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Joinville, Santa Catarina, Brazil

CAPÍTULO 7 - PARTE I - O GAROTINHO DO OUTDOOR


Uma enfermeira que acompanhava a recuperação de Tatiana abriu um sorriso ao verificar que a paciente estava reagindo à medicação. Cumpriu os procedimentos e alertou um dos médicos da equipe que a atendera, e este autorizou a retirada do oxigênio e a transferência da paciente para o quarto. Tatiana, contudo, continuava em um sono profundo, apesar dos sinais vitais estarem se normalizando e o médico, prudentemente, adiou a alta da UTI.

- Mantenham a medicação – sugeriu ele. – Vamos ver como ela se sai daqui pra frente.



Enquanto seu organismo lentamente se reabilitava, Tatiana viajava em seu subconsciente, experimentando uma atmosfera lúdica de redescobrimento. Assim, resgatou a imagem do outdoor com aplique em forma de garotinho que ela vira descrito em uma revista quando era criança. Sonho e realidade confundiram-se e o garotinho do aplique ganhou vida e levantou, espreguiçando-se sobre o outdoor. Depois, caminhou pé ante pé de uma extremidade a outra, equilibrando-se para não cair. Esticou o bracinho curto para segurar a colher que estava dentro da bandeja de iogurte impressa. Mexeu e levantou a colher no ar. Perdeu o equilíbrio e caiu dentro do pote de iogurte, onde ficou mergulhado, mas emergiu em instantes para segurar-se nas bordas do pote. Escalou o outdoor e sentou bem no alto balançando as perninhas. O garotinho estava todo lambuzado e soltou uma gostosa gargalhada...



Tatiana abriu os olhos, ainda escutando bem distante a gargalhada. Ela moveu a cabeça lateralmente e estalou a língua algumas vezes, achando graça do próprio sonho. Entretanto, foi surpreendida pela tontura que parecia jogá-la de um lado para outro, como um brinquedo de parque de diversões, e agarrou-se com força nas bordas da cama. Ao mesmo tempo, sua nuca parecia pesada e dava-lhe a sensação angustiante de falta de equilíbrio e dormência. As glândulas salivares aumentaram o ritmo e em sua garganta um nó se formara, aumentando o mal-estar. A fraqueza tornava seu corpo mole e produzia a ilusão de que flutuava no ar. A sala girava como um carrossel e Tatiana fechou os olhos com força, respirando irregularmente. Procurou conter-se para não expelir o êmbolo em sua garganta e quando se recuperou tornou a abrir os olhos sem se mover.
Olhou o teto de laje onde lâmpadas fluorescentes formavam pequenos espectros. Onde estaria? Ela se perguntou e em seguida ouviu aparelhos que emitiam sinais sonoros semelhantes a bips cadenciados. Sopros muito fortes concorriam com os bips e a curiosidade dela foi ficando aguçada. Moveu a cabeça alguns centímetros para a direita e encontrou pendurada a bolsa de soro. Seus sentimentos modificaram-se ligeiramente, cedendo o lugar da curiosidade a um assombro quase desesperado. Levantou uma das mãos e viu sua pele perfurada por um tubo fino fixado à veia por um esparadrapo. Seguiu, com os olhos, outros fios que estavam presos em outras partes de seu corpo e notou que alguns se conectavam atrás da cama, embutidos na parede, os mesmos que emitiam aqueles sons ritmados e melancólicos; outro tubo descia a cama e continha algumas gotas amareladas que, naquele instante de nervosismo, aumentaram a sequência até se transformarem em um filete.

Tatiana então ouviu algumas pessoas dando instruções e olhou para o lado, onde acompanhou o atendimento de um senhor cujo corpo convulsionava devido aos choques elétricos em seu peito. Em seguida, o aparelho emitiu um único bip contínuo e a sala ficou novamente em silêncio. Tatiana fechou os olhos e duas lágrimas se formaram para em seguida rolarem por sua face.



O relógio marcava 22:05 e Paulo aguardava o diagnóstico de Dr. Roberto, que analisava atentamente os resultados do eletroencefalograma. O interesse do médico era visível e Paulo torcia as mãos nervosamente, temendo um resultado desanimador.

