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Joinville, Santa Catarina, Brazil

ENGRENAGEM DO CRIME – 12º CAPÍTULO – SHOW DE SANGUE – 1ª PARTE


De dentro da Igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, ele vigia os fundos de uma casa. A casa em que morara algum tempo. Uma mulher estende roupas no varal, vai para dentro de casa e retorna minutos após com outro balde de roupas para estender.

As horas passam lentamente. Na calmaria da igreja, o homem vai e volta para ajoelhar-se, depois volta a vigiar a casa.

- Algum problema, senhor? – pergunta-lhe o pároco, com evidente preocupação, sobressaltando o homem, que orava.

- Nã... não – gagueja, formulando uma resposta. – Estou pagando penitência para Deus.

O pároco sorri, murmura algumas palavras e deixa-o a sós com Deus novamente. E ele, que estivera ali, ora sentado, ora ajoelhado, será que alcançara a misericórdia ou a graça divina? Tampouco se arrependera. Não deseja perder os negócios lucrativos que conquistara por causa da mulher com quem convivera durante anos. A fraqueza dela jogou-o na lama, quando abrira o boletim de ocorrência por violência doméstica. Que espécie de homem as pessoas pensariam que ele era? Não seria aquela imagem que Pedro carregaria.


*****



A sala e o quarto estão cheios de caixas e sacolas, os armários com portas abertas, e a casa com janelas e portas fechadas, a não ser a porta dos fundos que dá acesso à garagem e para onde Vanessa desloca móveis e objetos. Renato já se encarregara de levar algumas coisas no carro que emprestara do amigo. Logo voltará para levar o restante, e então ela também deixará para trás toda essa vida de sofrimento.

Ela canta e rodopia, feliz, confiante. Mal acredita que encontrara seu grande amor em um homem que assediava praticamente todas as mulheres, e que se transformara por amor a ela, por querer que ela faça parte de sua vida. Ela precisara de muita coragem para se entregar novamente. Agora, Pedro é somente uma lembrança como a página virada em um livro.

Ela ajunta mais uma sacola com roupas que está em seu quarto e para na frente do espelho. Olha sua fisionomia tão mais serena e mais jovial. Quantas vezes tivera que se esconder atrás de base e pó com vergonha das agressões sofridas. Ela toca no rosto, arruma o cabelo e admira a própria imagem. Acha que seus olhos brilham com muita intensidade. O azul está bastante acentuado e o semblante é de uma pessoa inteiramente realizada.

Empolgada com tantos acontecimentos agradáveis, ela não ouve a porta abrir. Continua no quarto fechando uma mochila com objetos pessoais. Atrapalha-se com uma bolsa e deixa uma pulseira cair e escorregar para baixo da cama. Sorridente, ajoelha e apanha o objeto. Levanta, olha orgulhosa para a pulseira que brilha diante de seus olhos. Coloca-a no pulso. Escuta um ruído e fica ainda mais alegre, pois certamente Renato havia voltado. Gira o corpo e sai do quarto.

Um golpe único e surdo derruba-a no chão. Sua mente apaga e permanece na semi-vigília por algum tempo. Com esforço, leva a mão até o nariz e uma mancha grande de sangue cobre o dorso. Tosse.

Sente novo golpe na região da cintura e solta um gemido. Instantaneamente, sua mente para de vaguear. Experimenta sentar e um chute na cabeça atira-a contra a parede. A dor lancinante lança-a no vácuo, na escuridão do espaço sem som. Como uma foto atravessada, Vanessa observa o homem que não reconhece com a visão turva. Renato!, sua mente acusa. Com ele a experiência se repetiu mesmo antes de chegar a conviver. Me deixa... vai... embora!, pensa ter gritado.

Em milésimos de segundos perpassam por sua mente décadas de emoções: desenfreadas, dominadoras, esmagadoras. Dor física e dor emocional – não saberia explicar qual sobrepujava qual; amor e decepção, raiva e desespero, lutam dentro e fora dela. Dolorosamente, abre um milímetro seus olhos inchados para certificar-se de sua decepção antes de agonizar, pois tem certeza que desta vez morrerá. Sente-se apenas uma massa de carne humana esmagada, sem ossos, dilacerada por dentro e por fora.

Em meio à névoa da dor excruciante, a confusão volta a conturbá-la quando avista duas sombras chocando-se contra os móveis restantes. Ergue-se um pouco, enfrentando a dor e afastando o cabelo colado com sangue em seu rosto. Então, percebe que Renato recebia golpes e revidava em outro homem. Pedro! Nova onda de esperança apareceu de algum lugar dentro dela e a faz levantar. Renato e Pedro travam luta corporal. Vanessa grita por socorro. Onde estão todos nessa rua?, pensa, desorientada. Então há um baque surdo quando Renato estatela no chão, inconsciente. Vê Pedro sorrir, vitorioso, e abrir todas as bocas do fogão. Depois, avança na direção dela, arrasta-a para fora da casa e fecha a porta. Enquanto ele a empurra para dentro do veículo emprestado que Renato usara para fazer a mudança, a chave fica dependurada na porta da casa, balançando como um pêndulo em contagem regressiva para a tragédia iminente e certa.


*****


Vera prossegue na rua sem iluminação pública e deserta, desviando o carro dos buracos. Estaciona em um rancho para gado que ficara abandonado há muitas décadas. Deixa os faróis acesos, confere a munição na pistola e desembarca.

Segue na direção do facho de luz na abertura do rancho e na qual vê os restos enferrujados de uma carroça. Entra no local, esgueirando-se entre as ferramentas dependuradas: pás, enxadas, correntes, correias, e vai até uma porta fechada por fora por uma taramela. Levanta a tranca e abre a porta de madeira.

- Cadê você, seu miserável?

Retira do bolso da calça jeans o celular, pressiona um botão e ilumina o lugar. Um colchão fétido e um cobertor em pior estado estão em um canto do cubículo, uma mesa quadrada de bar contem restos de comida que é devorada por duas ratazanas que, surpreendidas pelo facho de luz, somem no meio das ferragens. A mochila com roupas e objetos pessoais que ela presenciara Pedro ter trazido para o esconderijo não está em lugar algum, prova conclusiva de que o capanga de Ivo havia abandonado o plano. Tenta fazer uma ligação e se frustra ao verificar que não há sinal de celular.

Apressa-se a voltar para o veículo e parte. As coisas estão perdendo o controle, e ela não pode se dar o luxo de perder um segundo sequer.


******


Afonso fiscaliza os preparativos para a gravação do programa de TV que seu eficiente contato na prefeitura encomendara com um pagamento naturalmente superfaturado.

O estúdio está pronto, avisa-lhe o diretor. Então, Afonso clica no celular e avisa:

- Pode entrar.

- Gravação inicia em trinta segundos – reforça o diretor, impaciente. Entraria no ar em todas as redes de TV locais pontualmente às dezenove horas.

Faltando menos de dez segundos, o estúdio é invadido por um sujeito másculo e de semblante impassível.

- Que invasão é essa? – irrita-se o diretor. – Vamos entrar no ar nesse momento. Saiam!

O sujeito é protegido por dois guarda-costas e se posiciona diante das câmeras. Afonso faz sinal para que o diretor prossiga e este, contrariado com a entrada não planejada, dá ordem ao operador do equipamento.

Castro e César aguardam a chamada para o noticiário local, enquanto garfam uma marmita.

- Mas que porra é essa? – chia Castro.

Nesse instante, César atende a ligação no celular.

- Escuta isso, Vera – avisa, ao passo que um homem estrangeiro aparece na tela da TV de plasma.

- Meu nome é Ivo Fernandez e sou ex-combatente da milícia boliviana.

- Quem é esse louco? – explode o diretor e Afonso faz um gesto para que se cale.

Ângela atende alguns clientes na loja quando a transmissão começa, e todos imediatamente param de escolher roupas e concentram sua atenção no telão.

“Estou aqui para dar a todos os habitantes desta cidade uma notícia que mudará para sempre a rotina de cada cidadão.”

- Escutem! – pede Ricardo, enquanto todos na fazenda param de jantar para se aproximarem do televisor.

