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Joinville, Santa Catarina, Brazil

OS CONTADORES DE HISTÓRIAS - 8ª PARTE


A casa de Cláudia estava aberta e toda iluminada. O pai dela fumava um cigarro atrás do outro e estava no portão quando a viatura parou.

- Sou da polícia – apresentou o distintivo. Antônio, à sua disposição.

- Cleiton. Prazer. Se não fosse o Seu Ronaldo telefonar para cá, nós nunca íamos saber que a Cláudia saiu de casa desse jeito. Eu não entendo... – sacudiu a cabeça, inconformado.

- Ela não deixou nenhuma pista?

- Não sei... não consegui pensar em nada de tão aflito...

- Posso falar com sua esposa?

- Claro... Sílvia! Pode entrar, a mulher está lá na cozinha.

Antônio apresentou-se para Sílvia, fez algumas perguntas e pediu para ir até o quarto da moça. Quando entrou, observou a cama desfeita e a cortina balançando diante da janela aberta. Tudo indicava que ela tinha apenas saído às pressas, mas ao contrário do que imaginava, ela não parecia ter fugido. Porém, não havia nenhum indício de que a garota saíra para um encontro escondido.

Ligou o abajur sobre a escrivaninha e viu a agenda com o nome de Cláudia bordado na capa. Abriu-a no último registro que Cláudia deixara. Ele leu: “Hoje é o dia mais emocionante da minha vida, porque vou ficar com o Maurício, que já está tentando me conquistar a um tempão. Eu resisti, mas acabei me apaixonando por ele. Nós vamos para a praia antes do amanhecer. O pai e a mãe vão ficar danados da vida, mas preciso viver essa emoção.” Depois de ler, deixou a agenda no lugar e correu para fora.

- Por favor, Seu Cleiton, ligue para o delegado Ivan. A sua filha está nas mãos de um criminoso!

Alarmado, Cleiton correu ao telefone e Sílvia caiu em uma crise de choro. Antônio explicou que precisava voltar à casa de Ronaldo e saiu.


.......


Ronaldo ouviu a sirene da polícia e abriu ligeiramente a porta para Antônio entrar.

- O Maurício levou a Cláudia.

- Como sabe? – perguntou Ronaldo, apreensivo.

- Ela escreveu na agenda que vai para a praia com ele, mas não mencionou para qual... – Antônio estava desesperado. Não tinha pista nenhuma para segui-la.

- Calma, rapaz. Vou avisar o delegado.

- Já pedi para o pai da Cláudia falar com ele, mas se o senhor reforçar o pedido é tanto melhor – respondeu Antônio, andando em círculos dentro da sala. Por fim, debruçou-se sobre uma mesa, esgotado. Teve um sobressalto quando foi tocado por Patrícia.

- Minha querida... queria tanto ter evitado que esse sujeito te fizesse mal... – lamentou.

- Aconteceu, Tony. – Suas palavras eram doces e confiantes. – Talvez fosse uma prova para ver aonde chegava nosso amor. Não sofra com isso. Eu te amo e você também, porque não me abandonou depois que eu fui estuprada.

- Querida, nada me faria abandonar você...

- Eu ouvi a conversa que você teve com meu pai. Nós voltamos a ficar juntos por causa do esforço incessante e da confiança inabalável que ela tinha em você. Procure ela – pediu a moça.

- Não posso... – suspirou, vencido. – Não sei para que praia eles foram.

- Ele também me levou para a praia... – Aquele fora o primeiro comentário de Patrícia sobre o assunto. – Eu acho que sei para onde ele a levou.

- Você sabe? – Ele levantou de imediato. – Diga...

- Me leve com você – pediu a agora noiva, tocando nos ombros dele, como que a suplicar pela permissão. – Também quero ajudar a Cláudia.

- Não, eu não posso permitir – negou Antônio. – Não posso arriscar a sua vida de novo.

- Tony, é sério. A Cláudia está correndo perigo.

Antônio concordou em levá-la e esperava que Patrícia estivesse certa. Avisaram Ronaldo e Adelaide e embarcaram no automóvel.

.......


Cláudia observava os primeiros raios de sol surgirem na paisagem que o automóvel deixava para trás. Já podia sentir no ar outro clima, farejar a maresia, ouvir as ondas quebrando nas pedras. Seu coração palpitava, compartilhando a ansiedade que tomava conta de sua imaginação.

- Arrependida? – perguntou Maurício, enquanto manobrava o veículo para o acostamento. Pousou a mão livre na perna dela e continuou: – Vamos passar bons momentos juntos, eu prometo...

Ela sorriu com doçura, imaginando um momento mágico de envolvimento entre eles. Seu coração avolumava-se dentro do peito que arfava. Eles desembarcaram e ela olhou para o mar, porém, estava prestando atenção em si mesma, naquela sensação sufocante de dúvida, de medo repentino, como um pressentimento de perigo. Mas o que poderia dar errado?

- Quer? – Maurício abraçou-a por trás e lhe ofereceu uísque. Tomou um gole pelo gargalo. – Tome, vamos! – Diante da negativa, ele largou-a e sua voz tornara-se agressiva, o que deixou Cláudia desconfiada. Manteve os sentidos alerta, pois percebera uma sutil mudança no comportamento dele.

