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Joinville, Santa Catarina, Brazil

Plano de Aula - Ortografia e Pontuação - Plano B - Criatividade e Improviso

A professora Edilene entrou na sala de aula do ensino médio, cumprimentou a classe, contudo, não se fez notada nem em sua segunda tentativa, já que, sendo tarde de segunda-feira, seus alunos estavam freneticamente absorvidos em relatos de seu fim de semana.

O tema do dia em seu plano de aula era um estudo sobre a ortografia e pontuação, e ela bem que tentou prosseguir, mas sem sucesso. Alguns instantes de hesitação da parte da professora, e ela pensou que era necessária uma estratégia diferente daquela a que estava acostumada. Então, encontrou dentro de si a melhor voz de locutora que sabia encarar, ajeitou seu timbre e tom e assim iniciou seu plano de aula B:

- De um futuro bastante distante, uma era em que a tecnologia tomou conta da Terra, surgiu o Mestre da Má Educação! Há-há-há-há! 

- Minha nossa, mas que susto o senhor me deu! - respondeu a professora Edilene, como se estivesse conversando com uma pessoa diante de si. - O senhor precisa de alguma coisa? Caso  contrário, poderia sair, pois está interrompendo minha aula?

- Como ousa falar dessa maneira com o Mestre da Má Educação? - empertigou-se Edilene, como se fosse o personagem surgido do nada.

Tal encenação atraiu a atenção dos alunos, que se calaram, seja por curiosidade, seja pela péssima atuação da professora, que para artes cênicas talento não tinha nenhum. Alguns consideraram ridículo e apenas reviraram os olhos. Outros acharam divertido, e cochicharam entre si. Outros permaneceram quietos, atentos ao desenrolar dos fatos.

- Eu sou do futuro - disse o tal Mestre da Má Educação, - e vim provar que educação é bobagem, que seus alunos não precisam aprender nada! NADA! - repetiu.

Depois de um momento de interrupção em que percebeu que a classe estava mais silenciosa do que antes, a professora voltou-se para eles e disse:

- Ei! Vocês ainda não estão escrevendo? Está valendo de zero a dez, pessoal! Prova de ditado, vou avaliar a pontuação e ortografia. Depressa! Destaquem uma folha, coloquem seu nome e comecem. Vocês já perderam o primeiro parágrafo.

Confusos, os alunos se entreolharam, cada qual expressando uma reação diferente. Dava para ler em seus semblantes o que se passava em suas mentes: professora perdeu o juízo, vou denunciar essa professora doida para a direção, não estou entendendo nada, o que foi que eu perdi, etc... Mas depois de duas semanas em que Edilene seguia rigidamente o plano de educação em uma formalidade que fazia jus a seu quase meio século de existência, era natural seus alunos estranharem. Coisa que a divertiu secretamente.

Enfim, iniciou novamente seu ditado, coisa de improviso, inclusive a narrativa, que não sabia de onde havia inventado tão rapidamente. Depois de algumas queixas dos seus alunos, que se demoravam a escrever, Edilene continuou:

- De onde vim, há aplicativos capazes de usar ortografia e pontuação em todos os textos publicitários, artigos científicos, livros digitais, legendas em videoconferências. Não há mais necessidade de ensinar isso agora, professorinha - disse o Mestre da Má Educação, sarcasticamente, querendo puxar briga com a professora.

- Obviamente que lá no seu futuro, senhor Má Companhia, ou melhor, Má Educação, ninguém precisa se incomodar com a ortografia ou a pontuação, porque hoje, no presente, há pessoas interessadas em ensinar e aprender esses temas. E se lá no seu futuro distante as pessoas não precisam mais disso, é porque as pessoas de hoje se tornaram especialistas no assunto, se formaram programadoras para facilitar e agilizar a comunicação.

E assim, a professora não precisou usar golpes e nem violência verbal como argumento, e com um debate muito respeitoso, convenceu o Mestre da Má Educação a admitir que se destruísse a educação do presente, não haveria a comunicação do futuro. Contrariado, entretanto, mais esclarecido, o vilão da Má Educação retornou para sua era com uma nova visão.

Finalizado o ditado, Edilene solicitou que cada aluno passasse sua folha para o colega de trás e a folha do aluno da ponta ela entregou para o primeiro, para que fizessem a correção, com sua supervisão.

Depois disso, ela usou os minutos finais de sua aula para discutir o tema: "Por que educação é importante?" e ficou bastante satisfeita, uma vez que os estudantes demonstraram espontaneidade e engajamento.









Publicação


Arlete, uma jovem professora, e Ingrid, mulher arrogante e de caráter duvidoso, tornam-se reféns em um assalto a banco e são sequestradas pela quadrilha de Juarez. Tendo a morte como alternativa, elas são levadas para a favela da Rocinha, no Rio de Janeiro, onde passam a viver sob constante vigilância. Enfrentam circunstâncias perigosas, mas não deixam de sonhar com o retorno para o seu verdadeiro lar. O que não imaginam é que a Polícia Federal está à espreita e a libertação delas depende da captura do chefe do tráfico. Enquanto aguardam o momento oportuno para escapar das mãos dos sequestradores, Arlete é estimulada a lecionar para alguns estudantes da vizinhança e Ingrid colabora com a organização de uma pequena sala de aula. Entretanto, o tempo de fuga pode acontecer a qualquer momento e elas terão que deixar tudo para trás.


 

Resumo - As Crônicas de Nárnia


Há coisas que trazemos da infância e que mesmo depois de adultos ou até idosos, continuam a nos interessar, tais como as leituras de histórias de fantasias. Se antes, as histórias fictícias nos causavam deleite na imaginação, hoje já se pensa em adaptar a história para contar às crianças que já tem idade para ouvi-las e gostar de toda a fantasia.

Pois bem, encontrei esse segundo objetivo em As Crônicas de Nárnia e aqui vou desencadear a história como se eu a estivesse contando para crianças.

Este volume único é dividido em seções, das quais a primeira é intitulada O Sobrinho do Mago.

Há muito tempo atrás, em Londres, na época em que ainda havia carruagens e cocheiros, viveu uma menina chamada Polly e um rapaz chamado Diggory. Quando eles se conheceram, não gostaram imediatamente um do outro, mas eram vizinhos, e assim começaram a se aventurar nos telhados das casas, onde Polly mantinha seu cantinho secreto. Como as casas de Londres eram todas coladas umas nas outras, era possível passar entre elas por meio de espaços entre os telhados, e foi assim que Diggory e Polly começaram sua amizade.

Calcularam entrar na casa vazia que fazia vizinhança com a casa do Tio André, o tio de Diggory, que morava com a mãe e a outra irmã. Mas por um erro de cálculo, os dois personagens acabaram dentro do laboratório secreto do tio André a vislumbrar uma bancada cheia de anéis verdes e amarelos muito brilhantes e chamativos. Foi onde o tio André os flagrou, e este, todo metido a feiticeiro, contou a história de que ele tinha recebido uma incumbência da fada madrinha dele, de enterrar um pozinho que teria vindo de outro mundo, mas tio André não obedeceu e criou os aneis. 

Diggory e Polly ficaram muito chateados quando tio André disse que tinha enviado um porquinho da índia para outro mundo e nem sabia onde o animalzinho tinha ido parar. Então o tio André enganou Polly e fez com que ela vestisse o anel mágico e puff... Polly desapareceu.  Indignado, Diggory concordou em levar o outro anel mágico para trazer Polly de volta e assim começa a aventura.

Diggory saiu de dentro de um lago (e a magia não deixou que ele se encharcasse) e encontrou Polly em um bosque tão silencioso que dava para escutar as árvores crescendo. E viram também o porquinho da índia, todo feliz, pastando. Quando Diggory explicou a Polly que viera buscá-la trazendo o outro anel mágico para o retorno, tiveram a ideia de em vez de voltar imediatamente, entrar em outra das lagoas para ver em que mundo eles iriam parar. E dito e feito, eles acabaram num mundo chamado Charn, onde o sol parecia velho, e tudo estava sem vida. Havia estátuas de pessoas em um enorme  salão, e as pessoas estavam bem conservadas, em vista da ruínas em volta. Foi quando um  encantamento chamou a atenção de Diggory e Polly, uma charada para tocar um pequeno sino. Polly logo quis  impedir Diggory, mas a curiosidade do menino venceu, e ele tocou o sino. O problema foi que acabou por despertar a feiticeira que tinha acabado com tudo o quanto era vivo naquele mundo.

Quando Diggory e Polly tentaram  retornar à Londres, a feiticeira foi junto e causou a maior confusão. O tio André ficou todo apavorado, mas levou a feiticeira para conhecer a cidade, que ela pretendia conquistar. Quando voltaram, a polícia veio no encalço, o pobre do cocheiro e o cavalo que puxavam o cabriolé estavam assustados, pois a feiticeira tinha assaltado uma joalheria, e ela logo dizia que ela estava lá para pegar o que era dela de direito, e o tio André não conseguia consertar a confusão. Foram Diggory e Polly, que com os aneis mágicos conseguiram levar a feiticeira para outro mundo, e com ela vieram o cocheiro e o cavalo e também o tio André.

E esse mundo estava começando a ser criado! O mundo é Nárnia! Graças a força de vida do rei Leão, que deu vida a tudo, desde o sol, até cada árvore, cada planta que cresceu, até o poste que a feiticeira tinha arrancado em Londres para atacar a polícia nasceu ali quando foi fincado na terra. E os animais todos falavam! Tudo era bonito, novo, tinha acabado de ser criado.

O tio André tinha ficado estupefato com o que presenciou, mas quando os animais falaram, o homem não conseguiu entender palavras, e sim, rugidos, e se apavorou até desmaiar. Os animais procuraram descobrir que tipo de coisa era o tio André, e como pensaram que era árvore, o plantaram até a altura do quadril.

A feiticeira, após entender que o Leão que se chamava Aslam, era o rei de Nárnia, e era poderoso, saiu de fininho e fugiu para, mais tarde, empreender um ataque à Nárnia. Aslam declarou que Nárnia, apesar de estar em suas primeiras horas de vida, já tinha sido invadida pelo mal, e que todos deveriam se preparar. Então, transformou o cavalo em um cavalo alado, e tornou o cocheiro e sua esposa rei e rainha de Nárnia. Pois encontrou um coração muito amável no cocheiro e considerou que ele seria o imperador ideal para proteger a recém-criada Nárnia.

Quando avistou Diggory e Polly, Aslam incumbiu o garoto de viajar até uma terra distante de Nárnia para trazer um fruto para o próprio Aslam. Então partiram no cavalo alado, que sobrevoou a terra de Nárnia até encontrar uma fortaleza onde crescia a árvore que produzia o fruto especial.

Lá chegando, Diggory encontrou-se com a feiticeira, que tentou enganá-lo incitando-o a colher o fruto e levar para a própria mãe de Diggory, que estava doente há muito tempo e desenganada. Contudo, Diggory foi fiel a Aslam e enfrentou a feiticeira. Apanhou o fruto, guardou com cuidado na sacola que levava e partiram novamente no cavalo alado.

Enquanto Diggory e Polly estavam fora, finalmente os animais entenderam que o tio André era um humano igual às crianças e o cocheiro com sua esposa e o libertaram. Mas tio André não foi capaz de se recuperar do choque de estar com tantos animais selvagens em sua volta.

Depois que Aslam recebeu o fruto, pediu para que Diggory o plantasse em Nárnia. Em instantes, a árvore cresceu e produziu novos frutos. Foi quando Aslam orientou o garoto a colher o fruto e levá-lo para o mundo de Diggory, para que ele pudesse tratar a saúde de sua mãe.

O cocheiro e a esposa se tornaram rei e rainha e Diggory e Polly voltaram para Londres. Depois que a mãe  de Diggory comeu a fruta, ela foi milagrosamente curada. E Diggory plantou o miolo da fruta em seu quintal e a árvore nasceu, não tão rápido como em Nárnia, mas floresceu e deu bons frutos, mesmo que não fossem frutos que curassem as pessoas. E a árvore conservava em sua seiva a magia de Nárnia, pois muitas vezes se via os galhos se mexerem mesmo quando não havia vento.

Quando Diggory, já um homem de meia-idade e proprietário da casa onde moraram seus familiares, ficou pesaroso quando uma forte tempestade derrubou a árvore. Ele transformou a madeira encantada da árvore em um armário, e foram outras pessoas que encontraram a magia do armário.

E assim termina essa primeira seção, e inicia a segunda com o título O Leão, a Feiticeira e o Guarda-roupa.

A história conta que um tempo depois, na época em que Londres estava sofrendo ataques aéreos por causa da guerra, quatro irmãos, Susana, Edmundo, Pedro e Lúcia foram morar na casa de campo de um professor (não diz que esse professor seria o Diggory, mas subentende-se que é ele mesmo,  já bem idoso). E os irmãos se aventuraram para conhecer a casa, que era muito antiga e cheia de cômodos misteriosos. Foi então que se depararam com o armário de casacos em uma sala em que só ficava aquele armário. Lúcia, a mais nova, foi a que primeiro se escondeu no armário, em meio aos casacos, e de repente, se viu em uma floresta em pleno inverno. Curiosa, ela saiu para ver de onde vinha certa luz, e imagine só, a luz vinha do lampião do poste que a feiticeira tinha plantado em Nárnia! Mas Lúcia, claro, não sabia dessa história. 

