Minha foto
Joinville, Santa Catarina, Brazil

CAPÍTULO 8 - PARTE I - A DECISÃO

Tatiana recebera alta naquela manhã, mas aquilo não a alegrou, pois não fazia a menor ideia para onde ir. Estava ansiosa e sentia calafrios percorrendo seu corpo. Pediu para ver o médico, mas este já havia deixado o hospital. Aquela sensação estranha a deixou assustada e ela imaginou que voltava a ficar doente. Ela trocou a camisola de algodão cru pelas próprias roupas, fazendo um esforço para fechar o zíper da calça jeans. Depois de ter ganho 5 kg a mais devido à medicação durante duas semanas era natural que sua roupa ficasse apertada, mas aquilo a deixara irritada. A roupa parecia sufocá-la e ela sentiu-se ainda pior. Mas controlou-se e passou a arrumar a cama e ajeitar o travesseiro. Colocou as caixas de remédios no centro da mesa de cabeceira e abriu a persiana para que a iluminação do dia penetrasse no quarto. Olhou para fora e suspirou. Segundo o médico, ela estava em condições de continuar uma vida normal. Mas que vida? E por que ela não se lembrava? Estava livre para sair, mas acorrentada a seu subconsciente.

Enquanto procurava recordar alguma coisa, ela deu um passo na direção da janela e olhou para o céu. Permaneceu momentaneamente quieta e imóvel. Observou a movimentação das nuvens que formavam estranhos desenhos. Então o sol apareceu e a cegou. Ela fechou os olhos e surgiram manchas coloridas dentro de suas pálpebras. Aquelas cores explodiam dentro de seus olhos e formaram um rosto. De repente, Tatiana escutou uma gargalhada e não tinha certeza de sua origem, pois parecia que a gargalhada vinha de dentro dela mesma. Olhou em redor e tapou os ouvidos, com um medo crescente. Até que a visão verdadeira se formou. Ela ficou paralisada e seu coração precipitou um descompasso acelerado enquanto ela se lembrava da dor no pescoço e imediatamente levou as mãos para se proteger. Ela viu que estava caída de lado no chão, procurando respirar, mas sem conseguir. Com um esforço enorme, ela se virou, mas não conseguiu levantar e viu o teto girar lentamente e depois aumentar a velocidade e aproximar-se dela e uma voz falar atrás dela, só que as palavras não pareciam fazer sentido. Ainda no chão, sem poder respirar, ela viu o fio preto do telefone e procurou alcançá-lo com uma das mãos, mas sem conseguir mover o corpo. Puxou o aparelho, que caiu ao seu lado e ligou para o primeiro ramal que veio em sua mente. Subitamente, sua mente ficou em branco. E voltou somente com o garotinho do outdoor ouvindo-o rir alto...

Tatiana procurou respirar e sentiu sede. Encheu um copo com água da jarra e bebeu em um gole só. Sentiu calor e uma dormência nas pernas e sentou-se na cama, respirando irregularmente. Fez outro esforço para lembrar a quem pertencia a voz que ela escutou enquanto estava caída e qual a mensagem que era dirigida, mas não obteve resultado.

Paulo abriu a porta devagar e pediu licença para entrar. Viu que Tatiana estava pálida e aproximou-se com cuidado.

Soube que está de alta – disse ele –, e vim oferecer para levar você para sua casa.

- Paulo, estou com medo.

Tatiana correu para os braços dele como uma criança assustada. Ele perguntou-lhe o que ela sentia, mas só respondia que tinha medo.

Pode confiar em mim, Tatiana. O que houve?

- Paulo, eu lembrei!

- Lembrou de quê? – Ele ficou momentaneamente esperançoso.

- Do dia em que quase morri.

- Ah... – ele sentiu uma pequena decepção. – Quer falar a respeito?

- Foi horrível...

- Eu sei, não precisa dizer nada...

Mesmo assim, Tatiana contou o que lembrava.

É melhor eu te levar pra casa. Vamos?

Tatiana, insegura, hesitou. Ficou olhando para ele, lembrando do que Elisabete havia dito. Sentiu o ímpeto de dizer para ele que era casado com sua melhor amiga, mas se conteve, pois não achou o momento oportuno. Decidiu por acompanhá-lo.

Ele pegou o braço dela para levá-la até o carro e viu quando ela parou diante do Pajero.

Tatiana, tudo bem?

Ela não respondeu. Ficou diante do veículo com o olhar distante.

Eu estou sentindo uma coisa estranha.

- Lembrou alguma coisa?

- Não, acho que não.

- Você está confusa. Impressiona-se com qualquer coisa.

Ela não quis discordar e por isso manteve-se calada durante o percurso. Quando Paulo parou o carro em frente da casa dela, sorriu e disse:

É aqui. Aqui estão suas chaves.

