulo, profissional responsável pela instalação de linhas telefônicas, com o qual sofre incompatibilidade de gênios.

   Paulo, por sua vez, se envolve com Elisabete, mulher dominadora que denuncia o instalador por maus tratos e este, para se livrar da prisão, se vê obrigado a aceitar a chantagem e casar com ela.

   Tatiana ainda tenta ajudá-lo e piora a situação, porque sofre ao descobrir que o ama. Apesar de casado, Paulo se recusa a consumar o casamento, porque também descobriu sua paixão por Tatiana e precisa resgatar sua dignidade para tomar as rédeas da própria vida e se livrar da vilã. 
   
   Entretanto, se soltar das amarras do próprio remorso exigirá uma profunda transformação.

SUSPENSE - A GUERRA DAS PALAVRAS


A GUERRA DAS PALAVRAS


1º CAPÍTULO

     Uma garota estudiosa de 14 anos encontra na biblioteca do distrito um livro grosso e velho, com capa dura e páginas com aspecto de pergaminho. Ela começa a folhear o livro e percebe que as palavras estão embaralhadas. Aí ela inicia uma saga para descobrir o que o livro revela.
     Ela tem somente uma amiga na escola, uma menina mulata da mesma idade. Elas se conheceram no 2º ano do ensino fundamental. Sua amiga fica curiosa, mas desiste nas primeiras tentativas. Biblioteca realmente não é o lugar preferido dessa amiga.
     A palavra que mais desperta a curiosidade de Paula é perseverança, e essa palavra aparece repetidamente durante todas as páginas em que vai lendo mas continua muito longe de compreender o sentido do livro.
     Resolve emprestar o livro por duas semanas e decide que, se dentro desse prazo não conseguir compreendê-lo, devolverá para a biblioteca esquecerá dele.
     Então descobre junto à bibliotecária que o livro não está catalogado por não conter título nem autor ou dados de impressão. Curiosa, pergunta a Paula onde ela o encontrou e a garota a leva até a prateleira e mostra o lugar exato de onde o retirara.
     Entretanto, naquele lugar não há qualquer espaço para o livro que Paula segura nas mãos, tanto em dimensão das prateleiras quanto a quantidade de páginas.
     A bibliotecária lhe dá um sermão para que não a engane e abandona qualquer auxílio após verificar no computador que os livros estão devidamente organizados. A mulher lhe diz com convicção inabalável que, após vinte anos trabalhando na biblioteca distrital, não comete erros. Expulsa Paula da biblioteca e manda que ela leve o livro consigo.
     O livro é grande e pesado e ela fica com raiva da bibliotecária e tem o impulso de jogar o livro na primeira lata de lixo reciclável que encontrar, mas a palavra perseverança vem em sua mente com força e nitidez, de forma quase palpável. A garota desiste do intento de jogar o livro fora e o carrega até sua casa.
     O livro foi colocado lá por alguma razão, Paulo começa a refletir. Mas a pergunta que não queria calar era quem poderia ter feito aquilo e se o livro caiu nas mãos da pessoa certa.
Paula examinou-o. Como a bibliotecária mencionara, não havia título nem autor, mas era impresso em caracteres gráficos bastante antigos. Suzana acha tudo muito idiota e simplesmente sugere que Paula se desfaça do livro.
     Paula começa a desembaralhar as palavras parágrafo por parágrafo. Em muitos casos, faltam termos para identificar o sentido exato do que está lendo, em outros, as mesmas palavras se repetem nos parágrafos adiante, mas com sentidos distintos.
     A garota desiste daquele quebra-cabeça, fecha o livro e o deixa fechado sobre a escrivaninha.
Na manhã seguinte, ao despertar, ela vê que o livro está aberto e se pergunta se uma corrente de ar teria feito aquilo. Impossível, reflete, já que a capa parece de madeira.
     Resolve perguntar para a mãe e o pai se estiveram no quarto dela durante a noite e eles negam. Ela fica confusa e volta para o livro. Vê que os parágrafos que ela lera no dia anterior se embaralharam outra vez.
     Pensando que o livro quer que ela descubra o que há nele, a palavra determinação aparece em realce nos mesmos parágrafos onde a palavra perseverança aparecia no dia anterior.
     Na página sete ela encontrou ênfase na palavra perfeição. Ótimo, pensou Paula, somente palavras de sentido positivo. Já na página 13 ela desembaralhou as palavras em torno da palavra TABU e conseguiu entender que o parágrafo se referia ao 13º mês do ano, com ano previsto para acontecer uma hecatombe mundial.
     Assustada, ela fotografa a página com seu smartphone e vai para a escola. Pela primeira vez em sua vida, esquece completamente das tarefas de casa e os professores acham estranho.
Sua professor ade Física critica sua “cabeça de purungo podre” e o professor de matemática julga-a apaixonada.
     Suzana tira satisfações e irrita-se com a amiga por não ter ainda dado um fim ao livro.
No dia seguinte, todos os parágrafos foram reescritos daquela forma embaralhada e para ter certeza de que não está louca, Paula confere a página 13 com a foto do smartphone. E apesar de ter certeza do que lera e de lembrar-se de como as palavras estavam misturadas no dia anterior e de como estão hoje, a foto e a página são idênticas.
     Impossível, pensa. Minha imaginação está criando tudo isso. Suzana prova isso quando lê em voz alta o que parece um romance comercial.
     Mas para Paula, as palavras continuam embaralhadas. Novamente a palavra perseverança salta aos olhos.
     Realmente o livro está querendo contar uma história mas somente Paula poderá decifrar.
