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Joinville, Santa Catarina, Brazil

ENGRENAGEM DO CRIME – 8ª CAPÍTULO - O CELULAR – 1ª PARTE


Vanessa abre a pequena caixa com grande entusiasmo. Retira o aparelho de celular – o primeiro que tinha comprado, e imediatamente começa a testá-lo. Tira algumas fotos de si mesma, sai filmando os cômodos da casa. Já são 18h30 e ela segue pela rua ansiosa por mostrar para o esposo sua aquisição, um sonho de bastante tempo.

Chega próximo da barraca e começa a filmar Pedro, que atende dois garotos. Em seu estado de euforia, Vanessa acena para o marido e o chama:

- Querido! Olha pra cá!

Pedro atende ao chamado e olha na direção da filmadora do celular. Os garotos também voltam a visão e um deles solta um palavrão.

- O que tá fazendo, sua besta? – Desta vez, é Pedro que esbraveja. – Larga já essa porra!

- Pega aquela câmera! – ordena o outro cliente de Pedro.

Confusa, Vanessa abaixa o celular, guarda-o no bolso da calça jeans e dá alguns passos para trás até começar a correr pela rua lateral da Praça do Bosque, enquanto é perseguida pelos dois garotos. Ela corre sem parar até o final da rua quando avança pela rua Rui Barbosa. De repente, um motoqueiro a intercepta, parando diante dela e estendendo um capacete.

- Vem! Sobe! – diz, sem levantar a viseira, causando ainda maior confusão em Vanessa, já que não é possível reconhecê-lo.

Ela tem apenas alguns segundos antes de tomar a decisão. Os sujeitos querem roubar o celular que ela levara pelo menos dois anos para economizar e comprar. Por outro lado, embarcar na garupa de um motoqueiro desconhecido parece duplamente arriscado.

- Vem! Não tenha medo! – assegura o motoqueiro.

Vanessa respira fundo, coloca o capacete, pula na garupa e se agarra ao condutor, que arranca em alta velocidade, fugindo do alcance dos perseguidores. Depois de meia hora, já haviam despistado os sujeitos e o homem da moto para em uma rua sombria próximo de uma igreja na avenida Santos Dumont.

Vanessa desce, retira o capacete e aguarda para agradecer ao homem que a tinha ajudado. Porém, quando este retira o capacete, ela solta uma exclamação abafada e senta no meio-fio, onde começa a chorar descontroladamente, uma mistura de medo, confusão e remorso.

Renato pendura o capacete na moto e senta ao lado dela.

- Não está mais em perigo, se acalme – incentiva.

- Eu fui tão estúpida com você – admite, entrecortando as palavras com soluços fortes – e agora você me ajuda. Por favor, me perdoe pelo modo como tratei você...

- Escuta – começa, segurando as mãos dela e olhando-a diretamente nos olhos –, você nunca me tratou mal e eu gosto de estar com você.

Ele abraça-a e encosta a cabeça dela no próprio peito até que a crise de choro passe.

- Desculpe – pede, se afastando e limpando as lágrimas do rosto. – E obrigada. Vou voltar pra minha casa agora.

- Espera! Vou levar você – responde quando ela se levanta e começa a caminhar. – Não sei exatamente onde você mora, mas estamos muito longe de onde nossa jornada começou.

- Não precisa mais se preocupar com nada – ela tenta sorrir. – Eu me viro de agora em diante.

Renato segura-a pelo pulso e lhe pergunta o que, afinal, ocorrera para aquela perseguição aparentemente despropositada, e Vanessa relata o fato. O garoto logo suspeita de que ela filmara algo indevido, razão pela qual queriam apanhar o celular.

- Eu nem tive tempo de salvar a filmagem – ela se desculpa, sentindo-se medíocre. – Fiquei com tanto medo.

- Posso dar uma olhada?

- Pode, eu ainda não aprendi a mexer direito com esse celular.

Ela entrega o aparelho e Renato começa a procurar na pasta de vídeos. Há dois vídeos salvos: um era o que Vanessa tinha gravado dentro de sua casa, nada de inquietante. A segunda gravação, que tinha um período de 3 minutos e 21 segundos intriga Renato.

- Quem você estava filmando no carrinho de lanche? – pergunta, com ar de evidente preocupação.

- O meu marido. Chegou a gravar? – ela fica surpresa e pede para olhar.

- Não só chegou a gravar, como você fez o flagrante de um crime, Vanessa – explica, sério.

- O quê?! Como assim?

- Veja você mesma: seu marido está entregando cocaína para esses rapazes e eles estão pagando uma quantia bem alta pelos papelotes. E parece que são menores de idade pra complicar ainda mais o seu esposo.

- Não pode ser!

Vanessa assiste ao filme e se recusa a acreditar. Clica novamente no ícone reproduzir e vê perfeitamente Pedro comercializando a droga. Incrédula, lembra imediatamente da agressão que sofrera e do DVD e pôde perceber que o marido provavelmente é também usuário. Uma nova torrente de conflitos extravasa de seu íntimo machucado de forma agonizante, parecendo bloquear todo seu organismo. “Isso não pode ser verdade!” quer gritar, mas não tem forças. Logo Pedro, aquele a quem ama mais do que tudo na vida. “Não é possível! Por quê? Por que ele?” Um novo pensamento invade-a: o medo de retornar para casa. O que faria morando com um criminoso? A sucessão de acontecimentos provoca nova crise de choro, e desta vez, as lágrimas escorrem em silêncio.

- Você tem pra onde ir? – pergunta Renato, adivinhando seus temores. Está verdadeiramente penalizado com o desfecho daquele dia.

- Devo voltar pra minha casa e enfrentar – ela anuncia corajosamente.

- Eu tenho uma ideia...

Renato sugere apagar o vídeo do celular, não sem antes baixá-lo em seu computador e fazer uma cópia em DVD. Realizariam a atividade na casa dele e guardariam segredo. Vanessa não se sente confortável com a oferta dele, pois se lembra de suas atitudes atrevidas. Entretanto, depois de convencê-la, seguem para o bairro onde mora Renato.

- Fico aqui fora vigiando sua moto – tenta ela, encabulada de entrar sozinha com ele na casa.

- Não precisa. Entra comigo. É mais seguro.

Ela ainda tenta persuadi-lo a deixá-la do lado de fora, mas ele é enfático. Liga o computador e apanha o cabo USB para baixar o vídeo. Enquanto o sistema carrega, vai até o refrigerador e pega uma garrafa pet com água. Oferece um copo para Vanessa, que toma de uma só vez. Depois faz o download do vídeo, grava em um DVD, apaga a filmagem do celular dela e devolve o aparelho.

- O arquivo e o DVD ficam comigo e quando você denunciar seu marido, pode usar isso como prova pra incriminar ele.

- Denunciar meu marido?! – ela sente o estômago doer. – Não posso fazer isso!

- Não só pode como deve – salienta Renato, com a testa franzida. – Além de ele ter praticado um crime, ofereceu droga pra menores de idade. Ele tem que ir pra cadeia antes que faça mais famílias sofrer.

Vanessa engole as lágrimas e se contém, mas intimamente desfalece. A decepção está ampliando ainda mais a sua dor. Baixa a cabeça, carregada de vergonha.

- Desculpe – pede Renato. – Eu não devia ter falado assim. Tem certeza de que quer voltar pra sua casa?

Ela limita-se a afirmar com um aceno de cabeça e Renato não contesta. Desliga o computador, tranca a casa e retornam para o Costa e Silva. Após as instruções de Vanessa, chegam na esquina da rua onde ela mora e Renato acelera para subir a pequena ladeira. Em vez de estacionar no portão da casa de Vanessa, Renato passa direto e para na outra quadra, de onde tem uma perfeita visão da casa dela. As luzes estão apagadas, o que parece natural, mas alguma coisa o deixa sob vigilância. Vanessa ia descer da moto, mas ele pede que ela espere um pouco mais. Passa das 19h do horário de verão e as fotocélulas da iluminação pública começam a acender. De repente, surgem dois homens na garagem da casa de Vanessa, situação que a deixa perplexa, pois não os conhece. Pedro surge também e discute com os outros dois. Eleva o dedo indicador na direção dos visitantes e golpeia o ar com safanões irados. Vanessa não sabe o que fazer e começa a tremer. Instintivamente, se agarra em Renato que sente o corpo dela trêmulo e gelado. Ele toma a decisão e conduz a moto para outra rua para não serem percebidos, levando Vanessa de volta para sua casa.

A garota tirita de frio e de medo e Renato pergunta se ela quer tomar banho para se aquecer. Vanessa está apalermada, sem responder, sem agir, apenas parada, presa em pensamentos negativos, amedrontada e sozinha. Também não confia em Renato, mas se obriga a aceitar a ajuda. Ele apanha uma toalha e umas peças de roupa limpa no roupeiro e estende para ela, apontando o banheiro.