Ela pegou as chaves da mão dele e saiu do carro, encaminhando-se para o portão e enfiou uma das chaves no cadeado. Olhou uma vez para Paulo, que ficara encostado no carro, e ele fez um sinal para dar coragem a ela. Tatiana, então, subiu os degraus, abriu a porta e entrou. O ambiente era claro, iluminado pela luz do dia. Ela caminhou devagar, observando tudo, tocando nos móveis, abrindo a janela que ficava ao lado da cama. Ela virou-se e Paulo estava na porta, sorrindo para ela.

Eu comprei algumas frutas, leite, pão e nata. São coisas que você gosta.

- Verdade? Você conhece minhas preferências? – Tatiana riu pela primeira vez, sentindo-se mais à vontade e contagiou-o com sua alegria sincera. – Até senti fome. Obrigada.

- Não precisa agradecer. Quer que eu prepare alguma coisa para você comer?

- Não me diga que sabe cozinhar também?

- Faço uma lasanha de frango que é um espetáculo.

- Tô pra ver – desafiou ela, divertida.

- Você não vai querer dividir com ninguém. Vamos começar?

- Eu não lembro se sei cozinhar – disse ela, sorrindo.

- Mas aposto que cortar cebola, descascar alho e preparar um café pra gente você é capaz de conseguir – disse ele, irônico.

- Vamos ver o que posso arranjar.

Paulo não se sentia tão livre há muito tempo e Tatiana parecia uma moça normal e despreocupada. Ele pensou em como eles poderiam ser felizes se não existisse a sombra de Elisabete entre eles.

Jantaram juntos e terminaram de ajeitar a cozinha, quando subitamente, ficaram calados. Ele observava-a diretamente nos olhos e ela sentiu-se constrangida. Afastou-se dele e foi observar a noite.

Está uma noite linda – disse ela, tentando quebrar o constrangimento.

- Aposto que a lua não está mais linda do que o brilho de seus olhos.

Tatiana não se esquivou do toque dele, mas sentiu remorso de estar se apaixonando.

Paulo... não podemos – desculpou-se, desviando os olhos do olhar apaixonado.

- Eu te amo, Tatiana, se for preciso te conquistar de novo, eu vou fazer de tudo.

- Mas você é casado...

Ele parou, imaginando que ela recordara alguma coisa incompleta.

Sim, mas você sabe que meu casamento é de mentira e que eu não tenho nada com Elisabete.

- Elisabete? Então esse é o nome de sua esposa? – havia um pouco de mágoa na voz de Tatiana.

- Sim, você não se lembra o que ela fez para acabar comigo?

- Paulo, você está me confundindo e pra mim já chega. Eu agradeço por você estar cuidando da minha reabilitação durante esse tempo todo após o acidente, mas é só isso. Você é casado e eu sinto, apesar de não lembrar, que eu sigo princípios morais. Não posso agradecer sua atenção da maneira que você espera...

- Tatiana... – Ele não quis que ela continuasse e abraçou-a com força, beijando-a com desejo. Ela foi apanhada de surpresa e rendeu-se à explosão de sentimentos. – Eu te amo... Não me deixe...

- Não posso... – sussurrou ela.

- Pode, sim. Claro que pode. Escute o seu coração, Tatiana. O que ele diz a você sobre mim, sobre nós? – perguntou, enquanto a beijava.

Tatiana sentia que o amor era verdadeiro, mas enquanto não se lembrasse de tudo, não poderia tomar nenhuma iniciativa. A razão mandava ela parar, para não iludir Paulo e também lhe lembrava de que não deveria ser instrumento para a infelicidade da amiga. Seu coração estava dividido entre o amor que sentia e a empolgação de Elisabete. Não era justo estragar o casamento da amiga. Empurrou Paulo e fugiu dele.

Escute, Paulo, eu não te amo...

- Como você pode dizer isso, Tatiana? Você pode não se lembrar do dia em que nos entregamos ao amor, mas eu sei que posso te ajudar... – ele começou a ficar desesperado.

- Se fizemos isso, então foi um erro – falou ela, decisiva.

- Não faça isso comigo, Tatiana, por favor...

- Paulo, não torne isso difícil pra você. Hoje eu não sinto nada por você e se algum dia eu senti, pode ser que acabou. Como vou ter certeza?

- Eu já disse, eu vou te ajudar...

- Mas e a Elisabete?

- Ela não representa nada pra mim! – Ele gritou, tentando convencê-la.

- Paulo, de uma vez por todas, escute: eu agradeço tudo que você tem feito por mim, mas é só. Chega. Acabou.

