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Joinville, Santa Catarina, Brazil

OS CONTADORES DE HISTÓRIAS – 10ª PARTE


Antônio pegou Cláudia em casa e retornaram ao hospital para buscar Fernanda, que já recebera alta. Deixou as garotas na casa de Fernanda e seguiu para o trabalho. Cláudia teve o bom senso de telefonar para os pais, avisando que passaria a noite na casa da amiga.

- Cuide-se bem, filha – recomendou sua mãe.

- Eu vou estar bem, mãe – respondeu Cláudia, desligando o telefone. E virou-se para a amiga, que se ajeitava na poltrona. – Ô, Fê? Eu posso ligar pra Patrícia? Eu quero ver se o Antônio foi para lá.

- Não precisa nem perguntar, sua boba. Mas o que quer falar com o Antônio que não pode esperar?

- É que ele anda meio esquisito e eu quero ver se ele tá melhor.

- Por quê? Ele tá doente? – perguntou Fernanda, arrumando as almofadas para se acomodar melhor.

- É por causa dessa obsessão... Opa! Tá chamando – interrompeu Cláudia.

Patrícia atendeu a ligação no telefone sem fio, que estava sobre os livros que ela estudava.

- Alô.

- Oi, Patrícia! Aqui é a Cláudia. Tudo bem com você?

- Tudo. Fico feliz por você ter ligado. Estava me sentindo tão sozinha.

- Ah, o Antônio não está com você?

- Ele esteve aqui, mas já foi embora. Ele ainda não levou você ao hospital, Cláudia?

- Sim, eu tô com a Fernanda na casa dela. Talvez até você possa me dizer como ele está. Eu achei o Antônio meio esquisito hoje.

- Quando ele chegou aqui, ele estava mesmo diferente. Mas... Cláudia, eu vou te dar o número do celular dele. Ele tem plantão hoje à noite.

Cláudia fez sinal para Fernanda arranjar papel e caneta. Fernanda esticou-se para apanhar os objetos na mesa de centro e entregou para Cláudia.

- Pode falar, Patrícia. Nove, nove... tá... tá... Obrigada, Patrícia.

- De nada, Cláudia. E a propósito, você está melhor?

- Eu?

- Só um minuto, Cláudia. Acho que os meus pais esqueceram a chave e estão tocando a campainha. Está mesmo na hora de eles chegarem. Vou lá ver...

Cláudia estranhou que os pais dela tocassem a campainha em vez de chamar, mas ficou na linha. Enquanto isso, Patrícia levava o telefone sem fio e despreocupadamente abriu a porta. De repente, gritou, e o aparelho foi atirado para longe.

- Patrícia! Patrícia! Responde! – berrou Cláudia, pelo telefone. Ela sentiu a respiração ofegante de Patrícia, ouviu o barulho da porta e escutou o grito. E no instante seguinte, a ligação caíra.

Cláudia desligou o telefone e procurou se acalmar. O grito de horror de Patrícia ecoava em sua mente.

- É ele, Fê! Pelo amor de Deus, Fê! O Maurício tá com a Patrícia!

- Mas do que você tá falando, Cláudia? Calma!

- Eu tô calma! Eu tô calma! – dizia ela, apesar de o corpo todo tremer. – Meu Deus, Fê! Precisamos salvar a Patrícia!

- Mas como? – perguntou Fernanda, tão apavorada quanto Cláudia.

- Pensa, Cláudia, pensa! – gritava Cláudia, para si mesma. – O celular! O celular do Antônio!

Cláudia imediatamente ligou, tentando controlar seus nervos.

- Fora de área! Que merda!

- Tenta de novo, Cláudia!

- Tenta você, Fê! Eu não consigo ver nada na minha frente.

Fernanda digitou os números devagar e na primeira chamada, Antônio atendeu. Cláudia arrancou o fone da mão de Fernanda e contou tudo para Antônio.

- O Antônio já vai pra lá – anunciou Cláudia, ofegante. – Fê, nós temos que ir até lá!

- Mas de quê? Bicicleta, por acaso? Você tá vendo meu pai por aqui? – gaguejou ela, tão nervosa quanto Cláudia.

- Mas o carro dele tá aí, não tá?

- Sim, mas...

- Vamos!

- Mas você não tem habilitação, Cláudia! – protestou.