- Eu acho melhor você parar de beber, Maurício – pediu ela, vendo que ele estava esvaziando a garrafa. – Você precisa me levar de volta...

- E quem disse que você vai voltar? – comentou Maurício, com ironia, atirando a garrafa para longe. Agarrou-a e beijou-a à força. Cláudia sentiu o cheiro e o gosto do álcool misturado ao hálito quente.

- Você é muito mais linda que a Patrícia – afirmou, malicioso.

Cláudia ouviu a revelação, mas as palavras demoraram a fazer sentido para ela. De repente, sentiu que o mundo havia parado enquanto raciocinava. Seu pensamento voltara à imagem de Patrícia, quase desfigurada, imóvel, sobre aquele leito no hospital. Marcas de cortes e agressões cobriam seus braços e o que mais chocara fora a notícia de que ela havia sido violentada. Até então, crimes como aquele não produziam em Cláudia qualquer efeito, a não ser lembrar sua omissão no passado. A amiga que jamais voltara a ver... Tantos fatos, tantas falhas, tudo passou em sua mente em dois ou três segundos, que pareceram eternos. Suas pernas fraquejaram quando compreendeu o que estava acontecendo. Maurício premeditara o envolvimento com ela, provavelmente era sua estratégia para se aproximar de suas vítimas.
Instintivamente, procurou se desvencilhar e correu para longe dele, para a areia que afundava sobre seus pés.

A perseguição começara: o predador saía à caça de sua presa. Mais forte, alcançou-a, derrubou-a na areia e imobilizou-a. Rasgou sua blusa. Apavorada, Cláudia atirou areia nos olhos do agressor e conseguiu correr para o veículo, onde embarcou e virou a chave na ignição. Mas antes que pudesse colocar o veículo em movimento, Maurício quebrou o pára-brisa com a garrafa de uísque, abriu a porta e arrancou a garota de dentro do automóvel, provocando no braço dela um corte profundo no vidro espatifado. Agrediu-a no rosto e quando percebeu que ela perdera as forças, atirou-a no banco do passageiro, onde ficou desacordada.

Maurício deu uma arrancada no automóvel e sumiu na rodovia vazia.


.......


O tráfego na rodovia estava mais intenso naquelas primeiras horas da manhã e Antônio e Patrícia continuavam seguindo a única pista deixada por Cláudia. Patrícia pediu para Antônio estacionar a beira-mar diversas vezes, pois pensava ter reconhecido o local, mas suas tentativas foram todas infrutíferas. Ela sentia-se no dever de encontrar o foragido, o que provocou ansiedade e nervosismo. Percebendo seu estado, Antônio decidiu levá-la de volta para casa. Parou no acostamento e deu seta para à esquerda.

Contrariada, Patrícia implorou que insistissem na busca, argumentando que a vida de Cláudia dependia deles e que não poderiam abandoná-la. Pediu então para fazer somente mais uma tentativa. Dessa forma, Antônio concordou e seguiram adiante.

Alguns quilômetros depois, Antônio percebeu no acostamento marcas recentes de pneus e cacos de vidro, o que era comum, pois poderiam ser restos de algum acidente. Entretanto, àquela altura tudo deveria ser investigado para tentar rastrear o criminoso. Parou o veículo no acostamento e deu a ré até se aproximar dos vestígios. Desembarcou e examinou o local e encontrou algumas gotas de sangue fresco. Patrícia seguiu-o e ficou olhando para o mar.

- Veja, Tony!

Patrícia viu na praia um trapo e correu para averiguar. Quando percebeu que se tratava de uma blusa rasgada, ela começou a tremer e abraçou Antônio com força.

- Você acha que é da Cláudia? – perguntou ele, aninhando-a protetoramente.

- Eu não sei – disse Paty, quase chorando. – Eu estava desacordada quando chegamos a uma praia. Ele me arrastou para a areia, me agrediu novamente... e depois só me lembro de um lugar horrível, cheirando mal, onde penetravam alguns raios de sol. E aquela sombra monstruosa em cima de mim...

Patrícia ficou nervosa e caiu em prantos. Antônio levou-a de volta para a viatura.

- Vamos, Paty, você já se esforçou demais. Vou levar você pra casa.

Ela estava esgotada e não o contrariou desta vez. Antônio debruçou-se sobre o volante, com uma indescritível sensação de incapacidade. De repente, teve um palpite.

- Eu acho que sei para onde ele a levou – declarou, tocando na mão de Patrícia. – Está preparada?

Ela afirmou com um gesto e seguiram para o temível encontro com o bandido.

.......


Cláudia piscou os olhos, procurando acostumá-los à claridade. Um facho de luz vinha em sua direção e ela sentou-se para desviar do brilho. Sentiu ardência no braço e viu o sangue coagulado. A fraqueza entorpecia seus sentidos e ela custou a se lembrar do que estava acontecendo. Observou os raios de sol atravessando as fendas nas paredes de um rancho, que cheirava a abandono e podridão.