Ela falou as palavras pausadamente e correu para a porta, a qual abriu e parou ao lado, aguardando que ele saísse. Quando olhou para ele, viu-o chorando e essa imagem partiu seu coração. Mesmo assim, ela manteve-se firme ao afirmar que não tinham chance. Paulo parecia esgotado das argumentações e estava visivelmente magoado com a atitude dela. Desistiu de lutar pelo amor dela e saiu. Tatiana fechou a porta e correu para a janela para vê-lo pela última vez. Assim que perdeu a visão do veículo, fechou a janela e atirou-se na cama, chorando convulsivamente.
Paulo, me perdoe – falou ela, agarrando-se ao travesseiro. – Me perdoe, meu amor, mas é para seu próprio bem.

E adormeceu chorando, após ter afastado definitivamente o grande amor de sua vida.


CAPÍTULO 7 - PARTE IV - UM BRINDE À ASTÚCIA



Elisabete chegou em casa e abriu uma garrafa de champanha para comemorar sua vitória. Quando o sujeito que contratara para representar um detetive lhe contou que a moça estava realmente apalermada, Elisabete duvidara, mas acabou se convencendo de que sua rival tinha mesmo perdido a memória após constatar, pessoalmente, o caso. Sabia que Tatiana daria um basta na insistência de Paulo e nada revelaria que sua melhor amiga era esposa dele. Ainda apostava nos princípios morais de Tatiana, que apesar de ter perdido a memória, certamente não os teria esquecido.

Augusto aguardava-a no escritório quando Elisabete entrou com a garrafa de champanha e dois copos. Brindou com ele seu sucesso e após algumas taças ela ficara embriagada.

Estou muito, muito, muito feliz! Eu sou o máximo, não é, Dr. Augusto?

- Isso é uma verdade incontestável, minha querida.

Ela rodopiou nos calcanhares e foi até a janela apreciar o pôr-do-sol. Augusto aproximou-se dela.

Hoje dei minha cartada final e vou consegui-lo, é só uma questão de tempo. Isso não é maravilhoso, doutor?

- Ele não a merece, Elisabete. Este sujeito a está fazendo sofrer. Há pessoas tão próximas e você nem percebe o que elas seriam capazes de fazer por você...

- Como?

Elisabete olhou para o lado instintivamente. Seu corpo estava leve, mas ela não deixaria que ninguém estragasse aquele momento de felicidade.

Onde está querendo chegar, Dr. Augusto?

- Não me chame de doutor. Já trabalho pra você há tanto tempo. Não acha que não precisamos mais de tanta formalidade? – arriscou ele, aproximando-se cautelosamente do corpo dela.

- Eu o pago para ser meu advogado e nada mais – falou ela, bruscamente.

- Eu a conheço bem, Elisabete. Estava esperando uma oportunidade para falar sobre o meu amor...

- Amor? – Elisabete caiu na gargalhada. – Não sabe que não acredito no amor?

- É o que você diz, mas não o que sente, a exemplo do que faz para conseguir este idiota que não percebe a mulher maravilhosa que você é.

Elisabete ficou furiosa e afastou-se dele.

Você sempre soube que eu quero satisfazer meu ego. Faz parte de mim conseguir tudo o que quero. – Augusto aproximou-se dela novamente, mas permaneceu calado. – E eu quero o Paulo, entendeu? Quando conseguir, vou colocá-lo no olho da rua.

- Sabe que não é mais possível, Elisabete. Você se apaixonou por ele.

- Mentira!

- Você só está enganando a si mesma, Elisabete. Percebe como dói amar uma pessoa que te despreza? E eu te amo.

Augusto aproveitara o momento e beijou Elisabete à força. Ela tentou se desvencilhar, mas logo não ofereceu qualquer resistência.

A noite caíra e o escritório estava às escuras. De repente, a porta rangeu e eles viram Paulo parado, observando-os quase nus.

Vocês dois se merecem – disse Paulo, afastando-se com tranquilidade.

- Paulo! – chamou ela, enquanto arrumava as roupas. – Cretino! Você estragou tudo!

Elisabete esbofeteou o rosto de Augusto e correu atrás de Paulo. Seu autodomínio a abandonara completamente e ela estava quase entrando em desespero. Ela o seguiu até a cozinha, procurando se  explicar. Paulo continuou impassível, enquanto bebia tranquilamente uma cerveja que apanhou na geladeira.

Paulo, por favor, me escute. Eu não tenho nada com ele.

- Você acha que me importo, Elisabete? Eu já desconfiava disso desde o início. Agora tenho argumento para entrar com o divórcio.

- Divórcio? Como assim, divórcio? Não tem o direito de fazer isso comigo, Paulo!

- Direito? Ouvi você falar em direito? E o que você fez comigo, você acha que é o quê? Calúnia, difamação, ameaças. Você forjou provas contra mim, me mandou pra cadeia, pagou pra me tirarem de lá, me obrigou a assinar um contrato de casamento que lhe dá concessão para jogar-me no lixo assim que for satisfeita e, como se tudo isso não fosse bastante, tentou assassinar a mulher que amo!

