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Joinville, Santa Catarina, Brazil

ENGRENAGEM DO CRIME – 9º CAPÍTULO - O CHEIRO DE GÁS – 2ª PARTE




Ricardo caminha apressadamente no corredor da delegacia. Havia sido convocado para novo depoimento.

Ao entrar na sala é convidado a se sentar ao lado de Castro e de César, que conhecera no dia do suposto atentado ao centro de recuperação. Defronte, o delegado; à direita, o escrivão; à esquerda de Castro, de pé, a agente Vera.

Após cumprimentos formais, o interrogatório inicia. Ricardo é detalhista e solícito até o momento em que relata os fatos. Contudo, se revela reticente ao ser perguntado sobre os pacientes.

- Sinto muito, não posso expor o pessoal em reabilitação. É questão de ética...

- Seu Ricardo, não é preciso que me conte nada – alega o delegado –, quero apenas que confirme algumas informações.

- Como assim? – Ricardo pigarreia, como se fosse ele o criminoso.

- O capitão Castro já levantou a ficha das pessoas que estão em terapia na sua clínica.

Ricardo é tomado de um choque paralisante. Esbugalha os olhos, atordoado, e olha na direção do capitão.

- Não se preocupe, Sr. Ricardo, vamos descobrir quem é o lobo em pele de cordeiro que está investigando seus negócios...

- Mas nenhum daqueles homens ou garotos faria mal a uma mosca se... – ergue-se Ricardo, bruscamente.

- Se não estivessem chapados, o senhor quer dizer – atalha o delegado, maldosamente.

- Não! Não foi nenhum deles! Eu coloco minha mão no fogo por eles...

- Então terá que improvisar ataduras – satiriza César.

- Não posso crer que um deles está promovendo essa desordem...

- Aconselho o senhor a se sentar e se acalmar, Seu Ricardo.

Vencido, Ricardo atende a ordem mascarada de sugestão e submete-se às indagações.

- Muito bem. O que querem saber?

O delegado abre uma pasta na qual se encontra a documentação do caso. Paciente e resignado, Ricardo responde a cada perscrutação.

- Por hoje é só. Está liberado, Seu Ricardo – autoriza o delegado.

Ricardo sai da sala sem se despedir e assim que passa pelo departamento, Castro entrega para Vera um envelope.

- Cuide disso – ordena.

*****


Alberto locomove-se com cautela enquanto se recupera da angioplastia. Escapara por muito pouco de morrer após o infarto. Aos 36 anos, diz-se que o organismo ainda não desenvolveu defesa contra a doença.

Ele esgueira-se entre os móveis na sala de estar, alcança o controle remoto da TV e acomoda-se na poltrona. Ângela vem se sentar ao lado dele logo após apoiar a bandeja com sopa, frutas e iogurte.

- O que tem de bom na TV? – pergunta enquanto entrega o prato de sopa para o marido.

- Nada de interessante – responde entediado, sorvendo a primeira colherada de sopa.

- Precisamos ter uma conversa, Alberto – inicia Ângela, mas ao observar o arquejo de sobrancelhas, emenda: –, assim que você se recuperar.

- Conversar o quê?

- Deixa pra lá. Bem, estou indo para a loja. Lembre-se das recomendações do cardiologista que operou você: repouso, comida leve e não assista nada que cause aborrecimento.

Despede-se dele com um selinho, apanha a bolsa e as chaves do carro e sai.

Alberto observa-a da janela, depois volta a se sentar. “Médicos!” exclama. “Sabem dizer: evite aborrecimentos, não fume, não beba, faça exercício físico regularmente, evite a ingestão de alimentos gordurosos e calóricos. Como é que esperam que a gente não se aborreça?”

Ele pensa nos motivos que precipitaram sua crise. O estresse e a preocupação com o trabalho foram os responsáveis diretos por seu atual quadro de saúde. Ele é revendedor de produtos para pedreiras e construção civil e o carro-chefe de sua filial é a dinamite usada amplamente para detonações de rocha e construção.

Agora ele volta no tempo, quatro meses antes do afastamento por doença. Alguns sujeitos engravatados apareceram em seu empreendimento dizendo-se sócios de uma pedreira que ficava na zona norte da cidade. Um deles examinou minuciosamente seu catálogo e calculou necessitar de 200 kg de dinamite para romper um rochedo de grande proporção. O único impedimento era um alvará e um licenciamento ambiental que o IBAMA ainda não havia liberado.

Impossibilitado de concluir a venda, Alberto entregou o cartão pessoal da revenda para futuro contato.

A companhia para a qual trabalha tornara-se destaque nacional no ramo como uma indústria comprometida com o cidadão, um de seus valores. Fundada em 1943, exercia importante papel no progresso do país. Tais manifestações satisfaziam Alberto e ele também recebera destaque como comprador corporativo. É admirado pela competência e pela habilidade de negociação. Recebe um salário digno e compensador.

Contudo, Alberto não sabe administrar profissão e lazer, mantendo-se em incessante preocupação com o trabalho, um mal que levou-o facilmente ao estresse e ainda pode sucumbir à depressão.

Suas vendas caminhavam em ritmo constante e motivador, já possuía clientes fidelizados. Entretanto, uma ocorrência na empresa alavancara uma série de suspeitas. Exatamente 200 kg em bananas de dinamite haviam sido roubados do estoque da indústria. O fato fora relatado à polícia e a perícia encontrara no local um cartão de Alberto com um mapa desenhado no verso. Ele, o funcionário exemplar, de uma hora para a outra, passara a principal suspeito do delito.

A lembrança do impacto da injustiça provoca novo formigamento no peito e Alberto resolve se deitar.


*****


Ângela andava desconfiada do marido desde que a colega de trabalho visitara-o no hospital. Imaginava um possível envolvimento entre os dois e não via a hora de esclarecer os fatos.

Os pensamentos causam-lhe uma onda de calor e raiva e ela esmurra o volante. Faz uma curva fechada demais e a bolsa escorrega do assento do carona. Irritada, abaixa-se um segundo para alcançar a bolsa e reposicioná-la no assento e quando olha novamente, o veículo que seguia na frente breca subitamente.

Ângela freia com tudo e seu carro inclina-se na pista. Evita a colisão e sente um forte cheiro de borracha queimada.

Ela deixa o freio de mão puxado e o alerta ligado, desce do carro instantaneamente. Pretendia dizer uns bons desaforos para o motorista descuidado e para ao lado do veículo. O trânsito fica parado e alguns transeuntes se aproximam evidentemente interessados em acompanhar uma boa discussão.

- Ei, seu barbeiro! O que pensa que está fazendo? – vocifera.

O motorista desce do carro. Está pálido e trêmulo. Ângela, por sua vez, toma um susto e sem jeito, balbucia algumas palavras.

- Desculpe, Ângela –  lamenta o motorista, que parece desnorteado.

- Ricardo?! Mas o que há com você?

Refeita do susto, Ângela observa Ricardo mais atentamente e percebe que algo está errado com ele.

- Eu... eu... estava distraído. Quando voltei a mim, estava em cima da faixa de pedestre e quase atropelei aquela criança.

Ele aponta um garotinho que se soltara da mão da mãe e atravessara sozinho a faixa de segurança. Ricardo vai ao encontro da mulher e pede desculpas. A mãe do garotinho, por sua vez, agradece a Ricardo por ter freado a tempo e também se desculpa pela desatenção.

Uma fila de veículos havia se formado. Ângela direciona-se para seu automóvel quando Ricardo se aproxima e se oferece para pagar um café como forma de se redimir pelo quase acidente.

- Não é necessário – nega Ângela, embarcando e ligando o carro.

Ricardo, por sua vez, abaixa-se no vidro e quase implora para que ela aceite. Ela indica uma cafeteria na rua senador Felipe Schmidt, um ambiente requintado que ela gosta de frequentar e fica próximo da loja onde trabalha.

Ele retorna ao automóvel e segue na frente. Ângela arranca e dados alguns quilômetros, ultrapassa o veículo de Ricardo, já que ele sinaliza para ela tomar a frente.

Após estacionarem nas proximidades da cafeteria, se encontram e entram juntos. Sentam em uma mesa mais ao canto e ambos pedem um cappuccino.

- Repito que não precisava disso – salienta Ângela, ainda nervosa com o ocorrido. – Você já se explicou e nada aconteceu. Talvez você não se lembre, mas eu trabalho e estou atrasada...

