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Joinville, Santa Catarina, Brazil

OS CONTADORES DE HISTÓRIAS - 9ª PARTE


Cláudia fora levada à delegacia logo que se sentiu melhor para depor contra Maurício. Foi liberada em seguida e Antônio achou melhor que ela fosse escoltada por uma patrulha.

Fernanda, por sua vez, ficara chocada com o que acontecera a Cláudia, não podendo acreditar que Maurício fosse tamanho mau caráter, mas ainda assim não gostara nada da ideia de se submeter aos cuidados de um guarda-costas, já que um policial passou a acompanhá-la 24 horas por dia.

Cláudia não saía mais de casa. Sentia um pavor mórbido de que Maurício a sequestrasse novamente. O telefone em sua casa tocava e ela só atendia depois de reconhecer a voz na secretária eletrônica. A campainha soava e ela escondia-se atrás dos móveis.

Benedita viera visitá-la algumas vezes. Nem mesmo seus pedidos para Cláudia retornar ao grupo foram aceitos. Cláudia criara um bloqueio que somente abandonaria com a prisão preventiva de Maurício.

Enquanto Cláudia enfrentava aquele trauma, sua mãe tirara férias para não deixá-la sozinha. Estimulava a filha a sair, mas a moça não queria saber do assunto.

As semanas passaram e Maurício desaparecera, aumentando a expectativa não só de Cláudia como também de Patrícia, que também recebera proteção policial.

Fernanda visitou Cláudia, e esta finalmente contou-lhe tudo sobre as ameaças, o falso amor, as agressões, sua fuga. Cada vez que falava sobre o assunto, Cláudia enfurecia-se mais, sentia um ódio crescente e medo, muito medo. Pedia para Fernanda se cuidar.

- Eu não tenho medo desse sujeito – respondeu Fernanda. – Ele pode vir, que o acerto bem naquele lugar.

- Ele é perigoso, Fê. Por favor, se cuida...

- Pra quê? Já tenho esse armário aí fora! – reclamou, aborrecida com a presença constante do policial.

Fernanda despediu-se da amiga e encaminhou-se para o automóvel que o pai havia disponibilizado para ela. Embarcou no veículo e bateu a porta com toda força, expressando seu descontentamento. O guarda-costas embarcou no banco do condutor, colocou a chave na ignição, deu marcha a ré e guiou para casa, impassível aos lamentos e ironias da adolescente.

.......


Dias depois, Fernanda acordara mais cedo, disposta a despistar o guarda-costas. Ela saiu pela janela de seu quarto e correu para o portão.

- Aonde vai, senhorita? Não está na hora de suas aulas. Aliás, não tem aula pela manhã.

- Que saco! – exclamou Fernanda. – Eu quero sair sozinha. Entendeu? So-zi-nha!

- Infelizmente não será possível. As ordens que tenho são de acompanhar a senhorita.

- Danem-se suas ordens! Já estou cansada de pagar esse mico.

- Acontece que terá de me suportar por algum tempo. A senhorita está correndo perigo.

Fernanda voltou bufando para dentro de casa, trancando-se em seu quarto. O policial fez uma ligação em seu aparelho celular.

- Precisamos de mais segurança. Grades de ferro em todas as janelas. Tem que ser esta tarde. Anote o endereço.

À tarde, o policial levou Fernanda até o hospital. Acompanhou a moça até a ala pediátrica, onde estava reunido o restante do grupo de contadores de histórias.

Terminada a sessão, voltaram para casa e Fernanda quase teve um ataque de histeria quando viu os operários de uma serralheria terminando de instalar as grades.

- Mãe, você deixou? – perguntou ela, aos berros. – Por que você permitiu que fizessem isso?

- É para o seu bem, filha...

- Meu bem uma ova! Não quero ser uma prisioneira na minha própria casa! – Ela voltou-se para o guarda-costas. – E você, me leve já para a casa da minha amiga!

Fernanda estava totalmente inconformada com aquela situação. Resolveu conversar com Cláudia a respeito, mas a indiferença de Cláudia a revoltou. Brava, Fernanda voltou para casa.

Todas aquelas atitudes intempestivas tinham sua razão. Fernanda estava interessada em um garoto da universidade e queria ir a um encontro com ele. Então, bolou um plano. Se pudesse, telefonaria no mesmo instante para Vera, que estudava com ela, mas o telefone em sua casa estava grampeado. Escreveu uma página e colocou dentro do caderno.

No dia seguinte, na sala de aula, ela conversou com Vera, sob os olhares do guarda-costas engravatado que ficava na porta.

- Como está a Cláudia, Fernanda?

- Melhor. Meio avoada. Mas Vera, você sabe aquele cara, o Alan?

- Aquele gato do terceiro ano?

- É, eu tô de rolo com ele. Ele me convidou pra sair, só que eu não quero esse armário segurando vela, entendeu?

- E onde eu entro nessa? – perguntou Vera, apreensiva.

Fernanda mostrou a folha que tinha escrito e continuou cochichando com Vera, com olhar especulativo para o guarda-costas.

- Quando você quer?

- Amanhã.

