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Joinville, Santa Catarina, Brazil

ENGRENAGEM DO CRIME – 11º CAPÍTULO - DOWNLOAD DO TERROR – 1ª PARTE




Afonso dirige vagarosamente na estrada de chão batido, desviando os moradores, que caminham nas margens da estrada e desviam as poças de água provocadas pela chuva torrencial da noite anterior. O sol aparece timidamente entre nuvens espessas e as imediações são ainda mais escuras devido às plantações de palmeira real.

Após quinze minutos que lhe pareceram intermináveis, alcança a clínica Reconstruindo Vidas, estacionando o veículo e atraindo a curiosidade dos moradores. Essa região anda movimentada ultimamente e qualquer veículo que pare fora dos dias reservados para visitas significa motivo de apreensão.

Resolve aguardar um instante no carro enquanto avalia as vias do contrato que redigira para Ricardo assinar. O documento é formado por três páginas que especificam a aceitação do proprietário da clínica para receber recursos do governo estadual, bem como da prefeitura. Entretanto, algumas cláusulas amarram o interessado a aceitar reembolsos em casos de famílias carentes. Os tais reembolsos, na verdade, são bônus para legalizar práticas de comercialização de entorpecentes muito bem mascaradas.

A droga está sendo contrabandeada de uma cidade do interior da Colômbia e migra para o Brasil por meio de “laranjas” muito bem remunerados. A pasta-base de cocaína é entregue em uma indústria alimentícia do oeste do Estado de Santa Catarina, onde é embalada em caixas de bombons e transportada por uma distribuidora de fachada na maior cidade do Estado – Joinville, despistando toda a fiscalização. Em seguida, o lucro é revertido em ajudas de custo para a clínica.

Quando Ricardo finalmente suspeitar da lavagem de dinheiro acontecendo bem debaixo de seus olhos, já estará totalmente envolvido com o esquema da quadrilha e encurralado pelas provas plantadas contra ele. Um pequeno incidente com a mensagem escrita com tinta fosforescente para despistar, e então a explosão que deixara vestígios de cocaína, que não passará despercebida nas análises dos peritos. Emergindo situações para o próprio local do crime, torna-o ideal para que a polícia desvie a atenção do verdadeiro golpe: a rede de gás.

Afonso sorri ao calcular mentalmente as somas que receberá e já planeja a compra de uma mansão em Balneário Camboriú, outra em Angra dos Reis, um automóvel de luxo, o jatinho particular e novos investimentos em toda a região. Apenas uma assinatura o separa de seus ideais.

Desembarca e procura pela vítima, com ótimo humor e informando como fora difícil conseguir a tal autorização no legislativo. Homem de muita habilidade com as palavras, convence Ricardo facilmente e explica passo a passo as supostas reuniões que elevarão a clínica à posição de federalizada. Ricardo toma a caneta e assina o contrato sem pestanejar. Ainda convida o criminoso para a refeição matinal, oferecida com grande entusiasmo.

Depois de se fartar e visitar as dependências da clínica, Afonso se despede efusivamente, sem se dar ao trabalho de fingir, pois a satisfação é, de fato, espontânea.

Volta para o fórum onde lavra o contrato e em seguida vai à prefeitura certificar-se de um negócio que envolve uma licitação que lhe renderá uma comissão vantajosa. Ele é responsável pela formação de um cartel e recebe propina para facilitar a participação de três empresas nas licitações da prefeitura: uma do segmento de móveis para escritório, uma do segmento de equipamento de TI e uma papelaria. Quando a prefeitura publica licitação para compra de material de informática, a empresa de TI prepara toda a documentação necessária, recolhe as assinaturas das outras duas empresas e encaminha os três orçamentos, elevando o orçamento das outras duas empresas “concorrentes”. Igual procedimento é realizado pelas outras empresas quando o segmento solicitado em licitação trata-se de móveis ou papelaria. Além de tais intervenções financeiras, Afonso possui negócios rentáveis no ramo imobiliário, desviando o tributo dos aluguéis de salas comerciais.

Entra na tesouraria, cumprimenta os funcionários, senta-se a uma mesa e acessa um microcomputador. Imprime um relatório e sai para uma nova negociata, desta vez com um ex-funcionário da empresa responsável pela rede de gás natural.

Passos estratégicos garantem o sucesso do esquema. O jovem usado para os golpes, bastante ambicioso, nunca questiona nada, apenas cumpre as ordens. Já Pedro poderá ser apreendido devido ao roubo da planta e da carga de dinamite, mas mesmo que levante qualquer acusação, sua vida ilegal traia qualquer depoimento.

A ambição salta aos olhos de Afonso. Sonha ainda conquistar a poderosa e atraente assessora do chefe. Ao pensar em Vera, logo sente entumecer seu desejo e aproveita o dinheiro extra para um programa íntimo.


*****


César analisa algumas evidências do caso do roubo de dinamite. Acessa os vídeos fornecidos pela empresa, relê os dossiês dos funcionários, inclusive o do principal envolvido, Alberto. Há indícios de que o funcionário teria fornecido informações confidenciais e facilitado o roubo. Quando acuado, o homem até enfartara, denunciando culpa, talvez.

No vídeo, um caminhão recebe autorização e entra na empresa. O rosto do motorista não aparece. O caminhão é abastecido por um funcionário que manobra uma empilhadeira de alta capacidade. Após finalizar o carregamento, o condutor da empilhadeira se afasta e o motorista desembarca da cabine, mas mesmo aproximando a câmera, não é possível identificar o rosto do assaltante.

Ele inspeciona a carga, trava as portas e retorna para a boleia. Conduz o caminhão para a portaria e estaciona na cabine do porteiro. Estende uma espécie de bolsa para o guarda, que abre a cancela e libera o caminhão. Em seguida à saída do caminhão, o porteiro desliga todo o sistema de segurança, embarca em uma moto e foge.

Ao analisar as credenciais do funcionário, César verifica que portava documentos roubados e as impressões digitais coletadas não coincidem com nenhuma do banco de dados da polícia. A moto fora encontrada depenada em um ferro-velho da zona sul e o caminhão não possuía rastreador.

A investigação iniciada após o boletim de ocorrência presume que a carga roubada entrara em Joinville por meio do acesso Garuva-Joinville, passando pela região do Rio Bonito. O caminhão passara por identificação na polícia rodoviária de Pirabeiraba e seguira pela BR-101 sentido norte-sul, porém, não deixara outras pistas de seu percurso. Testemunhas do bairro Vila Nova relataram a passagem de um caminhão com identificação estrangeira circulando na área pelas quatro horas da madrugada, e a partir daí, o veículo de carga parecia ter desaparecido no ar.

- César!

Castro irrompe o laboratório. Vera, taciturna, acompanha-o.

- Pronto, capitão!

- Acabamos de receber a denúncia de que a lata de tinta fosforescente encontrada nas imediações da clínica de dependentes químicos foi fornecida por uma loja de tintas da Rua XV. O vendedor conhece o caso porque tem um irmão em tratamento no local.

- E o que o faz pensar que foi a loja em que ele trabalha a fornecedora da lata de tinta? – inquire.

- Ele achou que o comprador estava muito ansioso, e além disso, a compra aconteceu no dia exato da inscrição na parede. Veja, o vendedor registrou o nome do comprador, porque na ocasião, a loja estava com a promoção do sorteio de uma TV.

- Bingo!

