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Joinville, Santa Catarina, Brazil

ENGRENAGEM DO CRIME – 1ª CAPÍTULO - O SABOR DO XIS-SALADA – 2ª PARTE



Vanessa, de pé no banheiro, remexe em seu nécessaire e, desconsolada, se olha no espelho. A imagem que se reflete ali, repetindo seus movimentos e devolvendo seu olhar incrédulo, parece irreal.

Baixa os olhos por um momento para as mãos que, trêmulas, abrem o pó compacto e apanham a esponja, porém, ficam suspensas no ar a um palmo da face maculada. Aguardam indecisas durante o instante em que Vanessa retoma a coragem de encarar novamente seu semblante na moldura envidraçada. Os olhos do reflexo prendem-se aos olhos da mulher e aqueles atravessam a alma desta, muito mais lesada do que a parte tangível de seu ser.

Os mesmos olhos perscrutam seu interior e nessa troca, Vanessa sente o peito comprimido e a respiração descontinuar, entretanto, aquele aspecto quase sinistro parece imutável. Sente também súbita vertigem e seus pés perdem a aderência com o piso frio. As pernas formigam. O coração acelera. As lágrimas distorcem as imagens de sua memória visual. Com exorbitante debilidade, larga o estojo e a esponja, deixando a cabeça pender para frente. Os braços enfraquecidos suportam o peso de todo o corpo quando as mãos se apoiam na pia para evitar o desfalecimento.

Finalmente, depois de inspirar e expirar profundamente, aproveitando ao máximo cada alvéolo pulmonar, Vanessa lava o rosto e levanta a fronte. Esfrega com afinco a esponja com pó sobre a pele, cobrindo grande parte dos hematomas. Impulsionada por um resquício de orgulho, ativa a mente para pensar em uma desculpa qualquer caso as colegas de trabalho estranhem esse inusitado zelo com a própria aparência, já que não se maquia diariamente.

Atraída por um estalido, Vanessa vira-se abruptamente para trás e encolhe-se, receando que o marido tivesse despertado. Contudo, tranquiliza-se ao observar que Pedro apenas se remexera na cama e ainda roncava. “Quando ele acordar vai sofrer com dor de cabeça”, preocupa-se, apesar dos desgostos da madrugada.

A lembrança inunda novamente seus olhos aguados e ela se esforça para reter as lágrimas. Sente-se confusa e amedrontada, pois presumia que ela e o marido tinham um bom relacionamento, e pensava erradamente que a violência doméstica ocorre devido a brigas constantes. Irritava-se ao assistir os noticiários porque as esposas não denunciavam o cônjuge agressor na delegacia da mulher e ainda se julgavam culpadas, argumentando motivos que levavam à agressão física. Hoje, porém, em que Vanessa passa de juíza à vítima, percebe o porquê as mulheres silenciam: porque um dos sentimentos envolvidos é a esperança de que o incidente nunca mais acontecerá.

As emoções confundem-na, martirizam-na, incitam-na a abandonar tudo, tamanha a humilhação que a arrasa. Inspira profundamente e avalia que o melhor é sair de casa sem fazer barulho. Tranca a porta e, cabisbaixa, desce devagar a rua íngreme. Encabula-se quando uma vizinha lhe cumprimenta, pois tem a impressão de que a outra consegue enxergar nela as marcas da violência.

São quatro e meia da madrugada quando embarca no transporte especial para ir à confecção. Sente-se grata pelo trabalho, esforça-se para ser funcionária exemplar e gosta de seu ofício, entretanto, nessa manhã cinzenta, tudo é triste. Mágoa, humilhação, revolta, vergonha; sentimentos misturam-se em seu ser.

Desembarca do ônibus e atravessa a portaria, liberando a catraca com seu crachá. Suspira de alívio porque no meio de quinhentos funcionários ninguém parece tomar conhecimento das dores que dilaceram sua dignidade.


*****


Estéfanie acorda com o ruído das roldanas das cortinas sendo arrastadas nos trilhos metálicos. O sol bate em cheio no espelho de seu roupeiro e reflete o brilho por todo o quarto. Apesar de seu murmúrio de protesto, Iracema, a mãe da garota, empurra as janelas, tagarelando uma série interminável de ordens para que a filha obedeça prontamente.

- Mãe... você não vai trabalhar hoje? – pergunta, sonolenta e abatida.

- Ô, filha! Eu já fui e já voltei. Esqueceu que hoje é sábado e eu largo o serviço às nove horas? Vamo! Levanta dessa cama, sua preguiçosa!

- Calma, mãe... não vê que eu tô toda quebrada? Que dia é hoje? – insiste.

Enquanto responde, Iracema recolhe as roupas empilhadas em um canto do quarto. “É sábado, ouviu? Sá-ba-do!” e Estéfanie finalmente coloca os pés para fora da cama e espreguiça-se. Esfrega os olhos, inchados de tanto chorar, e lembra-se da recriminação do pai. Quer lamentar, mas Iracema, com seus 1,56 m de altura, está ocupada demais com os afazeres domésticos; preocupada com o almoço, com a roupa por lavar, com a faxina geral, com o jardim que precisa de cuidados. A filha fala, fala. Mas o que está dizendo mesmo? Com a trouxa de roupa suja no colo, a mãe só pensa que Estéfanie não passa de uma adolescente totalmente adversa da educação que lhe dera.

- Ah, e eu quero que dê um jeito nesses penduricalhos! – exige Iracema, pois jamais aceitara o estilo desafiador da filha, que não economiza piercings. – Além disso, tem que sumir com estes trastes...

- Ô, mãe! – Estéfanie protesta em lá maior quando a mãe chamou de trastes os seus instrumentos musicais. – Ao contrário do que a senhora pensa, não sou uma desinteressada – tenta explicar. – Eu quero assumir a música profissionalmente, e eu preciso praticar. Como é que a senhora tem coragem de dizer para me desfazer de meu bem mais valioso, mãe? Seria o mesmo que obrigar o Tio Patinhas a jogar fora sua moedinha número um!

Suas reclamações tampouco fazem cócegas na visão autoritária e definitiva com que sua mãe conduz a convivência familiar e mantém a ordem. Estéfanie engole as lágrimas enquanto arruma sua cama e ajeita alguns bichos de pelúcia sobre a colcha cor-de-rosa. Gosta deles tanto quanto do violão e das pautas com as quais compõe. Tenta, então, recolher seu material, mas é impedida por um assomo de lágrimas. Não, decide, não praticaria tal injustiça consigo. Tentaria conversar com os pais, pediria uma nova chance. Por mais que os amasse e consciente da necessidade de obediência, não poderia permitir que eles arrancassem sua própria alma.


*****



Durante o trabalho, Vanessa procurou não se lembrar do episódio que marcara as horas anteriores de sua vida, mas assim que cumpre o expediente, abandona qualquer tentativa de disfarçar a realidade. Seu semblante está visivelmente deprimido e ela teme o retorno para casa. Angustiada, desembarca do transporte especial por volta das 9h30 e caminha na direção de sua residência.

