Ricardo caminha apressadamente no corredor da delegacia. Havia sido convocado para novo depoimento.
Ao entrar na sala é convidado a se sentar ao lado de Castro e de César, que conhecera no dia do suposto atentado ao centro de recuperação. Defronte, o delegado; à direita, o escrivão; à esquerda de Castro, de pé, a agente Vera.
Após cumprimentos formais, o interrogatório inicia. Ricardo é detalhista e solícito até o momento em que relata os fatos. Contudo, se revela reticente ao ser perguntado sobre os pacientes.
- Sinto muito, não posso expor o pessoal em reabilitação. É questão de ética...
- Seu Ricardo, não é preciso que me conte nada – alega o delegado –, quero apenas que confirme algumas informações.
- Como assim? – Ricardo pigarreia, como se fosse ele o criminoso.
- O capitão Castro já levantou a ficha das pessoas que estão em terapia na sua clínica.
Ricardo é tomado de um choque paralisante. Esbugalha os olhos, atordoado, e olha na direção do capitão.
- Não se preocupe, Sr. Ricardo, vamos descobrir quem é o lobo em pele de cordeiro que está investigando seus negócios...
- Mas nenhum daqueles homens ou garotos faria mal a uma mosca se... – ergue-se Ricardo, bruscamente.
- Se não estivessem chapados, o senhor quer dizer – atalha o delegado, maldosamente.
- Não! Não foi nenhum deles! Eu coloco minha mão no fogo por eles...
- Então terá que improvisar ataduras – satiriza César.
- Não posso crer que um deles está promovendo essa desordem...
- Aconselho o senhor a se sentar e se acalmar, Seu Ricardo.
Vencido, Ricardo atende a ordem mascarada de sugestão e submete-se às indagações.
- Muito bem. O que querem saber?
O delegado abre uma pasta na qual se encontra a documentação do caso. Paciente e resignado, Ricardo responde a cada perscrutação.
- Por hoje é só. Está liberado, Seu Ricardo – autoriza o delegado.
Ricardo sai da sala sem se despedir e assim que passa pelo departamento, Castro entrega para Vera um envelope.
- Cuide disso – ordena.
*****
Alberto locomove-se com cautela enquanto se recupera da angioplastia. Escapara por muito pouco de morrer após o infarto. Aos 36 anos, diz-se que o organismo ainda não desenvolveu defesa contra a doença.
Ele esgueira-se entre os móveis na sala de estar, alcança o controle remoto da TV e acomoda-se na poltrona. Ângela vem se sentar ao lado dele logo após apoiar a bandeja com sopa, frutas e iogurte.
- O que tem de bom na TV? – pergunta enquanto entrega o prato de sopa para o marido.
- Nada de interessante – responde entediado, sorvendo a primeira colherada de sopa.
- Precisamos ter uma conversa, Alberto – inicia Ângela, mas ao observar o arquejo de sobrancelhas, emenda: –, assim que você se recuperar.
- Conversar o quê?
- Deixa pra lá. Bem, estou indo para a loja. Lembre-se das recomendações do cardiologista que operou você: repouso, comida leve e não assista nada que cause aborrecimento.
Despede-se dele com um selinho, apanha a bolsa e as chaves do carro e sai.
Alberto observa-a da janela, depois volta a se sentar. “Médicos!” exclama. “Sabem dizer: evite aborrecimentos, não fume, não beba, faça exercício físico regularmente, evite a ingestão de alimentos gordurosos e calóricos. Como é que esperam que a gente não se aborreça?”
Ele pensa nos motivos que precipitaram sua crise. O estresse e a preocupação com o trabalho foram os responsáveis diretos por seu atual quadro de saúde. Ele é revendedor de produtos para pedreiras e construção civil e o carro-chefe de sua filial é a dinamite usada amplamente para detonações de rocha e construção.
Agora ele volta no tempo, quatro meses antes do afastamento por doença. Alguns sujeitos engravatados apareceram em seu empreendimento dizendo-se sócios de uma pedreira que ficava na zona norte da cidade. Um deles examinou minuciosamente seu catálogo e calculou necessitar de 200 kg de dinamite para romper um rochedo de grande proporção. O único impedimento era um alvará e um licenciamento ambiental que o IBAMA ainda não havia liberado.
Impossibilitado de concluir a venda, Alberto entregou o cartão pessoal da revenda para futuro contato.
