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Joinville, Santa Catarina, Brazil

Poesia - CONFIGURAÇÃO EXCLUSIVA

Eu não sonhava com você
e nem esperava te encontrar.
Queria apenas conhecer
instantes de insensatez
e soprar minha embriaguez.

Sua presença, censura,
De descompasso causador,
seus gestos, doçura,
meu coração encheu de amor.

Na configuração exclusiva do meu ser
você vem e se mistura.
Sua face desvanece,
temo te perder,
porque sua dignidade é minha cura.

E eu te procuro a cada alvorecer,
você, um sonho que me acorda,
a felicidade de viver,
coração que de amor transborda.

Poesia - GPS DA PAIXÃO

As palavras não fazem sentido
quando eu me sinto perdido.
Abro um livro e vejo palavras
voando em minha direção.

As palavras procuram abrigo
e penetram no meu coração.
Mesmo assim, as investigo
pra saber o que encerrarão.

Há palavras, só palavras
que seu destino não alcançam.
Há palavras, só palavras
dentro do meu coração.

Continuo desnorteado,
sem saber onde te procurar;
pelas palavras, desorientado,
sinto vontade de te amar.

Um instante de hesitação,
porém, preciso te encontrar,
Saber de ti, minha ilusão,
Te descobrir, te abraçar.

Então sem demora eu ligo
o GPS da paixão,
me comunico contigo
e te encontro, meu coração.

Há palavras, só palavras
que querem te encontrar.
Há palavras, tantas palavras
minha bússola é seu coração.

Poesia - EM DEFESA

Seus olhos, indiscretos, me perscrutavam,
buscavam respostas na minha essência;
seu olhar penetrante me envaidecia,
minha alma solitária invadia.

Tentei ignorar o que seus olhos imaginavam,
quis fugir de você e me esconder,
refugiar-me em minha verdade constante,
mas, nem que eu quisesse, te esqueceria.

Veja só o que você fez comigo:
Deixou-me indefesa,
oscilou minha certeza,
e agora corro em defesa
do que acredito e sigo.

Continuou olhando atentamente,
e eu, sem graça e com pudor,
com voz sumida respondi presente,
e você me olhou com ardor.

Coragem não lhe faltava
para dizer do que gostava:
dos meus olhos que transmitem doçura,
e que mesmo menina, pareço madura.

Poesia - BRUMAS DA SEDUÇÃO

Acabo caindo num irrefletido engano
quando seu elogio minha alma abranda;
diante do semblante serenado,
faz-me esquecer a vida que anda.

Seu olhar incide sobre mim
com tão doce e sincera ilusão,
e eu me envolvo, enfim,
nas brumas de sua sedução.

Sigo você nervosamente
na caminhada ofegante;
ouço o que diz meu coração
e desatenta, perco a direção.

Confesso, contrariada,
das virtudes, abalada,
dos princípios que não troco:
espero te rever, mas não posso.

Ilusão de alguém que agora flutua
nas carícias lânguidas da aurora
e na velocidade da luz em alta hora
parte do aposento para a lua.

Não me é permitido te amar,
declarar-me nem pensar!
devo afastar-me do seu encanto,
mesmo que em sentido pranto.

Perder-me assim não devo mais,
iludir-me em sonhos, jamais!
pois você apareceu e já passou,
terna lembrança que ficou.

Poesia - ENIGMA DE UMA EMOÇÃO

Achei que fosse brincadeira,
mas você apareceu
do jeito que prometera.

Meus olhos, das órbitas
quase fora,
minhas pernas enterneceram.
Pensei um segundo: E agora?

Que coisa é essa,
de querer agir depressa,
te impedir, que é o certo,
fingir que não me interessa?

Quando te avistei,
fechei o coração
já comprometido.
À sua aproximação
me retraí
e estendi a mão.

Queria conversar contigo,
Mostrar minha alma,
Em teu semblante serenar,
buscando abrigo.

Postura indigna,
O correto é esquecer,
Mas quanto bem faz
a lembrança
deste doce enigma.

Poesia - OLHOS DE JABUTICABA

Faz muito tempo que eu queria te dizer isso,
que você é minha pedra preciosa,
minha estrada, o caminho por onde sigo,
minha lua, meu sol, minha casa.
É você que alimenta o meu viver.