- Que se dane a habilitação! Precisamos salvar nossa amiga!

Fernanda viu o brilho dos olhos de Cláudia. Aquele brilho de decisão voltara a aparecer. Então pegou a chave do automóvel no quarto dos pais e entregou-a para Cláudia. Escreveu um bilhete para os pais e seguiu a amiga.

Antônio chegou na casa de Patrícia e desesperado encontrou os pais dela.

- Meu filho... – disse Ronaldo. – Onde está minha filha? Quando chegamos, encontramos a porta escancarada.

Antes que Antônio pudesse responder, ouviu um barulho na calçada. Imediatamente sacou o revólver e correu na direção do som. Cláudia e Fernanda gritaram e levantaram os braços.

Antônio não as distinguiu de imediato, porque elas haviam deixado os faróis do carro ligados.

- Somos nós, Antônio.

Ele guardou a arma, desapontado.

- O que fazem aqui? É perigoso.

- Perigo é o que a Patrícia tá correndo. Onde ela tá?

- Não está aqui.

Antônio entrou na casa, observando a existência de sinais de arrombamento ou violência. Não havia nada. Encontrou o telefone sem fio danificado jogado em um canto da sala.

- Ela estava falando com Cláudia quando tudo aconteceu, Seu Ronaldo, e é por isso que sabemos que ela foi sequestrada.

- Meu Deus! De novo, não!

Ronaldo sentou-se no chão e chorou, inconsolável. Antônio bateu no ombro dele.

- Eu vou encontrá-la. Prometo para o senhor e para mim.

Ronaldo levantou a cabeça devagar. Seus olhos demonstravam um sofrimento que o remoía por dentro.

- Encontre a nossa menina, meu filho. E quando encontrar aquele desgraçado, acabe com ele! – falou da boca pra fora, soluçando.

O sofrimento dele atribuiu mais força ao ódio de Antônio. Cláudia e Fernanda acompanharam a troca de palavras e assustadas, reconheceram nelas também um ressentimento perigoso.

Antônio foi até a frente da casa procurar pistas. As moças seguiram-no. No meio da rua, Cláudia encontrou um objeto e mostrou-o a Antônio.

- Era a tiara que ela usava no cabelo hoje quando saí...

E Antônio também chorou. Fernanda, que era muito sensível, chorou com ele. Cláudia aproximou-se dele e quis dizer-lhe algumas palavras de consolo, mas antes que pudesse falar, o celular de Antônio tocou e ele o atendeu prontamente.

- Alô, camarada!

Antônio ficou mudo ao ouvir a voz irônica. De repente, o sangue sumiu de sua face.

- Desgraçado! Onde está a Patrícia? Responda ou eu...

- Você o quê? Vai dar voz de prisão por telefone?

A gargalhada foi ouvida até mesmo por Cláudia e Fernanda, que acompanhavam as reações de Antônio.

- Onde está a Patrícia? O que fez com ela? – berrou Antônio, chamando a atenção de Ronaldo, que veio até a calçada.

- Calma – continuou Maurício. Não precisa se preocupar. Ela está aqui comigo, sã e salva. E quanto a fazer... estou esperando o momento certo, sabe?

- Seu filho da mãe! Quero a Patrícia aqui! Agora!

- Não, ainda não. Fale com ele, gatinha. Diga como está feliz nos meus braços. – Maurício arrancou a fita adesiva da boca de Patrícia e ela gemeu.

- Tony! Cemitério Mã...

Antônio ouviu a voz dela e em seguida o grito de dor.

- O que fez com ela? – Sua voz enfraqueceu. – Por favor, não a machuque.

- Claro que não. Eu vou cuidar muito bem de você, meu amor, igualzinho a primeira vez...

Maurício deixou o telefone público pendurado e arrastou Patrícia pela rua deserta.

- Não! Pare! Me diga o que quer... – Antônio desesperado desligou o aparelho e passou a mão na cabeça.

Ronaldo compreendeu o perigo no gesto de Antônio.

- Onde está minha filha?

Antônio não respondeu. Olhou na direção de Cláudia.

- O que está acontecendo? – perguntou Cláudia, com medo da resposta.

- Ele está com a Paty – disse Antônio, com a voz quase sumida.

- Mas... não disse onde? – perguntou Fernanda.