César apanha a cópia de um cupom onde consta nome completo, endereço e telefone. Pesquisa no sistema da polícia civil e dentro de alguns instantes, localiza o suspeito. Havia sido recentemente indiciado na lei Maria da Penha. Como última profissão consta profissional liberal. O investigador observa o chefe e a investigadora, e como tomado por um clique, lembra-se do furto da planta do gasoduto. Tomado por crescente euforia, compara as informações e anuncia suas suspeitas.

- Tudo leva a crer que o sujeito que roubou a planta, o cara que escreveu na parede da clínica e o motorista do caminhão de explosivos são a mesma pessoa!

Vera permanece impassível enquanto os homens concluem suas investigações. Precisa trabalhar rapidamente para que Pedro não seja apanhado e delate todo o esquema.


*****


Vanessa prepara alguma coisa para o almoço quando ouve sirenes da polícia. Afasta a cortina e observa, com assombro, duas viaturas mal estacionadas diante do portão, e quatro policiais armados exigindo que ela atenda. Ligeiramente trêmula, ela apanha a chave do cadeado do portão e vai para fora. Quando destranca o cadeado, os policiais imediatamente invadem o quintal da casa.

- Pedro da Silva Fagundes, onde está? – pergunta um policial, rudemente.

- Eu... não sei – gagueja.

- Não tente esconder o elemento, que é pior para você!

Os policiais invadem e reviram a casa sob a alegação de terem um mandato de busca e apreensão. Chocada, ela retorna para dentro da casa, e começa a soluçar.

Castro ouve o choro, contudo, não dá importância, pois tratar com bandidos tirara o pouco de compaixão que lhe sobrara. César, por sua vez, compadece-se da moça e procura acalmá-la. Pega água e oferece para a dona da residência invadida.

- Desculpe, eu não sei mesmo onde ele está – explica. – Depois que eu voltei do hospital, a casa estava revirada, as roupas dele não estavam mais no lugar, alguns eletrodomésticos e o dinheiro que eu tinha guardado tinham sumido.

- Capitão! Precisava mesmo de tudo isso? – revolta-se.

- É assim que se lida com criminosos, detetive – alega Castro, entrando no cômodo com a metralhadora em punho.

- Como é o seu nome? – pergunta César, voltando-se para ela. Quando Vanessa responde, ele lembra-se que ela havia sido corajosa em denunciar o marido e percebe que também ela era vítima e não cúmplice como Castro afirmava.

Castro, por sua vez, posiciona uma cadeira bem em frente à Vanessa, senta e pergunta agressivamente a localização de Pedro. Vanessa fica ainda mais intimidada com a grosseria e desabafa que não deveria ter denunciado o marido se soubesse que iria receber tal tratamento.

- Chega, capitão! – implora César.

- Lágrimas de crocodilo não me convencem. Diz de uma vez onde é que aquele vagabundo está escondido!

- Eu não sei... eu juro! Ele fugiu depois de ter me espancado por causa da porcaria daquele celular!

- Baixa a bola aí, sua vagabunda! Depois de passar uma noite na cadeia, vai resolver contar.

Ao ouvir aquilo, Vanessa foi vencida pela incompreensão e desespero.

César pede para falar a sós com Castro e saem da cozinha para a sala.
- Então é assim que funciona? Vocês invadem a casa de uma pessoa inocente, caluniam essa pessoa sem saber se ela é ou não culpada, ridicularizam uma cidadã trabalhadora que ainda por cima, atura violência doméstica até sofrer um espancamento e quase morrer. É assim que isso funciona? – repete, indignado.

Castro ri da sensibilidade do detetive e confirma que essa é a melhor forma de agir, punindo psicologicamente o cúmplice para que ele delate tudo o que sabe. Continua explicando suas teorias baseadas em sua experiência, quando Vera entra no local.

- Seu detetive está corretíssimo, capitão – afirma. – O que o senhor acaba de fazer aqui é ilegal.

- Ilegal?! Conta outra! Tenho um mandato... – satiriza.

- Coação é ilegal – diz Vera, segura do que alega.

Castro ama Vera, mas a afronta ricocheteia em seu orgulho.

- Esse é o meu jeito de trabalhar.

- Certamente o coronel Macedo vai gostar de saber de que jeito a sua equipe trabalha.

Castro enfurece-se, pois não admite intromissão em seu trabalho.

- Volte lá e conserte as coisas, ou... – ameaça a policial.

Vencido, Castro vai até a cozinha, dissimulando a raiva que crescia.

- O senhor pode me dar pelo menos alguns minutos para eu me vestir? – pede Vanessa, acreditando que seria realmente detida.

- Não se preocupe, dona Vanessa – inicia César. – O Capitão Castro precisa lhe falar.

Castro engole o orgulho e se desculpa com Vanessa, dizendo que há indícios de que o marido dela está envolvido em vários crimes. Vanessa assoa o nariz e pergunta se a invasão foi motivada por sua denúncia na Delegacia da Mulher. Todos quase riram de sua ignorância, mas se contiveram. Mais calma, ela continua, e explica que havia flagrado, sem querer, o ex-marido vendendo drogas, fato que desconhecia até então.

A novidade interessou a todos e subitamente, Castro dá-lhe atenção e o devido respeito. César toma nota do relato dela, das últimas agressões e da filmagem.

Vera irrita-se com a incompetência de Pedro, mas dissimula seu descontentamento.

- Onde está o vídeo? – pergunta César.

- O celular foi destruído, mas um amigo salvou uma cópia. Se quiserem, posso levar pra vocês...

Castro informa-lhe o endereço da delegacia e pede que ela vá prestar depoimento logo no dia seguinte, e é claro que Vanessa não titubeia em ajudar.

Satisfeitos com as novas informações, toda a equipe deixa a casa. Vanessa ainda vê os vizinhos com olhar de desconfiança em sua direção. Olha para as panelas sobre o fogão com olhar de repugnância, pois perdera totalmente o apetite e começa a recolocar as coisas nos lugares.


*****

ENGRENAGEM DO CRIME – 10º CAPÍTULO - TPM – 3ª PARTE





Estéfanie trabalhou na panificadora até às 20 horas. Sente o corpo e o cabelo pesados de gordura, e a mistura de aromas provoca-lhe náuseas. Por sorte, mora em um loteamento do outro lado da rua principal a poucos metros da panificadora e logo poderia se livrar dos odores da comida, tomando um demorado banho.

Embaixo do chuveiro, reflete quanto tempo suportaria essa situação, se para a primeira noite de trabalho se sentia debilitada. Terminado o banho, enxuga-se, veste o roupão, seca os cabelos com o secador e se apronta. Pelo menos, poderia ser ela mesma, vestir o que lhe agrada, usar seus piercings, correntes, e vestir-se de um jeito despojado, longe do uniforme da panificadora. O bom de toda essa história é que podia economizar seu salário e levaria apenas dois anos para levantar a soma exigida pelo chantagista.

Ocorre-lhe denunciá-lo à polícia, mas ela não tem provas. Ainda poderia ser acusada por alguma coisa qualquer porque o promotor afirmara que ela assinara um contrato de pagamento, fato que ela não recorda, porém, em sua inexperiência, o medo acaba suplantando suas certezas.