Andando um pouco mais, ela se deparou com um fauno, que foi muito hospitaleiro, levando-a para tomar chá e comer uma refeição na própria caverna. Quando Lúcia quis voltar para o portal no armário, o fauno disse que tinha ordens de, quando aparecesse alguma filha de Eva ou filho de Adão, deveria imediatamente levá-los para a Feiticeira Branca, mas o fauno era muito bondoso e não cumpriu sua missão, fazendo com que Lúcia retornasse em segurança.

Quando ela contou sobre a aventura que tinha passado, Edmundo, seu irmão, caçoou dela, e os outros irmãos também não acreditaram. Passaram muitos dias assim, fazendo chacota do que a Lúcia havia contado, até que um dia, Edmundo também escondeu-se no armário e ele próprio aportou em Nárnia. Mas foi a feiticeira branca quem ele conheceu, e o manipulou com uma comida, manjar turco, que estava encantada e fazia Edmundo obedecer todas as suas ordens. Ela lhe falou que para ter mais manjar turco, ele deveria trazer os três irmãos até o castelo dela. Então ele voltou mas não contou nada aos irmãos.

A casa de campo era aberta ao público que queria conhecê-la, pois havia muitas coisas antigas como um museu. Em uma destas visitas, os quatro irmãos, não querendo fazer parte do bando de crianças que adentraram a casa para a visita, esconderam-se todos no armário e foi onde tudo sobre Nárnia se revelou.

Pedro e Susana foram os dois irmãos que ainda não tinham visitado Nárnia e se maravilharam com aquilo. Pedro, contudo, o mais velho dos irmãos, repreendeu Edmundo por ter mentido sobre o segredo do armário, causando em Edmundo um sentimento de revolta que mais tarde, faria com que o garoto traísse seus irmãos.

Susana sugeriu que eles vestissem os casacos que estavam dependurados no armário e seguiram para a caverna do fauno Tumnus, e descobriram que ele havia sido aprisionado pela feiticeira branca por ter protegido Lúcia em sua primeira visita à Nárnia. O grupo, desolado, decidiu ir salvar o fauno e alcançaram a casa de um casal de castores, que após lhes fornecerem alimentos, empreenderam viagem para ajudar os irmãos.

Os castores traçaram um plano, porque eles sabiam que Aslam estava regressando à Nárnia e assim, a feiticeira teria uma luta de igual para igual. Entretanto, Edmundo, já contaminado pelo sentimento de vingança, aproveitou um momento em que todos os irmãos estavam entretidos na conversa e fugiu até o castelo da Feiticeira Branca, onde foi feito prisioneiro, porque não cumpriu o que a feiticeira lhe havia ordenado, que era trazer seus irmãos.  Ora, a Feiticeira conhecia a profecia de que quando dois irmãos de Adão e dois irmãos de Eva chegassem à Nárnia, eles seriam coroados reis e rainhas, e o império da feiticeira teria fim. Sendo assim, de posse da valiosíssima informação de que os grupo com os castores e os irmãos iriam se encontrar com Aslam, a Feiticeira chamou seu exército para persegui-los.

Enquanto os castores e os irmãos viajavam até a Mesa de Pedra, local onde se encontrariam com o Leão Aslam, presenciaram o inverno se desfazendo e em seu lugar, uma primavera mágica despontava. A feiticeira havia lançado um feitiço poderoso que transformou Nárnia em um interminável inverno, em que o Natal nunca chegava. E como Aslam, o criador de Nárnia estava retornando, seu feitiço estava se quebrando. Isso começou a acontecer logo após o Papai Noel ter encontrado o grupo e presenteado a todos. A Sra. Castor recebeu uma máquina de costura novinha em folha; o Sr. Castor ficou feliz com a promessa de ver seu dique terminado quando retornasse para casa; a Pedro, Papai Noel entregou um escudo e uma espada; Susana ganhou um arco, uma aljava cheia de flechas e uma pequena trompa; e, finalmente, para Lúcia, ele entregou uma garrafinha, que teria um bálsamo para cura.

Após o encontro do grupo na Mesa de Pedra, a Feiticeira ameaçou matar Edmundo, pois assim, a profecia não se cumpriria. Mas Aslam barganhou para a salvação do garoto e se entregou em sacrifício no lugar dele. Foi amarrado à Mesa de Pedra, teve sua juba tosquiada, foi torturado e por fim, morto. Foi quando ele reviveu graças à magia da aurora do mundo, que quando um inocente se entrega para a morte, essa magia profunda tem o poder de trazer o inocente à vida novamente.

E assim, partiu Aslam, os garotos e um exército para o castelo da Feiticeira Branca. Nos domínios da feiticeira, todos os animais, inclusive o fauno Tumnus, estavam transformados em estátuas de pedra, porém, Aslam tinha o poder de restituir-lhes a vida. Em seguida, a batalha começou. Do lado da feiticeira estavam todas as criaturas hediondas. Pedro lutou bravamente até derrotar o lobo gigante,  o principal protetor da feiticeira, com sua espada. Aslam lutou com a feiticeira e a derrotou.

Edmundo também lutou ao lado dos irmãos, e estava muito ferido. Lúcia o curou com gotas do bálsamo que recebera de presente do Papai Noel. E igualmente, curou a todos os feridos na batalha. Uma cerimônia oficial culminou no coroamento dos quatro irmãos e houve uma grande festa. 

O tempo passou, as responsabilidades vieram e foram sendo exercidas pelos reis e rainhas. Até que, certo dia, o fauno Tumnus trouxera a notícia de que um veado branco, raríssimo, tinha aparecido, e assim, Edmundo, o Justo, Susana, a Gentil, Pedro, o Magnífico e Lúcia, a Destemida, seguiram pelos bosques para apreciar tão famoso animal. Em vez de encontrarem o veado branco, atingiram um ponto da floresta com um poste e um lampião aceso, que os deixou curiosos, pois muito tempo já havia se passado, e a vida que tiveram do outro lado do armário parecia-lhes mais um sonho em conjunto. 

Então continuaram os quatro irmãos, e quando menos esperaram, estavam novamente entre os casacos do guarda-roupa mágico, e eram novamente eles, em suas roupas antigas e com a idade que tinham antes de se tornarem reis e rainhas de Nárnia. Sentiram-se na obrigação de contar ao professor sobre o sumiço dos quatro casacos do guarda-roupa, e o professor acreditou em toda a história e ainda lhes afirmou que não deveriam tentar voltar à Nárnia pelo mesmo caminho, porque Nárnia apenas acontece.

E assim, finda a segunda fase da história e inicia a terceira, intitulada "O Cavalo e o seu Menino".

Como o objetivo desta resenha é aquilo que eu me lembro, não vou me ater aos detalhes desta nova fase, mas sim, aos acontecimentos em si, uma vez que levei umas boas páginas para entender que a história era uma continuação da época em que Edmundo, Pedro, Susana e Lúcia reinavam Nárnia, e fiquei curiosa por saber em que ponto as fases se intercalavam.

O menino do qual fala a história tem o nome de Shasta e foi adotado ainda bebê por um pescador de uma terra ao sul de Nárnia, e chamava o homem de pai. Esse garoto sofria nas mãos do pescador, pois era obrigado a realizar todas as tarefas e não era tratado melhor do que um escravo. E Shasta vivia a sonhar com as terras do Norte, e quando perguntava ao pescador, levava uma sova ou então indiferença.

Certo dia, apareceu um cavaleiro ilustre, que tinha o título de tarcaã, uma espécie de guerreiro, e negociou a compra do garoto com o pescador que o mantinha cativo. Shasta, ouvindo atrás da porta e percebendo que a negociação poderia durar horas, voltou ao estábulo, onde o pescador o enviara para não estar em casa enquanto recebia o cidadão ilustre e começou a falar consigo se não seria melhor ser comprado pelo tarcaã a viver com o homem que o criara. Foi então que levou o maior susto, pois o cavalo do tarcaã lhe falara, em voz perfeitamente humana, que era uma péssima ideia. Aí lhe revelou que ele era um cavalo de Nárnia que fora sequestrado e escravizado quando ainda era um potro. O cavalo tinha um nome comprido, mas Shasta só lhe chamava de Bri.

Bri então ajudou Shasta a planejar a fuga de ambos para as terras do Norte, onde ficava Nárnia, coisa que agradou ao garoto, já que ele sempre ficava encantado com aquelas terras que não conhecia. Assim, empreenderam a fuga. Bri ensinou Shasta a montar e o proibiu de usar os estribos, porque ele havia sido um cavalo de guerra e sabia perfeitamente o caminho. Shasta levou vários tombos, e Bri, muito paciente, mostrava ao menino como ele deveria montar. Dessa forma, entre caminhadas, trotes e quedas, eles precisaram viajar por vários dias, enfrentando diversos perigos nas florestas, como os animais selvagens, ou quando passavam por vilarejos, pois Shasta poderia ser acusado de roubo do cavalo, já que Bri tinha um porte diferente dos cavalos normais. 

Certo dia, durante a noite em que viajavam por uma densa floresta, ouviram uivos e rosnados e se viram perseguidos por leões. Foi onde se encontraram com outra aventureira, Aravis, que da mesma forma, cavalgava uma égua falante chamada Huin. Após eles atravessarem um rio a nado e estarem em segurança longe dos leões, Aravis contou sua história e porque estava fugindo para Nárnia.

Ela era uma princesa e estava prometida em casamento para um tarcaã idoso, corcunda e cruel chamado Achosta, que era um súdito de um rei chamado Tisroc. Como ela não queria se casar, foi para um lugar na floresta e quando quis tirar a própria vida, sua égua falou com ela, que não deveria se desesperar, porque sempre há uma chance para quem chega à Nárnia. Assustada com o fato da égua de estimação Huin falar, mas alegre com a nova esperança, Aravis enganou o pai e os empregados e fugiu vestida com a armadura do irmão que havia morrido um tempo atrás e do qual ela ainda sentia muita saudade. 

Aravis foi um tanto arrogante com Shasta, e conversava mais com Bri. Entretanto, ter companhia para chegar à Nárnia valia o empenho para Aravis. Eles precisavam passar por uma cidade chamada Tashbaan para prosseguir seu caminho, porém, Shasta foi confundido com o príncipe daquele reino e separado do grupo. 

Foi nesse momento que a história demonstrou porque foi contada, pois os reis e rainhas de Nárnia, Pedro, Edmundo, Susana e Lúcia estavam nesta cidade. O filho de Tisroc, Rabadash, queria desposar Susana, porém, ela não gostou dele, por ser um homem rebelde, injusto e levado a muitas desumanidades que Susana não aprovava. E foram eles que confundiram Shasta com o príncipe verdadeiro chamado Corin. Enquanto estavam tratando de Shasta, que segundo eles tinha desaparecido por mais de um dia naquela terra estrangeira, traçaram planos para poder voltar para Nárnia, pois precisariam enganar Rabadash. Quando todos saíram, o verdadeiro príncipe, Corin, escalou o prédio e entrou no quarto onde estava Shasta, e trocaram de lugar. Shasta então seguiu para as tumbas do deserto, local em que combinaram se encontrar, caso Bri, Huin e Aravis se perdessem na multidão de Tashbaan.

Enquanto Shasta estava nesta confusão, foi a vez de Aravis passar por maus bocados. Ela encontrou uma amiga, que abrigou os dois cavalos e ajudou Aravis a traçar um plano para fugir de Tashbaan. Quando elas estavam seguindo pelos corredores que iam dar para um portão que saía da cidade, elas quase foram surpreendidas e se esconderam em um quarto em que ouviram o plano de Rabadash, Tisroc e Achosta, porque Rabadash, insultado por Susana ter fugido e não aceitado casar com ele, decidiu invadir e tomar o reino de Arquelândia, forçaria Susana a desposá-lo e seguiria para tomar Nárnia. Depois que as garotas conseguiram escapar em segurança, decidida, Aravis viajou até as tumbas para encontrar Shasta, Bri e Huin, e assim os quatro seguiram viagem para poder avisar os planos secretos de Rabadash e evitar a guerra que ele prometia.

Quando os cavalos quase não conseguiam mais trotar, fugiam por uma floresta e um leão atacou Huin e Aravis, Bri fugiu e Shasta, mesmo sem ter qualquer treinamento para combate, sem ter qualquer arma, voltou para enfrentar o leão e salvar Aravis e Huin. Então, encontraram um eremita, que lhes deu abrigo, alimento e proteção. Enquanto isso, Shasta correu para se encontrar com os reis e rainhas de Arquelândia para se protegerem do ataque de Rabadash, que vinha com duzentos cavalos e guerreiros.

Graças ao aviso de Shasta, Arquelândia pôde se proteger contra o ataque e venceram a luta contra Rabadash. Shasta descobriu que era irmão gêmeo de Corin, o príncipe, e que havia sido sequestrado quando bebê. Seu nome verdadeiro era Cor.