A companhia para a qual trabalha tornara-se destaque nacional no ramo como uma indústria comprometida com o cidadão, um de seus valores. Fundada em 1943, exercia importante papel no progresso do país. Tais manifestações satisfaziam Alberto e ele também recebera destaque como comprador corporativo. É admirado pela competência e pela habilidade de negociação. Recebe um salário digno e compensador.
Contudo, Alberto não sabe administrar profissão e lazer, mantendo-se em incessante preocupação com o trabalho, um mal que levou-o facilmente ao estresse e ainda pode sucumbir à depressão.
Suas vendas caminhavam em ritmo constante e motivador, já possuía clientes fidelizados. Entretanto, uma ocorrência na empresa alavancara uma série de suspeitas. Exatamente 200 kg em bananas de dinamite haviam sido roubados do estoque da indústria. O fato fora relatado à polícia e a perícia encontrara no local um cartão de Alberto com um mapa desenhado no verso. Ele, o funcionário exemplar, de uma hora para a outra, passara a principal suspeito do delito.
A lembrança do impacto da injustiça provoca novo formigamento no peito e Alberto resolve se deitar.
*****
Ângela andava desconfiada do marido desde que a colega de trabalho visitara-o no hospital. Imaginava um possível envolvimento entre os dois e não via a hora de esclarecer os fatos.
Os pensamentos causam-lhe uma onda de calor e raiva e ela esmurra o volante. Faz uma curva fechada demais e a bolsa escorrega do assento do carona. Irritada, abaixa-se um segundo para alcançar a bolsa e reposicioná-la no assento e quando olha novamente, o veículo que seguia na frente breca subitamente.
Ângela freia com tudo e seu carro inclina-se na pista. Evita a colisão e sente um forte cheiro de borracha queimada.
Ela deixa o freio de mão puxado e o alerta ligado, desce do carro instantaneamente. Pretendia dizer uns bons desaforos para o motorista descuidado e para ao lado do veículo. O trânsito fica parado e alguns transeuntes se aproximam evidentemente interessados em acompanhar uma boa discussão.
- Ei, seu barbeiro! O que pensa que está fazendo? – vocifera.
O motorista desce do carro. Está pálido e trêmulo. Ângela, por sua vez, toma um susto e sem jeito, balbucia algumas palavras.
- Desculpe, Ângela – lamenta o motorista, que parece desnorteado.
- Ricardo?! Mas o que há com você?
Refeita do susto, Ângela observa Ricardo mais atentamente e percebe que algo está errado com ele.
- Eu... eu... estava distraído. Quando voltei a mim, estava em cima da faixa de pedestre e quase atropelei aquela criança.
Ele aponta um garotinho que se soltara da mão da mãe e atravessara sozinho a faixa de segurança. Ricardo vai ao encontro da mulher e pede desculpas. A mãe do garotinho, por sua vez, agradece a Ricardo por ter freado a tempo e também se desculpa pela desatenção.
Uma fila de veículos havia se formado. Ângela direciona-se para seu automóvel quando Ricardo se aproxima e se oferece para pagar um café como forma de se redimir pelo quase acidente.
- Não é necessário – nega Ângela, embarcando e ligando o carro.
Ricardo, por sua vez, abaixa-se no vidro e quase implora para que ela aceite. Ela indica uma cafeteria na rua senador Felipe Schmidt, um ambiente requintado que ela gosta de frequentar e fica próximo da loja onde trabalha.
Ele retorna ao automóvel e segue na frente. Ângela arranca e dados alguns quilômetros, ultrapassa o veículo de Ricardo, já que ele sinaliza para ela tomar a frente.
Após estacionarem nas proximidades da cafeteria, se encontram e entram juntos. Sentam em uma mesa mais ao canto e ambos pedem um cappuccino.
- Repito que não precisava disso – salienta Ângela, ainda nervosa com o ocorrido. – Você já se explicou e nada aconteceu. Talvez você não se lembre, mas eu trabalho e estou atrasada...
- Sinto muito, Ângela, muito mesmo. Não quero atrapalhar seus compromissos. É que eu precisava de apoio...
- E...? Desenvolve – sua paciência está curta nessa manhã.
Ricardo relata brevemente que a clínica de recuperação havia sido ameaçada e que os policiais levantaram a ficha de todos os pacientes. Ao contrário de se sentir protegido pela polícia, ele se mostra receoso porque todos, inclusive ele, são suspeitos.
- Eu nunca contei a você que também era viciado. Eu estava no fundo do poço.
