Minha foto
Joinville, Santa Catarina, Brazil

SUSPENSE - A GUERRA DAS PALAVRAS


A GUERRA DAS PALAVRAS


1º CAPÍTULO

     Uma garota estudiosa de 14 anos encontra na biblioteca do distrito um livro grosso e velho, com capa dura e páginas com aspecto de pergaminho. Ela começa a folhear o livro e percebe que as palavras estão embaralhadas. Aí ela inicia uma saga para descobrir o que o livro revela.
     Ela tem somente uma amiga na escola, uma menina mulata da mesma idade. Elas se conheceram no 2º ano do ensino fundamental. Sua amiga fica curiosa, mas desiste nas primeiras tentativas. Biblioteca realmente não é o lugar preferido dessa amiga.
     A palavra que mais desperta a curiosidade de Paula é perseverança, e essa palavra aparece repetidamente durante todas as páginas em que vai lendo mas continua muito longe de compreender o sentido do livro.
     Resolve emprestar o livro por duas semanas e decide que, se dentro desse prazo não conseguir compreendê-lo, devolverá para a biblioteca esquecerá dele.
     Então descobre junto à bibliotecária que o livro não está catalogado por não conter título nem autor ou dados de impressão. Curiosa, pergunta a Paula onde ela o encontrou e a garota a leva até a prateleira e mostra o lugar exato de onde o retirara.
     Entretanto, naquele lugar não há qualquer espaço para o livro que Paula segura nas mãos, tanto em dimensão das prateleiras quanto a quantidade de páginas.
     A bibliotecária lhe dá um sermão para que não a engane e abandona qualquer auxílio após verificar no computador que os livros estão devidamente organizados. A mulher lhe diz com convicção inabalável que, após vinte anos trabalhando na biblioteca distrital, não comete erros. Expulsa Paula da biblioteca e manda que ela leve o livro consigo.
     O livro é grande e pesado e ela fica com raiva da bibliotecária e tem o impulso de jogar o livro na primeira lata de lixo reciclável que encontrar, mas a palavra perseverança vem em sua mente com força e nitidez, de forma quase palpável. A garota desiste do intento de jogar o livro fora e o carrega até sua casa.
     O livro foi colocado lá por alguma razão, Paulo começa a refletir. Mas a pergunta que não queria calar era quem poderia ter feito aquilo e se o livro caiu nas mãos da pessoa certa.
Paula examinou-o. Como a bibliotecária mencionara, não havia título nem autor, mas era impresso em caracteres gráficos bastante antigos. Suzana acha tudo muito idiota e simplesmente sugere que Paula se desfaça do livro.
     Paula começa a desembaralhar as palavras parágrafo por parágrafo. Em muitos casos, faltam termos para identificar o sentido exato do que está lendo, em outros, as mesmas palavras se repetem nos parágrafos adiante, mas com sentidos distintos.
     A garota desiste daquele quebra-cabeça, fecha o livro e o deixa fechado sobre a escrivaninha.
Na manhã seguinte, ao despertar, ela vê que o livro está aberto e se pergunta se uma corrente de ar teria feito aquilo. Impossível, reflete, já que a capa parece de madeira.
     Resolve perguntar para a mãe e o pai se estiveram no quarto dela durante a noite e eles negam. Ela fica confusa e volta para o livro. Vê que os parágrafos que ela lera no dia anterior se embaralharam outra vez.
     Pensando que o livro quer que ela descubra o que há nele, a palavra determinação aparece em realce nos mesmos parágrafos onde a palavra perseverança aparecia no dia anterior.
     Na página sete ela encontrou ênfase na palavra perfeição. Ótimo, pensou Paula, somente palavras de sentido positivo. Já na página 13 ela desembaralhou as palavras em torno da palavra TABU e conseguiu entender que o parágrafo se referia ao 13º mês do ano, com ano previsto para acontecer uma hecatombe mundial.
     Assustada, ela fotografa a página com seu smartphone e vai para a escola. Pela primeira vez em sua vida, esquece completamente das tarefas de casa e os professores acham estranho.
Sua professor ade Física critica sua “cabeça de purungo podre” e o professor de matemática julga-a apaixonada.
     Suzana tira satisfações e irrita-se com a amiga por não ter ainda dado um fim ao livro.
No dia seguinte, todos os parágrafos foram reescritos daquela forma embaralhada e para ter certeza de que não está louca, Paula confere a página 13 com a foto do smartphone. E apesar de ter certeza do que lera e de lembrar-se de como as palavras estavam misturadas no dia anterior e de como estão hoje, a foto e a página são idênticas.
     Impossível, pensa. Minha imaginação está criando tudo isso. Suzana prova isso quando lê em voz alta o que parece um romance comercial.
     Mas para Paula, as palavras continuam embaralhadas. Novamente a palavra perseverança salta aos olhos.
     Realmente o livro está querendo contar uma história mas somente Paula poderá decifrar.
     Ela resolve mostrar o livro para o professor de História, mas para ele o livro estava totalmente em branco. Ele só enxergava as páginas cuja textura lembrava pergaminhos. Pergunta onde Paula conseguiu o livro e após a resposta interroga a estudante sobre se ela mostrou o livro a mais alguém. “A bibliotecária e a minha amiga”. E todas as duas me disseram para jogá-lo fora.
