Minha foto
Joinville, Santa Catarina, Brazil

Capítulo 2 - Parte II - ESCLARECENDO O MAL ENTENDIDO



   Depois de se lembrar de todos os detalhes, Paulo se remexeu em seu lugar na cama e suspirou. Afinal, não era sempre que uma mulher deslumbrante como Elisabete convidava para uma visita. Os outros instaladores, quando se reuniam, invariavelmente narravam casos semelhantes, o que lhes dava orgulho. Mas Paulo não era do tipo. Era evidente o interesse que mulheres como Elisabete nutriam pelos homens e Paulo não desejava fazer parte desta categoria.

   Apesar de seus idealismos, não conseguiu adormecer imediatamente. Quando cochilava, a imagem dela aparecia em sua mente, perturbando seu sono.


ESCLARECENDO O MAL ENTENDIDO

   Alguns dias após o término do fechamento da produção dos instaladores, Luíza explodia em gargalhadas enquanto lia seus e-mails.

  - Acho que a minha amiga Fernanda não é bem certa.

  - Por que você diz isso? – perguntou Paloma, rindo do divertimento da amiga.

  - Vem cá ver o que ela escreveu pra mim.
Paloma foi até a mesa onde Luíza trabalhava, leu o texto do e-mail e também riu, enquanto fazia comentários zombeteiros. Tatiana e Natália observavam-nas e riam, mesmo sem imaginar qual o motivo do riso, apenas porque a alegria delas era contagiante. Logo todas voltaram às respectivas atividades e Tatiana continuou sua tarefa de separar os documentos que haviam sido entregues no dia anterior. Ela estava de frente para a porta e sentiu um frio no estômago quando viu Paulo entrando no departamento.

  - Tem bloco de ASLA? – solicitou ele, nada amistoso.

  - De quantos você precisa? – perguntou ela, tentando parecer natural, mas receando que ele a ofendesse novamente.

  - Vê dois pra mim.

   Enquanto ia até o depósito, Tatiana procurava reunir coragem para pedir desculpas para o instalador. Por um acaso tomara conhecimento da dificuldade que Paulo enfrentara no dia do incidente com ela e refletiu. Em vez de se sentir ofendida, a própria Tatiana fora culpada. Admitira a culpa para si mesma e necessitava esclarecer a situação para ficar em paz com sua própria consciência. Um minuto depois, ela voltou com mais blocos do que podia carregar e acabou por derrubá-los no chão aos pés de Paulo. As garotas viram tudo e começaram a rir, e Tatiana, nervosa e embaraçada, abaixou-se rapidamente para colocar tudo em ordem.

  - Deixa eu te ajudar – ofereceu ele, impassível.

   Paulo também se abaixou, pegando todos os blocos e, sob a orientação dela, colocou-os sobre a prateleira de um armário. Dois blocos ficaram nas mãos de Tatiana e ela, bastante constrangida, estendeu-os para ele.

  - Acho que estes são seus...

  - Obrigado.

  - Paulo? – Ela chamou antes que ele saísse da sala.

  - Sim?

  - Eu queria me desculpar pelo que falei outro dia. Não tive intenção de te ofender. Não é do meu feitio ficar julgando ninguém, além do que sou nova por aqui.

  - Tudo bem – respondeu ele, com a expressão um pouco mais suave.

   Quando ele deixou a sala, Tatiana virou-se para Luíza, Paloma e Natália, que ainda riam da cena anterior, e comentou:

  - Tem certas coisas que a gente não deve deixar de dizer.

   Em seguida sentou, procurando se concentrar em seu trabalho.


UMA NOITE DE DESCONTRAÇÃO


   Na sexta-feira, Luíza, Paloma, Tatiana e Natália resolveram sair para se divertir. O local escolhido foi o Tratu’s Bar, pois era o dia em que o “Peça Cantando”, nome de um programa de rádio que dava oportunidade para os ouvintes participarem da programação cantando um trecho da música desejada, era apresentado ao vivo diretamente do local.

  Após se acomodarem, decidiram pedir uma jarra de vinho que foi servida dentro de poucos instantes. O garçom se retirou sob os olhares atentos delas, que explodiram em gargalhadas após um comentário malicioso de Paloma. A bebida estimulava os sentidos e tudo era motivo de riso, inclusive os calouros que subiam ao palco para cantar.

   Tatiana sentia-se leve e acompanhava as amigas nas brincadeiras, respondendo sempre com alguma outra gracinha. A noite estava divertidíssima até Paloma comentar:

  - Olha lá quem chegou, Tatiana! O seu amigo...

  - Amigo, vírgula!

   Tatiana viu Paulo sentar-se a uma mesa próxima a elas. Em seguida, ele pediu uma bebida e ficou ali por muito tempo, calado, apenas observando a balada. Quando o show acabou, ele baixou os olhos para o copo que alisava.

  - Posso me sentar com você?

   Paulo olhou para a mulher que o abordara e apenas fez um gesto para que ela se sentasse.

  - O que faz aqui, assim, sozinho? – perguntou ela, com um sorriso nos lábios. – Está esperando alguém? – Elisabete acendeu um cigarro e olhou para ele pretensiosamente. – Acredita em destino, Paulo?

  - Não – respondeu ele, rispidamente.

  - Pois eu acredito. Desde que você foi instalar o meu telefone, não deixei de pensar em você um dia sequer. Eu fiquei te esperando naquela noite, sabia? Alimentei uma esperança de te encontrar novamente e olhe só o que consegui. Isso então não se chama destino?

  - É, talvez.

   Ele não tinha qualquer interesse nela e pretendia ficar sozinho buscando recordações dos tempos felizes que vivera com a esposa. Ainda usava a aliança, porque era uma forma de manter vivas as lembranças de seu grande amor. Sempre lamentava a morte de Evelin, sentindo o remorso consumi-lo dia-a-dia. Mesmo assim, não insistiu para que Elisabete se afastasse.

   Elisabete permaneceu calada, enquanto o observava atentamente. Tentou imaginar o que ele poderia estar pensando, pois parecia ausente e demonstrava uma carência irresistível. Seu dedo circulava em torno da borda do copo e ela pode perceber a aliança no anular esquerdo. Imaginando que ele tivesse sofrido uma grande decepção com a esposa, motivo pelo qual estaria sozinho em um bar, Elisabete sorriu interiormente. O sabor da aventura deu-lhe ainda mais incentivo e, com um pouco de paciência, palavras meigas e carícias, induziu-o a acompanhá-la.

   Tatiana observou o casal sair e embarcar em um Scenic zero. Acompanhou toda a troca de carícias entre eles e nem ouviu a conversa entre Paloma, Luíza e Natália.

  - Tatiana, você e as suas viagens! – criticou Luíza.

  - Ãh? – fez Tatiana, meio alienada.

   Elas caíram na gargalhada, porque sabiam que Tatiana tinha por hábito “viajar”,  esquecendo o mundo a sua volta.

  - Eu tenho certeza de que ela estava seguindo o manual – declarou Paloma, relembrando, ao mesmo tempo em que ria, o “Manual da Viagem” que Tatiana escrevera certo dia.

  - Você tava longe, hein, amiga! – falou Natália.

   Tatiana ficou subitamente cansada. Deixou dinheiro para pagar a sua parte e levantou-se para ir embora sob os protestos das amigas. Ela saiu do ambiente que se tornara subitamente desagradável, tentando apagar de sua cabeça as imagens de Paulo e da namorada. Achou tolo estar pensando neles e não admitiu para si mesma que tivessem sido eles os responsáveis por sua noite ter ficado chata e aborrecida.






Nenhum comentário:

Postar um comentário