- Não. Isto é, não exatamente. Ela disse cemitério. Acho que ele vai... matá-la.

- Escute, Antônio – disse Cláudia. – Não creio que ele vá matar a Patrícia. Talvez ela tenha dito a localização deles.

- Não, ela só disse isso... – Fraquejou novamente. – E mais nada. Não ouvi mais a voz dela. Senhor...

- Mas vamos ficar aqui parados enquanto a minha filha corre perigo? – Ronaldo estava revoltado.

- Estou de mãos atadas – falou Antônio. – Se ela morrer, eu vou morrer junto.

À medida que os minutos passavam, a agonia deles aumentava. Cláudia e Fernanda cochichavam e gesticulavam muito. De repente, elas saltaram do meio-fio onde estavam sentadas e aproximaram-se de Antônio e Ronaldo.

- Antônio, a Fernanda teve uma ideia – disse Cláudia, com uma pequena esperança.

- O celular – começou Fernanda, – ele não memoriza as chamadas recebidas?

Antônio imediatamente pegou o celular e pressionou algumas teclas.

- Claro! – sorriu ele. – Como é que eu não me lembrei disso antes?

Ele ligou para a delegacia. O policial de plantão se prontificou a verificar a informação.

- Vai logo, companheiro! – implorou Antônio, ansioso. – Endereço? Ahã, tá. Valeu, cara! – Antônio virou-se para Cláudia, Fernanda e Ronaldo. – Era telefone público, próximo ao cemitério municipal. Preciso ir.

Antônio correu para a viatura.

- Vou com você! – exclamou Ronaldo.

- É melhor o senhor ficar. Posso precisar de sua ajuda.

- Tudo bem.

Cláudia e Fernanda embarcaram sem perguntar nada.

- O que querem aqui? – indagou, com olhar severo para as duas.

- Vamos com você...

- Nada disso! Desçam!

- Mas, Antônio...

- Desçam! Isso é trabalho pra polícia. Vamos, estou perdendo tempo com vocês. É uma ordem!

Cláudia e Fernanda desembarcaram contra a vontade. Elas viram Antônio desaparecer na esquina.

- E agora, Cláudia?

Cláudia puxou fôlego.

- Temos uma solução melhor.

Fernanda engoliu em seco, tentando imaginar o que a amiga tinha em mente. Pela primeira vez, duvidou das boas ideias de Cláudia, mas resolveu segui-la, pelo menos, para tentar evitar que ela se envolvesse em mais confusão.

OS CONTADORES DE HISTÓRIAS - 9ª PARTE


Cláudia fora levada à delegacia logo que se sentiu melhor para depor contra Maurício. Foi liberada em seguida e Antônio achou melhor que ela fosse escoltada por uma patrulha.

Fernanda, por sua vez, ficara chocada com o que acontecera a Cláudia, não podendo acreditar que Maurício fosse tamanho mau caráter, mas ainda assim não gostara nada da ideia de se submeter aos cuidados de um guarda-costas, já que um policial passou a acompanhá-la 24 horas por dia.

Cláudia não saía mais de casa. Sentia um pavor mórbido de que Maurício a sequestrasse novamente. O telefone em sua casa tocava e ela só atendia depois de reconhecer a voz na secretária eletrônica. A campainha soava e ela escondia-se atrás dos móveis.

Benedita viera visitá-la algumas vezes. Nem mesmo seus pedidos para Cláudia retornar ao grupo foram aceitos. Cláudia criara um bloqueio que somente abandonaria com a prisão preventiva de Maurício.

Enquanto Cláudia enfrentava aquele trauma, sua mãe tirara férias para não deixá-la sozinha. Estimulava a filha a sair, mas a moça não queria saber do assunto.

As semanas passaram e Maurício desaparecera, aumentando a expectativa não só de Cláudia como também de Patrícia, que também recebera proteção policial.

Fernanda visitou Cláudia, e esta finalmente contou-lhe tudo sobre as ameaças, o falso amor, as agressões, sua fuga. Cada vez que falava sobre o assunto, Cláudia enfurecia-se mais, sentia um ódio crescente e medo, muito medo. Pedia para Fernanda se cuidar.

- Eu não tenho medo desse sujeito – respondeu Fernanda. – Ele pode vir, que o acerto bem naquele lugar.