Aslam apareceu na história algumas vezes. Uma delas foi quando Shasta estava cavalgando sozinho para ir avisar sobre o ataque. Ainda antes, quando a princesa Aravis tinha sido atacada, foi pelo próprio Aslam. E foi o Leão que transformou o príncipe Rabadash em um burro, e voltaria a ser humano somente quando voltasse a uma cerimônia em Tashbaan. E se ele se afastasse mais de dez quilômetros de sua cidade, poderia voltar a se transformar em um burro e não teria mais volta.

Aravis foi convidada a viver em Arquelândia e mais tarde casou-se com Cor. Cor assumiu a posição de rei após a morte do pai, porque ele nasceu vinte minutos antes do irmão gêmeo Corin, e Corin não tinha responsabilidade para reinar, e sim, habilidade para guerrear. Bri e Huin também viveram até idade bastante avançada e foram tratados com o respeito que merecem todos os animais de Nárnia.

E assim termina a terceira fase de As Crônicas de Nárnia e inicia a quarta fase: O Príncipe Caspian.

Admito que fiquei um tanto decepcionada com a última fase da história, pois eu queria mesmo era saber o que havia acontecido a Edmundo, Susana, Pedro e Lúcia, que após reinarem Nárnia durante muitos anos, tinham voltado pelo Ermo do Lampião para o guarda-roupa, e voltaram no tempo, sendo novamente as crianças em Londres, e não mais reis e rainhas.

Foi então que iniciei com maior entusiasmo a quarta fase, em que os quatro garotos estavam na estação de trem após um ano de seu retorno de Nárnia. Todos estavam retornando aos respectivos colégios, porém, antes que o trem chegasse, eles sentiram uma espécie de chamado e todos deram as mãos. Então viajaram para uma ilha deserta, onde descobriram um  pomar de maçãs em volta das ruínas de um castelo. Aos poucos, suas lembranças foram vindo à tona, e eles descobriram que estavam centenas de anos à frente de quando haviam reinado, e as ruínas nada mais eram de que seu próprio castelo em Cair Paravel. Assim, encontraram em um alçapão seus tesouros, que estavam intactos, e levaram apenas aqueles que haviam recebido de presente e com os quais travavam as batalhas: o arco e flecha de Susana, o elixir de Lúcia, a espada e o escudo de Pedro, e Edmundo, que não ganhou nenhum presente pois não estava junto no dia, já que tinha ido ao encontro da Feiticeira Branca, apenas se preocupou em poupar as pilhas de sua lanterna nova.

Enquanto eles estavam tentando entender porque retornaram à Nárnia, puderam salvar o anão Trumpkin das mãos de malfeitores. O anão contou-lhes então que ele fora enviado para esta parte de Nárnia porque a trompa de Susana havia sido tocada e ele era enviado para buscar o auxílio que a trompa traria. Ele contou que o príncipe Caspian teve de fugir do próprio castelo porque seu tio Miraz iria matá-lo, uma vez que Caspian tinha direito ao trono, porém, no castelo de Caspian a rainha, esposa do tio, havia tido um filho, que também tinha direito ao trono. E Caspian cresceu aprendendo sobre a Nárnia que existia outrora, mas que os adultos não permitiam mais que se contasse as histórias dos animais falantes, árvores falantes, druidas, e todas as criaturas mágicas que habitavam Nárnia, porque aquele rei, após o desaparecimento dos reis Edmundo, Susana, Pedro e Lúcia, havia destruído todas as coisas em Nárnia.

Porém, Caspian era um bom homem, e quando fugiu, encontrou ajuda na floresta, dos seres sobreviventes de Nárnia: texugos, anões, ratos, ursos, um gigante. E assim, formou um exército que combateu durante muitos dias com os guerreiros do tio. Foi em um momento em que não viam saída que Caspian decidiu tocar a trompa em busca de auxílio, e o esquilo mais inteligente e o anão foram enviados para encontrar o auxílio e mostrar o caminho a quem quer que viesse.

Convencido de que os quatro garotos eram mesmo os antigos reis de Nárnia, eles retornaram para o local em que Caspian e os sobreviventes estavam guerreando, não sem se perderem várias vezes pelas florestas, serem atacados por um urso que tinha virado feroz, passando fome e necessidades com a viagem. Foi quando Aslam apareceu primeiro para Lúcia, que não conseguia convencer os irmãos de que realmente o Leão estava lá, mas que em dado momento da história, todos conseguiram ver Aslam, inclusive o anão.

Com a ajuda de Aslam, retornaram até o príncipe Caspian. Então se apresentaram aos guerreiros que estavam junto com Caspian: o seu preceptor/professor - o Dr. Cornelius, o texugo Caça-Trufas, os ratos, o gigante, o esquilo, os cíclopes, ursos. E Pedro solicitou que o professor escrevesse uma carta chamando o inimigo para um duelo. 

Miraz aceitou duelar com Pedro e foi uma luta bem difícil. Porém, quando Miraz caiu e não mais se levantou, os governadores incitaram o exército que havia acontecido uma traição e assim todos avançaram contra Pedro e o exército de Caspian. Enquanto todos lutavam, Aslam estava reunindo o seu próprio exército, a própria floresta, que se transformou e começou a lutar com o exército do malfeitor Miraz. Toda a natureza estava a favor do lado de Caspian. Nárnia despertou e assim, venceram a batalha.

Depois de terem feito prisioneiros o exército inimigo e de terem um banquete após a vitória, Aslam criou um portal no meio da floresta e ofereceu que cada pessoa que vivia na cidade de Miraz e que não fosse a favor do novo rei Caspian, decidisse atravessar o portal para as ilhas de onde seus ancestrais haviam vivido. Por este portal, também os quatro jovens atravessaram, bem a tempo de pegar o trem. 


E assim finda este livro e inicia a quinta parte: A Viagem do Peregrino da Alvorada.

O pai de Pedro, Susana, Edmundo e Lúcia arranjou um emprego de professor nos Estados Unidos e assim, somente a  mãe e Susana foram junto com ele. Pedro teria que se apresentar para um exame e ainda estava estudando, enquanto Edmundo e Lúcia foram enviados para a casa dos tios Arnaldo e Alberta, e não ficaram nada satisfeitos por causa do primo Eustáquio, um garoto arrogante, preguiçoso e maquiavélico.

Pois bem, esse primo não perdia uma só oportunidade para aborrecer os outros dois, e quando flagrou-os conversando sobre Nárnia, caçoou dos primos. Aborrecidos, eles estavam fitando um quadro em que aparecia um mar revolto com um navio antigo que tinha o nome de Peregrino da Alvorada. Em certo momento  em que discutiam, o quadro tomou vida e capturou os três jovens para dentro do mar.

Eles foram resgatados por Caspian, que logo reconheceu o rei Edmundo e a rainha Lúcia, e Eustáquio, como sempre, uma presença constantemente intragável, só soube reclamar. Criou encrenca com o rato guerreiro Drinian que o chamou para um duelo, mas como Eustáquio, que estava bem por fora do tempo  em que viviam, percebeu que a coisa era séria e resolveu pedir desculpas em vez de duela. 

Havia passado três anos do reinado de Caspian em Nárnia e ele está firme no propósito de encontrar e vingar os amigos de seu pai que haviam sido enviados em missão no mar anos antes para que Miraz tomasse o lugar do pai no castelo. Assim, quando chegaram ao seu destino, as Ilhas Solitárias, último paradeiro conhecido dos amigos do pai, Caspian e seus amigos desceram do navio para percorrer a ilha e foram capturados por um negociador de escravos. Caspian foi o primeiro a ser vendido, mas seu  comprador foi um dos amigos do pai, o lorde Bern, e ajudou Caspian a conceber uma estratégia para reaver seus amigos. 

Depois de tudo planejado, Caspian se apresentou como rei a Gumpas, o governador das Ilhas Solitárias. Como primeiro ato, ele proibiu o tráfico de escravos e obrigou o governador a pagar os impostos atrasados à Coroa, já que o governador havia sonegado tantos anos de impostos.

Depois de serem aclamados pelo povo da ilha, Caspian com sua tripulação partiram em viagem, mas foram surpreendidos por terríveis dias de tempestade, que lhes custaram a perda de mantimentos, água e a própria saúde. Depois de doze dias em tempestade, a tripulação toda febril  por falta de água, eles encontraram uma ilha, na qual abarcaram e trataram de matar a sede e arranjar caça.

Enquanto isso, Eustáquio fugiu para não precisar trabalhar como os outros e se perdeu em um vale da ilha. Ele presenciou um dragão morrer diante dele, e depois foi acolher-se na caverna em que o dragão  tinha vivido. Ele acabou encontrando um tesouro, porque os dragões vigiam tesouros, e colocou um bracelete. Não soube quanto tempo dormiu, mas ao acordar com a dor no braço em que estava o bracelete bem apertado, vislumbrou patas de dragão e imediatamente tentou fugir.  Quando olhou o próprio reflexo na água da lagoa próxima, Eustáquio percebeu que havia sido transformado em dragão  por magia.

Sentiu-se muito sozinho e começou a mudar. Seu pensamento já não era mais de  ser um rapaz desagradável e queria mesmo voltar para os outros. Quando descobriu que sabia voar, foi para a costa,  próximo de onde a tripulação estava atracada. Ele não falava, mas conseguiu exprimir que era Eustáquio. 

O navio estava muito danificado, então precisaram de dias para consertá-lo. Eustáquio, então, em sua forma de dragão, conseguiu arrancar um pinheiro e trazer para perto da praia para que a tripulação pudesse fabricar outro mastro para o navio, porque o mastro havia quebrado durante a tempestade.

Eustáquio estava muito infeliz, mas percebeu que quem mais lhe fazia companhia era o rato a quem ele tanto maltratou. Quando finalmente o navio estava pronto para embarcarem para a viagem, Eustáquio presenciava as pessoas muito tristes se perguntarem como poderiam levar Eustáquio junto a eles, na forma de dragão. E Eustáquio chorava.

Então, certa noite, Edmundo viu um vulto e seguiu adiante para enfrentá-lo. Era Eustáquio novamente na forma humana, e ele contou-lhe que Aslam o tinha curado, quando ajudou Eustáquio a remover suas escamas. E nesta ilha que chamaram de ilha do Dragão, Caspian declarou que um dos amigos do seu pai provavelmente tinha perdido a vida.

Então seguiram viagem.



Resenha - O Ciclo do Sucesso - Brian Tracy


"Brian Tracy aborda nesta obra o desenvolvimento da autoconfiança inabalável em si mesmo, para alcançar não somente grandes conquistas, mas resultados extraordinários. Afirma que todo indivíduo é perfeitamente capaz de assumir o controle total de sua existência e assim, ser mais ousado e mais criativo. Enquanto a grande maioria das pessoas foca naquilo que não deseja, o autor orienta a desenvolver o pensamento no objetivo que se quer atingir, baseado fortemente nos valores que cada pessoa segue, já que considera a autoconfiança o eixo para a realização pessoal."

Resenha - Transformando Relações em Bênçãos - José Klemann




Transformando relações em bênçãos trata-se de relatos do autor nas mais variadas situações profissionais e pessoais. Em todos os seus relacionamentos, Klemann percebe oportunidades para "subir de nível", independentemente se no campo pessoal, com o tratamento adequado a todas as pessoas, sempre zelando pelo respeito mútuo, ou se no campo profissional, apresentando com muita habilidade maneiras de progredir como cidadão e como trabalhador.

Resenha - O Sumiço de Beatriz - Carolina Matsuo



Esta é uma trama cheia de adrenalina. Logo nos primeiros parágrafos, a personagem Beatriz precisa escapar de agentes militares que pretendem assassiná-la. Ela procura Tomaz, seu amigo de infância, que trabalha como chef de cozinha. O restaurante é invadido e Tomaz atacado. Depois disso, Tomaz inicia por conta própria uma investigação para ajudar a amiga. Ele encontra fotos de eventos importantes das famílias, inclusive de prêmios internacionais que Beatriz recebera como maquiadora e figurinista. A partir de documentos que encontra na casa da família de Beatriz, Tomaz infiltra-se na IQN, um instituto de pesquisas do governo e, desconhecendo estar sendo rastreado, pode levar os militares diretamente até Beatriz para a executarem. 

Após o Café Tradicional administrado por Tomaz e seu braço direito Gabriel receberem um prêmio como melhor café de São Paulo, Tomaz segue para o campus universitário atrás do professor Yaacov Baum, que executava as pesquisas de um tipo especial de tecido juntamente com Beatriz. Entretanto, Tomaz descobre que o professor havia sido assassinado e por trás de tudo há desentendimento diplomático entre o Estado boliviano e o brasileiro, com ações acontecendo simultaneamente por espiões para recuperar os relatórios das pesquisas. 

Pedro é subordinado ao coronel venezuelano León; Julius, Christian e André são capangas do coronel Torres e todos querem pôr as mãos em Beatriz e recuperar os documentos. Euclides, o coordenador do campus de química, juntamente com Raed Khalil, professor de origem árabe, mantém atividades de desvio de verba da universidade para os cofres pessoais. Ambos também têm interesse em resgatar os relatórios com a receita química para desenvolver a roupa que reflete o ambiente, deixando invisível quem o veste, para negociar com terroristas. Enquanto isso, os estudante Sara, Alex e Túlio, estão com parte dos relatórios e realizando pesquisas acadêmicas.

