No mesmo horário, Paulo ligara o celular e telefonara para o consórcio Optical e Integração solicitando uma autorização para abastecer. Voltou a desligar o aparelho que estava quase sem bateria e manobrou o veículo até a bomba de gasolina. Desceu do carro e foi até a loja de conveniência para aguardar o fax.
- Desculpe, moço, mas o nosso aparelho foi danificado por uma descarga elétrica no temporal de ontem.
- Como assim? Eu preciso abastecer – falou Paulo, impaciente.
- Impossível – respondeu a funcionária. – Precisa pagar com cheque ou dinheiro. Sem a ordem emitida por fax, não podemos liberar.
Paulo não sabia da gravidade da O.S. que tinha nas mãos, mas independente disso, ficou irritado com a recusa na autorização e xingou a moça. Estava sem dinheiro naquele momento e não havia tempo a perder. Calculou que o combustível seria suficiente e voltou bufando para o carro. Deu a partida e saiu cantando pneus, passando por baixo do viaduto recém construído na localidade de Canela, durante a duplicação da BR 101. Entretanto, a pista estava ainda molhada e ele precisou reduzir a velocidade, mesmo após passar da polícia rodoviária que ficava alguns metros antes da entrada de Pirabeiraba. Então tomou a SC 301 e entrou na Rua João Fleith no quilômetro sete. A estrada de chão batido estava ensopada e o carro deslizava. Não chovia naquele momento, mas a rua ficara daquele jeito devido a um outro temporal que ocorrera na tarde do dia anterior.
Enquanto Paulo dirigia na direção da ponte baixa, se concentrava na solução do B.D. Ficou tenso com a possibilidade de não encontrar o assinante em casa já que o prazo estava se esgotando rapidamente.
De repente, um ponto de luz vermelha piscou no painel do veículo.
- Merda! Entrou na reserva mais cedo do que eu previa!
Com mais aquela dificuldade, Paulo continuou o percurso, mas freou abruptamente poucos metros antes da ponte baixa. Incrédulo, observou o rio que transbordara sobre a ponte, formando uma enorme e perigosa cachoeira, resultado dos temporais que atingiram a região nos últimos dois dias.
“Meu Deus, o que mais pode dar errado?” pensou Paulo, saltando para fora do carro. A passagem de apenas cinco metros naquele instante tornou-se intransponível, mas o instalador raciocinava para encontrar uma solução. A entrada alternativa para a estrada do Pico era a rua que dava acesso ao parque aquático Davet, mas Paulo logo desistiu da idéia, porque certamente a região também estaria alagada e o combustível da reserva não seria suficiente para fazer tal manobra. Resignado, ele decidiu informar a situação para o Centro de Operações. Mal havia ligado o celular, este já recebera uma chamada.
- Finalmente! – era Tânia, nervosa e ao mesmo tempo aborrecida.
- Tânia, eu ia agora mesmo te ligar – desculpou-se Paulo, também nervoso, mas já conformado com o fracasso.
Tânia então cobrou a execução do B.D. imaginando que o defeito estivesse a ponto de ser resolvido. Entretanto, sua paciência foi drasticamente substituída por desespero mudo quando o instalador explicou a situação afirmando que não havia como chegar ao assinante. Para completar o desespero dela, Mauro voltou ao departamento e ao tomar conhecimento da situação, arrancou o monofone de sua mão e gritou com o instalador:
- Você só tem uma opção: ou baixa o serviço dentro do prazo ou está no olho da rua! – finalizou Mauro, no limite de seu estresse.
A bateria do celular de Paulo descarregou totalmente no segundo seguinte à ameaça do gerente e o instalador passou do conformismo à revolta de um momento para outro.
- Droga! Droga! Droga! – xingou ele, chutando com violência o pneu enlameado. – Não é justo eu perder meu emprego por causa da porcaria de um B.D.!
Instintivamente consultou o horário e ao verificar 15:01 entrou em desespero. Aproximou-se da ponte para ver se tentava atravessar, mas era impossível. Morte na certa. “Meu Deus, e agora?”.
Quando tudo parecia irremediavelmente perdido, Paulo observou o Uno branco com logotipo da Optical se aproximar do lado oposto do rio e dois homens desembaracaram do carro. Reconheceu Alfredo, o supervisor da Operação, e o ajudante e pediu socorro, forçando sua voz ao máximo que podia para ser entendido acima do barulho da cachoeira que descia sobre a ponte.
- O quê? – perguntava Alfredo.
- Liga pra Tânia! É urgente!
Quando compreendeu, Alfredo ligou imediatamente e dentro de alguns segundo sinalizou positivamente para Paulo, embarcando com pressa no veículo. Paulo observou o veículo afastar-se e suspirou aliviado, porque a bomba já não estava mais em suas mãos. Porém, a preocupação continuou o acompanhando depois que partiu e ele nem notou o arco-íris que se formava sobre o rio, ganhando o céu com suas cores reluzentes.
No Consórcio, a tensão predominava, embora os mais de 30 IRLA’s estivessem baixando suas O.S.’s rapidamente, principalmente as das estações de São Bento do Sul e Jaraguá do Sul. Os B.D.’s que oneravam os indicadores cujo acompanhamento estava sendo praticamente feito minuto a minuto causavam alívio assim que os IRLA’s entravam na URA (sigla usada para Unidade de Resposta Audível) e baixavam o serviço.
Tânia exercia uma tarefa-chave dentro de todo o processo e ficava cada vez mais tensa ao ver que o prazo se esgotava.
15:30.
“Vamos Alfredo”, rezava Tânia, enquanto acompanhava o sistema. “Acaba com isso de uma vez...” Seu telefone tocou e ela atendeu imediatamente. Mauro aproximara-se outra vez.
- Tânia – falou Alfredo apressado, – faz manobra de pares no BD da estação PIRB.
Graças a Deus – murmurou ela. Enquanto digitava os dados informados referente à mudança de pares do AD (Armário Digital), Mauro acompanhava com expectativa. Finalmente, para alívio de todos os funcionários do consórcio, ela anunciou a baixa do BD dentro do prazo, exatamente às 15:48.
Mauro sentiu que sua tensão se dissipou instantaneamente e ele pôde relaxar um pouco. A responsabilidade que recebera para garantir o contrato da macroárea norte de Santa Catarina e manter o primeiro lugar no ranking de concorrência com outras prestadoras de serviços telefônicos dentro do Estado tirara seus minutos de sossego. Havia muita coisa em jogo além do contrato: projetos de novas redes e restauração das antigas, milhares de empregos nas diversas filiais da Optical: norte e oeste de Santa Catarina e Cambé no Paraná. O aspecto humano sempre fora a maior preocupação de Mauro e ele pediu desculpas aos funcionários pelas atitudes anteriores. Mais calmo, pediu a Tânia que continuasse acompanhando os demais B.D.’s e se retirou.
No dia seguinte, ele participaria da reunião com a Sul Telefonia, e assinaria o contrato por mais quatro anos. Transmitiria então a notícia a todos os colaboradores do consórcio.
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