De dentro da Igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, ele vigia os fundos de uma casa. A casa em que morara algum tempo. Uma mulher estende roupas no varal, vai para dentro de casa e retorna minutos após com outro balde de roupas para estender.
As horas passam lentamente. Na calmaria da igreja, o homem vai e volta para ajoelhar-se, depois volta a vigiar a casa.
- Algum problema, senhor? – pergunta-lhe o pároco, com evidente preocupação, sobressaltando o homem, que orava.
- Nã... não – gagueja, formulando uma resposta. – Estou pagando penitência para Deus.
O pároco sorri, murmura algumas palavras e deixa-o a sós com Deus novamente. E ele, que estivera ali, ora sentado, ora ajoelhado, será que alcançara a misericórdia ou a graça divina? Tampouco se arrependera. Não deseja perder os negócios lucrativos que conquistara por causa da mulher com quem convivera durante anos. A fraqueza dela jogou-o na lama, quando abrira o boletim de ocorrência por violência doméstica. Que espécie de homem as pessoas pensariam que ele era? Não seria aquela imagem que Pedro carregaria.
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A sala e o quarto estão cheios de caixas e sacolas, os armários com portas abertas, e a casa com janelas e portas fechadas, a não ser a porta dos fundos que dá acesso à garagem e para onde Vanessa desloca móveis e objetos. Renato já se encarregara de levar algumas coisas no carro que emprestara do amigo. Logo voltará para levar o restante, e então ela também deixará para trás toda essa vida de sofrimento.
Ela canta e rodopia, feliz, confiante. Mal acredita que encontrara seu grande amor em um homem que assediava praticamente todas as mulheres, e que se transformara por amor a ela, por querer que ela faça parte de sua vida. Ela precisara de muita coragem para se entregar novamente. Agora, Pedro é somente uma lembrança como a página virada em um livro.
Ela ajunta mais uma sacola com roupas que está em seu quarto e para na frente do espelho. Olha sua fisionomia tão mais serena e mais jovial. Quantas vezes tivera que se esconder atrás de base e pó com vergonha das agressões sofridas. Ela toca no rosto, arruma o cabelo e admira a própria imagem. Acha que seus olhos brilham com muita intensidade. O azul está bastante acentuado e o semblante é de uma pessoa inteiramente realizada.
Empolgada com tantos acontecimentos agradáveis, ela não ouve a porta abrir. Continua no quarto fechando uma mochila com objetos pessoais. Atrapalha-se com uma bolsa e deixa uma pulseira cair e escorregar para baixo da cama. Sorridente, ajoelha e apanha o objeto. Levanta, olha orgulhosa para a pulseira que brilha diante de seus olhos. Coloca-a no pulso. Escuta um ruído e fica ainda mais alegre, pois certamente Renato havia voltado. Gira o corpo e sai do quarto.
Um golpe único e surdo derruba-a no chão. Sua mente apaga e permanece na semi-vigília por algum tempo. Com esforço, leva a mão até o nariz e uma mancha grande de sangue cobre o dorso. Tosse.
Sente novo golpe na região da cintura e solta um gemido. Instantaneamente, sua mente para de vaguear. Experimenta sentar e um chute na cabeça atira-a contra a parede. A dor lancinante lança-a no vácuo, na escuridão do espaço sem som. Como uma foto atravessada, Vanessa observa o homem que não reconhece com a visão turva. Renato!, sua mente acusa. Com ele a experiência se repetiu mesmo antes de chegar a conviver. Me deixa... vai... embora!, pensa ter gritado.
Em milésimos de segundos perpassam por sua mente décadas de emoções: desenfreadas, dominadoras, esmagadoras. Dor física e dor emocional – não saberia explicar qual sobrepujava qual; amor e decepção, raiva e desespero, lutam dentro e fora dela. Dolorosamente, abre um milímetro seus olhos inchados para certificar-se de sua decepção antes de agonizar, pois tem certeza que desta vez morrerá. Sente-se apenas uma massa de carne humana esmagada, sem ossos, dilacerada por dentro e por fora.