Pedro, por sua vez, encontra-se no portão da casa, aguardando ansiosamente a chegada da esposa e sorri ao avistá-la. Vendera muitos lanches na última sexta-feira e cedeu a um apelo de consumo há muito desejado ao adquirir um aparelho de DVD, que já instalara na sala, conectando-o à TV. Impaciente com os passos lentos de Vanessa, que se demora a subir a ladeira, abre o portão e vai ao encontro dela. Nem percebe que ela se encolhera com sua aproximação, dá-lhe um selinho e apressa-a a entrar na casa.

Vanessa, completamente confusa, se deixa levar pela empolgação dele e obedece cada comando em silêncio: venha, entre, veja...

- O que é maravilhoso? – pergunta, como se tivesse acabado de despertar de uma noite mal dormida.

- O DVD! Comprei pra nós hoje pra te fazer uma surpresa!

Franzindo a fronte, ela se arma para despejar sobre ele todas as frases que treinara durante o percurso, mas antes disso cai em um estado de entorpecimento, que a impede de proferir uma única palavra. “Estava com a consciência pesada e quis aliviar a culpa”, reflete, embora momentaneamente incapaz de revelar ao marido seus pensamentos e dores.

- Não gostou? – indaga, inocentemente. – Mas que bicho te mordeu?

- Eu é que lhe pergunto, Pedro.

Saindo da inércia, ela desabafa. Mostra os hematomas, altera a voz, ameaça denunciá-lo para a polícia. Ele apenas se senta e, calado, fita-a. Depois pergunta:

- De onde foi que você tirou tudo isso? Tá ficando doida? Se não tá satisfeita com meu esforço, porque tá aqui comigo?

Depois de desferir aquele golpe, apanha o boné, ajeita-o na cabeça, pega vasilhames de alimentos e temperos na geladeira, guarda em um reservatório do carrinho de lanche, o qual empurra rua abaixo. Vanessa então chora até a última gota, em uma mistura cada vez mais conflitante de sentimentos. Quando finalmente se acalma, raciocina a respeito da atitude do esposo. Revoltada, percebe que ele agira como se nada tivesse acontecido e como se ela tivesse inventado tudo! Mas de que maneira ela seria capaz de fantasiar um desentendimento de tamanha proporção se há evidências que comprovam a agressão sofrida em seu corpo? E o aparelho de DVD, de onde ele tirara dinheiro para comprar se o carrinho de lanche ajuda somente para pagar o aluguel do imóvel onde residem? Vanessa então se sente uma ingrata, um dos poucos sentimentos que ainda faltavam para sua coleção emocional.


*****


Passa das 14 horas quando um rapaz jovem, com a pele morena devido à exposição continuada ao sol e com a fisionomia aparentemente castigada, prega tábuas de madeira para formar a parede de uma pequena estalagem semelhante a mais duas habitações construídas nas proximidades. Ao seu lado, um cão vira-lata espreita e então late para alertar sobre a aproximação de outro homem, com o qual o animal se encontra para receber um afago no pelo marrom.

- E aí, Deco? Vejo que está quase terminando mais um alojamento!

- Seu Ricardo, que maravilha ver o senhor aqui em pleno sábado! – alegra-se, com sinceridade. – Pensei que o senhor só voltava na segunda-feira.

De fato, Ricardo não havia se demorado tanto dessa vez. Saíra há três dias para cuidar de seus negócios no escritório e visitar a própria família, mas sua verdadeira felicidade mora ali, na fazenda Reconstruindo Vidas, local que ele próprio fundara para tratar das pessoas que buscam uma melhor qualidade de vida.

- Tenho uma coisa pra você! – anuncia, retirando um envelope do bolso da calça jeans. – Encontrei sua esposa por acaso quando entrávamos no correio da Rua Princesa Izabel, lá no Centro. Então ela pediu que eu entregasse pessoalmente esta correspondência.

- Uma carta da minha esposa? – anima-se, apanhando o envelope com urgência. Contém o desejo de ler a carta e olha para Ricardo com gratidão. – Desculpe, eu leio depois que terminar meu serviço...

- Ora essa! Demorou! – exclama Ricardo, esboçando um sorriso tranquilizador. – Uns poucos minutos não vão prejudicar seu trabalho e ainda vai auxiliar no seu tratamento.

Ricardo observa o rapaz abrir o envelope e, discretamente, volta para o rancho que serve de sede para a clínica. O cão acompanha-o abanando a cauda, feliz com a presença do dono, até que esse entra no rancho. Ricardo abre a porta do pequeno escritório. Tem muito trabalho a fazer, mas o calor não o encoraja. O sol forte e a falta de vento desse sábado à tarde tornam o ambiente abafado e sufocante. A baixa umidade relativa do ar também provoca mal-estar. Desprovido do grande estado de excitação que normalmente o acompanha, porém, consciente da importância das tarefas pendentes, apanha correspondências, caneta, boletos, livros contábeis e sai da sala abrasadora, indo se instalar em uma das mesas de concreto que fica à sombra de um grande chorão no pátio da entrada principal do recanto. Nem ali pode trabalhar sossegadamente, porque os insetos o infernizam. Apoia os braços na mesa e se põe a divagar.

Dera muito trabalho para os pais quando adolescente. Desprezava as exigências que eles impunham, ofendia-os, agia inadvertidamente. Não dava satisfação sobre sua vida. Frequentava o colégio, mas não as aulas; desrespeitava os professores, consequentemente reprovara diversas vezes por baixo desempenho e mau comportamento. Nas ruas, passava trotes nos transeuntes para escarnecer de suas reações. Maltratava cães e gatos. Bebia muito e dirigia alcoolizado o automóvel do amigo. Tripudiava das garotas. Zangava-se com facilidade. Buscava ínfimos pretextos para agir com violência. Liderava uma gangue de baderneiros e vândalos. Seus pais recebiam reclamações, denúncias e ameaças a todo o momento, contudo, pávidos, acompanhavam as piores notícias sobre o próprio filho. Perceberam tarde demais que haviam perdido o controle sobre o garoto. Não bastasse o quadro social decadente e criminoso no qual Ricardo se envolvera e insistisse em continuar, começara a consumir drogas.

As consequências do consumo foram as esperadas: agressões, furtos dentro de casa –  pequenos, mas não menos relevantes, delitos nas ruas, desistência dos estudos, perturbação mental, saúde em definhamento. Os pais de Ricardo iniciaram um difícil, dispendioso e persistente trabalho em favor da recuperação do filho, e graças à atuação corajosa da família, cinco anos após a degeneração, Ricardo estava limpo.