Havia uma porta dependurada apenas na dobradiça superior no lado oposto em que o sol não alcançava e, com muito esforço, Cláudia levantou e caminhou até lá, tateando nas velharias para não tropeçar. De repente, Maurício surgiu na entrada do rancho e ela gritou apavorada.

- Deixe eu ir embora – suplicou.

- Claro. – Maurício derrubou a porta e se afastou para o lado. Cláudia não acreditou na falsa sugestão e tentou correr. Entretanto, a tontura fez com que ela cambaleasse e Maurício facilmente a agarrou. Ele forçou Cláudia a beijá-lo e a empurrou contra a parede.

- Me larga!

- Não. Depois eu vou bater um papinho com aquela sua amiga bonitinha...

- Não, a Fernanda não! – Cláudia gritou, cuspindo no rosto dele. Ele deu uma bofetada em Cláudia, que caiu sobre um monte de entulhos. Jogou-se sobre ela, prendendo-a com o peso do próprio corpo. Cláudia tentou afastar Maurício a todo custo, não queria se entregar, mas estava cansada de lutar.

- Faça de uma vez, seu monstro! – exclamou, dando socos no rosto dele.

- Essas suas agressões são como cócegas. Vou te mostrar como é um soco de verdade...

A força da bofetada atirou Cláudia em um mundo de fantasmas e sons. Imagens embaralhavam-se em sua mente e ela desistira de tentar se salvar. Ficou imóvel e entregue a seu destino.

Uma força interna repentina provocou estalos em sua mente exausta e espasmos no corpo debilitado. Novas imagens e sons se misturaram e um assomo de raiva cresceu dentro dela. Cláudia trincou os dentes e alcançou uma garrafa vazia no meio dos entulhos onde caíra.

- Pare! – gritou Cláudia, espatifando a garrafa na cabeça dele, que caiu de lado.

Cláudia saiu correndo do rancho. A claridade do dia cegou-a nos primeiros instantes, mas ela seguiu um caminho na mata, tropeçando várias vezes enquanto olhava para trás. Cortou o rosto nos galhos, mas o desespero não permitiu que ela parasse. Na descida de uma colina, encontrou um riacho. Pulou sobre as pedras para alcançar a outra margem. Tentou equilibrar-se e acabou perdendo uma das sandálias. A água levou-a no curso do rio.

Chegando à outra margem, Cláudia parou para tomar fôlego. Bebeu um pouco de água, curvando-se na beira do rio. Continuou agachada, respirando com dificuldade. Quando a água parou de balançar, Cláudia viu a imagem de Maurício espelhada.

- Você não vai fugir de mim!

Maurício portava uma arma. Cláudia começou a tremer e fugiu. O bandido atirou, mas não a atingiu, e atravessou o rio para continuar a perseguição.

Cláudia não aguentava mais, mas procurou forças e continuou correndo.

Os raios de sol penetravam tímidos na vegetação fechada. Finalmente, a claridade aumentou no final do corredor da mata. Cláudia sorriu quando avistou os chalés.

- Socorro! Socorro! – ela gritou, mas não havia ninguém no parque aquático.

- Quieta! Eu vou acabar com sua vida... – Maurício surpreendeu-a próximo de uma das piscinas. Agarrou-a pelo braço ferido e mirou o revólver para sua cabeça. Maurício derrubou-a e ela se entregou à exaustão. Seu pulso estava acelerado e lhe faltava ar.

- Não se mexa!

A ordem viera do outro lado da piscina. Cláudia rolou no chão e, no meio da visão turva, reconheceu Antônio. Em seguida, viu Patrícia aproximar-se dele.

- Venha para cá, Cláudia! – disse Antônio, com Maurício em sua linha de tiro. Cláudia levantou-se do chão e seguiu na direção do casal o mais depressa que podia. – Você está preso! Levante os braços bem devagar!

- Preso? Por quê? Não fiz nada. Você não pode me prender por sair com minha namorada – respondeu Maurício, ironicamente desafiador. – A não ser que me prenda por ter me divertido com a sua namorada. – Desta vez, Maurício riu, enquanto observava Patrícia maliciosamente. – Eu sei o que ela tem pra dar. Você, não sei...

Maurício disparou um tiro em Antônio e fugiu. As moças gritaram enquanto Antônio caía no chão. Mas ele se recompôs de imediato, disse para Patrícia cuidar de Cláudia e seguiu na direção que Maurício havia tomado.

- Está tudo bem com você? – perguntou Patrícia, ajeitando o cabelo de Cláudia. – Ele te machucou?

- Me surrou, não fez... – respondeu Cláudia, soluçando nos braços de Patrícia.

- Vem, vamos para o carro.

Minutos mais tarde, Antônio voltara para o veículo. A decepção dominava seu semblante.

- Eu perdi o cara. Droga! – Ele chutou uma pedra qualquer.

- Ele vai voltar, Antônio! Ele vai atrás da Fê! – alertou Cláudia, caindo em prantos.  – Por favor, precisamos avisar ela…

Antônio pediu para que Cláudia relatasse os planos de Maurício e entrou em contato com a central de polícia.

- Câmbio... Antônio... Perdi o sujeito, delegado... Ele vai atacar de novo... Fernanda, outra moça da universidade... câmbio, desligo. – Esfregou a cabeça e voltou-se para as moças. – Vamos para casa.