- Amanhã?! Não vou conseguir. É muita coisa!

- Ah, Vera, por favor! Tenho certeza de que você consegue...

Vera pensou um pouco e logo respondeu toda convencida:

- Eu topo! Você vai ver do que a Vera aqui é capaz!

Fernanda sorriu, dissimulando sua ansiedade diante do policial.

.......


No dia seguinte, Vera entrou na sala e piscou para Fernanda.

Na saída, as duas dirigiram-se ao sanitário feminino, Fernanda acompanhada de perto pelo policial, que parou na entrada dos sanitários.

- Rápido! Senão ele pode desconfiar.

Vera retirou da bolsa uma roupa exatamente igual a que Fernanda vestia. Trocou rapidamente sua roupa e guardou a outra na mochila. Pegou ainda uma peruca morena, para ficar parecida com Fernanda. Elas trocaram os sapatos e os óculos escuros, em seguida as mochilas.

- Obrigada, amiga.

- Não agradeça. Divirta-se com seu gato.

- Agora, vai!

Vera respirou fundo, abriu a porta do banheiro, baixou a cabeça de modo que a peruca escondesse seu rosto. Deu passadas mais largas e começou a correr.

- Fernanda! Espere! – chamou o guarda-costas, correndo atrás dela.

Fernanda saiu do banheiro naturalmente, apressando-se na direção oposta. Na portaria do colégio, encontrou Alan, que lhe deu um beijo.

- Onde ficou aquele seu guarda-costas?

- Ah, ele resolveu dar uma voltinha – disse Fernanda, casual. – Eu agora tenho um guarda-costas muito melhor.

O rapaz abraçou-a e seguiu normalmente pela rua, sem imaginar a situação que ela havia provocado.

Enquanto isso, Vera fugia do policial e refugiava-se na biblioteca. Enganou o homem e correu para fora, mas não tinha preparo físico suficiente e foi alcançada. O policial agarrou seu braço e virou-a de frente.

- Srta. Fernanda! Está bancando uma tremenda irresponsável!

Vera ficou nervosa e deixou cair os óculos.

- Quem é você? – perguntou o policial. – Que brincadeira é essa?

- Me larga, cara! Já cumpri minha parte. Agora, tchau.

- Onde pensa que vai, mocinha? É melhor ir contando logo onde sua amiga se meteu...

- Não é da sua conta, viu?

- Ah, não? Vamos ver até onde vai a sua coragem.

- Você tá me machucando. Me solta!

- Solto, mas lá na delegacia.

Ele algemou um dos pulsos de Vera ao seu, apesar dos protestos da moça. Telefonou para Antônio, mas não o encontrou.

Enquanto isso, Fernanda passeava no shopping com Alan. Estava feliz por poder viver alguns momentos de liberdade, longe do guarda-costas indiscreto.

Naquele instante, na delegacia, Vera passava por um interrogatório.

- Eu já disse que não sei! Ela não me contou.

- Escute aqui, mocinha. Ou você diz logo onde está a Fernanda ou deixo você presa até resolver abrir o bico – ameaçou Ivan.

- Não posso dizer o que eu não sei, seu delegado. A Fernanda pediu para eu fazer isso, não disse pra que.

- Você está me fazendo perder a paciência! – Ivan bateu com força na mesa. – Vejo que você quer mesmo passar a noite aqui.

Antônio entrou na sala.

- Eu vim assim que soube, delegado.

- Você está de folga, Antônio.

- Mas a moça é minha amiga, senhor. Me deixe falar com ela a sós.

- Você não vai conseguir mais do que eu. A moça é teimosa igual uma mula.

Ivan saiu, a contragosto, e Antônio ajeitou uma cadeira, sentando-se próximo de Vera.

- Oi – disse ele.

- Oi – respondeu Vera. – Eu já disse pra ele que não sei de nada!

- Escute. Sabe por que aquele policial estava colado na sua amiga Fernanda?

- Sei. Qualquer coisa sobre o maníaco que sequestrou a Cláudia – respondeu, com ar de impaciência.

- Qualquer coisa? – Antônio observou-a com curiosidade.

- É...

- Vera, eu sei que você não quer prejudicar a sua amiga. Essa qualquer coisa, como você mesma disse, é mais séria do que você pensa. – Ele observou quando ela curvou as sobrancelhas, assustada. – No momento que eu tinha esse maníaco na minha mira, ele disse que a Fernanda seria sua próxima vítima.

Vera lambeu os lábios, indecisa sobre o que dizer.

- Você me entende agora por que precisa me contar onde a Fernanda está? – Vera afirmou lentamente e desatou a chorar. Finalmente contou o que sabia. – E onde eles estão agora, nesse momento?

- Eu não sei, de verdade. Não perguntei o que eles iriam fazer.

- Mas deve haver algum lugar em que vocês se reúnem. Pense um pouco. Não tem um palpite?

- Eu acho que sim. Tem um barzinho que a gente costuma frequentar, no centro da cidade. E tem também os shoppings. Mas eu não tenho certeza.

- Você ajudou muito, Vera. Agora pode ir.