- Ele é perigoso, Fê. Por favor, se cuida...

- Pra quê? Já tenho esse armário aí fora! – reclamou, aborrecida com a presença constante do policial.

Fernanda despediu-se da amiga e encaminhou-se para o automóvel que o pai havia disponibilizado para ela. Embarcou no veículo e bateu a porta com toda força, expressando seu descontentamento. O guarda-costas embarcou no banco do condutor, colocou a chave na ignição, deu marcha a ré e guiou para casa, impassível aos lamentos e ironias da adolescente.

.......


Dias depois, Fernanda acordara mais cedo, disposta a despistar o guarda-costas. Ela saiu pela janela de seu quarto e correu para o portão.

- Aonde vai, senhorita? Não está na hora de suas aulas. Aliás, não tem aula pela manhã.

- Que saco! – exclamou Fernanda. – Eu quero sair sozinha. Entendeu? So-zi-nha!

- Infelizmente não será possível. As ordens que tenho são de acompanhar a senhorita.

- Danem-se suas ordens! Já estou cansada de pagar esse mico.

- Acontece que terá de me suportar por algum tempo. A senhorita está correndo perigo.

Fernanda voltou bufando para dentro de casa, trancando-se em seu quarto. O policial fez uma ligação em seu aparelho celular.

- Precisamos de mais segurança. Grades de ferro em todas as janelas. Tem que ser esta tarde. Anote o endereço.

À tarde, o policial levou Fernanda até o hospital. Acompanhou a moça até a ala pediátrica, onde estava reunido o restante do grupo de contadores de histórias.

Terminada a sessão, voltaram para casa e Fernanda quase teve um ataque de histeria quando viu os operários de uma serralheria terminando de instalar as grades.

- Mãe, você deixou? – perguntou ela, aos berros. – Por que você permitiu que fizessem isso?

- É para o seu bem, filha...

- Meu bem uma ova! Não quero ser uma prisioneira na minha própria casa! – Ela voltou-se para o guarda-costas. – E você, me leve já para a casa da minha amiga!

Fernanda estava totalmente inconformada com aquela situação. Resolveu conversar com Cláudia a respeito, mas a indiferença de Cláudia a revoltou. Brava, Fernanda voltou para casa.

Todas aquelas atitudes intempestivas tinham sua razão. Fernanda estava interessada em um garoto da universidade e queria ir a um encontro com ele. Então, bolou um plano. Se pudesse, telefonaria no mesmo instante para Vera, que estudava com ela, mas o telefone em sua casa estava grampeado. Escreveu uma página e colocou dentro do caderno.

No dia seguinte, na sala de aula, ela conversou com Vera, sob os olhares do guarda-costas engravatado que ficava na porta.

- Como está a Cláudia, Fernanda?

- Melhor. Meio avoada. Mas Vera, você sabe aquele cara, o Alan?

- Aquele gato do terceiro ano?

- É, eu tô de rolo com ele. Ele me convidou pra sair, só que eu não quero esse armário segurando vela, entendeu?

- E onde eu entro nessa? – perguntou Vera, apreensiva.

Fernanda mostrou a folha que tinha escrito e continuou cochichando com Vera, com olhar especulativo para o guarda-costas.

- Quando você quer?

- Amanhã.

- Amanhã?! Não vou conseguir. É muita coisa!

- Ah, Vera, por favor! Tenho certeza de que você consegue...

Vera pensou um pouco e logo respondeu toda convencida:

- Eu topo! Você vai ver do que a Vera aqui é capaz!

Fernanda sorriu, dissimulando sua ansiedade diante do policial.

.......


No dia seguinte, Vera entrou na sala e piscou para Fernanda.

Na saída, as duas dirigiram-se ao sanitário feminino, Fernanda acompanhada de perto pelo policial, que parou na entrada dos sanitários.

- Rápido! Senão ele pode desconfiar.

Vera retirou da bolsa uma roupa exatamente igual a que Fernanda vestia. Trocou rapidamente sua roupa e guardou a outra na mochila. Pegou ainda uma peruca morena, para ficar parecida com Fernanda. Elas trocaram os sapatos e os óculos escuros, em seguida as mochilas.

- Obrigada, amiga.

- Não agradeça. Divirta-se com seu gato.

- Agora, vai!