- O cérebro dela não sofreu nenhuma lesão – revelou, finalmente, o doutor.

- Verdade? Então ela vai ficar bem?

- Não posso garantir nada até que ela saia do coma.

- Quero vê-la.

- Hoje o horário de visitas acabou. Espere até amanhã. Agora preciso ver outros pacientes, ok? – disse o médico, estendendo a mão espalmada para Paulo, que saiu assim que a apertou.




A enfermeira trocou a bolsa de soro e substituiu o tubo de ligação com a veia, porque havia sangramento.

- Ai, ainda preciso disso? – gemeu Tatiana, sobressaltando a enfermeira. – Não quero mais ficar aqui.

A enfermeira retirou a máscara do rosto e sorriu para Tatiana, que lutava contra o poderoso efeito dos sedativos. Escutou a mulher informando para outro enfermeiro que chamaria o doutor e depois do que Tatiana pensou ter passado horas, apareceu um senhor diante dela, felicitando-a pela surpreendente recuperação.

- Você nasceu de novo, menina – disse o médico, alegremente.

      Tatiana procurou lembrar-se o que havia ocorrido e tentou racionar acerca daquelas informações desvinculadas. “Suspendam o sedativo”, ouviu o médico dizer, mas voltou a fechar os olhos.



CAPITULO 6 - PARTE IV - NO HOSPITAL




Ainda era muito cedo e a recepção do hospital estava fechada. Mesmo assim, ele entrou sorrateiramente pelo pronto-socorro e subiu as escadas até a UTI. Quando parou diante da porta, seu coração bateu com mais força e ele tocou no trinco.

Você não pode entrar aí agora, rapaz.

Sobressaltado, virou-se bruscamente e deu de encontro com uma mulher de aparência zangada, vestida com uniforme verde-água.

Por favor, minha esposa foi internada e eu estava em viagem... – mentiu ele.

- Não sei, pode complicar o meu lado – falou a mulher, aparentemente zangada. –  Mas, tudo bem.

Paulo finalmente entrou. A ansiedade apertara sua garganta e sua cabeça latejava com violência, arremessando-o em um mundo de ilusões à medida que observava um a um e preparava-se para o encontro tão aguardado.

Tatiana estava irreconhecível, com tubos de respiração, máscara de oxigênio, fios grampeados em um dos dedos que Paulo acompanhou até vê-los conectados ao monitor sonoramente melancólico, que previa mais a ausência de vida do que a recuperação em si. Lágrimas toldaram-lhe a visão diante da visão funesta. Paulo teve o ímpeto de arrancar Tatiana daquele lugar e tomá-la nos braços, mas controlou-se porque sabia que sua vida dependia dos aparelhos. Ele aproximou-se e beijou sua testa. Passou então a ler as informações que constavam em um formulário sobre uma prancheta, mas os dados técnicos não fizeram qualquer sentido para ele.

Paulo revoltou-se ainda mais quando viu Tatiana naquele estado e dentro dele cresceu a certeza de que Elisabete havia contratado algum capanga para assassinar a moça. Pela mente dele transitavam emoções negativas, onde aumentava o ódio por Elisabete, a revolta consigo mesmo, a sensação de culpa e o medo de perder Tatiana para sempre. Sua mente começou a girar novamente e ele teve vontade de sumir, como se a fuga o libertasse de seus problemas e apascentasse suas aflições. Ele ergueu as mãos e chamou por Deus, pedindo para morrer.

Subitamente, uma onda de calor espalhou-se por seu corpo, envolvendo-o. Um sopro na nuca despertou sensações tão intensas que, por um minuto, Paulo esqueceu suas dores e passou a acreditar que ele próprio possuía potencial para reverter a situação e lutar pelos seus princípios e ideais. Naquele minuto, ele refletiu o quanto havia sido fraco e covarde, por vezes escondido atrás de sua irritação e extremismo, que nunca o levaram a lugar algum. Após a morte de Evelin, Paulo fechara-se em sua concha, evitando olhar para as pessoas ou ajudá-las, porque se julgava o único ser humano digno de comiseração. Tinha pena de si mesmo e esquecera-se de lutar contra suas barreiras emocionais. O mundo tornara-se seu inimigo e tudo o desagradava. E agora lamentava que a pessoa que mais amava precisasse sofrer para que ele finalmente aprendesse a lição. Mas estava disposto a resgatar a vida de Tatiana e punir Elisabete adequadamente por todos os atos desumanos que ela praticara.