- Sinto muito, Ângela, muito mesmo. Não quero atrapalhar seus compromissos. É que eu precisava de apoio...

- E...? Desenvolve – sua paciência está curta nessa manhã.

Ricardo relata brevemente que a clínica de recuperação havia sido ameaçada e que os policiais levantaram a ficha de todos os pacientes. Ao contrário de se sentir protegido pela polícia, ele se mostra receoso porque todos, inclusive ele, são suspeitos.

- Eu nunca contei a você que também era viciado. Eu estava no fundo do poço.

Ângela interessa-se pelo assunto e esquece sua preocupação com o horário. Procura ouvir sem interromper. Ao final, Ricardo suspira e se inclina para trás na cadeira.

Tomada de um sentimento de solidariedade, Ângela toca na mão de Ricardo que está pousada sobre a mesa e profere:

- Pode contar comigo, Ricardo.

Ele sorri, mais conformado.

*****


- O que aquela planta tem de especial?

- Ela sinaliza toda a rede de gás no subterrâneo da cidade. Venha ao laboratório, Castro.

César abre uma porta e entra. Digita algumas coordenadas no computador.

- Essa é a planta que a empresa concedeu para nossas investigações. Neste ponto a canalização inicia, segue por toda a região norte até o centro, onde se subdivide em várias subestações.

Castro analisa minuciosamente a planta e não encontra nenhuma anormalidade, nada que explicasse porque alguém teria interesse em roubá-la.

- Onde fica a estação central?

- Bem aqui, na Avenida Getúlio Vargas, no perímetro das ruas Plácido Olímpio de Oliveira, São Paulo, Rio Branco e Ministro Calógeras.

- E o que fica nessa localização?

- O Hospital Municipal São José e centenas de estabelecimentos comerciais, inclusive um posto de combustível.

Castro reflete, depois pega a pasta com os documentos referentes ao caso.

Ex-funcionários da empreiteira do gás natural haviam relatado a presença de indivíduos desconhecidos rondando o escritório central. Eles haviam sido filmados pela câmera de segurança do prédio e apresentavam atitude suspeita, mas não foram identificados.

Outra particularidade do caso evidenciava a franca entrada do ladrão. No dia em que a planta sumira, não havia sinais de arrombamento. O criminoso possuía cópias das chaves de portas e armários, entrara e saíra com a planta embaixo do braço sem deixar vestígios.

Castro pede para que César repasse o vídeo.

- Todos os veículos que entraram no pátio do galpão saíram novamente?

- Castro, todos os automóveis possuem a identificação da empreiteira e presumo que os mesmos permaneçam no estacionamento durante a noite.

- Então a pergunta certa é qual destes veículos identificados não retornou? Temos o inventário deles?

- Claro, vamos submeter à análise. Aguarde um instante.

César abre outros arquivos no computador e observa a placa de todos os veículos registrados. Ele detecta a placa do carro de serviço que estava faltando e comunica rapidamente a Castro. Juntos, conferem os horários de chegada com a hora suposta do crime, contudo, chegam a um impasse.

- Se esse veículo não entrou até o momento em que o roubo aconteceu, o que está faltando? – pergunta César.

- Espere. Você observou as filmagens da câmera de segurança durante o dia inteiro?

- Sim, Castro. Desde o momento em que a empresa começou a funcionar.

- Requisite a filmagem da madrugada do dia anterior até o horário em que a empresa retomou as atividades.

- Imediatamente, senhor!

César sai do departamento com agilidade para cumprir a ordem, enquanto Castro reavalia o caso.


*****


Vinícius telefona para Estéfanie, que atende assim que enxuga as mãos no avental. Está ansiosa por saber como anda o tratamento dele.

- Ah, Fan, isso aqui é a maior furada. Abandona!

- Não fala assim – ela protesta. – Lembra do que eu avisei quando você começou a ir na dos caras?

Estéfanie relata os encontros com alguns sujeitos esquisitos que rondavam o colégio. Eram pessoas de outro bairro e só vestiam roupa de grife, acessórios da hora, possuíam automóveis do ano. Aquilo começou a encher os olhos de Vinícius, um garoto voltado para aparecer. Certa vez, tentando se enturmar com aqueles cinco ou seis indivíduos – Estéfanie não sabia precisar, fora convidado para uma balada. Seduzido por palavras motivadoras para um garoto ambicioso de 16 anos, não demorou a simpatizar com drogas como maconha, cocaína e extasy.

- Fan, para, não tem nada a ver! Eu não preciso disso, não!

A conversa irrita Estéfanie.

- É, vê se vira homem e conta a verdade pra sua mãe, que tá me odiando.

- Dá nada, com a Dona Leda eu me entendo. Sabe que ela é toda orgulhosa com o filhão artista aqui!

Estéfanie sacode a cabeça. Será que ser tão soberbo também era efeito do vício?

- Tchau, cara! Se cuida!

Vinícius varria as folhas secas do pé de chorão. De vez em quando batucava no cabo da vassoura o ritmo de alguma música ou imitava microfone, cantando até atrair a atenção de toda a galera.

- E aí, caras? Sou baterista da banda que vem aí pra arrebentar...

- Só se for para arrebentar os ouvidos da gente!

A gracinha levou a uma gargalhada uníssona, que silencia Vinícius. Revoltado, larga a vassoura e peita o autor da afronta.

- Quem você pensa que é pra falar assim?

- Rubens, as suas ordens.

O rapaz estende a mão para um cumprimento e Vinícius, desajeitado, fica sem ação. Rubens segura a mão do garoto e quebra o gelo.

- Então, cara! Fala mais dessa sua banda... – estimula.

Animado, Vinícius fala sobre a banda, sobre o dia do primeiro show de verdade que já estava agendado, sobre os integrantes, as composições.

- Tem uns instrumentos lá na sala de recreação. A galera daqui se reúne toda sexta-feira para um pagode, um suquinho...

- Suquinho?! Conta outra!

- Aqui não entra bebida alcoólica, camarada... Quero ver se você é fera mesmo na batera...

- Ô! Demorô! Onde fica a tal sala?

Rubens aponta um local no prédio principal para onde seguem com entusiasmo.

De repente, uma explosão sacode a terra e os jovens olham para as labaredas que tomam conta de um alojamento mais ao fundo da propriedade, onde ficam as ferramentas. Uma nuvem densa e negra ergue-se e espalha fuligem nos arredores.

Os vigilantes apressam-se com os extintores de incêndio e outros rapazes ajudam com baldes de água e mangueira. Mesmo com as iniciativas, o fogo toma vastas proporções e foi necessário chamar o corpo de bombeiros voluntários que não tardam em chegar.

Enquanto agem rapidamente para conter as chamas, Vera observa de seu veículo que está oculto por uma vasta vegetação em uma rua adjacente.

Uma pick-up passa por ela e em seguida, Vera sai de seu esconderijo e se dirige para o lado oposto ao incêndio. Sorridente, conclui mais um passo em relação às estratégias pré-concebidas.
Ricardo estaciona a pick-up e ao desembarcar corre na direção das chamas. Após uma exclamação abafada, desespera-se ao ser alvo de nova ameaça.


*****


Vanessa telefona para o encarregado da confecção e relata o que acontecera. Solicita as férias já vencidas e alegra-se com a compreensão do gestor, que promete encaminhar seu pedido e ir pessoalmente a sua residência para que ela assinasse.

Ainda sente um pouco de dor na costela quando se submete a um trabalho que exige maior esforço físico, mas emocionalmente ela está mais fortalecida. Conversara com os pais, que lhe deram apoio e até ficaram satisfeitos ao saberem que Pedro fugira.

Entretanto, a sensação de ficar sozinha definitivamente a assusta uma vez que Pedro formava a base de sua vida. Ela tem tanto amor por ele que suprime seus desejos em favor dos dele. Sentia-se solitária quando eram casados pela ausência de atenção, e agora que está literalmente sozinha, os pensamentos negativos a assombram ininterruptamente, até mesmo enquanto dorme e tem pesadelos com o ex-marido.

Seu gestor veio visitá-la como prometera, trazendo-lhe o aviso de férias para que ela assine. Assim não passaria a humilhação de ser vista e falada por colegas de trabalho, já que os hematomas do rosto estão profundos demais.

O gestor é um senhor de aspecto bondoso e uma pessoa generosa e prestativa. Gosta especialmente de Vanessa por considerá-la funcionária exemplar, dedicada e sempre disposta a aprender. Após conceder uma hora de seu tempo para um conversa informal, deseja que Vanessa aproveite as férias da melhor forma, ao que a moça agradece comovida.

