Vanessa abre a pequena caixa com grande entusiasmo. Retira o aparelho de celular – o primeiro que tinha comprado, e imediatamente começa a testá-lo. Tira algumas fotos de si mesma, sai filmando os cômodos da casa. Já são 18h30 e ela segue pela rua ansiosa por mostrar para o esposo sua aquisição, um sonho de bastante tempo.
Chega próximo da barraca e começa a filmar Pedro, que atende dois garotos. Em seu estado de euforia, Vanessa acena para o marido e o chama:
- Querido! Olha pra cá!
Pedro atende ao chamado e olha na direção da filmadora do celular. Os garotos também voltam a visão e um deles solta um palavrão.
- O que tá fazendo, sua besta? – Desta vez, é Pedro que esbraveja. – Larga já essa porra!
- Pega aquela câmera! – ordena o outro cliente de Pedro.
Confusa, Vanessa abaixa o celular, guarda-o no bolso da calça jeans e dá alguns passos para trás até começar a correr pela rua lateral da Praça do Bosque, enquanto é perseguida pelos dois garotos. Ela corre sem parar até o final da rua quando avança pela rua Rui Barbosa. De repente, um motoqueiro a intercepta, parando diante dela e estendendo um capacete.
- Vem! Sobe! – diz, sem levantar a viseira, causando ainda maior confusão em Vanessa, já que não é possível reconhecê-lo.
Ela tem apenas alguns segundos antes de tomar a decisão. Os sujeitos querem roubar o celular que ela levara pelo menos dois anos para economizar e comprar. Por outro lado, embarcar na garupa de um motoqueiro desconhecido parece duplamente arriscado.
- Vem! Não tenha medo! – assegura o motoqueiro.
Vanessa respira fundo, coloca o capacete, pula na garupa e se agarra ao condutor, que arranca em alta velocidade, fugindo do alcance dos perseguidores. Depois de meia hora, já haviam despistado os sujeitos e o homem da moto para em uma rua sombria próximo de uma igreja na avenida Santos Dumont.
Vanessa desce, retira o capacete e aguarda para agradecer ao homem que a tinha ajudado. Porém, quando este retira o capacete, ela solta uma exclamação abafada e senta no meio-fio, onde começa a chorar descontroladamente, uma mistura de medo, confusão e remorso.
Renato pendura o capacete na moto e senta ao lado dela.
- Não está mais em perigo, se acalme – incentiva.
- Eu fui tão estúpida com você – admite, entrecortando as palavras com soluços fortes – e agora você me ajuda. Por favor, me perdoe pelo modo como tratei você...
- Escuta – começa, segurando as mãos dela e olhando-a diretamente nos olhos –, você nunca me tratou mal e eu gosto de estar com você.
Ele abraça-a e encosta a cabeça dela no próprio peito até que a crise de choro passe.
- Desculpe – pede, se afastando e limpando as lágrimas do rosto. – E obrigada. Vou voltar pra minha casa agora.
- Espera! Vou levar você – responde quando ela se levanta e começa a caminhar. – Não sei exatamente onde você mora, mas estamos muito longe de onde nossa jornada começou.
- Não precisa mais se preocupar com nada – ela tenta sorrir. – Eu me viro de agora em diante.
Renato segura-a pelo pulso e lhe pergunta o que, afinal, ocorrera para aquela perseguição aparentemente despropositada, e Vanessa relata o fato. O garoto logo suspeita de que ela filmara algo indevido, razão pela qual queriam apanhar o celular.
- Eu nem tive tempo de salvar a filmagem – ela se desculpa, sentindo-se medíocre. – Fiquei com tanto medo.
- Posso dar uma olhada?
- Pode, eu ainda não aprendi a mexer direito com esse celular.
Ela entrega o aparelho e Renato começa a procurar na pasta de vídeos. Há dois vídeos salvos: um era o que Vanessa tinha gravado dentro de sua casa, nada de inquietante. A segunda gravação, que tinha um período de 3 minutos e 21 segundos intriga Renato.
- Quem você estava filmando no carrinho de lanche? – pergunta, com ar de evidente preocupação.
- O meu marido. Chegou a gravar? – ela fica surpresa e pede para olhar.
- Não só chegou a gravar, como você fez o flagrante de um crime, Vanessa – explica, sério.
- O quê?! Como assim?
- Veja você mesma: seu marido está entregando cocaína para esses rapazes e eles estão pagando uma quantia bem alta pelos papelotes. E parece que são menores de idade pra complicar ainda mais o seu esposo.