Vai para o quarto, prepara a cama dele e imagina que ela não aceitará dormir no mesmo local com ele. Pega outro travesseiro, lençol e cobertor, leva para a sala e coloca sobre o sofá. Escuta o chuveiro e começa a imaginá-la tomando banho, mesmo com todos esses acontecimentos indesejáveis. Sente o corpo quente e começa a transpirar, ansioso e angustiado, desejando contato com ela, lembrando-se do corpo dela encostado ao seu na moto. Não é um homem movido por pudores, mas mantém ainda um pouco de respeito e afasta os pensamentos infames para se concentrar em algo para comer. Prepara macarrão, ovos, chá e pão enquanto tenta tirar a imagem da garota do pensamento. “Não é hora pra isso, Renato”, contraria seus próprios instintos.

Ela sai do toalete com a mesma roupa que tinha entrado e a não ser pela fragrância suave do sabonete, Renato teria duvidado se ela tomara mesmo banho. Pede que ela se sente e se sirva. Mecanicamente, Vanessa atende ao pedido, tenta comer, mas se mantém quieta o tempo inteiro. Os olhos estão vermelhos e inchados e Renato estica o braço para afagar o rosto sofrido.

Desconfiada, Vanessa se esquiva do toque e se levanta.

- Eu não devia ter vindo pra cá – diz, arrependida. – Desculpe, Renato, eu tô muito confusa...

- Quer se deitar? Trabalha amanhã às cinco, não é?

Ela confirma e pergunta se ele sabe onde fica o ponto do transporte especial. Está sem bolsa, sem crachá, mas dará um jeito de embarcar. Renato pede que ela se tranquilize porque ele mesmo a levará para a confecção, pois é seu dia de folga. Mostra onde ela vai dormir. Percebe que o rosto dela está afogueado ao ver a cama arrumada e se apressa a falar que ele irá dormir no sofá da sala. Ela, então vai para o quarto, fecha a porta e logo apaga a lâmpada.

Renato estica o lençol e o cobertor, apanha o controle remoto e liga a TV. Deita no sofá, mas não pode deixar de pensar na moça que dorme em seu quarto. Sente o ímpeto de ir até o quarto perguntar se está tudo bem, mas se contém. Mas que espécie de escrúpulos ele estava tendo? Não é homem disso. É um conquistador irreparável, não perde nenhuma oportunidade para levar mulher para a cama e, ironicamente, tem uma em sua própria cama e, mesmo a desejando, controla seus impulsos para não tocá-la. “Não posso perder essa chance”, pensa. Percebe que gosta da moça muito mais do que imagina. O fato de se importar com ela já é um forte indício de um relacionamento afetivo. Desliga a TV e vai até a porta do quarto. Toca a maçaneta, mas antes procura ouvir se ela está tendo alguma reação. Então, ouve que ela chora baixinho, provavelmente com o rosto colado no travesseiro para não fazer barulho. Renato sente-se, pela primeira vez em anos, um sujeito asqueroso e egoísta. Desiste de sua intenção de submetê-la a um relacionamento íntimo.

Contudo, seu corpo queima de paixão. Vai para o banho, coloca a chave na posição desligado e deixa a ducha fria baixar a temperatura de seu desejo. Enxuga-se e volta para a sala. Preocupado, volta para perto da porta do quarto, mas não ouve mais nenhum som. Provavelmente, ela dormira, esgotada pelos sofrimentos. Renato, apesar de ter se deitado, não consegue pregar o olho, mas finalmente o sono o vence.

No dia seguinte, desperta com o som de uma música que gosta. Já são oito da manhã e Renato pula do sofá. Tonto, senta com a cabeça nas mãos e então se recorda de tudo. Vai para o banheiro, lava o rosto, penteia o cabelo e segue para o seu quarto. Ao abrir a porta, vê a cama perfeitamente arrumada, a camiseta e o short que emprestara para Vanessa dobrados no meio da cama e sobre as peças de roupa um pedaço de papel onde havia somente uma palavra: obrigada. Renato sente-se desorientado e senta-se na beirada da cama. Apanha as roupas com marcas de uso e aspira a fragrância deixada pela moça que as vestira, comovido por uma inesperada ternura. Tomado de súbita energia, prepara-se e segue para a confecção, disposto a encontrar Vanessa. Espera na portaria até que o último funcionário da confecção passe pela área das catracas e se decepciona porque não havia sinal da moça. Apreensivo, passa o dia pensando no que irá acontecer a Vanessa. Descobre que não sente apenas simpatia ou desejo por ela, mas que a aprecia muito mais do que poderia compreender.


*****

ENGRENAGEM DO CRIME – 7ª CAPÍTULO - O SOM DO SILÊNCIO – 2ª PARTE


Vanessa passara o dia trabalhando com total felicidade. Sorria sem cumprimentar quem quer que fosse, produzia com grande habilidade, de tal forma que ainda lhe sobrava tempo para pequenos intervalos de descanso. Seu corpo estava leve, a mente tranquila. Pedro é o pé direito de sua vida, portanto, quando lhe trata bem, isso contribui para o bem-estar dela.

O sorriso estampado na face corada é como um retrato. Enquanto varre, o faz com alegria. Não presta atenção ao moço que para a seu lado.

- Oi...

Vanessa ergue-se subitamente, trêmula e esbaforida. A pá com lixo que segura nas mãos trai seu nervosismo. Percebe então que não adianta procrastinar a correção dos atos que considerara impróprios para sua situação civil.

- Renato, por favor... – começa, atrapalhando-se com as palavras mais simples.

Ela evita olhar para ele. Dirige-se ao tambor de lixo, deposita a varredura e volta em um instante. A boca resseca e ela está visivelmente envergonhada.

- Renato, sou uma mulher casada, está entendendo? Ca-sa-da! E longe de parecer prepotente, imaginando que eu tenha causado algum tipo de interesse em você, eu quero que não me aborreça mais.

- Tudo bem, mas ser casada é apenas um detalhe – responde, desconcertando-a. O olhar incide sobre ela de tal forma que a faz estremecer.

- Para mim não é só um detalhe – retorque. – É tudo em que acredito. São os valores que aprendi, que respeito e procuro seguir. A fidelidade é apenas um desses valores. Sem meus princípios, não sou ninguém. Não me chamaria Vanessa se não fosse por eles.

Vanessa não sabe como sair dessa situação constrangedora. As colegas de trabalho já estão olhando com desconfiança e ela não quer comentários maldosos circulando em seu setor.

- Melhor não conversarmos mais, se não for pedir muito.

- Seu marido é um cara de sorte – comenta, depois de alguns instantes de hesitação. – Gostaria de ter chegado na frente dele. – Dizendo isso, se afasta e segue para o setor no qual trabalha.

Vanessa suspira e reconhece que Renato mexe com ela, mesmo que seja casada e feliz. As últimas palavras dele perturbam novamente seu ser.

Ela não podia observar o sorriso de satisfação que se estampa no rosto de Renato. É evidente que ele despertara interesse nela, e ele estava disposto a continuar. Tinha paciência o suficiente para viver a aventura que pretendia. Gostara dela desde o primeiro instante em que a vira e pensa em conquistá-la. Depois de realizar seu empreendimento, não se importa que ela fique com seus valores medíocres.

*****

Eduardo olha para o teto. Os olhos fixam qualquer coisa que um simples observador não se capacitaria a examinar. As pupilas parecem gélidas e sua face lívida como um ser inorgânico. As pálpebras abrem e fecham em espaços inconstantes e numa lentidão esmorecida. Os braços, esquecidos ao longo do tronco, dão continuidade à silhueta esfacelada que permite ser derrotado pela energia mórbida da autocompaixão.

A mãe entra no quarto e fala com ele, mas a figura inanimada do filho sobre o colchão não se move. Momentaneamente, ela se esquece da atual deficiência que o pai concedera ao jovem e se flagra querendo ralhar com o filho. Entretanto, antes que o rompante de impaciência lhe venha surtar e provocar histeria, ela chama o rapaz pelo nome em um tom alto, porém, complacente, e o garoto vira o rosto na direção dela.

- Filho, você tem visita.

Que mundo estranho, imperfeito, silencioso e apavorante, pensa ele. As palavras que saem da boca da mãe parecem incompletas e totalmente desprovidas de sentido. Ele recorda das diversas vezes que Estéfanie exigia que melhorasse sua dicção a fim dos ouvintes compreenderem os versos e não somente a música, coisa que antes parecia bobagem agora se faz presente, indispensável. Talvez conseguiria traduzir o que a mãe estivesse comunicando.

Indiferente, Eduardo vira o corpo para o lado da parede e fecha os olhos, mergulhando em tristeza e fracasso. Desejava agradar o pai com sua música, tornar-se famoso e quem sabe merecer um pouco de afeto. Porém, o sonho acabara antes mesmo de começar.

