“Estéfanie dava o máximo de sua habilidade
vocal e juntamente com Eduardo na guitarra, Vinícius na bateria e Peter no
baixo, recebia em dobro os aplausos e ovações de uma plateia extasiada.
Centenas de adolescentes cantavam as músicas de sua autoria e pulavam freneticamente,
contagiados pelo som dos instrumentos. Estéfanie encerrou o show com um
caprichado agudo e Vinícius triunfou com suas últimas notas na bateria. O
delírio extravasou todas as expectativas e eles maravilharam-se com o sucesso
que atingiram naquela noite especial. O nome da banda, Engrenagem, era repetido
pelo coral de vozes entusiasmadas, sucessiva e ininterruptamente...”.
–
Tá
viajando, cara?!
...
Os
tímpanos de Carla enfrentavam uma batalha colossal para ouvir o diálogo entre
os dois adolescentes. Balada não é a opção mais interessante para ela, já que
gosta de sossego e da luz do dia, mas fazia muito tempo que ela desejava
escrever uma história real e julgou que frequentar um local como aquele, onde
sentisse a vibração das pessoas, pudesse ajudá-la a descobrir o motivo que as
levava a gostar daquele empurra-empurra, daquele barulho.
Carla
esgueirou-se no meio daquela multidão de rostos quase infantis, sem saber ao
certo o que procurava. Até cantou trechos de algumas canções que conhecia.
Todavia, para seu desapontamento, não encontrara nenhum foco de inspiração.
...
–
Ei!
Calma aí!
–
Calma
nada, fura-olho! Vou te dar uma lição!
Logo, dezenas de garotas fecharam
círculo em torno de Estéfanie e da garota que iniciara a briga.
–
Ei,
deixa meu cabelo! Não fiz nada! – protestou, tentando se defender do canivete
que roçava em seu rosto.
Àquela
altura, Carla, que acompanhava parte da conversa, sentira uma vontade incontrolável
de buscar socorro com um policial militar que estava próximo, mas decidiu
aguardar porque precisava ver onde aquela encrenca ia dar. Deu sorte, já que o
desfecho logo aconteceu.
...
Ainda
no sábado, por volta das três horas da madrugada, ouviram-se consecutivos disparos
de armas de fogo no bairro Costa e Silva
e um estudante fora gravemente ferido. A ambulância dos bombeiros voluntários de Joinville fora acionada e
chegou rapidamente para o socorro, porém, os médicos conseguiram somente
aliviar a expiação do jovem. Por conseguinte, a polícia agiu e evidenciou que a
vítima, na madrugada do ocorrido, se envolvera em uma pancadaria com um
traficante de drogas que frequentava o Clube
17. Os fragmentos de pedras de crack encontrados na jaqueta do estudante
assassinado levaram os investigadores a alertar imediatamente outras viaturas
para varrer o quarteirão e passar um pente fino na galera que se espalhava
com medo da represália.
O
clube é caminho da casa de Carla e ela dirigia devagar, já desconfiada com
tanto alvoroço. Percebeu que ocorrera alguma sucessão não habitual de fatos ao
avistar vários homens se refugiando nas sombras das ruas e, em seguida,
viaturas de polícia circulando pelo local. Ela era extremamente sensata, no
entanto, seu ponto fraco, que é a insaciável curiosidade, vencera e então ela
estacionar seu veículo nas imediações.
Naquele
momento, ela notou que dois policiais caminhavam em sua direção. Acometeu-a um
medo danado e começou a procurar os documentos do carro e a carta de
habilitação, que sabia estarem rigorosamente em dia, assim como os impostos.
Imaginou-se sendo detida e levada para a delegacia. O que a família pensaria se
tivesse que pagar fiança para tirá-la da cadeia? Seriam capazes de deixá-la lá,
trancafiada juntamente com criminosas da pior índole. Em meio a sua aflição, ela
viu que os policiais ignoraram a presença de seu veículo e revistaram o
vendedor de xis-salada logo adiante, que esmagava o quepe com as mãos trêmulas
e apontadas para o alto. Tomou fôlego, pois para ela o perigo havia passado.
Do outro lado da
rua, na Praça do Bosque, um casal de
adolescentes permanecera em um dos bancos de concreto trocando carícias e,
apesar de tamanha agitação, não percebeu a aproximação de outro policial armado
que foi logo os interrogando. Sobressaltada, a garota ficou em pé em um
milésimo de segundo e o garoto – Carla imaginou que, com a intenção de ganhar
moral diante da menina, empertigou-se e enfrentou o policial.