Quando terminou, ele estava alterado, mas sentiu confiança e continuou blefando.

Tenho como provar. Tenho testemunhas de que você esteve no local da tentativa de homicídio.

Elisabete descontrolou-se por completo. O desespero tomou conta dela. Ela percebeu que estava perdendo Paulo e ficou enlouquecida.

Paulo, eu amo você, não vê que quero você a todo custo? Eu seria capaz de rastejar aos seus pés para implorar seu amor. Não me abandone.

- Confesse! Você tentou matar Tatiana!

- Não!

Elisabete atirou um copo contra ele, que se desviou a tempo de não ser atingido. Em seguida, ele retirou-se da cozinha. Ela continuava enfurecida e quebrou tudo que estava ao seu alcance. Augusto apareceu no momento em que a crise dela passara.

Seu imprestável! Traidor! Você fez de propósito, não foi?

- Engana-se, Elisabete. Não foi premeditado. Agora, acalme-se.

- Ele vai me deixar, Augusto! – Ela agarrou-o pela camisa e começou a chorar. – Você tem que fazer alguma coisa.

Augusto a abraçou e acariciou seus cabelos. Suspirou pois não gostava de vê-la sofrer. Amava-a verdadeiramente e bastava um pedido seu que ele faria sem hesitar.

Elisabete, escute. Já tenho um plano. Deixe-me encaminhar tudo e amanhã conversaremos, ok? Por hora, peço que vá tomar um banho e depois vá se deitar.

- Promete que vai me ajudar?

- Prometo – respondeu ele, antes de sair apressadamente.


CAPÍTULO 7 - PARTE III - INCERTEZAS


O sol já estava alto e Tatiana tentava lembrar seu passado, porém, exausta de procurar recordações onde não existia começo, nem meio, nem fim, ela fechou os olhos e começou a chorar.

Naquele momento de profunda angústia adentrou no quarto um homem que se identificou como detetive de polícia. Tatiana estava com o rosto molhado, olhos e nariz vermelhos e mal pôde pronunciar bom dia.

- Você está chorando porque alguém tentou te matar, não foi? – aproveitou ele.

- Me matar? – perguntou Tatiana, sobressaltada. – Alguém tentou me matar?

- Claro que sim. Não esconda a verdade da justiça, Tatiana – falou ele, severo. – A quem você está tentando proteger?

- Eu não me lembro... – respondeu ela, cada vez mais assustada com a atitude dele, sua voz entrecortada pelos soluços. – Não lembro de nada...

- Ora, vamos, moça! Não estou aqui para perder meu tempo. Quero o nome ou a descrição da pessoa que tentou matar você!

O homem era de aparência jovem, porém, demonstrava autoridade que não lhe era concedida. Enquanto Tatiana sentara-se na cabeceira, ele sacudiu-a pelos ombros.

- Quero o nome agora!

A servente que trazia a refeição matinal de Tatiana entrou também e presenciou a atitude do homem. Tratou de chamar uma enfermeira, que veio imediatamente. Tatiana gritava de horror e chorava como uma criança pequena.

- O senhor não tem direito de invadir assim um quarto e tratar dessa forma uma convalescente. Peço que se retire – ordenou a mulher. Em seguida, ela ajeitou Tatiana, que se encolhera deitada na cama e soluçava forte. – Fique calma, agora. Já está tudo bem. – A enfermeira apanhou um medicamento, espetou-o com a seringa e em seguida, injetou o líquido na válvula de soro. Aos poucos, Tatiana parou de chorar e ficou sonolenta. Não demorou muito e seus olhos se fecharam.




Paulo sentiu um cheiro estranho no ar e ajeitou-se na cama, abrindo os olhos devagar para habituá-los à claridade que vinha da sacada. A veneziana ficara aberta durante a noite e ele estranhou, pois sempre tomara o cuidado de fechar antes de se deitar. Um sabor amargo predominava em sua boca e provocou-lhe náuseas. Sua cabeça latejava dando a sensação de que havia ingerido uma grande quantidade de álcool.

Subitamente, ele sentiu que seu colchão se movimentou e olhou atônito para o lugar onde uma mulher se mexera, se espreguiçando em seguida. Paulo não acreditou quando viu Elisabete em sua cama e finalmente resgatou da memória os fatos da noite anterior. Ele estava muito confuso e sua primeira reação foi sair imediatamente da cama para fugir do pesadelo. Quando levantou, sentiu-se tonto e deu a volta na cama para ir ao banheiro tateando nos móveis. Viu a fantasia de Elisabete caída no chão ao lado da cama e supôs que ela estivesse nua sob o lençol. Engoliu em seco diante das evidências e sentiu nojo de si mesmo. Alcançou o lavabo e jogou água fria no rosto para afastar o mal-estar, que persistia, apesar da tentativa frustrada de se controlar. Voltou para o quarto e observou o cenário à luz do dia. Em seguida, andou até a sacada em busca de ar.