Quase te perdi para o meu trabalho,
mas foi a tempo que reconheci
que estava errado, o tempo inteiro.
Você lutava pra vencer a solidão
e me esperava e eu não te amava.

Mas fiquei embevecido com seu corpo
que me esperava, ansioso por um toque,
Ávido de esperança por um abraço,
lânguido, desejoso, mas também puro...
Apaixonei-me de novo, te amo, não tem jeito.

Quero envelhecer ao seu lado,
quero vê-la com cabelos brancos...
Olhe para mim: já tenho os meus.
Agora falta você, porém é tão jovem.
Os seus anos não passam tão depressa.

Sou confiante de que Deus está agora mesmo
aqui ao nosso lado, nos fazendo felizes,
dando-nos oportunidade para recomeçarmos,
assim como as árvores, que perdem suas folhas
durante o outono, mas na primavera se renovam.

Sinto medo quando você fica longe,
pois a distância é como um veneno;
as horas separados são torturantes.
Quero vê-la, senti-la, amá-la
como se sempre fosse a primeira vez.

Conseguimos rir juntos ao nos declararmos
depois de tantos conflitos e tantas dúvidas,
e seus olhos voltaram a brilhar
fulgurantes, como jabuticabas,
revelando a pureza de sua alma.

Como me arrependo de ter te ignorado,
mas você sabe o quanto te amo.
Às vezes a cabeça não está boa,
Mas o coração sempre está
Te procurando, certamente.

Você sabe que eu te amo,
não há nada que perturbe nosso amor.
Não se sinta desprezada
se não te procuro, pois respeito
o seu cansaço e o seu descanso.

Repousa no meu peito, doce amor meu,
não pense que deixei de te amar;
é somente o horário das obrigações
que nos separa, e nada mais.
Não sofra, mesmo longe, você está em mim.

Diga que também me ama,
para mim também é importante te ouvir.
Não responda que vai desistir.
A nossa jornada não tem fim.

Eu preciso de você, minha vida,
minha paixão, mulher linda
que Deus me deu,
mulher pura como os anjos.

Quero vê-la confiante, firme,
constante, deslumbrante.
Basta olhar para mim,
olhos de jabuticaba,
Para abrilhantar meu coração.

Penso em você a todo instante
e luto por você,
razão da minha existência.
Não se preocupe tanto,
você é exclusivamente minha
e, da mesma forma, sou todo seu.

Quero envelhecer ao seu lado,
Fazer com que seus olhos brilhem sempre,
Sussurrar palavras de amor,
Cantar, cuidar de você,
Razão da minha presença neste mundo.

Poesia - MAIS UM ANO QUE SE PASSA

Vem, amor, veja quem sou
Não esqueça o que passou
Os anos passam
Mas meu amor por você não.

Mais um ano que se passa
E eu lutando contra o pavor
que sinto em te perder.

Mais um ano que se passa...
Sua presença me transformava,
curava minha carência.
Te busco em toda parte

Quem sabe, você sozinha
No quarto, na cozinha,
Sem vontade para nada
Possa vir à sua lembrança
Bons momentos que vivemos
E então sentirá saudades
E a saudade lhe mostrará
O quanto fomos felizes.

Vejo teu olhar
Em todo lugar
Encontro você
No meu pensamento
Basta amar
E depois sonhar
Em teus braços
Busco alento
Preciso de você.