Desta forma, ele despediu-se momentaneamente de Tatiana e saiu à procura do médico que a atendera. Depois de alguns minutos de investigações, ele descobriu que o médico trabalhava no plantão noturno. Como não tinha tempo até a noite, Paulo continuou pesquisando, até conseguir o endereço da clínica, para onde se dirigiu imediatamente.




Natália chegou à empresa, mas não pôde trabalhar, porque a sala havia sido isolada em virtude do crime sucedido na noite anterior. Todos os funcionários estavam inquietos, mas ninguém sabia, ao certo, o que havia acontecido. Somente quando Luíza chegou, contou os fatos e todos ficaram revoltados. Natália caiu em prantos.

- Não chora, Natália...

- Ela tava tão feliz ontem – soluçou Natália, enxugando as lágrimas. – Não é justo...

A equipe da perícia trabalhou no departamento durante algumas horas pela manhã e assim que terminou as investigações, liberou o local. Paloma esteve na sala de Valéria e relatou o que sabia, porém, ocultou suas suspeitas e voltou ao setor, aproximando-se da mesa de Tatiana, onde encontrou Luíza.

- Precisamos avisar o corte – disse Luíza. – Você pega uma folha, eu pego o resto.

- Luíza, Natália, eu liguei para o hospital – começou Paloma.

- E então? – Natália estava ansiosa.

- Ela está em coma e não está reagindo à medicação.

- Meu Deus...

Luíza sentiu-se momentaneamente zonza e teve dificuldade para respirar. Imaginando a cena onde Tatiana fora surpreendida pelo ladrão, sentiu calafrios. O ambiente estava pesado, como se ali tivesse acontecido uma batalha sangrenta que deixara morte e destruição. Era como se a alma de Tatiana ainda estivesse por ali, presa no local de tortura, sem definição de vida ou morte...

- Luíza!

Luíza voltou repentinamente ao papel que segurava e uma corrente gelada de ar aguçara sua sensibilidade. Paloma estava rindo dela, perguntando se ela não tinha se perdido na “viagem”.

- Luíza, eu te chamei quatro vezes! Você foi longe...

- Paloma, como você pode rir assim depois de toda essa tragédia? – censurou Luíza, franzindo as sobrancelhas e desaprovando a atitude da amiga.

- A vida continua – respondeu Paloma, ressentida. – Então não podemos mais rir?

- Não nesse momento. O mínimo que podemos fazer é sermos solidárias. Tome, avise o corte enquanto eu vou à sala da Valéria.

Luíza entregou o relatório do corte e saiu em seguida. Natália observou a cena e perguntou:

- O que deu nela, Paloma?

- Sei lá. Acho que toda essa história deixou ela impressionada.

- Todo mundo ficou apreensivo, afinal, ninguém sabe o que aconteceu.

Paloma, que andava desconfiada que Natália pudesse saber de alguma coisa, não perdeu a oportunidade e fez especulações sobre os fatos do dia anterior enquanto Natália digitava. Dotada de uma aguçada sensibilidade e um apurado raciocínio, Paloma lançou hipóteses, esperando que Natália confessasse algo. Entretanto, sentiu que ela suspeitara de suas intenções ao responder cautelosamente suas inquisições. Insatisfeita, Paloma comentou que Paulo pedira o endereço onde Tatiana passava as férias e discretamente ameaçou revelar para a polícia que a última a conversar com a vítima antes do crime fora Natália. Esta compreendeu a indireta e imediatamente parou de digitar.

- Eu não estou entendendo aonde você quer chegar com toda essa conversa, Paloma. Só falta você querer me acusar de ter estrangulado a Tati antes de encontrar vocês duas lá fora.

- Não, claro que não  – falou Paloma, entretanto, continuou cismada.