Ricardo volta para a realidade da administração do Reconstruindo Vidas: compra de mantimentos, medicamentos, organização das visitas, cumprimento da imposição da vigilância sanitária para construir um local adequado para cada um dos jovens internados. Escuta as marteladas de Deco que, com mais afinco, termina a parede. De longe, o rapaz anuncia com alegria quase infantil que a esposa virá visitá-lo no início do próximo mês. A notícia da reaproximação desse casal enche Ricardo de satisfação, pois a própria experiência mostra que a família exerce papel essencial no tratamento de desintoxicação. No entanto, poucas estão habilitadas para ajudar, porque o consumo de drogas não somente destrói o organismo daquele que se torna dependente químico, como também aniquila a família que vive os mais caóticos descontroles emocionais.

As drogas invadem sutilmente a vida das pessoas, disfarçadas por um sentimento de curiosidade aliado a uma necessidade espontânea, resultante de desavenças familiares, sentimentos reprimidos, proibições, decepções, amarguras e até mesmo ociosidade. No caso dos jovens, o desejo de aceitação em um grupo exige que ele tome certas atitudes para se igualar aos companheiros que, com desafios mal-intencionados estimulam a prática de rebeldias, como a insatisfação em relação a bens de consumo, indisciplina, atos de vandalismo, desobediência aos pais. Adolescente ou adulto – pouco importa a idade cronológica, para se autoafirmar não vê o inimigo oculto numa inofensiva porção de pó. Quer ser notado, admirado, cercado de amigos, dos mesmos que em um estalar de dedos desaparecem assim que o dinheiro acaba.

Ricardo assume que havia se corrompido muito cedo e não sabe explicar a distorção de caráter que o incitava a praticar atos desvairados com total leviandade. Alimenta o sentimento de gratidão e profundo respeito pelos próprios pais, pois está vivo porque eles nunca desistiram dele. Baseado no exemplo de amor incondicional dos pais, Ricardo projetara para si mesmo um enorme desafio: resgatar outros seres humanos arruinados pela dependência química, procurando restituir-lhes a autoestima e reunificando as famílias segregadas. Se o início de qualquer atividade é difícil, prosseguir com seu propósito exigia comprometimento, persistência, paixão, força de vontade. Enquanto riqueza, fama e poder constituíam-se em metas para a maioria das pessoas, ele, despretensiosamente, almejava contribuir para melhorar a vida de algumas pessoas em uma pequena propriedade rural no distrito de Pirabeiraba.

Quando se dá conta, Ricardo já havia terminado o trabalho e, satisfeito, leva os materiais de volta para o escritório, pois está anoitecendo. Enquanto o dono trabalhava, o cão permanecera ao seu lado em silêncio o tempo todo, como se fosse capaz de compreender a importância de sua disciplina e de seu comportamento.

ENGRENAGEM DO CRIME – 1ª CAPÍTULO - O SABOR DO XIS-SALADA – 1ª PARTE




Estéfanie dá o máximo de sua habilidade vocal e juntamente com Eduardo na guitarra, Vinícius na bateria e Peter no baixo, recebe aplausos e ovações de uma plateia extasiada. Centenas de adolescentes cantam as músicas de sua autoria e pulam freneticamente, contagiados pelo som dos instrumentos. Estéfanie encerra o show com um caprichado agudo e Vinícius triunfa com suas últimas notas na bateria. O delírio extravasa todas as expectativas e eles maravilham-se com o sucesso que atingiram hoje. O nome da banda, Engrenagem, é repetido pelo coral de vozes entusiasmadas, sucessiva e ininterruptamente...

 - TÁ VIAJANDO, CARA?!

Depois da “extrema delicadeza” de seu amigo Peter, Estéfanie sacode a cabeça, aturdida. Irada, encara o amigo, mas este não está nem aí para ela, pois acompanha a galera que aplaude a verdadeira banda que se apresenta no Centreventos Cau Hansen, em Joinville. O pessoal pula, canta, assovia e nesse desvario de som, luzes e cotoveladas, Estéfanie se sente subitamente entediada. Não que não aprecie o afamado show. Frustra-se porque ainda não havia conseguido realizar seu sonho, que é o de apresentar a própria banda que organizara há dois anos, na qual exerce a função de vocalista e compositora. Apesar de sonhadora, sabe que o sucesso não cai do céu e é resultado de muito trabalho, dedicação e persistência.

- SABE D’UMA COISA? – berra ao ouvido de Peter.

- O QUÊ?! – pergunta ele, desatento e sem olhar para ela.

- É QUASE UMA HORA DA MADRUGADA E TÁ NA HORA DA GENTE IR EMBORA!

O garoto protesta, mas depois de um forte puxão em sua camiseta, é arrastado no meio do povo espremido.

Estéfanie apanha o celular e liga para Eduardo e Vinícius, persuadindo-os a retornarem para casa. Encontram-se na escadaria principal do Centreventos. Decidem pegar um táxi e juntam alguns trocados.

- E agora, mano? Nós tamo mal na fita, velho! – alerta Peter, esfregando a cabeça quase raspada, ao verificar que tinham gastado mais dinheiro do que deveriam.

- Nós vamo atrás de um zarcão e vamo logo – propõe Eduardo.

- Mas que bicho louco! Zarcão? A essa hora? Tá cheirado, cara? – contesta Vinícius, malhando o amigo.

- Calem a boca! Vam’bora! – decide Estéfanie, estressada com a celeuma inútil iniciada pelos companheiros.

Vinícius então acende um cigarro e oferece para os outros, que negam energicamente.

- Tô fora! – respondem os outros três.

- Não dá nada. Além disso, eu preciso me acalmar.

- Sai dessa, cara! – critica Estéfanie. – Enquanto você pensar que esta porcaria te acalma, vai só se dar mal.

Vinícius não dá a mínima importância às recomendações dos amigos e traga seu cigarro inofensivo. À medida que a fumaça produz os efeitos de euforia esperados em seu organismo, o garoto ensaia caretas de satisfação.

Estéfanie chama-o ainda uma última vez, mas já é tarde, porque tão logo chegam à Rua Orestes Guimarães que dá acesso ao estacionamento do Centreventos, o garoto sumira na multidão de jovens entorpecidos. Preocupada, ela e os outros dois amigos seguem adiante para procurá-lo. A maresia é tremenda e Estéfanie tampa as narinas. “Os caras sabem que é uma furada e tão se achando”, pensa, enquanto se esgueira no meio deles em busca do companheiro.

Peter e Eduardo avisam que vão tentar descolar uma carona e enquanto Estéfanie fica imóvel, tentando encontrar uma pista do paradeiro de Vinícius, uma garota enfezada vai pra cima dela.

- Ei! Calma aí!

- Calma nada, fura-olho! Vou te dar uma lição!

Logo, dezenas de garotas fecham círculo em torno de Estéfanie e da garota que iniciara a briga.

- Ei, deixa meu cabelo! Não fiz nada! – protesta, tentando se defender do canivete que roça em seu rosto.