Enquanto Tomaz tenta desvendar o paradeiro da amiga Beatriz tentando se relacionar com Sara, Alex, Túlio, acaba se envolvendo diretamente com o coordenador Euclides. Entretanto, Tomaz fica à margem dos principais acontecimentos da trama, enganado por Sara, perseguido por Julius, Cristian, André e Pedro que o monitoram graças a inúmeras escutas e câmeras instaladas em pontos estratégicos do flat em que reside. 

De repente, surge a figura da faxineira, que parece muito mais inteligente do que seu linguajar indica. Ela aproveita os horários de faxina na sala de Euclides para juntar provas sobre as trapaças dele e de Raed, e em outro momento, se depara com os relatórios almejados por tantas pessoas, escondido em uma sala abandonada do campus.

Em outra parte da universidade, Sara e Alex conseguem fazer o experimento e desenvolver a roupa camaleão. 

As relações diplomáticas entre os países estão a ponto de se romper. Os terroristas pressionam Raed Khalil e nada de encontrar a cientista e a receita para criar a roupa camaleão. Chega o momento em que Torres ordena a ação e os capangas invadem a sala de Raed e o aprisionam. Descobrem a Giselda, tia de Beatriz, que se julgava morta após ataques e explosões no laboratório junto com Yaacov Baum. E Beth, a faxineira, entra em cena descarregando pistolas automáticas contra os inimigos. Revela-se que Beatriz se disfarçava ora de faxineira, ora de pesquisadora. Tomaz é sequestrado e levado para a base na IQN. 

Beatriz é chantageada a entregar os relatórios e utiliza a roupa camaleão a fim de resgatar o amigo Tomaz. Para se infiltrar na IQN, veste a roupa camaleão e com a ajuda do amigo Túlio, especialista em rackear sistemas de informação, conectam as câmeras do tecido da roupa camaleão diretamente às emissoras de televisão, o que alerta a polícia, que invade o laboratório da IQN e captura todos os envolvidos.

Para encerrar, Giselda revela que Yaacov era o pai biológico de Beatriz e a entregara para adoção de Angelina e Marco, que não podiam ter filhos.

Tomaz e Beatriz assumem um relacionamento romântico não desenvolvido anteriormente na trama.

Resenha para relembrar - A Irmã da Lua - Lucinda Riley

A Irmã da Lua

Tiggy (Taígeta) é a quinta irmã, filha adotiva de Pa Salt, da série As Sete Irmãs. Ela é formada em zoologia, com especialização em conservação, e acredita ter um talento natural para cuidar dos animais quando estão doentes.

Trabalha com Margareth em uma reserva tomando conta de um grupo de animais selvagens. Problemas de saúde obrigam Margareth a mudar de cidade e doar seus animais, e os quatro gatos selvagens, raros na Escócia, são aceitos na propriedade Kinnaird. Charlie Kinnaird é médico e recebeu a propriedade como herança após o falecimento de seu pai. Ele tem interesse em manter a vida selvagem na propriedade, porém, os recursos para recuperar o ambiente são escassos. Mesmo assim, contrata Tiggy para auxiliar na readaptação dos animais de Margareth e auxiliá-lo com documentos para se candidatar a subvenção do governo para o repovoamento ambiental.

Então, Tiggy transporta os quatro gatos selvagens para o novo habitat, já preparado por Cal Mackenzie, trabalhador de Kinnaird. Tiggy é recebida pelo cão deerhound Thistle, que logo faz amizade com ela. Também é apresentada a Beryl, a governanta que está há quarenta anos trabalhando em Kinnaird.

Durante a festa de fim de ano organizada por Charlie, Tiggy conhece Ulrika e Zara, a esposa arrogante de Charlie e sua filha. Além deles, é apresentada para a namorada de Cal, para a veterinária Fiona e seu filho Lochie. E presencia uma discussão acalorada entre o recém-chegado Fraser, filho da governanta, com Charlie.

O casarão em Kinnaird havia sido reformado por Ulrika para servir de pousada e foi alugado por Zed Eszu, que mais tarde, Tiggy descobre ter sido namorado de sua irmã Maia, e este passa a assediá-la.

Tiggy tem contato com Chilly, um antigo trabalhador da propriedade, e ele revela segredos de sua vida. Mesmo duvidando dos poderes de Chilly, ela relê a carta que Pa Salt, seu pai adotivo, lhe escreveu antes de morrer, indicando as coordenadas para que ela possa reencontrar sua família biológica. Então Chilly lhe conta a história de sua avó Lucia, que mais tarde seria conhecida com a dançarina La Candela, filha de Maria e de José, que nascera em 1912 em uma gruta em Sacromonte na Espanha. Lúcia tem três irmãos: Eduardo, Carlos e Felipe. Devido a seu talento para dançar flamenco, Lúcia alcança sucesso em sua primeira apresentação em Alhambra. Depois disso, o pai a leva para Barcelona para ela dançar em shows e Lúcia passa dez anos sem ver a mãe e os irmãos.

Chilly não termina o relato, pois piora de saúde dias depois. Tiggy toma conta dele até a febre ceder, e ao voltar para casa é surpreendida por uma nevasca e se perde. Cal a resgata graças à aparição de um veado branco, espécie rara, que o estimulou a segui-lo até encontrá-la. Enquanto montam guarda para proteger Pégaso, o veado branco, um caçador atira no veado, que corre na direção de Tiggy para protegê-la do disparo, pois ela é atingida. Tiggy é hospitalizada na Escócia, mas resolve sair por conta própria e ir para a Espanha. Lá é guiada até a gruta onde vivem Angelina e Pepe, sua prima e seu tio-avô. Durante o relato sobre sua família, Angelina tem a visão da passagem de Chilly ao mundo superior, ou seja, pressente sua morte.

Em 1933, Lúcia, com seus 21 anos de idade, continua se apresentando em Barcelona, entretanto, ela começa a ser famosa após a parceria com o músico Meñique, que se apaixona por ela. Durante sua turnê pelas províncias da Espanha, Lúcia retorna à gruta onde nasceu e sua mãe revela a verdade sobre a separação entre ela e o pai e ainda conhece o irmão caçula Pepe, filho que José ainda desconhece a existência.

Lúcia alcança seu triunfo finalmente em Madrid, quando dança vestida como um bailarino: calça preta de cintura alta, blusa branca engomada e cabelos presos repartidos ao meio. Em 1936, precisa escapar da guerra na Espanha e foge com seu grupo para Lisboa, para onde traz a mãe e seu irmão Pepe apenas, já que os outros membros de sua família estão desaparecidos. José enfim conhece o filho e se reconcilia com Maria. Em 1938, Lúcia parte para a Argentina. Em 1944, está no auge de sua carreira, fazendo shows em Nova Iorque, e por isso não aceita o pedido de casamento de Meñique, que deseja parar de viajar e formar família. Então ele segue sozinho para o México e Lúcia descobre estar grávida de Meñique e não aceita contar a ele sobre a criança que está esperando. Ela tem a bebê Isadora em Sacromonte, para onde retornam após o término da guerra. Aos quatro meses de idade, deixa a filha aos cuidados da mãe Angelina e da neta de sua mãe, Angelina e retorna aos palcos. Falece de ataque cardíaco após uma apresentação em 1951.

Isadora casa com Andres e eles têm um bom relacionamento como casal. Faziam esforços para terem filhos, até que Tiggy foi concebida. Infelizmente, ele sofreu um trágico acidente antes de Tiggy nascer. E Isadora faleceu no parto da filha.

Durante as semanas em que Tiggy permanece em Sacromonte, ela explora seus dons naturais com o auxílio de Angelina, que lhe ensina a cultura gitana e a preparação de remédios com ervas. Preparam para ela uma festa e Charlie aparece para levá-la urgentemente para se tratar de uma doença grave do coração. A irmã de Tiggy, Ally, vem até Sacromonte para convencer a irmã a se tratar e Charlie e Angelina a ajudam no trabalho de parto de seu filho.

Tiggy viaja para Atlantis e fica enclausurada em seu próprio quarto até restabelecer  sua saúde e acaba descobrindo uma adega e um porão secreto na casa. Depois, retorna a Inverness, na Escócia, e participa da cura do filhote de Pégaso. Charlie e Ulrika se separam. Charlei descobre que Fraser é seu meio-irmão e exige metade da propriedade Kinnaird como herança. Contudo, Tiggy o reconhece como o caçador que matou Pégaso e atirou nela, e o ameaça de denunciá-lo às autoridades. Assim, Fraser desiste de suas intenções e vai embora. Tiggy recebe o convite para trabalhar com Fiona com as terapias naturais para tratamento dos animais. E Charlie, enfim, declara seu amor a Tiggy. 

Resenha - Os aparados - Leticia Wierzchowski





Nesta obra, Letícia nos presenteia com a pluralidade de reflexões. Somos levados, juntamente com Marcus Reismann e a neta grávida, a uma propriedade autossuficiente na serra, como forma de se proteger do aquecimento global, quando as enchentes ameaçam submergir Porto Alegre.

Acaso não temos todos um pouco do senso de preservação de Marcus Reismann, que prepara o que espera ser "o paraíso": uma casa com energia solar, pomares, plantas medicinais, livros, CD's e até mesmo internet temendo o degelo dos icebergs? Não levaríamos quem mais amamos para esse "paraíso", mesmo que não espontaneamente? E de um momento para outro, percebermos que o paraíso imaginado e construído para abrigar as vítimas de um fim de mundo iminente, também não seria inteiramente seguro?

As alucinações de Marcus Reismann - primeiro o garotinho, depois o mesmo já em idade avançada, revela toda sua preocupação em relação a ele mesmo e a própria família. Mostra que ele pretende dominar a neta menor de idade e grávida de seu bisneto, mas viver significa liberdade de expressão e respeito à vontade das outras pessoas. Temer o futuro de nossas gerações representa uma verdadeira responsabilidade.

Resenha - Tempos Extremos - Míriam Leitão


Tempos Extremos

Gostei extremamente desta obra. Míriam uniu em ficção a investigação sobre a época da repressão no Brasil, com a reconciliação (ou não) de dois irmãos separados pela ditadura - um do lado das Forças Armadas e outro exercendo rebelião para conquistar a liberdade. Ao tema, Míriam ainda teceu um suspense histórico, trazendo à tona a escravidão no Brasil.

Hélio e Alice guardam mágoas antigas. Ele, por estar do lado do governo, ela, por defender a resistência à ditadura em 1970. Larissa, a filha de Alice, parece a incapaz da família. Não consegue ser a lutadora como a mãe. Abandonara a profissão de jornalista e embarcara no ofício de historiadora.

A avó de Larissa, para comemorar os seus 88 anos, reúne os quatro filhos com suas famílias em uma fazenda chamada Soledade de Sinhá, em Minas Gerais, local que outra das filhas está restaurando para se tornar uma pousada. A avó quer a paz, mas há muito ela foi negada à sua família.

Larissa atravessa uma espécie de cortina do tempo, voltando 150 anos na história da fazenda e conhecendo a vida de três escravos da época: o pai Constantino e os filhos Paulina e Bento. Cada um busca a liberdade do seu jeito e buscam uma visitante do futuro para lhes dizer qual das empreitadas funcionará: se a fuga de Bento, se a liberdade concedida por meio de um pedido de Antonieta, sinhá de Paulina. Larissa, então, confusa com a experiência, percorre a casa em busca de documentos, e quando os encontra, procura os três amigos, mas já sabe da trágica experiência.

Nesse ínterim, Antônio, marido de Larissa e jornalista, descobre fotos do pai de Larissa sendo torturado, e junto dele, na foto, o próprio cunhado, Hélio, o que resulta na ruptura familiar.

Após toda a experiência, Larissa encontra seu destino como escritora da própria história. Visita, no Rio de Janeiro, o cemitério para o qual eram levados os chamados pretos novos, ou seja, escravos que faleciam na viagem até o Brasil ou que chegavam em condições de saúde precárias. E assim, descreve a história que pessoas anônimas como Constantino, Bento e Paulina vivenciaram, sempre em busca da liberdade que lhes fora roubada.

Resenha - A Árvore que dava dinheiro - Domingos Pellegrini

A Árvore que dava dinheiro

Felicidade é uma cidade fictícia, onde o progresso havia passado longe, juntamente com os tropeiros, que desviaram por estradas melhores.

A árvore que dava dinheiro nasceu a partir de três sementes jogadas na praça da cidade pelo testamenteiro, logo após a morte do velho dono das sementes.

Quando as notas começaram a desabrochar, houve alvoroço entre os habitantes de Felicidade. Cada cidadão - homem, mulher e até criança, cortava furiosamente uma muda da árvore que nasceu na praça e até escavaram para carregar a última parte das raízes, e cada um plantou no próprio quintal. O açougueiro era o único no lugar que mantinha a cabeça no lugar e os pés no chão.

Quando as árvores começaram a desabrochar dinheiro, todos queriam comprar: faziam estoques de botões, de tecidos, de coisas desnecessárias, queriam comprar de tudo e planejar todos os sonhos que começaram a ter com as pilhas e caixa de dinheiro que as árvores forneciam, e os problemas começaram a aparecer com os preços inflacionados. 

Entretanto, como as notas floresceram, assim elas também começaram a virar pó. Bastava atravessar a ponte.