“Cheguei a esta cidade caótica e parada no tempo – prossegue Ivo – e decidi tomar uma atitude para que Joinville tenha melhor desenvolvimento...”

Os apresentadores do noticiário local do horário ficaram confusos e os técnicos tentam resolver o problema de transmissão. Logo, o diretor informa que os equipamentos haviam sido sabotados e não resta nada a fazer, a não ser assistir ao pronunciamento não informado.

“Vou transformar essa cidade com uma administração correta...”

Alberto larga o notebook no qual cadastrava seu currículo on line e presta atenção ao homem na TV.

“Essa cidade precisa de um representante à altura das expectativas de crescimento e não desse governo fraco e desmotivado...”

Em toda a cidade e região norte onde a transmissão é executada, habitantes param seus afazeres e acompanham o monólogo do sujeito recém-apresentado. Todos ficam pregados diante dos televisores, aguardando o desfecho dessa chamada inesperada. Ivo comunica de forma a dar esperança de desenvolvimento a todos os habitantes.

Acildo e Iracema assistem enquanto aguardam o horário de sair para assistir ao show da filha.

Os pais de Peter, da mesma forma, esperam por uma feliz novidade.

Os investigadores se aproximam do televisor, mas, habituados a duvidar de tudo quanto não apresente provas para acreditar, mantem-se em silêncio apreensivo.

A TV também está ligada no espaço próximo ao palco onde Estéfanie, Vinícius, Peter e Eduardo preparam os equipamentos, mas os jovens estão absortos nos preparativos e nem olham para a tela, que magnetiza os olhos dos garçons. Apenas Vinícius repara em Ivo e entende o sinal para agir. Inseguro, apanha a mochila, confere algo e volta a fechar o zíper.

- Ei! Onde pensa que você vai? – repreende Estéfanie ao perceber que o amigo se esquivava do serviço.

- Ô, Fan! Vê se dá um tempo! Não se tem nem o direito de mijar hoje? – e se afasta resmungando para abafar as críticas da vocalista.

No corredor do banheiro, desveste a carapuça e muda de direção. Avança para a central elétrica do estabelecimento. Larga a mochila no chão, abre com mãos trêmulas e pega um jogo de bananas de dinamite. Como é que eu posso fazer isso?, reflete o garoto, lembrando-se que  Ivo prometera que não iria disparar o artefato, que é somente para fortalecer seu blefe enquanto estivesse dando a notícia. Se Vinícius não fizesse sua parte, talvez sua carreira de baixista acabasse antes de começar. Finalmente, pega uma alicate para abrir o armário e plantar a bomba e uma dúvida o assalta: e se Ivo resolver explodir a bomba? Teria tempo para avisar seus amigos?

Gotículas de suor escorrem por suas têmporas enquanto ele fecha a porta do armário elétrico. Ainda falta completar a tarefa. Segue para a cozinha. O gás utilizado para gerar a energia do estabelecimento provém de uma fonte subterrânea e Vinícius deve instalar o explosivo na válvula de entrada. Trêmulo, ele cumpre as ordens e volta para o palco.

- Já não era sem tempo, Víni! Vam’bora ensaiar!

Vinícius engole a grande massa que entope sua laringe e finge não ouvir a transmissão.

“Para provar que sou a saída para Joinville conquistar destaque nacional e internacional, a partir deste momento, estamos tomando posse da prefeitura.”

Castro cospe a comida; Afonso dissimula o sorriso de satisfação; Ângela vê os clientes estarrecidos diante do televisor; Ricardo empalidece; Alberto aumenta o volume da TV; os repórteres das emissoras locais se apressam para rastrear a transmissão instantânea e descobrir se essa loucura tem algum fundamento.

“Meus agentes adquiriram uma tonelada de explosivos, que estão instalados em pontos de conexão e interseção da rede subterrânea do gás natural.”

César sente um choque paralisante e encara Castro, que exprime:

- A planta! Foi por isso que roubaram a planta do gasoduto! Como não deduzi isso antes?

“As bombas estão plantadas em locais estratégicos...”

A população diante do televisor acompanha em desespero, mal acreditando no que ouve.

“O hospital municipal na avenida Getúlio Vargas; a farmácia-escola; a catedral religiosa; o colégio da avenida JK; o hospital infantil na rua Araranguá; os shoppings da cidade; os terminais de ônibus central, sul e norte; as universidades; o teatro Juarez Machado; o terminal rodoviário e, finalmente, a danceteria Mansão que vai ser a primeira a sofrer as consequências do atraso dos seus representantes políticos.”

Estéfanie e os garotos ensaiam, portanto, nem eles, nem os garçons ou os primeiros clientes ouvem o pronunciamento. Porém, os pais dela e dos garotos entram em desespero e começam a telefonar.

Os celulares chamam insistentemente, aumentando a apreensão dos familiares.

“Prefeito, meu recado vai agora diretamente para você – continua Ivo, confiante. – Você tem uma hora para renunciar ao cargo e me nomear oficialmente. Uma hora, nem um minuto a mais”.

Afonso sinaliza para o contrarregra cortar a transmissão e, de repente, todo o estúdio sente o peso de suas ameaças.

Os apresentadores entram finalmente anunciando a onda terrorista que atingira a cidade. Toda a cidade para.

Em exatos dez minutos o prefeito da cidade convoca uma coletiva de imprensa e anuncia que não cederá às ameaças.

- Nós estamos preparados para coibir e combater esse tipo de ataques e não entregaremos o governo a quem quer que seja. Diante de um regime democrático nossa obrigação é representar a comunidade com o voto popular e não com loucos que acham que...

E a transmissão é interrompida.


*****


Renato abre os olhos devagar e sente-se zonzo e desorientado. Seus olhos lacrimejam imediatamente e seu peito arde como se não restasse nenhum átomo de oxigênio no universo. Parece flutuar tal como um dirigível sem rumo para explodir no ar.

As células olfativas captam um odor: gás. O oxigênio já havia sido totalmente contaminado e Renato mal pode se mexer. Sente-se prisioneiro dentro de seu próprio corpo e a morte chega até ele, desejosa e inexpugnável. Contudo, a imagem de Vanessa surge em seu cérebro agonizante. Ela, a mulher que lhe ensinara como ser capaz de amar. Em um instante, a vê sendo torturada e percebe que não fora imaginação. Isso o fortalece, permite-lhe um único esforço para escapar da mão da morte e resgatar a si mesmo para que Vanessa tenha chance de viver. Arrasta-se até a porta, ergue-se com dificuldade e ao tocar no trinco o telefone celular caído no ambiente toca...

Renato abre a porta e sai cambaleando, mas a casa estremece e uma explosão gigante eclode no ar como a erupção de um vulcão.

Os vizinhos, em pânico, abandonam suas casas com os filhos no colo, logo após o prefeito ter garantido que não haveria renúncia alguma. Os comerciantes fogem, os motoristas largam os veículos no engarrafamento entre a rótula do posto de saúde. Os fiéis na igreja escapam após o estrondo.

Nem foi preciso acionar o corpo de bombeiros, já que a densa nuvem e os chuviscos de materiais indicaram o local. O fogo se espalha rapidamente e os fios de alta tensão derretem e causam pequenos novos curtos.


*****


- Vamos logo! Entra aí, sua vadia, vagabunda!

- Nãããõ, por favor... – implora Vanessa, petrificada de dor e medo – Pedro, por favor, por favor... eu te amei tanto...

- Cadela! Puta! – ele repete incansavelmente, sentindo prazer e euforia a cada novo insulto.

Empurra-a para dentro de uma servidão nas imediações da Rua São Paulo com a Getúlio Vargas. Seu ódio cego impede-o de notar a desesperada correria de pessoas que se acotovelam e tentam embarcar em ônibus e fugir dos locais anunciados. Pedro quer apenas a vingança para saciar seu ódio com a violência deliberada e não há freio para a crueldade planejada.