O professor pediu para que ela deixasse o livro com ele e por um momento Paula aliviou-se por se livrar do misterioso livro, mas algo no olhar do professor deixou-a assustada e ela saiu da sala levando o livro consigo. Colocou-o na mochila e voltou para a sala de aula.
     Depois que voltou para casa livrou-se da mochila e foi ao banho. Quando retornou para pegar seu material, levantou o livro e sentiu que suas mãos estavam pegajosas.
     Ela gritou. Escorria sangue das páginas e ela caiu no chão, horrorizada. A mãe chegou para acudi-la, e então Paula viu que o livro estava normal. A mãe ralhou com ela e voltou para a cozinha.
     A estudante ergueu-se lentamente do chão e se aproximou do livro que a mãe colocara sobre a escrivaninha momentos antes. Sim, o livro estava igual a antes, com as palavras embaralhadas. Ela lembrou-se da página 7 e abriu por um momento, pensou que havia um facho de luz branca levantando da página.
     Pensou que depois disto precisava urgentemente consultar um psicólogo.
     Então colocou o que estava escrito ao redor da palavra perfeição. Descobriu um novo sentido.
     “O mundo não é movido pelas perguntas ou pelas respostas, mas sim, pela possibilidade de perguntar e pela capacidade de transformar a resposta em uma reação produtiva”.
     Estranho. Tudo estranho, louco, bizarro, apavorante.
     Paula resolve aceitar o conselho da amiga e atira o livro na lata de lixo da escola.
     Antes do final da aula, uma colega aparece carregando o livro e lhe entrega, eufórica e excitada. Paula não tinha mostrado o livro a muita gente, então pergunta como ela sabe que o livro é seu.
     Está escrito o seu nome na capa, com a sua caligrafia. Você deixou na mesa da cantina.
     Paula apanha o livro com absoluta surpresa e abre a página. Realmente, é o seu nome que está lá, e pior, com sua caligrafia.
     Antes de voltar para casa, ela pede a ajuda de Suzana e lhe fala em segredo que está enlouquecendo. Suzana concorda, porque tudo que vê e faz questão de ler em voz alta, é o mesmo parágrafo que trata de uma descrição de lugar. E ela mesma leva o livro consigo. Joga-o na lixeira do supermercado, quando vai fazer compras com o pai.
     Resolvido, ela espana as mãos. Ora bolas, acreditar num livro bobo desse.
     Quando se afasta, a lixeira parece sacudir no ar.
     Aliviada, Paula se prepara para dormir e então ouve a campainha. Logo o pai aparece e lhe diz que estava na soleira da porta o livro.
     A Suzana vai se ver comigo amanhã cedo!, promete e guarda o livro dentro do guardarroupa.
     Suzana aparece na manhã seguinte muito animada e confirma que jogou fora o livro. Ainda faz umas caretas para assustar a amiga, mas assim que Paula retirar o livro do armário e mostra para ela, Suzana cai sentada.
- Acredita agora?, pergunta Paula.
- Isso é coisa do demo, Paula!
- Não, deve ser alguma brincadeira do Pierre.
     Pierre é um garoto daqueles que vive pregando peças em todo o mundo. Paula o detesta. E ele detesta Paula. Sempre vivem se xingando.
     Paula e Suzana chegam na escola e esfregam o livro na cara dele. Ameaçam contar para a diretora o que ele anda tramando, mas Pierre jura que não sabe de nada. Ele também enxerga as palavras embaralhadas, mas ao contrário de Paula e de Suzana, ele vira o livro de cabeça para baixo pois para ele as palavras estão escritas de perna para cima.
     Curioso, ele fica na hora do recreio com as garotas para investigar tudo aquilo. Chegam a conclusão de que o livro só pode ser uma coisa do mal.
     Juntos, eles começam a pesquisar formas de destruí-lo. Tentaram queimá-lo, mas o livro é indestrutível. Fogo, ar, explosão, corte, enterrar. Nada funciona. Nada.
     Paula, enfim, decide procurar formas de decifrar aquele enigma. Se Suzana enxergava uma historia comum, ela enxergava os parágrafos embaralhados que se moviam a cada dia, e Pierre enxergava embaralhado mas as palavras como que impressas do lado contrário da página, havia três tipos de pessoas, ou características pessoais que o livro se fazia – ou não –, conhecer.
     Suzana se ofendeu. Eu joguei fora também, então eu também faço parte deste mistério.
- Não foi isso que eu quis dizer, replica Paula. Talvez o livro queira mostrar o próprio poder, como se fosse uma pessoa.
- E se ele chegou até Paula, ele quer ser descoberto.
- Mas alguém colocou ele na biblioteca.
- Ou o livro tem vida própria?!
     Pierre se sentiu importante.
- Baixa a bola – disse Paula, envolvida pela tensão do desconhecido.
     Paula fecha o livro e o sacode. Parecia oco e algo se mexia lá dentro. Ela remexeu as páginas do alto e dela caíram algumas palavras. Quando os três ajuntaram, viram que eram de madeira e começaram a montar a frase que elas formavam.
     “A caligrafia é a chave da perfeição”.
      Caligrafia. Será por isso que minha caligrafia estava na contracapa?
    Pierre teve uma ideia. Pediu para que Paula escrevesse as palavras em uma folha de papel qualquer. Ela escreveu e entregou para ele.
- Tá me achando idiota? Não tem nada aqui! – vocifera Pierre, indignado.
- Mas escrevi!
     Suzana interveio. Abriu o livro. Na contracapa estava a frase que Paula acabara de escrever e tinha sumido da folha de papel...