Depois que se despede, Vanessa cuida dos afazeres domésticos e não demora, batem palmas em seu portão. Entediada, pensa que seria a terceira vez que cabos eleitorais paravam em frente a sua casa para pedir votos. Mesmo assim arma-se de paciência e segue para o portão.

Tão logo sai da porta da área de serviço, sente seu coração disparar e as pernas fraquejam. Essa reação provoca um entorpecimento geral que culmina em uma prolongada vertigem. Encosta-se de costas na parede para se sustentar e cobre os olhos com as mãos.

Seu mundo interior gira desordenadamente, trazendo à tona tristezas e infortúnios. Flashes espocam nos olhos fechados e tremores perpassam seu corpo de um extremo a outro como lâminas afiadas de uma espada. Os membros inferiores parecem inexistentes, mas o coração – esse, sim, bate como o de um velocista que se vê alcançando a reta de chegada.

- Seus lábios estão roxos!

Ela sente suas mãos sendo retiradas com cuidado e seu braço ser colocado sobre o ombro de um homem. Tenta dar alguns passos, ignorando a moleza das pernas e o formigamento dos pés. Deseja dizer para que o sujeito se afaste e deixe-a sozinha, contudo, a fraqueza a impede de proferir qualquer repreensão.

- Deita. Vou procurar alguém para levar você pro P.A.

- Não... precisa... – murmura, usando toda a energia de que dispõe. – Só... vai... embora...
Contrariado, Renato ajuda-a a se deitar, cobre-a e apanha o celular.

- Cara, é o Renato. Tá com o carro aí? É uma emergência...

- Não, não... – sussurra Vanessa.

Renato não consegue mais falar com o amigo porque a moça começa a se remexer de forma muito estranha. O corpo dela ora se encolhe, ora se estica, se debatendo também para os lados da cama.

- Essa não! Convulsão!

Ele já ouvira falar sobre crises epiléticas, mas presenciar uma era assustador. Imediatamente tenta segurá-la, no entanto, a força do ataque dobra. Agarra firmemente os pulsos da garota e força as mãos dela a se abrirem. Lembra-se da língua e fica apavorado. Dizem que as pessoas engolem a língua e assim podem se sufocar, mas muita coisa não passa de crendice, ele logo descobre. Solta Vanessa e fica próximo o suficiente para socorrê-la enquanto ela se debate.

Preocupado que ela possa bater a cabeça, coloca travesseiros e cobertores na cabeceira e desvia quando a sequência da crise ameaça atirá-la ao chão.

O celular dele toca, mas Renato não escuta. Direciona toda a atenção para acompanhar essa reação nervosa extrema.

Momentos que parecem eternos se passam até que o corpo de Vanessa relaxa. Cautelosamente ele se aproxima e percebe que ela não respira.

- Há quanto tempo ela tá sem respirar? O que eu faço? O que eu faço? – pergunta-se, entremeando palavrões.

Ele sacode-a vigorosamente e Vanessa não reage. Experimenta fazer massagem cardíaca quando vê que os lábios estão arroxeando. Finalmente segura as narinas e sopra ar para dentro do peito dela.

- Reage! Reage!

Vanessa enfim estica o pescoço para trás e aspira ar sofregamente. Renato bufa com alívio e ergue-a contra o seu peito.

- Calma, tá? Tá tudo bem agora...

Ela estica os lábios em um sorriso cansado e inconsciente e desaba em sono profundo.

Renato ajeita-a na cama e cobre-a, depois vai até a cozinha e toma água. Nunca sentira tanto medo antes. “Medo de quê, afinal?”, pergunta-se. Alguma coisa está muito errada com ele, reflete. É o tipo egocêntrico, presunçoso, autossuficiente, insensível até. Cada vez que encontra essa garota algo muito anormal acontece. “Que estranha maneira de começar”, pensa. “Ãh?! Começar o quê?!”, indigna-se.

Pertence à geração dos que “pega e não se apega”, já vivera junto com uma mulher antes e como não dera certo não quer relacionamento sério. Seus quase 30 anos de experiência ensinaram-lhe a suprimir a sensibilidade com as mulheres.

Confuso, volta ao quarto e vê que ela dorme com tranquilidade. Apanha o celular e avisa o amigo que já está tudo bem.

- E agora? – indaga, imaginando o que fazer.


*****


Vanessa acorda sobressaltada, a garganta áspera e quente. O quarto abafado provoca ainda mais desconforto. Ergue-se um pouco no travesseiro e respira com maior profundidade. Enquanto aguarda um instante até ficar mais lúcida, sente a cama se remexer.

“Pedro?!”, uma estranha sensação toma conta dela. Alegria, acha. Sorri no breu do quarto. Ao mesmo tempo em que se acostumava à ideia de estar separada e saber que isso é para o próprio bem, a felicidade de ver que ele retornara para ela incendeia seu coração. Estica o braço e toca no cabelo do marido, ansiosa por fazer as pazes e desistir do absurdo de se divorciar.

- Ah, que bom que acordou – diz ele, com voz cheia de sono.

Vanessa estranha e procura o botão do abajur. Ao ligar a luz, toma um susto e levanta da cama em um milésimo de segundo.

- Mas... mas... o quê... – ela mal sabe o que perguntar.

- ... o que eu estou fazendo aqui? – ele ajuda, sentando na cama e esfregando os olhos.

- Eu... eu... nós... – ela está translúcida.

- Não fica preocupada. Não fizemos nada juntos... ainda – provoca.

- É melhor você sair daqui, Renato! – ameaça quando a lucidez desperta-a definitivamente.

Ele também está desperto agora e observa a reação dela com olhar desdenhoso, contudo, insuportavelmente sensual. Vanessa tateia a parede sem tirar os olhos da direção dele e acende a luz. O sorriso dele, mais visível nesse instante, derrete-a.

“Como esse homem pode ser tão lindo?”

Ela sacode a cabeça e desabala do quarto. Trêmula, enche um copo com água. Bebe em um só gole. Sente que Renato a observa e olha na direção do quarto. Ele está encostado na porta, com os braços cruzados sobre o peito nu, o que a deixa sem fôlego. Nunca sentira nada igual antes.

“Hormônios traiçoeiros!”, critica. Precisa mandar o sujeito embora urgentemente. Não está pronta para ter qualquer relacionamento com quem quer que seja.

- É normal você ter convulsões? – indaga, ainda estático, mas com olhar sério.

- Convulsões? Aconteceu... de novo? – ela engole.

Pronto. Por essa notícia Vanessa não esperava. Isso jogou um balde de água gelada sobre os hormônios em ebulição. Seu coração também normalizara.

- Ah, eu tive uma crise? – pergunta com entonação de resposta.

- Eu nunca vi daquilo! Pensei que você ia sufocar!

- Quando é que aconteceu mesmo? – tenta se lembrar.

- Logo depois que eu cheguei. Até parece que fui eu que provoquei aquele negócio...

Renato sai da inércia e para diante dela. Ajeita o cabelo de Vanessa e sorri.

- Que bom que você tá bem...

Ela suspira. Sente um calor inesperado percorrendo seus braços. Renato abraça-a carinhosamente e assim permanece por um instante. Continua afagando Vanessa, tocando delicadamente nos cabelos e nas costas.

Vanessa fica tensa, respirando irregularmente. Toca as costas dele e sente que ele a enlaça mais fortemente. Imaginar que ele estava ali acompanhando o restabelecimento de sua saúde quebrara sua resistência. Ela se sente amada, sente um carinho especial por ele. Os hormônios já não falam em primeiro lugar, mas seu coração é que entra em ebulição. Não quer, mas deve que admitir que o deseja.

- Não acha melhor ir agora? Eu tô bem...

- Deixa eu ficar, por favor. Eu vou respeitar você...

Essas palavras são deliciosas de ouvir e Vanessa se pergunta se quer mesmo que ele vá embora.
Ele afasta o cabelo dela e beija suavemente o pescoço. Vanessa não resiste e ergue um pouco os lábios, que ele toca com leveza. Uma espécie de choque percorre o corpo dela e Vanessa prolonga o beijo. Sente logo a virilidade dele e seu corpo se incendeia. Abraça-o com mais força e começa a também acariciar seus ombros, braços e mãos.

Que sensação maravilhosa sente nos braços desse homem! Nunca tivera tais sensações quando tomava a iniciativa com Pedro.