Um leve toque no ombro faz com que ele se encolha, mas a mão que afaga seu rosto o traz de volta dos terrores de seu fracasso.

- Edu, eu já sei o que aconteceu, mas você vai se recuperar.

Eduardo vira-se e senta-se na cama, encostando-se na cabeceira. As pancadas ainda fazem seu corpo doer e ele geme, ajeitando-se para aliviar as consequências da surra que levara. Olhar para Estéfanie é como mergulhar na magia da noite e sentir vibrar todas as notas musicais em um compasso sereno, iluminado pelo brilho das estrelas e o aconchego do luar. Vê-la diante dele é como sobrevoar o oceano e poder roçar a pele sobre a sua e sentir alívio de todas as frustrações.

De repente, a vê sob o domínio predador de Peter, sendo alvo de um gigante indestrutível. Julga-se inferior a seu adversário, e por isso não ousa medir forças com o talento conquistador do galante companheiro de banda e inimigo de sua felicidade. Desvia o rosto para a janela, tomado de súbita repugnância, situação inexplicável diante de seus mais íntimos conflitos.

- Eu não entendo nada do que você diz – irrita-se. – Eu agora sou um surdo imprestável, tá entendendo? Você não precisa mais de mim.

Estéfanie não havia compreendido a reação inopinada, visto que não tinha total discernimento do drama que o amigo vivencia e os complexos que prosseguem com a redução da própria estima. “Eu gosto muito de você, Edu”, ela fala e se Eduardo não estivesse tão envolvido com sua fraqueza espiritual, perceberia o brilho diferente nos olhos dela, que lamentava o ocorrido, mas se compunge com grande afinco por causa do amor que sente pelo garoto, paixão que ela tentava dissimular e não aceitava, mas que no momento oportuno da dor se evidencia.

Ela pega um caderno que está sobre a cômoda e começa a fazer uma anotação. Deixa o que havia escrito sobre a cama, acena e sai.

Curioso, Eduardo pega o caderno e lê: “Por que você não respondeu o meu bilhete?”.

Eduardo olha pela janela. Estéfanie já tinha atravessado a rua e sumia na esquina do quarteirão. Confuso, ele se pergunta: “E essa, agora? Que bilhete?”. A dúvida oscila suas certezas.

****


Alberto chega em casa e o estresse é visível. É como o pavio aceso de uma dinamite, a qualquer momento aguarda a explosão. As sobrancelhas formam uma única linha, com a divisão praticamente imperceptível. Abre uma lata de cerveja e bebe o líquido de uma só vez. A irritação parece ter aumentado e assim Alberto esmaga a lata vazia e a atira contra a parede. Fuma um cigarro após o outro e ao cabo de meia hora queima um maço inteiro. Tanto nervosismo tem explicação, já que havia sido trapaceado e corre o risco de perder o emprego. Aguarda a esposa, mas justo naquele dia ela está atrasada. Apanha o telefone e liga para a loja. Avisam que ela havia saído. Contata o celular e no terceiro toque a ligação cai na caixa postal. Isso provoca grande desconfiança.

Ângela está no shopping que fora inaugurado recentemente na cidade se esbaldando em compras. Ela tem um bom ordenado que lhe proporciona certas extravagâncias. Está com uma amiga, e riem à toa. Havia se estressado com um cliente e precisava de terapia: nas situações mais críticas, as compras são para ela o melhor remédio.

Seu celular está no silencioso, então, ela não percebe o aparelho chamar a cada vinte minutos. Entra de loja em loja, experimenta roupas e acessórios e sai com uma bolsa no braço. Assim passa mais de duas horas até que vão lanchar. Ela está felicíssima com as coisas novas e não percebe a presença do homem que parara de pé ao seu lado na mesa da praça de alimentação. A amiga coloca-a a par da situação quando aponta o sujeito. Ângela então se vira e cumprimenta-o:

- Oi, Ricardo! Você por aqui? Tudo bem? Sente aqui com a gente! – convida, empolgada com a súbita chegada.

- Eu não quero atrapalhar, Ângela – desculpa-se ele, educadamente. – Reconheci você e só passei para cumprimentar.

- Mas eu insisto. Senta! – incentiva.

Ricardo aceita o convite, pede um suco, oferece-se para pagar alguma coisa para elas e conversam sobre diversos assuntos. Ângela ouve-o, embevecida. A amiga disfarça, olhando o relógio, depois diz que precisa ir embora.

- Eu vou com você – diz Ângela, apanhando as sacolas.

- Posso deixar vocês em casa se quiserem.

- Não, imagina. Não queremos incomodar...

- Não é incômodo. Venham.

A amiga de Ângela desembarca primeiramente e em seguida Ricardo dirige para o endereço que Ângela descreve. Ele fala sobre seu trabalho no centro de tratamento e tanta paixão por oferecer ajuda para as pessoas contagia Ângela, despertando uma curiosidade natural sobre o assunto. Motiva-o a falar mais e observa a evidente empolgação na voz e no brilho dos olhos do motorista.

- Amanhã vai chegar mais um garoto e eu sei que ele vai dar bastante trabalho no começo.

- E como sabe? – perguntou, inocentemente. – Adivinha as coisas ou as pessoas sempre chegam revoltadas para se tratarem?

- Não é uma questão de adivinhar, Ângela – explica com paciência, enquanto guia cuidadosamente o automóvel –, mas uma predisposição que nós percebemos quando a internação é forçada visto que o dependente químico não aceita ou não enxerga motivos para tal intervenção. Ainda existe o acompanhamento dos pais, que por sua vez, ignoravam que o filho estivesse envolvido com o tal vício e arranjam subterfúgios para se absterem da responsabilidade de que foram omissos na educação.

- Quer dizer que além do dependente não aceitar a internação ainda existe a indiferença dos pais em relação ao tratamento? – Ângela nunca havia principiado em um assunto tão importante e agora percebia outros lados das dificuldades que eram encontradas em clínicas semelhantes.

- Na maioria dos casos, a família procura nossa ajuda quando a situação se encontra em níveis de relacionamento intoleráveis, como é o caso dos que “limpam” a própria casa para conseguir obter as drogas. Quando as coisas atingem esse estágio, a família já está destruída.

- É aqui – aponta Ângela. – Entre para conhecer o meu marido, Ricardo, e conversarmos mais sobre a clínica de reabilitação.

- Agradeço seu convite, mas preciso ir, que o caminho é longo. Mas aguardo você e o seu marido para uma visita. É só me telefonar.

- Combinado. Tenho seu cartão e vou ligar para agendarmos a visita. Por hora, agradeço a carona.

Ela apanha as sacolas, desembarca, abre o portão, e somente quando ela abre a porta de entrada da casa é que Ricardo dá partida no automóvel. “Que homem gentil”, pensa Ângela.

- Quem era o cara?

A voz de Alberto vibra dentro da cozinha e sobressalta Ângela, que reage com um pulo que foi mal interpretado pelo marido. Ela observa a lata de cerveja caída no chão e fica subitamente preocupada. Questiona o fato, mas Alberto diz que ela queria fugir do assunto. Não suporta a ideia de traição, embora Ângela contasse tudo nos mínimos detalhes. Alberto exalta-se e ela, que não permite que ninguém lhe levante a voz, responde no mesmo tom. Insultos são desmedidamente trocados e quando a briga passa dos limites das agressões verbais, Ângela felizmente percebe que é hora de parar. Pega suas coisas e se tranca no quarto, onde tenta se acalmar, mesmo que o marido continuasse proferindo desaforos inconcebíveis devido ao excesso de ciúme. Ele esmurra a porta do quarto, exigindo que ela abra e Ângela suplica que ele pare. Durante duas horas o confronto continua implacável.

De repente, a casa fica silenciosa. Ângela, esgotada, decide se abre a porta ou não. O silêncio súbito perturba ainda mais e ela resolve sair do exílio. Quando sai, não contém o grito de profundo horror diante da tragédia iminente.

ENGRENAGEM DO CRIME – 7ª CAPÍTULO - O SOM DO SILÊNCIO – 1ª PARTE




A choperia na rua Max Colin está movimentada. Garçons movimentam-se entre as mesas segurando suas bandejas como habilidosos malabaristas. A vozeria acompanhada de exclamações abafadas, gritinhos femininos, risos e gargalhadas tumultua o perfeito entendimento. Não há um só lugar vago. Os pratos, bem preparados, exalam deliciosos sabores. As bebidas que flutuam entre as bocas sedentas, misturam-se ao hálito dos casais que se beijam. Entre eles, Castro aproveita o momento de lazer com uma mulher de pele morena e cabelo cacheado.

Castro possui rosto anguloso e os olhos são de um azul acinzentado; as sobrancelhas são negras e largas, o cabelo repartido para o lado esquerdo, é liso e de um tom de cinza com preto. Está barbeado e perfumado, veste uma camisa social de manga comprida em tom verde água com finas listras em branco. A calça é tipo jeans, o sapato, social com contorno quadrado nas pontas.