Paulo chegou à clínica neurológica na Rua Orestes Guimarães, mas as atendentes não permitiram que ele fosse atendido por mais que implorasse para falar com o médico. De repente, um casal saiu de dentro de um consultório e estava se despedindo do médico que Paulo procurava.

- Você não pode entrar aí! – bradou a atendente, mas Paulo já se encaminhara para o consultório.

- Por favor, preciso de informações a respeito de Tatiana, que está na UTI do hospital São José.

- Desculpe, amigo, mas não tenho condições de dar informação nenhuma.

- Como não tem? – Paulo agarrou o médico pelo colarinho e encostou-o contra a parede.

Uma das atendentes telefonou para os seguranças do prédio e, enquanto se comunicava com alguém, observou que o médico lhe fazia sinal para ter cautela.

- Solte-me e então poderemos conversar civilizadamente – disse o médico.

Paulo soltou o homem e pediu desculpas. O médico perguntou seu nome.

- Paulo, entre por favor.

- Doutor Roberto, sinto muito ter feito isso. Eu mesmo não gosto de resolver nada na base da violência, mas é que preciso saber como Tatiana está.

- Ela é sua esposa? – perguntou o neurologista, com curiosidade. Diante da negativa, ele continuou: – Então deve ser uma mulher muito especial. Mas, vamos ao que interessa, Paulo. Como eu disse antes, eu não posso afirmar nada quanto ao estado dela, porque não cheguei a ler os exames. Você deve me entender. Vá ao hospital hoje à noite a partir das 22h e me procure. Prometo que vou avaliar primeiramente o caso dela.

- Doutor, ela vai sobreviver?

Roberto olhou para o homem diante dele, tão apreensivo quanto esperançoso e, escolhendo as palavras, respondeu:

- Ela tem chances de sobreviver, mas ainda não sabemos em que condições, entende?

Paulo respirou fundo e saiu do consultório, com lágrimas aflorando em seus olhos. Não era justo. As lembranças novamente o surpreenderam, provocando-lhe ainda maior revolta.



CAPÍTULO 6 - PARTE III - SOPRO DE VIDA


Tatiana não respirava mais. Aos poucos sentia que o sangue parava de circular e seu corpo frio perdia quase toda a atividade vital. Seus olhos fixos perceberam que o teto se aproximava e subitamente ela soube que estava morrendo. “Deus, já chegou a minha hora? Então não tenho mais medo.” Ela não sentia dor nem angústia, apenas estava se sentindo levitar e alcançar o teto, que começara a girar, aumentando gradativamente a velocidade. De repente, ela teve a impressão de que despencara de um precipício e seu corpo antes imóvel voltara a se mexer.

Após alguns segundos ela compreendeu o que havia acontecido e agradeceu. “Deus me deu uma chance!” ecoava em seu cérebro atordoado, que recebia um filete mínimo de ar para continuar em atividade. Com muito esforço, ela virou-se de lado no chão, sem conseguir forças para levantar-se. Sua visão turva misturava o rosto de Elisabete com as imagens dos pés da mesa e as rodas da cadeira giratória. “O telefone!” Ela viu o fio do telefone e tentou esticar o braço para segurá-lo. “Vamos, está tão perto”. Finalmente alcançou o fio e puxou o aparelho que estourou no chão ao lado de sua cabeça. Suas forças restantes estavam abandonando-a, mas algo dentro dela queria lutar. “Vamos, você não pode morrer, eu preciso de você”. Então, um a um, ela digitou os números de um ramal, que prontamente atendeu.

- Alô – falou a voz no outra lado da linha. – Aqui é o Fred. Alô!

- So... corro – ela conseguiu murmurar.

- Alô? – Fred estava irritado e achou que era trote. – Fala de uma vez antes que eu desligue!

- Ta...ti...a...na...me...a...ju...de...


O esforço de falar findou suas forças e ela deixou cair seu braço e fechou os olhos. Novamente a sensação de leveza invadiu seu corpo e finalmente ela dormiu.




Uma brisa gélida movimentava as árvores, que perdiam suas folhas e o farfalhar de seus galhos produzia som contínuo de atrito. A lua cheia que iluminava a cidade cedia lugar à névoa que, pouco a pouco, ficava mais densa.