Vai até a sala onde os pais assistem os noticiários. Logo eles iriam dormir porque acordam às 4 horas da madrugada todos os dias, e mesmo aos sábados, eles gostavam de manter igual ritmo de organização do dia.
A mãe pergunta-lhe se havia jantado quando cumprimentada com um beijo da filha. O pai, por sua vez, se oferece para levar a filha ao trabalho, fato que deixa Estéfanie mais alegre, pois vira que os pais se preocupam com ela. Assim, poderia descansar durante uma hora até ir para o outro trabalho.

Acomoda-se na cama, sentada no encosto e fecha os olhos. Quis lembrar onde havia parado em suas tentativas de trabalhar profissionalmente com a banda. O pensamento colide na reação agressiva do pai e da mãe que culminara em jogar toda a aparelhagem na rua. A lembrança causa uma onda de náuseas e Estéfanie procura afastar essa lembrança ruim. Afinal, já havia acontecido, e por generosidade, a vizinha recolhera tudo.

Estéfanie sente-se desmotivada, cansada, deprimida. Talvez seja resultado da dupla jornada, mas continua disposta a enfrentar isso em nome de sua família, pois não poderia permitir que prendessem seu pai como estelionatário, logo ele, que passara a vida toda trabalhando honestamente, enfrentando anos e anos na tecelagem, construindo a casa por conta própria, tijolo a tijolo, enxugando o suor do rosto, para dar dignidade à família.

Lembra-se de, ainda pequenina, apreciar como o pai preparava os alicerces da casa, dia a dia, lentamente, e o resultado final está lá, uma casa construída com as próprias mãos.

Os pensamentos geram emoções fortes e ela derrama algumas lágrimas. Levanta-se de imediato para se olhar no espelho e limpar com cuidado o filete que se formara no rosto. A maquiagem que usa não é à prova de água e ela não dispõe de mais tempo para retocar. Enfim, apanha uma jaqueta e uma bolsa pequena e volta para a sala.

Iracema, sempre enérgica defensora da disciplina e pouco interessada em sentimentos, age inesperadamente ao ajeitar o cabelo da filha.

- Você tá bonita.

Estéfanie sorri discretamente, pois a mãe nunca a elogiava.

- Vou junto com vocês para seu pai não voltar sozinho. Estou orgulhosa de você, filha.

A garota quase desaba nos braços da mãe, porém, acostumada a não demonstrar emoções, apenas agradece. Enquanto embarcam no automóvel, ela fica imaginando se a mãe reagiria bem a um abraço forte, que é do que Estéfanie está urgentemente precisando.

- A que horas venho pegar você, filha? – pergunta Acildo, solícito.

- Eu não sei bem, mas não se preocupe, pai. Decerto eu consigo carona com alguém.

- Filha, eu te amo, e mesmo que você diga para eu não me preocupar, eu me preocupo, sim.

Estéfanie esgueira-se no meio dos bancos e dá um beijo no rosto deles. Em seguida, desembarca. Acena enquanto eles se afastam e uma onda de remorso provoca-lhe vontade de gritar de tanto chorar, mas se contém.

Há poucas pessoas na danceteria e ela não tem dificuldade para entrar. Identifica-se para o segurança e ele indica o caminho para o escritório de Jairo.

Atravessa a pista de dança praticamente vazia nesse horário e sobe alguns degraus. Levanta o braço para bater à porta, mas se sente idiota quando observa o interfone. Aperta a campainha e se identifica.

Nem bem termina de falar, a porta destranca e ela, respirando fundo, entra.

- Oi, venha até aqui, Estéfanie – pede Jairo, sorrindo amavelmente.

Ela obedece e se aproxima da mesa, insegura e desconfiada, já que desde a última vez que ele lhe falara, foi por ameaça. Ao convite dele, ela se senta.

- A gente precisa acertar alguns detalhes. Já que vou ter a honra de ter como funcionária a vocalista de uma banda, quero que você faça um showzinho particular.

Estéfanie fica confusa. Ele não queria abrir a casa noturna para a banda e agora vem com esse papo de showzinho. Enquanto ele aguarda sua reação, serve-se de um drinque e oferece para ela.

- Obrigada, não bebo, ainda mais em serviço – afirma, convincente.

- Muito bom! Vejo que vamos ter uma grande profissional aqui!

A ironia não ajudou em nada a tranquilizar Estéfanie. Ao contrário, ela está cada vez mais desconfiada.

- Pode beber, você é minha funcionária – volta a falar sem o sarcasmo anterior. – Eu permito...

- Olha, por que não me diz logo o que eu tenho que fazer?

- Não tenha pressa. A casa ainda tá vazia...

- E então? – insiste, inclinando-se para frente, extenuada com a conversa fiada.

- Muito bem – ele aperta algumas teclas do celular e logo em seguida, aparece um moço um pouco mais velho que Estéfanie.

- Este é o Nano, é ele que vai mostrar o que você tem que fazer.

- Até que enfim! – exclama, levantando-se e encaminhando-se para a porta. – Ei, o que você tá esperando?
Nano olha para o patrão, surpreso com a iniciativa de Estéfanie e, a um sinal de confirmação, segue-a.

- Você tem personalidade – diz Nano, assim que fecha a porta.

- O que eu tenho, na verdade, é vontade de sumir! – ela se atreve a dizer, mas logo se arrepende quando observa a reação de espanto que causara em Nano. Reflete que certamente é leal a Jairo e não quis comprometer ainda mais seus pais. – Nada, não. É só TPM.

- Ufa! – Nano suaviza a expressão e até ri. Tudo que não está disposto a enfrentar são as explosões de uma mulher na tal fase.


*****


- Oi, amor! Que tal darmos uma esticadinha hoje? O quê? Ah, por favor, tô tão carente... Ótimo! Lá mesmo!

O pensamento em Castro e em sua noite de prazer acende o desejo de Vera. Instantaneamente, sua região intima começa a trazer-lhe as boas lembranças e a se preparar para mais. Teria que tomar cuidado, porque em nenhum momento poderia se apaixonar. Sua libido está inconvenientemente tomando o controle da situação e Vera parece momentaneamente insegura.

Larga o pensamento e passa para a parte prática: preparar-se para o encontro com Castro, decidindo o que vestir, como se produzir. Resolveram encontrar-se na Avenida Getúlio Vargas.

Horas depois, Vera e Castro encontram-se na lanchonete de um estacionamento da Avenida JK. Castro assobia ao vê-la: scarpans e um microvestido cavado nas costas. Combinam jantar no restaurante do Blue Tree Tower Hotel e para lá se encaminham.

- Vou ficar com ciúmes – comenta, caminhando ao lado dela.

- E eu também, com tantas garotas lançando olhares maliciosos sobre você.

- Ah, é mesmo?

Ele segura seu pulso e a abraça calorosamente, ali mesmo na calçada. Vera dá um tapinha nas costas dele e se afasta um pouco.

- O que acha de eu beijar você aqui?

- Hum... nada bom – sorri. – Eu daria adeus a minha maquiagem.

Ele ameaça beijá-la e Vera, resistente, ri e diz que está com fome.

Sentam-se a uma mesa ao lado da parede de vidro cuja vista é a avenida, estudam o cardápio e decidem o que pedir.

- Caiu muito bem o seu convite, Vera.

- É mesmo! A comida está deliciosa!

- Não é só isso.

Castro debruça-se na mesa e faz um carinho na mão de Vera. Ele fica subitamente sério e Vera percebe.

- Quero que saiba, Vera, que você é a pessoa mais incrível que eu já conheci. Uma profissional destemida, determinada, altamente especializada.