Em meio à névoa da dor excruciante, a confusão volta a conturbá-la quando avista duas sombras chocando-se contra os móveis restantes. Ergue-se um pouco, enfrentando a dor e afastando o cabelo colado com sangue em seu rosto. Então, percebe que Renato recebia golpes e revidava em outro homem. Pedro! Nova onda de esperança apareceu de algum lugar dentro dela e a faz levantar. Renato e Pedro travam luta corporal. Vanessa grita por socorro. Onde estão todos nessa rua?, pensa, desorientada. Então há um baque surdo quando Renato estatela no chão, inconsciente. Vê Pedro sorrir, vitorioso, e abrir todas as bocas do fogão. Depois, avança na direção dela, arrasta-a para fora da casa e fecha a porta. Enquanto ele a empurra para dentro do veículo emprestado que Renato usara para fazer a mudança, a chave fica dependurada na porta da casa, balançando como um pêndulo em contagem regressiva para a tragédia iminente e certa.
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Vera prossegue na rua sem iluminação pública e deserta, desviando o carro dos buracos. Estaciona em um rancho para gado que ficara abandonado há muitas décadas. Deixa os faróis acesos, confere a munição na pistola e desembarca.
Segue na direção do facho de luz na abertura do rancho e na qual vê os restos enferrujados de uma carroça. Entra no local, esgueirando-se entre as ferramentas dependuradas: pás, enxadas, correntes, correias, e vai até uma porta fechada por fora por uma taramela. Levanta a tranca e abre a porta de madeira.
- Cadê você, seu miserável?
Retira do bolso da calça jeans o celular, pressiona um botão e ilumina o lugar. Um colchão fétido e um cobertor em pior estado estão em um canto do cubículo, uma mesa quadrada de bar contem restos de comida que é devorada por duas ratazanas que, surpreendidas pelo facho de luz, somem no meio das ferragens. A mochila com roupas e objetos pessoais que ela presenciara Pedro ter trazido para o esconderijo não está em lugar algum, prova conclusiva de que o capanga de Ivo havia abandonado o plano. Tenta fazer uma ligação e se frustra ao verificar que não há sinal de celular.
Apressa-se a voltar para o veículo e parte. As coisas estão perdendo o controle, e ela não pode se dar o luxo de perder um segundo sequer.
******
Afonso fiscaliza os preparativos para a gravação do programa de TV que seu eficiente contato na prefeitura encomendara com um pagamento naturalmente superfaturado.
O estúdio está pronto, avisa-lhe o diretor. Então, Afonso clica no celular e avisa:
- Pode entrar.
- Gravação inicia em trinta segundos – reforça o diretor, impaciente. Entraria no ar em todas as redes de TV locais pontualmente às dezenove horas.
Faltando menos de dez segundos, o estúdio é invadido por um sujeito másculo e de semblante impassível.
- Que invasão é essa? – irrita-se o diretor. – Vamos entrar no ar nesse momento. Saiam!
O sujeito é protegido por dois guarda-costas e se posiciona diante das câmeras. Afonso faz sinal para que o diretor prossiga e este, contrariado com a entrada não planejada, dá ordem ao operador do equipamento.
Castro e César aguardam a chamada para o noticiário local, enquanto garfam uma marmita.
- Mas que porra é essa? – chia Castro.
Nesse instante, César atende a ligação no celular.
- Escuta isso, Vera – avisa, ao passo que um homem estrangeiro aparece na tela da TV de plasma.
- Meu nome é Ivo Fernandez e sou ex-combatente da milícia boliviana.
- Quem é esse louco? – explode o diretor e Afonso faz um gesto para que se cale.
Ângela atende alguns clientes na loja quando a transmissão começa, e todos imediatamente param de escolher roupas e concentram sua atenção no telão.
“Estou aqui para dar a todos os habitantes desta cidade uma notícia que mudará para sempre a rotina de cada cidadão.”
- Escutem! – pede Ricardo, enquanto todos na fazenda param de jantar para se aproximarem do televisor.
“Cheguei a esta cidade caótica e parada no tempo – prossegue Ivo – e decidi tomar uma atitude para que Joinville tenha melhor desenvolvimento...”
Os apresentadores do noticiário local do horário ficaram confusos e os técnicos tentam resolver o problema de transmissão. Logo, o diretor informa que os equipamentos haviam sido sabotados e não resta nada a fazer, a não ser assistir ao pronunciamento não informado.
“Vou transformar essa cidade com uma administração correta...”
Alberto larga o notebook no qual cadastrava seu currículo on line e presta atenção ao homem na TV.