Ele cutuca-a com um revólver com a intenção de aterrorizá-la até o fim. É assim que se sente vitorioso, mostrando sua força. Avança com ela, esgueirando-se nas sombras, até a danceteria, que já começava a formar filas na portaria. Empurra sua vítima para uma porta lateral que destranca sem dificuldade. Há uma movimentação desnecessária no ambiente, mas ele não se importa. Pega de dentro do bolso da calça uma algema e olha com admiração para as argolas. Roubara-a de um policial fazia algum tempo e sabia que o objeto teria utilidade algum dia. Colocou as algemas em Vanessa e prendeu as mãos dela em um cano de ferro. Seus olhos chamuscam de ódio quando ele desfere o primeiro soco nela, logo abaixo da costela. Vanessa grita e suplica por piedade, contudo, o primeiro chute na tíbia e o segundo soco no rosto deixam-na dependurada pela algema.

Lá dentro, a música soa quase que inocentemente, atravessando a porta trancada.

Por um olho desfigurado, Vanessa enxerga mais um avanço e só o que vê é uma explosão de fogos, com chuva de estrelas no infinito.

ENGRENAGEM DO CRIME – 11º CAPÍTULO - DOWNLOAD DO TERROR – 3ª PARTE



Estéfanie prepara um drinque com habilidade. Já não se desgasta tanto com sua dupla jornada e ainda se diverte com os clientes do bar, muitos, amigos seus. Para os mais ousados, ela já desenvolvera uma estratégia:

- Coloco chá no lugar do uísque, engraçadinho!

Fora as gorjetas que lhe rendiam um dinheiro para aplicar futuramente, Estéfanie anda mais despreocupada: vai bem no colégio; como ela não ocupa mais tempo com ensaios, os pais baixaram a guarda com ela; Peter dera um tempo nas perseguições; ela tem bons patrões na panificadora; Vinícius parece mais responsável depois do tratamento; Eduardo está também se tratando para se adaptar a surdez parcial e aproveita para estudar música de um jeito novo.

Jairo é o único que, quando aparece, tira-lhe do sério com suas propostas supostamente mais lucrativas. Insinua formas mais remuneradas de Estéfanie apressar o pagamento da dívida que nem sequer existe. Inicialmente, ela pouco entendia o que o patrão queria sugerir, mas aos poucos ele foi dando sinais evidentes de quais “formas” eram os tais adiantamentos de quitação da dívida, das quais ela sempre se esquivou. Nos últimos finais de semana, contudo, ele não apareceu para perturbá-la e a garota está alegre e satisfeita.

Prepara outro drinque para um cliente e dá de cara com Peter.

- Preciso falar com você – diz ele, tentando vencer o volume da música.

- Não posso. Não vê que eu tô trabalhando?

- É importante.

Estéfanie convence-se e sai do bar, dando a volta até se encontrar com o amigo. Quando se aproxima, vê que ele, decerto, participara de um “esquenta” antes de vir para a danceteria.

- Eu quero dizer que eu tô na tua – fala, embriagado, mas parecendo sincero. – Eu quero te pedir em namoro, Fan.

- Peter, isso não é local para isso, então, a gente conversa outro dia, tá bom? – responde, furiosa.

Irritado, o garoto segue-a até a entrada do bar, mas ela o ignora. Quando volta para o seu trabalho, Nano avisa-a que Jairo mandou que ela fosse ao escritório.

- Hoje todas as assombrações resolveram fazer hora extra? – Nano observa-a, perplexo. – Deixa pra lá.

Bufando, Estéfanie se encaminha ao escritório de Jairo. Quando ia subir o primeiro lance da escadaria, Peter aparece na frente dela exigindo explicações. Estéfanie, afoita, expulsa o garoto e sobe, decidida.

Leva a mão até o botão do interfone, mas a porta se abre antes de ela chamar. Jairo pede para ela entrar. Ela toma fôlego e acata a ordem.

Jairo encosta a porta, que não se fecha como ele pretendia e nesse momento Peter aparece na entrada. Quis bater, mas vê que a porta está entreaberta. “Por que me chamou aqui?”, escuta Estéfanie perguntar e então aguarda.

Jairo circula no pequeno escritório enquanto beberica um drinque, o que deixa Estéfanie atenta e apreensiva. Ele sempre bebia na frente dela, mas algo em sua expressão deixa-a preocupada. Começa a se afastar quando Jairo se aproxima demais e não fala nada, apenas observa-a com um olhar estranho.

Então ele começa a falar, a intimidá-la, a oferecer coisas que ela já explicara não estar interessada. E durante esse ensaio, revela que mentira, que Estéfanie não havia assinado nenhum contrato. Naturalmente, ela se enfurece. Estava trabalhando de graça para ele havia meses por causa de um falso contrato.

- Seu bandido nojento! Por que fez isso? – diz, aos gritos.

- Por que eu queria você por perto – revela –, e ofereci de várias maneiras o meu interesse por você.

- Nojento! – repete, com uma revolta que jamais imaginara sentir.

Com um movimento muito rápido, Jairo agarra-a para beijá-la à força.

Peter, tonto por causa da bebida, não conseguia compreender o que eles diziam, mas a partir do momento em que presencia essa cena, sente uma raiva incontrolável e invade a sala. Dá uma chave de braço em Jairo, que facilmente se liberta e esmurra o garoto, que é arremessado para longe. Estéfanie corre para socorrê-lo, mas é fortemente agredida e forçada contra a parede.

A cabeça de Peter ribomba uma tonelada de fogos de artifício e do lugar em que está caído, enxerga descoordenadamente. Estéfanie pede socorro, mas ele não consegue se mover. Juntando todas as forças, o garoto levanta, apanha o lixeiro de metal debaixo da mesa do escritório e golpeia Jairo, nocauteando-o.

- Vem, Fan, vamos sair daqui.

Estéfanie chora e aceita a oferta de Peter. Qualquer coisa para sair desse lugar horrível. Na saída do estabelecimento, Peter pergunta se ela quer chamar a polícia, ao que ela nega energicamente.

Enquanto aguardam um táxi, Vera se preparava para entrar na danceteria e percebe a situação. Aproxima-se da jovem e pergunta o que havia acontecido. Estéfanie não gosta de Vera, mesmo assim, relata o fato, mas implora para ir embora. Vera leva-os até o estacionamento, deixando-os dentro de seu carro.

- Volto logo, não saiam daqui.

Vera volta para a danceteria. Pede para falar com o chefe da segurança e é levada até uma sala geral. Enquanto aguarda o retorno do segurança, Vera invade a sala de monitoramento, aciona alguns comandos no painel e localiza a câmera que fica na entrada do escritório de Jairo. Ela aciona outro comando e rapidamente substitui o CD-ROM do drive e esconde-o na cintura da saia, por baixo da blusa. Sai da sala de monitoramento e fecha a porta no exato momento em que o chefe dos vigilantes aparece. Ela apresenta a credencial de policial e avisa que ouviu o suposto planejamento de um arrastão que aconteceria na danceteria. Depois da denúncia, volta para o estacionamento e procura acalmar Estéfanie. Sem revelar sua verdadeira identidade, Vera sugere que Estéfanie abra boletim de ocorrência contra Jairo. Em seguida, leva a ambos para casa.


*****

Ricardo amarga outra noite mal dormida desde que fora envolvido no golpe de Afonso. Pela centésima vez naqueles dias, relembra o momento em que fora algemado e detido.

- Está preso, Ricardo, quer que eu leia os seus direitos? – ironiza Vera.

- Agente, não é melhor averiguar antes de deter os meliantes? – questiona Castro.

- Ok. Vamos conferir a carga de coca.

- Coca?! – Ricardo empalidece. – Do que está falando? Aquele motorista trouxe chocolate – ri Ricardo, inocentemente.

- Chocolate – diz Vera. – Boa estratégia.

Com as armas em punho, Vera e Castro se aproximam do caminhão e, cautelosamente, verificam a carga. Metade da encomenda já havia sido guardada.

Castro abre o lacre de uma caixa e levanta as abas. Começa a suspeitar de que Vera havia se precipitado. Olha de soslaio para a agente, que o incentiva a prosseguir com o flagrante. As caixas de bombons estão normais, aparentemente. Castro rasga a embalagem plástica e ergue a aba superior. Confere o conteúdo. São bombons, nada mais, nada menos, que bombons de chocolate. Abre outra caixa: somente bombons. Vera observa impassível enquanto Castro começa a se enfurecer.

- Capitão, vou lhe mostrar.