Vera respirou fundo, abriu a porta do banheiro, baixou a cabeça de modo que a peruca escondesse seu rosto. Deu passadas mais largas e começou a correr.

- Fernanda! Espere! – chamou o guarda-costas, correndo atrás dela.

Fernanda saiu do banheiro naturalmente, apressando-se na direção oposta. Na portaria do colégio, encontrou Alan, que lhe deu um beijo.

- Onde ficou aquele seu guarda-costas?

- Ah, ele resolveu dar uma voltinha – disse Fernanda, casual. – Eu agora tenho um guarda-costas muito melhor.

O rapaz abraçou-a e seguiu normalmente pela rua, sem imaginar a situação que ela havia provocado.

Enquanto isso, Vera fugia do policial e refugiava-se na biblioteca. Enganou o homem e correu para fora, mas não tinha preparo físico suficiente e foi alcançada. O policial agarrou seu braço e virou-a de frente.

- Srta. Fernanda! Está bancando uma tremenda irresponsável!

Vera ficou nervosa e deixou cair os óculos.

- Quem é você? – perguntou o policial. – Que brincadeira é essa?

- Me larga, cara! Já cumpri minha parte. Agora, tchau.

- Onde pensa que vai, mocinha? É melhor ir contando logo onde sua amiga se meteu...

- Não é da sua conta, viu?

- Ah, não? Vamos ver até onde vai a sua coragem.

- Você tá me machucando. Me solta!

- Solto, mas lá na delegacia.

Ele algemou um dos pulsos de Vera ao seu, apesar dos protestos da moça. Telefonou para Antônio, mas não o encontrou.

Enquanto isso, Fernanda passeava no shopping com Alan. Estava feliz por poder viver alguns momentos de liberdade, longe do guarda-costas indiscreto.

Naquele instante, na delegacia, Vera passava por um interrogatório.

- Eu já disse que não sei! Ela não me contou.

- Escute aqui, mocinha. Ou você diz logo onde está a Fernanda ou deixo você presa até resolver abrir o bico – ameaçou Ivan.

- Não posso dizer o que eu não sei, seu delegado. A Fernanda pediu para eu fazer isso, não disse pra que.

- Você está me fazendo perder a paciência! – Ivan bateu com força na mesa. – Vejo que você quer mesmo passar a noite aqui.

Antônio entrou na sala.

- Eu vim assim que soube, delegado.

- Você está de folga, Antônio.

- Mas a moça é minha amiga, senhor. Me deixe falar com ela a sós.

- Você não vai conseguir mais do que eu. A moça é teimosa igual uma mula.

Ivan saiu, a contragosto, e Antônio ajeitou uma cadeira, sentando-se próximo de Vera.

- Oi – disse ele.

- Oi – respondeu Vera. – Eu já disse pra ele que não sei de nada!

- Escute. Sabe por que aquele policial estava colado na sua amiga Fernanda?

- Sei. Qualquer coisa sobre o maníaco que sequestrou a Cláudia – respondeu, com ar de impaciência.

- Qualquer coisa? – Antônio observou-a com curiosidade.

- É...

- Vera, eu sei que você não quer prejudicar a sua amiga. Essa qualquer coisa, como você mesma disse, é mais séria do que você pensa. – Ele observou quando ela curvou as sobrancelhas, assustada. – No momento que eu tinha esse maníaco na minha mira, ele disse que a Fernanda seria sua próxima vítima.

Vera lambeu os lábios, indecisa sobre o que dizer.

- Você me entende agora por que precisa me contar onde a Fernanda está? – Vera afirmou lentamente e desatou a chorar. Finalmente contou o que sabia. – E onde eles estão agora, nesse momento?

- Eu não sei, de verdade. Não perguntei o que eles iriam fazer.

- Mas deve haver algum lugar em que vocês se reúnem. Pense um pouco. Não tem um palpite?

- Eu acho que sim. Tem um barzinho que a gente costuma frequentar, no centro da cidade. E tem também os shoppings. Mas eu não tenho certeza.

- Você ajudou muito, Vera. Agora pode ir.

Antônio caminhou na direção de um policial que lhe fizera sinal.

- Encontramos a moça! O sinalizador indica que ela está bem próxima – informou o homem, de olho no computador. Antônio estranhou que o sinal estivesse indicando tanta aproximação. Finalmente, viu Vera atravessando a sala para a saída. O radar no computador emitia ruídos cada vez mais fortes.