Embarcaram na viatura e meia hora após estacionavam diante da casa de Cláudia. Os pais dela vieram aflitos ao encontro dela. Não fizeram perguntas, apenas a levaram para dentro.

- Ah, querida! Não sabe a agonia que passamos. Graças a Deus você está bem – suspirou a mãe.

- Muito obrigado, policial. Você salvou a nossa filha – agradeceu Cleiton.

- É o meu trabalho. Recomendo chamar um médico. Não aconteceu nada mais sério a ela, mas talvez Cláudia precise de uma dose de sedativos. Ela precisa de muito repouso. O senhor deve saber disso melhor do que, mas, por favor, não a perturbem com perguntas ou recriminações.

- Tudo bem, Antônio. Agradeço mais uma vez.

- Agora quero sua colaboração.

- Em que posso ajudar?

- Preciso do endereço de Fernanda.

Cleiton escreveu o endereço em um pedaço de papel e o entregou a Antônio. Este agradeceu e voltou para o carro, onde Patrícia o aguardava. Ele percebeu que ela estava muito triste.

- O que foi, meu bem?

- Você deve ter ficado com raiva de mim, depois que ele disse aquilo.

Ele sabia do que se tratava. Sentira muito ódio no instante em que Maurício o desafiara.

- Por que eu sentiria raiva de você, Paty?

- Porque eu não lutei como a Cláudia para me defender dele. Porque eu deixei ele fazer aquilo comigo...

- Pare, Paty. Não pense nessas coisas. O que importa é que você está viva e eu amo você. Minha vida não seria mais a mesma se eu te perdesse.

- Jura?

- Juro. Agora enxugue essas lágrimas. O que seus pais vão pensar se chegarmos lá assim?

Patrícia conseguiu sorrir.

- Fico feliz por que a Cláudia está a salvo.

- Eu também, mas ele está solto. Preciso agarrá-lo, nem que seja a última coisa que eu faça!

Antônio deixou Patrícia em casa. Deu satisfações a Ronaldo e rumou para a casa de Fernanda.

OS CONTADORES DE HISTÓRIAS - 7ª PARTE



Cláudia distanciara-se dos colegas e até mesmo de Fernanda. Recolhera-se em casa, faltara às aulas. Não conseguia esquecer Maurício.

Finalmente, após dias sem qualquer notícia sobre o paradeiro do rapaz, Cláudia resolvera voltar à sua rotina, embora não cumprisse suas obrigações com tanto afinco quanto antes de conhecer o misterioso sujeito.

No primeiro dia que Cláudia retornou à equipe de contação de histórias e enquanto se dirigia para a recepção do hospital, aturava as infindáveis recriminações de Fernanda, mas não a contrariava. A amiga, aborrecida, percebeu que Cláudia nem sequer ouvia o que ela lhe dizia e se calou.

De repente, viu nos olhos da amiga uma expressão inesperada de surpresa e alegria e curiosa com a súbita mudança na fisionomia de Cláudia, olhou na direção que esta fitava e reconheceu Maurício, que aguardava no estacionamento, apoiado na porta do automóvel. Quando se aproximaram dele, Cláudia murmurou um “oi” tímido, totalmente o oposto a sua personalidade e então Fernanda percebeu o motivo pelo qual Cláudia parecia tão avoada ultimamente.

- Desculpem – pigarregou –, eu me esqueci de apresentar vocês dois. Fernanda-Maurício, Maurício-Fernanda.

- Prazer.

- O prazer é meu, Fernanda, mas, se não se importa, tenho um assunto muito importante para tratar com sua amiga.

- Ah – fez Fernanda, colocando o “desconfiômetro” em ação –, tenho mesmo um compromisso muito importante e preciso ir andando. Tchau, gente! – e seguiu até a portaria do hospital.

Maurício continuou olhando para Cláudia, mas ela não disse uma palavra.

- Você está cada vez mais linda – comentou.

- Por que não ligou mais? – perguntou Cláudia, assim que ganhou coragem.

- Eu estava viajando. Sou representante comercial de uma empresa de perfumes. A propósito, trouxe uma amostra para você.

Cláudia apanhou o perfume e experimentou-o. Adorou a fragrância.

- Você sentiu a minha falta? – indagou ele.

- Sim... Eu pensei muito em você – admitiu Cláudia.

- Eu também. Eu me afastei porque achei que você não me queria por perto. Pensei que a havia magoado e...

- Não, não, eu não fiquei magoada e me arrependi por ter tratado você daquele jeito. Olhe, eu queria me desculpar e dizer que...

- Que aquela história de namorado foi invenção sua?

- É... – Cláudia baixou os olhos, envergonhada por ter mentido. – E que você é muito importante para mim.

Cláudia ficou um pouco tensa, aguardando a reação dele. Mas Maurício a abraçou com ternura deu-lhe um “selinho”.

- Foi o que eu esperava ouvir. Eu te amo.

As faces de Cláudia coraram e ela não mais resistiu quando Maurício a beijou novamente. Tinha que admitir que esperava o encontro, que estava apaixonada.

- Venha, querida, vou levar você para casa.

