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Joinville, Santa Catarina, Brazil

Capítulo 2 - QUEM FALA O QUE QUER, OUVE O QUE NÃO QUER


   Após ter resolvido o problema do abastecimento, Paulo fez mais três instalações e, no final do dia, deixou o carro na garagem do almoxarifado que ficava na Rua Dona Francisca no bairro Saguaçu. Apanhou as O.S.’s (ordens de serviço) e seguiu até o prédio onde ficava o setor administrativo de controle de produção.

   Chegando lá, cumprimentou as funcionárias e deixou os documentos dentro da caixa de coleta que ficava na prateleira de uma estante.

  - É tudo culpa desses instaladores – resmungou Tatiana. – Se a letra não fosse tão feia, eu não teria digitado errado.

  - Fala pra ele, Tatiana, fala – incentivou Luíza, imaginando que Paulo fosse levar na brincadeira.

  - Falo mesmo. Eu queria que cada um de vocês, instaladores, viesse trabalhar no fechamento da produção pra ver as baianadas que vocês aprontam – declarou Tatiana, enquanto conferia um relatório.

   Depois de tudo o que Paulo passara em campo, a reclamação da garota esgotou o instalador e este a xingou até extravasar seu estresse.

   Ele saiu e Tatiana sentiu vontade de chorar, pois ficara magoada com a repreensão. As outras pessoas sempre falavam o que bem entendiam e Tatiana pensava que poderia agir da mesma maneira, mas ninguém lhe dava o direito de desabafar. O instalador foi apenas mais um em sua lista de reprovações. Ela respirou profundamente e engoliu as lágrimas, lembrando para si mesma que já não era mais uma garotinha. Pelo contrário, era adulta e independente, mas faltava aprender a se defender de ofensas e não se magoar tão facilmente.

  - Eu não pensei que ele fosse acreditar no que eu falei...

  - Deixa, Tatiana, ele pensa que é gente – logo respondeu Paloma, demonstrando um certo preconceito.

  - Fica calma – tranqüilizou Natália, enquanto digitava.

   Paulo saiu do prédio sentindo muita raiva da funcionária que o recriminara. O cansaço daquele dia, aliado à tensão haviam gerado em Paulo uma impaciência agressiva, por essa razão fora incapaz de conter a irritação. Ele sentiu necessidade de ar puro e, em vez de atravessar a rua e ir até o terminal João Colin, decidiu ir a pé pela avenida Santos Dumont. Sua casa ficava em uma lateral da avenida e ele levaria uns 20 minutos para chegar, tempo suficiente para se acalmar. Quando finalmente chegou em sua residência, sentia-se um pouco mais tranqüilo. Ele procurou roupas limpas e foi direto para o banho, tomando uma ducha fria. Em seguida, preparou uma refeição rápida.

   Após terminar, Paulo deitou-se na cama e, como era de hábito, avaliou seu dia de trabalho. Se não tivesse ocorrido aquele fato logo cedo, seu dia estaria totalmente arruinado.


O PERIGO TEM NOME E ENDEREÇO

   Paulo chegou ao almoxarifado às 8 horas para apanhar o carro para trabalhar. Já dentro do veículo, ligou para a plataforma de serviços e anotou os dados dos serviços que estavam gravados em sua caixa. Em seguida, procurou a ordem de serviço, cujo vencimento era mais urgente, ligou para o Centro de Operações e solicitou ao atendente verificar no sistema a existência de um contato com o assinante. Então ligou para o celular informado. Uma voz feminina suave e meiga atendeu. Paulo identificou-se e após confirmar com a mulher se ela desejava realmente a instalação, dirigiu-se para o endereço.

   A casa da assinante ficava quase no final da Estrada do Pico e Paulo receou que não pudesse concluir a instalação por ser FATB, ou seja, fora da área de tarifação básica, fato que se fosse confirmado, obrigaria a assinante a solicitar orçamento para a operadora de telefonia. Enquanto dirigia, ele observava os postes e constatou que não se tratava de FATB e, portanto, este não seria um impedimento para a execução do serviço.

   Ele chegou na casa de itaúba descrita pela assinante da linha telefônica e estacionou o carro. Uma moça loira estava sentada em uma cadeira de vime e logo se levantou para atender o instalador.

  - Moça, sua mãe está em casa? – perguntou ele, observando a jovem parada em sua frente. Esta abriu um sorriso zombeteiro e cruzou os braços, sem responder. Paulo tentou outra vez. – Eu vim instalar o telefone da Elisabete Schroeder e...

  - Eu sou Elisabete Schroeder – corrigiu a moça, porque ele havia pronunciado seu sobrenome de forma incorreta.

  - Desculpe – falou ele, sem graça. – Você é tão jovem que eu não pensei...

  - Que fosse eu a Elisabete? Se isso é um elogio, então eu agradeço – falou ela, esboçando um sorriso encantador.

  - Muito bem – ele procurou mudar de assunto. – A instalação interna está pronta? – A jovem afirmou e pediu para Paulo acompanhá-la.

   Elisabete despertou a curiosidade dele, pois agia como uma mulher independente e segura de si, e ao mesmo tempo, revelava educação e cordialidade como poucas das pessoas que o recebiam. Sobretudo, sua beleza exuberante o desconcertava, enquanto a seguia. Quando ela parou na porta do escritório e apontou para a tomada que aguardava a instalação definitiva, Paulo tentou dissimular sua perturbação e voltou para o veículo para retirar o material que necessitava.

   Ao terminar a instalação do fio nos postes, Paulo recolheu o material e seguiu de carro até o AD (armário digital), onde ativou o par primário e o par secundário. Usou seu celular para testar a linha e voltou para a casa de itaúba. Preencheu o documento no carro e desembarcou, seguindo para a varanda, onde Elisabete se encontrava.

  - Pode assinar isto? – perguntou ele, estendendo o documento.

  - Sente-se – pediu ela, enquanto assinava.

  - Muito obrigado pela gentileza, mas eu tenho outras coisas para fazer.

  - Eu imagino que seu trabalho seja estressante. Os clientes devem ser todos chatos e exigentes.

Ele não respondeu. Aguardou que ela assinasse e destacou a segunda via.
Isto é seu.

  - Obrigada. – Ela observou o nome dele no crachá e após uma breve pausa, tornou a falar. – Fique mais um pouco, Paulo. Você é muito agradável.

  - Eu gostaria muito, mas como já disse, estou ocupado o dia inteiro.

   Elisabete não demonstrou ressentimento pela recusa e levantou tranquilamente da cadeira, permanecendo imóvel diante dele. Paulo, por sua vez, não conseguia desviar a atenção daquele olhar cativante, porém, não gostava de se envolver com assinantes.

  - Agora você já conhece o caminho. Venha até aqui mais tarde. Eu moro sozinha e a solidão é tão desgastante...

Ele não se comprometeu e foi embora.

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