Ângela interessa-se pelo assunto e esquece sua preocupação com o horário. Procura ouvir sem interromper. Ao final, Ricardo suspira e se inclina para trás na cadeira.
Tomada de um sentimento de solidariedade, Ângela toca na mão de Ricardo que está pousada sobre a mesa e profere:
- Pode contar comigo, Ricardo.
Ele sorri, mais conformado.
*****
- O que aquela planta tem de especial?
- Ela sinaliza toda a rede de gás no subterrâneo da cidade. Venha ao laboratório, Castro.
César abre uma porta e entra. Digita algumas coordenadas no computador.
- Essa é a planta que a empresa concedeu para nossas investigações. Neste ponto a canalização inicia, segue por toda a região norte até o centro, onde se subdivide em várias subestações.
Castro analisa minuciosamente a planta e não encontra nenhuma anormalidade, nada que explicasse porque alguém teria interesse em roubá-la.
- Onde fica a estação central?
- Bem aqui, na Avenida Getúlio Vargas, no perímetro das ruas Plácido Olímpio de Oliveira, São Paulo, Rio Branco e Ministro Calógeras.
- E o que fica nessa localização?
- O Hospital Municipal São José e centenas de estabelecimentos comerciais, inclusive um posto de combustível.
Castro reflete, depois pega a pasta com os documentos referentes ao caso.
Ex-funcionários da empreiteira do gás natural haviam relatado a presença de indivíduos desconhecidos rondando o escritório central. Eles haviam sido filmados pela câmera de segurança do prédio e apresentavam atitude suspeita, mas não foram identificados.
Outra particularidade do caso evidenciava a franca entrada do ladrão. No dia em que a planta sumira, não havia sinais de arrombamento. O criminoso possuía cópias das chaves de portas e armários, entrara e saíra com a planta embaixo do braço sem deixar vestígios.
Castro pede para que César repasse o vídeo.
- Todos os veículos que entraram no pátio do galpão saíram novamente?
- Castro, todos os automóveis possuem a identificação da empreiteira e presumo que os mesmos permaneçam no estacionamento durante a noite.
- Então a pergunta certa é qual destes veículos identificados não retornou? Temos o inventário deles?
- Claro, vamos submeter à análise. Aguarde um instante.
César abre outros arquivos no computador e observa a placa de todos os veículos registrados. Ele detecta a placa do carro de serviço que estava faltando e comunica rapidamente a Castro. Juntos, conferem os horários de chegada com a hora suposta do crime, contudo, chegam a um impasse.
- Se esse veículo não entrou até o momento em que o roubo aconteceu, o que está faltando? – pergunta César.
- Espere. Você observou as filmagens da câmera de segurança durante o dia inteiro?
- Sim, Castro. Desde o momento em que a empresa começou a funcionar.
- Requisite a filmagem da madrugada do dia anterior até o horário em que a empresa retomou as atividades.
- Imediatamente, senhor!
César sai do departamento com agilidade para cumprir a ordem, enquanto Castro reavalia o caso.
*****
Vinícius telefona para Estéfanie, que atende assim que enxuga as mãos no avental. Está ansiosa por saber como anda o tratamento dele.
- Ah, Fan, isso aqui é a maior furada. Abandona!
- Não fala assim – ela protesta. – Lembra do que eu avisei quando você começou a ir na dos caras?
Estéfanie relata os encontros com alguns sujeitos esquisitos que rondavam o colégio. Eram pessoas de outro bairro e só vestiam roupa de grife, acessórios da hora, possuíam automóveis do ano. Aquilo começou a encher os olhos de Vinícius, um garoto voltado para aparecer. Certa vez, tentando se enturmar com aqueles cinco ou seis indivíduos – Estéfanie não sabia precisar, fora convidado para uma balada. Seduzido por palavras motivadoras para um garoto ambicioso de 16 anos, não demorou a simpatizar com drogas como maconha, cocaína e extasy.
- Fan, para, não tem nada a ver! Eu não preciso disso, não!
A conversa irrita Estéfanie.
- É, vê se vira homem e conta a verdade pra sua mãe, que tá me odiando.
- Dá nada, com a Dona Leda eu me entendo. Sabe que ela é toda orgulhosa com o filhão artista aqui!
Estéfanie sacode a cabeça. Será que ser tão soberbo também era efeito do vício?
- Tchau, cara! Se cuida!