- Não vamos falar de trabalho agora, querida...

- Tudo bem, amor.

Tudo indica que estão namorando, aproveitando a noite de quarta-feira. A moça suspira depois de beijada. Castro sorri, satisfeito. Um garçom interrompe o momento íntimo para servir-lhes o prato e mais uma garrafa de vinho.

Diferentemente do dia-a-dia em sua profissão, Castro demonstra romantismo. Beija a mão da garota, serve-lhe mais vinho, fala-lhe baixinho ao pé do ouvido. Faz algum convite indecoroso, pois a garota se afasta dele e ri. Depois de terminada a refeição, pede a conta, que Castro, naturalmente paga, dada a sua educação.

Dá a mão para a namorada e a conduz até um veículo azul metálico, um Xsara. Abre a porta do passageiro, ajuda-a a se acomodar, dá a volta no carro e embarca. Enquanto liga o automóvel, olha para ela com um sorriso provocante e pergunta:

- E então? Na minha casa ou na sua?

- Posso escolher? – Ela desvia-se da resposta e provoca-o, puxando a saia para cima do joelho. Usa saia com cintura alta, uma blusa tomara-que-caia, uma joia no pescoço, salto alto rubro.

- Claro.

- Na sua.

Satisfeito, manobra o Xsara e segue pela mesma rua em direção ao bairro onde mora. Chegando a sua casa, aguarda o portão eletrônico abrir e manobra o carro até a garagem. Sai rapidamente, abre a porta de sua apaixonada passageira, toma-a pela mão, beijando-a com delicadeza. Leva-a até o interior da casa e, depois de trancar tudo, continua a beijá-la.

- O senhor cometeu uma infração gravíssima ao dirigir alcoolizado – sussurra ela.

- Ah, é mesmo? E a senhorita pretende fazer alguma coisa a respeito?

- Vou cumprir a lei – continua, executando um movimento rápido e segurando as mãos dele pelas costas. – Vou prendê-lo. Duvida?

- E se eu for inocente? – retruca, em tom de malícia.

- Bem, terá que provar primeiro.

Castro vira-se e abraça-a. Seus hálitos quentes confundem-se, e a leveza provocada pelo vinho provoca-lhes sensações inebriantes. Ele aponta a escada, a qual sobem apressadamente. No quarto, a paixão se desata e longo tempo depois estão os dois abraçados e nus sobre a cama.

A garota olha para o teto, enquanto acaricia o braço másculo que cobre sua cintura. Não demonstra embriaguez, apesar de também ter bebido. Ao contrário, está atenta e quando percebe que Castro adormecera, levanta-se com bastante cuidado, veste o roupão dele e caminha pelo quarto, observando cuidadosamente cada espaço.

Sai do quarto sem fazer ruído e segue para a sala contígua, onde vê o computador. Há diversos papéis sobre uma mesa e a garota, analisando um a um, procura incessantemente. De vez em quando lança um olhar para a porta para verificar se Castro não acordara.

- Onde está? – pensa alto, mordiscando os lábios.

Esbarra no mouse e a tela do computador reacende. A moça observa o e-mail aberto que alerta Castro sobre os resultados da perícia no centro de tratamento e, minimizado, um documento anexo que detalha o caso. Um sorriso de satisfação perpassa pelo rosto da visitante e ela se apressa a imprimir o documento. A multifuncional silenciosa não se torna problema, apanha o papel e desce. Guarda-o na bolsa.

Subitamente, sente uma mão forte segurando-lhe o braço e se sobressalta. Ofegante, vira-se abruptamente e dá de encontro com Castro, que demonstra desconfiança.

- Você me assustou! – reclama. – Achei que estivesse dormindo...

- O que você está procurando em sua bolsa?

- Eu... – O susto provoca na moça um tremor incontrolável e sua boca está pastosa. – Desculpe, eu vim pegar outro preservativo...

- Ah, bom – Castro sorri e alivia a pressão sobre o braço dela. Enlaça-a e olha-a diretamente nos olhos. – Pensei que você estava indo embora sem me avisar. Não quero que você saia sozinha a esta hora.

- Esqueceu que ando armada? E depois, eu não iria a lugar algum com seu roupão... – Aliviada, suaviza a expressão e entrega-se a novo rompante de paixão.

- Fique comigo esta noite. Hum? Por favor... – ele pede.

- Fico.

Sobem ao quarto novamente. Enquanto o segue, ela tenta dissimular a preocupação e satisfazê-lo de todas as formas.


*****

Castro ergue-se de um salto da cama para atender uma chamada no celular. Enquanto ele conversa ao telefone, inquieto, desconfiado, abrindo a cortina da sacada e logo em seguida fechando o corta-luz, Vera vira de lado na cama. Apoia o peso do corpo sobre o braço direito e observa o homem seminu com interesse. Ombros largos, músculos em destaque, corajoso e inteligente, faz mesmo o seu tipo. Olhar para ele é suficiente para reacender seu desejo. Sorrateiramente, levanta da cama, se aproxima de Castro e enlaça-o pelas costas. Ele desliga o telefone, pega nas mãos dela e desliza-a pelo próprio peito, em um gesto mais de afeto do que de desejo.

- O dever nos chama...

- Algo que não possa esperar mais uma hora... ou duas? – insinua ela, beijando-lhe as costas, mordiscando os lóbulos das orelhas dele.

Ele vira-se de frente para ela pronto para negar em favor do trabalho, porém, Vera cala-o com um beijo longo e cálido.

- Talvez... – começa Castro, sorrindo espontaneamente –, possamos nos atrasar um pouquinho.

Em seguida, ergue-a pelas nádegas e carrega-a até a cama.

Algum tempo depois, ambos começam a se arrumar. Castro toma banho, veste jeans e camisa, ajeita o coldre e confere o revólver. Vera veste a roupa que usara para sair na noite anterior. Ambos saem do sobrado e se despedem com outro beijo apaixonado.

- Espero que goste de flores – comenta ele, abraçando-a com firmeza.

- Por quê? – ela ri baixinho. – Pretende me mandar flores por nosso primeiro encontro?

- Pensei que eu estava sendo criativo... – sorri, evidenciando contentamento.

- Ou romântico – afirma Vera, com voz suave. Precisa conter-se para não estragar seus planos.

- Tchau – despede-se, enquanto ela embarca no táxi que acabara de estacionar e ele fecha a porta.

- Mais tarde a gente se fala – promete.

Tão logo Vera sai, Castro embarca em sua pick-up e segue para o laboratório.

Vera, por sua vez, suspira e procura focar em suas estratégias. Seduzir Castro também fazia parte de um esquema que fora estudado meticulosamente durante meses. Enquanto o táxi trafega velozmente, driblando os outros automóveis, ela repensa na difícil tarefa de conquistar a confiança de Castro. Ele é o inimigo número um de Ivo e o profissional mais visado pela própria polícia federal. Embora nem desconfiasse do que enfrentaria, Castro está sendo monitorado minuto a minuto para impedir que suas investigações cheguem ao traficante e estraguem um trabalho que ultrapassava as fronteiras nacionais.

Vera lida com todo tipo de pessoa. Sabe jogar, enganar, é precavida e engenhosa. Por mais que fosse filha de um tenente da Aeronáutica, habituada à rigidez absoluta do pai e filha de uma mãe de família e esposa considerada ideal, jamais se deixara dominar por ninguém. Ordens, nem do próprio pai cumpria com efeito, a não ser com a recompensa adquirida: aulas de tiro ou defesa pessoal. Enquanto pai e mãe batalhavam para dar a ela uma educação de uma doce e frágil jovem, a rebeldia da garota vencia todos os seus ideais.

Seu pai pretendia que ela debutasse na sociedade carioca, contudo, Vera não se rendeu à ideia de se apresentar meiga e educada e pediu outro presente ao pai: um curso de piloto de helicóptero e jatos particulares. O pai quase enfartou e a mãe passou por um terrível desgosto.

- Por que você não vai à universidade como qualquer jovem da sua idade, tem seus namoricos, quem sabe até encontra algum pretendente e casa, hein? – argumentava a mãe diversas vezes. Como resposta, ela recebia constantemente um sonoro “nunca!”. Jamais baixaria a cabeça para homem algum como a mãe em relação ao pai.

Aos dezoito anos, já fazia sozinha seu primeiro voo e como se não bastasse, não inaugurou nenhuma nave comercial e foi logo pilotando o helicóptero blindado da força aérea brasileira. Foi perfeita e apesar do pai não querer admitir publicamente, se encheu de orgulho das proezas da filha.

Vera queria mais e mesmo submetida a missão de alto risco, não esmorecia. Após 12 anos de constantes treinamentos dentro da polícia, ela foi selecionada para uma missão secreta que dependia de competência, prudência, agilidade e sorte. Sem titubear, já mulher feita, aceitou e foi enviada aos departamentos correspondentes para ser preparada.