HUMOR - MEU CHAPÉU!


 MEU CHAPÉU!

Meu chapéu!
A Verônica está novamente repuxando os lábios para frente e para trás, como se a revisão dos documentos dependesse, efusivamente, desses movimentos involuntários.
Dou uma olhada de soslaio e vejo a Solange fazendo uma análise de métodos e tempos e gesticulando “apanhar e colocar no lugar” para tentar não perder a ponta do fio da meada.
E eu, olhando para a tela do computador, tentando avaliar por que a análise foi feita desse modo se não condiz com a realidade.
E olho por cima do monitor, bem de fininho, para o meu supervisor, que – graças aos céus! –, está usando seus fones de ouvido e isso me garante pelo menos uma hora de sossego, sem que ele chame inventando mais uma planilha de controle para gerenciar e evidenciar nosso desenvolvimento pessoal dentro do departamento.
(Quando foi que me tornei tão observadora? Ou melhor, desde quando sou tão chata?).
Bem, voltando ao que disse no início. “Meu chapéu!” provém de algum continente longínquo da minha pré-adolescência, porque não devíamos nos expressar por palavrões. Então, “meu chapéu!” corresponde a um bem colocado “filho-da-puta”, “caralho” e mais alguns do gênero. Ah! E não posso me esquecer de que não se podia blasfemar. Dessa forma, “Meu Deus!” estava total e vergonhosamente fora de cogitação de uso. Assim, o equivalente passou a ser o companheiro de todas as horas: “meu chapéu!”.
Além disso, essa expressão é um ótimo coringa, pois pode ser usada como interjeição no caso de alguém contar um episódio hilário, uma anedota. Basta aplicar a entonação correta e... tchanam! Você consegue dar o devido valor que a piada merece.
Outra forma bem atraente de usar “meu chapéu!” é quando você não consegue verbalizar algo que tenha apreciado muito e em vez de dizer que ficou sem palavras ou mencionar “que legal”, você usa “meu chapéu!” e faz parecer que você é muito inteligente e de opinião, tipo Marília Gabriela entrevistando uma celebridade polêmica.
(Desculpe, fui longe demais, não é?).
Bem, voltando agora àquilo que estou fazendo no momento (ou que, pelo menos, estou tentando fazer) que é cuidar da minha análise e não dos trejeitos faciais da minha colega, resta muito pouco, pelo menos, uma fila de duzentas avaliações, e nesse ritmo que estou conduzindo, terminarei antes da inauguração da nossa fábrica em Marte (hum... parece próximo demais; acho melhor me garantir com a instalação de uma filial em Urano).
Caí nesse negócio de avaliar movimentos graças a meu inquestionável comprometimento profissional, dinamismo, perspicácia industrial, flexibilidade e versatilidade. Afinal, foi um cargo concorridíssimo, com meia pessoa (eu própria estava metade concorrendo e a outra metade doida para dar no pé). Bem, tinha outra opção bastante tentadora, que qualquer pessoa no meu lugar poderia afirmar como: “essa nova atividade será importante para a minha carreira”. Ou isso, ou a fila da Caixa.
(Sabem como é, em tempos de crise.).
A propósito, tem tanto funcionário disputando esse heroico lugar na fila do Seguro Desemprego, que tem gente indo para as cidades vizinhas fazer o encaminhamento da papelada. Parece que nossa cidade, por ser a maior do Estado, tem também um maior número de adeptos do sistema de voluntariado do GLB (Grupo Dos Que Levaram Um Pé Na Bunda).
Já me alertaram de que o meu maior problema é foco. Então, acho melhor eu me concentrar na análise de uma vez.