Antônio caminhou na direção de um policial que lhe fizera sinal.

- Encontramos a moça! O sinalizador indica que ela está bem próxima – informou o homem, de olho no computador. Antônio estranhou que o sinal estivesse indicando tanta aproximação. Finalmente, viu Vera atravessando a sala para a saída. O radar no computador emitia ruídos cada vez mais fortes.

- Espere! – disse Antônio para ela. Aproximando-se, pediu licença para abrir a bolsa trocada. – Eu sabia! O sinalizador está aqui.

Antônio mostrou o relógio de Fernanda, que ela havia guardado na bolsa.

- E essa agora? Temos que informar os pais da garota – disse o colega de Antônio.

- Delegado! Peço permissão para pegar minha viatura para procurar a moça.

- Impossível! Sua viatura está na área quatro. Esqueceu que este é seu dia de folga?

- Mas não pode liberar outro carro?

- Não.

- Como quiser, senhor.

Antônio bufou e saiu da delegacia batendo as portas atrás de si. Usaria seu próprio automóvel. Não sabia se Maurício estava na cidade, mas tinha certeza de que ele apareceria.

Dirigiu-se para o endereço que Vera havia informado. Olhou em volta, mostrou uma foto de Fernanda para o garçom. A moça não havia estado no local. Antônio viu-se na obrigação de percorrer os shoppings da cidade.

Resolveu ligar para o guarda-costas de Fernanda, para pedir que o ajudasse na busca. Mas desistiu do intento. Se Fernanda o visse primeiro, certamente se esconderia.

Fernanda e Alan assistiam a um filme, sem imaginar a confusão causada por Fernanda. Ela estava adorando a companhia dele. Quando o filme acabou, eles passaram algum tempo na praça de alimentação.

- Eu não queria mais me separar de você, Alan.

- Não precisa. Venha para a minha casa.

- Gostaria muito, mas não posso. Tenho que voltar para minha casa.

- Tudo bem. Vamos?

De mãos dadas, o casal caminhou na direção da saída do shopping. Subitamente, um homem estranho parou na frente do casal.

- Cuidado, cara! – exclamou Alan, desviando-se do sujeito. – Vem, Fernanda.

Fernanda olhou para o sujeito barrigudo, de barba e bigode branco, um tipo que ela não conhecia. Mas o olhar desafiador dele a incomodou.

- Conhece esse homem? – perguntou Alan.

- Não sei. Acho que não. Mas...

- Bem, vamos embora, gata. Não vamos estragar nossa tarde.

- Você me leva pra casa, Alan?

- Claro.

De repente, Fernanda foi puxada e agarrada. O mesmo sujeito a ameaçou com um canivete.

- É bom você ficar bem quietinha, ou morre aqui, agora.

- Cara, larga ela! – gritou Alan.

Os seguranças do shopping foram acionados, mas Fernanda continuou sob o poder do bandido. Naquele momento, ela se lembrou do guarda-costas chato.

- Tenho dinheiro na bolsa. É seu – disse Fernanda.

- Não quero dinheiro.

Ele levou-a para o estacionamento e obrigou-a a embarcar em um carro. Deu uma arrancada e dirigiu perigosamente para a saída, onde a polícia já fazia cerco. O bandido bateu o carro no bloqueio e Fernanda se feriu.

- Quem é você?

- Seu anjo da guarda – disse o homem, arrancando a barba e o bigode.

Fernanda engoliu em seco ao reconhecer Maurício. Então ele viera mesmo atrás dela. Ela disse que não tinha medo dele, mas se enganara. Seu coração batia violentamente e ela gaguejou algumas palavras que foram abafadas pelo som da nova arrancada.

Antônio chegou ao bloqueio, assustado com a confusão. Apresentou a identificação e perguntou pelos fatos. Mostrou a foto de Fernanda e o policial a reconheceu. Antônio imediatamente embarcou na viatura mais próxima e seguiu na direção indicada.

Fernanda procurava segurar-se no automóvel, defendendo-se das manobras perigosas de Maurício, que atropelava o que aparecia no caminho.

Ela ouviu as sirenes da polícia e olhou no retrovisor. Sorriu ao reconhecer Antônio.

- Porcaria! – bufou Maurício. – Esse idiota não me deixa em paz!

- É melhor a gente parar – sugeriu Fernanda.

- Ah, é? – Maurício agarrou o cabelo de Fernanda, aproximando-a do volante. Bateu a cabeça dela contra o painel. Ela cobriu com as mãos o nariz ensanguentado e ficou ainda mais apavorada.

Enquanto isso, Antônio acompanhava-os, muito próximo. Informou a delegacia pelo rádio. Fernanda olhava para trás e Antônio lembrou-se de Patrícia. O ódio que ele sentia por Maurício renovava sua disposição.

Fernanda procurou se acalmar. Ela não queria continuar como refém de Maurício. Sabia o que Cláudia passara nas mãos dele. Não queria acabar sua vida, como Patrícia.