O exército brasileiro possuía uma estratégia paralela para evitar que o tráfico de drogas tomasse conta das grandes metrópoles e das cidades emergentes. Juntamente com a polícia federal, pretendia desmantelar uma quadrilha internacional que atuava na maior cidade de Santa Catarina, Joinville, local em franca expansão industrial e comercial, atrativa dos gigantes do mercado e menina dos olhos para criminosos em grande escala.

Vera, designada para trabalhar no DEIC da cidade por todos os seus méritos profissionais, também fora vista como oportunidade pelos oficiais. Como havia um profissional bem conceituado na cidade e a polícia federal não desejava interferências, enviou-a para deter as investigações do policial e ainda se infiltrar na quadrilha que já havia sido investigada e mapeada. Forjaram documentos falsos para Vera.

Coisa com a qual Vera não contava era a natural aproximação com o alvo de sua especulação. Ela não se apegava a ninguém, não possuía pudores sociais que as pessoas acreditavam que manchassem a imagem de uma mulher, entretanto, atração dessa maneira ela não esperava.

Contrafeita com a nova situação emocional, ela busca inspiração nos próprios ideais. Paga ao taxista e entra em sua casa para revisar os detalhes. Apanha as chaves do seu veículo e segue para o destino: o quartel-general de Ivo.

Liga do celular assim que conduz o carro para a frente do portão de aço da residência e logo o portão se abre lentamente. Estaciona o carro na garagem que escurece quando o portão volta a encostar. Apanha a bolsa e desembarca.

Encontra Ivo no sofá da sala com duas mulheres, uma em cada lado, oferecendo ora cigarros, ora bebidas. Logo que Vera surge ele manda que suas amantes se retirem.

- Aqui está – diz Vera, estendendo um papel impresso que Ivo apanha e lê com total atenção.

- Desgraçado! – vocifera. – Como descobriram tudo isso?

- Aquele sujeito que você contratou deixou pistas, mas eu garanto que depois do susto que eu dei nele na praça, ele vá cuidar melhor do que é da responsabilidade dele.

- Hum...

Ivo ergue-se da poltrona e se aproxima de Vera. Tem uma cicatriz no rosto da época em que era combatente do exército, mas ainda é atraente. Sem pedir licença, enlaça-a pela cintura e aperta-a para que ela sinta sua virilidade.

- A sua festinha particular não foi suficiente? – critica, referindo-se às duas mulheres que antes estavam com ele.

- O melhor guardei para você, gostosa...

O hálito dele recende à tequila e à maconha e já são conhecidos de Vera, bem como o potencial dele na cama. Estranhando o próprio comportamento, dessa vez, Vera se esquiva.

- Fez muito bem... – mente ela, para ganhar tempo. Depois da noite com Castro ela não está excitada nem disposta a ceder a Ivo. – Mas não tenho tempo a perder. Tenho outra missão, lembra-se?

Ela volta-se para ele e o toca, fazendo-o gemer.

- Agora...

- Não. – É decisiva. – Quer estragar tudo?

Resignado, ele se vira e faz um sinal com a mão para que ela prosseguisse.

Assim que Vera sai da casa e conduz seu automóvel de volta para a própria residência, ela se sente péssima. Quase se denunciara evitando contato com o chefe da quadrilha, mas uma emoção mais intensa vibrava dentro dela. Surpresa, ela se vê segurando lembranças do encontro com Castro e sente, pela primeira vez na vida, saudade.

Toma um banho demorado e o pensamento que vai e vem chega a lhe irritar. Afinal, o que acontecera à destemida policial Vera? Orgulhava-se por não se ater a sentimentalismos e agora se flagrava tendo saudade de um homem.

Termina o banho, veste-se e segue para o laboratório de investigações, determinada a afastar esses sentimentos que ela julga medíocres. Ao abrir a porta de sua sala, depara-se com um enorme buquê de rosas vermelhas, já dispostas em um vaso. Pretende sumir com isso, mas se detém ante a curiosidade. Apanha o minúsculo cartão em que lê: “Obrigada pela noite mais especial da minha vida. Castro”.

Imóvel, Vera, que nunca soubera o que significava chorar, sente o calor das lágrimas que descem por seu rosto.

****

ENGRENAGEM DO CRIME – 6ª CAPÍTULO - PROMOTOR DE AMEAÇAS – 2ª PARTE




Vanessa termina a limpeza de sua área de trabalho, guarda a vassoura e descarta os resíduos nos tambores apropriados de reciclagem. Esgotada fisicamente, mas satisfeita por ter chegado ao fim de mais um dia de trabalho, agradece a Deus pelas dádivas de saúde e emprego e, cabisbaixa devido ao cansaço, segue para o banheiro.

Antes de atravessar o corredor, olha para trás para verificar se nenhuma empilhadeira passa no momento e vê de relance Renato caminhando próximo a ela. Aborrecida pelo fato de ter de passar por ele, adentra apressadamente no toalete.

Encontra as colegas, que se preparam para ir embora, e aguarda até que elas se aprontem. Sai do banheiro em companhia delas e observa que Renato continua por lá. Por educação, cumprimenta-o, e o rapaz acompanha cada um de seus movimentos.

Sentimentos conflitantes invadem-na, porque enquanto fica aborrecida com o atrevimento e insistência dele, por outro lado, quando se lembra do jeito como perscrutava seus olhos e em seu sorriso, sente a respiração entrecortada por sintomas de ansiedade, como descompasso nos batimentos cardíacos, calafrios e espasmos.

Sai da empresa sorridente e bem-humorada. Um bem-estar repentino toma conta dela depois de ter visto o provável interesse de Renato por ela. O sorriso estampado na face não desaparece quando ela chega em casa e procura a chave na bolsa. Repentinamente a porta abre e ela se sobressalta.

- Oi, amor!

Aliviada, Vanessa beija e abraça o esposo. Surpreende-se, pois Pedro dificilmente está em casa quando ela retorna do trabalho.

- Tá com fome? Eu preparei um rango gostoso pra nós dois...

Vanessa entra na cozinha e sente cheiro gostoso de comida recém-preparada. Pedro, feliz, enlaça-a pela cintura e mostra o que cozinhara.

- Estrogonofe de frango, arroz, tomate e, pra completar, sorvete!

- Sorvete? Que maravilha! – Ela fica verdadeiramente alegre com a surpresa. – Tô morrendo de fome!

- Ah, é? Vem cá!

Pedro abraça-a e beija-a com profundo desejo. Observa-a nos olhos e suplica seu perdão. Explica que andava estressado porque seus negócios não davam certo e que enxerga o esforço que a esposa faz. Reconhece que errara ao criticá-la pelas atitudes que tomava.

- Eu sei – ele dizia, – sei que sou eu o errado e não tenho direito nenhum de jogar a culpa nas suas costas. Eu sou um idiota, um imbecil...

- Não é nada disso, Pedro. – Ela acalma-o, colocando os dedos pequenos sobre os lábios dele. – Você é o homem que Deus colocou no meu caminho e eu agradeço por isso. Eu não amo você simplesmente, eu te venero, te adoro. Claro que Deus está em primeiro lugar em minha vida e assim oro para que você chegue a encontrá-lo na sua...

- Queria acreditar nisso como você diz – lamenta.

- Mas a verdade – continua Vanessa, com os olhos marejados de lágrimas de felicidade, – é que sem você constantemente do meu lado, eu tenho somente uma sobrevida. Deus permite que eu viva, mas fez de você, meu marido, o ar que eu respiro...

Pedro chora e abraça-a com agradecimento. Segura a cabeça dela com as duas mãos e encosta a fronte dela com a sua. “Te amo, te amo...” repete.

- Não me deixe sozinha, Pedro. Não me abandone.

- Não vou, não vou.

- Tô com cheiro de fábrica – ela ri, enquanto chora e aceita os beijos ávidos do marido.

- Isso não tem importância.

Pedro pega-a no colo e leva-a para o quarto. O momento de felicidade que ambos vivem reflete em seus semblantes gotas de um precioso orvalho: a capacidade de amarem-se mutuamente mesmo em meio a conflitos e dificuldades. Nessa altura, Vanessa tinha esquecido totalmente o garoto que a abordara, pois obtivera o amor que necessitava. Vanessa e Pedro descansam nos braços um do outro e, mais tarde, almoçam, felizes e satisfeitos com a plenitude alcançada.




Uma indústria de alimentos, cujo carro-chefe é chocolates, que fica no extremo oeste de Santa Catarina está em pleno funcionamento. Empilhadeiras transportam centenas de paletes com caixas de chocolates e os operários cumprem os procedimentos de produção, embalagem, estocagem e limpeza.