- Espere! – disse Antônio para ela. Aproximando-se, pediu licença para abrir a bolsa trocada. – Eu sabia! O sinalizador está aqui.

Antônio mostrou o relógio de Fernanda, que ela havia guardado na bolsa.

- E essa agora? Temos que informar os pais da garota – disse o colega de Antônio.

- Delegado! Peço permissão para pegar minha viatura para procurar a moça.

- Impossível! Sua viatura está na área quatro. Esqueceu que este é seu dia de folga?

- Mas não pode liberar outro carro?

- Não.

- Como quiser, senhor.

Antônio bufou e saiu da delegacia batendo as portas atrás de si. Usaria seu próprio automóvel. Não sabia se Maurício estava na cidade, mas tinha certeza de que ele apareceria.

Dirigiu-se para o endereço que Vera havia informado. Olhou em volta, mostrou uma foto de Fernanda para o garçom. A moça não havia estado no local. Antônio viu-se na obrigação de percorrer os shoppings da cidade.

Resolveu ligar para o guarda-costas de Fernanda, para pedir que o ajudasse na busca. Mas desistiu do intento. Se Fernanda o visse primeiro, certamente se esconderia.

Fernanda e Alan assistiam a um filme, sem imaginar a confusão causada por Fernanda. Ela estava adorando a companhia dele. Quando o filme acabou, eles passaram algum tempo na praça de alimentação.

- Eu não queria mais me separar de você, Alan.

- Não precisa. Venha para a minha casa.

- Gostaria muito, mas não posso. Tenho que voltar para minha casa.

- Tudo bem. Vamos?

De mãos dadas, o casal caminhou na direção da saída do shopping. Subitamente, um homem estranho parou na frente do casal.

- Cuidado, cara! – exclamou Alan, desviando-se do sujeito. – Vem, Fernanda.

Fernanda olhou para o sujeito barrigudo, de barba e bigode branco, um tipo que ela não conhecia. Mas o olhar desafiador dele a incomodou.

- Conhece esse homem? – perguntou Alan.

- Não sei. Acho que não. Mas...

- Bem, vamos embora, gata. Não vamos estragar nossa tarde.

- Você me leva pra casa, Alan?

- Claro.

De repente, Fernanda foi puxada e agarrada. O mesmo sujeito a ameaçou com um canivete.

- É bom você ficar bem quietinha, ou morre aqui, agora.

- Cara, larga ela! – gritou Alan.

Os seguranças do shopping foram acionados, mas Fernanda continuou sob o poder do bandido. Naquele momento, ela se lembrou do guarda-costas chato.

- Tenho dinheiro na bolsa. É seu – disse Fernanda.

- Não quero dinheiro.

Ele levou-a para o estacionamento e obrigou-a a embarcar em um carro. Deu uma arrancada e dirigiu perigosamente para a saída, onde a polícia já fazia cerco. O bandido bateu o carro no bloqueio e Fernanda se feriu.

- Quem é você?

- Seu anjo da guarda – disse o homem, arrancando a barba e o bigode.

Fernanda engoliu em seco ao reconhecer Maurício. Então ele viera mesmo atrás dela. Ela disse que não tinha medo dele, mas se enganara. Seu coração batia violentamente e ela gaguejou algumas palavras que foram abafadas pelo som da nova arrancada.

Antônio chegou ao bloqueio, assustado com a confusão. Apresentou a identificação e perguntou pelos fatos. Mostrou a foto de Fernanda e o policial a reconheceu. Antônio imediatamente embarcou na viatura mais próxima e seguiu na direção indicada.

Fernanda procurava segurar-se no automóvel, defendendo-se das manobras perigosas de Maurício, que atropelava o que aparecia no caminho.

Ela ouviu as sirenes da polícia e olhou no retrovisor. Sorriu ao reconhecer Antônio.

- Porcaria! – bufou Maurício. – Esse idiota não me deixa em paz!

- É melhor a gente parar – sugeriu Fernanda.

- Ah, é? – Maurício agarrou o cabelo de Fernanda, aproximando-a do volante. Bateu a cabeça dela contra o painel. Ela cobriu com as mãos o nariz ensanguentado e ficou ainda mais apavorada.