Vera sorri, afinal, não é a primeira vez no dia que lhe falam de seus talentos. Porém, o tom das palavras de Castro é diferente e ela ergue um escudo.

- Quando você ingressou na minha equipe, confesso que não dava nada por você. Detestava sua arrogância, sua autoconfiança, mas você superou todos os meus preconceitos.

- Castro, eu... – Vera quis interromper o discurso dele, pois assim evitaria também o descompasso de seu coração e curaria aquela súbita ansiedade.

- Além de tudo isso, você e a mulher mais linda que eu já vi.

Vera percebe a sinceridade nas palavras dele e tenta disfarçar. Quando retira sua mão, Castro segura-a com vigor.

- Vera, aceita um compromisso comigo? Pra valer? Para pensarmos em um futuro juntos?

- Castro, você é meu chefe... – tenta recuar.

- Não, não é com olhar de chefe que eu vejo você, e sim, olhar de homem apaixonado e convicto do que deseja.

- Eu... eu...

Vera olha para os lados, procurando uma saída. Seu coração grita dentro do peito: aceite! Ele é o homem de sua vida. Entretanto, não é simples. Há planos superiores que dependem da atuação direta dela na vida de Castro e lá está ele, diante dela, declarando-se e sonhando com uma vida juntos.

- Eu já imaginava que seria difícil para você, Vera. Seu desapego emocional causa essa confusão.

- Eu não esperava, Castro.

- Não precisa decidir agora – ele acaricia novamente a mão dela. – Quero que pense com carinho a respeito do que lhe propus.

Ele paga a conta e descem pela escadaria até o hall de entrada.

- Que tal esquecermos um pouco nossas idades e cairmos na balada?

- Como assim, Castro? – pergunta, perplexa.

- Vamos ver como os jovens de hoje se divertem? O que acha de entrarmos na Mansão Getúlio? Dá umas três quadras caminhando.

- Topo.

Conversam muito enquanto seguem até a casa noturna. Ao chegarem à portaria, o vigilante somente abre passagem.

Ambos imaginavam encontrar a casa cheia de rostos bem jovens, acima de 18 anos e se surpreendem com a quantidade de gente madura por lá. A casa ferve e não passam despercebidos aos olhares treinados dos investigadores alguns detalhes por lá. A casa estava com uma programação para adultos, os adolescentes das décadas de 80 a 90, o que explica a faixa etária dos frequentadores.

Som e luzes, barulho e finalmente, uma música lenta. Castro e Vera dançam agarrados, rolam beijos quentes e amassos. Vera podia sentir o desejo dele e seu corpo responder.

Passava das 2 horas da madrugada quando decidem ir para casa. Castro vai ao bar, pede um refrigerante e Vera fica observando os bartender’s. Olha mais atentamente e reconhece Estéfanie, fato que a intriga. Ela lavava os copos e cada vez que precisava servir um pedido, perguntava algo para um rapaz um pouco mais maduro que ela.

“Será possível que aquele miserável me traiu?”, reflete. Avista em seguida Jairo, o sujeito para o qual pagara uma boa soma para afastar a garota dali. Esgueira-se ao lado de Castro para não ser reconhecida por Jairo e prossegue com uma minuciosa observação.

Jairo aproxima-se de Estéfanie e lhe fala algo que a garota não dá a mínima. Depois fala com o rapaz. Estéfanie enxuga as mãos em um pano de prato, retira o avental e pega uma jaqueta.

- Vamos?

- Ãh?

- Vamos indo?

- Ah, sim, vamos.

Vera olha um segundo para responder a Castro e perde Estéfanie de vista.

- Vou buscar o carro... você vem comigo?

- Olhe, Castro, está tarde e eu ainda estou um pouco confusa com o que falamos...

- Tudo bem, não precisa ficar aí arrumando desculpas – fala ele, serenamente. – Mas posso ter o prazer de sua companhia por mais dois quarteirões?

- Cla... claro.

Vera acompanha Castro pela calçada em direção ao estacionamento. De vez em quando lança um olhar para trás para tentar localizar Estéfanie.

“Traíra”, pensa, enquanto se despede de Castro sem que este desconfie de suas suspeitas.

*****


Vinícius levanta da cama, a contragosto, às oito da manhã, devido à exigência e implicância do pai. O garoto responde com desobediência e falta de respeito, o suficiente para levar uma chave de braço do pai.

- Tá machucando!

Mais meia dúzia de palavras nada amistosas fazem o pai apertar o abraço.

- Eu pensei que você ia tomar jeito depois de ter saído da clínica! – berra. – Se por bem você não tomar juízo, vai ter que ser por mal!

- Seu velho idiota!

O pai, já alterado, perde definitivamente o controle. Retira o cinto e Vinícius reage empurrando-o contra a parede.

- É isso aqui que faltou, meu filho! Você cresceu pensando que tá tudo certo, do seu jeito, sem regras, sendo protegido. Eu não soube educar você, mas ainda dá tempo!

O garoto leva uma surra, se desvencilha e corre para a rua com o par de tênis em uma mão, boné e jaqueta na outra. Agacha na calçada para calçar os tênis e vai até a casa do amigo emprestar a moto. Mesmo sem habilitação, guia a motocicleta até a residência do homem que lhe vende droga. Essa confusão com o pai deixou-o nervoso e inseguro, e ele necessita do poder de excitação e coragem das “balas”.

Aproveita que a porta lateral está destrancada e entra. Não havia nenhum vigia e ele esgueira-se pelo corredor até sentir cheiro de erva queimada. Temendo um corretivo por causa de sua petulância em entrar na casa sem ser autorizado, volta alguns passos. Depois ouve uma conversa que o intriga e ele fica parado no vão da porta, de onde podia ver Ivo debruçado sobre a mesa da sala, braços esticados, cigarro na boca, estudando um mapa. Usa uma caneta permanente vermelha e assinala alguns locais, e enquanto explica a estratégia, Afonso ouve atentamente.

- Aqui temos a clínica ao norte da cidade. Nesse outro ponto está a Mansão Getúlio e o posto de gasolina onde você vai plantar a rede... e aqui...

Afonso arregala os olhos. Então, ele realmente plantaria a placa principal na rede subterrânea do gás natural.

- ... Hospital Municipal São José.

Vinícius dá um salto para trás e esbarra em uma estante metálica, derrubando algumas peças de decoração que se espatifam no chão. Ivo imediatamente ergue-se, apanha o revólver de dentro de uma gaveta e se encaminha vagarosamente com a arma empunhada, pronto para qualquer ataque.

Afonso esconde-se atrás de uma parede e Ivo prossegue, esgueirando-se pela parede até próximo da porta. Quando o barulho recomeça, ele sai do esconderijo e grita.

Vinícius, que tentava recolocar no lugar as peças que continuavam inteiras, ergue as mãos e implora por piedade quando sente o metal gelado do revólver em sua nuca.

- Que faz aqui? Quem deixou você entrar? Tava espionando, seu verme!

- Nã... nã... não... eu juro... eu vim só pra comprar...

- Levanta! Levanta!

- Por... favor... eu só...

- Entra aqui!

Ivo agarra o garoto pelo cabelo e com uma força impressionante, joga o corpo do garoto no sofá da sala.

- Fala, fala, fala! O que você tava fazendo aqui? Tá querendo outra liçãozinha?

O olhar de ódio por si só já atemorizava o garoto, que se lembrou da última represália.