Um funcionário aparentemente encarregado de conduzir e chefiar as operações fala ao celular. Retira um bloco de papel do bolso do jaleco alvíssimo e faz anotações. Depois repassa o papel para outro operário e, continuando a falar no celular, encaminha-se para o corredor de acesso à portaria principal.

Abaixa o celular, cumprimenta o vigilante e dispensa-o para levar correspondências até a área administrativa, tarefa que cumpre diariamente pelo menos três vezes. Observa o vigilante se afastar e desliga algumas travas do sistema de segurança.

- Missão cumprida – informa ao celular.

Em seguida, o portão eletrônico começa a se abrir lentamente e dois homens encapuzados penetram sorrateiramente no pátio da fábrica. Depois que o portão faz sua abertura total, uma van com logomarca de um distribuidor de laticínios entra, passa pela cancela içada e é conduzida até a área de expedição. Os dois primeiros homens amarram as mãos do encarregado e amordaçam sua boca. Um deles, orientado pelo suposto refém, reaciona o sistema de segurança. O portão se fecha.

Da van saltam quatro homens com camisetas amarradas na cabeça para disfarçar seus rostos. Portam revólveres e cada um possui um ponto de comunicação no ouvido. O encarregado é enviado na frente e os outros tomam uma pequena distância para dar cobertura.

O vigilante acabara de sair do prédio administrativo quando é surpreendido pelo grupo armado. Imediatamente saca o revólver, mas coloca-o devagar no chão e ergue as mãos. Também é feito refém e sob ameaça, digita a senha para desativar a trava da porta. O grupo avança e dá voz de assalto.

A recepcionista grita, contudo, se cala no mesmo instante em que um dos assaltantes avança para ela. Amedrontada, aguarda as ordens do bandido que grita com ela.

- Me leva até o Freitas!

- Venha comigo, por gentileza.

Acuada, a recepcionista acha imbecil rata-lo com cordialidade e diplomacia, mas não enxerga meio de evitar a tragédia que se antolha. A arma apontada em sua cintura lembra que qualquer ato precipitado poderia alavancar uma chacina.

Chega até a porta e quando faz um gesto para bater, dois assaltantes chutam violentamente a porta que escancara com o estrondo. No gabinete, um casal de idosos levanta-se de imediato e é rendido. Mais dois bandidos invadem o recinto, cada qual com atitude mais ameaçadora.

- O dinheiro está no cofre – confidencia Freitas, temendo represálias violentas dos criminosos. – Levem tudo o que quiserem, mas nos deixem em paz.

- Não queremos dinheiro agora, amizade – responde um dos integrantes da quadrilha, que acaba de retirar o capuz. É um homem forte, de aproximadamente 45 anos, rosto anguloso, cabelo crespo, castanho, bem aparado. – Viemos tratar de negócios.

- Negócios? Não faço negócios com gente da sua laia – sibila Freitas, deduzindo que essa invasão tem outro objetivo, não somente um assalto a mão armada. Ele observa que o bandido que ameaça sua esposa apalpa o corpo dela. A mulher fecha os olhos, apreensiva. – Deixem ela, e então faremos negócio. Do que se trata? – rende-se.

O líder da operação faz um sinal para o capanga se afastar da mulher, depois retira de dentro de um envelope um cd room, que instala no aparelho de DVD que há no gabinete. Um instante após carregar o programa, um vídeo caseiro começa a ser apresentado.

- Raquel?! – Freitas grita, vendo a neta amordaçada em um quarto escuro, sem ventilação. A menina tem dezesseis anos e aparece sobre uma cadeira. Um homem surge diante da câmera e desamarra a mordaça.

- Ela é muito especial, não é mesmo, vovô? – ironiza o homem, cheirando o cabelo da jovem.

- Mas o que fizeram com ela? Por favor, não machuquem minha neta!

- Isso é apenas um sinal da negociação, Freitas. Sua nota promissória é a vida da sua neta.

- Desgraçados! – reage Freitas, imprudentemente. – O que querem para devolver minha neta?

- Ah, agora estamos começando a nos entender – sorri o malfeitor. – Existe uma grande operação de transporte de cocaína que tem o destino em Joinville, no norte de Santa Catarina.

- Continue – pede Freitas, ouvindo atentamente e limpando o suor que ilumina suas têmporas.

- Cem toneladas foram encomendadas da Bolívia e vão ter que atravessar a fronteira sem levantar suspeitas. Você tem uma filial na mesma cidade onde a coca é produzida e queremos a sua sensata colaboração.

- O que devo fazer?

- Fornecer as embalagens de seus produtos para nossa promissora produção.

- Só isso? E quando devolverão minha neta?

- A coisa é simples exatamente do jeito que parece. Sua empresa fornecerá toda a logística, códigos de barra, transporte e distribuição. Assim que a mercadoria for descarregada no destino, terá sua neta de volta.

- Com que garantia? Como posso saber se cumprirão a sua parte no acordo? Quem está por trás disso?

O sujeito não responde imediatamente com o propósito de aumentar a tensão dos reféns. Apanha o controle remoto do DVD, aperta uma tecla e diz:

- Um antigo amigo seu.

Freitas quase desfalece quando vê a imagem do homem. Inspira o ar pesadamente e sente que a sala inteira gira. Freitas é ex-combatente do exército e seu inimigo Ivo – um guerrilheiro venezuelano que lhe jurara vingança.

- Aí está a sua garantia – ri o bandido. – Estamos entendidos?

Freitas sua frio e engole em seco. Não tinha saída senão concordar em colaborar com o esquema e rezar para que Ivo não assassinasse a sua neta.

O bandido veste novamente o capuz e a um sinal, toda a quadrilha sai do prédio, embarca na van e deixa a empresa sem qualquer obstáculo.


*****


Eduardo termina de calçar os tênis e ajeitar uma muda de roupa dentro da mochila. Olha em volta, para os demais pacientes que, como ele, aguardam a visita do médico para receber alta. Uma mulher com cabelos grisalhos aparece na porta e chama-o, porém, ele não se vira.

- Filho! – ela insiste.

Eduardo nem se mexe. Continua sentado na cama, com a cabeça baixa, abrindo e fechando o seu celular modelo gaveta. Sente, de repente, um toque carinhoso em seu ombro. Olha para o lado com tranquilidade e sorri sem alegria para sua mãe. O sorriso vai se apagando até se tornar uma linha fina e quase imperceptível. Enquanto a mãe lhe fala alguma coisa, o médico aparece em sua frente.

- Olá, garoto! – diz o doutor de cabelos brancos. – Vamos ver como é que estão estes ouvidos?

O médico apanha um instrumento e observa o ouvido direito primeiro. Impassível, transporta o instrumento para o outro ouvido, contorce o rosto em uma expressão de preocupação sincera e lamenta:

- A membrana do tímpano direito foi perfurada, já o ouvido interno esquerdo tem uma pequena lesão... Dependendo da capacidade de cicatrização, Dona Sandra, talvez seu filho não perca a audição. Aqui está o encaminhamento para o otorrino amigo meu. Ele vai cuidar com bastante carinho do caso do seu filho. Garotão! – estica os braços na direção de Eduardo, que procura compreender as palavras através de uma destreinada interpretação labial. – Vai dar tudo certo, pode confiar!

Em seguida, o médico toca no ombro de Sandra e encaminha-a vagarosamente para longe do garoto.

- Espero que tenha pensado na minha proposta, Dona Sandra.

- Pensei, sim, doutor – responde, abaixando os olhos.

- E então? Vai denunciar o seu esposo? – o médico fica momentaneamente esperançoso.

- Acho que não – fala Sandra, tartamudeando. – Acho que o pai dele... isto é, que ele não queria ter machucado o filho...

- Tudo bem.

O médico prescreve medicamentos e entrega a receita para a mãe de Eduardo. Despede-se de ambos, bastante contrafeito, pois pensa que o pai de Eduardo merece punição adequada.

- Mãe? Por que o pai me odeia tanto?

Sandra está distraída com a receita e o encaminhamento nas mãos e pensativa quanto à questão judicial que deve conduzir para incriminar o marido. A audição comprometida faz com que o filho pronuncie as palavras de modo estranho e ela pede que ele repita. Na segunda vez, olha profundamente para o filho, sentindo uma dor enorme ao vê-lo indefeso, desprezado, depressivo. O pai comprometera uma possível carreira de sucesso. Sandra reconhece o talento do filho e trabalha pensando na manutenção da casa e mais ainda nele. Por que Alceu provocara aquele acidente?