Enquanto isso, Antônio acompanhava-os, muito próximo. Informou a delegacia pelo rádio. Fernanda olhava para trás e Antônio lembrou-se de Patrícia. O ódio que ele sentia por Maurício renovava sua disposição.

Fernanda procurou se acalmar. Ela não queria continuar como refém de Maurício. Sabia o que Cláudia passara nas mãos dele. Não queria acabar sua vida, como Patrícia.

“Eu prefiro morrer”, pensou Fernanda. “E vou levar esse bandido comigo para o inferno”.
Fernanda destravou o cinto de segurança e saltou sobre Maurício, pisando no freio em seu impulso. No mesmo momento, ela girou o volante e o carro fez um cavalo de pau. Fernanda foi lançada para fora do carro, espatifando o pára-brisa dianteiro.

- Não! – gritou Antônio, estacionando bruscamente a viatura. Chamou uma ambulância e correu pela rua para socorrer Fernanda, que estava jogada no chão, inconsciente. Antônio ajoelhou-se ao lado da moça e ainda viu Maurício fugindo. Mas não abandonou Fernanda, prestando os primeiros socorros. Quando os paramédicos chegaram ao local, ela já voltara a respirar.

- Onde ele está? – perguntou um dos médicos, observando o carro batido.

- Muito longe – respondeu Antônio, subitamente cansado. – Façam o favor de levar a viatura. Eu vou com Fernanda.

- Ok.

Mais tarde, já na sala de recuperação, Fernanda recebeu a visita de Antônio.

- Como se sente?

- Toda quebrada – respondeu ela. – E tonta.

- Isso é normal, devido aos sedativos – disse, tranquilizando-a.

- Eu queria pedir desculpas por ter enganado o guarda-costas. Eu já estava de saco cheio dele atrás de mim o tempo todo. Eu não acreditava que Maurício ia cumprir a promessa.

- Tudo bem. Não pense nisso. Não creio que ele volte. Ele é esperto e sabe que vamos redobrar a vigilância.

- Fê!

Os dois olharam rapidamente para a porta, quando Cláudia entrou.

- Fê! Meu Deus! Você está bem? – perguntou Cláudia.

- Tô, Cláudia.

- Aquele safado foi atrás de você e foi tudo culpa minha. Se eu não fosse tão egoísta, pensando só na minha segurança e não te abandonasse, nada disso teria acontecido.

- Calma, Cláudia – falou Fernanda, quase rindo. – Você não teve culpa nenhuma. Eu só fui sequestrada, bati de carro e vim parar aqui. Nada mais. Estou pronta pra outra.

Antônio discretamente se afastou e deixou as moças conversarem. Ele ficara contente ao ver que Cláudia reagira à sua depressão. E sorriu ao ouvir os suaves risos delas.

Depois de alguns minutos, ele aproximou-se da cama e Cláudia sorriu para ele.

- Nunca vou poder agradecer por ter salvo minha melhor amiga. – Ela o abraçou. – Muito obrigada, é só o que posso dizer.

Antônio retribuiu o abraço e o sorriso e avisou que Fernanda ficaria em observação e dentro de algumas horas receberia alta.

- Eu mesmo virei buscá-la.

- Não precisa, Antônio. Meu pai pode me apanhar.

- Faço questão. Até mais.

- Tchau, Fê. Se o Antônio permitir, eu também venho.

- Claro – disse ele.

- Tchau, gente.

Antônio e Cláudia deixaram o quarto e conversaram até a saída do hospital.

- Você quer carona?

- Quero.

No carro, Cláudia voltou a falar sobre Maurício. Antônio mudou de expressão quando ela tocou no assunto. Ela mal sabia do ódio que ele sentia pelo sujeito. Sua conversa já não foi tão cordial.

- Pronto, Cláudia. Pode ir.

- Falei algo errado? – perguntou Cláudia, estranhando o tom seco dele.

- Não.

- Então...

- Escute, Cláudia. Já está em casa. Vá e não me amole. Tive um dia duro hoje.

- Eu sei. Desculpe.

Cláudia ficou magoada e desembarcou rapidamente do carro. Antônio xingou, bateu no volante e também saiu do carro, chamando a moça antes que ela entrasse na casa. Cláudia voltou até o portão.