Maurício abriu a porta do carro e aguardou Cláudia entrar e se acomodar no assento. Depois fechou a porta e tomou lugar na direção. Conversaram animadamente enquanto trafegavam e quando estacionaram na frente da casa de Cláudia, ele aproveitou:

- Você ainda está me devendo um encontro – cobrou ele.

- Tudo vem – riu ela. – Você venceu! Você escolhe a hora e o lugar e vem me apanhar.

- Combinado. Tchau!

Cláudia saltou do carro e atravessou o portão de sua casa, voltando-se para acompanhar o automóvel de Maurício se afastar. De repente, uma viatura de polícia interrompeu seus suspiros.

- Oi, Cláudia! – cumprimentou Antônio, alegremente, desembarcando do veículo. – Algum amigo seu?

- Só um conhecido... – mentiu ela.

- Conhecido, é? – Antônio estendeu a mão para Cláudia para cumprimentá-la. Ela confiava nele e contou-lhe tudo.

- Acho que estou apaixonada...

- Você é maior de idade e acho que não preciso avisar para se cuidar.

Cláudia percebeu como Antônio mudara depois que provara sua inocência. Era um homem feliz e seguro novamente.

- Entre, Antônio. Minha mãe logo vai chegar do trabalho. Podemos tomar um café e bater um papo.

- Obrigado, Cláudia, mas não quero incomodar. Tenho um trabalho a fazer.

- Já tem alguma pista do estuprador?

- Ainda não – suspirou ele, exteriorizando uma profunda insatisfação.

- E a Paty? Como ela está? – Àquela altura, Cláudia já havia se esquecido do próprio romance e voltou inteiramente a atenção para Antônio, pois percebera algo estranho em seu semblante.

- Ela está bem... – confirmou, por educação.

- Tem certeza?

- Na verdade... – suspirou novamente. – Na verdade, estou com um problema, sim, e por isso vim aqui para conversar. É que... quando ficamos a sós... – Antônio parecia escolher as palavras com cuidado. – É que... ela confunde as coisas, fica com medo...

- Ah, tá... entendi – respondeu Cláudia, compreensiva. – Você vai ter que ter um pouco de paciência com ela...

Antônio calou-se e observou Cláudia com curiosidade.

- Posso fazer uma pergunta?

- Claro.

- Você fala às vezes como se tivesse experiência no assunto. Por acaso, você já sofreu algum tipo de abuso? – A pergunta pegou Cláudia de surpresa e ela não respondeu de imediato. Ele percebeu que a moça se sentira pouco à vontade e se apressou a consertar a situação. – Desculpe, Cláudia, esqueça o que falei. Foi um comentário idiota e sem propósito...

- Eu... eu... – Cláudia engoliu com dificuldade e não conseguiu proferir as palavras. Algo a atormentava e por um instante Antônio pensou que ela iria chorar. Ela respirava irregularmente e o olhar se perdeu em um ponto distante que Antônio não poderia alcançar. Cláudia, sempre tão valente e tão decidida, mostrara seu lado frágil e desprotegido, o que fez com que Antônio passasse a atuar como profissional em vez de amigo.

- Acho que seria melhor você entrar, Cláudia. Você não parece bem – convenceu-a, segurando os cadernos que ela por pouco não deixara cair. Ela aceitou a sugestão e entraram na casa. Enquanto ela se sentava à mesa da cozinha, Antônio trazia-lhe um copo com água que ela bebeu nervosamente.

Antônio observou mais atentamente sua fisionomia e sentiu remorso por ter provocado aquele quadro de nervosismo. Sugeriu levá-la ao pronto-socorro.

- Não, Antônio. Deixe eu ficar com a parte bonita do hospital – pediu ela, voltando a sorrir para tranquilizá-lo, embora seus olhos demonstrassem o contrário.

- Eu sinto muito – disse ele, sentando em uma cadeira à frente dela. – Não tive intenção de fazer você sofrer.

- Não é culpa sua – respondeu Cláudia, suspirando. – É que eu acho que ainda não superei o que vi acontecer a uma amiga minha...

- Esqueça – interrompeu ele, pacientemente.

- Acho que já é hora de falar sobre isso com alguém – desabafou ela. – Você se importa?

- Sou todo ouvidos.

Cláudia esfregou as mãos e torceu os dedos em atitude quase aflitiva e, pouco a pouco, foi descrevendo a cena que há anos a transtornava. Antônio ouvia atentamente sua narrativa, concentrado nos sentimentos que Cláudia sufocara desde sua infância: incompreensão, revolta, remorso, culpa. Ao final, Cláudia caiu em um pranto soluçante e Antônio abraçou-a com carinho, como amigo.

- Agora entendo porque você me xingou daquele jeito... – comentou ele.

Quando a crise emocional passara e após se certificar de que Cláudia ficaria bem, Antônio saiu da casa, refletindo sobre tudo o que ouvira. Passou a ver com outros olhos o drama de sua namorada. De repente, percebeu como ainda precisava aprender para compreender Patrícia e amá-la com coração puro. Mais uma vez Deus o colocara no caminho da descoberta e era preciso seguir adiante, atrás de novas pistas.


.......