Renato busca a mão dela e a traz ao próprio peito, beijando os lábios de Vanessa, que relaxa. Ele ansiava por aquele momento desde a primeira vez que a vira. Desejava-a desde o começo. Depois, bem, não haveria depois. Encosta-a suavemente na parede e começa a despi-la, tocando com suavidade cada parte de seu corpo.

- Te amo... – ela sussurra e ele observa-a no fundo dos olhos cor de céu.

Duas palavras que Renato não estava habituado a ouvir e podia perceber que são sinceras. Algo superior ao desejo de prazer invade-o e inflama todo seu corpo.

Leva-a de volta ao quarto e cuidadosamente a deita. Continua acariciando-a e beijando os lábios. Deita-se de lado e abraça-a.

Vanessa rende-se finalmente nesse momento. Sentir-se desejada faz com que ela se ache merecedora desse prazer. Não tem mais compromisso que a impeça moralmente, motivo que a faz se entregar. Mais que isso, agora entende a paixão, entende como é bom amar.

ENGRENAGEM DO CRIME – 9º CAPÍTULO - O CHEIRO DE GÁS – 1ª PARTE




Vanessa sai da delegacia. Cabisbaixa, deprime-se cada vez mais com o remorso. Suspira. Para diante da escadaria e olha para a frente e para os lados, contudo, nada enxerga. Os olhos turvos, aguados, doentes, mergulham-se na irrealidade da memória emergente.

O braço na tipoia, a dor generalizada, o peso na consciência reclinam a uma angústia irremediável. O lábio inchado lateja, a costela trincada mortifica os movimentos mais simples, como respirar.

As lágrimas novamente inundam o rosto consternado. Merece tamanho castigo? Sabe, porém, que não se trata de mérito ou gratidão, e sim, de tragédia da qual não se pode escapar ilesa.

Os flashes espocam diante da visão. Novo suspiro evoca a vida real. Recomeçar parece desafiador demais. O que mais a esperaria?

Os pensamentos negativos submergem e dominam, devastadores, até mesmo cruéis. Remói em seu âmago um sentimento incompatível de traição. Denunciar o homem que amava e com o qual convivia constituía a forma mais sofrida de arrependimento.

A assistente social acompanhara o caso e convencera Vanessa a proceder com a denúncia, certa de que a ação era a mais acertada para a vítima jovem. Encaminhou a moça até a delegacia da mulher, contudo, Vanessa ainda confrontava a veracidade do tráfico de drogas e ocultou a informação da polícia. Em sua ingenuidade, acreditava na regeneração do esposo, mesmo após a agressão que quase causou a própria morte.

Fantasiando um romance, um pedido de perdão, uma mudança de atitude, Vanessa segue para casa. Toma o ônibus e meia hora após desembarca em seu bairro. No caminho de casa, um sorriso de esperança se abre em sua face.

“Cadela!”, grita, subitamente, sua memória. Outros vocábulos perpassam na mente e quando Vanessa pensa em abrir o portão, o coração acelera e um temor incontrolável leva-a ao desespero. Quis entrar, mas as pernas derretiam-se. A casa está fechada, escura. Gotas inundam as têmporas, e a garota começa a chorar, indecisa, solitária. Escorrega na calçada, esquecendo tudo o que não correspondia ao seu desespero.

Escurece enquanto ela dá vazão às lagrimas. A única fonte de luz provém das lâmpadas da iluminação pública. A rua está deserta. Os moradores ainda não haviam chegado do trabalho e não se observava um só movimento humano.

Vanessa, exausta, procura arranjar força para erguer o corpo transformado em um farrapo humano. Onde estaria Pedro? Implicaria mais castigos depois que soubesse do rumo que a vida de ambos tomaria?

O que fazer, então? Estava diante de um dilema. Entretanto, não poderia ceder para sempre àquelas frustrações.

Ergue-se, portanto, para tentar retomar sua dignidade. A coragem – não a tem muito, mas é imprescindível enfrentar os conflitos. Afinal, não está totalmente sozinha; revigorada pela fé, abre o portão e entra na casa. Acende a luz.

Ainda está tudo revirado. Pedro parece ter abandonado o local. A comida que cozinhara dois dias atrás está espalhada pelo chão em meio a cacos de louça. A toalha de mesa está puxada e pende na extremidade da mesa. Caminhando com cuidado no meio do caos, Vanessa imagina onde começar a ajeitar a bagunça. Sorri sem graça, pensando que poderia iniciar por ela mesma.

Esbarra em uma cadeira e seu braço dói. Ajeita-o novamente na tipoia e continua, passo a passo, a redescoberta da última cena de que se lembrava. O quarto traz maior aperto, reação involuntária ao trauma vivido. Na cama, respingos de sangue mancham o lençol. Os travesseiros estão no chão. As portas dos armários escancaradas mostram uma confusão de cores em roupas amontoadas.

Vanessa senta na beirada da cama e um desânimo toma conta dela. Ajunta o travesseiro e deita atravessada no leito. Sono, cansaço e efeito de medicamentos se misturam e rapidamente Vanessa adormece.

Não soube por quanto tempo dormiu. É madrugada provavelmente. Vanessa sente frio e se levanta. Esfrega os olhos. De repente, sente como se nada tivesse acontecido, que sua vida está normal, que Pedro entrará a qualquer momento, que se amariam. Ao atravessar o pequeno espaço entre a cama e o roupeiro, tropeça em alguma coisa que rolou para baixo da cama. Abaixa-se lentamente e apanha o objeto. Constata que era o que sobrara do celular, o pivô de toda essa desavença. O chip fora retirado. Leva um choque de realidade ao ver os fragmentos do que limitou sua felicidade. Impossível esquecer, difícil perdoar. Vanessa vasculha no armário um local onde guardava dinheiro e verifica que não havia mais nada. Lembra-se de olhar a sala. O DVD, a TV, o aparelho de som, haviam desaparecido. O rack também está revirado.

“Assalto?”, pensa, contudo, a ausência de toda a roupa de Pedro denuncia o responsável. “Não é possível! Não é possível!”, repete.

A confirmação de que convivera com um criminoso durante tanto tempo enche Vanessa de repugnância e de revolta. Se Pedro fora capaz de agredi-la, roubá-la, persegui-la, de traficar drogas até para menores de idade, o que mais cometeria?

Jamais se sentira tão só e tão desamparada. Chorar não podia mais. Despe-se e vai para o banho tentar expurgar todas as emoções negativas.

*****


Depois que viu Vanessa naquela maca, Renato saiu do hospital cheio de raiva. Seria capaz de dar uma surra no marido de Vanessa. “Valentões como ele não merecem o prato que comem”, reflete.

Nos dois dias seguintes, a única coisa em que pensava era uma vingança cruel contra aquele sujeito. Qualquer pessoa que se aproximasse era destratada, Renato não media palavras. Poderia parecer que ele estava realmente apaixonado por Vanessa dado o nível de preocupação e estresse que vinha se apoderando dele. Contudo, bastou o sorriso despretensioso da primeira mulher bonita que passou por ele para aflorar seus instintos de conquista. Em menos de meia hora, ele já havia esquecido completamente de Vanessa.

Renato não se limitava a regras de comportamento, nem a princípios de dignidade e moral.

Pudera, acostumado a ver o pai constantemente junto a outras mulheres enquanto a mãe ficava em casa tomando conta dos afazeres domésticos e da educação dele e dos irmãos. A mãe nunca se queixava mesmo tendo conhecimento das contínuas traições do marido e assim, Renato cresceu acreditando na normalidade de um relacionamento como aquele.

O pai de Renato, intransigente e dominador, comandava a família. A mãe sofria com a ausência de amor e com o excesso de trabalho. Tudo dentro e fora de casa ficava por conta dela, desde o serviço doméstico, a educação dos filhos a um pequeno reparo. O marido chegava tarde todos os dias e ainda arrumava algum motivo para cobranças abusivas que terminavam em cenas de raiva, porém, nunca de violência. O marido era cruel com as palavras e críticas, mas jamais provara a própria força sobre mulher alguma.

Às vezes, Renato via o pai chegar alegre em casa e achava que aquilo era bom. Mal sabia que o pai havia gasto todo o salário do mês com noitada regada a bebidas e mulheres. A mãe teria que costurar, cozinhar e lavar para fora para manter o mínimo de alimentação aos filhos pequenos. Sem saber desse lado, Renato enxergava no pai um homem forte, digno de ser admirado. Sua mãe nunca mencionava para as crianças qualquer tipo de comportamento do esposo, ainda lhes pedia para obedecerem, e falava que o pai gostava de ver os filhos bem educados.