E aí o progresso chegou em felicidade, porque todos queriam apreciar as notas que brotavam das árvores e vinham turistas de todos os lugares para conhecer.

A cidade cresceu em torno daquele negócio, e de repente, as árvores pararam de produzir. E Felicidade sem dinheiro, não dá.


Resenha - A Ilha Perdida - Maria José Dupré


A Ilha Perdida

Henrique e Eduardo, dois adolescentes corajosos e desbravadores, decidem explorar a ilha perdida no rio Paraíba, que circunda os arredores da fazenda dos tios.

Eles conseguem mantimentos e o barco e enganam os tios, dizendo que vão visitar outra fazenda. Alcançam a ilha, porém, uma chuva torrencial faz com que o rio suba demais e eles perdem o barco e ficam presos na ilha. Enquanto Eduardo toma a iniciativa de construir uma canoa, seu irmão Henrique é aprisionado por Simão, um homem que vive na ilha em completa segurança no meio dos animais. O garoto então conhece a vida que Simão leva, gosta daquela forma de viver, mas continua sempre preocupado com o irmão perdido na ilha e sua família. Chega então o dia que Simão resolve libertá-lo.

Os garotos são resgatados, porém, todos acreditam que a convivência com Simão foi fruto da imaginação de Henrique, associada a um período febril.

Resenha - A Quimica - Stephenie Meyer


A Química

Juliana Fortis troca de identidade a cada quinze dias e, para conseguir dormir, necessita preparar armadilhas e dormir com máscara de gás todos os dias. Ela nunca chegou a compreender porque o laboratório em que trabalhava foi invadido e destruído, e qual a motivação para exterminá-la.

Cansada de fugir, ela aceita o trabalho de seu ex-departamento para descobrir informações sobre uma arma biológica capaz de exterminar centenas de milhares de vidas, então, captura Daniel Beach e o tortura com compostos químicos capazes de produzir dores intensas.

Contudo, ela descobre que Daniel não é o terrorista que o dossiê lhe informava e precisa salvar a própria pele quando Kevin, o irmão supostamente morto de Daniel, aparece para resgatá-lo. Kevin e Alex - o novo nome de Juliana, se unem para proteger Daniel e se envolvem em uma verdadeira caçada.

Resenha - Um Caminho Para a Liberdade - Jojo Moyes





Quase desisti de ler esta história, pois meu coração arrebentou de dor quando a mãe decidiu que levassem sua filha embora! Mas, sabiamente e por conhecer outros títulos da autora, segui em frente com a leitura e minha comoção foi maior e mais enlevada.

As moças da Biblioteca a Cavalo são determinadas e nada as impede de cumprirem sua missão de levar e buscar livros nas regiões montanhosas de Kentucky. Elas enfrentam o inverno rigoroso, dores por cavalgar o dia inteiro, as fofocas da população e as armadilhas da empresa mineradora. Mas o amor pelo trabalho que realizam sempre as incentivam a superar todas as adversidades. Elas tornam-se parceiras no trabalho e amigas. Contudo, uma tragédia faz com que Marge, a pioneira do projeto, seja acusada de assassinato. E a conspiração para acabar com a própria Marge, que dissemina verdades sobre a ambição desenfreada do dono da mineradora fez parecer que tudo está irremediavelmente perdido.

Até que o depoimento de testemunhas que o xerife havia deixado passar faz com que a história dê uma reviravolta e conceda ao leitor um verdadeiro caminho para a liberdade.

Resenha - Tonico - Jose Rezende Filho





Este é um livro que todo adolescente - rapaz ou menina, deveria ler, pois fala da ruptura entre a infância e a idade adulta, fase de sonhos, de rebeldias e de como tudo é tratado em família. Por outro lado, também é um livro que todos os pais e mães deveriam dar uma olhada, já que para os pais é difícil enxergar quando seu filho ou filha enfim, estão amadurecendo.

Tonico perde o pai após uma doença, e se vê obrigado a enfrentar trabalhos dos quais não gosta. Está naquele meio termo da vida em que ainda é um menino, e de repente, os adultos lhe impõem obrigações de gente grande. Os sonhos de Tonico estão presentes na amizade com Carniça, um menino de rua que se vira como pode vendendo jornais e sendo engraxate. A liberdade de Carniça é o que motiva Tonico a se rebelar contra a mãe, recém-viúva, e o tio Severino, que lhe arruma emprego primeiro na loja de Seu Duda, depois na farmácia de Seu Fonseca.

Tonico então foge de casa e sente na pele como é a vida de um garoto de rua.


Resenha - Boneco de Neve - Jo Nesbo




Quem disse que "ler é viajar" tinha toda razão. Estreei Jo Nesbo com Boneco de Neve e mal posso esperar para ler os outros títulos deste autor norueguês.

Segui o investigador Harry Hole em Grønlandsleiret, Finnøy, Bergen, Groruddalen, e me senti no alto da pista de esqui Holmenkollen. Fiquei lado a lado com Katrine Bratt, Gert Rafto, Idar Vetlesen, Filip Becker, Rakel e Oleg. Desconfiei que o assassino pudesse ser o personagem que menos aparecia na narrativa, e que deixava a dúvida de qual motivo levou o autor a colocá-lo lá, quase sem função. Olhei na cara do assassino e continuei a viagem pelas páginas da trama. Estive nos programas de TV dos quais Hole participou. Amedrontei-me quando as vítimas eram cercadas. E a pista para desvendar todos os crimes veio de onde menos se esperou.











Resenha - É assim que acaba - Colleen Hoover





Esta é uma história daquelas cujo final deixa o leitor catatônico, pois termina diferente de tudo o que o que se imagina, e ainda assim, não decepciona.

Torci para que a Lily tomasse a decisão que eu esperava, pois, apesar de tantas mulheres ao redor do mundo terem uma realidade semelhante, ainda tenho esperança no amor.

Ryle é o sujeito que qualquer mulher sonha: um homem bonito, forte, humorado, protetor e o amante mais especial. Parece que a narrativa vai seguir sempre na fase boa, um ciúme aqui, uma discussão lá, mas aos poucos vai mostrando o lado obscuro que Ryle não consegue controlar.

E Atlas é o personagem que personifica o amor-cuidado, e é de uma total gentileza, que não se sabe qual lado apoiar.

E eu, depois desta história comovente, deixo o livro  "assentar" um pouco mais, para seguir refletindo e nunca mais tirá-lo da memória. E nem do coração. Porque livro que conquista é assim: inesquecível.

Resenha - Em Busca de Sentido - Um Psicólogo no Campo de Concentração - Viktor E. Frankl







Conheci a logoterapia lendo este livro, que foi indicado por um amigo. Trata-se de uma forma de psicoterapia que propõe ao paciente uma análise de propósito existencial para o qual viver, já que "a busca por sentido na vida é a força motivadora no ser humano."

Neste livro, Viktor E. Frankl, reconhecido como pai da logoterapia, aborda sua própria experiência em campos de concentração, primeiro em Auschwitz, depois em outros para os quais foi levado. Fala acerca do choque inicial de pessoas livres que se tornam prisioneiras e são selecionadas ora para morrer, ora para trabalhos forçados, enfrentando fome, desnutrição, doenças, frio, perdendo a cada momento a dignidade e a sensibilidade com o tratamento recebido pelos SS (Schutzstaffel), os militares do nazismo. Conta sobre a apatia que toma conta do prisioneiro, uma vez que passa a ser apenas um número e não um ser humano, dos momentos de esperança e dos momentos em que via alguém desistindo da vida, e de como a situação faz com que um indivíduo suporte seu sofrimento, pois tem a visão de sentido para o que está vivendo.

A segunda parte do livro relata a ciência em si, e de como esta terapia principia uma melhora na saúde mental do paciente, uma vez que tenta mostrar o futuro ao paciente a partir da escolha de querer dar sentido a própria existência.


Resenha - Sorrisos Quebrados - Sofia Silva





Sorrisos Quebrados é a historia de dois personagens que frequentam uma clínica terapêutica "de gente estranha": Paola, mutilada pela crueldade do ex-marido e com o coração marcado para sempre; e André, com o coração dilacerado pelo amor à ex-esposa, porém, preenchido de amor pela filha. Ela, paciente da clínica; ele, por sua vez, pai e mãe de Sol, uma menina também paciente, traumatizada a ponto de não conviver com outras pessoas a não ser o pai e os avós.

Paola e André tentam se reconstruir após anos de maus tratos infligidos pelos ex-parceiros e encontram em Sol o amor-comum. Enquanto Paola pinta telas e paredes com suas multicores fluorescentes e vai ganhando vida com a presença de Sol, a escuridão em André cede espaço para amar alguém a mais do que a própria filha.

Os encontros e desencontros de ambos emocionam o leitor, que se vê um espectador do sentimento que cada um deles retrata, pois a narrativa é deles, um de cada vez, a cada parágrafo. As metáforas, ricas em conteúdo revelado em amor e perda, são de tal forma cativantes, que do riso às lágrimas basta uma palavra e um ponto final.

Resenha - A Vila dos Pecados, de Soraya Abuchaim




A trama de "A Vila dos Pecados" ocorre em uma cidade fictícia chamada Ponta Poente em algum período do passado em que se utilizava cavalos e charretes para locomoção. A narrativa é fluida, os personagens são bem delineados e os cenários bem retratados.

A história conta com alguns acontecimentos importantes, como a morte de Bento, o padre local e a chegada do novo padre Alfonso; assassinatos e suicídios, contudo,não há muita ação dos personagens entre os episódios. Antes, porém, é explorado o lado obscuro dos personagens, abordando os conflitos internos de cada um. Orgulho, vaidade, mentira, violação de regras de conduta moral são temas que levam cada personagem à própria reflexão. Além disso, certos eventos da natureza - temporais, raios, névoa, nevasca, são descritos para tornar a cidade sinistra e nebulosa, e para marcar o impacto do normal com a superstição.

Em alguns parágrafos faltou conexão entre a atividade temporal entre o personagem anterior e o próximo, mas pode ser uma estratégia da autora para mostrar a singularidade de cada personagem, que mesmo vivendo em sociedade, trata de fazer o seu mundo particular acontecer.

Esta ficção é marcada por simbologia para mostrar a quais extremos uma pessoa pode chegar.

ENGRENAGEM DO CRIME – ÚLTIMO CAPÍTULO – SHOW DE SANGUE





- Um, dois, três!

Estéfanie aguarda as notas formando-se e, feliz, começa a cantar.

“Abandona, me erra,
você não tem cabeça
pra andar na minha.
Abandona, sai dessa,
assim você se ferra,
não quero ficar sozinha.

Tá lento, faz tempo
que já tô em outra,
querido, só lamento.
Você tanto demorou
que a fila já andou.
A gente não se encontra.

Você só quer pegar
e eu cansei de esperar
você tentar mudar.
Cai fora,
agora,
chegou a minha hora.

“Abandona, me erra...”

A casa está cheia. Os amigos da escola compareceram em peso. Enquanto canta, Estéfanie olha para Eduardo, que sorri absorvido em sua própria emoção; observa Peter mandando embora seu mau humor e Vinícius nervoso, naturalmente. É seu show, afinal. Olha para a plateia e vê os pais, mas não repara que seus movimentos frenéticos tratam-se de um alerta.

*****



- Senhor Prefeito, em resposta ao seu lindo discurso, segue como prometido – entra Ivo novamente no ar, desta vez em cadeia nacional. – Agora!


*****


Estéfanie percebe luzes alaranjadas e o ambiente fica muito quente. E ela vê a parede se enrolar nela como um cobertor de pedra incandescente. Suas mãos agora são da cor do concreto, e escaldantes como se tivessem derramado ácido nelas...


*****


- Tem um moço caído aqui!

Os bombeiros se apressam e afastam o rapaz do local do sinistro. Ele está vivo.

- Vanessa...

Renato acorda de um salto e sente o pulmão se rasgar em duas partes. O socorrista pede que ele se acalme, e reforça que fora um milagre ter sobrevivido.

- Vanessa... onde ela está?

- Não tinha mais ninguém ferido aqui, acalme-se – fala o bombeiro voluntário, firmemente.

- Ela foi sequestrada! Por favor! Ele vai matar ela! Faz alguma coisa!

Dor e impotência se misturam nele, que chora copiosamente.

*****


Castro está diante do prefeito agora, exigindo que ceda, e explicando-lhe que a rede de gás está fatalmente comprometida por explosivos como o próprio Ivo lhe informara.

- Não podemos fazer isso, Capitão! – assegura o prefeito.

Nesse momento, assessores informam-lhes da explosão na danceteria, com vítimas. O prefeito deixa-se cair em uma cadeira, esquálido, indefeso. Olha para Castro e pede:

- Precisamos pará-lo. Vou entrar agora em rede...

- Espere, prefeito!

Vera entra no gabinete apinhado e todos os rostos se voltam para ela.

- O exército e a aeronáutica estão enviando equipes para a cidade.

- Como ousa envolver o exército nessa... – inicia, levantando-se com ímpeto e se aproximando dela.

- Sou agente federal, prefeito. Tenho autoridade para isso. E o Ivo é um criminoso internacional que tem sido investigado por terrorismo, tráfico de drogas e homicídios.