     Ela resolve mostrar o livro para o professor de História, mas para ele o livro estava totalmente em branco. Ele só enxergava as páginas cuja textura lembrava pergaminhos. Pergunta onde Paula conseguiu o livro e após a resposta interroga a estudante sobre se ela mostrou o livro a mais alguém. “A bibliotecária e a minha amiga”. E todas as duas me disseram para jogá-lo fora.
O professor pediu para que ela deixasse o livro com ele e por um momento Paula aliviou-se por se livrar do misterioso livro, mas algo no olhar do professor deixou-a assustada e ela saiu da sala levando o livro consigo. Colocou-o na mochila e voltou para a sala de aula.
     Depois que voltou para casa livrou-se da mochila e foi ao banho. Quando retornou para pegar seu material, levantou o livro e sentiu que suas mãos estavam pegajosas.
     Ela gritou. Escorria sangue das páginas e ela caiu no chão, horrorizada. A mãe chegou para acudi-la, e então Paula viu que o livro estava normal. A mãe ralhou com ela e voltou para a cozinha.
     A estudante ergueu-se lentamente do chão e se aproximou do livro que a mãe colocara sobre a escrivaninha momentos antes. Sim, o livro estava igual a antes, com as palavras embaralhadas. Ela lembrou-se da página 7 e abriu por um momento, pensou que havia um facho de luz branca levantando da página.
     Pensou que depois disto precisava urgentemente consultar um psicólogo.
     Então colocou o que estava escrito ao redor da palavra perfeição. Descobriu um novo sentido.
     “O mundo não é movido pelas perguntas ou pelas respostas, mas sim, pela possibilidade de perguntar e pela capacidade de transformar a resposta em uma reação produtiva”.
     Estranho. Tudo estranho, louco, bizarro, apavorante.
     Paula resolve aceitar o conselho da amiga e atira o livro na lata de lixo da escola.
     Antes do final da aula, uma colega aparece carregando o livro e lhe entrega, eufórica e excitada. Paula não tinha mostrado o livro a muita gente, então pergunta como ela sabe que o livro é seu.
     Está escrito o seu nome na capa, com a sua caligrafia. Você deixou na mesa da cantina.
     Paula apanha o livro com absoluta surpresa e abre a página. Realmente, é o seu nome que está lá, e pior, com sua caligrafia.
     Antes de voltar para casa, ela pede a ajuda de Suzana e lhe fala em segredo que está enlouquecendo. Suzana concorda, porque tudo que vê e faz questão de ler em voz alta, é o mesmo parágrafo que trata de uma descrição de lugar. E ela mesma leva o livro consigo. Joga-o na lixeira do supermercado, quando vai fazer compras com o pai.
     Resolvido, ela espana as mãos. Ora bolas, acreditar num livro bobo desse.
     Quando se afasta, a lixeira parece sacudir no ar.
     Aliviada, Paula se prepara para dormir e então ouve a campainha. Logo o pai aparece e lhe diz que estava na soleira da porta o livro.
     A Suzana vai se ver comigo amanhã cedo!, promete e guarda o livro dentro do guardarroupa.
     Suzana aparece na manhã seguinte muito animada e confirma que jogou fora o livro. Ainda faz umas caretas para assustar a amiga, mas assim que Paula retirar o livro do armário e mostra para ela, Suzana cai sentada.
- Acredita agora?, pergunta Paula.
- Isso é coisa do demo, Paula!
- Não, deve ser alguma brincadeira do Pierre.
     Pierre é um garoto daqueles que vive pregando peças em todo o mundo. Paula o detesta. E ele detesta Paula. Sempre vivem se xingando.
     Paula e Suzana chegam na escola e esfregam o livro na cara dele. Ameaçam contar para a diretora o que ele anda tramando, mas Pierre jura que não sabe de nada. Ele também enxerga as palavras embaralhadas, mas ao contrário de Paula e de Suzana, ele vira o livro de cabeça para baixo pois para ele as palavras estão escritas de perna para cima.
     Curioso, ele fica na hora do recreio com as garotas para investigar tudo aquilo. Chegam a conclusão de que o livro só pode ser uma coisa do mal.
     Juntos, eles começam a pesquisar formas de destruí-lo. Tentaram queimá-lo, mas o livro é indestrutível. Fogo, ar, explosão, corte, enterrar. Nada funciona. Nada.
     Paula, enfim, decide procurar formas de decifrar aquele enigma. Se Suzana enxergava uma historia comum, ela enxergava os parágrafos embaralhados que se moviam a cada dia, e Pierre enxergava embaralhado mas as palavras como que impressas do lado contrário da página, havia três tipos de pessoas, ou características pessoais que o livro se fazia – ou não –, conhecer.
     Suzana se ofendeu. Eu joguei fora também, então eu também faço parte deste mistério.
- Não foi isso que eu quis dizer, replica Paula. Talvez o livro queira mostrar o próprio poder, como se fosse uma pessoa.
- E se ele chegou até Paula, ele quer ser descoberto.
- Mas alguém colocou ele na biblioteca.
- Ou o livro tem vida própria?!
     Pierre se sentiu importante.
- Baixa a bola – disse Paula, envolvida pela tensão do desconhecido.
     Paula fecha o livro e o sacode. Parecia oco e algo se mexia lá dentro. Ela remexeu as páginas do alto e dela caíram algumas palavras. Quando os três ajuntaram, viram que eram de madeira e começaram a montar a frase que elas formavam.
     “A caligrafia é a chave da perfeição”.
      Caligrafia. Será por isso que minha caligrafia estava na contracapa?
    Pierre teve uma ideia. Pediu para que Paula escrevesse as palavras em uma folha de papel qualquer. Ela escreveu e entregou para ele.
- Tá me achando idiota? Não tem nada aqui! – vocifera Pierre, indignado.
- Mas escrevi!
     Suzana interveio. Abriu o livro. Na contracapa estava a frase que Paula acabara de escrever e tinha sumido da folha de papel...