As luzes da sirene de uma ambulância giravam silenciosas no meio da noite e atraíam uma multidão de curiosos para a fachada do prédio de tijolos à vista. Um veículo da polícia chegara e alguns homens entraram no prédio.

Luíza desceu de um automóvel e procurou conter seu desespero para encontrar Paloma no meio da multidão. Suas mãos frias transpiravam e ela nervosamente as esfregava na calça jeans.

Luíza, estou a horas fazendo sinal para você! Tá pensando que eu sou uma ilusão de ótica? – perguntou a moça que se aproximou.

- Paloma, graças a Deus – ela abraçou a amiga. – Desculpe, eu realmente não te vi.

- Oh, amiga, parece que não me conhece, não sabe que eu preciso brincar para amenizar a situação – esbravejou Paloma, tão nervosa quanto aflita.

- Será que a Tati está... – Luíza suspirou, deixando seu pensamento no ar.

- Não, claro que não, ela está bem, você vai ver.

- Estou com medo, Paloma. Quando o Fred me ligou, ele não parecia nem um pouco esperançoso...

- Olha lá, Luíza! Eles estão trazendo ela!

Elas aproximaram-se, com dificuldade, da ambulância e observaram com assombro Tatiana na maca com a máscara de oxigênio. Assim que ela foi transferida para o interior do veículo, o paramédico que a atendia dirigiu a palavra para as garotas:

Vocês a conhecem?

- Trabalhamos com ela – respondeu Luíza.

- Podem acompanhá-la até o hospital?

- Claro – disse Paloma, incentivando Luíza a embarcar na ambulância. As sirenes foram ligadas e o veículo partiu.

Ao chegar ao Hospital Municipal São José, Tatiana foi imediatamente encaminhada para exames. Enquanto Luíza e Paloma aguardavam, lembraram de telefonar para Paulo.

Você acha que ele vem, Paloma? Você sabe que agora ele não decide sobre a vida dele...

- Avisar não custa. E ele vem sim, sem dúvida.

Luíza assentiu e telefonou para o celular dele. Dentro de vinte minutos ele apareceu no corredor, perguntando sobre Tatiana. As garotas, entretanto, ainda não tinham notícias. Aflito, ele dirigiu-se ao balcão de atendimento, mas somente ficou irritado com a má vontade dos atendentes. Voltou ao local onde as garotas aguardavam, mas não sentou.

O que afinal aconteceu a ela? – indagou ele, enquanto andava de um lado para outro.

- Só sabemos que foi encontrada inconsciente e com sinais de agressão física – respondeu Paloma.

- Mas quando aconteceu?

- Depois das 19:30, acho.

- Mas o que ela fazia lá, sozinha a essa hora? – Sua voz soou agressiva e autoritária.

- Ah, você sabe – foi a vez de Luíza –, compensação de horas.

- A empresa e seu maldito banco de horas! – vociferou ele.

- Calma, Paulo! Não é hora para ficar xingando todo mundo – Paloma franziu a fronte, irritada com a atitude dele.

- Calem a boca vocês dois! Estão me deixando mais nervosa – exclamou Luíza.

Muitas horas se passaram até que um médico procurasse pelos parentes de Tatiana. Paulo imediatamente se identificou.

Amigo, você precisa ser forte – disse o médico, em tom impassível.

- Como assim?

- A paciente ficou sem respirar durante muito tempo e isso pode ter comprometido o cérebro, mas somente saberemos com precisão após o resultado do eletroencefalograma. No momento ela está na UTI. O meu palpite é de que ela sofra morte cerebral.

- Mas... – Paulo empalideceu subitamente. – O que houve com ela?

- Melhor você mesmo verificar com a polícia. Preciso ir.

O médico desapareceu no corredor sem dar maiores detalhes, enquanto Paulo olhou bruscamente para as garotas, que sofreram o mesmo choque. Ele imediatamente lembrou da ameaça de Elisabete, mas lhe custava crer que ela levaria ao extremo sua vingança. Uma sensação de culpa dominou-o naquele instante, porque fazia dias que ele estava esquivando-se de cumprir o acordo em troca da segurança de Tatiana. Lágrimas afloraram aos seus olhos e ele sentiu desprezo da própria falta de atitude. Luíza e Paloma, imaginando que aquela reação fosse exclusivamente por medo da morte de Tatiana, tentaram consolá-lo.