“Essa cidade precisa de um representante à altura das expectativas de crescimento e não desse governo fraco e desmotivado...”
Em toda a cidade e região norte onde a transmissão é executada, habitantes param seus afazeres e acompanham o monólogo do sujeito recém-apresentado. Todos ficam pregados diante dos televisores, aguardando o desfecho dessa chamada inesperada. Ivo comunica de forma a dar esperança de desenvolvimento a todos os habitantes.
Acildo e Iracema assistem enquanto aguardam o horário de sair para assistir ao show da filha.
Os pais de Peter, da mesma forma, esperam por uma feliz novidade.
Os investigadores se aproximam do televisor, mas, habituados a duvidar de tudo quanto não apresente provas para acreditar, mantem-se em silêncio apreensivo.
A TV também está ligada no espaço próximo ao palco onde Estéfanie, Vinícius, Peter e Eduardo preparam os equipamentos, mas os jovens estão absortos nos preparativos e nem olham para a tela, que magnetiza os olhos dos garçons. Apenas Vinícius repara em Ivo e entende o sinal para agir. Inseguro, apanha a mochila, confere algo e volta a fechar o zíper.
- Ei! Onde pensa que você vai? – repreende Estéfanie ao perceber que o amigo se esquivava do serviço.
- Ô, Fan! Vê se dá um tempo! Não se tem nem o direito de mijar hoje? – e se afasta resmungando para abafar as críticas da vocalista.
No corredor do banheiro, desveste a carapuça e muda de direção. Avança para a central elétrica do estabelecimento. Larga a mochila no chão, abre com mãos trêmulas e pega um jogo de bananas de dinamite. Como é que eu posso fazer isso?, reflete o garoto, lembrando-se que Ivo prometera que não iria disparar o artefato, que é somente para fortalecer seu blefe enquanto estivesse dando a notícia. Se Vinícius não fizesse sua parte, talvez sua carreira de baixista acabasse antes de começar. Finalmente, pega uma alicate para abrir o armário e plantar a bomba e uma dúvida o assalta: e se Ivo resolver explodir a bomba? Teria tempo para avisar seus amigos?
Gotículas de suor escorrem por suas têmporas enquanto ele fecha a porta do armário elétrico. Ainda falta completar a tarefa. Segue para a cozinha. O gás utilizado para gerar a energia do estabelecimento provém de uma fonte subterrânea e Vinícius deve instalar o explosivo na válvula de entrada. Trêmulo, ele cumpre as ordens e volta para o palco.
- Já não era sem tempo, Víni! Vam’bora ensaiar!
Vinícius engole a grande massa que entope sua laringe e finge não ouvir a transmissão.
“Para provar que sou a saída para Joinville conquistar destaque nacional e internacional, a partir deste momento, estamos tomando posse da prefeitura.”
Castro cospe a comida; Afonso dissimula o sorriso de satisfação; Ângela vê os clientes estarrecidos diante do televisor; Ricardo empalidece; Alberto aumenta o volume da TV; os repórteres das emissoras locais se apressam para rastrear a transmissão instantânea e descobrir se essa loucura tem algum fundamento.
“Meus agentes adquiriram uma tonelada de explosivos, que estão instalados em pontos de conexão e interseção da rede subterrânea do gás natural.”
César sente um choque paralisante e encara Castro, que exprime:
- A planta! Foi por isso que roubaram a planta do gasoduto! Como não deduzi isso antes?
“As bombas estão plantadas em locais estratégicos...”
A população diante do televisor acompanha em desespero, mal acreditando no que ouve.
“O hospital municipal na avenida Getúlio Vargas; a farmácia-escola; a catedral religiosa; o colégio da avenida JK; o hospital infantil na rua Araranguá; os shoppings da cidade; os terminais de ônibus central, sul e norte; as universidades; o teatro Juarez Machado; o terminal rodoviário e, finalmente, a danceteria Mansão que vai ser a primeira a sofrer as consequências do atraso dos seus representantes políticos.”
Estéfanie e os garotos ensaiam, portanto, nem eles, nem os garçons ou os primeiros clientes ouvem o pronunciamento. Porém, os pais dela e dos garotos entram em desespero e começam a telefonar.
Os celulares chamam insistentemente, aumentando a apreensão dos familiares.