Castro observa com assombro o distintivo que Vera apontava para o prefeito e olha-a com decepção e até certa repugnância. Ela percebe os sentimentos dele, mas demonstra não se abalar. Sua missão chega ao fim. Resta capturar Ivo.

- O senhor irá fazer exatamente o que eu mandar, está entendendo? – O prefeito limita-se a consentir. – E quanto ao senhor, Capitão Castro, devo lhe apresentar o líder do esquadrão antibombas...

- Negativo! – ruge, sobressaltando a todos. – Pessoas irão morrer! A Mansão acaba de ser explodida!

Vera abandona sua frieza com a notícia e lembra-se imediatamente da banda. Estava fora dos planos de Ivo explodir o que quer que fosse. Ela estava infiltrada, ela tinha certeza disso! Mas e Estéfanie e os garotos? E as pessoas que estavam lá? Por que Ivo resolvera fazer aquilo?

Sua cabeça subitamente rodopiou, contudo, não tinha tempo para ter um chilique, precisava enviar socorro imediatamente. Apanha um rádio de transmissão que não é o da polícia local e alerta:

- Unidade de comando! Terrorista ignorou estratégia! Alerta! Mansão Getúlio!

- Enviaremos ajuda.

Castro aproxima-se dela.

- Satisfeita agora, agente Vera? – prolongou bastante a palavra que a identificava. Deixou o ambiente com César em seu encalço.

- Castro, espere!

Ele se volta, a fronte franzida.

- Precisamos de sua equipe para...

- Não, vocês não precisam de ninguém – interrompe. – E agora, se me dá licença, vou cumprir o meu dever como policial e como cidadão.

Vera acompanha-o se afastar, engole o nó na garganta e se volta para o prefeito.

- Senhor, precisamos ganhar tempo. Precisamos conquistar a confiança dele. O senhor vai dizer...

*****


- Estéfanie! Estéfanie!

Peter, Vinícius e Eduardo estão do lado de fora da danceteria com uma multidão. Os carros dos bombeiros chegam e as mangueiras entram em ação. Os três garotos procuram Estéfanie entre as centenas de rostos e não a encontram.

- Ela não saiu! – apavora-se Eduardo.

Volta correndo para a danceteria em chamas, não dando qualquer chance para ser segurado. Sua mãe chega um momento antes de vê-lo correndo para o fogo...

A fumaça atonteia Eduardo na mesma hora, e ele quase desfalece. Pensando tudo ao mesmo tempo, grita por ela. O calor insuportável deixa-o entorpecido, mas ele prossegue. Porque não falara antes? Porque esperara tanto?

Adentra mais na danceteria em chamas. Não há nada ali, nada em que ter esperança, mas seu amor é real, precisa encontrá-la viva...

Outra explosão culmina no desabamento do teto.


*****


Um grito de horror se propaga no espaço como se viesse das profundezas de algum pesadelo. Vanessa, dependurada pelas mãos algemadas, ergue um pouco a cabeça e, em uma visão parcial e enevoada, percebe que Pedro era quem gritava e se movia desesperadamente, como uma tocha humana. Em outros tempos, Vanessa teria sentido pesar por ele, mas agora, perto da morte, ignora qualquer emoção de compaixão, pois isso não existia mais dentro de sua alma. Ele merece padecer para morrer para saber o quanto de dor um corpo pode aguentar, pensa, esboçando quase um sorriso, que logo se dissipa. Sem forças, somente lhe resta esperar para morrer de igual maneira, seu corpo consumido pelas chamas que surgiram após aquela estrondosa explosão.

O calor sufocante aterrorizava Vanessa, que sentia que enormes mãos de fogo se aproximavam de seu corpo inerte. Tomara que eu sufoque antes de sentir o fogo queimando meu corpo, pensa, a mente tão lúcida quanto o corpo exaurido. Deus, tenha piedade de mim, ora, tremendo de pânico e de fraqueza.

Enquanto espera, Vanessa percebe algo escorrer em suas mãos, um líquido muito quente igual água fervida. Ela tenta desviar o corpo daquele filete incandescente, que ia enrugando sua pele à medida que escorria pela sua pele. De repente, um cano se rompe logo acima dela e esguicha água para o alto na direção das labaredas que se aproximavam dela. Um registro se rompe em seguida e despeja nela uma grande quantidade de água.

Seu último pensamento é a imagem de Renato e, então, ela desfalece.


*****


Vinícius cai em prantos. O que foi que ele fizera? Tinha se metido com um sujeito do mal e agora parecia que sua amiga... Não. Não permitiu esse pensamento.

Eduardo, quase sufocando, ainda procura.

- Estéfanie!

Ele vê um movimento atrás do palco desabado. Aproxima-se e, com renovada energia, passa um braço por baixo de Estéfanie e a ergue.

- Você... cof, cof, não... devia... cof, cof, cof, estar aqui... – ela reclama, surpresa, mas aliviada.

- Vem! cof, cof... vamos sair daqui!

Ela se agarra mais nele e tenta andar, mas sente uma dor lancinante no pé. Olha o sangue e a fratura exposta. Observa Eduardo sujo de fuligem e ordena:

- Vai... cof, cof... embora! Se salva!

- De jeito nenhum! Cof, cof... Eu te amo, Fan!

Eles ficam agarrados, e Estéfanie chora.

- Eu... também... cof, cof... te amo, Edu... cof, cof... pena que é... tarde demais...

- Não... cof, cof... não é tarde... nós vamos... cof, cof... ficar juntos pra sempre.

E ambos caem, agarrados, sufocando, enquanto o fogo consome tudo à volta deles.


*****


Ivo continua frio e decidido no estúdio, e entra novamente no ar.

- Habitantes da cidade de Joinville, seu prefeito tomou a decisão errada e algumas pessoas já morreram. O próximo alvo é o hospital municipal. Neste ponto todo o perímetro registrará óbitos. Estejam preparados.

Nesse momento, o prefeito e meia dúzia de homens do exército entram no estúdio.

- Pare, por favor, clemência!

- Decisão sensata, ex-prefeito – atalha Ivo, com um sorriso vitorioso.


*****


Vera deixa o estúdio de TV que fica nas proximidades da rua Timbó e segue para a danceteria.

Durante o trajeto, o sangue esvai de seu rosto, revelando profundas olheiras. Os olhos ardem como se algum tipo de bomba química os estivesse atacando. Quinze meses de investigação e planejamento e tudo fora pelos ares, juntamente com a primeira explosão. Achou que conseguiria chorar, contudo, desde jovem aprendera a suprimir suas emoções. Somente seu peito arfa, terrivelmente pesado.

Estaciona a viatura da polícia próximo ao hemocentro e de lá segue a pé. Basta atravessar a rua, mas as chamas ainda resistem aos cinco caminhões de bombeiros, e o local está tumultuado. Ajeita a postura, ergue o zíper da jaqueta de couro e se aproxima a tempo de assistir a gritaria de Jairo, que sacode os braços e berra:

- Minha casa noturna! E agora? Quem vai pagar pelo prejuízo? Perda total...

Vera avança para ele e ataca-o com uma chave de braço que o faz gemer e sucumbir.

- Cala a boca! – ordena, espumando de raiva. – Preocupe-se com o sepultamento de seus funcionários e prepare-se para indenizar as famílias!

- Que absurdo! – rosna.

- Ah, é?

Vera arrasta-o até uma fileira de corpos dispostos no asfalto, arranca o manto que envolve dois deles e, virando firmemente a cabeça de Jairo, vocifera em seu ouvido:

- Olhe para eles! Vamos, seu covarde! Olhe para eles agora!

- Não... – choraminga.

- As famílias deles terão apenas pedaços de carvão para se despedir e você está preocupado com o prédio! Olhe!

Ela empurra a cabeça dele bem próximo ao crânio com parte da pele derretida, carne exposta e ossos enegrecidos. Quando Jairo sente o odor que exala do corpo, prostra-se e regurgita. Vera larga-o com ódio e repugnância.

*****



Quando parte do teto ruiu com o incêndio, Sandra, a mãe de Eduardo, gritou.

- Ele não sabia que eu vinha! – soluça. – Quis fazer uma surpresa!

A mãe de Estéfanie chora desesperada, tentando se desvencilhar dos braços do marido para correr e salvar a filha.

- Iracema, aguenta firme, querida – incentiva Acildo, mas sua voz também fraqueja. – Ela não conseguiu sair, mas pode estar viva...

Uma explosão de soluços convulsiona o corpo de Iracema e ela desaba no ombro do marido.

Vinícius sentara na calçada. O rosto sujo de fuligem, olhos vidrados, em estado de choque. Um socorrista vem ao seu encontro e examina-o, porém, ele não reage.

- Levem ele pra observação – pede para um grupo de voluntários.

Castro e César circulam entre os sobreviventes. As chamas estão quase sendo controladas, mas ainda iluminam a rua. De vez em quando ajudam algum voluntário a posicionar os feridos em macas rígidas, por vezes Castro fala ao rádio, e outras vezes, supervisiona o trabalho dos bombeiros.

Abaixa-se para verificar o pulso de uma jovem e ouve seu nome. Vira-se e observa o bombeiro fazendo sinal para que ele e o detetive se aproximem.

- Tem uma moça algemada na tubulação – explica.

Castro olha para a garota inconsciente dependurada pelos pulsos a uma tubulação. Apressa-se a sustentar seu corpo e afasta os cabelos do rosto. Reconhece a moça, porém, não se lembra logo de onde.

- Depressa! Ela está viva!

O bombeiro traz uma ferramenta para cortar a corrente e quando ela desaba nos braços de Castro, prontamente a carrega para a ambulância mais próxima, horrorizado com tamanha crueldade. Quando descansa-a na maca e o médico começa a examiná-la e colocar a máscara de oxigênio, ela abre os olhos.

- Re... nato – esforça-se.

- O quê?

- Ele matou o Re.. nato... minha... casa... gás...

Castro não compreende a inesperada denúncia. Supõe que a vítima esteja delirando.

- Essa vítima foi encontrada no mesmo ambiente, totalmente carbonizada – avisa o cabo do exército que também presta ajuda.

- O IML já foi devidamente comunicado, imagino.

O cabo afirma e observa a garota.

- Ela se salvou porque a água da tubulação estava em temperatura suficiente para mantê-la resfriada, mas não sabemos quais os danos pulmonares.

- Por favor, leve-a e me mantenha informado. A forma como ela foi encontrada trata-se de uma cena de crime.

Castro olha em volta e encontra o olhar atento de Vera. Ela caminha entre os destroços, mas não carrega câmera alguma. Curioso e ainda se sentindo traído, ele se aproxima.

- Satisfeita com a conclusão dos planos perfeitos? – provoca.

Vera ignora a indireta e continua a observar cada centímetro das paredes que desabaram, o coração a romper o peito com aquilo que procura. Esquadrinha pedaços de madeira encharcados, porém, ainda mornos, buscando os corpos dos que sabiam não haver resistido. Fora treinada para não sentir dor nem remorso, mas agora que a missão fracassara e que Ivo não fora detido, duvidou de seu potencial como investigadora, soldado, agente federal, espiã ou o que quer que fosse. Matara dois jovens inocentes em nome de sua missão. Se alguma vez não enxergou limites para sua profissão, nesses minutos de agonia antecipada ela reconheceu que nem tudo vale a pena.

Notara os pais da garota em desespero do outro lado da rua e sacou que Vinícius é que tinha recebido a ordem de plantar a bomba. Sorte de todos o garoto ser inexperiente e ter instalado o explosivo na válvula de entrada de água e não na rede de gás, caso contrário, aquele perímetro inteiro teria desaparecido do mapa.

Suspira.

Eduardo já tinha saído, estava a salvo e voltara para buscar a garota que certamente era especial para ele. Ou talvez fosse um desses genuínos heróis, cujo sangue que corre nas veias é para salvar inocentes.

- Foi para isso que você entrou no departamento? – pergunta Castro, esticando os braços e girando no próprio eixo, iluminado pelas lâmpadas das sirenes e por algumas labaredas que ainda persistem. – A sua equipe de elite não poupa inocentes – acusa.

Vera range os dentes com inesperado remorso. Lembra-se de ter roubado o laudo da perícia logo após ter estado na cama com Castro. A experiência havia sido ótima, mas na época sua missão estava acima de qualquer outra expectativa.

- Você não compreenderia – pigarreou.

- Nem tente explicar. No meu departamento investigamos crimes para punir os culpados, mas não manipulamos cidadãos indefesos em troca de... – ele pensa um instante. – Em troca de prestígio? Promoção? Dinheiro? Investigamos os mortos, mas cuidamos que os vivos permaneçam vivos...

- Capitão! Detetive! Encontramos aqui! – chamou o bombeiro aflito.

- O que é? – Castro segue na direção do entulho e se surpreende com o que vê. Imediatamente, usa o rádio para pedir reforço, macas e ambulância.

- Nunca vi disso na minha vida – reforça o socorrista.

Vera se aproxima também. Ali estavam em um leito de concreto, madeiras e telhas, dois corpos abraçados. A intensidade do fogo os uniu de modo que as peles deles se misturaram.

- Estéfanie! Eduardo! Estão vivos!