Antônio esforçava-se diariamente para rastrear o criminoso, entretanto, a falta de pistas resultou no arquivamento do caso. Voltara às funções rotineiras, como o patrulhamento, e o fato de não poder dar exclusividade à investigação pessoal o aborreceu. Ainda tentara argumentar com seus superiores, mas seus motivos não os convenceram.

Após terminar o expediente, Antônio se dirigiu a casa de Patrícia, pois combinara dar um passeio com ela. Quando se encontraram, resolveram visitar Cláudia e foram caminhando até a casa dela, que ficava a poucos quarteirões dali.

Ao se aproximarem da casa dela, o casal avistou um automóvel estacionado. Cláudia estava no portão conversando com um homem.

- Oi, Cláudia! – bradou Antônio.

- Oi, Antônio! Patrícia?! – Cláudia sorriu para o casal que chegava e abriu o portão para ir ao encontro deles. – Vocês não sabem como eu fico feliz por ver vocês juntos de novo!

- Nós nunca nos separamos – disse Patrícia, orgulhosa.

- Não vai apresentar seu amigo? – interessou-se Antônio.

Cláudia fez as devidas apresentações. Maurício cumprimentou Antônio com um aperto de mão e repetiu o gesto com Patrícia.

- Que coisa estranha... Parece que já nos conhecemos – disse ela, subitamente desconfiada.

- Impressão sua – respondeu Maurício. – Tem muita gente parecida nesse mundo. Bem, já vou indo. Provavelmente vocês querem conversar.

- Não se incomode conosco – disse Antônio. – Podemos visitar a Cláudia outro dia.

- Que é isso? Eu é que tenho todo o tempo para vir vê-la. Tchau, querida! – Maurício beijou Cláudia e olhou profundamente nos olhos de Patrícia. – Felicidades pra vocês.

- Obrigada – murmurou Patrícia.

Maurício seguiu seu caminho e Cláudia convidou Antônio e Patrícia para entrarem. Eles conversaram sobre muitos assuntos: faculdade, festas, também sobre o grupo de contadores de histórias do qual Patrícia desejava participar. A conversa chegou a Maurício e Cláudia contou como se conheceram. Não poupou detalhes. Afirmou que estava apaixonada e que sairia com ele algum dia.

Depois de uma hora e meia, o casal deixou a residência de Cláudia. No caminho de volta, Patrícia comentou com Antônio a estranha sensação que teve com o sujeito. Antônio, por sua vez, não escondia a preocupação com Cláudia, apesar de saber que era responsável e ajuizada, pois toda vez que ouvia falar de Maurício, farejava no ar algo de suspeito.

.......


Estava quase amanhecendo quando Cláudia atendeu ao telefone. Era Maurício. Ainda sonolenta, ela reclamou por ele ter escolhido aquele horário para falar com ela. Além disso, Cláudia estava apreensiva, porque os pais poderiam ouvir a conversa. Ela sempre fora obediente e não escondia nada dos pais, mas estranhamente fora de seu juízo, Cláudia nada contara até o momento sobre seu envolvimento com Maurício.

- Coloque um biquíni e não esqueça o filtro solar – falou ele, enquanto a garota tentava afugentar o sono e entender o que estava acontecendo.

- Biquíni? Filtro solar? – perguntou ela, sussurrando para não acordar os pais. – Mas do que você está falando?

À medida que Maurício falava a respeito dos planos que tinha para eles naquela manhã, Cláudia ficava cada vez mais confusa e sem reação. Difícil explicar o que sentia, mas era como se Maurício exercesse força de atração sobre seus pensamentos e suas atitudes. Ela conseguira murmurar um breve “aceito” e, totalmente desperta, desligou o telefone e voltou para o quarto para preparar uma mochila. Em seguida, saiu discretamente de casa, sufocando de ansiedade.


.......

Na mesma madrugada, Antônio, que estava de plantão, fora chamado às pressas por Ronaldo. Chegando à casa, presenciou uma crise nervosa de Patrícia e ninguém conseguia acalmá-la.

- Ela está ardendo em febre – explicou Adelaide. – Pobrezinha da minha filha...

Antônio segurou Patrícia, esforçando-se por tentar acalmá-la. Ela gritava desesperada para que Antônio a largasse.

- Me larga! Não me machuque mais!

- Querida, sou eu, Tony. Eu te amo, não se lembra?

Patrícia tranquilizou-se quando ouviu a voz dele. Adelaide aproveitou para dar-lhe um calmante.

- É ele, Tony! – exclamou Patrícia, com olhos arregalados.

- Ele quem, Paty? Você está aqui comigo, não precisa ter medo.

- Tony, você não entende! – Patrícia começou a chorar. – O homem que a Cláudia apresentou...

- O que tem ele? – Antônio juntou as sobrancelhas, pressentindo perigo. Patrícia o abraçou com força.

- Me proteja, amor! Ele prometeu... que faria de novo...

Antônio sentiu calafrios. Subitamente se lembrou de Cláudia.

- Sr. Ronaldo, pode fazer o favor de telefonar para a casa de Cláudia?

- Mas a essa hora?!

- Ela está correndo perigo e precisa ser alertada o quanto antes.