Vera apanha um canivete e perfura a segunda fileira de embalagens. Quando retira a lâmina, aspira e passa-a para o capitão que, convencido, faz um corte atravessando toda a fileira de caixas. As caixas de cima camuflam a verdadeira carga: pasta base para produção de cocaína.

Algema também o motorista, que aponta Alberto como responsável. Vera aciona o comando central que, quarenta minutos após, chega com novas viaturas. Ricardo, Alberto e o motorista são detidos e levados para a delegacia prestar esclarecimento.


*****


Ricardo está no pátio da clínica quando vê um veículo chegar.

- Merda! – resmunga ao lembrar-se de que era o domingo das visitas. Estava preparado para perder os pacientes após o escândalo.

Começa a tecer mentalmente argumentos para manter as pessoas na clínica. Quando vê a morena de cabelos cacheados sair de dentro do carro, ele se belisca.

Ângela veste short, blusa de renda, sandálias e usa óculos de sol. Ricardo acha-a deslumbrante e se apressa a recebê-la.

- Oi, sei que pode não ser um bom dia para visitas, mas aceitei seu convite para conhecer a clínica.

Ele beija-lhe no rosto e sente o perfume amadeirado que ela usa.

- Lamento por seu marido, Ângela. Ele deve ter sido envolvido nesse golpe tanto quanto eu.

- Não tenho tanta certeza – responde, enquanto retira os óculos escuros. – Nós não somos mais uma família – diz, com expressão séria. Ricardo pensou não ter compreendido e ela esclarece: – Nós não estávamos bem havia muito tempo, e esse assunto ajudou a resolver as coisas entre nós.

- Mas, pense melhor, ele é louco por você – Ricardo defende, com sinceridade. – Ele me contou naquele dia.

Ângela não reage com essa informação, pois percebe que não adianta mais mentir para si mesma. A rotina tinha engolido a vida dela e a de Alberto; conviver apenas por hábito não condizia com ela, embora houvesse de fato amado Alberto. Nem tudo era tão ruim, ela reflete, pois aprendera a ser uma mulher mais íntegra e independente, e menos fútil.

- Posso te oferecer um café? – pergunta Ricardo, subitamente nervoso. – Depois levo você para conhecer as dependências da clínica.

Ela aquiesce e entra no local onde funciona a cozinha. Dois pacientes cuidam dos afazeres com o café e preparam o ambiente para a chegada dos familiares.

Ricardo pede licença e apanha duas xícaras, café puro para ele, com leite e adoçante para a convidada e ambos vão se sentar a uma mesa na varanda.

- Quer comer alguma coisa? Busco num minuto – oferece, solícito.

- Não, obrigada, o café está ótimo.

Conversam inicialmente sobre a emboscada em que Ricardo havia se metido e que teria de provar inocência. Depois Ricardo mostra a Ângela toda a propriedade e explica o tipo de trabalho que realiza ali. Ela ouve tudo, demonstrando sincero interesse. Logo, suas insatisfações pessoais são trazidas à tona e Ângela revela que admira a dedicação de Ricardo pela comunidade terapêutica.

Eles caminham lado a lado e começam a avistar os primeiros grupos de familiares chegarem para a visita. Todos os pertences são inspecionados com cuidado e então quando os filhos reencontram os pais, ou as mães choram ao abraçar filhos, ou esposas beijam os companheiros, há um momento de grande comoção em Ângela, que logo trata de pedir desculpas.

Ricardo, embevecido com a presença dela, acha-a mais linda que nunca com os olhos e nariz vermelhos após ter chorado.

Convida-a para passar o dia com eles e ao contrário do que Ricardo imaginara, os familiares dos pacientes vieram até ele para expressar sua profunda revolta com o erro da polícia e transmitiram-lhe conforto e confiança.



*****


Estéfanie acorda às 11h30, como em todos os domingos, pois a mãe e o pai faziam questão de almoçar pontualmente às 12 horas.

Eles estão alegres e falam sem parar, contando histórias ocorridas entre os parentes e os vizinhos, relembram situações da época em que se conheceram, mas Estéfanie se força a engolir o travo e o amargor na boca. Subitamente lembra que seus pais haviam comentado que estão completando vinte anos de casamento. Ela procura sorrir, pede desculpas pela desatenção e parabeniza os pais com abraços.

Ela sempre admirara seus pais, porque nunca se abalavam com as dificuldades. Normalmente eles entravam em acordo para resolver os problemas, um ajudava o outro, independente da tarefa a ser realizada. Em sua família não exista “serviço de homem” ou “serviço de mulher”. Tanto o pai lavava e enxugava louças, varria a casa, cuidava da roupa ou arrumava as camas, como sua mãe pintava a casa, lavava o carro, carregava telhas ou tijolos ou preparava concreto, entre outras atividades. Isso era algo diferente do que Estéfanie ouvia de seus colegas de escola e amigos, em cujas casas, as atividades domésticas ficavam exclusivamente a cargo da mulher.

Diante de suas reflexões, Estéfanie considera contar os apuros pelos quais passara, mas resiste à ideia de roubar de seus pais esse momento de sincera alegria. Assim, dissimula o abalo que a covardia de Jairo lhe causara, almoça, ajuda os pais com a louça e vai para seu quarto.

Chorara sem parar até quase amanhecer quando a exaustão a arrastara para um sono profundo e sem sonhos. A lembrança de ter sido enganada provoca-lhe grande tristeza, mas o ato de violência da qual quase fora vítima tornara-a mais frágil. Tivera vontade de abraçar alguém para sentir que não estava sozinha e Eduardo apareceu em sua mente. O retrato do amigo mais próximo, e da sutileza com que a tratava fez com que ela pedisse para se encontrarem na casa de Zenaide. Avisa a mãe de que sairia e bateu no portão da vizinha.

- Oi, filha! – atende, animadamente.

- Dona Zenaide, será que eu posso pedir para meus amigos virem até aqui, na casa da senhora?

- Só se... – pensa Zenaide.

- Se? – aguarda Estéfanie.

- Só se vocês tocarem um pouco. Essa casa vazia anda tão monótona ultimamente.

Estéfanie confirma e vai entrando. Envia mensagem para os garotos pelo celular e começa a tocar e a cantar uma música romântica, com o incentivo de Zenaide.

Eduardo é o primeiro a bater à porta. Zenaide leva-o até o estúdio e incentiva-o a tocar também. No início, fica apreensivo, pois ainda erra as notas, mas continua. Estéfanie larga o violão e apenas canta outra música que eles haviam composto antes do acidente de Eduardo. Percebem como Zenaide aprecia a música deles e isso os alegra. Zenaide bate palmas e, com dois dedos na boca, assovia com força para aplaudi-los. Depois, deixa-os a sós enquanto vai preparar lanche para todos.

- Acontece uma coisa muito ruim comigo – conta Estéfanie, movimentando bem os lábios para que ele possa entender.

- Como assim? O que foi?

Ela então relata todo o caso de ameaça que sofrera, da tentativa de pagar uma dívida que não existia e, por último, da agressão que só não terminou mal porque Peter estava lá.

- Que miserável! – resmunga Eduardo, abraçando-a. – E eu nunca estou por perto quando você precisa – lamenta.

Enquanto estão abraçados, Peter e Vinícius entram.

- Fan, eu já contei pro Vini – explica Peter, sinceramente penalizado.

- Puxa, Peter, eu nem te agradeci direito. Você me salvou.

Eduardo olha para o gesto de gratidão de Estéfanie e sente ciúmes, mas procura se controlar. Afinal, Peter estava lá e realmente merece a gratidão dela.

- Conta comigo – encoraja Vinícius.

Estéfanie, então, conta tudo também para os dois companheiros que, boquiabertos, admiram a coragem dela. Já sabiam que ela é determinada e que encontraria um meio de lançar a banda, mas ela superara qualquer expectativa.

- Bom, isso quer dizer que não tem mais noite de estreia na Mansão – conclui Vinícius, demonstrando alívio em adiar a apresentação.

- Nada disso! Vai ter, sim! É questão de honra agora – anuncia Estéfanie.