Atordoada, Estéfanie nem vê quando Vinícius aparece na roda, acalmando a garota desvairada com um copo de bebida forte e um baseado. Estéfanie suspira aliviada por Vinícius ter reaparecido bem na hora de livrá-la de levar, de graça, uma surra.

- Onde você se meteu? – indaga, zangada.

Vinícius dá uma desculpa esfarrapada e tira onda da sua cara de assustada. Estéfanie fica ainda mais furiosa e tem vontade de dar uns bons tapas no amigo irresponsável. Finalmente, Peter e Eduardo surgem para buscá-los.

- Conseguimo carona! – anunciam com euforia.

Os jovens embarcam em um veículo, que é conduzido acima do limite de velocidade e fura um sinal vermelho da rua Dr. João Colin.

Estéfanie é a primeira a ser deixada na porta de casa.

- Tchau, galera! Amanhã a gente se fala.

- Falô! – respondem os outros simultaneamente.

Enquanto Estéfanie entra em sua casa, Vinícius enfia-se entre os assentos do motorista e do passageiro e sugere continuarem a curtição.

- Sei de um lugar que tá bombando! – anuncia, em meio a um soluço.

Peter, Eduardo e seu amigo motorista topam, contudo, ficam um pouco apreensivos, pois sabem que Vinícius anda se metendo com uma galerinha da pesada e não confiam nele. Mesmo assim, são convencidos por argumentos irresistíveis.

- Tem mulher boa pra caramba lá...

- Tamo dentro!

Dão a ré e, excitados, seguem para o local combinado: um bar com pagode ao vivo que abrira recentemente na cidade.


*****


Estéfanie entra em casa na ponta dos pés descalços para não fazer barulho. Abre a porta de seu quarto e, ao acender a lâmpada, é surpreendida pelo pai que, sentado em uma poltrona, franze a testa, arqueando suas sobrancelhas espessas.

- Que susto, pai!

- Você já viu que horas são, dona Estéfanie? – interrompe, levantando-se. – Duas e meia da madrugada! Eu e sua mãe não pregamos o olho durante a noite inteira!

- Não fica estressado, pai... eu... eu posso explicar... – gagueja, estampando um sorriso de desculpas para atenuar a zanga do pai. – O show começou bem mais tarde do que foi anunciado. O pai sabe como é. E nós demoramos pra encontrar carona pra casa...

- Chega de desculpas, filha! – ralha, empertigando-se na frente da adolescente com o dedo indicador desenhando rabiscos impacientes no ar. – Eu disse que você devia chegar às onze horas e nem um minuto a mais! O que você e aqueles desocupados andaram aprontando?

- Pai, aqueles que você chama de desocupados são meus amigos...

O comentário inapropriado excede o autocontrole dele e, calada e cabisbaixa, Estéfanie ouve uma ríspida recriminação. Não é a primeira das severas admoestações, mas sempre se sente magoada. Para encerrar, o pai proíbe-a de se encontrar com os amigos. Sai do quarto batendo a porta atrás de si, enquanto Estéfanie reage em um pranto soluçante.

*****


São aproximadamente três horas da madrugada. Ouvem-se consecutivos disparos de armas de fogo no bairro Costa e Silva e um estudante é gravemente ferido. A ambulância dos bombeiros voluntários de Joinville é acionada e chega rapidamente para o socorro, porém, os médicos conseguem somente aliviar a expiação do jovem. Por conseguinte, a polícia age e evidencia que a vítima se envolvera em uma pancadaria com um traficante de drogas que frequentava o Clube 17. Os fragmentos de pedras de crack encontrados na jaqueta do estudante assassinado levam os investigadores a alertar imediatamente outras viaturas para varrer o quarteirão e passar um pente fino na galera que se espalha com medo da represália.

Do outro lado da rua, na Praça do Bosque, um casal de adolescentes permanece em um dos bancos de concreto trocando carícias e, apesar de tamanha agitação, não percebe a aproximação de outro policial armado que vai logo os interrogando. Sobressaltada, a garota fica de pé em um milésimo de segundo e o garoto, com a intenção de ganhar moral diante da menina, empertiga-se e enfrenta o policial. A atitude irrefletida do garoto em peitar a lei provoca a ira do policial, que trata de punir o rapaz com o cassetete.

- Tio, por favor, deixa ele em paz! – implora a jovem, tremendo da cabeça aos pés. – A gente não fez nada... eu juro! A gente vai direto pra casa, né, Eduardo?

- É, é isso aí, gata... – tartamudeia, massageando o braço atingido.

Entretanto, o policial de compreensivo não tem nada e exige o número do telefone da casa de Eduardo. O garoto saca de cara o que vai acontecer e não quer tomar bronca do pai, senão ele vai cortar seu barato na banda Engrenagem. Apesar da insistência e das desculpas, o policial entra em contato com o pai de Eduardo e este chega ao local uns dez minutos depois do telefonema, estacionando furiosamente o caminhão carregado. Zangado, faz o filho pagar o maior mico, porque, nessa altura, os vizinhos, em roupas de dormir e chinelos, estão parados na frente das próprias residências para ver o motivo de tanta gritaria. Depois da repreensão, Eduardo nem percebe que passa perto de Vinícius e de Peter e embarca no caminhão.

- É, o bicho se ferrô... – reconhece Vinícius.

Vinícius observa que o policial vem seco na direção deles e fica nervoso. Sabe que a coisa vai ficar preta para o lado deles se o cara resolve evista-los, pois ainda tem um baseado largado no bolso lateral de seu bermudão. Como se tivesse lido seus pensamentos, o PM vai logo mostrando autoridade e examina-os. Vinícius quer reclamar com os modos do Tatiana contara toda sua história e, no final, Natália abraçou-a.
Amiga, você tem uma barra pesada pela frente, mas não desista, viu? Você merece toda felicidade do mundo. No final, tudo vai dar certo.
Obriga, Natália. Eu sabia que podia contar com seu apoio.
Agora preciso ir, estou atrasada para o colégio. Tchau!
Assim que Natália saiu, Tatiana voltou ao trabalho.