Vinícius varria as folhas secas do pé de chorão. De vez em quando batucava no cabo da vassoura o ritmo de alguma música ou imitava microfone, cantando até atrair a atenção de toda a galera.
- E aí, caras? Sou baterista da banda que vem aí pra arrebentar...
- Só se for para arrebentar os ouvidos da gente!
A gracinha levou a uma gargalhada uníssona, que silencia Vinícius. Revoltado, larga a vassoura e peita o autor da afronta.
- Quem você pensa que é pra falar assim?
- Rubens, as suas ordens.
O rapaz estende a mão para um cumprimento e Vinícius, desajeitado, fica sem ação. Rubens segura a mão do garoto e quebra o gelo.
- Então, cara! Fala mais dessa sua banda... – estimula.
Animado, Vinícius fala sobre a banda, sobre o dia do primeiro show de verdade que já estava agendado, sobre os integrantes, as composições.
- Tem uns instrumentos lá na sala de recreação. A galera daqui se reúne toda sexta-feira para um pagode, um suquinho...
- Suquinho?! Conta outra!
- Aqui não entra bebida alcoólica, camarada... Quero ver se você é fera mesmo na batera...
- Ô! Demorô! Onde fica a tal sala?
Rubens aponta um local no prédio principal para onde seguem com entusiasmo.
De repente, uma explosão sacode a terra e os jovens olham para as labaredas que tomam conta de um alojamento mais ao fundo da propriedade, onde ficam as ferramentas. Uma nuvem densa e negra ergue-se e espalha fuligem nos arredores.
Os vigilantes apressam-se com os extintores de incêndio e outros rapazes ajudam com baldes de água e mangueira. Mesmo com as iniciativas, o fogo toma vastas proporções e foi necessário chamar o corpo de bombeiros voluntários que não tardam em chegar.
Enquanto agem rapidamente para conter as chamas, Vera observa de seu veículo que está oculto por uma vasta vegetação em uma rua adjacente.
Uma pick-up passa por ela e em seguida, Vera sai de seu esconderijo e se dirige para o lado oposto ao incêndio. Sorridente, conclui mais um passo em relação às estratégias pré-concebidas.
Ricardo estaciona a pick-up e ao desembarcar corre na direção das chamas. Após uma exclamação abafada, desespera-se ao ser alvo de nova ameaça.
*****
Vanessa telefona para o encarregado da confecção e relata o que acontecera. Solicita as férias já vencidas e alegra-se com a compreensão do gestor, que promete encaminhar seu pedido e ir pessoalmente a sua residência para que ela assinasse.
Ainda sente um pouco de dor na costela quando se submete a um trabalho que exige maior esforço físico, mas emocionalmente ela está mais fortalecida. Conversara com os pais, que lhe deram apoio e até ficaram satisfeitos ao saberem que Pedro fugira.
Entretanto, a sensação de ficar sozinha definitivamente a assusta uma vez que Pedro formava a base de sua vida. Ela tem tanto amor por ele que suprime seus desejos em favor dos dele. Sentia-se solitária quando eram casados pela ausência de atenção, e agora que está literalmente sozinha, os pensamentos negativos a assombram ininterruptamente, até mesmo enquanto dorme e tem pesadelos com o ex-marido.
Seu gestor veio visitá-la como prometera, trazendo-lhe o aviso de férias para que ela assine. Assim não passaria a humilhação de ser vista e falada por colegas de trabalho, já que os hematomas do rosto estão profundos demais.
O gestor é um senhor de aspecto bondoso e uma pessoa generosa e prestativa. Gosta especialmente de Vanessa por considerá-la funcionária exemplar, dedicada e sempre disposta a aprender. Após conceder uma hora de seu tempo para um conversa informal, deseja que Vanessa aproveite as férias da melhor forma, ao que a moça agradece comovida.
Depois que se despede, Vanessa cuida dos afazeres domésticos e não demora, batem palmas em seu portão. Entediada, pensa que seria a terceira vez que cabos eleitorais paravam em frente a sua casa para pedir votos. Mesmo assim arma-se de paciência e segue para o portão.
Tão logo sai da porta da área de serviço, sente seu coração disparar e as pernas fraquejam. Essa reação provoca um entorpecimento geral que culmina em uma prolongada vertigem. Encosta-se de costas na parede para se sustentar e cobre os olhos com as mãos.