- Não pode ser!
Vanessa assiste ao filme e se recusa a acreditar. Clica novamente no ícone reproduzir e vê perfeitamente Pedro comercializando a droga. Incrédula, lembra imediatamente da agressão que sofrera e do DVD e pôde perceber que o marido provavelmente é também usuário. Uma nova torrente de conflitos extravasa de seu íntimo machucado de forma agonizante, parecendo bloquear todo seu organismo. “Isso não pode ser verdade!” quer gritar, mas não tem forças. Logo Pedro, aquele a quem ama mais do que tudo na vida. “Não é possível! Por quê? Por que ele?” Um novo pensamento invade-a: o medo de retornar para casa. O que faria morando com um criminoso? A sucessão de acontecimentos provoca nova crise de choro, e desta vez, as lágrimas escorrem em silêncio.
- Você tem pra onde ir? – pergunta Renato, adivinhando seus temores. Está verdadeiramente penalizado com o desfecho daquele dia.
- Devo voltar pra minha casa e enfrentar – ela anuncia corajosamente.
- Eu tenho uma ideia...
Renato sugere apagar o vídeo do celular, não sem antes baixá-lo em seu computador e fazer uma cópia em DVD. Realizariam a atividade na casa dele e guardariam segredo. Vanessa não se sente confortável com a oferta dele, pois se lembra de suas atitudes atrevidas. Entretanto, depois de convencê-la, seguem para o bairro onde mora Renato.
- Fico aqui fora vigiando sua moto – tenta ela, encabulada de entrar sozinha com ele na casa.
- Não precisa. Entra comigo. É mais seguro.
Ela ainda tenta persuadi-lo a deixá-la do lado de fora, mas ele é enfático. Liga o computador e apanha o cabo USB para baixar o vídeo. Enquanto o sistema carrega, vai até o refrigerador e pega uma garrafa pet com água. Oferece um copo para Vanessa, que toma de uma só vez. Depois faz o download do vídeo, grava em um DVD, apaga a filmagem do celular dela e devolve o aparelho.
- O arquivo e o DVD ficam comigo e quando você denunciar seu marido, pode usar isso como prova pra incriminar ele.
- Denunciar meu marido?! – ela sente o estômago doer. – Não posso fazer isso!
- Não só pode como deve – salienta Renato, com a testa franzida. – Além de ele ter praticado um crime, ofereceu droga pra menores de idade. Ele tem que ir pra cadeia antes que faça mais famílias sofrer.
Vanessa engole as lágrimas e se contém, mas intimamente desfalece. A decepção está ampliando ainda mais a sua dor. Baixa a cabeça, carregada de vergonha.
- Desculpe – pede Renato. – Eu não devia ter falado assim. Tem certeza de que quer voltar pra sua casa?
Ela limita-se a afirmar com um aceno de cabeça e Renato não contesta. Desliga o computador, tranca a casa e retornam para o Costa e Silva. Após as instruções de Vanessa, chegam na esquina da rua onde ela mora e Renato acelera para subir a pequena ladeira. Em vez de estacionar no portão da casa de Vanessa, Renato passa direto e para na outra quadra, de onde tem uma perfeita visão da casa dela. As luzes estão apagadas, o que parece natural, mas alguma coisa o deixa sob vigilância. Vanessa ia descer da moto, mas ele pede que ela espere um pouco mais. Passa das 19h do horário de verão e as fotocélulas da iluminação pública começam a acender. De repente, surgem dois homens na garagem da casa de Vanessa, situação que a deixa perplexa, pois não os conhece. Pedro surge também e discute com os outros dois. Eleva o dedo indicador na direção dos visitantes e golpeia o ar com safanões irados. Vanessa não sabe o que fazer e começa a tremer. Instintivamente, se agarra em Renato que sente o corpo dela trêmulo e gelado. Ele toma a decisão e conduz a moto para outra rua para não serem percebidos, levando Vanessa de volta para sua casa.
A garota tirita de frio e de medo e Renato pergunta se ela quer tomar banho para se aquecer. Vanessa está apalermada, sem responder, sem agir, apenas parada, presa em pensamentos negativos, amedrontada e sozinha. Também não confia em Renato, mas se obriga a aceitar a ajuda. Ele apanha uma toalha e umas peças de roupa limpa no roupeiro e estende para ela, apontando o banheiro.