Ronaldo convenceu-se e telefonou para a casa da moça. Quando atenderam, pediu para falar com Cláudia e permaneceu imóvel aguardando nova comunicação. Entretanto, uma conversa estranha se desenrolou. Ele desligou subitamente nervoso.

- A mãe da moça disse que ela saiu antes do amanhecer e que ninguém a viu.

- Meu Deus! – disse Antônio. – Preciso ir até lá com urgência! Paty, querida, você vai ficar bem?

- Vou, Tony, mas eu tenho certeza que ele a levou. Por favor, não deixe acontecer a ela o mesmo que aconteceu comigo...

Antônio beijou-a e correu até a viatura.

- Darei notícias – prometeu, enquanto ligava o automóvel. Arrancou e saiu cantando pneus.

OS CONTADORES DE HISTÓRIAS - 6ª PARTE

OS CONTADORES DE HISTÓRIAS - 6ª PARTE



No outro lado da cidade, Antônio estava diante de um homem de meia-idade, tomando café em um balcão de bar.

- O que quer aqui, rapaz? Não quero você perto das minhas filhas, tá entendendo? – O homem não lia os jornais, não tomara conhecimento do feito de Antônio.

- Eu só quero tomar um café em seu estabelecimento, senhor.

- Tome o seu café e caia fora – falou o proprietário do bar, sem papas na língua. – Não precisa nem pagar. Fica por conta da casa.

Antônio sorveu o café vagarosamente, observando o homem enquanto este esfregava o balcão e atendia outro freguês. De vez em quando, o homem espiava Antônio de rabo de olho como se perguntasse se ele não iria acabar aquele café nunca mais. Nervoso e impaciente, mexia nos óculos o tempo todo.

- Por que tanta raiva de mim, Seu José? – perguntou Antônio, calmamente.

- Quem disse que meu nome é José? – O homem ficou apreensivo. Começou a coçar a cabeça.

- O senhor testemunhou contra mim...

- E o que quer? Vá direto ao assunto. Se veio aqui para me ameaçar, se enganou, porque eu não tenho medo de policial, não! – retrucou José, enxugando as gotas de suor que se formavam em suas têmporas.

- Mas como o senhor pode ter tanta certeza de que era eu? – insistiu Antônio, levantando-se da banqueta e ficando cara a cara com o dono do bar.

- Eu, eu... vi o que você fez – gaguejou José, ajeitando novamente os óculos.

- Só uma pergunta: de quantos graus são suas lentes?

José não respondeu imediatamente. Ajeitou os óculos, tirou-os do rosto, olhou para Antônio, espremendo os olhos. Esfregou as lentes no jaleco engordurado e tornou a encaixá-los no rosto.

- Então? – Antônio colocou-o contra a parede.

José parou e suspirou, vencido.

- 2,5 na vista esquerda e 4,0 na direita.

- O senhor não usa esses óculos há muito tempo, não é?

- Eu, eu... comprei faz duas semanas.

- Então quer dizer que no dia em que aquela moça estava sendo agredida, o senhor ainda não usava os óculos?

- Não... – A voz de José foi sumindo.

- Ainda garante que me viu, Seu José? – Antônio sorveu o último gole de café, enquanto José mordia os lábios nervosamente.

- Pode ser que eu tenha me enganado... – confessou José, pigarreando.

- O senhor sabia que falso testemunho é crime, Seu José?

- Mas eu não, não queria... – gaguejou o homem.

- Ainda dá pra consertar.

- Como? – José engoliu em seco e quase saltou por cima do balcão quando Antônio lhe fez a proposta. Estava ansioso por se livrar da polícia. Não gostava de tais complicações com a justiça.

Antônio sorriu vitorioso e deu as instruções a José.

- Quanto custa o café? – perguntou Antônio, abrindo a carteira.

- Cortesia da casa, meu rapaz. Sabe, pelo meu engano.

José piscou para Antônio, que agradeceu e deixou o estabelecimento.


.......


Enquanto dirigia, Antônio refletia sobre a atitude das pessoas que testemunharam contra ele sem ao menos terem certeza de que acusavam a pessoa certa. “Achar que viu é muito fácil”, pensou ele. “Falso testemunho também é crime e criminoso é o indivíduo que desrespeita a lei, seja cometendo pequenos delitos, seja maltratando a vítima...”

Subitamente a angústia apertou seu peito e um nó se formou em sua garanta ao imaginar novamente a cena em que a mulher que amava era covardemente agredida. Nada do que Antônio pudesse falar ou fazer por Patrícia apagaria o que acontecera e o destino de seu relacionamento parecia incerto, pois a situação os afastara drasticamente.

Tanto esforço, de repente, pareceu em vão, porque havia inúmeras dificuldades a superar. Antônio, com seu pensamento lógico a tentar equilibrar o que estava completamente fora do eixo, não era capaz de compreender a dor que as famílias que atendera em toda sua carreira sentiram quando uma situação similar ocorrera. “Nunca fui um bom policial”, culpou-se.  “Treinamento de combate nunca me faltou e sob esse aspecto fui um aluno exemplar, bem como me tornar um investigador criminal. Mas reprovei na disciplina Humanidade, achando que as pessoas eram simplesmente criminosas ou vítimas, e não dei o devido valor ao que sentiam. Foi preciso eu passar à vítima para entender o lado delas”.