“Ih!”,
lamentou ela, “ele devia ter ficado na
dele”. Carla cobriu os olhos com as mãos, como se aquele gesto a
protegesse, mas deixou uma fresta entre os dedos para poder enxergar. A atitude irrefletida do garoto em peitar a lei provocou a ira do policial,
que tratou de punir o rapaz com o cassetete.
...
Vinícius
espreguiçou-se na cama, colocou os pés para fora, esfregou energicamente a
cabeça e, sentindo um súbito mal-estar, apressou-se a ir ao banheiro na outra
extremidade do corredor. A boca estava azeda e seca, a cabeça doía, o aparelho
digestivo desregulado se agitava após um período razoavelmente longo de jejum
alimentar. Lavou o rosto e enquanto tentava resistir à zonzeira que lhe
acometia, escutou sua mãe chamá-lo para jantar e ficou ainda mais confuso. “Como que ela quer que eu vá jantar se eu
ainda nem tomei o café da manhã?” Voltou ao quarto e viu que estava escuro
lá fora. “Mas que dia é hoje?”,
perguntara-se, incapaz de raciocinar. Teclou o celular e olhou a data e o horário:
sábado, 18h30min. Nada parecia fazer sentido. Caminhou com dificuldade até a cozinha e se sentou à mesa. O
cheiro da comida pareceu-lhe agradável e despertou seu apetite. A mãe enchia-o
de mimos, ao passo que o pai mastigava seu alimento, distraído.
...
–
Um
minuto! – Vinícius havia se levantado, mas voltou a sentar. Percebeu que seu
pai não parecia nada satisfeito. Quando lhe perguntou o que seu velho queria, este depositara sobre a
mesa o que restara de um baseado. –
Isto foi encontrado no bolso de sua bermuda. Como você explica isso, filho?
Vinícius sobressaltou-se quando
viu que tinha esquecido o cigarro no bolso e tentou se defender, argumentando
que desconhecia aquele troço e não tinha a menor ideia de que jeito aquilo
viera parar em sua roupa. As explicações ambíguas do garoto não convenceram o
pai, que resolveu castigá-lo proibindo-o de sair de casa.
–
Pai,
você não pode fazer isso com um futuro artista! – protestou. – Depois eu já
tenho dezoito, portanto, sou maior de idade...
–
Maior de
idade e ainda no ensino médio – recomeçou o pai, extenuado com os protestos –,
você deve aprender que ter dezoito, vinte ou trinta anos pouco importa se você
mesmo não desenvolver seu caráter e assumir as responsabilidades pelas atitudes
que toma. A vida é sua, viva como quiser, mas entenda que eu, na qualidade de
seu pai, tenho a obrigação – discorreu, enfatizando as últimas palavras e
repetindo-as –, obrigação de alertar pra você não se meter em fria.
–
Que fria que nada, pai! Chega de mijada, tá? Não sô mais criança. Além disso, tô
com uma puta dor de cabeça... tá sendo injusto!
Enquanto Vinícius
debandava da cozinha, resmungando, o pai balançou a cabeça, preocupado. Andava
desconfiado a algum tempo de que o filho estava se envolvendo com drogas e
deduziu que só podia ser culpa das companhias daquela banda barulhenta, cujo
som irritava seu gosto musical, que preferia um bom “sertanejo raízes”. Ouviu a porta do quarto do garoto ser batida
fortemente em sinal de insatisfação com o castigo e alimentou a esperança de
que o filho mudaria de comportamento após o afastamento daquelas péssimas
influências. A esposa, até então calada, murmurou algumas palavras amenizadoras
e começou a recolher a louça do jantar.
“Quanto engano!” desesperou-se Carla. O
projeto para sua história estava começando a lhe provocar dor de cabeça. “É bom você parar por aí”, recomendou sua
consciência, todavia, Carla se julgava a mãe da teimosia.
...
São
seis horas da manhã e Estéfanie custa a abrir os olhos. Espreguiça-se na cama,
revira-se, puxa o edredom até o
pescoço. O despertador do celular soou o segundo round e a moça esbugalha os olhos com a primeira lembrança da
manhã. “Matemática!” grita sua mente
subitamente agitada. Uma tão temida prova e ela esquecera completamente! Ela
levanta de um salto e sai do quarto. Verifica que os pais já saíram para o
trabalho e a casa está sob sua inteira responsabilidade. O café está pronto na
mesa, mas o almoço é por sua conta a partir de hoje, bem como a organização e
limpeza diárias. É o castigo pela desobediência às regras da casa.