*****


Ivo ordena que o prefeito fique no centro do cenário para seu comunicado oficial. O prefeito, um senhor de 68 anos e olhos extremamente azuis, demonstrava desânimo frente ao que era obrigado a aceitar.

Ele ajeita a gravata, pigarreia, olha para a câmera, aguarda um sinal do cinegrafista e começa a falar:

- Caros joinvilenses, nossa administração sempre privilegiou o bem-estar da população, bem como sua saúde e segurança. Nossa cidade está enfrentando um momento dificílimo, com quadrilhas causando confusão, espalhando medo e assassinando pessoas trabalhadoras, pais e mães de família, adolescentes, estudantes, crianças...

Televisores em toda a cidade permanecem ligados. Nunca antes algo assim tinha ocorrido e a população continua apreensiva.

Ângela quis pedir para que os clientes saíssem, pois já passava do horário de fechar a loja, mas entendeu que a situação exige paciência.

Alberto acompanha o pronunciamento do prefeito, de pé, ansioso, pois há um perigo muito maior do que era anunciado.

Ricardo correra do banho ao chamado do enfermeiro que estava quase saindo do expediente. As notícias anteriores foram assustadoras.

“Para solucionar esses problemas que estão roubando nossa paz, e em favor da sua segurança, caro cidadão e cidadã joinvilense, nós, em decisão unânime, anunciamos minha renúncia ao cargo de prefeito desta querida cidade.”

Nas praças de alimentação dos shoppings centers, bares, lanchonetes e restaurantes, as pessoas respondem praticamente em uníssono. Alguns estudantes do ensino médio ou das universidades, sem compreender o exato teor do comunicado, ensaiam ovações e aplausos. Os jornalistas ficam apreensivos; os políticos das diversas chapas partidárias aguardam antes de realizarem contatos e providenciarem acordos. A tensão paira no ar feito uma densa nuvem – uma supercélula.

“Nós percebemos que nossa administração não tem atendido aos anseios dos eleitores e, dessa forma, estamos retirando nossos nomes para que outra administração atue e ajude e solucione o caos ao qual a cidade vem sucumbindo. – O agora ex-prefeito faz uma pausa, como se lhe doesse cada palavra. Inspira e, finalmente, anuncia: – Nomeio, então, o Sr. Ivo Fernandez o novo prefeito de Joinville”.

A câmera é movida para o rosto de Ivo, que sem qualquer demonstração de alegria ou vitória, olha profundamente para a lente, como se desejasse olhar diretamente dentro dos olhos de cada telespectador.

Ricardo sua frio. Alberto volta a se sentar na cama. Ângela deixa cair as chaves da loja sem desviar os olhos do televisor. Castro é chamado com urgência para assistir a transmissão em um smartphone.

- Cidadãos joinvilenses, na qualidade de prefeito dessa cidade, tenho o seguinte a declarar. A partir deste exato momento ninguém pode deixar a cidade e aqueles que estão fora não poderão retornar sem prestar previamente contas aos soldados que estão vigiando as entradas principais e secundárias do município. Um decreto de lei que será devidamente anunciado pelos jornais e emissoras de TV cria o Imposto de Previsão de Conflito ao que todos deverão honrar. As empresas da região são obrigadas, por meio deste decreto, a aceitar os termos de funcionamento e transferência de recursos para um fundo de reserva para a guerra. As escolas estaduais, municipais e particulares serão regidas por novos regulamentos e os estudantes passarão a receber disciplinas como Estratégia para Conflitos, Fabricação de Artefatos de Explosão, Ética de Guerra e Defesa Pessoal. Aqueles que se recusarem podem optar pelo regime fechado de treinamento na penitenciária municipal. O espaço aéreo da cidade está sendo monitorado durante 24 horas, e por essa razão, todos os voos devem ser previamente informados e cadastrados em nossa Comissão de Controle de Acesso. Caminhões de carga somente serão permitidos entrar no município com cadastro prévio na Comissão de Assuntos de Negócios. Os grupos de combate que estão nesse momento desembarcando em vários pontos da cidade passarão a fazer o patrulhamento do embarque e desembarque de nossos negócios. E agora tenho um recado especial para a agente Vera, que tenho certeza, está nos assistindo. Ordene a imediata evacuação das forças nacionais ou novas explosões acontecerão. Você tem uma hora.”


*****


- Agente Vera na escuta... agente Vera na escuta!

Vera dá entrada em Eduardo e Estéfanie em um hospital particular da cidade enquanto seu rádio chama incessantemente.

- Prossiga – ofega, apertando o botão e soltando logo em seguida.

- Remova as equipes de apoio imediatamente!

É Castro. Vera estava com ele havia dez minutos e estranha o tom de urgência.

- Impossível, senhor! – responde em tom imparcial.

- Isso é uma ordem! – insiste Castro, sua voz atravessando o rádio de comunicação quase com estrondo.

- Capitão, lamento, meu superior me deu ordens expressas de manter a armada nacional...

A comunicação é interrompida e ela solta o botão.

- Foda-se suas ordens, agente Vera! A cidade vai sofrer novo ataque se dentro de uma hora o exército e a aeronáutica não recuarem!

Vera estagna. De repente, a vida dos habitantes da maior cidade de Santa Catarina está inteiramente à mercê de uma decisão sua.



- Um, dois, três!

Estéfanie aguarda as notas formando-se e, feliz, começa a cantar.

“Abandona, me erra,
você não tem cabeça
pra andar na minha.
Abandona, sai dessa,
assim você se ferra,
não quero ficar sozinha.

Tá lento, faz tempo
que já tô em outra,
querido, só lamento.
Você tanto demorou
que a fila já andou.
A gente não se encontra.

Você só quer pegar
e eu cansei de esperar
você tentar mudar.
Cai fora,
agora,
chegou a minha hora.

“Abandona, me erra...”

A casa está cheia. Os amigos da escola compareceram em peso. Enquanto canta, Estéfanie olha para Eduardo, que sorri absorvido em sua própria emoção; observa Peter mandando embora seu mau humor e Vinícius nervoso, naturalmente. É seu show, afinal. Olha para a plateia e vê os pais, mas não repara que seus movimentos frenéticos tratam-se de um alerta.

*****



- Senhor Prefeito, em resposta ao seu lindo discurso, segue como prometido – entra Ivo novamente no ar, desta vez em cadeia nacional. – Agora!


*****


Estéfanie percebe luzes alaranjadas e o ambiente fica muito quente. E ela vê a parede se enrolar nela como um cobertor de pedra incandescente. Suas mãos agora são da cor do concreto, e escaldantes como se tivessem derramado ácido nelas...


*****


- Tem um moço caído aqui!

Os bombeiros se apressam e afastam o rapaz do local do sinistro. Ele está vivo.

- Vanessa...

Renato acorda de um salto e sente o pulmão se rasgar em duas partes. O socorrista pede que ele se acalme, e reforça que fora um milagre ter sobrevivido.

- Vanessa... onde ela está?

- Não tinha mais ninguém ferido aqui, acalme-se – fala o bombeiro voluntário, firmemente.

- Ela foi sequestrada! Por favor! Ele vai matar ela! Faz alguma coisa!

Dor e impotência se misturam nele, que chora copiosamente.

*****


Castro está diante do prefeito agora, exigindo que ceda, e explicando-lhe que a rede de gás está fatalmente comprometida por explosivos como o próprio Ivo lhe informara.

- Não podemos fazer isso, Capitão! – assegura o prefeito.

Nesse momento, assessores informam-lhes da explosão na danceteria, com vítimas. O prefeito deixa-se cair em uma cadeira, esquálido, indefeso. Olha para Castro e pede:

- Precisamos pará-lo. Vou entrar agora em rede...

- Espere, prefeito!

Vera entra no gabinete apinhado e todos os rostos se voltam para ela.

- O exército e a aeronáutica estão enviando equipes para a cidade.

- Como ousa envolver o exército nessa... – inicia, levantando-se com ímpeto e se aproximando dela.

- Sou agente federal, prefeito. Tenho autoridade para isso. E o Ivo é um criminoso internacional que tem sido investigado por terrorismo, tráfico de drogas e homicídios.

Castro observa com assombro o distintivo que Vera apontava para o prefeito e olha-a com decepção e até certa repugnância. Ela percebe os sentimentos dele, mas demonstra não se abalar. Sua missão chega ao fim. Resta capturar Ivo.

- O senhor irá fazer exatamente o que eu mandar, está entendendo? – O prefeito limita-se a consentir. – E quanto ao senhor, Capitão Castro, devo lhe apresentar o líder do esquadrão antibombas...

- Negativo! – ruge, sobressaltando a todos. – Pessoas irão morrer! A Mansão acaba de ser explodida!

Vera abandona sua frieza com a notícia e lembra-se imediatamente da banda. Estava fora dos planos de Ivo explodir o que quer que fosse. Ela estava infiltrada, ela tinha certeza disso! Mas e Estéfanie e os garotos? E as pessoas que estavam lá? Por que Ivo resolvera fazer aquilo?

Sua cabeça subitamente rodopiou, contudo, não tinha tempo para ter um chilique, precisava enviar socorro imediatamente. Apanha um rádio de transmissão que não é o da polícia local e alerta:

- Unidade de comando! Terrorista ignorou estratégia! Alerta! Mansão Getúlio!

- Enviaremos ajuda.

Castro aproxima-se dela.

- Satisfeita agora, agente Vera? – prolongou bastante a palavra que a identificava. Deixou o ambiente com César em seu encalço.

- Castro, espere!

Ele se volta, a fronte franzida.

- Precisamos de sua equipe para...

- Não, vocês não precisam de ninguém – interrompe. – E agora, se me dá licença, vou cumprir o meu dever como policial e como cidadão.

Vera acompanha-o se afastar, engole o nó na garganta e se volta para o prefeito.

- Senhor, precisamos ganhar tempo. Precisamos conquistar a confiança dele. O senhor vai dizer...

*****


- Estéfanie! Estéfanie!

Peter, Vinícius e Eduardo estão do lado de fora da danceteria com uma multidão. Os carros dos bombeiros chegam e as mangueiras entram em ação. Os três garotos procuram Estéfanie entre as centenas de rostos e não a encontram.

- Ela não saiu! – apavora-se Eduardo.

Volta correndo para a danceteria em chamas, não dando qualquer chance para ser segurado. Sua mãe chega um momento antes de vê-lo correndo para o fogo...

A fumaça atonteia Eduardo na mesma hora, e ele quase desfalece. Pensando tudo ao mesmo tempo, grita por ela. O calor insuportável deixa-o entorpecido, mas ele prossegue. Porque não falara antes? Porque esperara tanto?

Adentra mais na danceteria em chamas. Não há nada ali, nada em que ter esperança, mas seu amor é real, precisa encontrá-la viva...

Outra explosão culmina no desabamento do teto.


*****


Um grito de horror se propaga no espaço como se viesse das profundezas de algum pesadelo. Vanessa, dependurada pelas mãos algemadas, ergue um pouco a cabeça e, em uma visão parcial e enevoada, percebe que Pedro era quem gritava e se movia desesperadamente, como uma tocha humana. Em outros tempos, Vanessa teria sentido pesar por ele, mas agora, perto da morte, ignora qualquer emoção de compaixão, pois isso não existia mais dentro de sua alma. Ele merece padecer para morrer para saber o quanto de dor um corpo pode aguentar, pensa, esboçando quase um sorriso, que logo se dissipa. Sem forças, somente lhe resta esperar para morrer de igual maneira, seu corpo consumido pelas chamas que surgiram após aquela estrondosa explosão.

O calor sufocante aterrorizava Vanessa, que sentia que enormes mãos de fogo se aproximavam de seu corpo inerte. Tomara que eu sufoque antes de sentir o fogo queimando meu corpo, pensa, a mente tão lúcida quanto o corpo exaurido. Deus, tenha piedade de mim, ora, tremendo de pânico e de fraqueza.

Enquanto espera, Vanessa percebe algo escorrer em suas mãos, um líquido muito quente igual água fervida. Ela tenta desviar o corpo daquele filete incandescente, que ia enrugando sua pele à medida que escorria pela sua pele. De repente, um cano se rompe logo acima dela e esguicha água para o alto na direção das labaredas que se aproximavam dela. Um registro se rompe em seguida e despeja nela uma grande quantidade de água.

Seu último pensamento é a imagem de Renato e, então, ela desfalece.


*****


Vinícius cai em prantos. O que foi que ele fizera? Tinha se metido com um sujeito do mal e agora parecia que sua amiga... Não. Não permitiu esse pensamento.

Eduardo, quase sufocando, ainda procura.

- Estéfanie!

Ele vê um movimento atrás do palco desabado. Aproxima-se e, com renovada energia, passa um braço por baixo de Estéfanie e a ergue.

- Você... cof, cof, não... devia... cof, cof, cof, estar aqui... – ela reclama, surpresa, mas aliviada.

- Vem! cof, cof... vamos sair daqui!

Ela se agarra mais nele e tenta andar, mas sente uma dor lancinante no pé. Olha o sangue e a fratura exposta. Observa Eduardo sujo de fuligem e ordena:

- Vai... cof, cof... embora! Se salva!

- De jeito nenhum! Cof, cof... Eu te amo, Fan!

Eles ficam agarrados, e Estéfanie chora.