- Por favor, Seu Ivo, eu não fiz nada... não fiz nada.

Ivo controla-se e manda o garoto ficar de pé.

- Tá. Escapou de tiro certo, moleque. Que afronta!

- Desculpa... eu só vim...

- Calado!

Se o garoto ficara estressado com o pai, nesse momento, preferiu ter obedecido. Ivo avança contra ele e começa a estrangulá-lo sem qualquer piedade. Não fosse a intervenção de Afonso, Vinícius teria sufocado até a morte. Deixam o garoto agonizante no chão, enquanto Ivo tira satisfações com Afonso sobre a interferência. Afonso pede que Ivo se acalme, pois o garoto é somente um viciado e não oferece perigo. Convencido, Ivo berra para dois capangas ajuntarem o garoto e o colocarem para a rua.

Igual a um saco de batatas, Vinícius é lançado na calçada, perto da motocicleta. Cambaleante, liga a moto e se manda.

ENGRENAGEM DO CRIME – 10º CAPÍTULO - TPM – 2ª PARTE




Vanessa acorda lentamente com algum ruído na rua. Tem dificuldade para concatenar alguma ideia de que dia da semana e que horário poderia ser. Um pouco da luminosidade do dia atravessa o quebra-sol por detrás da cortina de voal e ela sorri, dizendo para si mesma que não há necessidade para se preocupar e inspira profundamente. Uma sensação de plenitude envolve-a.

Os olhos continuam pesados e ela pisca várias vezes. Suspira sentindo o corpo quente e afasta o cobertor. A umidade do ar surte efeito em seu peito e só então ela percebe que está nua. Ergue um pouco a cabeça, com curiosidade, apalpa o corpo como se quisesse se certificar que ela fosse real e aspira uma fragrância marcante no ar.

Então se lembra dos bons momentos que passara com Renato. Precisa pensar para se certificar de que não sonhara ou imaginara aquele encontro e diante da incerteza, a cama se mexe e um braço forte paira sobre seu peito. Ela acaricia os pelos, a pele do braço e a mão de Renato cobre um de seus seios. O mamilo reage imediatamente e Vanessa sente o desejo invadir o seu corpo.

Ela observa o belo rosto de Renato. A cútis levemente bronzeada, sobrancelhas espessas e largas, os cílios longos sobre as pálpebras fechadas, o cabelo recém-aparado espetando ao toque dela, o nariz proeminente, mas sem excesso, os lábios carnudos. As costas dele estão descobertas e Vanessa desliza suavemente a mão dos ombros até as nádegas. Tocá-lo está incendiando-a, mas ela não se atreve a acordá-lo.

Esgueira-se por baixo do cobertor e continua avançando, suavemente, para senti-lo. Sua mão percorre cada centímetro do corpo de Renato, que não reage, e Vanessa fica cada vez mais excitada. Ela sorri, morde os próprios lábios e não se sente envergonhada por isso, como antes, pois sabe que ele está dormindo.

A respiração fica entrecortada enquanto ela desliza a mão pelo corpo dele. Sem querer, geme baixinho, e cobre a boca com a outra mão com receio de tê-lo despertado.

Ela continua acariciando o corpo dele e então sente a ereção se completar. Ele vira-se e ela assusta-se.

- Você tá acordado?! – pergunta, resfolegante, o rosto vermelho.

- Boba, vem cá!

Renato puxa-a em um abraço sobre seu corpo. Ajeita o travesseiro para ficar mais alto e olhar bem no rosto dela. Vanessa mal pode encarar o olhar, e ele se diverte com sua reação. Afasta uma mecha de cabelo do rosto dela, desliza os dedos pelo nariz, lábios e rosto. Segura a mão dela, beija a palma, deixa a mão dela apoiada em seu peito, desliza a mão até as nádegas e ajeita-a sobre ele.

Vanessa fica calada, muito embaraçada. Mas Renato é gentil, toca-a com suavidade, deixando-a confiante e certa de ser amada. Vanessa encoraja-se para beijá-lo nos lábios e Renato abraça-a com mais vigor.

O beijo leva-a ao céu. Ela agradece a Deus por Renato estar ali com ela e ter proporcionado tanta felicidade.

Vanessa abre os olhos de vez em quando e encontra os olhos cor de amêndoa, brilhantes e apaixonados.

Ela o abraça com vigor e serpenteia sob ele. Ambos se fundem em um único corpo e em prazer absoluto. Durante longo tempo, permanecem trocando carícias, entregando-se mutuamente. Até que chegam ao ápice do prazer.

A umidade vem como um bálsamo de prazer. Permanecem abraçados, sorridentes, se olhando, se tocando, até adormecerem outra vez.


*****


César analisa o vídeo de segurança do prédio do qual sumira a planta. Solicitara os vídeos gravados durante a semana anterior, contudo, não encontra nada.

Lê novamente o resultado da análise das fibras encontradas no local. Observa atentamente a cópia da planta original e se perde imaginando algum bandido ameaçando colocar explosivos naquela região de maior concentração dos canais do gás natural. Basta uma banana de dinamite para mandar pelos ares uma grande extensão. Certamente há alguma conexão entre essa planta e o assalto da indústria de explosivos para pedreiras.

- Nós vamos pedir lanche – Dalva irrompe a sala com grande estrondo e um vozeirão de 70 decibéis. César reage com um dicionário particular de palavrões e recriminações.

A colega rebate com gargalhadas, o que o deixa ainda mais furioso.

- Desculpe, detetive. Eu não quis assustá-lo. Só vim dizer que vamos encomendar lanche...

- Tá bom, tá bom, mas nunca mais entre num laboratório dessa maneira. Ao contrário do que você talvez possa pensar, aqui tem pessoas trabalhando, se concentrando.

- Ok. O que vai pedir?

- Ah, sei lá, o mesmo que vocês – ele continua furioso, agitando os braços e com tom da voz mais impaciente.

- Então, tá, três xis-salada, legal?

Ele concorda e ela se encaminha para a porta. E para implicar diz que a reação dele foi a melhor coisa do início de noite. César levanta-se e bate a porta pouco depois de ela correr para fora.

- Garota insuportável! – vocifera.

Respira fundo, volta a se sentar diante dos indícios e pressiona a tecla ENTRA para o vídeo continuar.

Já cansado, porém, desejoso de encontrar algo para incluir no quebra-cabeça, César insiste. Seu lanche chega trazido por outro colega. Enquanto se alimenta, César acompanha o vídeo.

Um sujeito encosta uma moto na recepção, retira o capacete e carrega um pequeno embrulho dentro de uma sacola plástica. Entra no prédio e avança para a recepcionista, que logo que o atende, levanta e sai da frente do vídeo.

César tem uma intuição, então, pausa o vídeo e aumenta o zoom no pacote. Identifica sachês de mostarda e catchup e detecta a cor verde. Observa o sanduíche que mastiga e pensa alto:

- Alface. Hum... alface, xis-salada... ei!

Entusiasmado com o palpite que surgira, César deixa o vídeo seguir. Há um corte da imagem em que a funcionária retorna com dinheiro e o tempo em que o motoboy permanece na recepção. Oito minutos, 32 segundos. Muito tempo para agir, imagina César.

- As fibras contém resquícios de molho de tomate e gordura vegetal... – deduz, vasculhando outros laudos. – A mesma fibra encontrada nas imediações da clínica. – Como é que eu não pensei nisso antes?