Intimamente, ela sabe a resposta, e agora é o filho que lhe cobra a resposta tão sofrida. Sandra tem absoluta certeza de Eduardo ser filho de Alceu, mas o marido não acredita. Imagina que o garoto é filho do primeiro namorado de Sandra, que a abandonara pouco tempo antes de Alceu casar com ela. Sandra havia aceitado casar com Alceu porque ele dizia que a amava e que queria um relacionamento sério e constituir uma família. Então, logo no primeiro mês, ela deu a notícia de que estava grávida. O que deveria consistir em momento de extrema felicidade do casal, acabou por trazer vergonha e desconfiança por parte de Alceu, que a partir daquele momento começou a criticá-la, julgá-la, maltratá-la, agredindo-a de formas nada sutis. Eduardo acabara nascendo prematuro após uma agressão física que a mãe sofrera no sétimo mês de gestação. A mãe e o garoto começaram a ter uma vida sofrida, de medo, e o pouco de sossego que podiam garantir era nos longos períodos que Alceu ficava fora, viajando. A vizinhança conhecia toda a história e, como era de se esperar, alguns condenavam Sandra, outros a defendiam. Eduardo cresceu ouvindo injúrias e desafetos, recriminações de todos os tipos pelo pai e nunca compreendeu o motivo de tanta zanga. Agora, adolescente, cheio de vida e de expectativa para desenvolver uma habilidade extraordinária no campo da música, os sonhos quase foram impunemente destruídos com a possível surdez pós-surra.

- Não sei, filho... – lamenta a mãe, incapaz de lhe contar a verdade.

- Eu preferia ter morrido, mãe.

- Não, meu filho, não faça o coração de sua mãe doer mais do que já está. Eu te amo, meu filho, nunca mais diga isso. Você vai se recuperar – e o abraça, o remorso consumindo-a interiormente.

A linguagem inexperiente com a que Eduardo teria que, forçosamente, se adaptar, trazia a mensagem incompleta: “Não-mo-fio, não-facoraço-mãe-dômaisque-te-amo-fio, nu-dio. Você-va-se-recuperá.” Porém, Eduardo sente que a mãe entende o que ele está passando. Ele levanta da cama e acompanha a mãe. Sente-se zonzo, aniquilado e sem vida. Sabe que antes do espancamento tinha a habilidade de qualificar os sons musicais de maneira pessoal e aquele futuro talvez não existisse mais. O sentimento de desejo de ter morrido continua acompanhando-o, apesar da petição de sua mãe. Está acabado. Pra que viver então?

Deixam o hospital e se encaminham ao ponto de ônibus. O mundo silencioso então começa a se apresentar para Eduardo.

ENGRENAGEM DO CRIME – 6ª CAPÍTULO - PROMOTOR DE AMEAÇAS – 1ª PARTE




Alvorece e a claridade tênue que se espalha pelo quarto desperta Alberto. Confuso, observa o relógio, imaginando que dormira demais. Senta na cama, boceja e esfrega o rosto. Sente a saliva amarga e adstringente. Observa Ângela deitada com o rosto para o lado de fora da cama, toda encolhida. Parece doente e seu estado causa uma súbita preocupação em Alberto. Toca na cabeça da esposa e verifica que sua temperatura parece mais alta que o normal.

- Me deixa... – ela sussurra, embora não tivesse acordado.

- Vou buscar o termômetro.

Alberto vai até o banheiro, lava o rosto, observa as olheiras profundas produzidas pela noite mal dormida, apanha o instrumento dentro do armário e volta para medir a temperatura de Ângela. – Só um pouquinho, querida... – Ele afasta o cobertor e instala o termômetro na axila. Aguarda o tempo necessário e verifica que a esposa tem febre. – É melhor você tomar um antitérmico.

- Me deixa... – balbucia, delirante. – Me deixa morrer...

- Faz um esforço, meu bem. Levanta. Vou ajudar você a se vestir e vamos ao pronto-socorro.

- Não quero... não consigo... – explica. Ela mal consegue manter-se sentada na cama e Alberto fica ainda mais apreensivo. Veste-a com um conjunto de moletom, levanta-a e ampara-a para caminhar até a poltrona. Em seguida se veste e leva-a até o automóvel. Acomoda-a no banco, coloca-lhe o cinto de segurança, sempre preocupado com a prostração que a domina.

- O que você tá sentindo? – fala com doçura.

- Tô fraca...

Leva-a até o P.A. Norte, deixa-a sentada em uma cadeira na primeira fila e preenche a ficha de atendimento. Impacienta-se com a demora e, quando finalmente chamam-na para a triagem, irrita-se com a enfermeira, que pretende impedi-lo de acompanhar a esposa.

- Você não tá vendo que ela não tem nem condições de andar? – esbraveja. A enfermeira pensa melhor e autoriza o acompanhamento. Ângela mantém a cabeça apoiada no ombro de Alberto, bastante debilitada. Após duas horas e meia, vão até o consultório e o médico a examina e diagnostica amigdalite. Prescreve injeção e medicamentos e libera-a.

Depois de mais quarenta minutos de espera para a injeção, Alberto e Ângela voltam para casa. Ele leva-a no colo até a cama, ajeita as cobertas e vai preparar algo para comerem, já que se aproxima do meio-dia. Telefona para a loja, avisando que ela não irá trabalhar.

Alberto leva a refeição para a esposa, que não tem apetite, porém, esforça-a para se alimentar. Ajeita os travesseiros e oferece sopa às colheradas até que ela termine o prato.

- Ângela, me escute. – Ela evita olhar para ele, mas Alberto, dotado de extrema paciência, afaga o cabelo e o rosto dela. – O que houve para você ficar desse jeito? Eu sei que você queria meu carinho ontem à noite e você sabe que eu te amo.

Ela engole em seco e morde o lábio inferior, tentando conter o choro. A debilidade física e emocional lhe esgotara demasiadamente e ela não tem força para replicar.

- Meu amor, eu sei que eu não sou aquele cara que você espera. Eu sei que você tem vontade de sair, de se divertir, mas é o meu jeito preferir o nosso cantinho. – Ele sorri compreensivo. – Não é bom ficar aqui juntinho, só nós dois, na nossa casa? Você não precisa mais se exibir, pois eu já encontrei você e não quero que você se arrependa de ter ficado comigo...

Ângela solta as primeiras lágrimas. Não esperava que Alberto lhe tratasse tão bem e o arrependimento começa a puni-la.

- Nunca subestime o meu amor por você, querida. Você sabe que é tudo pra mim. Se nosso relacionamento fosse como um projeto, você seria minha estrutura. Não fica assim – os soluços sacodem o peito dela e Alberto abraça-a, enquanto aguarda a vazão de sua tristeza. Afasta-a delicadamente e aponta para a própria aliança. – Veja, isso aqui é um orgulho pra mim, eu não uso isso aqui por bobagem. Quero envelhecer ao seu lado.

- Alberto, eu... é que eu me senti tão desprezada. Parece que você nunca repara em mim.

- Você me faz de gato e sapato quando quer – responde ele, em tom de brincadeira. – Qualquer dia desses, você vai me virar do avesso!

As lágrimas são entremeadas de risos e Ângela melhora de saúde.

- Me desculpe, vai...

Abraçam-se e ela também se desculpa pela agressividade da noite anterior. Reforça que o ama e que não quer perdê-lo, e ainda que procurará se tornar mais paciente, compreensiva e controlada. Agradece a preocupação e o cuidado que ele tem por ela, coisa que ela ignorava até então. Reconhece que as dificuldades de seu destempero emocional provocam aquele clima de distanciamento, e salienta que jamais se arrependerá por ter casado com Alberto.

- Eu estava tão bonita ontem... – lamenta.

- Não, você não estava bonita – retruca Alberto, sobressaltando-a. – Você é bonita, ou melhor, você é linnnndaaaa todo dia!

Enlançando-a pela cintura, Alberto beija-a ardentemente. De repente, lembra que ela não está totalmente recuperada da febre e interrompe o momento de paixão.

- Desculpe... você precisa melhorar mais um pouco...

- Mas... mas eu tô me sentindo bem...

- Xiii – ele cala-a com carinho. – Temos o dia todo e a vida inteira para ficarmos juntos. Vem, deita aqui.

Ângela contesta a interrupção, mas o aconchego do peito do marido a desarma. Suspira e logo adormece.

Alberto beija sua fronte e permanece com ela, satisfeito por terem se entendido novamente. Por outro lado, imagina que a falta ao trabalho poderá provocar um incidente no dia seguinte. De qualquer forma, agiu conforme seus princípios, pois valoriza a família, colocando-a em primeiro lugar.


*****


Vera desembarca de um automóvel em frente de um prédio no centro da cidade. Ajeita os óculos escuros que cobrem grande parte de sua face morena e, em seguida, caminha até a portaria do estabelecimento que está fechado a essa hora, pouco depois das dez da manhã.

Toca o interfone. Não recebe qualquer resposta e tenta novamente. Desta vez, uma voz impaciente é ouvida pelo aparelho:

- Atendimento de fornecedores somente a partir das três da tarde!

- Não sou fornecedora. Sou compradora – afirma, tranquila e segura de si.

- O que quer? – A voz masculina não demonstra real interesse, avalia Vera. Levanta os óculos e fixa-os no cabelo.