- Mas… mas… não podíamos adiar a data ou arranjar outro lugar? Assim… só pra dar um tempo pra você… - retorque Vinícius, tentando por todos os meios, arranjar outra solução.

Estéfanie não aceita e confirma a decisão de manter a data e o local. Ela imagina que Vinícius está somente preocupado com seu bem-estar, e parte é verdade, mas não percebe o nervosismo que acomete o garoto.

Zenaide volta trazendo biscoitos, suco e café. Estéfanie confidencia a ela seus planos e a vizinha mais uma vez vibra com a conquista. Pede para eles tocarem e ensaiarem sempre que quiserem, a qualquer hora do dia ou da noite, garantindo que não é dessas senhoras que vão para a cama junto com as galinhas.

Cada um deles fica empolgado com os preparativos. Vinícius, entretanto, se mantém em silêncio, com algo muito perturbador incomodando-o.


*****


Já havia anoitecido quando os últimos parentes se despedem e vão embora. A lua começa a surgir, muito alva, por trás da vegetação e Ângela anuncia seu regresso. Havia almoçado com Ricardo, jogado cartas com o pessoal da clínica, caminhado nas trilhas ecológicas da fazenda, jogado futebol com as crianças e depois de um dia com tantas atividades recreativas, ela sentia-se fisicamente cansada, mas emocionalmente revigorada.

- Está tarde para você pegar a BR – fala Ricardo. – Fique por aqui esta noite e amanhã bem cedo você vai.

- Sou muito grata pela sugestão, Ricardo, mas sou grandinha para me cuidar, não acha? Ah! E pro seu governo, eu dirijo muito bem à noite também.

Ricardo ri sonoramente, e pede desculpas, pois não tivera intenção de subestimar suas habilidades. Insiste para que ela fique.

- Não! Não trouxe… ãh… “material de sobrevivência” – explica.

- Mas eu consigo pra você… por favor – pede, fechando a porta do carro dela e prendendo a porta com o próprio corpo antes que ela pudesse entrar no veículo.

Ângela titubeia, já que o pedido dele é tão gentil, e finalmente cede. Embarca no carro e o estaciona na garagem mais próxima ao alojamento principal e segue Ricardo até a casa onde ele fica hospedado. Ricardo entrega a ela toalhas, material de higiene e, como não dispusesse de nenhuma roupa feminina, empresta uma camiseta sua. Antes de ela se preparar, vão até a cozinha preparar lanches para eles. Após comerem, Ricardo separa lençol, fronha e cobertor limpos e coloca sobre a cama. Como perfeito cavalheiro, deseja boa noite e vai se recolher a outro alojamento.

Ângela toma um banho rápido e veste a camiseta que ele emprestara. Enxuga o cabelo enquanto relembra cada minuto desse dia. Depois de ouvir a empolgação de Ricardo ao oferecer uma vida nova e melhor em termos de saúde para aquelas pessoas, ela sente que também poderia ser útil, que também desejava contribuir com aquela tarefa.

Estica o lençol, coloca a fronha no travesseiro, deixa o cobertor dobrado nos pés da cama e deita. Deixa a luz do abajur acesa um pouco e começa a imaginar se Ricardo fora casado ou se tinha alguém. Então se lembra do dia em que quase perderam o controle e ela procura afastar esse pensamento. Não viera até ali para conquistar Ricardo, e começa a lamentar ter ficado.

Ouve alguém bater à porta e levanta abruptamente.

- Ângela? Sou eu, Ricardo – ele logo avisa.

Tranquilizando-se, ela vai até a porta e abre. A camiseta de Ricardo cobre-a até a metade das coxas.

- Tudo bem? – pergunta, preocupado. – Vi a luz acesa e imaginei que poderia estar precisando de alguma coisa…

- Sim, eu realmente estou precisando... – assume, puxando-o pela camiseta, para o interior do quarto.


*****



- Temos algumas coisas a acertar – diz Vera, ao telefone. – Ótimo! Encontro você lá.

Ela troca o uniforme policial por um vestido. Maquia-se, perfuma-se e vai até a danceteria.

Jairo aguarda a chegada de Vera com grande ansiedade. Mandara preparar alguns petiscos e escolhera um vinho especial para acompanhar, imaginando que ganhara uma noite especial de brinde.

Vera insinua-se e aguarda que ele se envolva o suficiente.

- Sempre tive vontade de conhecer a sala dos seguranças, sabia? Parece um lugar perfeito para realizar algumas fantasias…

- Vem comigo, eu garanto que vou realizar todas elas... – afirma, presunçosamente.

Entram na sala de monitoramento e Vera puxa-o para um beijo, que desvia de sua boca e roça a orelha. Quando percebe que o sujeito está totalmente entregue, ela pede para que ele veja uma coisa.

- Agora não, gata, temos tempo depois…

Com um movimento ágil que as pessoas com ótimo preparo físico adquirem, ela se desvencilha do sujeito e coloca um CD ROM no drive do equipamento.

- Querido, olhe bem – pede, com falsa ternura.

O vídeo começa a rodar a partir do momento em que Estéfanie entra na sala de Jairo. Peter surge na câmera, olha pela abertura e fica à espreita. E lá dentro, Jairo pôde ver a si próprio partindo para a jovem. E Peter avançar contra ele e ser derrubado em seguida. E então, Jairo agarrar novamente a garota e, nitidamente, abaixar a própria calça para forçar uma relação íntima.

Vera afasta-se, vitoriosa, enquanto Jairo explode em inúmeros xingamentos de baixo calão. Vera saca o revólver e apresenta o distintivo de polícia. Jairo estarrece.

- Tenho provas incontestáveis sobre seu mau procedimento e posso detê-lo agora mesmo – explica Vera, enquanto o homem aguarda, calado, com as mãos para o alto. – Você será indiciado por crime hediondo e irá para a penitenciária tão logo saia seu julgamento.

- Não… não podemos… entrar em um acordo? – gagueja, transpirando irregularmente.

- Hum… muito inteligente de sua parte, garanhão!

Sem desviar o revólver do criminoso, Vera abre a bolsa e retira alguns documentos.

- Assine isso e teremos um acordo.

Jairo apanha os papéis e lê apressadamente.

- Mas isso aqui é uma procuração! Não vou assinar porra nenhuma!

- A escolha é sua – ela remexe na bolsa e retira um rádio de comunicação e algemas. – Aqui é a agente Vera, na escuta, Capitão?

- Na escuta! – responde prontamente e Jairo retesa-se. Gesticula para que ela aguarde, pega uma caneta e assina todas as vias do documento.

Vera pega os papéis e confere página por página.

- Agente Vera na escuta?

- Suspeita de furto na zona norte não confirmada, capitão.

- Mantenha contato.

Jairo enxuga o suor da fronte, aliviado. Vera, por sua vez, continua com a arma em punho e diz:

- Ao trabalho! Temos muita coisa para resolver.


*****


Alberto chega à empresa pronto para seu primeiro dia de trabalho após o afastamento. Débora aguarda-o no estacionamento e acompanha-o até o departamento de vendas, área em que ele trabalha.

- Seja bem-vindo – diz e beija-lhe no rosto.

Um dos colegas pede que ele aguarde a chegada do supervisor e Alberto imagina que é apenas para verificar seu estado de saúde e pedir para que entregasse o laudo da perícia no ambulatório.

Fica um pouco ansioso, afinal, precisa voltar à ativa ainda mais que não tem ainda lugar para morar. Quando o supervisor aparece, ele levanta-se de imediato e cumprimenta-o com um aperto de mão.

- Vamos até a sala de reuniões, por favor.

Acomodam-se nas cadeiras e Alberto adianta-se, ansioso:

- Luís, obrigado por me ajudar, mas eu quero logo voltar aos meus compromissos com os clientes...

- Isso não será possível – atalha Luís, friamente.

- Como?

- Alberto, eu tentei evitar seu desligamento e consegui que a diretoria voltasse atrás na decisão após o primeiro escândalo. Mas depois do último, não foi mais possível argumentar.

- Mas eu não fiz nada! Sou inocente! – defende-se.

- Alberto, acredito em você, mas a diretoria não pretende deixar o nome da empresa associado a... a... um suspeito de furto ou tráfico de drogas – Luís escolhe as palavras com cuidado.