- Bom dia – disse Elisabete, enquanto ele estava de costas para a cama. – Como está se sentindo?

- Bem – respondeu ele, envergonhado. Continuou olhando para fora, enquanto ela levantava da cama, enrolada no lençol.

- Fico feliz, Paulo, porque ontem à noite você não estava bem, e por isso fiquei aqui.

- É? Para aproveitar-se da situação, você quer dizer – falou ele, em tom frio e distante, sem se irritar. Sentiu que ela se aproximou dele.

- Vou fingir que você não disse isso. É assim que você agradece por eu ter ficado cuidando de você durante a noite? – Ele afastou a cabeça do toque da mão dela.

- Elisabete, escute, eu não lembro o que exatamente aconteceu, parece que fui apagado durante essas horas, mas quero que saiba que eu não estava consciente do que estava fazendo...

- Não precisa se punir assim, meu querido – interrompeu ela, sorrindo para ele. – Não houve nada entre nós dois. Tranquilize-se.

Ele olhou diretamente nos olhos dela e franziu a fronte, cada vez mais perplexo.

- O que está querendo dizer?

- Que eu apenas dormi em sua cama, nada mais.

- Espera que eu acredite nisso? Olhe pra você – ele apontou-a nua enrolada no lençol.

- Eu não podia deitar com aquelas roupas incômodas.

Assim que respondeu, Elisabete foi até o closet e vestiu um roupão.

- Eu realmente não lembro de nada, Elisabete. O que me intriga é que você não está usando isso a seu favor.

- Quero que você me ame de verdade, Paulo, não porque há um contrato que o obrigue a fazê-lo. Quero formar uma família com você. Eu não usaria um truque barato deste tipo para conquistá-lo. – Ela começou a chorar baixinho e sua voz tornou-se um murmúrio. – Não é justo você me julgar assim depois de eu ter me esforçado para cuidar de você.

- Desculpe, Elisabete, não tive intenção de magoar você.

- Não tem importância. Quanto a esta bagunça, fique tranquilo que eu irei reorganizar seu quarto durante o dia.

Quando ficara novamente sozinho, Paulo refletiu sobre as atitudes que Elisabete tomara, mas, apesar de ter certeza de que ela estava tramando alguma coisa, sentiu um pequeno arrependimento por julgá-la.

Depois que se recuperou, Paulo voltou a pensar em Tatiana, que precisava dele naquele momento. Preparou-se e seguiu para o hospital.

Encontrou Tatiana dormindo e se aproximou para acariciá-la. Tatiana sentiu o toque dele e encolheu-se na cama, com medo.

- Vai embora – pediu ela. – Eu não tenho nada para dizer, não me lembro de nada. Vai embora!

- Tatiana, sou eu, Paulo. Deixa eu cuidar de você, por favor.

- Paulo? – Ao ouvi-lo, ela abriu os olhos e sentou-se na cama. – Pensei que era o detetive. Ele queria que eu contasse quem tentou me matar, mas eu não lembro de nada.

- Detetive? Quando foi que ele esteve aqui? – perguntou ele, alarmado.

- Hoje cedinho.

Paulo ficou indignado, porque a polícia havia garantido que não faria investigações.

- Calma, agora me conte como você está.

Tatiana não sentia segurança com ninguém. Imaginou que Paulo poderia ser responsável por ela quase ter morrido e ficou com medo. Naquele instante, algumas imagens surgiram em sua mente, em que Paulo demonstrava antipatia por ela. Ouviu a voz severa dele ao telefone. Lembrou do local em que trabalhava, sem se dar conta de que essa informação tratava-se de parte de sua memória. Outras pessoas apareceram, mas apenas rostos sem nome. As cenas desenfreadas causaram confusão e desespero e ela começou a chorar.

Sua memória vai voltar, Tatiana, pode acreditar – tranquilizou Paulo, desejando abraçá-la e confortá-la, mas temendo que ela reagisse de maneira negativa caso ele tomasse alguma atitude precipitada.

- Eu tenho família?

- Claro.

- Então, porque meus pais não vêm me ver?

- Você se lembra deles?

- Não.

- E de mim?

- Vagamente.

- Coisas boas? – perguntou ele, ansioso. Ela negou e deixou-o visivelmente decepcionado. – Tatiana, me escute, eu te amo e você também me ama. Precisa deixar eu cuidar de você.

- Não posso confiar em você. Pra mim, você é um estranho.

Paulo ouviu as palavras duras e não escondeu o quanto elas o machucaram. Tatiana observou a reação dele, mas não sentiu remorso algum em dizer aquilo, porque era verdade.

Eu vou localizar os seus pais – falou Paulo quando já ia se preparando para sair.