Ele amplia a imagem do entregador de lanches, deixa a imagem parada no monitor, imprime e sai do laboratório, largando metade do lanche ao lado da mesa de trabalho.


*****


Ângela trabalha na loja no período da tarde até o horário do fechamento do shopping. É quase hora de fechar, e ela nem havia se dado conta, pois atendia alguns bailarinos. A época do festival de dança em Joinville, o maior do mundo, é aguardada com grande preparação pelo comércio em geral, já que aquece a economia da cidade. Todos os anos, Ângela compra ingressos para ela e Alberto assistirem aos shows clássicos e aos grupos de dança contemporânea, o que não aconteceu dessa vez em virtude da doença de Alberto. Ângela preferiu cuidar do orçamento familiar, e os turistas chegavam em boa hora para melhorar suas vendas e ela organizar as contas nos meses em que Alberto continuaria encostado pelo INSS, e sem receber o auxílio-doença no tempo ideal.

Ela comemora o fechamento da venda de roupas de frio e já calcula uma boa comissão. Os turistas agradecem e se despedem. Quando observa parte das lojas fechando, só então ela olha para o relógio. Apressa-se a fechar a loja. Suas colegas vendedoras já haviam fechado o caixa e se despediam. Ângela vai rapidamente fechar o caixa, guardar o dinheiro em local seguro da loja e apanha sua bolsa e a jaqueta.

Enquanto tranca a loja pelo lado de fora, voltara a pensar na visita suspeita de Débora e se aborrece.

- Oi.

Sobressaltada, Ângela quase grita. Vira o corpo abruptamente e vê Ricardo sorrir com simpatia. Só então se lembra de que ele havia ligado para ela pedindo ajuda e ela sugerira que ele viesse no final do expediente. Surpresa por ele ter esperado quase duas horas até ela sair, imaginou que o amigo realmente estivesse com um grande problema.

- Desculpe, Ricardo, eu... eu estava atendendo... tinha muita gente... – Os rodeios fizeram-na se sentir tola e ela optou pela verdade. – A verdade é que eu esqueci, me desculpe.

- Eu é que peço desculpas por estar tomando o seu tempo. Você deve estar cansada.

Ele cumprimenta-a formalmente com um aperto de mão e pergunta sobre a saúde de Alberto. Ela explica que o pior já passara e que, com cuidados, logo ele voltaria a trabalhar. A perícia médica está marcada para a semana posterior e ele será avaliado.

Um facho de luz percorre as vitrines e Ângela observa que o segurança já está fazendo a ronda. Segue com Ricardo até o elevador e depois até o estacionamento. Não estão tão atrasados quando percebem que ainda há muito trânsito. Os outros lojistas também estenderam seu atendimento.

Combinam aguardar na saída do shopping. Ricardo espera Ângela embarcar em seu automóvel e em seguida vai até o próprio veículo para não deixá-la sozinha aguardando durante muito tempo. Nesse horário, precaução com a segurança não significa luxo.

Deixam os veículos em um estacionamento próximo e seguem para um barzinho da via gastronômica. Ricardo oferece-se para pagar, Ângela, por sua vez, nega, não por orgulho, e sim, por acreditar na igualdade de sexos. Enquanto aguardam o pedido, se servem de suco natural. Conversam um pouco sobre o movimento na cidade, sobre o clima, sobre os dias de inverno rigoroso no Estado, com direito à neve e geada e finalmente Ricardo resolveu se explicar.

- Eu fui comunicado da data do meu depoimento e preciso de testemunhas. Achei que você poderia me ajudar.

- Francamente, Ricardo, não entendo como poderei ajudar você.

- Você não deve estar lembrada, mas no dia que estivemos no supermercado e que nos conhecemos, ocorreu um crime lá na clínica.

- Não, não lembro – mente, embora se lembrasse da sensação causada pelo embaraço do encontro. – E... – ela encoraja.

Ricardo explica que precisa de álibi, porque o estão acusando. Ângela pensa um instante e aceita ser testemunha. Nunca tinha passado por aquilo, mas julgava a causa boa.

A refeição foi saboreada com mais prazer, já que Ricardo não se cansava de agradecer. Ao terminar, ele paga a conta, apesar dos protestos de Ângela. Acompanha-a até os carros, desativa o alarme de sua pick up e antes que ela embarque ele segura suavemente o pulso dela. Ângela franze a fronte, detectando algo de estranho no ar.

- Obrigado – fala, sorridente.

- Não precisa agradecer. Estou apenas falando a verdade, nada mais.

Ele beija-a no rosto próximo ao lábio e se demora um pouco. Ângela podia sentir a fragrância da colônia que ele usava e fica subitamente tensa. Depois que o marido enfartara, ela não havia mais tido relações íntimas por causa do estado de convalescença e ordens médicas, entretanto, seus hormônios não são tão compreensivos como ela acreditava. Nunca traíra Alberto e não seria justamente agora que o faria.

- Escute, Ricardo, não vamos confundir as coisas, tá bom?

Ela tenta ser educada, porque julga Ricardo extremamente ético e honesto e não pretendia ofendê-lo.

- Sinto muito, Ângela, eu... eu... não quis... – tenta se explicar, mas estava piorando as coisas.

- Tudo bem, tchau!

Ângela apanha a chave do automóvel e trêmula, mal consegue desativar o alarme. A proximidade de Ricardo perturba-a e ela quis se afastar o mais rapidamente possível.

- Desculpe... – ele falava, mas ela só desejava ir embora.

Subitamente, ela avança para Ricardo e beija-o ardentemente.

Ricardo abre a porta do passageiro e Ângela embarca. Ele entra pelo outro lado, se acomoda e continuam se beijando sofregamente.

- Você é linda, Ângela, desculpe, eu sei que você é casada, e eu não sou desse tipo, mas é mais forte do que eu...

- Você está confundindo as coisas: amizade, confiança, atenção – ela se limita a dizer, mas nessa altura já retira a jaqueta.

- Eu sei... – ele fala entre um beijo. – Estou abusando da sua integridade...

Ela senta-se no colo dele e geme quando sente seu desejo. O coração pulsa dentro dela, acelerado e impaciente, mas ambos percebem a tempo o deslize que haviam cometido.

Ângela, embaraçada, volta para o assento e veste a jaqueta. Procura a bolsa e desembarca. Precisa de alguns minutos para que a respiração volte ao normal. Ricardo aproxima-se, também constrangido, contudo, a abraça carinhosamente, se desculpando. Ângela permanece por alguns minutos no aconchego do abraço dele, o que a alivia.

- A culpa foi minha – admite. – Você não tem nada a ver com as frustrações que estou enfrentando...

- Não precisa me dar explicação nenhuma, tá? A gente esquece o que aconteceu, ou melhor, o que não aconteceu e fica assim mesmo.

Ângela dá um beijo no rosto dele e entra no automóvel.

Ela ainda sente o corpo tremer ao chegar em casa. Certamente parecerá nervosa e inquieta diante de Alberto, mas dado o adiantado da hora, ele já está dormindo. Ela entra, troca de roupa e abraça o marido, mas não consegue dormir imediatamente. Seu coração ainda ribomba dentro do peito, aguardando uma sensação que não acontecera.

*****


Ângela levanta mais tarde e vai diretamente para o banho. Dormira mal, sente tonturas e um súbito remorso a consome. Sente-se traiçoeira e inquieta, pois pensa que o lado sensual de sua personalidade aflorara novamente, o que ela não podia permitir.