- Eu... também... cof, cof... te amo, Edu... cof, cof... pena que é... tarde demais...

- Não... cof, cof... não é tarde... nós vamos... cof, cof... ficar juntos pra sempre.

E ambos caem, agarrados, sufocando, enquanto o fogo consome tudo à volta deles.


*****


Ivo continua frio e decidido no estúdio, e entra novamente no ar.

- Habitantes da cidade de Joinville, seu prefeito tomou a decisão errada e algumas pessoas já morreram. O próximo alvo é o hospital municipal. Neste ponto todo o perímetro registrará óbitos. Estejam preparados.

Nesse momento, o prefeito e meia dúzia de homens do exército entram no estúdio.

- Pare, por favor, clemência!

- Decisão sensata, ex-prefeito – atalha Ivo, com um sorriso vitorioso.


*****


Vera deixa o estúdio de TV que fica nas proximidades da rua Timbó e segue para a danceteria.

Durante o trajeto, o sangue esvai de seu rosto, revelando profundas olheiras. Os olhos ardem como se algum tipo de bomba química os estivesse atacando. Quinze meses de investigação e planejamento e tudo fora pelos ares, juntamente com a primeira explosão. Achou que conseguiria chorar, contudo, desde jovem aprendera a suprimir suas emoções. Somente seu peito arfa, terrivelmente pesado.

Estaciona a viatura da polícia próximo ao hemocentro e de lá segue a pé. Basta atravessar a rua, mas as chamas ainda resistem aos cinco caminhões de bombeiros, e o local está tumultuado. Ajeita a postura, ergue o zíper da jaqueta de couro e se aproxima a tempo de assistir a gritaria de Jairo, que sacode os braços e berra:

- Minha casa noturna! E agora? Quem vai pagar pelo prejuízo? Perda total...

Vera avança para ele e ataca-o com uma chave de braço que o faz gemer e sucumbir.

- Cala a boca! – ordena, espumando de raiva. – Preocupe-se com o sepultamento de seus funcionários e prepare-se para indenizar as famílias!

- Que absurdo! – rosna.

- Ah, é?

Vera arrasta-o até uma fileira de corpos dispostos no asfalto, arranca o manto que envolve dois deles e, virando firmemente a cabeça de Jairo, vocifera em seu ouvido:

- Olhe para eles! Vamos, seu covarde! Olhe para eles agora!

- Não... – choraminga.

- As famílias deles terão apenas pedaços de carvão para se despedir e você está preocupado com o prédio! Olhe!

Ela empurra a cabeça dele bem próximo ao crânio com parte da pele derretida, carne exposta e ossos enegrecidos. Quando Jairo sente o odor que exala do corpo, prostra-se e regurgita. Vera larga-o com ódio e repugnância.

*****



Quando parte do teto ruiu com o incêndio, Sandra, a mãe de Eduardo, gritou.

- Ele não sabia que eu vinha! – soluça. – Quis fazer uma surpresa!

A mãe de Estéfanie chora desesperada, tentando se desvencilhar dos braços do marido para correr e salvar a filha.

- Iracema, aguenta firme, querida – incentiva Acildo, mas sua voz também fraqueja. – Ela não conseguiu sair, mas pode estar viva...

Uma explosão de soluços convulsiona o corpo de Iracema e ela desaba no ombro do marido.

Vinícius sentara na calçada. O rosto sujo de fuligem, olhos vidrados, em estado de choque. Um socorrista vem ao seu encontro e examina-o, porém, ele não reage.

- Levem ele pra observação – pede para um grupo de voluntários.

Castro e César circulam entre os sobreviventes. As chamas estão quase sendo controladas, mas ainda iluminam a rua. De vez em quando ajudam algum voluntário a posicionar os feridos em macas rígidas, por vezes Castro fala ao rádio, e outras vezes, supervisiona o trabalho dos bombeiros.

Abaixa-se para verificar o pulso de uma jovem e ouve seu nome. Vira-se e observa o bombeiro fazendo sinal para que ele e o detetive se aproximem.

- Tem uma moça algemada na tubulação – explica.

Castro olha para a garota inconsciente dependurada pelos pulsos a uma tubulação. Apressa-se a sustentar seu corpo e afasta os cabelos do rosto. Reconhece a moça, porém, não se lembra logo de onde.

- Depressa! Ela está viva!

O bombeiro traz uma ferramenta para cortar a corrente e quando ela desaba nos braços de Castro, prontamente a carrega para a ambulância mais próxima, horrorizado com tamanha crueldade. Quando descansa-a na maca e o médico começa a examiná-la e colocar a máscara de oxigênio, ela abre os olhos.

- Re... nato – esforça-se.

- O quê?

- Ele matou o Re.. nato... minha... casa... gás...

Castro não compreende a inesperada denúncia. Supõe que a vítima esteja delirando.

- Essa vítima foi encontrada no mesmo ambiente, totalmente carbonizada – avisa o cabo do exército que também presta ajuda.

- O IML já foi devidamente comunicado, imagino.

O cabo afirma e observa a garota.

- Ela se salvou porque a água da tubulação estava em temperatura suficiente para mantê-la resfriada, mas não sabemos quais os danos pulmonares.

- Por favor, leve-a e me mantenha informado. A forma como ela foi encontrada trata-se de uma cena de crime.

Castro olha em volta e encontra o olhar atento de Vera. Ela caminha entre os destroços, mas não carrega câmera alguma. Curioso e ainda se sentindo traído, ele se aproxima.

- Satisfeita com a conclusão dos planos perfeitos? – provoca.

Vera ignora a indireta e continua a observar cada centímetro das paredes que desabaram, o coração a romper o peito com aquilo que procura. Esquadrinha pedaços de madeira encharcados, porém, ainda mornos, buscando os corpos dos que sabiam não haver resistido. Fora treinada para não sentir dor nem remorso, mas agora que a missão fracassara e que Ivo não fora detido, duvidou de seu potencial como investigadora, soldado, agente federal, espiã ou o que quer que fosse. Matara dois jovens inocentes em nome de sua missão. Se alguma vez não enxergou limites para sua profissão, nesses minutos de agonia antecipada ela reconheceu que nem tudo vale a pena.

Notara os pais da garota em desespero do outro lado da rua e sacou que Vinícius é que tinha recebido a ordem de plantar a bomba. Sorte de todos o garoto ser inexperiente e ter instalado o explosivo na válvula de entrada de água e não na rede de gás, caso contrário, aquele perímetro inteiro teria desaparecido do mapa.

Suspira.

Eduardo já tinha saído, estava a salvo e voltara para buscar a garota que certamente era especial para ele. Ou talvez fosse um desses genuínos heróis, cujo sangue que corre nas veias é para salvar inocentes.

- Foi para isso que você entrou no departamento? – pergunta Castro, esticando os braços e girando no próprio eixo, iluminado pelas lâmpadas das sirenes e por algumas labaredas que ainda persistem. – A sua equipe de elite não poupa inocentes – acusa.

Vera range os dentes com inesperado remorso. Lembra-se de ter roubado o laudo da perícia logo após ter estado na cama com Castro. A experiência havia sido ótima, mas na época sua missão estava acima de qualquer outra expectativa.

- Você não compreenderia – pigarreou.

- Nem tente explicar. No meu departamento investigamos crimes para punir os culpados, mas não manipulamos cidadãos indefesos em troca de... – ele pensa um instante. – Em troca de prestígio? Promoção? Dinheiro? Investigamos os mortos, mas cuidamos que os vivos permaneçam vivos...

- Capitão! Detetive! Encontramos aqui! – chamou o bombeiro aflito.

- O que é? – Castro segue na direção do entulho e se surpreende com o que vê. Imediatamente, usa o rádio para pedir reforço, macas e ambulância.

- Nunca vi disso na minha vida – reforça o socorrista.

Vera se aproxima também. Ali estavam em um leito de concreto, madeiras e telhas, dois corpos abraçados. A intensidade do fogo os uniu de modo que as peles deles se misturaram.

- Estéfanie! Eduardo! Estão vivos!

*****


Ivo ordena que o prefeito fique no centro do cenário para seu comunicado oficial. O prefeito, um senhor de 68 anos e olhos extremamente azuis, demonstrava desânimo frente ao que era obrigado a aceitar.

Ele ajeita a gravata, pigarreia, olha para a câmera, aguarda um sinal do cinegrafista e começa a falar:

- Caros joinvilenses, nossa administração sempre privilegiou o bem-estar da população, bem como sua saúde e segurança. Nossa cidade está enfrentando um momento dificílimo, com quadrilhas causando confusão, espalhando medo e assassinando pessoas trabalhadoras, pais e mães de família, adolescentes, estudantes, crianças...

Televisores em toda a cidade permanecem ligados. Nunca antes algo assim tinha ocorrido e a população continua apreensiva.

Ângela quis pedir para que os clientes saíssem, pois já passava do horário de fechar a loja, mas entendeu que a situação exige paciência.

Alberto acompanha o pronunciamento do prefeito, de pé, ansioso, pois há um perigo muito maior do que era anunciado.

Ricardo correra do banho ao chamado do enfermeiro que estava quase saindo do expediente. As notícias anteriores foram assustadoras.

“Para solucionar esses problemas que estão roubando nossa paz, e em favor da sua segurança, caro cidadão e cidadã joinvilense, nós, em decisão unânime, anunciamos minha renúncia ao cargo de prefeito desta querida cidade.”

Nas praças de alimentação dos shoppings centers, bares, lanchonetes e restaurantes, as pessoas respondem praticamente em uníssono. Alguns estudantes do ensino médio ou das universidades, sem compreender o exato teor do comunicado, ensaiam ovações e aplausos. Os jornalistas ficam apreensivos; os políticos das diversas chapas partidárias aguardam antes de realizarem contatos e providenciarem acordos. A tensão paira no ar feito uma densa nuvem – uma supercélula.

“Nós percebemos que nossa administração não tem atendido aos anseios dos eleitores e, dessa forma, estamos retirando nossos nomes para que outra administração atue e ajude e solucione o caos ao qual a cidade vem sucumbindo. – O agora ex-prefeito faz uma pausa, como se lhe doesse cada palavra. Inspira e, finalmente, anuncia: – Nomeio, então, o Sr. Ivo Fernandez o novo prefeito de Joinville”.

A câmera é movida para o rosto de Ivo, que sem qualquer demonstração de alegria ou vitória, olha profundamente para a lente, como se desejasse olhar diretamente dentro dos olhos de cada telespectador.

Ricardo sua frio. Alberto volta a se sentar na cama. Ângela deixa cair as chaves da loja sem desviar os olhos do televisor. Castro é chamado com urgência para assistir a transmissão em um smartphone.

- Cidadãos joinvilenses, na qualidade de prefeito dessa cidade, tenho o seguinte a declarar. A partir deste exato momento ninguém pode deixar a cidade e aqueles que estão fora não poderão retornar sem prestar previamente contas aos soldados que estão vigiando as entradas principais e secundárias do município. Um decreto de lei que será devidamente anunciado pelos jornais e emissoras de TV cria o Imposto de Previsão de Conflito ao que todos deverão honrar. As empresas da região são obrigadas, por meio deste decreto, a aceitar os termos de funcionamento e transferência de recursos para um fundo de reserva para a guerra. As escolas estaduais, municipais e particulares serão regidas por novos regulamentos e os estudantes passarão a receber disciplinas como Estratégia para Conflitos, Fabricação de Artefatos de Explosão, Ética de Guerra e Defesa Pessoal. Aqueles que se recusarem podem optar pelo regime fechado de treinamento na penitenciária municipal. O espaço aéreo da cidade está sendo monitorado durante 24 horas, e por essa razão, todos os voos devem ser previamente informados e cadastrados em nossa Comissão de Controle de Acesso. Caminhões de carga somente serão permitidos entrar no município com cadastro prévio na Comissão de Assuntos de Negócios. Os grupos de combate que estão nesse momento desembarcando em vários pontos da cidade passarão a fazer o patrulhamento do embarque e desembarque de nossos negócios. E agora tenho um recado especial para a agente Vera, que tenho certeza, está nos assistindo. Ordene a imediata evacuação das forças nacionais ou novas explosões acontecerão. Você tem uma hora.”


*****


- Agente Vera na escuta... agente Vera na escuta!

Vera dá entrada em Eduardo e Estéfanie em um hospital particular da cidade enquanto seu rádio chama incessantemente.

- Prossiga – ofega, apertando o botão e soltando logo em seguida.

- Remova as equipes de apoio imediatamente!

É Castro. Vera estava com ele havia dez minutos e estranha o tom de urgência.

- Impossível, senhor! – responde em tom imparcial.

- Isso é uma ordem! – insiste Castro, sua voz atravessando o rádio de comunicação quase com estrondo.

- Capitão, lamento, meu superior me deu ordens expressas de manter a armada nacional...

A comunicação é interrompida e ela solta o botão.

- Foda-se suas ordens, agente Vera! A cidade vai sofrer novo ataque se dentro de uma hora o exército e a aeronáutica não recuarem!

Vera estagna. De repente, a vida dos habitantes da maior cidade de Santa Catarina está inteiramente à mercê de uma decisão sua.


A segunda parte  história sairá dentro de algumas semanas. Até lá!