- Oferecer a você um excelente negócio.

- Entre.

Um sinal de alarme soa, destravando a porta, pela qual Vera adentra. No primeiro momento, o contraste entre a luminosidade da rua e a escuridão dentro do prédio provoca em Vera uma sensação de desconforto. À medida que os olhos se acostumam, é possível visualizar o ambiente e o homem que se aproxima.

- Do que estamos falando? – O sujeito parece cauteloso. Observa a visitante com cuidado, explorando cada detalhe de sua silhueta elegante. Vera usa uma micro-saia jeans, blusa com decote profundo, saltos altos e movimenta-se de forma provocante e sedutora.

A garota aproxima-se do rapaz bombado. A camiseta justa mostra os bíceps salientes e o tórax desenvolvido, e a calça jeans apertada oferece um convite a um relacionamento mais próximo. Ela anda em círculos com uma bolsa no ombro nu. Seu olhar lança a promessa de prazer absoluto.

- Tenho uma proposta imperdível para você...

- É mesmo?

- Gosta de dinheiro?

- Quem não gosta... – fala ele, provocante. – Vamos, estou ansioso.

O rapaz segue para o bar e convida-a para sentar na frente do balcão. Enquanto ela se acomoda, dá a volta e prepara um drinque. Vera aceita de bom grado, bebericando um pequeno gole.

Você prometeu ajudar certa garota a se lançar em troca de um determinado valor.

- Anda bem informada. E o que isso tem a ver com você? – pergunta, subitamente interessado.

- Ofereço o dobro para que você impeça o show dela.

O proprietário do estabelecimento ouve a argumentação da garota com atenção. Já imaginava que a garota da banda não conseguiria levantar o dinheiro que ele exigira e também não estava nem um pouco disposto a abrir a casa para uma banda anônima. Topa o trato com Vera e esta imediatamente lhe paga a soma prometida.

- Como faço pra encontrar você? – indaga, bebendo seu conhaque.

- Eu apareço, pode esperar.

- Fechado.

Vera sorri, apanha sua bolsa e se dirige para a porta de entrada. Volta-se para ele e fala:

- Desculpe, esqueci de pagar meu uísque...

- É por conta da casa! – exclama, sorridente.

Vera dá as costas, abre a porta e sai. Satisfeita, entra no veículo, pois mais uma parte de seu plano tinha sido concluída.




Enquanto o promoter conta e reconta o dinheiro obtido sem qualquer esforço, lembra-se da garota que o procurara dias antes. Estéfanie é bonita, interessante, determinada, tem um corpo que o seduzira no primeiro instante. Alimentando pensamentos obscenos em relação à adolescente, o sujeito resolve aproveitar-se duplamente da situação.

Estéfanie copia a matéria passada no quadro quando percebe a vibração de seu celular. Discretamente pede licença para sair da sala e atende a ligação.

- Quando é que você vai dar o sinal pelo show?

- Quê? Como assim? – Estéfanie confunde-se com a estranha voz.

- Se liga, garota! Você veio me procurar pra eu lançar a sua banda e o combinado foi você me dar o sinal. Caso contrário, não posso me mexer pra fazer propaganda.

- Cara, tá viajando? Ninguém acertou nada naquele dia... – Estéfanie está perplexa, mal consegue raciocinar.

- Você não lembra que assinou uma promissória com o valor que vou cobrar de você? Já tá vencendo o prazo.

Ela aspira profundamente. Realmente havia assinado um papel, mas não lembra se aquilo se referia ao pagamento antecipado, pois o promotor de eventos não havia explicado o caso com exatidão, apenas fornecera esperanças para ela.

- Olhe, eu desisti – ela responde, apreensiva. – Os meus pais não me autorizaram, apesar de eu ser maior de idade. Eu já ia ligar pra avisar você.

- Quê? Vai me fazer de palhaço? Você pensa que está falando com quem? Já tô com os folders prontos pra distribuir – ele mentiu, contradizendo-se. – A vinheta nas rádios também está pronta. A ponta nos principais jornais tá pra sair. TUDO ISSO CUSTA DINHEIRO E EU PRECISO RECEBER! – ameaça.

- Mas...

- Quero meu dinheiro!

- Mas eu não tenho! – ela começa a se desesperar.

- OU VOCÊ ARRANJA O DINHEIRO OU VOU COM A POLÍCIA ATÉ A SUA CASA PRENDER OS SEUS PAIS POR ESTELIONATO!

- Meus pais? Não, por favor! Eu... dou um jeito. Mas não mete meus pais nessa enrascada, por favor! Não tem alguma maneira de eu pagar as despesas sem envolver meus pais? – ela está assustada.

O sujeito sorri, vitorioso. Articulara o plano e chegara até o ponto em que desejara. A menina tinha mordido a isca. Ameaçou mais um pouco para manter a pose de superior e quando percebe que ela está totalmente acuada, oferece para que ela trabalhe para ele no bar da danceteria.

- Desse jeito vou levar anos pra pagar – lamenta. – E os meus pais arrumaram emprego pra mim, de domingo a domingo. Eles não me deixam mais sair de casa. Como é que eu vou poder trabalhar pra você?

- Te vira, garota! Ou isso, ou a polícia!

O promoter desliga o telefone e Estéfanie treme dos pés à cabeça. Chorar não consegue, tamanho nervosismo a domina. Subitamente, uma mão amiga toca seu ombro.

- O que você tem, Fan? Tá gelada.

- Peter. – Estéfanie suspira a agonia de sua desventura. Precisa desesperadamente desabafar com o amigo Eduardo, que está fora de área há um tempão. Em Peter, porém, não tem confiança.

- Não, não é nada. Só uma dor de cabeça forte.

- Preciso conversar com você. Que tal se você for almoçar na minha casa?

- Peter... – ela duvida do interesse inesperado.

- Nada de mais, eu só quero que você me fale mais sobre seus planos pra gente tocar.

- Olha, é muito bom da sua parte procurar conhecer isso, mas é meu primeiro dia de trabalho e eu não posso me atrasar, senão meus pais vão ficar ainda mais estressados. Deixa pra outro dia...

Peter olha bem nos olhos da garota e fala de forma suave, porém, severa, que Estéfanie havia se tornado egoísta com os progressos da banda. Exige sutilmente que ela compartilhe os projetos da mesma forma que o faz com Eduardo. Argumenta que também faz parte da banda, que não é apenas um baixista e que também alimenta o sonho de fazer carreira na música.

Estéfanie expira o pouco ar que circula em seus pulmões num gesto cansado e com prostração. Demasiadamente preocupada com o andamento de suas pretensões artísticas, que nesse momento, foram acorrentadas com grilhões de pedra indestrutível, ainda há a ameaça do promotor de eventos para resolver e Peter cobrando-lhe companheirismo sob o aspecto profissional. Sente vontade de gritar com Peter para que ele a deixe em paz. Entretanto, dado seu profundo desânimo, aceita o convite para o almoço.

- Beleza! Vou cozinhar um macarrão do tipo pra nós!

Voltam para o final da aula que assistiam, apanham as mochilas e seguem para a casa de Peter. Preparam a refeição enquanto conversam e logo após almoçarem, continuam falando a respeito dos planos que Estéfanie tem. Ela sugere convocar uma reunião com o grupo para então contar-lhes o que de fato provocara, procurando o promotor de eventos. Liga para Eduardo, o que deixa Peter irado de ciúme.

- Oi, Edu! Edu? Quê? Por quê?

Confusa, Estéfanie atende o pedido de Eduardo, que diz, com a voz bastante engrolada, que ela envie uma mensagem. Escreve: “Reunião amanhã na casa do Peter às 12:00 h.” Por sua vez, Peter pensa: “Que droga! Ela não me enxerga!” Lembra-se do bilhete e fecha a cara, contrariado.

- O que foi, Peter? – Estéfanie repara que ele ficara subitamente aborrecido.

- Nada, não – ele começa, mal-humorado. – É só que eu acho que você devia olhar pro lado, porque a banda não é formada só por uma pessoa importante... – Peter arrepende-se no mesmo instante pelo que falara, pois acabara revelando o que lera no bilhete.

- Como assim? – Estéfanie franze as sobrancelhas em atitude de defesa. Ele repetira as palavras que ela escrevera em um papel para melhorar a autoestima de Eduardo. – Peter! Quando é que você vai parar de cuidar da vida dos outros? – exaspera-se. – Tá na hora de você crescer, garoto! – Levanta-se, apanha a mochila e vai a toda para a porta, mas para abruptamente e olha na direção de Peter. – Outra coisa: a reunião tá cancelada. Obrigada pela gentileza de me convidar para o almoço, mas agora decidi que, caso eu continue com a banda, chegou a hora de substituir o baixista.

Sai sem ouvir a resposta e Peter se debruça na mesa de centro, resmungando a sua derrota.

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