“Eu prefiro morrer”, pensou Fernanda. “E vou levar esse bandido comigo para o inferno”.
Fernanda destravou o cinto de segurança e saltou sobre Maurício, pisando no freio em seu impulso. No mesmo momento, ela girou o volante e o carro fez um cavalo de pau. Fernanda foi lançada para fora do carro, espatifando o pára-brisa dianteiro.

- Não! – gritou Antônio, estacionando bruscamente a viatura. Chamou uma ambulância e correu pela rua para socorrer Fernanda, que estava jogada no chão, inconsciente. Antônio ajoelhou-se ao lado da moça e ainda viu Maurício fugindo. Mas não abandonou Fernanda, prestando os primeiros socorros. Quando os paramédicos chegaram ao local, ela já voltara a respirar.

- Onde ele está? – perguntou um dos médicos, observando o carro batido.

- Muito longe – respondeu Antônio, subitamente cansado. – Façam o favor de levar a viatura. Eu vou com Fernanda.

- Ok.

Mais tarde, já na sala de recuperação, Fernanda recebeu a visita de Antônio.

- Como se sente?

- Toda quebrada – respondeu ela. – E tonta.

- Isso é normal, devido aos sedativos – disse, tranquilizando-a.

- Eu queria pedir desculpas por ter enganado o guarda-costas. Eu já estava de saco cheio dele atrás de mim o tempo todo. Eu não acreditava que Maurício ia cumprir a promessa.

- Tudo bem. Não pense nisso. Não creio que ele volte. Ele é esperto e sabe que vamos redobrar a vigilância.

- Fê!

Os dois olharam rapidamente para a porta, quando Cláudia entrou.

- Fê! Meu Deus! Você está bem? – perguntou Cláudia.

- Tô, Cláudia.

- Aquele safado foi atrás de você e foi tudo culpa minha. Se eu não fosse tão egoísta, pensando só na minha segurança e não te abandonasse, nada disso teria acontecido.

- Calma, Cláudia – falou Fernanda, quase rindo. – Você não teve culpa nenhuma. Eu só fui sequestrada, bati de carro e vim parar aqui. Nada mais. Estou pronta pra outra.

Antônio discretamente se afastou e deixou as moças conversarem. Ele ficara contente ao ver que Cláudia reagira à sua depressão. E sorriu ao ouvir os suaves risos delas.

Depois de alguns minutos, ele aproximou-se da cama e Cláudia sorriu para ele.

- Nunca vou poder agradecer por ter salvo minha melhor amiga. – Ela o abraçou. – Muito obrigada, é só o que posso dizer.

Antônio retribuiu o abraço e o sorriso e avisou que Fernanda ficaria em observação e dentro de algumas horas receberia alta.

- Eu mesmo virei buscá-la.

- Não precisa, Antônio. Meu pai pode me apanhar.

- Faço questão. Até mais.

- Tchau, Fê. Se o Antônio permitir, eu também venho.

- Claro – disse ele.

- Tchau, gente.

Antônio e Cláudia deixaram o quarto e conversaram até a saída do hospital.

- Você quer carona?

- Quero.

No carro, Cláudia voltou a falar sobre Maurício. Antônio mudou de expressão quando ela tocou no assunto. Ela mal sabia do ódio que ele sentia pelo sujeito. Sua conversa já não foi tão cordial.

- Pronto, Cláudia. Pode ir.

- Falei algo errado? – perguntou Cláudia, estranhando o tom seco dele.

- Não.

- Então...

- Escute, Cláudia. Já está em casa. Vá e não me amole. Tive um dia duro hoje.

- Eu sei. Desculpe.

Cláudia ficou magoada e desembarcou rapidamente do carro. Antônio xingou, bateu no volante e também saiu do carro, chamando a moça antes que ela entrasse na casa. Cláudia voltou até o portão.

- Desculpe, Cláudia. Não é justo descontar minha raiva em você.

- Eu entendo. Afinal você teve um dia duro hoje.

Ele ficou em silêncio por um instante. Cláudia sorriu com tranquilidade para ele.

- É, eu tive um dia duro hoje.

- Então eu recomendo que você fuja do seu estresse encontrando-se com a sua noiva.

- Boa ideia – disse ele, mais à vontade.

- Eu não vejo a hora de buscar a Fê.

- Eu passo aqui quando me ligarem do hospital.

- Ok.

Mais tarde, na casa de Patrícia, Antônio contava a história de Maurício. Patrícia arrepiava-se cada vez que ele pronunciava o nome do sujeito. À medida que Antônio narrava, ela sentia em sua voz um crescente de ódio e rancor.

- Tony, não se estresse com ele. Você vai ver como ele vai desaparecer por uns tempos.

- Ah, Paty, se você soubesse o ódio que sinto por ele. Não vou descansar enquanto não por as minhas mãos nele.

- Você não devia ter tanto ressentimento. Ele é só mais um bandido.

- É, você tem razão – disse Antônio, abraçando Patrícia. – Eu sinto muito por desabafar essas coisas com você. Sei como se sente...

- Xiii... – Patrícia colocou dois dedos nos lábios dele, calando-o. Em seguida, beijou-o e Antônio relaxou. – Eu te amo muito, Tony. Nunca se esqueça disso.