O box abriu devagar e Alberto, inteiramente nu, entra com ela no banho.

- Bom dia, amor...

- O que você tá fazendo aqui?! – recrimina. – Lembra que seu cardiologista pediu que evitasse emoções fortes?

- Eu sei, mas estou com saudade, faz tempo...

Ela apanha o sabonete e esfrega o corpo do marido. Ele faz o mesmo, demorando-se nos seios fartos dela. Logo se abraçam, beijam e se amam embaixo do chuveiro. Ambos estavam se poupando há muito tempo e a relação viera em boa hora. Enrolada na toalha, Ângela observa Alberto se enxugar e nova onda de excitação se propaga nela. Aproxima-se do marido, faz-lhe uma carícia e beija-o.

O pensamento é invadido pela sensação do beijo fortuito em Ricardo na noite anterior e mesmo que Ângela procurasse se concentrar, o rosto deste último avança. Cada traço ia sendo desenhado em sua memória, cada sensação, a tentativa de evitar o encontro, o rompante que levara ambos a um momento de intimidade. O ritmo dos beijos e das carícias acelera e ao final, Ângela está abraçada a Alberto na cama, sem ter percebido.

Junto do êxtase, Ângela se sente repugnante. Evita olhar para o marido, pois o remorso invade-a novamente. Se ama o marido, como é fato, como tivera coragem de se atirar nos braços de outro homem?

A reflexão preenche seu pensamento durante toda a manhã, calando Ângela, como se ela temesse confessar seu deslize.


*****

ENGRENAGEM DO CRIME – 10º CAPÍTULO - TPM – 1ª PARTE


Raquel trabalha com estagiária no departamento de exportação de uma indústria de vestuário, e apesar de formada em comércio exterior, ainda estuda teatro, pois ama encenar.

Seu rosto anguloso bem poderia levá-la à carreira de modelo, mas a estatura não ajuda. Contudo, possui carisma e assim, inscreve-se em todo teste que aparece e mesmo que não seja escolhida, não esmorece. Seu vibrante espírito de vitória a impulsiona a acreditar em seu potencial.

Certo dia, ao passar pela portaria da universidade, um sujeito que estava distribuindo algumas senhas chamou-lhe a atenção. Logo descobriu que ele era um “olheiro” de uma empresa de teatro e estava procurando novos artistas para uma peça. Ela tomava todas as precauções antes de ir aos endereços e ia sempre acompanhada por alguém mais velho, como a tia com quem mora ou algum professor, já que sua família mora no interior do oeste de Santa Catarina.

Ao chegar ao local indicado, apanhou a ficha de inscrição com a prancheta e preencheu. Havia diversos atores tentando algum papel na peça. Todos se reuniram em um estúdio e acompanharam os testes.

O ator ou atriz encenaria o papel de um sequestrado torturado por uma milícia. Encapuzado, deveria responder às ameaças demonstrando desespero ao ser retirado o capuz. Raquel nunca havia participado de cena semelhante, mas se esforçou porque queria a ponta na peça.

Todos os testes eram filmados pela equipe e o dela não foi diferente. Mais alguns participantes atuaram e após o encerramento dos testes, a equipe reuniu todos os concorrentes novamente no estúdio informando que telefonariam para avisar a cada um em caso de resposta positiva ou não.

Raquel apanhou a ficha de inscrição e destacou o comprovante do teste. Saiu confiante como muitos dos demais atores.

Assim que os candidatos deixaram o estúdio, a equipe começou um trabalho ainda mais intenso. O cinegrafista apagou todos os testes a não ser o de Raquel e levou para a mesa de edição.

O vídeo foi editado e algumas cópias realizadas. O produtor finalizou o trabalho e telefonou para alguém.

- Pode vir buscar.

Dentro de aproximadamente meia hora, um motociclista aparecia para apanhar as cópias. Em torno de mais quarenta minutos, Ivo recebia o material.

Acendeu um cigarro, apanhou o celular e digitou um número.

- Tô com o material. Faz aí o que mandei.

Nem Raquel nem os demais nunca chegaram a ser avisados sobre o resultado do teste. O telefone que constava no comprovante de inscrição não existia. O estúdio fora desativado. A companhia de teatro era falsa.

Passara-se dois meses e o vídeo finalmente fora usado. Freitas, avô de Raquel, não suspeitava de nada e cedeu às chantagens de Ivo.

Após quinze dias da invasão da fábrica, Raquel telefona para o avô.

- Filha! Onde você está?!?

Ele expressa tanto entusiasmo com a ligação que Raquel acha engraçado, mas obedece prontamente para viajar. Chegando em sua casa após o desembarque na rodoviária, fica boquiaberta com a represália sofrida pelo avô. Sem acreditar, ela lembrou de que tudo se tratara de um truque para envolver sua família no tráfico de pasta-base de cocaína. Incrédula, Raquel não sabe como agir e aceita a sugestão do avô de permanecer escondida por uns tempos para a própria segurança.


*****


Alberto escuta o toque insistente do celular, mas devido ao efeito dos medicamentos, não consegue se mover de imediato. O som se propaga em sua mente de forma vaga e abafada, e ele custa a sair do estado de semi-vigília.

Os pesadelos ainda continuavam, mesmo que ele já estivesse com os olhos abertos, esforçando-se para recuperar os sentidos. Lembra-se com dificuldade das coisas mais triviais. “Até quando vai isso?”, pergunta-se.

“O celular”, lembra. Ergue-se e encosta-se na cabeceira da cama. Sente-se atrofiado, mal consegue esticar o braço para alcançar o aparelho. “O que a Ângela esqueceu dessa vez?”, resmunga.

“Número restrito”. Alguns pares de palavras inadequadas saltaram sem cerimônia de sua boca.
A ligação desconhecida o perturba e ele logo recorre ao calmante que o médico receitara. O peito formiga outra vez.

Enquanto ele tenta manter a calma e aguarda o efeito do medicamento, o celular chama novamente e, aflito, Alberto atende.

- Oi, Alberto – cumprimenta a voz feminina. – Estou na frente da sua casa. Posso fazer uma visita?

- Ah, oi, Débora – Alberto sente alívio e desconforto simultaneamente. – Já vou abrir, só um momento.

Ele levanta, calça os chinelos e segue para a porta da frente. Aciona o controle remoto do portão eletrônico e vê Débora desembarcar e trancar o veículo. Logo ela atravessa o portão.

- Boa tarde, como você está? – pergunta formalmente, estendendo a mão.

- Horrível – admite, apertando a mão dela. – Chega aí.

Leva-a até a sala de visitas e aponta o sofá. Débora entende o recado e senta sem se apoiar no encosto. Tenta dissimular a tensão cutucando as unhas.

- Então – começa –, como você está? Quero dizer... de verdade.

- Péssimo, já disse. O que esperava encontrar?

- Eu sempre estive do seu lado, se não se lembra... – ela ignora o sarcasmo, já conhecia o temperamento do colega e imaginava que ele a trataria daquela maneira. Ignorava totalmente seu afeto desinteressado por ele. Desde que o conhecera na empresa, tornara-se admiradora dele, entretanto, conhecia perfeitamente seu lugar e nunca se atrevera a tomar alguma atitude.