Natália saiu da empresa e ficou surpresa quando viu Luíza e Paloma.
Ué? Vocês não iam embora?
A gente ia, sim, mas ficou batendo papo e nem viu o tempo passar – falou Luíza.
Você nem imagina quem passou por aqui todo feliz, Natália – comunicou Paloma.
Quem?
O Paulo, aquele mala que ia se casar com a Tatiana. Ele sorriu e disse tchau, até parecia gente. Acho que o casamento fez bem pra ele – continuou Paloma.
Pode ser – concordou Natália, rindo porque conhecia bem a razão que o transformara. – Olha, eu não quero ser estraga-prazeres, mas estou atrasada – alertou.
Ah, meu Deus! – exclamou Luíza, apavorada. – Vou perder minha aula! Tchau, gente!
Espera, eu vou com você – disse Natália, enquanto se despedia de Paloma.
As duas apressaram o passo para chegarem a tempo de tomar o ônibus no terminal norte e Paloma atravessou a rua, pois morava em uma casa que fazia frente com a empresa. Antes de abrir o portão, porém, ela viu uma sombra movimentar-se e ficou inquieta.
Deve ser minha imaginação – resignou-se ela, entrando na casa.
Assim que ela sumiu, a pessoa que estava à espreita saiu de seu esconderijo e atravessou a rua, encaminhando-se para a porta que dava acesso ao interior da empresa. Girou o trinco, mas o sistema interno de travamento estava acionado. Naquele instante, viu a luz na cozinha do andar superior ser acesa e um funcionário colocar a cabeça para fora da janela.
Está precisando entrar? – perguntou o rapaz.
Sim.
Espere um minuto que já estou descendo. – O rapaz levou um minuto para descer e, ao abrir a porta, olhou para o sujeito com uniforme e boné e se afastou para que ele pudesse entrar. – Você é novo por aqui? – perguntou antes que o instalador desaparecesse no corredor.
Sim.
Ah, eu também. Está no plantão noturno?
Sim.
Tchau, bom trabalho.
Igualmente.
Tatiana olhou o relógio. Passava das 19:30 e ela suspirou. A pilha de ASLA’s para conferir parecia não ter diminuído e a moça começou a sonhar com a publicação de suas histórias. Ela amava escrever e, apesar de não ter nenhuma expectativa a curto prazo para conseguir a publicação, não desistia de seu sonho.
Seus pensamentos foram subitamente interrompidos pelo, mas fica paralisado, com a respiração presa.

- Vocês tão limpos, VAZA, VAZA, VAZA! – ordena o policial e se encaminha para a viatura.

Vinícius e Peter, sem perder tempo, somem nas ruas sombrias.

OS CONTADORES DE HISTÓRIAS – 11ª PARTE - FINAL


Antônio desligou a sirene quando se aproximou do endereço informado. Cautelosamente guiou a viatura até o telefone público, ao lado do qual estacionou. Manteve os faróis acesos e desembarcou do veículo para procurar pistas em torno do local. A região árida onde se encontrava era precariamente iluminada e tornava a busca ainda mais difícil. Para piorar, havia previsão de chuva forte para aquela noite nebulosa e o tempo já começara a mudar. O vento levantava redemoinhos de poeira e folhas secas e sibilava, como se estivesse prenunciando uma tragédia.


Indiferente à mudança climática, Antônio tentava prestar atenção a qualquer indício. Porém, seu conflito pessoal prejudicava seu trabalho, já que o ódio que sentia pelo criminoso estava sobrepujando seu pensamento racional. Apesar de observar os arredores do cemitério, ele não encontrou nenhuma pista e a ansiedade tomara conta de sua vontade. Cedendo às emoções negativas, acabou perdendo o senso prático de investigador e deixou a raiva ganhar espaço em seu coração. Afinal, a vítima não era simplesmente a refém de um bandido, e sim, a mulher que amava e com quem desejava passar o resto de sua vida.


Encostou-se na viatura, tentando controlar sua revolta. Respirou profundamente procurando equilibrar suas emoções para não perder o foco de sua missão: resgatar a vítima e capturar o sequestrador.


Foi necessário um esforço excepcional para restabelecer seu autocontrole, mas Antônio finalmente recobrou sua razão. Consultou o relógio e verificou que passava da meia-noite. Confiante, apanhou a lanterna, trancou o veículo e caminhou a passos largos por uma estrada secundária.


.......



Maurício observou a mudança repentina do tempo, mas pareceu não dar importância aos fenômenos meteorológicos. Arrastava Patrícia pela rua deserta, determinado a executar seu plano.


Enquanto os raios acendiam o céu, ondas elétricas chocavam-se no cérebro dele, perdendo-se nos labirintos intermináveis de sua memória. O tempo não fora suficiente para apagar as feridas da infância, quando vira a mãe morrer com um tiro a queima-roupa. Lembrara-se do ódio que sentira pelo policial que a atingira e jurou para si mesmo que acabaria com a vida do assassino de sua mãe.


- Me solte, por favor – gemeu Patrícia, exausta. – Não consigo mais ir a lugar algum...


Maurício interrompeu suas lembranças e parou de caminhar. Observou a jovem indefesa e lembrou como a tomara pela primeira vez. Sentira-se um monstro pela forma como a maltratara, mas tinha consciência de seus atos. Usara-a como isca para atrair Antônio e se vingar. Destruíra a vida de ambos e quando imaginara que Antônio seria condenado, as duas garotas apareceram para atrapalhar. Vira-se então obrigado a aumentar o círculo de vítimas, fazendo Cláudia e Fernanda pagarem pela intromissão. Entretanto, elas foram resgatadas e ele cada vez mais exposto, o que provocava ainda mais sua ira.


- Não se preocupe tanto – respondeu ele, acariciando o rosto dela. Patrícia se esquivou, não suportando a ideia de ser tocada outra vez.


- Seu nojento! – exclamou ela, cuspindo no rosto dele.


- Esse seu jeito de fera indomável me excita, você sabe disso... e esses trovões acima de nós completam a atmosfera romântica para nosso reencontro – ironizou.


- Jamais! – esperneou ela. – Prefiro morrer!


Maurício riu alto quando Patrícia encolheu-se com medo dos raios e trovões, revelando que a atitude de mulher corajosa não passava de uma encenação amadora.


Patrícia começou a soluçar. As lágrimas quentes que escorriam por sua face reduziam sua esperança de ser resgatada com vida e aumentavam o pavor que sentia. Seu coração acelerara num ritmo incontrolável e o desespero tomara conta dela. Ameaçou correr, mas foi detida por Maurício, que empunhara novamente o revólver e continuava rindo de sua expressão de terror.


O medo de não ser perdoada por Antônio caso fosse vítima de abuso outra vez lhe intimidava ainda mais. Lembrara-se dos momentos de agonia no hospital, quando desejara morrer a enfrentar sua família. Os hematomas e escoriações foram relativamente fáceis de superar, porém, a culpa era traiçoeira. Ela chegara a desistir de Antônio na época, por julgar que ele também a acusaria. Porém, no momento em que estava se entregando definitivamente à depressão, a visita dele provara que seu amor por ela estava acima de tudo, tudo mesmo. Agradeceu a Deus por poder contar com o amor daquele homem e se fortaleceu. Voltou a ver a vida com alegria, ao lado do homem que amava e pelo qual sempre lutara. Entretanto, a dolorosa experiência estava se repetindo e ela estava certa de que não sobreviveria a uma segunda tragédia.