- Não vou esquecer jamais – respondeu ele, sorrindo. – Você me faz sentir como se fosse um garoto de novo...

Ele a abraçou novamente, puxando-a para o colo dele. Beijou-a com paixão, como se o tempo tivesse parado naquele instante. Patrícia sentiu-se leve e continuou beijando-o, enquanto ele a acariciava.

- Paty, eu te amo – sussurrou ele, mordiscando sua orelha. Uma onda de calor os envolveu. – Quero você, querida.

Patrícia ficou feliz com a declaração de Antônio. Sempre quisera fazer amor com ele desde o início de seu relacionamento. Ele nunca a desrespeitara, porque a considerava jovem. E naquele momento, ele mesmo estava pedindo.

Subitamente, o mundo de sensações inebriantes que Patrícia estava começando a conquistar foi substituído por um frio instinto de defesa. Tonta, Patrícia viu no rosto apaixonado de Antônio a cruel face de Maurício. Ela pulou do colo de Antônio e fugiu para a janela.

- Afaste-se de mim! Pare! Você não vai me tocar!

Antônio atravessou a sala e a abraçou carinhosamente para tentar tranquilizá-la. Patrícia, convencida de que era realmente Antônio, o abraçou e chorou.

- Desculpe, Tony. Desculpe...

- Não se preocupe, querida. A culpa foi minha. Fui eu quem forçou a barra.

- Não, Tony. É tudo que eu mais quero – continuou ela, chorando. – Mas, mas não posso apagar o que aconteceu comigo...

- Não se atormente assim, Paty. Já passou. Eu prometo a você que jamais vai acontecer.

- Eu sei, mas eu não sou mais... Não sou... Eu não tenho...

Antônio compreendeu sua aflição e a amou ainda mais por tal preocupação. Ele a aninhou nos braços.

- Eu vou embora agora. Você vai ficar bem?

Patrícia enxugou as lágrimas e virou-se para ele.

- Você é o noivo mais maravilhoso do mundo.

Ele sorriu e beijou-lhe na testa.

- Seus pais vão chegar logo. Qualquer coisa, ligue no meu celular. Vou com a Cláudia ao hospital apanhar a Fernanda e tenho ronda daqui a pouco. E, por favor, mantenha tudo trancado quando eu sair.

- Tá, obrigada. Eu te amo.

- Eu também. Tchau. – Ele fez uma carícia em seu cabelo e se foi. Olhou em volta e suspirou, subitamente cansado. Novamente, a voz daquele sujeito desprezível ressoou em sua memória.

“Vou pegar aquele desgraçado nem que seja a última coisa que eu faça”.

Antônio entrou no automóvel, ligou os faróis e partiu, sem perceber a presença do mendigo na calçada.

- Vamos ver quem vai ser pego, seu policialzinho de araque – falou Maurício, ajeitando o boné e o sobretudo encardido.

OS CONTADORES DE HISTÓRIAS - 8ª PARTE


A casa de Cláudia estava aberta e toda iluminada. O pai dela fumava um cigarro atrás do outro e estava no portão quando a viatura parou.

- Sou da polícia – apresentou o distintivo. Antônio, à sua disposição.

- Cleiton. Prazer. Se não fosse o Seu Ronaldo telefonar para cá, nós nunca íamos saber que a Cláudia saiu de casa desse jeito. Eu não entendo... – sacudiu a cabeça, inconformado.

- Ela não deixou nenhuma pista?

- Não sei... não consegui pensar em nada de tão aflito...

- Posso falar com sua esposa?

- Claro... Sílvia! Pode entrar, a mulher está lá na cozinha.

Antônio apresentou-se para Sílvia, fez algumas perguntas e pediu para ir até o quarto da moça. Quando entrou, observou a cama desfeita e a cortina balançando diante da janela aberta. Tudo indicava que ela tinha apenas saído às pressas, mas ao contrário do que imaginava, ela não parecia ter fugido. Porém, não havia nenhum indício de que a garota saíra para um encontro escondido.

Ligou o abajur sobre a escrivaninha e viu a agenda com o nome de Cláudia bordado na capa. Abriu-a no último registro que Cláudia deixara. Ele leu: “Hoje é o dia mais emocionante da minha vida, porque vou ficar com o Maurício, que já está tentando me conquistar a um tempão. Eu resisti, mas acabei me apaixonando por ele. Nós vamos para a praia antes do amanhecer. O pai e a mãe vão ficar danados da vida, mas preciso viver essa emoção.” Depois de ler, deixou a agenda no lugar e correu para fora.

- Por favor, Seu Cleiton, ligue para o delegado Ivan. A sua filha está nas mãos de um criminoso!

Alarmado, Cleiton correu ao telefone e Sílvia caiu em uma crise de choro. Antônio explicou que precisava voltar à casa de Ronaldo e saiu.


.......


Ronaldo ouviu a sirene da polícia e abriu ligeiramente a porta para Antônio entrar.

- O Maurício levou a Cláudia.

- Como sabe? – perguntou Ronaldo, apreensivo.