- Luís, se a empresa me demitir, vai estar me incriminando, isso é uma injustiça!

Luís cala-se. Alberto transpira, atônito, e finalmente, compreende a situação.

- Eu não aceito, mas compreendo. Vou direto pro RH.

Levanta e sai da sala, deixando a porta escancarada. Observa todos os colegas olhando para ele, como se compartilhassem do mesmo julgamento estúpido. Havia trabalhado 20 anos na companhia e agora saía com fama de criminoso.

Não se despede de ninguém e segue até o departamento de RH. Recebe as instruções para se encaminhar ao sindicato dentro do prazo previsto em lei e sai do parque fabril. Quando passa pela portaria, o vigilante o barra e pede para abrir o porta-malas, situação que humilha Alberto ainda mais.

Quando chega ao quarto que alugara, ele joga as chaves e os papéis sobre a mesa e senta na cama. Abaixa a cabeça e chora. Todas as coisas que mais prezava haviam sido arrancadas dele: integridade, o casamento, o trabalho. Faltava somente a injustiça se consumar, privando-o também da liberdade.


*****


- O caso será encerrado, Capitão. Não há pistas suficientes para decifrar o enigma e também não há qualquer ligação entre esse caso com os outros de que o sujeito tenha participado.

Castro ouve a informação e detém-se por alguns instantes em uma reflexão. Com Pedro procurado, não se sabe quem o pagara pelo delito do roubo de uma planta, e de qualquer maneira, aquele leiaute não trazia risco algum para a população.

- Capitão, uma mulher está procurando pelo senhor. Ela informou que o senhor é que a mandou vir.

Castro aborrece-se com a interrupção, libera César e vai até a outra sala, onde a mulher aguarda. Quando ele se aproxima, percebe que ela tira um envelope de CD ROM de dentro da bolsa.

- Boa tarde – cumprimenta. – Em que posso ajudar?

- Boa tarde, sou a Vanessa, ex-esposa do Pedro, o homem que vocês procuravam quando invadiram a minha casa na semana passada.

Ele lembra-se de imediato do caso. Quase fora delatado por Vera por causa do procedimento de invasão. Nesse instante, observando a moça frágil diante dele, teve um sentimento próximo de compaixão. "Impossível ela não saber que o marido era traficante”, duvida. Recorda que ela o havia finalmente denunciado após uma gravíssima agressão.

Ela possui olhos de um azul acinzentado e o cabelo loiro parece natural, mas Castro percebe nela um misto de receio e pudor. Desejou que Vera estivesse ali para colher o depoimento ou o que Vanessa tinha para dizer. Oferece que ela sente e encoraja-a a falar.

Vanessa engole em seco e por um instante aparecem lágrimas em seus olhos que evaporam antes mesmo de descerem pela face. Ela olha para baixo, para o envelope de CD que segura, e o alisa com as pontas dos polegares, indecisa e insegura. “Não tenho o dia todo”, Castro quis resmungar diante de tanta relutância, contudo, aguarda até que ela, finalmente, lhe entregue o envelope.

- Quero fazer uma denúncia contra meu ex-marido. Aqui está a prova para a polícia juntar ao processo.

O policial apanha o envelope da mão dela, retira o CD, desliza com a cadeira até a mesa do computador e coloca o CD no drive. Ao final do reconhecimento da mídia digital, Castro dá um clique, aumenta o som da caixa externa e assiste ao curto vídeo. Reinicia mais duas vezes, para o programa e ejeta o CD.

- Pelo que aparece aqui, você não é mesmo cúmplice dele – conclui. – Em nome do departamento, peço desculpas. E em meu nome, garanto que cuidarei pessoalmente da sua segurança. Por favor, vamos até aquela outra mesa registrar a sua queixa.

Meia hora depois, Vanessa sai da delegacia e vai ao encontro de Renato, que aguardava, sobre a moto. Quando ela se aproxima, as lágrimas começam a despencar. Ele envolve-a em um abraço protetor.

- Você agiu certo – parabeniza. – E sabe que pode contar comigo.

Ela tranquiliza-se e sorri. Vestem os capacetes e vão para casa.



*****


- Estéfanie, tenho algo importante para lhe dizer – explica Vera, enquanto a garota a atendia no balcão da panificadora.

- Desculpe, Vera, sei que você é amiga do Vini, mas agora tenho muitos clientes para servir.

- Não vai demorar, prometo.

- Tá, bom – assente, pois percebe que Vera esperaria de qualquer maneira. – Assim que der uma folga, converso com você.

Vera senta-se a uma mesa e enquanto aguarda, aproveita para tomar café. O celular vibra e, subitamente, ela fica tensa. A “coisa” quer acontecer, independente de todos os seus esforços.

- Alô – fala, fingindo despreocupação. – Não, o inquérito foi arquivado e o idiota do Pedro está desaparecido – responde. – Não acho necessário. O irresponsável foi enquadrado na lei Maria da Penha e eu soube que a ex-esposa o entregou por tráfico de drogas. Ela também revelou um dado importante sobre a roupa suja com tinta de sinalização. Além disso, ele está sendo acusado pelo roubo da carga de dinamite, garanto que vai ficar entocado um bom tempo... já disse que não vejo necessidade disso, temos coisas mais urgentes para resolver... sim, ainda sei quem é que manda...

Vera desliga o aparelho e está com o rosto corado de indignação. “Maldito, agora tenho que resgatar um idiota desaparecido. Quero ser a primeira a chutar seus ovos”, promete.

Estéfanie aparece e Vera dissimula a irritação.

- Quero lhe dizer que, apesar de você não ter aberto o B.O. contra o Jairo, está tudo resolvido.

- Resolvido? – Estéfanie, com uma expressão de alienamento, tenta entender do que Vera está falando.

- Sim, eu agora sou sócio-proprietária da danceteria. Vi que você já agendou o show da sua banda e estou aqui para garantir que tudo corra perfeitamente. Além disso, já quero fechar seu cachê. Providenciei a preparação de fotolitos para nós divulgarmos os outdoors e cartazes.

Estéfanie ouve tudo em silêncio, pois já tinha caído em armadilha anteriormente. Alguns meses de sua vida desgastaram-na e ela não estava disposta a errar outra vez.

- Sim, eu tinha agendado –, mas não vou mais querer apresentar a banda lá – explica, ao contrário daquilo que garantira para os companheiros da banda. – Não ponho mais os pés lá.

Vera volta a ficar irritada. Não dispunha de tempo para agendar com outra banda e precisava garantir a casa cheia para que os planos de Ivo sejam executados. Senão, adeus missão.

Ainda tenta persuadir Estéfanie a aceitar e dobra o cachê com pagamento parcial adiantado, mas percebe que o dinheiro não faz diferença para a vocalista. Se a perspectiva de lucro não atraía Estéfanie, Vera usa outro recurso.

- Você não quer o orgulho dos seus pais conquistando seu espaço? Não espera que seus pais, os professores, vizinhos, amigos reconheçam o seu esforço, dedicação e talento? Não pode desperdiçar uma oportunidade quando ela aparece – insiste, atenta para as reações da garota. Sabia que a estratégia funcionaria, afinal, o sonho de ser orgulho para a família era conhecido em Estéfanie.

A garota olha em volta, depois, encara Vera e concorda:

- Tudo bem, o show não pode parar – e volta para o balcão para atender os fregueses, que formavam fila com suas senhas.

Vera, satisfeita, sai da panificadora. Agora, tem outras tarefas para cuidar.


*****

ENGRENAGEM DO CRIME – 11º CAPÍTULO - DOWNLOAD DO TERROR – 2ª PARTE



Ivo trabalha em uma oficina na edícula da casa. É meio-dia e chove forte, deixando o dia cinzento e o local escuro. O homem prepara fiações em um pequeno aparelho, baixa o capacete de proteção e solda pequenos pontos do artefato. Quando desliga o maçarico, ouve o celular.

Alguém lhe avisa que a encomenda tinha seguido pela fronteira três dias antes e que a previsão de chegada é para as 15 horas. Ivo comunica que o pagamento pela carga estará depositado em conta tão logo receba a compra.