Maurício parou de rir e empurrou-a. Ela perdeu o equilíbrio e caiu no chão. Tentou se esgueirar pra longe dele, mas apenas se cansou com a tentativa frustrada. Gritou o nome de Antônio o mais forte que podia, tentando desesperadamente vencer o som da tempestade.


- Pode gritar à vontade, garota idiota. Não há ninguém para te salvar.


Enquanto isso, Antônio ouvira gritos, mas os trovões o confundiram. Começara a chover naquele momento e Antônio não conseguia distinguir de que lado vinha o pedido de socorro. Antônio imaginou que Patrícia estivesse sendo agredida e não se perdoaria jamais em vê-la sofrer novamente. Portanto, ficou imóvel até ter certeza de onde encontrá-la e correu para salvá-la.


- Acabe logo com isso e me mate, seu desgraçado! – vociferou Patrícia, enquanto chorava aguardando o momento da dor lancinante.


- Eu não vou fazer nada antes de seu namoradinho chegar, princesa... quero que ele assista o que vou fazer com você...


- Por quê? – a voz dela não passava de um gemido. – Por quê?


- Ele vai ter que pagar por todo o mal que me fez, bonequinha, porque ele é um assassino!


- Pare, seu desgraçado! – interrompeu Antônio, chegando naquele momento.


- Tony! Me ajuda!


Maurício calmamente levantou, arrastando Patrícia e usando-a como escudo. Engatilhou a arma e pressionou-a na cabeça da moça.


- Que bom que chegou, policial – falou Maurício, sarcasticamente. – Chegou bem na hora de ver a sua noivinha querida em meus braços...


- Larga ela, estou avisando... – disse Antônio, com prudência.


- Muito cuidado com sua ferramenta de trabalho, Antônio. Qualquer movimento seu, ela morre aqui, já.


- Calma... – Antônio baixou a arma.


- Vou ter calma, muita calma – Maurício tocou em Patrícia, desfrutando de cada parte de seu corpo, provocando Antônio. – Quero que você veja tudo e sinta na pele a dor de uma perda...


- Perda? Do que está falando? – perguntou Antônio, sem se alterar.


- Por acaso já contou que você não passa de um assassino?


Patrícia e Antônio engoliram em seco. Ambos sabiam que Antônio provocara a morte de uma pessoa inocente no início da carreira.


- Foi um... acidente – explicou Antônio, com a garganta seca, procurando deduzir a relação entre Maurício e um acontecimento tão antigo.


- Ah, claro. Sempre a mesma desculpa...


Maurício torceu o braço de Patrícia e ela gemeu. Antônio fez um movimento brusco, mas ficou imóvel logo em seguida.


- Jogue essa arma pra cá! – Diante da hesitação de Antônio, Maurício se irritou. – Agora!


Antônio jogou o revólver perto dos pés de Maurício, que o ajuntou em seguida.


- Por favor, solte a moça – implorou Antônio. – Ela é inocente e...


- Inocente?! Minha mãe também era inocente...


Antônio recebeu um choque paralisante e sua visão ficou turva. A culpa acompanhava-o durante todos aqueles anos e subitamente ele voltou no tempo. Estava quase conseguindo capturar um assaltante, quando este tomou uma mulher com um garoto como reféns. Antônio ainda podia se lembrar da negociação que fizera o assaltante ficar desarmado e largar a mulher. Quando Antônio estava certo de que o ladrão iria se entregar, este retirou um punhal e avançou para o menino. Sem parar para pensar, Antônio atirou com intenção de deter o ladrão, mas o bandido se defendeu do tiro usando a refém como escudo. “Não!” gritou Antônio quando percebeu o que ocorrera. A mulher fora baleada no peito e morrera instantaneamente. O ladrão, por sua vez, entrou em desespero e correu para uma avenida, onde foi atropelado por um caminhão e também morreu.


Antônio estava tonto. O passado confundia-se naqueles segundos. Aproximou-se da mulher que estava nos braços do filho, que a balançava em silêncio. O menino erguera os olhos molhados para Antônio. “Assassino!” acusou o garoto, expressando ódio com aquele olhar. “Você matou a minha mãe!” Aquelas palavras ecoaram durante anos na mente de Antônio, apesar de ele ter respondido o processo em liberdade e de ter sido inocentado no tribunal.


As palavras então voltaram a puni-lo e naquele instante, diante de Maurício, foi capaz de reconhecer no homem adulto o olhar de sofrimento e ódio de anos atrás. Ainda atordoado, Antônio compreendeu tudo: o sequestro de Patrícia não passava de um plano minuciosamente calculado. Maurício queria ter certeza de ter destruído a vida dele. Entretanto, o plano quase fracassara quando Antônio e Patrícia se reconciliaram e Maurício, que não desistira da vingança, fora obrigado a atacar com nova estratégia.


- Que tipo de homem é você? – Maurício voltou a falar com o mesmo tom zombeteiro aliado a uma dose relevante de indignação. – Estava fora dos meus planos que você continuasse com a mulher que foi tomada por outro. Só um frouxo age assim.


O comentário fez com que Patrícia voltasse a se sentir culpada e ela olhou para Antônio por trás do cabelo empapado pela chuva.


- Você não deveria ter voltado pra mim, Tony... – lamentou ela, sentindo-se moral e irremediavelmente suja.


- Paty, não ouça o que ele diz – falou Antônio, pouco antes de um estrondo estremecer a terra.


- Vai embora e me largue aqui, Tony! – ordenou ela, caindo em um choro convulsivo.


- Isso mesmo, Tony. Uma mulher como ela não merece a sua pena – jogou Maurício, aproveitando-se da fraqueza emocional de Patrícia.


- Escute, Paty, eu te amo e vou levar você pra casa. Vai dar tudo certo...


Algum tempo se passou enquanto Maurício maltratava o casal. Era como se o bandido fosse uma ponte de ligação entre o passado e o presente, lembrando os traumas vividos por todos. O elo de relação entre os três era forte e o que prevalecia era o sofrimento comum.


Maurício dominava a situação como o leme de um navio. A direção da vida de Antônio e Patrícia estava inteiramente em suas mãos criminosas. Movimentava perigosamente o revólver no corpo de Patrícia, fazendo insinuações obscenas, criando intrigas, despertando dúvidas entre eles.


A tempestade estava cessando e as nuvens vagarosamente se dispersavam. Entretanto, ainda chovia no coração de Antônio e Patrícia, já exaustos das ameaças.


- Eu pensei melhor e resolvi que vou largar vocês bem aqui nesse fim de mundo – anunciou Maurício, subitamente. Patrícia sorriu, mas Antônio desconfiou daquela mudança inesperada de planos. Maurício então riu, jogando Patrícia no chão e mirando na direção dela. – Pensaram mesmo que eu ia deixar as coisas desse jeito, assim, tão simples?


- Tenha calma, Maurício, ainda podemos resolver isso, você e eu... – argumentou Antônio, cautelosamente.