Renato admirava seu progenitor com idolatria e não media esforços para ver o pai satisfeito e orgulhoso. Com sete anos, o garoto era obrigado a concluir tarefas que exigiam esforço de adulto, experiência de gente grande e se não cumprisse a ordem do pai, passava uma semana no castigo mais penoso e até mesmo bárbaro. Certa vez, precisava derrubar algumas árvores do terreno e rachar em forma de lenha, tudo até de noite e sem a ajuda de ninguém. O garoto mal conseguia erguer o machado, contudo, fora capaz de terminar o serviço dentro do prazo que o pai estipulara, mesmo à custa de muito suor, lágrimas, calos e sangue. Exaurido, nem podia comer e a mãe esforçava um pouco de caldo de feijão e fazia curativos em suas mãos. Entretanto, nunca ouvira do pai o mais simples agradecimento ou elogio a uma tarefa concluída.

Na pré-adolescência, o pai começou a levá-lo aos lugares que frequentava e assim iniciou o garoto, ainda muito jovem, na prática da intimidade sem apego. A presença feminina na vida do garoto, diferente da mãe, conduzira o rapaz a um mundo de obscenidades propostas e aprovadas pelo pai para “dar um jeito” no filho.

Renato, no percurso dos anos seguintes, conheceu uma garota de 16 anos e fez de tudo para conquistá-la. Aos 18 anos, resolveu morar junto com ela. Sempre fora trabalhador e sustentava estudos, aluguel e despesas com o suor de seu rosto. Em contrapartida, não demonstrava amor nem afeição. Respeitava o compromisso de morar junto, mas não valorizava a união de família. Flertava outras mulheres sem pudor ou remorso e esperava que, a exemplo do que presenciara durante a vida com os pais, sua namorada agisse de forma semelhante, senão idêntica.

Enganara-se, pois, que a mulher com quem convivia aceitasse as traições e o mau procedimento em relação ao compromisso de viverem juntos. Menos de três anos após sucessivas rogativas por parte dela para que ele mudasse, Renato fora abandonado. Desavisado, chegou em casa certo dia e restara-lhe três talheres, um prato, uma xícara e a pia. Em vez de se lamentar, Renato riu às gargalhadas, dado seu desapego emocional. Na mesma noite, fora filar uma refeição na casa da mãe e contou sem qualquer cerimônia, a separação e o sumiço da mulher. O pai apoiara-o, ao passo que a mãe, apesar de não concordar, não dissera uma palavra sequer.

É quase meia-noite quando Renato chega em sua casa. Tivera uma conquista fácil, uma mulher habilidosa, bonita, que satisfizera as suas necessidades físicas. Recordava um ou outro gesto e finalmente o intenso prazer. Passageiro, porém, como tudo em sua vida.

Liga a TV, toma um banho demorado e volta para preparar algo para comer. Na pia ainda havia dois pratos com restos de comida, duas facas, dois garfos e dois copos. A cena talvez tivesse passado despercebida se não houvesse no meio da louça suja um papel amarrotado onde se lia, simplesmente, “obrigada”. Subitamente, Renato flagra o pensamento convergir para a moça que trouxera para dentro de sua residência há dois, três dias atrás.

Por pura coincidência, passava de moto pelo local onde a perseguição de uma garota chamava atenção. Algo de grave acontecera ou poderia acontecer e Renato acelerou a moto para tentar ajudar. Não reconhecera a moça de imediato, mas julgava que se dois homens perseguiam uma mulher, boa coisa é que não era. Ao frear e estender o capacete para a garota, encontrara, de relance, um olhar assustado e indeciso que se dissipou tão logo ela embarcou na moto.

Renato lembrou-se da sensação provocada pelo corpo dela em contato com o seu na moto. Associado ao sabor da fuga, havia ali uma atmosfera de expectativa. Assim que pararam e ela desembarcou e retirou o capacete, Renato reconheceu a garota tímida da confecção onde trabalhava.

As lembranças aumentam a sensação de desconforto. Renato não está acostumado com esse tipo de reação. Seu domínio masculino aparentemente ameaçado o perturba.

Ela chorava pedindo desculpas, cena nada atraente para um homem desapegado de sentimentalismo. Oferecera ajuda naturalmente aguardando uma oportunidade para se aproveitar da situação. Em vez disso, percebera-se auxiliando uma mulher despretensiosamente. Será que perdera o foco de sua virilidade? Enfrentar um conflito como aquele, em ter uma mulher dentro de sua casa e não tocá-la parecia desmerecer a razão de dominador.

A fome sumira ao pensar em Vanessa, tão frágil, tão doce, tão linda, desamparada e de fácil sugestão. Debilitada, era alvo fácil, contudo, evitara tomar qualquer iniciativa. Que súbito escrúpulo nascera nele? Renato lembrou-se de ter ido à casa de Vanessa e a vizinha avisar-lhe de que havia sido socorrida pelo SAMU.

“Ãh? SAMU? Como assim?”, lembrou-se de ter pensado no momento da notícia. Seguira para o
hospital e lá encontrara a garota... espancada.

Um calor momentâneo emerge ao seu rosto ante os pensamentos. Esmurra a pia, chuta a cadeira e vai para o quarto, irritado de verdade com o covarde agressor.

*****


Estéfanie carrega a mochila dependura em um dos ombros e três livros nos braços quando volta da escola. Ao se aproximar de casa, sua vizinha, que parece aguardá-la, chama-lhe. Sorridente, a garota vai ao encontro da bondosa senhora, que gentilmente pediu para que entre na casa.

A senhora caminha o mais rápido que os passos de sua idade permitem e em seus olhos há evidente euforia.

- Vem até aqui, menina – pede, com alegria e entusiasmo juvenil.

Curiosa, Estéfanie empurra a porta do quarto que a vizinha apontara e imediatamente é surpreendida por uma alegria pueril. Com cuidado, a garota avança pelo cômodo iluminado pela luz do dia, um ambiente fresco e convidativo, que cheira a limpeza recente com lavanda.

- Eu quase não acredito! – exclama Estéfanie.

- Gostou, filha?

- Se eu gostei? Eu amei! A senhora arrumou tudo!

- Sim, esse quarto pertencia ao meu filho caçula, que se casou no ano passado, e depois que ele foi morar na casa dele, esse lugar vivia entulhado com coisas sem importância. Dei um jeito nelas para que você tivesse um espaço agradável, só para você.

- Como assim?

Estéfanie toca em seus instrumentos com notável incompreensão.

- Você sabe, estou sempre em casa e aprecio uma boa música. Pode vir quando quiser.

- Eu continuo sem acreditar, Dona Zenaide! Me belisca, isso não é de verdade...

Estéfanie abraça a idosa. Emocionada, agradece, beija a face de Zenaide e se despede, envolvida em felicidade.

- Nosso segredo – pisca Zenaide, com peraltice, enquanto a garota acena do portão.

Exuberante e explodindo de alegria, Estéfanie entra em casa, larga a mochila, troca o uniforme do colégio e vai se preparar para o trabalho.

O celular toca e ela vê que é Eduardo. Ele não está mais indo às aulas por conta da surdez parcial e receio de bullying dentro do colégio. Ansiosa, ela atende.

- O que você queria me mostrar aquele dia, Estéfanie? – perguntou diretamente, sem qualquer cumprimento.

A voz dele está estranha, mas é compreensível. Eduardo fala pausadamente, como meio de não errar os fonemas. Porém, Estéfanie percebe uma maior dificuldade de nasalização.

- Criei uma música muito legal.

- Qual é o título?

- Ah, é... quer dizer, eu nem tinha pensado nisso, mas acho que pode ser “Abandona”.

- Legal. Já tá pronta?

- Não, ainda não. Eu esperava que você pudesse me ajudar com os arranjos...

- Claro.

- Mesmo?! – Estéfanie dá um salto, empolgada. – Mas você falou que não queria mais saber da música, o que houve? Quero dizer, você ter pensado melhor é perfeito por causa do seu talento, mas fiquei surpresa com a mudança.

- Fan, você nem imagina o que eu descobri!

Estéfanie sorri, alegre com o súbito e definitivo entusiasmo do amigo. Pergunta, resfolegante, o que ele havia descoberto.