Seu mundo interior gira desordenadamente, trazendo à tona tristezas e infortúnios. Flashes espocam nos olhos fechados e tremores perpassam seu corpo de um extremo a outro como lâminas afiadas de uma espada. Os membros inferiores parecem inexistentes, mas o coração – esse, sim, bate como o de um velocista que se vê alcançando a reta de chegada.
- Seus lábios estão roxos!
Ela sente suas mãos sendo retiradas com cuidado e seu braço ser colocado sobre o ombro de um homem. Tenta dar alguns passos, ignorando a moleza das pernas e o formigamento dos pés. Deseja dizer para que o sujeito se afaste e deixe-a sozinha, contudo, a fraqueza a impede de proferir qualquer repreensão.
- Deita. Vou procurar alguém para levar você pro P.A.
- Não... precisa... – murmura, usando toda a energia de que dispõe. – Só... vai... embora...
Contrariado, Renato ajuda-a a se deitar, cobre-a e apanha o celular.
- Cara, é o Renato. Tá com o carro aí? É uma emergência...
- Não, não... – sussurra Vanessa.
Renato não consegue mais falar com o amigo porque a moça começa a se remexer de forma muito estranha. O corpo dela ora se encolhe, ora se estica, se debatendo também para os lados da cama.
- Essa não! Convulsão!
Ele já ouvira falar sobre crises epiléticas, mas presenciar uma era assustador. Imediatamente tenta segurá-la, no entanto, a força do ataque dobra. Agarra firmemente os pulsos da garota e força as mãos dela a se abrirem. Lembra-se da língua e fica apavorado. Dizem que as pessoas engolem a língua e assim podem se sufocar, mas muita coisa não passa de crendice, ele logo descobre. Solta Vanessa e fica próximo o suficiente para socorrê-la enquanto ela se debate.
Preocupado que ela possa bater a cabeça, coloca travesseiros e cobertores na cabeceira e desvia quando a sequência da crise ameaça atirá-la ao chão.
O celular dele toca, mas Renato não escuta. Direciona toda a atenção para acompanhar essa reação nervosa extrema.
Momentos que parecem eternos se passam até que o corpo de Vanessa relaxa. Cautelosamente ele se aproxima e percebe que ela não respira.
- Há quanto tempo ela tá sem respirar? O que eu faço? O que eu faço? – pergunta-se, entremeando palavrões.
Ele sacode-a vigorosamente e Vanessa não reage. Experimenta fazer massagem cardíaca quando vê que os lábios estão arroxeando. Finalmente segura as narinas e sopra ar para dentro do peito dela.
- Reage! Reage!
Vanessa enfim estica o pescoço para trás e aspira ar sofregamente. Renato bufa com alívio e ergue-a contra o seu peito.
- Calma, tá? Tá tudo bem agora...
Ela estica os lábios em um sorriso cansado e inconsciente e desaba em sono profundo.
Renato ajeita-a na cama e cobre-a, depois vai até a cozinha e toma água. Nunca sentira tanto medo antes. “Medo de quê, afinal?”, pergunta-se. Alguma coisa está muito errada com ele, reflete. É o tipo egocêntrico, presunçoso, autossuficiente, insensível até. Cada vez que encontra essa garota algo muito anormal acontece. “Que estranha maneira de começar”, pensa. “Ãh?! Começar o quê?!”, indigna-se.
Pertence à geração dos que “pega e não se apega”, já vivera junto com uma mulher antes e como não dera certo não quer relacionamento sério. Seus quase 30 anos de experiência ensinaram-lhe a suprimir a sensibilidade com as mulheres.
Confuso, volta ao quarto e vê que ela dorme com tranquilidade. Apanha o celular e avisa o amigo que já está tudo bem.
- E agora? – indaga, imaginando o que fazer.
*****
Vanessa acorda sobressaltada, a garganta áspera e quente. O quarto abafado provoca ainda mais desconforto. Ergue-se um pouco no travesseiro e respira com maior profundidade. Enquanto aguarda um instante até ficar mais lúcida, sente a cama se remexer.
“Pedro?!”, uma estranha sensação toma conta dela. Alegria, acha. Sorri no breu do quarto. Ao mesmo tempo em que se acostumava à ideia de estar separada e saber que isso é para o próprio bem, a felicidade de ver que ele retornara para ela incendeia seu coração. Estica o braço e toca no cabelo do marido, ansiosa por fazer as pazes e desistir do absurdo de se divorciar.
- Ah, que bom que acordou – diz ele, com voz cheia de sono.