- É claro que podemos resolver isso. Vou abandonar vocês aqui, só que mortos! E ela vai ser a primeira para você saber o que foi que eu senti!


Patrícia fechou os olhos e encolheu-se, mas Maurício não atirou imediatamente, porque foi atraído pelo som alto da música em um carro que vinha se aproximando deles. Maurício ordenou que Patrícia se levantasse e ambos ficassem em silêncio até o veículo passar por eles. Escondeu o revólver atrás do corpo de Patrícia, que ficou de pé em sua frente.


O som no carro estava no volume máximo. O carro aproximou-se devagar e então os faróis foram acesos no ponto mais forte, cegando Maurício.


- Quem está aí? – perguntou Maurício quando o carro estacionou bem na frente deles.


Maurício ficou furioso e empurrou Patrícia para o lado. Caminhou na direção do veículo, parando a cinco centímetros do capô dianteiro. Então apontou o revólver e ameaçou atirar caso ninguém aparecesse.


De repente, o veículo acelerou e atropelou Maurício que ainda atirou no pára-brisa. Antônio correu para tirar Patrícia da direção do carro desgovernado e rolou com ela em um matagal. O carro fazia ziguezague em alta velocidade, mas Maurício ainda se segurava no vidro estilhaçado. Outro tiro foi ouvido e então o carro parou, fazendo Maurício voar contra uma árvore.


- Desgraçados!


Enquanto isso, Antônio abraçou Patrícia e perguntou se ela estava bem. Pediu para ela ficar escondida, porque precisava acertar contas com Maurício.


Antônio correu na direção do carro que parara com os faróis ligados e alarme disparado, com a lataria danificada devido ao atropelamento. Venceu a curiosidade de ver o condutor do veículo e encontrou Maurício estatelado no chão, consciente, apenas atordoado com o impacto.


- Agora é entre nós dois.


Antônio atirou seu distintivo no chão e levantou Maurício pelo colarinho, acertando golpes no rosto e no estômago.


- Calma aí, cara – implorou Maurício, enquanto arcava o corpo para defender-se do novo golpe. – Tenho certeza de que poderemos resolver isso numa boa...


- Pode apostar! – riu Antônio, atingindo Maurício em uma sequência ininterrupta de socos e pontapés.


- Tony, pare!


Antônio virou-se bruscamente quando ouviu Patrícia.


- Paty, eu mandei você ficar onde estava – disse Antônio, irritado e disposto a acabar de vez com o criminoso, que àquela altura já havia caído ao chão, praticamente desacordado.


- Acabou, meu amor – disse ela, correndo para os braços de Antônio. – Você não precisa provar mais nada. O Maurício já recebeu a punição que merecia.


- Tem razão, querida. Eu estava cego de ódio e quis fazer justiça a meu modo.


- Não é preciso. Somente Deus poderá julgar – afirmou Patrícia, docemente como sempre. – Eu te amo e mesmo que tudo isso tenha acontecido, eu nunca deixei de ser sua.


- Paty... – Antônio abraçou-a com ternura. – Eu nunca pensei o contrário.


- Obrigada por me salvar, Tony. Você é a minha segunda asa.


Eles beijaram-se e choraram nos braços um do outro. O pesadelo terminara finalmente e eles tiveram certeza do amor que sentiam um pelo outro.


- A propósito, quem está neste carro? – perguntou ele, lembrando que tinha uma dívida de gratidão com o motorista que os salvara da morte. Assim, continuaram abraçados e se aproximaram do veículo.


Antônio abriu a porta amassada no lado do condutor e olhou surpreso para Patrícia após identificar o motorista e o passageiro. Ambos estavam desacordados e dependurados contra o painel.


- Meu Deus! Tony, estão... mortos? – Patrícia teve o ímpeto de chorar novamente.


Antônio desligou o som e o alarme e naquele momento ouviu as viaturas aproximando-se do local. No minuto seguinte, desembarcava uma equipe policial, Ronaldo e Ivan.


- Tudo bem com vocês? – perguntou Ivan. – Onde está o criminoso?


Antônio apontou para a direção onde deixara o sujeito e os policiais foram algemá-lo. Patrícia correu para os braços do pai, que chorava comovido por ela estar sã e salva.


- Eu e sua mãe tivemos tanto medo, minha filha... – declarou ele, enquanto soluçava.


- Mas eu estou bem, pai. Graças ao Tony e às meninas.


- Meninas? Que meninas? – estranhou Ronaldo.


Então todos se aproximaram do carro para prestar os primeiros socorros para Cláudia e Fernanda, que ainda estavam inconscientes.


- Chamem uma ambulância – pediu Antônio, verificando seus sinais vitais.


Todos permaneceram em silêncio, aguardando a notícia. De repente, Cláudia se espreguiçou, esfregou os olhos, bocejou e falou:


- Anda, Fê! Nós temos nossa história pra contar...


Fernanda também se espreguiçou, escutou os aplausos e vivas e, confusa, declarou:


- Ué, Cláudia! Ainda nem começamos nossa história e já estão nos aplaudindo...


Desta feita, todos riram e o clima festivo tomou conta do grupo. Elas então desceram do carro e só então perceberam o que estava acontecendo. Presenciaram Maurício ser colocado no camburão e Antônio e Patrícia juntos novamente em segurança.


- Isso não vale, Fê! – exclamou Cláudia. – Nós dormimos bem no final da história...


- Falando em final da história – começou Antônio, em tom repreensivo –, eu não disse para vocês ficarem em casa?


- Disse, mas... – falaram as duas ao mesmo tempo em que a preocupação lhes ocorreu.


- Obrigado por não me obedecerem. Graças a vocês, eu e a Paty podemos ser felizes.


- Ah, não foi nada... – disse Cláudia, suspirando de alívio.


- É, nós não fizemos mais do que a nossa obrigação – confirmou Fernanda, modestamente.


Ivan ajuntou do chão o distintivo de Antônio e o devolveu.


- Tenho orgulho de você, meu amigo. – Moveu-se para um policial e ordenou: – Leve-os para casa.


- Obrigado... amigo.


- Não me agradeça. Ainda tenho uma dívida com você. Vá para casa e se cuide, que do resto cuido eu.


Antônio e Patrícia, Ronaldo, Cláudia e Fernanda embarcaram em um veículo e seguiram para casa. Enquanto isso, Ivan voltou-se para a equipe da perícia e procurou um companheiro seu de muitos anos. Ivan acendeu um cigarro, apesar de se recriminar por causa do vício.


- Zé, tenho uma missão pra você.


- Topo qualquer parada, companheiro.

– O pessoal do departamento de direitos humanos vai cair de pau em cima desse caso... sabe como é - falou Ivan, devagar, enquanto tragava a fumaça. - Quero você o tempo inteiro de olho no marginal  até o julgamento.


- Entendo... - balbuciou o colega, com ar de conspiração. - Conte comigo. Afinal, o cara pode ser pego desprevenido, não é verdade?