- Desculpe, Cláudia. Não é justo descontar minha raiva em você.

- Eu entendo. Afinal você teve um dia duro hoje.

Ele ficou em silêncio por um instante. Cláudia sorriu com tranquilidade para ele.

- É, eu tive um dia duro hoje.

- Então eu recomendo que você fuja do seu estresse encontrando-se com a sua noiva.

- Boa ideia – disse ele, mais à vontade.

- Eu não vejo a hora de buscar a Fê.

- Eu passo aqui quando me ligarem do hospital.

- Ok.

Mais tarde, na casa de Patrícia, Antônio contava a história de Maurício. Patrícia arrepiava-se cada vez que ele pronunciava o nome do sujeito. À medida que Antônio narrava, ela sentia em sua voz um crescente de ódio e rancor.

- Tony, não se estresse com ele. Você vai ver como ele vai desaparecer por uns tempos.

- Ah, Paty, se você soubesse o ódio que sinto por ele. Não vou descansar enquanto não por as minhas mãos nele.

- Você não devia ter tanto ressentimento. Ele é só mais um bandido.

- É, você tem razão – disse Antônio, abraçando Patrícia. – Eu sinto muito por desabafar essas coisas com você. Sei como se sente...

- Xiii... – Patrícia colocou dois dedos nos lábios dele, calando-o. Em seguida, beijou-o e Antônio relaxou. – Eu te amo muito, Tony. Nunca se esqueça disso.

- Não vou esquecer jamais – respondeu ele, sorrindo. – Você me faz sentir como se fosse um garoto de novo...

Ele a abraçou novamente, puxando-a para o colo dele. Beijou-a com paixão, como se o tempo tivesse parado naquele instante. Patrícia sentiu-se leve e continuou beijando-o, enquanto ele a acariciava.

- Paty, eu te amo – sussurrou ele, mordiscando sua orelha. Uma onda de calor os envolveu. – Quero você, querida.

Patrícia ficou feliz com a declaração de Antônio. Sempre quisera fazer amor com ele desde o início de seu relacionamento. Ele nunca a desrespeitara, porque a considerava jovem. E naquele momento, ele mesmo estava pedindo.

Subitamente, o mundo de sensações inebriantes que Patrícia estava começando a conquistar foi substituído por um frio instinto de defesa. Tonta, Patrícia viu no rosto apaixonado de Antônio a cruel face de Maurício. Ela pulou do colo de Antônio e fugiu para a janela.

- Afaste-se de mim! Pare! Você não vai me tocar!

Antônio atravessou a sala e a abraçou carinhosamente para tentar tranquilizá-la. Patrícia, convencida de que era realmente Antônio, o abraçou e chorou.

- Desculpe, Tony. Desculpe...

- Não se preocupe, querida. A culpa foi minha. Fui eu quem forçou a barra.

- Não, Tony. É tudo que eu mais quero – continuou ela, chorando. – Mas, mas não posso apagar o que aconteceu comigo...

- Não se atormente assim, Paty. Já passou. Eu prometo a você que jamais vai acontecer.

- Eu sei, mas eu não sou mais... Não sou... Eu não tenho...

Antônio compreendeu sua aflição e a amou ainda mais por tal preocupação. Ele a aninhou nos braços.

- Eu vou embora agora. Você vai ficar bem?

Patrícia enxugou as lágrimas e virou-se para ele.

- Você é o noivo mais maravilhoso do mundo.

Ele sorriu e beijou-lhe na testa.

- Seus pais vão chegar logo. Qualquer coisa, ligue no meu celular. Vou com a Cláudia ao hospital apanhar a Fernanda e tenho ronda daqui a pouco. E, por favor, mantenha tudo trancado quando eu sair.

- Tá, obrigada. Eu te amo.

- Eu também. Tchau. – Ele fez uma carícia em seu cabelo e se foi. Olhou em volta e suspirou, subitamente cansado. Novamente, a voz daquele sujeito desprezível ressoou em sua memória.

“Vou pegar aquele desgraçado nem que seja a última coisa que eu faça”.

Antônio entrou no automóvel, ligou os faróis e partiu, sem perceber a presença do mendigo na calçada.

- Vamos ver quem vai ser pego, seu policialzinho de araque – falou Maurício, ajeitando o boné e o sobretudo encardido.