Vamos, Paulo, agora ela está nas mãos de Deus – disse Luíza, com voz suave, embora persuasiva.

- Sim, só nos resta esperar – ajudou Paloma. – Não há mais nada que possamos fazer aqui.

Sem contrariar, ele seguiu as garotas em direção da saída. Estava transtornado e por dentro seu corpo inteiro tremia. O ar frio da madrugada provocou um choque em seu organismo, que pareceu reagir. Então, ofereceu-se para levar as garotas para casa e conduziu-as para a pick-up Pajero. Assim que embarcaram, Luíza, que estava impressionada, não deixou de comentar sobre o automóvel.

Pertence a Elisabete. Tomei o carro emprestado por esta noite.

Elas calaram-se e seguiram primeiro até a casa de Luíza. Assim que a viu entrar, Paulo rumou para a casa de Paloma.

Paulo, posso fazer uma pergunta?

- Claro – respondeu ele, sem tirar os olhos da estrada.

- Você foi procurar a Tatiana depois que eu dei o endereço dos pais dela?

- Por quê?

- Porque a Tatiana não tem inimigos. Mas pode ter despertado o ódio de uma mulher.

- Não sei do que está falando.

- Não se faça de sonso, Paulo. Quem teria interesse em assassinar a Tatiana senão a sua esposa? – Paloma estava revoltada.

- Ela não é minha esposa! – ele exclamou. – Eu amo a Tatiana. Não vou suportar perdê-la – respondeu ele, estacionando o carro na frente da casa de Paloma.

- Desculpe, não tive intenção de te ofender. Mas se você ama mesmo a Tatiana do jeito que acabou de me dizer, então vai ter que enfrentar as coisas das quais você tem medo.

Ela desceu do carro e entrou. Paulo observou no horizonte os primeiros raios de sol despontando, mas a névoa continuava baixa. As últimas palavras de Paloma ecoavam em sua mente e ele finalmente se deu ao direito de chorar. Engatou a marcha e retornou pela estrada, disposto a voltar ao hospital. Novamente ele se sentiu responsável pelo crime, mas, ao contrário do que deixara acontecer a Evelin, decidiu não medir esforços para salvar a vida de Tatiana. Entretanto, sua mente entrara em turbilhão e ele não conseguia raciocinar para encontrar soluções. Já seu coração indicava que ele fosse ao encontro de Tatiana. De alguma maneira, ele sentia que havia um vínculo muito forte com ela e não queria perdê-la.






CAPÍTULO 6 - PARTE II - O CRIME


Tatiana contara toda sua história e, no final, Natália abraçou-a.

- Amiga, você tem uma barra pesada pela frente, mas não desista, viu? Você merece toda felicidade do mundo. No final, tudo vai dar certo.

- Obrigada, Natália. Eu sabia que podia contar com seu apoio.

- Agora preciso ir, estou atrasada para o colégio. Tchau!

Assim que Natália saiu, Tatiana voltou ao trabalho.




Natália saiu da empresa e ficou surpresa quando viu Luíza e Paloma.

- Ué? Vocês não iam embora?

- A gente ia, sim, mas ficou batendo papo e nem viu o tempo passar – falou Luíza.

- Você nem imagina quem passou por aqui todo feliz, Natália – comunicou Paloma.

- Quem?

- O Paulo, aquele mala que ia se casar com a Tatiana. Ele sorriu e disse tchau, até parecia gente. Acho que o casamento fez bem pra ele – continuou Paloma.

- Pode ser – concordou Natália, rindo porque conhecia bem a razão que o transformara. – Olha, eu não quero ser estraga-prazeres, mas estou atrasada – alertou.

- Ah, meu Deus! – exclamou Luíza, apavorada. – Vou perder minha aula! Tchau, gente!

- Espera, eu vou com você – disse Natália, enquanto se despedia de Paloma.

As duas apressaram o passo para chegarem a tempo de tomar o ônibus no terminal norte e Paloma atravessou a rua, pois morava em uma casa que fazia frente com a empresa. Antes de abrir o portão, porém, ela viu uma sombra movimentar-se e ficou inquieta.