Alberto, ainda zonzo pelo efeito do calmante, especula o motivo dessa visita inesperada. Débora procura dissimular que sente atração por ele, mas Alberto já percebera há muito tempo, então mantinha contato unicamente profissional com ela. Ela é magra, muito bonita, contudo, não detém nada que o atraia. Alberto é um homem sério, que respeita a esposa acima de qualquer coisa. Outra mulher de fato não o interessa.

Sente sua cabeça leve, porém, o corpo dele parece revestido de chumbo. Ao se mover da poltrona, perde o equilíbrio. Débora prevê o acidente e levanta-se para ampará-lo.

- Espere, você tem que se deitar, vem.

Ela passa o braço dele em volta de seu pescoço e o conduz para o quarto. A preocupação com Alberto não bloqueia seu instinto. Está sendo difícil tocar nele, sentir o cheiro dele, ficar tão próxima, contudo, ela resiste. Com cuidado, leva-o até a cama, mas ambos se desequilibram, ela tropeça e cai sobre o corpo dele.

- Desculpe, Alberto, desculpe – fala, ainda sobre ele. O cabelo comprido escorrega no rosto dele e Alberto sente o cheiro dela. Não sabe se está são ou sonhando, pois tudo é nebuloso.

Ela morde os lábios, mas não se move. Fica olhando para ele em um misto de embaraço e confusão. Alberto mexe-se sob o peso dela, mas não a afasta. Débora, por sua vez, esquece todos os seus conflitos internos e beija-o nos lábios. Alberto não se esquiva e abraça-a com força, virando-a na cama.

Débora retoma consciência de seus impulsos e levanta.

- Eu... desculpe... não devia... – está totalmente sem jeito. – Só quis ver como você está...

Alberto também se levanta, mas o movimento brusco provoca nova tontura e ele volta a sentar.

- Alberto? Alberto? Tudo bem? – aflige-se. – Vou buscar água pra você...

Ainda embaraçada, Débora apanha água e oferece para ele. Quando Alberto devolve o copo vazio, ouvem uma porta se fechando.

- O que que é isso?!?

Com os acontecimentos imprevistos, eles nem notaram a chegada de Ângela. Débora, sem graça, estende a mão para cumprimentá-la, mas a esposa de Alberto não retribui o gesto.

- Que merda tá acontecendo aqui? – Ângela torna, com súbita ira.

- Na... nada – gagueja a visitante. – Eu vim só fazer uma visita em nome do pessoal do escritório...

- Ah! E tinha que ser logo você a representante da equipe? Conta outra!

- Já vou indo... com licença.

Débora baixa a cabeça e passa rapidamente por Ângela, que, desconfiada, quis tirar satisfação com o marido.

- Não acredito que essa moça teve o atrevimento de vir aqui enquanto eu não estou em casa!!! – exclama, implacável. – Não bastava a visita no hospital?

- Tá, Ângela, ela já foi, tá contente agora? Nada de escândalo, por favor! Ela só me ajudou a vir para o quarto... – justifica, ainda zonzo.

- Ah, sim, e você ficou mal justo com ela aqui dentro de casa... – ironiza. – Acha que eu sou idiota?

Alberto ignora a indignação de Ângela e como estivesse de fato com mal-estar, deita. Enquanto a esposa expurga toda a indignação com o ocorrido, Alberto flagra-se lembrando do contato com Débora. Atordoado com a própria reação, sorri interiormente.


*****


Vera veste a jaqueta de couro e ajeita o revólver no coldre. Apanha a chave do seu automóvel e aciona o alarme. Embarca, liga o motor e arranca, tudo em décimos de segundos.

No primeiro semáforo para no sinal vermelho e aproveita para estudar a análise da perícia que Castro lhe entregara. Precisa trabalhar rapidamente para realizar o serviço. O sinal abre, ela cruza e segue pela rua XV de novembro até pegar a BR101 sentido Curitiba.

Algum tempo depois, ela dá sinal para a direita, logo após a passagem pela polícia rodoviária de Pirabeiraba, e segue para o viaduto do bairro Canela. Alcança a via dupla de desaceleração e toma a estrada de chão. Deixa um rastro de poeira, pois se vê apressada em concluir sua missão. Dois quilômetros adiante, estaciona na clínica de recuperação.

Apanha na bolsa o estojo de maquiagem e faz um retoque rápido. Também ajeita o cabelo com cuidado.

Observa um cachorro aproximar-se do veículo e alguns homens com olhar curioso. Desembarca e ao primeiro morador que lhe pergunta, apresenta o distintivo. Imediatamente é conduzida até o escritório de Ricardo.

- Boa tarde – cumprimenta.

- Você aqui? O que é agora? Vem me agredir novamente? Me responsabilizar por coisas que eu não sou culpado?

Ricardo continua abalado com o interrogatório.

- Você está falando com uma autoridade – lembra. – Espero que assuma a responsabilidade pelas suas palavras.

- Do que você tá falando? Estou farto disso! Eu só quero resolver as coisas por aqui...

- Ninguém está aqui para acusar – interrompe –, mas investigar. Preciso coletar o DNA de todo o pessoal que frequenta sua clínica.

Com um gesto de desagrado, porém, resignado, Ricardo leva-a até o salão de refeições e pede para um dos enfermeiros reunir todo o pessoal.

Vera coleta as amostras, identifica-as e pergunta se havia mais alguém. Ricardo confirma que todos haviam se apresentado, e Vera, fechando a maleta com as amostras, apanha o envelope com os primeiros indícios.

- Ricardo, receberá um relatório detalhado assim que todas as amostras forem analisadas. Até logo!

Ricardo deixa Vera ser afastar e então segue para o escritório.

- Posso ver você? Por favor... – pede, ao telefone. – Tudo bem, pode ser. Vou esperar lá.

Suando frio, Ricardo desliga e retoma seus afazeres.


*****


Enquanto Vera se acomoda no automóvel, o celular toca.

- Oi, Ivo. Estou indo.

Em meia hora, entra na residência de Ivo.

- Linda!

Não é a primeira vez que Ivo lhe elogia e Vera mostra-se indiferente. Por vezes, tentara assediá-la, e ela camuflava muito bem um lado sedutor com o de leal capanga. Ivo conhece o limite, mas sempre tenta ultrapassá-lo. Esgueirando-se pelo cômodo, ele a observa com desejo. Vera sabe disso e aproveita para jogar a seu favor.

- A explosão no sítio foi bem propícia para meus planos – inicia ele, com a fala carregada por um sotaque latino. – Você foi perfeita, minha querida Vera!

Ivo aproxima-se, perscrutando as reações da agente. Paira os olhos sem cerimônia no decote da blusa por baixo da jaqueta e estende a mão para acariciar o seio. Antes de alcançar o peito, Vera agarra com força o pulso dele. Sem desviar os olhos do criminoso, ela baixa o braço dele vagarosamente para sua cintura, mensagem direta da limitação que impunha.

- Gosto disso. Linda e traiçoeira. Destemida, confiante.

- Não foi para falar de meus atributos que você me chamou aqui e eu não tenho o dia todo.

- Preciso de outro servicinho, encomenda grande...

- Desenvolve – diz, impaciente.

- O garoto da banda gosta de...

Vera ouve atentamente e sai.

Ela sente-se pressionada por todos os lados. Ivo continua com as investidas, fato que lhe causa náuseas. A Polícia Federal aguarda o relatório das últimas investigações e ela ainda precisa se oferecer novamente para a garota da banda. Ela liga para Castro.

- Missão cumprida!


*****