- Paulo – chamou ela. – Eu não sei quem sou, nem de onde vim, nem o que faço na vida. Estou sozinha e neste momento as pessoas que tomam conta de mim são o médico e as enfermeiras. Se não sei nem quem sou, como posso saber o que você é para mim? Eu posso ficar sem memória pelo resto da minha vida e não tenho direito de te dar esperanças, compreende?


Paulo assentiu com um gesto e saiu, cabisbaixo e desconsolado.




À tarde, Tatiana recebeu a visita de Luíza e Paloma e nem toda a descontração delas foi capaz de ajudá-la. Tatiana tinha a sensação de conhecê-las e Natália e Valéria eram apenas nomes sem rostos.

- Isso é angustiante – revelou Tatiana. – É como se eu tivesse nascido agora com este tamanho, já sabendo falar e andar.

- Agora literalmente você "viajou", Tati  - admirou-se Paloma. - Mas você deve estar aflita com tantas incertezas.

- Já que vieram, me contem o que vocês sabem sobre o dia em que eu quase morri.

Elas hesitaram, mas decidiram contar o que sabiam. Luíza começou:

- Você e a Valéria tinham acertado que você iria trabalhar após o expediente para compensar as horas. Então, após as 18h nós nos despedimos de você e de Natália... – Luíza fez uma pausa – O resto a Paloma pode contar.

- Nós ficamos algum tempo no pátio da empresa, quando finalmente Natália apareceu. Ela assustou-se com nossa presença, mas disfarçou muito bem e foi embora com a Luíza. Depois eu fui para minha casa. Não sei bem que horas eram quando o telefone lá de casa tocou. Quando atendi, o Fred do Centro de Operações se identificou e disse que você havia passado mal e que ele já havia acionado atendimento médico. Aí avisei a Luíza.

- Quando eu cheguei na empresa e encontrei a Paloma, havia uma ambulância e uma viatura de polícia estacionados no local. A partir daquele momento, começamos a desconfiar de que algo de mais grave tinha acontecido.

- O que exatamente fizeram comigo? – indagou Tatiana, impaciente. – De que jeito eles... eles... – E deixou o pensamento no ar.

- Alguém tentou te estrangular com um pedaço de jump – respondeu Paloma.

- Jump? – A palavra era desconhecida para Tatiana.

- Sim, são aqueles fios de telefone que aparecem nos relatórios que a gente confere e digita, lembra?

Tatiana negou, respirou fundo e levantou da cama por um momento, aproximando-se da janela. As moças não compreenderam ao certo o que se passava na mente dela e permaneceram em silêncio, até finalmente Tatiana olhar para elas.

- Essa Natália... – começou Tatiana, – o que ela é para mim?

- Ela gosta de você e é sua amiga – respondeu Luíza.

- Mas a Paloma falou dela de um jeito... como se ela fosse a culpada – raciocinou Tatiana.

- Não, Tati, você não me entendeu – tornou Paloma. – Eu acho que você contou alguma coisa para a Natália antes de ela sair naquela noite, algo muito importante que pode levar ao verdadeiro assassino... – Paloma corrigiu-se: – Ou assassina...

Tatiana voltou para a cama lentamente e as lágrimas começaram novamente a se formar. Não conhecer a si mesma era, indiscutivelmente, uma tortura para qualquer pessoa que sofresse uma amnésia.

Luíza e Paloma esperavam que Tatiana estivesse em condições melhores para contar a elas quem tentara matá-la, e ficaram visivelmente desapontadas. Imaginaram que a amiga estava com medo e por essa razão usara a amnésia como meio de proteção. Assim manipularam a conversa para se certificarem de que Tatiana dizia a verdade e concluíram que o acidente realmente deixara a sequela.

Tatiana, por sua vez, ficara revoltada com a insistência das garotas e pediu para que se retirassem do quarto, e elas, a contragosto, saíram. Tatiana sentia que todos estavam contra ela, apesar das demonstrações de amor e amizade. Desejou fugir do hospital, mas sabia que não tinha condições de fazê-lo, pois uma mulher sem lembranças não tinha para onde ir. Enterrou a cabeça nas mãos e soluçou.

Naquele momento, uma pessoa abriu a porta com cuidado e entrou devagar, aproximando-se da cama.

- Tatiana, que alegria ver você!

Tatiana teve um sobressalto e imediatamente parou de chorar.

- Quem é você?

- Que é isso, Tati? Não lembra de mim? Sou sua melhor amiga!

- Desculpe, há muitas coisas das quais não me lembro. Mas posso fazer uma tentativa. Diga o seu nome.

- Elisabete. Você não imagina como estou feliz. Levei um susto enorme quando a notícia saiu nos jornais.

- Desculpe, Elisabete, não consigo me lembrar – falou ela, frustrada.