- Deve ser minha imaginação – resignou-se, entrando na casa.



Assim que ela sumiu, a pessoa que estava à espreita saiu de seu esconderijo e atravessou a rua, encaminhando-se para a porta que dava acesso ao interior da empresa. Girou o trinco, mas o sistema interno de travamento estava acionado. Naquele instante, viu a luz na cozinha do andar superior ser acesa e um funcionário colocar a cabeça para fora da janela.

- Está precisando entrar? – perguntou o rapaz.

- Sim.

- Espere um minuto que já estou descendo. – O rapaz levou um minuto para descer e, ao abrir a porta, olhou para o sujeito com uniforme e boné e se afastou para que ele pudesse entrar. – Você é novo por aqui? – perguntou antes que o instalador desaparecesse no corredor.

- Sim.

- Ah, eu também. Está no plantão noturno?

- Sim.

- Tchau. Bom trabalho. 

- Igualmente.




Tatiana olhou o relógio. Passava das 19:30 e ela suspirou. A pilha de ASLA’s para conferir parecia não ter diminuído e a moça começou a sonhar com a publicação de suas histórias. Ela amava escrever e, apesar de não ter nenhuma expectativa a curto prazo para conseguir a publicação, não desistia de seu sonho.

Seus pensamentos foram subitamente interrompidos pelo ranger da porta e ela virou-se para ver o instalador entrar. Antes que ele pudesse dizer algo, ela perguntou sobre blocos de ASLA.

O sujeito pigarreou e perguntou:

- Como?

- ASLA, blocos de ASLA. Não foi isso que veio buscar? – perguntou ela, inocentemente enquanto o observava.

- Sim.

- Quantos? Um ou dois?

- Ãh, um... não, não, dois.

- Eu vou buscar em um minuto. Enquanto isso, você pode colocar a sua produção na caixinha ali na estante.

Ela deu as costas para ir até o depósito, mas antes que pudesse dar cinco passos, sentiu um fio ser tencionado em torno de seu pescoço e não conseguiu mais respirar. Suas mãos imediatamente tentaram libertá-la do fio, porém, estava perdendo as forças à medida que lhe faltava o ar. Deixou-se desabar no chão, onde seu corpo convulsionava violentamente à procura de ar. Um espasmo atingiu o boné do instalador, que caiu no chão revelando uma cabeleira loira.

- Desgraçada! Isso vai te ensinar a não se meter comigo!

- Eli... sabete? Por quê...

Ela deu outra volta com o fio telefônico no pescoço de Tatiana até esta ficar completamente imóvel. Elisabete ajeitou o cabelo sob o boné e manteve o olhar fixo no corpo imóvel. Os olhos de Tatiana estavam saltados, a boca entreaberta, a pele começara a ficar arroxeada, o peito já não arfava como há um minuto. Sua rival estava definitivamente fora de ação e Elisabete sorriu com a vitória tão fácil. Ela saiu com tranquilidade, satisfeita por atingir seus objetivos.





CAPÍTULO 6 - PARTE I - BANCO DE HORAS


Após três semanas de férias, Tatiana voltou ao trabalho. Entrando no setor, apressou-se a abraçar Natália, com cuja amizade sempre pudera contar.

- Como está, Tati? 

- Eu estou tão feliz, Natália! Tenho uma coisa muito importante para dizer.

- Dá pra ver que você está mesmo feliz. E aí, “viajou” muito nas férias?

- Sim, mas desta vez eu fui até o céu – disse Tatiana, transbordando de felicidade.

- Ãh? Como assim? – Natália curvou as sobrancelhas diante do comentário enigmático. – Tati, você está muito misteriosa... o que aconteceu?

- Você nem imagina...

- Fala logo...

- Eu encontrei o...

Luíza e Paloma entraram na sala, interrompendo a conversa, e logo foram dando as boas vindas para Tatiana, que as abraçou amistosamente.

- Depois falamos – disse Tatiana a Natália, que aguardava a revelação. – Ei, meninas, a Valéria já chegou?