Prosa Poética - A SINFONIA DA PAIXÃO

Palavra dita na hora certa, um tanto inquieta, sugestão onírica de demasiado enlevo; sensação vaga, porém, pulsante, corre desvairada por entre litros de glóbulos vermelhos.
O olhar curioso, irracional, capta na menina dos olhos – pupilas semelhantes a portas abertas da alma, a melancolia daqueles que são surpreendidos como alvos de perscrutação.
As palavras e o olhar – determinantes de direção como seres independentes que esquadrinham a rocha, destroçam-na e em seguida a lapidam com paciência, agem na robustez aparente e tornam dóceis as emoções fervilhantes.
Dias e noites chegam e se vão, entretanto, o pensamento, ansioso, permanece feito flor trepadeira, crescendo a cada instante e se emaranhando em derredor do coração.
Fadas, duendes, princesas, reis, heróis participam da fábula e, do encantamento ao êxtase basta um faz-de-conta.
O amor a primeira vista é culminante para o conflito de emoções e a peneira dos valores é sacudida. Resta o interesse sincero, a devoção, a confiança e a sede pela continuidade da história primaveril.
A fragrância exalada no primeiro contato evoca a pureza do espírito, este despido de qualquer mediocridade, não menos iludido com a perspectiva da felicidade.
Um abraço parceiro – convite para a inocência, busca o prêmio mais almejado. A respiração rarefeita, o corpo trêmulo e sem força para se desvencilhar da intensidade do aconchego, permite o primeiro toque, indeciso, suave, sôfrego, material e simultaneamente sublime.
As mãos se alcançam e se tocam e os dedos também se entrelaçam como um abraço. A epiderme nua recolhe impressões táteis que conduz ao hipotálamo e os neurônios, nervosos, estralam feito galhos secos, depois explodem em delirante fusão.
A face ruboriza-se, atraindo a temperatura pirética e os olhos se fecham, deixando a audição amplificada e aflorando a sensibilidade latente. Subitamente, o maestro congela o tempo e paralisa a batuta no ar até movimentá-la freneticamente indicando o clímax do concerto.
Arrepios, como ondas elétricas, percorrem a região periférica das terminações nervosas durante o momento em que os lábios se tocam; estes macios, delicados, paciente, doces. A orquestra toca em desvario, os acordes soam no compasso cardiorrespiratório dos seres que se consagram em um só através da reciprocidade de sentimentos.
Palavras, nesse momento de eternidade, cedem lugar aos aplausos dos corações resgatados pelo júbilo. Olhos sorriem ao se encontrar imersos na águas do desejo que se acalmam. Dúvidas findam a quimera e o universo se torna apenas um esboço da plenitude.

Poesia - UM POETA QUE SE CHAMA CELSO

 Quanto tempo está por vir,
sei que o tempo não vai passar.
Deixe o número do seu telefone
Pra eu poder te ligar.

Pra você guardei o amor
que eu nunca soube dar.
O amor que tive em mim
senti sem conseguir provar.

Sei me entregar e repartir.
Pra você guardei o amor
que aprendi vendo meus pais,
e que hoje posso dar,
livre e feliz.
o que guardei só pra você.

Se você fosse o mar,
Eu seria o barquinho
pra estar sempre navegando
nas ondas do seu corpinho.

A hora é agora,
Todo mundo correndo:
O homem bombado,
tá aparecendo!

As horas passam
e eu louco pra ir pra rua,
Já estou imaginando
que vou sentir muita saudade sua.



Restam poucos dias
e este dia vai chegar,
aí eu vou embora,
nunca mais vou te incomodar.

Foi muito bom te encontrar,
melhor foi te conhecer
agora vou embora,
mas nunca vou te esquecer.

Se um dia estiver
triste e aborrecida,
lembre que sou
o amor da sua vida.

Você é a flor
que perfuma meu jardim,
mas nada adianta
se você não liga pra mim.

Esta noite tive um sonho
e no sonho assim dizia:
que você um dia
ainda será minha.
Espero este dia.

Você parece uma rosa no jardim,
Estou pensando
que Deus tinha feito
você pra mim.

Se você fosse uma rosa,
eu seria o canteiro
para estar em seus braços
o dia inteiro.


Se amar for pecado,
eu morrerei pecando;
só sei que meu coração
por você continua esperando.

Se olhar para o céu
e vir que vai chover, pense,
pois são lágrimas dos meus olhos
com saudades de você.

Esperei 26 anos
e você não apareceu;
agora tem outra ocupando o lugar
que podia ser seu.