- Calma, amiga, não chore, o pior já passou. Deixa eu te dar um abraço.

Elisabete sentou no canto da cama e abraçou Tatiana, que chorava baixinho e soluçava.

- Desde quando somos amigas? – perguntou Tatiana, sussurrando.

- Não se lembra de nada, mesmo, Tati? Foi no colégio, nós nos formamos juntas. Teve um garoto que estudou com a gente no 2º grau, nós duas gostávamos dele e fazíamos tudo para conquistá-lo. Nessa época, éramos rivais, mas depois que perdemos o gato para a menina mais popular do colégio, criamos uma grande amizade.

- Que pena eu não fazer a menor idéia do que você diz – disse Tatiana, com sinceridade. – Se você é minha amiga, conta como eu era, por favor. Preciso resgatar meu passado.

Elisabete sorriu para Tatiana e tomou uma das mãos dela para acariciar enquanto contava coisas da vida de Tatiana, que havia solicitado ao advogado para investigar. Mentira apenas ao dizer que eram amigas de longa data e a forma como haviam se conhecido. Sentiu que transmitira segurança para Tatiana, que a ouviu com a mesma atenção que uma criança dá para uma história de duendes e fadas. Entretanto, Elisabete não chegara ainda ao seu objetivo, que era levantar a verdade sobre o envolvimento de Tatiana com Paulo. Se Tatiana estivesse representando, Elisabete perceberia ao mencionar o nome dele.

- Recentemente me casei e estou ainda em lua-de-mel. O Paulo é ótimo. Ele é louquinho por mim – disse Elisabete, calando-se para verificar qual a reação de Tatiana.

- Eu estive no seu casamento?

Elisabete parou para pensar, pois aquela interrogação quebrara sua estratégia e ela teve de improvisar.

- É uma pena que você não se lembre. Você estava tão linda naquele dia, que quase foi a atração da festa.

- Verdade? – O rosto de Tatiana iluminou-se.

- Até o Paulo elogiou você.

- Como ele é? – perguntou Tatiana, inocentemente.

“Ela mordeu a isca”, pensou Elisabete, que já estava quase convencida de que a amnésia era real.

- Ah, eu devo ter uma foto dele aqui comigo... – Ela entregou uma fotografia e percebeu que Tatiana o reconhecera, ficando subitamente inquieta. – O que foi, Tati? Está sentindo-se bem?

- Estou... bem – gaguejou ela.

- É uma pena, mas preciso ir – disse Elisabete, fingindo pressa. Afinal, conduzira a conversa de modo admiravelmente articulado e já estava satisfeita.

- Você vem me ver mais uma vez? – perguntou Tatiana, confiando na falsa amiga.

- Claro que sim! Mas agora tenho que ir para casa esperar meu marido. Ah, eu o amo tanto, você não imagina como ele me faz feliz. Pena que você não lembre das minhas confidências, senão saberia como ele é honesto, fiel e companheiro.

Elisabete despediu-se dela e saiu, deixando Tatiana cheia de dúvidas, ao mesmo tempo em que conquistara a confiança dela.

- Coitada da Elisabete – falou Tatiana, sozinha no quarto. – Acredita tanto no marido e ele está tentando me convencer de que me ama. Como ele é insensível...






CAPÍTULO 7 - PARTE II - A SEQUELA


- 1, 2, 3!

Tatiana ouviu a contagem e sentiu como se estivesse sendo jogada do alto de um outdoor. A imagem do garotinho do aplique retornou ao seu pensamento e ela observou os dois enfermeiros que momentos antes suspenderam-na no ar a fim de transferi-la da maca para a cama. Eles terminaram de ajeitá-la, abriram a janela e Tatiana pôde ver o sol.

- Dentro de uma hora o seu café-da-manhã vai estar sendo servido – informou um dos enfermeiros, antes de se retirar do quarto.

“Uma hora. Quanto pode ser uma hora em um lugar como esse?”. Desejou olhar pela janela e respirar ar puro, mas a fraqueza não permitiu que ela levantasse da cama. Desconsolada, tornou a deitar, tentando organizar seus pensamentos, mas suas lembranças não evoluíam além do aplique que ganhara vida em sua imaginação. Não conseguia se recordar nem mesmo de onde surgira tal imagem. Cansada pelo esforço vão, fechou os olhos e dormiu novamente.

Um estrondo acordou-a e Tatiana encolhera-se na cama. A cortina voava por causa do vento forte. Lá fora, uma tempestade escurecera o dia. A moça sentou-se na cama e observou a refeição sobre a mesa. Confusa e desorientada, Tatiana começou a chorar.

De repente, um homem invadiu o quarto.

- Tatiana! – disse ele, eufórico. – Você nem imagina como eu estou feliz. Pensei que jamais voltaria a te ver.