Ivo vai até a cozinha e abre uma garrafa de vinho. Sorri e comemora sozinho.

- Agora é que a diversão vai começar – diz, enquanto telefona para alguém.

Vinícius está no quarto depois de ter almoçado e quase tem um desmaio ao verificar o número que está chamando em seu smartphone. Suas mãos transpiram e ele precisa se conter para atender.

- A... alô... – gagueja. – Sim, Seu Ivo... não, quero dizer, eu sei... a Vera me explicou quando eu tava no hospital... mas, Seu Ivo, eu não posso fazer isso... desculpe, desculpe... não, é só que... quanto?! Cla... claro!

O pânico que o garoto demonstra subitamente se transforma em satisfação. Tanto dinheiro não dá para negar.

O garoto também sabe que caso recusasse, ele já era.

Por volta da 16 horas, Ivo recebe nova ligação. Sinaliza para um empregado pegar um molho de chaves e sai com ele de carro. Dirigem-se para uma rua lateral quase na saída da rua Benjamim Constant com a BR-101, em um galpão alugado, onde uma carreta aguardava. Ivo desce do automóvel, confere a carga e apresenta um comprovante bancário.

O empregado de Ivo abre os portões do prédio e em seguida o portão da plataforma de desembarque de carga. Enquanto isso, o motorista manobra a carreta até a plataforma, e logo em seguida, começam a descarregar caixas de chocolate. Ao fim da operação, Ivo libera o motorista.

Fecham todos os portões e Ivo ordena que o empregado abra uma das caixas de papelão, que armazena as caixas de chocolate. Ele executa a tarefa e entrega uma das caixas para Ivo, que rasga a embalagem plástica, abre a caixa e cheira o conteúdo.

*****


Vera monitora um ponto luminoso que se move no mapa na tela de seu notebook. Quando o sinal atinge a divisa PR-SC, a agente expressa um sorriso de satisfação. Digita algumas teclas em seu iPhone e logo a voz de um homem atende.

- Tudo em ordem? – pergunta. – Ótimo! Quando alcançar o km 25 da BR-101, entre na marginal e siga pela estrada que dá acesso à clínica. Há placas indicando a localização. Não pare e não fale com ninguém. Quando chegar ao destino, você já sabe. Sua gratificação já se encontra na caixa postal do correio que combinamos.

Logo que se certifica da resposta, Vera faz nova ligação.

- Sr. Alberto, por gentileza?

- É ele.

- Aqui é sua cliente da empreiteira Colombo, tudo bem? Temos que fechar o acordo sobre os explosivos pra nossa obra de demolição no...

- Desculpe, senhora, estou afastado do escritório por motivos de saúde, mas vou lhe passar o telefone do responsável que assumiu meus compromissos – responde solícito e já buscando a carteira de cartões de visita.

- Não será necessário, Sr. Alberto, porque eu não pretendo negociar com mais ninguém.

- Então, lamento, realmente não posso ajudar...

- Eu continuo confiando o negócio somente ao senhor. Pode me encontrar para discutirmos? Por favor, eu insisto!

Alberto suspira, já se irritando. Não pretendia se comprometer com qualquer negócio antes de ser liberado pela perícia a retornar para o trabalho, entretanto, aquela cliente iria trazer-lhe bons rendimentos caso fechassem o acordo. É a compradora de uma empresa de grande porte que havia procurado a empresa algumas semanas antes de seu infarto e encomendado uma tonelada de dinamite para implosões. O chefe de Alberto também havia sido claro que ele deveria fechar o negócio o quanto antes porque a empresa já contratara mão-de-obra extra, contando com aquele pedido.

De qualquer forma, não tinha condições de barganhar preço longe do escritório, e tomou a decisão de pedir que a compradora telefonasse para o chefe dele.

- Sr. Alberto, o senhor não entendeu. Eu quero O SENHOR nesta negociação, ou... prefere que eu procure as autoridades para denunciar mais uma de suas falcatruas?

Alberto fica zonzo de repente. “Afinal de contas, do que essa mulher está falando?”, pensa. “Será que faz parte do grupo que está me acusando de roubo daquela maldita carga? Não é possível!”. Diante da evidência de que ele está tratando com uma criminosa, Alberto recua.

- Está bem.

A contragosto, anota o endereço em um post it, destaca e cola dentro da carteira, junto ao documento de identidade, prepara-se e sai de carro.

Enquanto isso, Vera telefona para Castro.

- Castro, tudo bem? Recebi uma denúncia... e pretendo investigar... não... da clínica... isso... gostaria, sim, Castro, pode ser perigoso... claro, aguardo no posto Rudnick. Ok!

Vera observa o ponto luminoso em movimento constante, passando da cidade de Garuva. Fecha o notebook, guardando-o na mochila. Veste o colete a prova de balas e recarrega a pistola.

- Vamos lá, Ivo querido, seus dias de liberdade estão contados.

Coloca a mochila no ombro e segue para a viatura.



*****


O motorista averigua a quilometragem e conforme lhe fora indicado entra na marginal do km 25 e à direita na estrada Canela. Como a informante havia declarado, confirma a existência das placas que indicam o caminho da clínica e prossegue, não ultrapassando uma velocidade superior a 40 km/h. Um caminhão dessa proporção parece não chamar a atenção dos moradores como imaginara o motorista, apenas a curiosidade inocente das crianças que seguem o veículo, e que ficam para trás, envoltas pela nuvem de poeira levantada pelas rodas.

Quase 3 km adiante, o motorista alcança seu destino, estacionando próximo ao portão de entrada da clínica.

Antes de desembarcar, confere a nota fiscal endereçada à Clínica de Tratamento a Dependentes Químicos Reconstruindo Vidas Ltda. Salta do caminhão, abre o portão e caminha até a recepção.

Ricardo prontamente atende o rapaz.

- Tenho uma entrega para descarregar aqui.

- Deixe-me ver isso – pede Ricardo, examinando a nota fiscal. Afonso havia lhe alertado que logo chegaria uma carga de móveis, cestas básicas e itens de cama, mesa e banho aos cuidados da clínica. – Deve haver algum engano – constata. – Não estou esperando um carregamento de bombons.

- Engano nenhum, senhor, recebi instruções claras para descarregar esse material neste endereço.

- Mesmo assim...

- Vou mostrar o responsável pela transação – e estende o cartão de visitas de Afonso. Confuso, Ricardo resolve averiguar e sai do escritório acompanhado pelo motorista, que abre a porta traseira do baú refrigerado. Ricardo examina as caixas devidamente identificadas com seu conteúdo.

- Espere um instante, que vou dar um telefonema.

- À vontade – responde o motorista, desinteressado.

Ricardo retorna ao escritório para usar o telefone fixo, já que a área não possui sinal para celular. Afonso atende e rapidamente explica que ele havia conseguido uma doação, coisa que fez Ricardo desconfiar. De repente, ouve o motor do caminhão e ainda com o telefone na mão, observa pela janela que o motorista manobra o veículo para dentro da propriedade. Desliga e sai rapidamente, gesticulando para o homem retirar o caminhão.

- Você não vai descarregar nada enquanto eu não entender o que está acontecendo aqui!

Nesse momento, Alberto estaciona o carro na entrada perto da recepção onde havia uma vaga indicativa e vai ao encontro de Ricardo.

- Boa tarde.

- Boa tarde – responde Ricardo, tentando dissimular o desconforto da situação anterior. – Em que posso ajudar?

- Uma pessoa marcou comigo aqui, o senhor sabe se ela já chegou?

Ricardo quase explode ao imaginar que sua clínica agora se transformara em ponto de encontro, porém, tenta responder com toda educação que conseguiu recuperar.

- Desculpe, Seu...

- Alberto. – Ele estende a mão e cumprimenta Ricardo, que olha visivelmente contrariado para o homem que se aproxima. Nessa altura, a chegada do caminhão já havia se tornado alvo de curiosidade de todos os pacientes e funcionários.

- Pois é, Alberto, não há ninguém esperando pela sua chegada...

Alberto fica confuso e enruga a fronte em dezenas de filetes sobrepostos. O motorista aproxima-se e aponta:

- É esse cara que fez a compra da carga que eu trouxe.