Ele suspirou profundamente e, ao se lembrar do ditado “Deus escreve certo por linhas tortas” decidiu tomar uma atitude para mudar, pois a transformação ocorria aos poucos, em seu coração que já batia ansiosamente por colocar em prática tudo o que aprendera. Assim, estacionou em frente da casa de Patrícia e tocou a campainha. Adelaide atendeu-o.

- O que faz aqui, Antônio? É muita audácia da sua parte... – falou Adelaide, enfrentando o próprio medo em defesa da filha.

- Não estou querendo enfrentar ninguém, Dona Adelaide...

- Jamais imaginei que faria minha filha sofrer tanto.

- Eu estou sofrendo tanto quanto todos vocês – respondeu Antônio, com a voz fraca.

- Não venha me falar de sofrimento, seu... seu...

- Dona Adelaide, por favor, me dê apenas alguns minutos para ouvir o que tenho a dizer.

Adelaide não permitiu que ele entrasse, porque o marido não a perdoaria, mas o deixou falar.
Enquanto Antônio tentava convencê-la, contando sobre os novos depoimentos que diminuíam as chances de ele ser culpado, Patrícia apareceu na janela e sorriu para ele.

- Paty! – exclamou, enquanto os olhos brilhavam de satisfação.

Antônio aproveitou para entrar na casa, apesar dos protestos de Adelaide, e Patrícia correu para os seus braços, chorando de felicidade. A mãe presenciou a cena e se calou, comovida com a emoção da filha. Naquele momento percebera que Antônio era mesmo inocente.

- Você não deve ficar aqui, Antônio. O Ronaldo está para chegar e... Por favor, me perdoe.

- Tudo bem. Já vou – disse ele, apertando a mão de Adelaide e beijando Patrícia no rosto.

Antônio saiu da casa e quando atravessou o portão, se deparou com Ronaldo, que saltara do carro. Enraivecido por sua presença, agarrou Antônio pelo colarinho.

- Quantas vezes vou ter que avisar que não quero você perto da minha filha? Agora mesmo você vai ter uma lição!

Ronaldo agrediu Antônio, que não moveu um músculo para se defender.

- Lute como homem, seu covarde!

Ronaldo apunhalou novamente o rapaz e cortou o supercílio de Antônio. O pai de Patrícia estava insano de raiva e não respondeu ao apelo de Adelaide.

- Pare com isso! Ele é inocente!

- Inocente uma ova! Ele é um delinquente e precisa ter seu castigo!

Ronaldo golpeou o estômago de Antônio, que se curvou e ajoelhou de dor. Levantou a cabeça e viu Ronaldo pronto para uma nova agressão. Poderia se defender, mas não queria.

Finalmente, um grito estridente surpreendeu Ronaldo.

- Pare, Papai! Você vai matar a única pessoa que realmente se importa comigo!

Ronaldo ficou imóvel ao ouvir a voz da filha pela primeira vez desde o acidente. Patrícia correu para Antônio e ajoelhou-se ao lado dele.

- Oh, Tony, meu amor, por que deixou que papai te machucasse desse jeito? Vem...

Adelaide preparava compressas para os ferimentos de Antônio. Todos entraram e enquanto isso, Ronaldo desabou em uma poltrona e chorou aliviado pela filha ter voltado a falar.

- Minha criança, você finalmente...

- Não diga nada, papai! O senhor se comportou muito mal esse tempo todo.

- Eu só estava querendo te proteger, minha filha... – explicou ele.

- Castigando o grande amor da minha vida? Não, papai, o senhor só estava pensando na sua vergonha e não em mim. Quis que o Tony fosse preso para diminuir sua própria revolta...

Naquele momento, Ricardo entrou e admirou-se ao ouvir a irmã. Entretanto, quando percebeu Antônio, tentou expulsá-lo da casa.

- Não faça nada contra ele, filho. Eu estava cego de ódio e não conseguia enxergar a verdade. A Paty confirmou que ele é inocente.

Ricardo ainda não aceitara a inocência de Antônio e desconfiou que havia algum tipo de ameaça por trás daquela rápida mudança no comportamento de seu pai. Depois de uma série de explicações da irmã e da mãe, acabou se convencendo e pediu desculpas a Antônio.

- Vou agora mesmo retirar a queixa contra Antônio. Espero que um dia possa me perdoar por esse lamentável engano, meu rapaz – disse Ronaldo, apertando a mão de Antônio e o puxando para um abraço. – Toda essa humilhação vai acabar – continuou Ronaldo. – Obrigado por se preocupar com minha filha.

Mais tarde, Antônio podia respirar aliviado. Assim que Ronaldo retirou a queixa os dois apareceram juntos diante dos colegas de Antônio.

- Quero que conheçam meu futuro genro – informou Ronaldo, orgulhoso.

Antônio foi aplaudido, porque no fundo todos sabiam que ele era inocente, mas faltara coragem para apoiá-lo. Agora, com a família de Patrícia ao seu lado, Antônio ganhara força para encontrar o estuprador e assim garantir a segurança não somente de Patrícia, mas de toda a comunidade.