Paulo tomou as mãos dela e as beijou, demonstrando alegria e paixão com aquele gesto. Tatiana, entretanto, afastou as mãos do contato dele e franziu o cenho, avaliando a situação. “O que este homem faz aqui, dizendo todas essas coisas?”, pensou.

- Tatiana? – Paulo percebeu que ela não o reconhecera e ficou sem saber que atitude tomar. – Você não se lembra de mim?

- Não – respondeu ela, insegura com a presença dele.

A felicidade pouco a pouco desapareceu do rosto de Paulo. Então se afastou e foi até a janela, onde refletiu um minuto, procurando não demonstrar sua decepção. Havia sido alertado para o fato de que Tatiana poderia sofrer uma sequela, mas não se preparara para uma possível amnésia.

- Desculpe – sussurrou ela, torcendo nervosamente o lençol com o qual se cobria. – Não sei o que está acontecendo...

- Essa chuva mudou o clima. Quer que eu feche a janela?

- Quero sim, obrigada.

Após executar a tarefa, Paulo aproximou-se devagar da cama dela.

- Está quase acabando o horário de visitas, mas eu volto amanhã. Tudo bem pra você?

Ela limitou-se a afirmar com um gesto.

- Então, tchau – disse ele, encaminhando-se para a porta.

- Eu devo ter sido especial pra você – disse ela rapidamente. Ele estava com a porta entreaberta, mas girou o corpo na direção dela para responder-lhe.

- Você foi e continua sendo especial pra mim, Tatiana. E eu vou virar o mundo de cabeça pra baixo até fazer justiça.

Após tal afirmação, ele fechou a porta atrás de si, deixando Tatiana solitária em um mundo sem recordações.







Paulo estacionou a pick-up na garagem logo abaixo de seu quarto. Passara o dia investigando o provável envolvimento de Elisabete com a tentativa de assassinato, mas descobrira que a polícia abafara o caso.  Lembrou da conversa que tivera com o delegado responsável, mas suas suspeitas não foram levadas em consideração. Cansado e abatido, Paulo finalmente desembarcou do automóvel e encaminhou-se para o seu refúgio. Sentia-se deprimido e vulnerável, pois a amnésia de Tatiana surpreendera-o.

Finalmente chegou na porta de seu quarto. Ao retirar a chave para destrancar a porta, Paulo ouviu uma música estranha e manteve os sentidos alertas. Girou a maçaneta e o som tornou-se mais audível. Entrou cautelosamente.

Paulo estacou na porta, tentando descobrir se errara o endereço. Estava no local certo, mas não no quarto de sempre. Assim que se livrou da paralisia inicial, deu alguns passos enquanto ouvia a música árabe e observava a transformação de seu espaço, onde véus, cortinas e tapetes imitavam a decoração de lares árabes, inclusive a comida e a bebida que ele experimentou. Atordoado com tudo aquilo, seu corpo começou a relaxar e seus olhos ameaçavam se fechar. Aproximou-se de sua cama, afastou o mosquiteiro, sentou-se e tirou os sapatos. Uma onda de calor espalhou-se por seu corpo, e Paulo deitou-se, cruzando os braços atrás da cabeça.

Para completar o ambiente misterioso e inebriante, surgiu uma dançarina, cujo molejo e beleza prenderam a atenção de Paulo, que se permitiu por um instante esquecer todo o mundo a sua volta. Elisabete estava com o rosto oculto pelo véu vermelho escarlate e ele reconhecera-a no mesmo momento.

Enquanto observava o corpo bem delineado, lembrava-se do dia em que a conheceu. Julgara-a uma garotinha na ocasião, mas agora estava diante de uma mulher sedutora, que provocava os sentidos dele.

Ela sorria, porque sabia bem do que era capaz. Quando seu advogado garantira que Tatiana perdera a memória, Elisabete tinha certeza que Paulo estaria arrasado e, portanto, vulnerável a qualquer investida. Por essa razão, apostou nos mistérios das 1001 noites com todo o glamour. Porém, seria cautelosa e não mais exigiria condições. Ela estava certa de que, mudando a estratégia, conquistaria Paulo definitivamente. Não seria mais a Elisabete orgulhosa, impiedosa, vingativa e autoritária. Pelo menos, não na frente dele.

    Elisabete então serviu uma bebida para ele, que se encostou na cabeceira da cama para aceitar. Bebeu devagar, sempre observando a mulher que, oficialmente era sua esposa. Naquele minuto toda a rejeição pelo casamento e o ódio que nutria por ela pareceu despropositado. Sua mente ficou confusa e ele não conseguia manter Elisabete em foco. Viu que ela se aproximou e sentou em seu colo. Um outro ritmo musical foi executado naquele instante, como se fizesse parte de uma fria programação. Ele queria encontrar forças para resistir, mas seus sentidos não respondiam aos seus apelos. Elisabete então o beijou e ele não a afastou.