- Que as notas possuem vibrações diferenciadas a gente já sabe...

- E... – incentiva, ansiosa após a pausa dele.

- Agora que eu perdi parte da audição, essas vibrações são muito mais definidas, mais sonoras...

- Como assim?

- Eu consigo senti-las, Fan, literalmente...

- Quer dizer que...

- ... Eu tenho plena condição de continuar a tocar.

Estéfanie vibra. Faz semanas que os problemas se apresentam em turbilhão em sua vida e de repente, dois momentos de euforia restabelecem inclusive sua autoestima.

Se pudesse abraçar Eduardo fortemente naquele momento, certamente ela o faria. Estava feliz pelo amigo que dava a volta por cima daquele trágico golpe. Deseja ardentemente olhar nos olhos dele e dizer como essa decisão a emociona e de como ele faz falta. Em vez disso, conta a ele o que a vizinha fizera, e estimula o amigo a voltar ao colégio.

Desliga, fecha os olhos e suspira. Sem imaginar que do outro lado, Eduardo repete os mesmos movimentos, sorrindo por deixá-la tão contente.


*****

ENGRENAGEM DO CRIME – 8ª CAPÍTULO - O CELULAR – 3ª PARTE


Ângela carrega uma bolsa ecológica aparentemente cheia e caminha apressadamente. Passa pela porta automática, identifica-se na recepção, cola o adesivo de acompanhante e passa pela catraca em direção do elevador.

O corredor da emergência está lotado. Além de pacientes que aguardam atendimento, dezenas de pacientes em macas ocupam o espaço disputado.

Ângela, apesar da urgência, percebe um jovem indignado com o estado de uma paciente na maca que está bem perto de onde ela espera o elevador.

- Ele fez isso com você? Você não pode permitir isso! Tem que denunciar aquele canalha!

Ângela reparou no lado esquerdo do rosto da paciente as luxações e as pálpebras do olho grudadas por sangue coagulado. O rapaz continuava falando, mas Ângela embarcou no elevador e logo esquecera daquele episódio para viver os próprios tormentos.

Assim que a campainha soa para o seu andar de destino, ela toma o corredor e entra na sétima porta à direita. Alberto está deitado na maca e dorme. Ângela deixa a bolsa sobre uma mesa no canto do quarto, olha para o marido e suspira. Calmamente, toca na mão com soro e beija a fronte dele. O rosto está lívido, mas ele parece se recuperar.

- Querido... – sussurra – você poderia ter evitado isso...

- Ãh?

Alberto abre devagar os olhos e acompanha os movimentos da esposa no quarto do hospital. Ela sorri, com espontaneidade evidente.

- Meu amor, você me deixou assustada... eu te amo tanto.

Aproximando-se outra vez, toca suavemente nos cabelos do marido. O médico que havia procedido com a cirurgia cardíaca entra nesse instante.

- Nada de grandes emoções, hein, campeão!

- Oi, doutor.

- Tudo bem, senhora?

O médico avalia o estado de saúde de Alberto, conversa com o casal, sinaliza algumas instruções para continuar com o tratamento em casa.

- Terá algum trabalho, Dona Ângela, mas, se quiser, temos enfermeiros que atendem em domicílio para indicar...

- Não será necessário, doutor. Eu mesma quero cuidar dele.

Ela sorri, enquanto olha com amor para o marido convalescente.

- Esse homem é minha vida.

O médico pigarreia e discretamente se retira.

Enquanto Ângela faz companhia para o marido, recorda-se dos momentos angustiosos que vivera.

Assim que abrira a porta, deparara-se com Alberto caído contra a parede, mão no peito, olhos aguados e esbugalhados e face translúcida de agonia e dor. Imediatamente, Ângela se aproximou e tentou fazê-lo voltar a si e quando percebeu que não adiantava, telefonou para o SAMU, que não se demorara a chegar. O atendimento de urgência fora decisivo para salvar a vida de Alberto.

De volta de suas lembranças, Ângela avalia como seu despreparo emocional e sua explosão no momento errado prejudicaram a saúde de Alberto. Até então, ela não imaginava que ele estivesse tão debilitado. Sentiu como o próprio egoísmo cegara suas observações e a distanciara do marido.

Conhecendo o remorso e o arrependimento, ela decide se tornar uma esposa mais presente e a primeira atitude é o de providenciar para que ele se restabelecesse.

- Olá! Com licença? Aqui é o quarto onde o Alberto está internado?

- Sim – confirma Ângela.

A garota aproxima-se do leito e cumprimenta Alberto, porém, ele está sonolento e não responde.

- Deve ser a Ângela. Ele fala sempre de você. Eu me chamo Débora. Muito prazer.

Débora estende a mão para cumprimentar Ângela, que corresponde de forma apreensiva. Algo na preocupação e no olhar de Débora perturba-a e ela trinca os dentes.

A moça é bastante jovem, de uns 23 anos talvez, muito bonita e bem arrumada. Explica que trabalha com Alberto e gosta muito dele, que ele sempre a trata muito bem.

Ângela não é pessoa de conter a irritação, contudo, com o atual estado de saúde de seu marido, tolera a presença da moça embora tenha grande vontade de expulsá-la dali.

- Se me dá licença, Débora, o meu marido precisa repousar.

- Ah, claro. Fico contente que ele tenha ficado bem. Estava passando o maior estresse na fábrica...

- Estresse? – Ângela arqueia uma das sobrancelhas.

- Sim... o Alberto não contou? – admira-se.

A moça indaga de forma inocente, mas Ângela se sente traída por não saber do que se trata.

- Ah, sim, agora me lembro – dissimula pois o orgulho fala mais alto.

- Vou indo. Tudo de bom.

Débora sai e Ângela começa a analisar a situação. O ciúme instala-se de forma devastadora. Fica imaginando que grau de intimidade há entre Débora e Alberto e as suposições provocam dor de cabeça.

Mais uma vez, seu temperamento entra em ação em evidente desgosto e frustração.


*****


Cai a tarde e com ela uma névoa fina e fria. “Perfeito”, comemora o motorista de um guincho truck. Na BR101 o trânsito só aumenta e chega a formar engarrafamento em alguns pontos onde a duplicação prossegue.

Uma placa reflete a luz dos faróis e indica que saía dos limites de Joinville. Outdoors divulgam estabelecimentos comerciais do município vizinho, bem como as placas de propaganda eleitoral induzem: “Faça o melhor por Quatro Barras, faço o melhor por você! Vote em...”

Entretanto, nada dessas observações faz parte dos pensamentos do guincheiro. Sua mente repassa as últimas orientações. “Faço tudo direito, deixo o chefe satisfeito e ainda ganho uma boa grana”.

“Compra uma casa pra morar com a sua galega”, sugerira seu chefe e ele concordara apenas para não provocar a ira do patrão. Sabe por experiência própria o que acontece aos que não cumprem com os tratos. “Viver com aquela lá que só me enche o saco? Nem pensar!”, reflete o homem ante a ansiedade das noitadas que pretende pagar. Já havia prestado outros serviços para o patrão e sempre fora muito bem recompensado, como aquela estranha tarefa de escrever na parede de um galpão. “Cara esquisito!”, lembra o motorista, que acha as ordens que cumpria um tanto sem noção.

Sinaliza com o pisca à direita e guia para a portaria de uma empresa que fica na marginal da BR. Aguarda o segurança identificar o guincho e subir a cancela. Com o motor do guincho ligado, alcança um pacote que está no assento do passageiro e estende para o guarda, que abre o envelope de costas para a câmera de segurança. Um sorriso discreto e um sinal para continuar dão a dica para o guincho passar pela portaria e seguir pela rua da esquerda, acompanhando a sinalização do local. Um galpão de uns 2000 m² segue para a área norte e na área sul da propriedade lê-se uma indicação de carga e descarga de caminhões. O local está iluminado por lâmpadas de fotocélula. Estaciona o guincho, apanha um bloco e após desembarcar, encaminha-se para a expedição.

- Boa noite, serviço de guincho solicitado para um Scania, placa BRM4313 de Quatro Barras – identifica-se para o funcionário.

- Um momento, vou conferir.

O motorista abaixa a aba do boné e inspira ar com algum nervosismo. Observa o funcionário consultar o computador e retornar.

- Deve haver algum engano, senhor. Esse caminhão já está carregado e não apresenta nenhum tipo de avaria...

- Olha aqui, eu só tô fazendo o que me mandaram e não saio daqui sem levar guinchado o diabo do caminhão!