- Ainda não – respondeu Luíza. – Parece que ela vai participar de um treinamento na matriz hoje e amanhã.

Tatiana não ficou muito satisfeita com a notícia, porque desejava falar com a supervisora sobre a compensação de horas da semana que ela tirara para se recuperar do suposto choque emocional com o casamento e pretendia zerar seu banco de horas o quanto antes. Assim, resolveu conversar com Luíza e esta telefonou para Valéria. Dentro de instantes, Luíza informou que Valéria estaria na empresa antes do meio-dia devido à prorrogação da data do treinamento de líderes na matriz da Optical. Tatiana agradeceu e retomou seu trabalho, embora as atividades que ela realizava dentro da empresa estivessem muito distantes de seus ideais, pois ela sonhava em ser uma romancista de verdade e publicar as histórias que escrevia. Como mera auxiliar administrativa, ela se via na obrigação de contar com o que tinha. Suspirou e começou a avisar o corte de rede, telefonando para cada assinante dos 120 telefones apontados em seu relatório. Aquela atividade não lhe animava, pois, tal qual uma gravação, repetia a mesma informação tantas vezes quantas fossem necessárias.
À tarde, Tatiana encaminhou-se para a sala da supervisora e combinou o horário para compensação de horas. Quando passava das 18 horas, ela estava exausta. Em seu primeiro dia enfrentar uma jornada de trabalho de doze horas não era tarefa fácil.

- Tati, tem certeza de que quer ficar? – perguntou Paloma, enquanto desligava seu computador.

- Claro, já conversei com a Valéria e está tudo acertado para eu trabalhar até as 21 horas de hoje até quinta.

- Então tá, tchau.

- Eu também queria ficar para adiantar o serviço, Tati, mas você sabe, eu tenho curso – explicou Luíza.

- Não precisa me dar satisfações. Eu estou cumprindo a minha obrigação – respondeu Tatiana, com naturalidade.

- E você, Natália? – perguntou Luíza, observando que ela ainda continuava digitando. – Ainda não vai?

- Eu vou ficar mais um pouco, porque quero terminar esse lote – argumentou Natália, apontando para a pilha de documentos que aguardavam lançamento no sistema. – Tem algum problema?

- Não, mas não se esforce muito. Precisa prevenir a LER (Lesão por Esforço Repetitivo), tá bom?

- Tá legal.

- Tchau pra vocês. Vamos, Paloma!

Assim que as garotas saíram do departamento, Natália aproximou-se de Tatiana. 

- Que bom que você ficou – alegrou-se Tatiana, sorrindo para a amiga. – Eu preciso muito conversar com você. Senta aqui!

- Então me conta tudo, não esconda nada – brincou Natália.

Tatiana riu e começou a falar do amor que sentia por Paulo e narrou o encontro. Cada palavra fazia seus olhos brilharem e sua felicidade contagiou Natália, que sorria emocionada.

Enquanto isso, Luíza e Paloma seguiam pelos corredores na direção da saída, acenando para os companheiros dos outros departamentos que também encerravam o expediente. Pouco a pouco a empresa foi ficando vazia e às escuras. Na porta de saída elas encontraram-se com Valéria, que aguardava alguma coisa.

- Você, já de saída? Vai chover... – brincou Luíza, porque sabia que Valéria estava sempre ocupada com o cumprimento das atividades solicitadas pela matriz.

- O Ernesto vem me buscar... – explicou Valéria. – Olha ele aí!

- Hum... – fizeram as meninas, enquanto Valéria embarcava no automóvel que acabara de estacionar. – Vai namorar...

- É isso aí! Tchau, garotas! Cuidem-se.

Luíza e Paloma permaneceram algum tempo no pátio da empresa. Enquanto isso diversos instaladores deixavam os veículos no almoxarifado e se despediam delas, inclusive Paulo, que as cumprimentou alegremente, surpreendendo-as com sua atitude.

Do outro lado da rua e oculto pelas sombras, uma pessoa com uniforme da empresa acompanhava toda a movimentação. Olhou o relógio e resmungou:

- Que droga! Ela ainda não saiu.

Assim, continuou sua vigília, aguardando o momento oportuno para colocar seu plano em ação.