- O quê?! – Ricardo e Alberto perguntam simultaneamente, entreolhando-se e encarando o rapaz.

- Sim, foi ele, sim. Mandaram a foto pro meu celular pra eu ter certeza, então, tudo esclarecido, vou descarregar...

- Eu não tenho nada a ver com isso! – explode Alberto, justamente.

- É bom explicar o que está acontecendo aqui, senão chamo a polícia!

- Por favor, deve haver um engano, eu realmente não sei de nada.

- Ei! Pare!

Ricardo berra para o motorista, que abrira as portas traseiras e com ajuda dos pacientes, descarregava as caixas e levava para dentro do alojamento principal.

Em meio a esse tumulto, duas viaturas de polícia chegam com as sirenes ligadas. Assim que estacionam, um homem e uma mulher desembarcam. Ricardo reconhece Castro e Vera e sente uma onda de alívio. Encaminha-se para os dois, certo de que o ajudariam a esclarecer aquela confusão.

Vera e Castro empunham as armas e Ricardo sobressalta-se. Alberto, por sua vez, encolhe-se.

- Todo mundo parado! Vocês estão presos!


*****


Renato para o carro na frente da casa de Vanessa. Passa pelo portão e observa que ela não está. Resolve esperar, porque tomara uma decisão importante e torcia para que seus planos dessem certo. Volta para o carro e reflete.

Alguma coisa nele havia mudado depois que conhecera Vanessa e Renato não sabia precisar o que era. Percebera isso quando recebeu um convite para sair com uma amiga de seu colega de trabalho. O amigo exaltara as qualidades da amiga, e era natural que Renato aceitasse a oferta. Renato surpreendeu o amigo e também a si mesmo quando negou o convite.

- Agradeça por mim – Renato ouviu-se responder. – Ela é linda e muito gostosa, mas não faz o meu tipo.

Isso aconteceu há dois dias. E naquele dia, ainda pela manhã, uma “ex-ficante” o abordou, certa de conseguir algo com ele. Renato se lembrava de bons momentos com a mulher, uma exímia companheira de cama e diferente do que acontecia antes, o contato com o corpo dela quando ela o enlaçou em um abraço apertado, nem o cheiro do perfume dela nem o olhar provocante, lhe fizeram diferença. Naturalmente sua ex xingou-o até dizer chega.

Imediatamente, tomou a decisão.

Enquanto refletia, Renato avista Vanessa subindo vagarosamente a ladeira. Carregava um pequeno pacote que parecia ser de panificadora. Ela observa o carro parado diante de sua casa e reduz o passo, só que Renato não percebe que essa atitude poderia ser de alguém com medo. Desce do carro quando ela chega mais perto.

Toda a apreensão que Vanessa sentira ao ver um carro estranho em frente do portão se desvanece quando reconhece Renato. Ela se apressa para abraçá-lo e suspira enquanto ainda está encostada no ombro dele. Como se sentia protegida quando ele estava por perto!

- Acho que comprei pouco pão, tenho que voltar – ri, mostrando o pequeno pacote. – Você me deu um susto! Não sabia que tinha carro...

- E não tenho, eu emprestei de um amigo porque pretendo fazer uma mudança...

- Mudança? Como assim? – sorri, confusa. – Vamos entrar, está me deixando curiosa...

Ela abre a porta, coloca o pacote na mesa e volta-se para Renato, que havia fechado a porta. Percebe que ele havia ficado subitamente nervoso, ansioso com algo que estava a ponto de acontecer.

- Vanessa, quero que você venha morar comigo.

- Como é que é? – Vanessa empalidece. Renato aproxima-se e segura as mãos dela. Olha-a com ternura.

- Eu... quero você perto de mim... quero dormir e acordar com você todos os dias... eu, eu... nunca pensei que isso fosse acontecer, mas eu descobri que te amo, de verdade, e te quero pra toda vida.

Vanessa emudece, mordisca os lábios, olha para os lados, suspira. Os segundos antes da resposta dela são angustiantes para Renato. Ele não esperava que ela hesitasse. Nunca tinha encontrado alguém que amasse de verdade.

- Renato, Renato – murmura –, eu já vivi anos com uma pessoa que eu idolatrava, e percebi o quanto infeliz eu era. – Ela se solta das mãos dele. – Eu gosto muito de você, acho até que também te amo... – faz uma pausa. – Mas não tenho mais coragem para viver com outra pessoa.

Renato sente-se impotente. Toda a felicidade desmorona diante dele.

- Talvez eu perca você e vou sofrer muito se isso acontecer, mas preciso deixar claro que tenho muito medo... ainda mais sendo ex-exposa de traficante desaparecido. Ontem mesmo a polícia bateu aqui e eles queriam me prender. Uma das razões pelas quais não posso sair daqui agora...

- Mas isso não é problema, a gente deixa o meu endereço com a polícia, você não fez nada.

- A polícia me considera cúmplice, Renato. Eles queriam que eu desse o endereço do Pedro, mas eu não sei mesmo o paradeiro dele, e acho até que não me importo mais...

- Então, vem comigo, por favor, eu não vou ficar tranquilo enquanto você estiver aqui sozinha.

- Obrigada, mesmo, Renato, por se preocupar. Acho que eu não sabia mais o que era isso, de outra pessoa se preocupando comigo.

Renato abraça-a com amor e beija-a. Vão até a cama, mas não fazem amor. Apenas ficam abraçados no calor do amor entre os dois.


*****


Alberto assina alguns papéis e se levanta. Ângela faz o mesmo e caminham em silêncio para o carro dela.

Chegam em casa, Alberto vai para o banho e Ângela desaba no sofá. Nunca imaginaria ter de emprestar dinheiro para tirar o marido da cadeia.

Fazia meses que Alberto estava se comportando de maneira estranha. Ele e Ângela estranhavam-se com qualquer coisa banal: atrasos, roupas, visitas, contas. As coisas entre eles estavam longe de tranquilidade e ambos escondiam segredos um do outro, às vezes, para não criar mais conflito, às vezes, por perda do hábito de compartilhar a vida um com o outro.

As visitas da colega de Alberto, cada vez mais frequentes, instigavam a ira de Ângela e, por outro lado, deixavam-na insegura. Quando fora visitar Alberto na primeira vez, encontrara também Ricardo preso pelo mesmo motivo: receptação de drogas. Estranhamente, para Ângela, fora mais fácil acreditar quando Ricardo afirmava inocência, do que confiar em Alberto, com quem convivia há anos e conhecia muito bem o caráter.

Entretanto, Ricardo parecia ter sido envolvido em uma rede de armadilhas, ao passo que o marido, as provas o diziam, era o responsável por armar todo aquele golpe, além do que já estava sendo acusado. Ângela soube somente quando ele ligou para que ela providenciasse um advogado e, naquele momento, não ter sido digna da confiança de saber antecipadamente o que acontecia com o marido abriu uma grande ferida.

Alberto termina o banho e se senta no outro sofá, curvado para frente. Nem o banho fora capaz de apagar as marcas da humilhação que causa a um homem íntegro ser preso e fichado injustamente.

- Obrigado – consegue murmurar.

- Por que não me contou antes? – pergunta, mas não espera resposta. – Podia ter confiado em mim, podíamos encontrar uma solução antes de...

- Eu sei, mas não foi por não confiar em você...

- Foi por que então? – interrompe, sem se alterar. – A Débora sabia tudo. Nela você confiou. Também não sei o que mais você confiou a ela – provoca.

- Eu nunca tive nada com ela, Ângela. Nada.

- Ah, sim, eu acredito, tanto quanto acredito no amor que vejo nos olhos dela.

- Ângela...

- Não se faça de sonso. Ela não iria se oferecer para ajudar, assim, voluntariamente. Ela gosta de você e você sabe disso. Pode até ser verdade que vocês não tiveram algo na cama, mas são tão íntimos a ponto de se trocarem confidências.

Alberto baixa os olhos, sabe que ela está certa e por mais que a ame, não lhe revelou suas encrencas.

- Quando um trai a confiança do outro, não há mais união. Sem união, não há casamento.

Alberto arregala os olhos.

- Chegamos ao fim da linha, Alberto. De agora em diante, cada um vai pro seu lado.


*****