Contrafeito, o funcionário resolve comunicar a segurança e, com expressão de desagrado, retorna confirmando o pedido do guincho.

- Desculpe, senhor, é que o Seu Alberto não havia avisado o departamento...

- Tá, tá, agora pode me dizer onde é que tá o caminhão? Eu não tenho a noite toda.

O funcionário explica a localização do caminhão a ser guinchado e solicita que aguarde o tempo de providenciar escolta por causa da carga perigosa.

- Ô, cara, vê se facilita meu trabalho! – reclama novamente.

- Sinto muito, mas é a norma da indústria.

- Fazê o quê, né?

O motorista volta ao guincho e manobra a pelo menos 500 metros para recolher o caminhão.

Quase uma hora depois, reboca o caminhão. Passa tranquilamente pela portaria e segue no sentido norte da BR101, acompanhado de perto por dois batedores.

Aproximadamente 20 km após, o guincho dá pisca, reduz a velocidade e entra em uma estrada secundária mal iluminada. O motorista aciona a buzina do guincho três vezes consecutivas; primeiramente, com um som longo, depois um curto e em seguida por três acionamentos que dão a impressão de um único impulso sonoro. Lentamente, vai reduzindo a marcha até parar por completo.

Os seguranças dos batedores também param, desembarcaram e, confusos, aproximam-se da boleia do guincho.

Inesperadamente, o grupo é cercado por bandidos armados. Rendem os seguranças algemando-os aos volantes de seus respectivos veículos. Destroem os radioamadores e afanam as armas.

Enquanto isso, outros dois assaltantes ajudam a desatrelar o caminhão do guincho. A ação toda dura cerca de doze minutos e após, não resta mais pista nenhuma do guincho ou do caminhão.

Na portaria da empresa, o segurança responde OK, desliga o celular, desarma o sistema de segurança, apaga as filmagens e guarda objetos pessoais em uma mochila, inclusive o envelope recebido anteriormente. Observa nas câmeras que não havia qualquer movimentação, desliga toda a energia elétrica da indústria e, embarcando rapidamente em uma moto, sai cavando rumo à rodovia.


*****

Com muito custo, Estéfanie argumenta com os pais sobre o trabalho temporário obrigatório que melhoraria seu orçamento. Era só até comprar um computador novo, explica.

Titubeantes, os pais não gostam da ideia, mas como seu desempenho na escola continua bom apesar de trabalhar fora, os pais concedem licença para o trabalho extra.

Primeira etapa vencida”, comemora.

Por outro lado, preferia que não tivessem permitido. “Injusto!”, pragueja contra seu impiedoso destino. Punida por causa do melhor que podia oferecer ao mundo e agora prisioneira de uma trapaça como enredada na teia de uma viúva negra, com seu veneno letal.

Estéfanie largara mão de seus sonhos em troca da obediência aos pais e diante de uma alternativa para comprovar que a banda é boa, caíra em uma armadilha.

Apesar de pensar em soluções para evitar que o promoter continuasse a chantageá-la, nada conseguia planejar.

“Vera.”

O nome aparece subitamente em seu cérebro exausto. “Será?”

Sim, ela conclui que poderia ter uma chance. Vera oferecera-se voluntariamente para ser agente da banda, quem sabe dispunha de meios para promover a banda. Estéfanie fica em dúvida se conta o fato à Vera ou não. Depois de avaliar todos os ângulos, decide-se: procurará Vera, porém, não mencionará a chantagem.

Satisfeita com a probabilidade mínima de fazer as coisas certas, finalmente adormece.

*****

ENGRENAGEM DO CRIME – 8ª CAPÍTULO - O CELULAR – 2ª PARTE





- Arregaça o velhaco, aí!

- Não, eu imploro, não!

O estrídulo de agonia poderia ter sido ouvido pelo bairro Aventureiro inteiro não fosse o som de balada estar em níveis ensurdecedores.

Dois sujeitos espancam um homem, ao passo que o repreensor, friamente, assiste a agonia da vítima.

- É assim que cara traíra é tratado, compreendeu?

- Sim, sim, eu compreendi... clemência, chefe, clemência!

- Você deixou furo na clínica daquele pilantra metido a bonzinho e eu perdoei. Mas agora que não sacou o que a sua mulher pretendia, vai levar a coça que merece!

- Piedade, chefe, piedade! Eu vou dar um jeito nela. A vagabunda não vai nem piar.

- É bom que esteja falando com sinceridade, traficante de araque!

- EU JURO!

- Chega.

O som é desligado. Pedro caí de joelhos e mal sustenta o peso da própria cabeça.

- VÊ SE TRATA DE DESCOBRIR SE O OUTRO CARA FEZ CÓPIA DA PARADA QUANDO LEVOU TUA MULHER PRA FODER!

Humilhado, Pedro ergue a cabeça e promete “limpar a área”.


*****


Vanessa não pregara o olho durante aquela noite. Primeiro, chorara baixinho lembrando-se do desgosto do flagrante. Pensara nos anos que vivera feliz com o companheiro, nas primeiras carícias, nos primeiros contatos físicos após muita preparação emocional. Pedro era gentil, trabalhador, correto, seguro, inteligente, lindo e romântico. Ela não podia precisar quando é que as coisas mudaram ou em que ela errara. Desde quando Pedro se envolvera com o crime? Ela sempre achou que a situação estava sob controle, que ela é que era a infantil. Pelo menos, era o que Pedro a fazia acreditar quando a desmerecia diante de familiares ou amigos, ou quando rejeitava seus afagos. Pensar em tudo aquilo aumentava severamente seu desequilíbrio emocional. Somando a tudo, seja por destino ou coincidência, Renato aparecera para resgatá-la de uma ocasião perigosa. E, ainda, mais agravante, estivera na casa dele, no quarto e na cama de um estranho. Sentia-se impura, desajeitada, porém, apaixonada.

Os conflitos inundam de dúvidas sua alma e cessam seu choro. Lembra-se do calor do corpo dele quando se segurara sobre a moto, do cuidado que ele tivera de não tê-la desrespeitado, de não deixá-la em sua casa porque havia risco, de ter cedido a própria casa e se dispor a ajudá-la. Quando vestira a roupa que ele lhe emprestara, e que sentia o cheiro da pele dele, seu corpo se incendiava. Vanessa se sentiu importante, valorizada.

Às 3 horas da madrugada ela decidiu que não podia mais permanecer na casa dele. Levantou com cuidado, abriu a porta sorrateiramente e verificou que Renato dormia. Em silêncio e no escuro, trocou de roupa, ajeitou a cama, apanhou as rasteiras e caminhou na ponta dos pés até a porta. Fechou devagar, calçou as rasteiras e seguiu pela rua Monsenhor Gercino, caminhando na direção da Rua São Paulo, onde avistou os primeiros transeuntes. Pediu informações a algumas moças que aguardavam no ponto de ônibus e ficou contente porque era o ponto em que parava o transporte especial. Ao embarcar, teve dificuldade para convencer o motorista já que não portava identificação ou documentos, mas um acaso veio lhe ajudar, já que o fiscal a reconhecera. Trabalhara com afinco para evitar pensar em seus problemas, mas após o término do expediente, instantaneamente os temores voltaram a lhe assaltar.

Na saída, esgueirou-se porque vira que Renato a procurava no meio da multidão que saía do trabalho. Nova onda de calor sobressaltou-a, pois ela sentiu que ele parecia preocupado.

Subir a rua estreita até sua casa exigiu grande esforço e muitos suspiros. O que encontraria?

Porta trancada. A chave está no bolso da calça jeans. Abre. Pedro não aparece. Vanessa coloca água para fazer café e começa a preparar o almoço. A noite em claro começava a pesar suas pálpebras, porém, Vanessa luta contra o sono. Ainda limpa a casa e lava roupas. Faltam 15 minutos para as catorze horas, mas Pedro não chega. Serve a carne de panela, o arroz e os legumes em tigelas e deixa sobre a mesa embaixo de uma toalha de louça. O sono volta a amolecer seu corpo e finalmente ela permite que ele a derrote.

- ONDE TÁ A PORRA DO CELULAR?

Parecia ter acabado de fechar os olhos quando ouve o grito, e parte de Vanessa ainda dorme. O organismo recém-saído do estado de vigília não reage. Mas ela percebe que já está escuro lá fora.

- Levanta, desgraçada!