“Prefeito, meu recado vai agora diretamente para você – continua Ivo, confiante. – Você tem uma hora para renunciar ao cargo e me nomear oficialmente. Uma hora, nem um minuto a mais”.
Afonso sinaliza para o contrarregra cortar a transmissão e, de repente, todo o estúdio sente o peso de suas ameaças.
Os apresentadores entram finalmente anunciando a onda terrorista que atingira a cidade. Toda a cidade para.
Em exatos dez minutos o prefeito da cidade convoca uma coletiva de imprensa e anuncia que não cederá às ameaças.
- Nós estamos preparados para coibir e combater esse tipo de ataques e não entregaremos o governo a quem quer que seja. Diante de um regime democrático nossa obrigação é representar a comunidade com o voto popular e não com loucos que acham que...
E a transmissão é interrompida.
*****
Renato abre os olhos devagar e sente-se zonzo e desorientado. Seus olhos lacrimejam imediatamente e seu peito arde como se não restasse nenhum átomo de oxigênio no universo. Parece flutuar tal como um dirigível sem rumo para explodir no ar.
As células olfativas captam um odor: gás. O oxigênio já havia sido totalmente contaminado e Renato mal pode se mexer. Sente-se prisioneiro dentro de seu próprio corpo e a morte chega até ele, desejosa e inexpugnável. Contudo, a imagem de Vanessa surge em seu cérebro agonizante. Ela, a mulher que lhe ensinara como ser capaz de amar. Em um instante, a vê sendo torturada e percebe que não fora imaginação. Isso o fortalece, permite-lhe um único esforço para escapar da mão da morte e resgatar a si mesmo para que Vanessa tenha chance de viver. Arrasta-se até a porta, ergue-se com dificuldade e ao tocar no trinco o telefone celular caído no ambiente toca...
Renato abre a porta e sai cambaleando, mas a casa estremece e uma explosão gigante eclode no ar como a erupção de um vulcão.
Os vizinhos, em pânico, abandonam suas casas com os filhos no colo, logo após o prefeito ter garantido que não haveria renúncia alguma. Os comerciantes fogem, os motoristas largam os veículos no engarrafamento entre a rótula do posto de saúde. Os fiéis na igreja escapam após o estrondo.
Nem foi preciso acionar o corpo de bombeiros, já que a densa nuvem e os chuviscos de materiais indicaram o local. O fogo se espalha rapidamente e os fios de alta tensão derretem e causam pequenos novos curtos.
*****
- Vamos logo! Entra aí, sua vadia, vagabunda!
- Nãããõ, por favor... – implora Vanessa, petrificada de dor e medo – Pedro, por favor, por favor... eu te amei tanto...
- Cadela! Puta! – ele repete incansavelmente, sentindo prazer e euforia a cada novo insulto.
Empurra-a para dentro de uma servidão nas imediações da Rua São Paulo com a Getúlio Vargas. Seu ódio cego impede-o de notar a desesperada correria de pessoas que se acotovelam e tentam embarcar em ônibus e fugir dos locais anunciados. Pedro quer apenas a vingança para saciar seu ódio com a violência deliberada e não há freio para a crueldade planejada.
Ele cutuca-a com um revólver com a intenção de aterrorizá-la até o fim. É assim que se sente vitorioso, mostrando sua força. Avança com ela, esgueirando-se nas sombras, até a danceteria, que já começava a formar filas na portaria. Empurra sua vítima para uma porta lateral que destranca sem dificuldade. Há uma movimentação desnecessária no ambiente, mas ele não se importa. Pega de dentro do bolso da calça uma algema e olha com admiração para as argolas. Roubara-a de um policial fazia algum tempo e sabia que o objeto teria utilidade algum dia. Colocou as algemas em Vanessa e prendeu as mãos dela em um cano de ferro. Seus olhos chamuscam de ódio quando ele desfere o primeiro soco nela, logo abaixo da costela. Vanessa grita e suplica por piedade, contudo, o primeiro chute na tíbia e o segundo soco no rosto deixam-na dependurada pela algema.
Lá dentro, a música soa quase que inocentemente, atravessando a porta trancada.
Por um olho desfigurado, Vanessa enxerga mais um avanço e só o que vê é uma explosão de fogos, com chuva de estrelas no infinito.