Prosa Poética - OS MINUTOS DO MEU PENSAMENTO

Passo cada minuto pensando em você, imaginando uma conversa entre amigos, trocando frases sem sentido, eu só ouvindo, pois me acho tola perto da sua segurança.
Imagino você saindo de casa, beijando sua mãe, abraçando o seu pai, afagando o cãozinho.
Vejo você chegando à escola, se apressando para não perder a primeira aula.
Às vezes, penso em você discursando sobre física nuclear e ensinando algoritmos a jovens estudantes. Julgo que você é inteligente demais para mim, pois suas equações e raízes matemáticas representam hieróglifos para minha humilde ignorância.
Olho você quando está ouvindo MP3 em seu smartphone.
Aprecio seu jeito bem-humorado e seu sorriso, e lamento quando o vejo pensativo e desmotivado, tentando segurar a barra e dar um jeito no mundo inteiro.
Submeto-me a um momento de delírio em que minha pele toca a sua, porém, fujo assustada do pensamento.
Obra de meus 16 anos inexperientes de amor e doação.
Então viajo nas vagas lembranças da imaginação que me conduz ao caos de um instante que nunca aconteceu.
Sonho.
Fantasia.
Ilusão de menina imaculada que desperta para a vibração de um coração em turbulência, afetado por canções românticas e cenas pitorescas de paixão e pureza.
E descubro que desejo ver você a cada instante, mas o embaraço quando lhe encontro causa formigamento nas pernas e o meu coração quer provar que consegue ser atleta saltando bem no meio do esôfago contraído.
E novamente estou aqui, esperando que você passe por mim, porque só posso lhe observar, o que me provoca uma sensação de extremo encantamento frente a você, vivido, lindo, inteligente, prático.
É o meu jeito de amar você.

Conto - Eu vou te levar ao mensageiro do Templo

O helicóptero preto de guerra surgiu no céu nublado e se aproximava da casa. O som de suas hélices em funcionamento constante penetrava nos ouvidos e fazia a mente trepidar. Na janela da cozinha na casa de meus pais eu podia sentir e ver o grande pássaro metálico aproximar-se perigosamente da porta e, sem ver o homem que estava subindo no aparelho, ouvia-o falar.
De repente, a imagem se perdeu e eu me senti imóvel na cama, adormecida, sussurrando por socorro. O grito não saía e eu movimentava minhas mãos freneticamente com a consciência de que estaria em perigo e ficaria presa para sempre naquele pesadelo. Eu tentava agarrar-me em alguma coisa e sabia que estava sonhando e que o Márcio estava ao meu lado na cama. Bastaria segurar a mão dele e eu estaria segura. Entretanto, o desespero aumentava e eu sabia que iria morrer, pois não conseguia alcançá-lo.
Surgiu então a imagem de um vasilhame azul de louça e dentro havia polenta que estava se cortando sozinha sem ser retirada de dentro do pote. Subitamente, uma mensagem apareceu em um dos retângulos de polenta, repetido no segundo retângulo da seqüência. “Eu vou te levar ao mensageiro do templo.” Ao ler a mensagem, eu sabia: precisaria de ajuda ou não sobreviveria...
Abri meus olhos, despertando repentinamente, mas ainda imóvel e sentindo dores no corpo inteiro. Ainda encontrava-me agarrada ao pesadelo e decidi que teria de acordar. Meus olhos fecharam-se mais uma vez e eu voltei a entrar em desespero. Forcei meus olhos a se abrirem e tentei movimentar-me. A mensagem aparecia a cada instante que meus olhos se fechavam, mas, finalmente, consegui agarrar o braço do Márcio e fui içada para fora do pesadelo.

Conto - O ECLIPSE

Um grande evento estava prestes a acontecer no plano mais alto do planeta Terra : o eclipse entre o planeta Saturno e o Sol. Pessoas de todas as idades e todas as etnias se reuniram no topo de uma montanha, onde brotava a fonte de toda a água doce do nosso planeta. Em volta da fonte líquida de riqueza mineral, fora construída uma sacada com vista para o fenômeno espacial. As pessoas se acotovelavam para se aproximarem do local onde melhor poderiam presenciar o eclipse. Eu me esgueirava no meio da multidão, acompanhando todos os movimentos. Vi então um menino de pele morena clara perto dos pais e algo naquela cena me empertigou.

Ainda era dia quando o planeta Saturno, com seu anel, iniciou sua etapa de aproximação com o astro rei.  As pessoas ficaram eufóricas. Uma mulher tentou se equilibrar no muro à esquerda da área da vista para a nascente, mas depois de alguns segundos, não suportou o peso do próprio corpo e pulou para o chão, procurando novamente lugar no meio das pessoas que acompanhavam o eclipse. Enquanto isso, eu desci do topo do planeta e comecei a caminhar no meio da vegetação. Parei atrás da equipe de fotografia e imagem de uma rede de TV, observei os veículos estacionados em ângulo e um garoto de uns quatro anos andando de bicicleta. Ele estava pedalando diretamente para a borda do precipício que dava para a nascente. O meu medo aumentou quando vi que ele não parou a bicicleta. Tentei sair do lugar, mas meus olhos estavam presos ao céu: Saturno estava se sobrepondo ao sol e o dia começara a desaparecer.