- Ela escreveu na agenda que vai para a praia com ele, mas não mencionou para qual... – Antônio estava desesperado. Não tinha pista nenhuma para segui-la.

- Calma, rapaz. Vou avisar o delegado.

- Já pedi para o pai da Cláudia falar com ele, mas se o senhor reforçar o pedido é tanto melhor – respondeu Antônio, andando em círculos dentro da sala. Por fim, debruçou-se sobre uma mesa, esgotado. Teve um sobressalto quando foi tocado por Patrícia.

- Minha querida... queria tanto ter evitado que esse sujeito te fizesse mal... – lamentou.

- Aconteceu, Tony. – Suas palavras eram doces e confiantes. – Talvez fosse uma prova para ver aonde chegava nosso amor. Não sofra com isso. Eu te amo e você também, porque não me abandonou depois que eu fui estuprada.

- Querida, nada me faria abandonar você...

- Eu ouvi a conversa que você teve com meu pai. Nós voltamos a ficar juntos por causa do esforço incessante e da confiança inabalável que ela tinha em você. Procure ela – pediu a moça.

- Não posso... – suspirou, vencido. – Não sei para que praia eles foram.

- Ele também me levou para a praia... – Aquele fora o primeiro comentário de Patrícia sobre o assunto. – Eu acho que sei para onde ele a levou.

- Você sabe? – Ele levantou de imediato. – Diga...

- Me leve com você – pediu a agora noiva, tocando nos ombros dele, como que a suplicar pela permissão. – Também quero ajudar a Cláudia.

- Não, eu não posso permitir – negou Antônio. – Não posso arriscar a sua vida de novo.

- Tony, é sério. A Cláudia está correndo perigo.

Antônio concordou em levá-la e esperava que Patrícia estivesse certa. Avisaram Ronaldo e Adelaide e embarcaram no automóvel.

.......


Cláudia observava os primeiros raios de sol surgirem na paisagem que o automóvel deixava para trás. Já podia sentir no ar outro clima, farejar a maresia, ouvir as ondas quebrando nas pedras. Seu coração palpitava, compartilhando a ansiedade que tomava conta de sua imaginação.

- Arrependida? – perguntou Maurício, enquanto manobrava o veículo para o acostamento. Pousou a mão livre na perna dela e continuou: – Vamos passar bons momentos juntos, eu prometo...

Ela sorriu com doçura, imaginando um momento mágico de envolvimento entre eles. Seu coração avolumava-se dentro do peito que arfava. Eles desembarcaram e ela olhou para o mar, porém, estava prestando atenção em si mesma, naquela sensação sufocante de dúvida, de medo repentino, como um pressentimento de perigo. Mas o que poderia dar errado?

- Quer? – Maurício abraçou-a por trás e lhe ofereceu uísque. Tomou um gole pelo gargalo. – Tome, vamos! – Diante da negativa, ele largou-a e sua voz tornara-se agressiva, o que deixou Cláudia desconfiada. Manteve os sentidos alerta, pois percebera uma sutil mudança no comportamento dele.

- Eu acho melhor você parar de beber, Maurício – pediu ela, vendo que ele estava esvaziando a garrafa. – Você precisa me levar de volta...

- E quem disse que você vai voltar? – comentou Maurício, com ironia, atirando a garrafa para longe. Agarrou-a e beijou-a à força. Cláudia sentiu o cheiro e o gosto do álcool misturado ao hálito quente.

- Você é muito mais linda que a Patrícia – afirmou, malicioso.

Cláudia ouviu a revelação, mas as palavras demoraram a fazer sentido para ela. De repente, sentiu que o mundo havia parado enquanto raciocinava. Seu pensamento voltara à imagem de Patrícia, quase desfigurada, imóvel, sobre aquele leito no hospital. Marcas de cortes e agressões cobriam seus braços e o que mais chocara fora a notícia de que ela havia sido violentada. Até então, crimes como aquele não produziam em Cláudia qualquer efeito, a não ser lembrar sua omissão no passado. A amiga que jamais voltara a ver... Tantos fatos, tantas falhas, tudo passou em sua mente em dois ou três segundos, que pareceram eternos. Suas pernas fraquejaram quando compreendeu o que estava acontecendo. Maurício premeditara o envolvimento com ela, provavelmente era sua estratégia para se aproximar de suas vítimas.
Instintivamente, procurou se desvencilhar e correu para longe dele, para a areia que afundava sobre seus pés.

A perseguição começara: o predador saía à caça de sua presa. Mais forte, alcançou-a, derrubou-a na areia e imobilizou-a. Rasgou sua blusa. Apavorada, Cláudia atirou areia nos olhos do agressor e conseguiu correr para o veículo, onde embarcou e virou a chave na ignição. Mas antes que pudesse colocar o veículo em movimento, Maurício quebrou o pára-brisa com a garrafa de uísque, abriu a porta e arrancou a garota de dentro do automóvel, provocando no braço dela um corte profundo no vidro espatifado. Agrediu-a no rosto e quando percebeu que ela perdera as forças, atirou-a no banco do passageiro, onde ficou desacordada.

Maurício deu uma arrancada no automóvel e sumiu na rodovia vazia.