Vai para o quarto, prepara a cama dele e imagina que ela não aceitará dormir no mesmo local com ele. Pega outro travesseiro, lençol e cobertor, leva para a sala e coloca sobre o sofá. Escuta o chuveiro e começa a imaginá-la tomando banho, mesmo com todos esses acontecimentos indesejáveis. Sente o corpo quente e começa a transpirar, ansioso e angustiado, desejando contato com ela, lembrando-se do corpo dela encostado ao seu na moto. Não é um homem movido por pudores, mas mantém ainda um pouco de respeito e afasta os pensamentos infames para se concentrar em algo para comer. Prepara macarrão, ovos, chá e pão enquanto tenta tirar a imagem da garota do pensamento. “Não é hora pra isso, Renato”, contraria seus próprios instintos.
Ela sai do toalete com a mesma roupa que tinha entrado e a não ser pela fragrância suave do sabonete, Renato teria duvidado se ela tomara mesmo banho. Pede que ela se sente e se sirva. Mecanicamente, Vanessa atende ao pedido, tenta comer, mas se mantém quieta o tempo inteiro. Os olhos estão vermelhos e inchados e Renato estica o braço para afagar o rosto sofrido.
Desconfiada, Vanessa se esquiva do toque e se levanta.
- Eu não devia ter vindo pra cá – diz, arrependida. – Desculpe, Renato, eu tô muito confusa...
- Quer se deitar? Trabalha amanhã às cinco, não é?
Ela confirma e pergunta se ele sabe onde fica o ponto do transporte especial. Está sem bolsa, sem crachá, mas dará um jeito de embarcar. Renato pede que ela se tranquilize porque ele mesmo a levará para a confecção, pois é seu dia de folga. Mostra onde ela vai dormir. Percebe que o rosto dela está afogueado ao ver a cama arrumada e se apressa a falar que ele irá dormir no sofá da sala. Ela, então vai para o quarto, fecha a porta e logo apaga a lâmpada.
Renato estica o lençol e o cobertor, apanha o controle remoto e liga a TV. Deita no sofá, mas não pode deixar de pensar na moça que dorme em seu quarto. Sente o ímpeto de ir até o quarto perguntar se está tudo bem, mas se contém. Mas que espécie de escrúpulos ele estava tendo? Não é homem disso. É um conquistador irreparável, não perde nenhuma oportunidade para levar mulher para a cama e, ironicamente, tem uma em sua própria cama e, mesmo a desejando, controla seus impulsos para não tocá-la. “Não posso perder essa chance”, pensa. Percebe que gosta da moça muito mais do que imagina. O fato de se importar com ela já é um forte indício de um relacionamento afetivo. Desliga a TV e vai até a porta do quarto. Toca a maçaneta, mas antes procura ouvir se ela está tendo alguma reação. Então, ouve que ela chora baixinho, provavelmente com o rosto colado no travesseiro para não fazer barulho. Renato sente-se, pela primeira vez em anos, um sujeito asqueroso e egoísta. Desiste de sua intenção de submetê-la a um relacionamento íntimo.
Contudo, seu corpo queima de paixão. Vai para o banho, coloca a chave na posição desligado e deixa a ducha fria baixar a temperatura de seu desejo. Enxuga-se e volta para a sala. Preocupado, volta para perto da porta do quarto, mas não ouve mais nenhum som. Provavelmente, ela dormira, esgotada pelos sofrimentos. Renato, apesar de ter se deitado, não consegue pregar o olho, mas finalmente o sono o vence.
No dia seguinte, desperta com o som de uma música que gosta. Já são oito da manhã e Renato pula do sofá. Tonto, senta com a cabeça nas mãos e então se recorda de tudo. Vai para o banheiro, lava o rosto, penteia o cabelo e segue para o seu quarto. Ao abrir a porta, vê a cama perfeitamente arrumada, a camiseta e o short que emprestara para Vanessa dobrados no meio da cama e sobre as peças de roupa um pedaço de papel onde havia somente uma palavra: obrigada. Renato sente-se desorientado e senta-se na beirada da cama. Apanha as roupas com marcas de uso e aspira a fragrância deixada pela moça que as vestira, comovido por uma inesperada ternura. Tomado de súbita energia, prepara-se e segue para a confecção, disposto a encontrar Vanessa. Espera na portaria até que o último funcionário da confecção passe pela área das catracas e se decepciona porque não havia sinal da moça. Apreensivo, passa o dia pensando no que irá acontecer a Vanessa. Descobre que não sente apenas simpatia ou desejo por ela, mas que a aprecia muito mais do que poderia compreender.
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