A água da represa onde ficava a nascente começara a se agitar com o vento que soprava assustadoramente. O menino continuava pedalando para a borda da represa e desabou no precipício, e foi levado pela água turbulenta. Pessoas começaram a se agitar para resgatá-lo, mas foi naquele momento que uma descarga elétrica atingiu a barragem e a passagem para o topo do planeta. Houve gritos de desespero frente ao tornado que passou pelo local. As pessoas se agarraram no que sobrava da vegetação. Quando o planeta serenou e o eclipse terminara, observei o mesmo menino de pele moreno-clara, sozinho, andando a esmo na praia que se formara ao lado da barragem destruída, e deduzi que provavelmente estava à procura dos pais, que haviam desaparecido durante o cataclisma.

Um homem se apressou em alcançar umas tábuas encharcadas caídas no meio do mato para formar passagem para os sobreviventes seguirem seu rumo. Atravessei pelas tábuas e em seguida, cheguei a um vilarejo devastado pelo temporal. Uma mulher procurava no meio dos entulhos um chinelo que faltava ao par que ela trazia calçado, um homem com a barba por fazer reclamava de suas roupas encharcadas, havia lixo, cadeiras e bancos de madeira espalhados, restos de construção, uma ou outra árvore desfolhada ou caída, deixando à mostra suas raízes. O que mais me chocou foi ver crianças matando sua sede com a água suja das poças e vomitando a lama da qual haviam se alimentado, porque a escassez de comida era completa. O menino moreno-claro continuava caminhando sem direção, e em seu rosto pude notar sinais de abatimento e preocupação.

Um casal surgira no meio daquela imagem desoladora. Pelo que pude ouvir, eles precisavam sair daquele vilarejo e voltar para a terra natal, onde moravam os pais da mulher. Segui-os sem saber para onde iam. Imaginei que fossem eles os pais daquele menino que perambulava pelos entulhos e senti urgência em comunicar isso àquele casal. Entretanto, eu era somente um fantasma, eles não podiam me ver nem ouvir, e isso provocou em mim enorme frustração. Eles continuaram seguindo a pé, ela dando a mão a ele, como que para não se separarem também os dois. Chegaram em uma estrada pedregosa que subia. Ouvi uma exclamação de felicidade: "Eu não estou acreditando! O destino nos trouxe de volta ao nosso lugar de origem!" e observei o que havia deixado a mulher tão animada. Consegui enxergar apenas pinheiros monumentais, que formavam um corredor para a estrada. O casal então chegou ao seu destino: encontraram os pais da mulher, que ficaram extasiados por terem sobrevivido ao desastre. As instalações eram precárias, eles viviam embaixo das árvores de uma floresta escura, onde não penetrava luz solar, entretanto, pareciam felizes.

O casal foi para o local de descanso e eu continuei minha exploração. Estava cansada com tanta escuridão, e só então percebi que já havia anoitecido. Cheguei a um local semelhante a um criadouro de animais, mas só vi valas, coxos e baias. Não havia animais. Encontrei uma mulher conversando com um homem e subitamente ela começou a correr para fugir de algum perigo que a estava atemorizando. Ouvi a voz rude de uma mulher ordenando aos capangas para apanhar a intrusa. Observei que a mulher que estava sendo perseguida escapou, porque deitou em uma das valas e ficou submersa nos resíduos fecais dos animais. Quando a equipe de busca passou pelo local, ela imediatamente se levantou e correu para o lado contrário. Fui atrás dela, queria perguntar porque razão ela fugia. Mas ela não me dava ouvidos, estava ocupada demais tentando se salvar. Subiu em uma parede, atravessou algumas tábuas e se jogou sobre o telhado ao lado. O barulho da queda atraiu os homens que a perseguiam. Latidos e exclamações abafadas misturavam-se ao pânico e à escuridão derradeira. Mas ela conseguira escapar e a equipe se espalhou.

Subitamente voltou à minha memória o menino que se perdera dos pais. Eu o vi novamente, mas os anos haviam dado a ele barba, tamanho e uma boa idade. Foi naquele momento que ouvi sua voz, lamentando todo o sofrimento que passara ao se separar dos pais logo na infância.