....
Eram 23 horas e
Ricardo acabara de apagar as luzes de seu quarto. Apenas pensara em orar a Deus
em agradecimento por mais um dia, foi interrompido com as batidas insistentes à
sua porta.
–
Seu
Ricardo! – alguém chamou.
Em um pulo, Ricardo levantou-se e
abriu a porta. Estava com cara de sono e ficou de mau humor.
–
O que
foi?
–
Seu
Ricardo, desculpe, mas o senhor precisa ver uma coisa.
Àquela altura, Ricardo perdera
totalmente o sono. Seguiu o rapaz que o buscara pelo facho de luz da lanterna
que segurava.
–
Por que
não acendem as luzes? – resmungou, após ter chocado a perna em algum móvel.
...
“QUEM PERMANECER AQUI VAI MORRER.”
...
–
Pai, me
mata de uma vez! O senhor não queria mesmo que eu nascesse! Me mata de uma vez!
Para pronunciar
seu derradeiro pedido, o garoto usou toda a energia que lhe restava e perdeu a
consciência. O pai, que se preparava para segundo violento chute, recuou
inesperadamente. Observou o filho, mas seu coração gélido não buscou
arrependimento. Saiu de casa, embarcou no caminhão e se foi, inconsciente do
crime praticado.
Caído ao lado do
corpo inerte, o celular vibrava incessantemente.
...
...
...
Na mesma balada, Vinícius
ficava com uma mulher de cabelo
tingido de loiro, sensual, visivelmente mais madura do que ele. Dado o ritmo de
seu envolvimento, percebia-se que se conheciam há mais tempo e que boa coisa
não havia ali. Extrovertida em excesso, a loira não se intimidava em descer até
o chão no rebolado de um funk.
Cigarros e bebidas passavam sem cerimônia por suas mãos frenéticas.
–
Isso
daqui é do melhor! – berrou o garoto, para ser compreendido no meio daquele
fervo. – Experimenta, gata! Não vai se arrepender...
Ela tomou um comprimido
da mão dele e engoliu junto com um gole de uísque. Fiquei pensando que tipo de
droga era aquela. No mínimo, extasy
ou algo do gênero. Os efeitos começaram a saltar aos olhos dela. Vinícius, por
sua vez, ficara satisfeito. Gostava da moral que ganhava ficando com ela. Seus corpos roçavam um no outro, aumentando a
energia e provocando em ambos desejos lascivos. Agora me imagine lá no meio,
observando aquelas cenas. Eu, toda educada e correta, acabei ficando vermelha
de vergonha sem querer. Ainda bem que ninguém prestou atenção nisso.
De repente, surgiram dois sujeitos encorpados ao
lado da mulher e, propositalmente, ela apontou o dedo para o garoto. Ele era
menor de idade e havia entrado na danceteria graças à influência dela. Então,
cercaram-no e, discretamente, ameaçaram-no com revólveres. Retiraram-no da
pista de dança e levaram-no até uma sala privativa no mesmo prédio....
Vanessa
abriu a pequena caixa com grande entusiasmo. Retirou o aparelho de celular – o
primeiro que tinha comprado, e imediatamente começou a testá-lo. Tirou algumas
fotos de si mesma, saiu filmando os cômodos da casa. Já eram 18h30 e ela seguiu
pela rua ansiosa por mostrar para o esposo sua aquisição, um sonho de bastante
tempo.
Chegou
próximo da barraca e começou a filmar Pedro, que atendia dois garotos. Em seu
estado de euforia, Vanessa acenou para o marido e o chamou:
–
Querido! Olha pra cá!
Pedro atendeu ao
chamado e olhou na direção da filmadora do celular. Os garotos também voltaram
a visão e um deles soltou um palavrão.
–
O que tá fazendo, sua besta? – Desta vez, fora Pedro que
esbravejara. – Larga já essa porra!
–
Pega aquela câmera! – ordenou o outro cliente de Pedro.
Confusa,
Vanessa abaixou o celular, guardou-o no bolso da calça jeans e deu alguns
passos para trás até começar a correr pela rua lateral da Praça do Bosque, enquanto era perseguida pelos dois garotos. Ela
fugiu sem parar até o final da rua quando avançou pela rua Rui Barbosa. De
repente, um motoqueiro a interceptou, parando diante dela e estendendo um
capacete.
...