O corpo dela está mole, inerte, sem força. Ela sente-se içada pelo cabelo para dentro de um pesadelo, os sons distantes, as dores lancinantes perfuram suas costelas, a cabeça estala, o corpo lateja, pulmões sufocam. As mãos vigorosas de Pedro sacudindo-a pelos braços frouxos acompanham o ritmo da exasperação do rapaz, que repete “onde está o celular”, seguida de palavrões, xingamentos e humilhações. Vanessa consegue apontar o local do aparelho e Pedro a atira contra a cama, onde ela desaba desfalecida.

- Onde tá o vídeo?

Ele volta para a esposa, puxa-a novamente pelo cabelo, coloca o aparelho quase grudado nos olhos.

- Não fiz nada, Pedro! Para, por favor!
- Cadela! Cadê o cara?

- Para, Pedro! – ela implora tentando afastar a mão dele. – Do que você tá falando?

- DO MACHO COM QUE VOCÊ FUGIU!

Empurra-a contra a parede e sai da casa. A garota tenta erguer a cabeça, mas o peso dos sinos que tilintam finda suas energias.

Deus, ele não ficou nem preocupado por causa dos rapazes que me perseguiram! Por favor, Deus, me leva!” consegue orar, antes de imergir na profunda escuridão.


*****


Vinícius desembarca de um automóvel preto, visivelmente contrariado. Ajeita a alça transversal da mochila e olha para o pai, que sinaliza para andar. Adiante, um médico aguarda o recém- chegado, demonstrando simpatia.

- Boa tarde. Dr. Fausto, a seu dispor.

- Boa tarde. Este é meu filho Vinícius.

- Venham até o escritório do Seu Ricardo, por gentileza.

Assim que o Dr. Fausto se vira e segue na frente para indicar-lhes o caminho, Vinícius faz uma careta mordaz que é flagrada pelo olhar observador e desconfiado do pai. Embora desaprove a atitude desrespeitosa de Vinícius, o pai evita qualquer reprimenda nesse momento.

- Entrem – o médico abre a porta apontando o homem sentado à escrivaninha dentro do cômodo estreito. Em seguida à entrada dos visitantes, deixa-os a sós. Após novas apresentações, todos se sentam. Vinícius tira a mochila das costas e larga-a, amuado, ao lado da cadeira.

- Bem, Vinícius, vou explicar como funciona nosso trabalho por aqui. Parece que você não está satisfeito com sua internação, não é mesmo? – provocou o administrador.

- Eu não preciso disso aqui. Não tô doente.   

Ricardo não se intimida com a reação. Antes, lhe admoesta para que o tratamento lhe seja proveitoso. Volta-se para o pai de Vinícius e indaga o que a esposa pensa disso.

- Leda, minha esposa, não quis vir porque acha que nosso filho é inocente, que não tem problema nenhum.

- É isso aí, minha mãe nem veio junto para não participar dessa palhaçada que meu velho tá fazendo comigo...

- Mais respeito, rapaz! – zanga-se o pai.

Ricardo percebe que a situação é delicada. Enquanto o pai procura a solução para o filho, a mãe o contraria, o que fortalece o garoto. Terá que convencer a mãe a participar da reunião de apoio. Observa um momento o paciente emburrado, depois anuncia:

- Agora é por nossa conta, Seu Marcos. Pode se despedir de seu filho.

- Que papo é esse de despedida? – altera-se Vinícius, saltando da cadeira. – Vou ser obrigado a ficar nesse fim de mundo? Não quero!  

- Vinícius, é pro seu bem – ressalta Ricardo.

- Meu bem um ó! Tô fora! Vam’bora, pai!

Marcos posiciona-se de pé defronte o filho. Seu ar de autoridade silenciosa imobiliza o rapaz.

- É sério, pai?

Marcos despede-se de Ricardo e segue para o veículo. Perplexo, o rapaz olha o carro e imediatamente digita no celular.

- Mãe? Mãe, o pai me largou aqui, me ajuda, manda alguém me buscar... mãe, quê? Você não pode fazer nada?! Você sabe que eu não sou nenhum viciado, mãe!

Desliga o aparelho e fica ainda mais furioso.

- Vamos, Vinícius, vamos conhecer o seu alojamento. Você vai precisar se adaptar também e conhecer as demais dependências de nossa fazenda...

- Não quero conhecer porra nenhuma!

- Você não será obrigado a fazer nada, Vinícius...

- Ainda bem que tamo falando a mesma língua, cara! – sorri com satisfação. – Tô liberado?

- Dr. Fausto, pode trazer o incentivo para nosso jovem, por favor?

Vinícius fica todo empolgado, certo de que havia ganhado aquela batalha. Exibe-se, orgulhoso e arrogante, um típico adolescente criado com tolerância excessiva. Entretanto, assim que o médico entra no escritório seguido por dois homens musculosos, ambos enfermeiros, e se posicionam um de cada lado do garoto, o rapaz começa a mudar de expressão.

- Como eu ia dizendo... – inicia Ricardo, você é convidado a um tratamento.

- Tá viajando, cara?

- Eles podem ajudar você a decidir se tratar por você mesmo. Essa é a sua opção.

O rapaz fica em silêncio, matutando. Os enfermeiros estão imóveis, aguardando qualquer reação, embora pareçam desatentos. Ricardo apenas fita o jovem.

Bruscamente, Vinícius corre para a porta, porém, é imobilizado pelos enfermeiros. Esperneia, grita, ameaça.

- Vocês não têm direito de me manter aqui!

Dr. Fausto, enquanto o jovem reage de mal grado à internação, abre a embalagem de uma seringa e inicia o preparo de um sedativo.

- Espere, doutor – pede Ricardo um momento antes que ele injete o sedativo. – Vamos dar mais uma chance ao garoto. Vinícius! Você não precisa disso, precisa?

A voz severa de Ricardo faz o garoto parar de se contorcer. Respirando irregularmente por trás do cabelo desgrenhado, colado ao rosto, ele se acalma.

- Não, não preciso.

- Parece que estamos começando a falar a mesma língua – Ricardo utiliza propositalmente a mesma expressão que o garoto e ordena que o soltem.

Vinícius ajeita as roupas e o cabelo e muito embora o ar de revolta ainda paire em seu semblante, não se rebela.

- Temos regras aqui. Cabe a você obedecê-las. Horário para acordar, deitar, trabalho e lazer. Visitas somente no segundo domingo de cada mês e só dos familiares cadastrados. Não pode faltar às refeições. Deve frequentar o grupo de apoio diariamente e interagir com o psicólogo duas vezes por semana. Agora me acompanhe. E não esqueça: você tem sorte por estar aqui. Milhares de adolescentes nas suas condições não têm a mesma oportunidade.

Amuado, contudo, obediente, Vinícius segue Ricardo pela propriedade até alcançar um dos alojamentos. Entram no quarto coletivo e Ricardo aponta um beliche.

- Abra sua mochila e despeje suas coisas sobre o colchão.

- Quê?

A surpresa faz com que o garoto core de indignação.

- Pra quê isso? Tô limpo...

- Quem não deve não teme – afirma. – Quer que eu mesmo faça isso, rapaz? Preciso cadastrar seus objetos pessoais e fiscalizar, retirando aquilo que não é permitido.

Convencido, Vinícius tira as coisas da mochila. Gotículas de suor começam a brilhar em sua fronte assim que Ricardo começa a revistar seus pertences e anotar um a um o que possui. Ricardo termina a revista e orienta o garoto a guardar as coisas em um armário. Ofegante, Vinícius ajunta tudo com braços trêmulos e segue para o local indicado. Assim que ergue a roupa, um pacote cai no chão. Ele apressa-se a ajuntar e esconder a embalagem, todavia, o gesto não passa despercebido por Ricardo que, após uma rápida anotação, aproxima-se do jovem e estende o braço com a palma da mão aberta para cima.

- Isso faz parte dos itens proibidos nessa instituição.

Cabisbaixo e envergonhado por ter sido flagrado, passa o pacote com droga para Ricardo.

- Agora vamos até o alojamento sul, onde o Tomás está esperando. Sua primeira atividade será ajudar na limpeza dos sanitários...

- O quê?! Limpar banheiros? Você tá zoando comigo!

- Você acha que alguém está aqui para brincar? – Ricardo satiriza, apontando os dois enfermeiros, que os espreitam na entrada do alojamento.

Vinícius resmunga algo ininteligível, mas a “opção” agrada-o tanto quanto ficar naquele isolamento.

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