.......


O tráfego na rodovia estava mais intenso naquelas primeiras horas da manhã e Antônio e Patrícia continuavam seguindo a única pista deixada por Cláudia. Patrícia pediu para Antônio estacionar a beira-mar diversas vezes, pois pensava ter reconhecido o local, mas suas tentativas foram todas infrutíferas. Ela sentia-se no dever de encontrar o foragido, o que provocou ansiedade e nervosismo. Percebendo seu estado, Antônio decidiu levá-la de volta para casa. Parou no acostamento e deu seta para à esquerda.

Contrariada, Patrícia implorou que insistissem na busca, argumentando que a vida de Cláudia dependia deles e que não poderiam abandoná-la. Pediu então para fazer somente mais uma tentativa. Dessa forma, Antônio concordou e seguiram adiante.

Alguns quilômetros depois, Antônio percebeu no acostamento marcas recentes de pneus e cacos de vidro, o que era comum, pois poderiam ser restos de algum acidente. Entretanto, àquela altura tudo deveria ser investigado para tentar rastrear o criminoso. Parou o veículo no acostamento e deu a ré até se aproximar dos vestígios. Desembarcou e examinou o local e encontrou algumas gotas de sangue fresco. Patrícia seguiu-o e ficou olhando para o mar.

- Veja, Tony!

Patrícia viu na praia um trapo e correu para averiguar. Quando percebeu que se tratava de uma blusa rasgada, ela começou a tremer e abraçou Antônio com força.

- Você acha que é da Cláudia? – perguntou ele, aninhando-a protetoramente.

- Eu não sei – disse Paty, quase chorando. – Eu estava desacordada quando chegamos a uma praia. Ele me arrastou para a areia, me agrediu novamente... e depois só me lembro de um lugar horrível, cheirando mal, onde penetravam alguns raios de sol. E aquela sombra monstruosa em cima de mim...

Patrícia ficou nervosa e caiu em prantos. Antônio levou-a de volta para a viatura.

- Vamos, Paty, você já se esforçou demais. Vou levar você pra casa.

Ela estava esgotada e não o contrariou desta vez. Antônio debruçou-se sobre o volante, com uma indescritível sensação de incapacidade. De repente, teve um palpite.

- Eu acho que sei para onde ele a levou – declarou, tocando na mão de Patrícia. – Está preparada?

Ela afirmou com um gesto e seguiram para o temível encontro com o bandido.

.......


Cláudia piscou os olhos, procurando acostumá-los à claridade. Um facho de luz vinha em sua direção e ela sentou-se para desviar do brilho. Sentiu ardência no braço e viu o sangue coagulado. A fraqueza entorpecia seus sentidos e ela custou a se lembrar do que estava acontecendo. Observou os raios de sol atravessando as fendas nas paredes de um rancho, que cheirava a abandono e podridão.

Havia uma porta dependurada apenas na dobradiça superior no lado oposto em que o sol não alcançava e, com muito esforço, Cláudia levantou e caminhou até lá, tateando nas velharias para não tropeçar. De repente, Maurício surgiu na entrada do rancho e ela gritou apavorada.

- Deixe eu ir embora – suplicou.

- Claro. – Maurício derrubou a porta e se afastou para o lado. Cláudia não acreditou na falsa sugestão e tentou correr. Entretanto, a tontura fez com que ela cambaleasse e Maurício facilmente a agarrou. Ele forçou Cláudia a beijá-lo e a empurrou contra a parede.

- Me larga!

- Não. Depois eu vou bater um papinho com aquela sua amiga bonitinha...

- Não, a Fernanda não! – Cláudia gritou, cuspindo no rosto dele. Ele deu uma bofetada em Cláudia, que caiu sobre um monte de entulhos. Jogou-se sobre ela, prendendo-a com o peso do próprio corpo. Cláudia tentou afastar Maurício a todo custo, não queria se entregar, mas estava cansada de lutar.

- Faça de uma vez, seu monstro! – exclamou, dando socos no rosto dele.

- Essas suas agressões são como cócegas. Vou te mostrar como é um soco de verdade...

A força da bofetada atirou Cláudia em um mundo de fantasmas e sons. Imagens embaralhavam-se em sua mente e ela desistira de tentar se salvar. Ficou imóvel e entregue a seu destino.

Uma força interna repentina provocou estalos em sua mente exausta e espasmos no corpo debilitado. Novas imagens e sons se misturaram e um assomo de raiva cresceu dentro dela. Cláudia trincou os dentes e alcançou uma garrafa vazia no meio dos entulhos onde caíra.

- Pare! – gritou Cláudia, espatifando a garrafa na cabeça dele, que caiu de lado.

Cláudia saiu correndo do rancho. A claridade do dia cegou-a nos primeiros instantes, mas ela seguiu um caminho na mata, tropeçando várias vezes enquanto olhava para trás. Cortou o rosto nos galhos, mas o desespero não permitiu que ela parasse. Na descida de uma colina, encontrou um riacho. Pulou sobre as pedras para alcançar a outra margem. Tentou equilibrar-se e acabou perdendo uma das sandálias. A água levou-a no curso do rio.