Vanessa estranha e procura o botão do abajur. Ao ligar a luz, toma um susto e levanta da cama em um milésimo de segundo.
- Mas... mas... o quê... – ela mal sabe o que perguntar.
- ... o que eu estou fazendo aqui? – ele ajuda, sentando na cama e esfregando os olhos.
- Eu... eu... nós... – ela está translúcida.
- Não fica preocupada. Não fizemos nada juntos... ainda – provoca.
- É melhor você sair daqui, Renato! – ameaça quando a lucidez desperta-a definitivamente.
Ele também está desperto agora e observa a reação dela com olhar desdenhoso, contudo, insuportavelmente sensual. Vanessa tateia a parede sem tirar os olhos da direção dele e acende a luz. O sorriso dele, mais visível nesse instante, derrete-a.
“Como esse homem pode ser tão lindo?”
Ela sacode a cabeça e desabala do quarto. Trêmula, enche um copo com água. Bebe em um só gole. Sente que Renato a observa e olha na direção do quarto. Ele está encostado na porta, com os braços cruzados sobre o peito nu, o que a deixa sem fôlego. Nunca sentira nada igual antes.
“Hormônios traiçoeiros!”, critica. Precisa mandar o sujeito embora urgentemente. Não está pronta para ter qualquer relacionamento com quem quer que seja.
- É normal você ter convulsões? – indaga, ainda estático, mas com olhar sério.
- Convulsões? Aconteceu... de novo? – ela engole.
Pronto. Por essa notícia Vanessa não esperava. Isso jogou um balde de água gelada sobre os hormônios em ebulição. Seu coração também normalizara.
- Ah, eu tive uma crise? – pergunta com entonação de resposta.
- Eu nunca vi daquilo! Pensei que você ia sufocar!
- Quando é que aconteceu mesmo? – tenta se lembrar.
- Logo depois que eu cheguei. Até parece que fui eu que provoquei aquele negócio...
Renato sai da inércia e para diante dela. Ajeita o cabelo de Vanessa e sorri.
- Que bom que você tá bem...
Ela suspira. Sente um calor inesperado percorrendo seus braços. Renato abraça-a carinhosamente e assim permanece por um instante. Continua afagando Vanessa, tocando delicadamente nos cabelos e nas costas.
Vanessa fica tensa, respirando irregularmente. Toca as costas dele e sente que ele a enlaça mais fortemente. Imaginar que ele estava ali acompanhando o restabelecimento de sua saúde quebrara sua resistência. Ela se sente amada, sente um carinho especial por ele. Os hormônios já não falam em primeiro lugar, mas seu coração é que entra em ebulição. Não quer, mas deve que admitir que o deseja.
- Não acha melhor ir agora? Eu tô bem...
- Deixa eu ficar, por favor. Eu vou respeitar você...
Essas palavras são deliciosas de ouvir e Vanessa se pergunta se quer mesmo que ele vá embora.
Ele afasta o cabelo dela e beija suavemente o pescoço. Vanessa não resiste e ergue um pouco os lábios, que ele toca com leveza. Uma espécie de choque percorre o corpo dela e Vanessa prolonga o beijo. Sente logo a virilidade dele e seu corpo se incendeia. Abraça-o com mais força e começa a também acariciar seus ombros, braços e mãos.
Que sensação maravilhosa sente nos braços desse homem! Nunca tivera tais sensações quando tomava a iniciativa com Pedro.
Renato busca a mão dela e a traz ao próprio peito, beijando os lábios de Vanessa, que relaxa. Ele ansiava por aquele momento desde a primeira vez que a vira. Desejava-a desde o começo. Depois, bem, não haveria depois. Encosta-a suavemente na parede e começa a despi-la, tocando com suavidade cada parte de seu corpo.
- Te amo... – ela sussurra e ele observa-a no fundo dos olhos cor de céu.
Duas palavras que Renato não estava habituado a ouvir e podia perceber que são sinceras. Algo superior ao desejo de prazer invade-o e inflama todo seu corpo.
Leva-a de volta ao quarto e cuidadosamente a deita. Continua acariciando-a e beijando os lábios. Deita-se de lado e abraça-a.
Vanessa rende-se finalmente nesse momento. Sentir-se desejada faz com que ela se ache merecedora desse prazer. Não tem mais compromisso que a impeça moralmente, motivo que a faz se entregar. Mais que isso, agora entende a paixão, entende como é bom amar.