- Estou devendo isso para um grande amigo meu – declarou Ivan, satisfeito.


Após confirmar a prontidão no atendimento da ordem, embarcou em sua viatura e seguiu na frente da equipe.



........



“... E então, Antônio salvou Patrícia do homem mau e eles viveram felizes para sempre”.


Os contadores de histórias fizeram uma mesura combinada para agradecer os aplausos. Patrícia foi cercada pelas crianças, que queriam beijos e abraços.


- Você foi muito corajosa! – disse uma criança.


- E o seu noivo também! – acrescentou outra.


Benedita não cabia em si de contentamento. Tratava-se da história mais linda e mais importante de toda sua carreira, logicamente adaptada ao universo infantil. Ela contaria a história ainda muitas vezes, como forma de mostrar às crianças do que o verdadeiro amor é capaz.


Ricardo e Vera haviam começado um namoro sério, e olhavam um para o outro com cara de apaixonados.


Danilo colecionava histórias, porque queria estender o grupo a outras instituições. Já tinha adeptos.


Cláudia e Fernanda, felizes como sempre, observavam com encantamento tudo o que acontecia à volta delas.


Antônio fora promovido e usava um traje social. Apareceu no saguão do hospital com flores para Patrícia. Esta se atirou nele para agradecer as flores e ele retribuiu o beijo apaixonado de sua noiva.


- Nós temos uma surpresa para vocês! – começou Patrícia, eufórica.


Benedita, Danilo, Ricardo, Vera, Cláudia e Fernanda entreolharam-se, curiosos.


- Nós queremos dizer que vocês estão todos convidados para nosso casamento! – anunciaram Antônio e Patrícia.


O grupo todo bateu palmas e ovacionou.


- Cláudia, Fernanda... – chamou Patrícia. – Queremos que sejam nossas madrinhas.


- Nós? – perguntaram as duas, ao mesmo tempo.


- Por favor, aceitem – pediu Antônio.


Cláudia e Fernanda entreolharam-se e sorriram.


- Será uma honra para nós – disse Fernanda.


- Nem que eu fosse penetra, mas não perdia esse casamento por nada deste mundo! – exclamou Cláudia.


Todos riram muito e se despediram.


Cláudia e Fernanda caminhavam vagarosamente pela rua.


- Pois é, Fê. Agora nós precisamos arranjar uns padrinhos.


- Nem vem, Cláudia. Você com essas ideias malucas.


- Por que, Fê? Você não quer ir sozinha, quer?


- Ah, sei lá. Em quem você está pensando?


- No meu pai e no seu!


Elas caíram na gargalhada e acabaram esbarrando com dois garotos.


- Ei, eu conheço vocês – disse um dos rapazes.


- E nós também – responderam elas. – Vocês são...


- ... lá da universidade! – disseram todos ao mesmo tempo.


- Eu sou o David, ele é o Rafael.


- Eu sou a Cláudia, ela é a Fernanda. Prazer. – Cláudia piscou para Fernanda. – Acho que já encontramos nossos padrinhos, Fê.


- Padrinhos? – perguntaram os garotos.


Cláudia pegou no braço de David e Fernanda deu a mão para Rafael.


- Ah, é uma história comprida – disse Cláudia.


- Ah, é? Pois me deixou curioso – admitiu David.


- Eu também fiquei curioso – ajudou Rafael.


- E nós vamos ter o maior prazer em contar, não é mesmo, Fê?


- É sim.


- Tudo começou quando nós participávamos do grupo de contadores de histórias. Um dia, quando chegamos ao hospital...


Elas seguiram pela rua, cada uma contando uma parte da aventura, de braços dados com os dois garotos. Cláudia sinalizava para Fernanda e esta ria, divertida.


David e Rafael ouviam a história com atenção e interesse. De vez em quando arriscavam beijos nas mãos e no rosto, ao que as garotas correspondiam, sorridentes.


Subitamente, um carro estacionou na frente deles, praticamente sobre a calçada.


- Cláudia! Fernanda! – bradou Antônio. – Tenho um caso urgente para resolver e preciso da colaboração de vocês.


Imediatamente, David e Rafael se posicionaram na frente das moças.


- Que história é essa? Elas não vão a lugar algum com você! – atalhou David.


- É, isso aí! – enfrentou Rafael, com o dedo em riste.


Antônio apresentou o distintivo. Cláudia e Fernanda, até então protegidas pelos garotos, tomaram a frente deles.


- O dever nos chama... – respondeu Cláudia, com um ar maroto dançando no rosto.


- Até a próxima! – despediu-se Fernanda.


Elas embarcaram na viatura sob os olhares confusos dos dois garotos.


- Você entendeu essa, Rafa?


- Não. E eu que pensei que elas só estavam fazendo média.


Cláudia olhou pelo retrovisor, observando a expressão de incredulidade dos garotos e sorriu para Fernanda. Enquanto isso, Antônio ligou a sirene e eles sumiram no tráfego fervilhante.



FIM. 

ENGRENAGEM DO CRIME - SINOPSE


A sua cidade está segura? Você tem certeza de que na­ sua vizinhança há pessoas idôneas? E quando você tem um grande sonho e sua família não apoia? E se um filho seu se envolve com drogas? Ou você ama uma pessoa que age com violência contra você? Quando menos você esperar, alguém poderá destruir a sua tranquilidade, armando uma verdadeira, completa e destrutiva engrenagem do crime.

Estéfanie é vocalista de uma banda que almeja cantar profissionalmente, e divide seu sonho com os companheiros Vinícius, Peter e Eduardo.

Peter é um adolescente presunçoso, que continua na banda devido a sua paixão pela cantora; e Eduardo possui um talento nato para a música. Já Vinícius é um garoto rebelde, com inclinação para meter-se em confusão.

Ivo é um homem misterioso, que projeta um cruel plano com Vera¸ contra os habitantes da cidade de Joinville. Ambos mantém parceria com Afonso, um funcionário público que lhes garante informações confidenciais sobre a prefeitura.

Ricardo é o fundador e mantenedor de uma clínica para tratamento de dependentes químicos. Conhece Ângela, que por sua vez, é casada com Alberto, que se revolta com acusações injustas e, consequente, abala o próprio casamento.

Castro é capitão da polícia militar responsável pelo departamento de investigação criminal em Joinville e sua equipe formada por César e, nada mais nada menos que Vera (!), investiga três casos: o roubo de uma planta – o mapeamento da tubulação de gás natural na cidade; a ameaça à clínica de recuperação de dependentes químicos de Ricardo, e um caso que envolve um assalto à indústria de explosivos, onde Alberto exerce a função de vendedor. 

E ainda há Vanessa, uma jovem que vem sendo agredida fisicamente pelo marido Pedro, e a quem ama, apesar de tudo, e que também tem sua vida enredada pela criminalidade.