Chegando à outra margem, Cláudia parou para tomar fôlego. Bebeu um pouco de água, curvando-se na beira do rio. Continuou agachada, respirando com dificuldade. Quando a água parou de balançar, Cláudia viu a imagem de Maurício espelhada.

- Você não vai fugir de mim!

Maurício portava uma arma. Cláudia começou a tremer e fugiu. O bandido atirou, mas não a atingiu, e atravessou o rio para continuar a perseguição.

Cláudia não aguentava mais, mas procurou forças e continuou correndo.

Os raios de sol penetravam tímidos na vegetação fechada. Finalmente, a claridade aumentou no final do corredor da mata. Cláudia sorriu quando avistou os chalés.

- Socorro! Socorro! – ela gritou, mas não havia ninguém no parque aquático.

- Quieta! Eu vou acabar com sua vida... – Maurício surpreendeu-a próximo de uma das piscinas. Agarrou-a pelo braço ferido e mirou o revólver para sua cabeça. Maurício derrubou-a e ela se entregou à exaustão. Seu pulso estava acelerado e lhe faltava ar.

- Não se mexa!

A ordem viera do outro lado da piscina. Cláudia rolou no chão e, no meio da visão turva, reconheceu Antônio. Em seguida, viu Patrícia aproximar-se dele.

- Venha para cá, Cláudia! – disse Antônio, com Maurício em sua linha de tiro. Cláudia levantou-se do chão e seguiu na direção do casal o mais depressa que podia. – Você está preso! Levante os braços bem devagar!

- Preso? Por quê? Não fiz nada. Você não pode me prender por sair com minha namorada – respondeu Maurício, ironicamente desafiador. – A não ser que me prenda por ter me divertido com a sua namorada. – Desta vez, Maurício riu, enquanto observava Patrícia maliciosamente. – Eu sei o que ela tem pra dar. Você, não sei...

Maurício disparou um tiro em Antônio e fugiu. As moças gritaram enquanto Antônio caía no chão. Mas ele se recompôs de imediato, disse para Patrícia cuidar de Cláudia e seguiu na direção que Maurício havia tomado.

- Está tudo bem com você? – perguntou Patrícia, ajeitando o cabelo de Cláudia. – Ele te machucou?

- Me surrou, não fez... – respondeu Cláudia, soluçando nos braços de Patrícia.

- Vem, vamos para o carro.

Minutos mais tarde, Antônio voltara para o veículo. A decepção dominava seu semblante.

- Eu perdi o cara. Droga! – Ele chutou uma pedra qualquer.

- Ele vai voltar, Antônio! Ele vai atrás da Fê! – alertou Cláudia, caindo em prantos.  – Por favor, precisamos avisar ela…

Antônio pediu para que Cláudia relatasse os planos de Maurício e entrou em contato com a central de polícia.

- Câmbio... Antônio... Perdi o sujeito, delegado... Ele vai atacar de novo... Fernanda, outra moça da universidade... câmbio, desligo. – Esfregou a cabeça e voltou-se para as moças. – Vamos para casa.

Embarcaram na viatura e meia hora após estacionavam diante da casa de Cláudia. Os pais dela vieram aflitos ao encontro dela. Não fizeram perguntas, apenas a levaram para dentro.

- Ah, querida! Não sabe a agonia que passamos. Graças a Deus você está bem – suspirou a mãe.

- Muito obrigado, policial. Você salvou a nossa filha – agradeceu Cleiton.

- É o meu trabalho. Recomendo chamar um médico. Não aconteceu nada mais sério a ela, mas talvez Cláudia precise de uma dose de sedativos. Ela precisa de muito repouso. O senhor deve saber disso melhor do que, mas, por favor, não a perturbem com perguntas ou recriminações.

- Tudo bem, Antônio. Agradeço mais uma vez.

- Agora quero sua colaboração.

- Em que posso ajudar?

- Preciso do endereço de Fernanda.

Cleiton escreveu o endereço em um pedaço de papel e o entregou a Antônio. Este agradeceu e voltou para o carro, onde Patrícia o aguardava. Ele percebeu que ela estava muito triste.

- O que foi, meu bem?

- Você deve ter ficado com raiva de mim, depois que ele disse aquilo.

Ele sabia do que se tratava. Sentira muito ódio no instante em que Maurício o desafiara.

- Por que eu sentiria raiva de você, Paty?

- Porque eu não lutei como a Cláudia para me defender dele. Porque eu deixei ele fazer aquilo comigo...

- Pare, Paty. Não pense nessas coisas. O que importa é que você está viva e eu amo você. Minha vida não seria mais a mesma se eu te perdesse.

- Jura?

- Juro. Agora enxugue essas lágrimas. O que seus pais vão pensar se chegarmos lá assim?

Patrícia conseguiu sorrir.

- Fico feliz por que a Cláudia está a salvo.

- Eu também, mas ele está solto. Preciso agarrá-lo, nem que seja a última coisa que eu faça!

Antônio deixou Patrícia em casa. Deu satisfações a Ronaldo e rumou para a casa de Fernanda.