Acabo de voltar do DOA – Departamento de Operações Arbitrárias. Calma, não é nenhum ministério novo criado pelo governo federal para disfarçar a corrupção no país. É apenas o chão de fábrica, onde encontramos as mais tenebrosas criaturas da galáxia. Exatamente! Criaturas como eu e você, umas cheias de timidez, outras sobrecarregadas de marras, com milhões de pensamentos conflitantes.
Não sou cinegrafista – longe disse um bilhão de anos-luz! Não tenho a menor vocação –, mas levo minha câmera digital a tiracolo para filmar a atividade sendo realizada e avaliar o tempo de execução. E verdade seja dita, sou sempre educada (bom... talvez nem sempre, mas a maior parte do tempo) e explico para o operador de produção qual o motivo de eu estar ali aborrecendo sua vida. Convém explicar que sou um tanto ansiosa, ou talvez, oportunista, em casos assim, e com um medo terrível de que o modelo que eu precise avaliar não seja mais fabricado na linha de montagem nenhuma vez durante o século XXI, que cheguei diretamente apontando minha arma letal contra o pobre operador. E, que legal, ele sentiu-se intimidado e parou de trabalhar. Ficou lá com os braços cruzados, estático, me passando um sermão sobre direitos de imagem. E eu, apatetada, estarrecida, pois estreava na situação. Embaraçada, gaguejei as explicações que deveria dar a ele antes de começar a filmagem. E enquanto meu hiato com o operador ocorria, perdi a montagem do produto!
Vê o que adianta a ansiedade: se tivesse feito o certo desde o início, teria conseguido realizar meu trabalho no departamento de operações arbitrárias da primeira vez. O lado bom da coisa é que eu voltaria melhor guarnecida para a próxima cena de batalha.
Enquanto eu me formava no curso Lidando com o Ego Alheio, a Solange voltou inteiramente satisfeita por ter filmado cinco postos de trabalho. Não é uma grande zombaria da vida uma situação como estas?
O operador pensou o quê? Que eu estivesse filmando as tatuagens no corpo dele para publicar em alguma rede social? O problema maior é que ele tinha razão (não! Não entenda errado! Eu quis dizer que ele tinha razão, pois ninguém iria gostar que filmassem seu trabalho sem explicar o motivo).
Lembro-me de outra ocasião em que eu quase deixara a câmera desabar dentro de um produto, ser embalada junto com o produto e chegar na casa do cliente, que iria ficar satisfeito com o brinde que a fábrica generosamente enviara com sua compra.
(Eu não lhe avisei desde o início que o meu forte não é foco?).
O supervisor do departamento de operações arbitrárias gritou atrás de mim algo como “O que você está fazendo aí?” e eu, na cara-de-pau (ou no susto mesmo, vamos ser realistas), lhe respondi “filmando”. O homem agitou freneticamente os braços e me lançou um olhar de lutador de boxe com sede de violência, que dizia “Isso eu posso ver”.
Então, puxei ar, me sentindo flagrada em atitude ilícita. Permaneci parada com a câmera na direção do produto da minha filmagem, totalmente fora de ângulo, feito uma estátua de cera. Um transeunte desprevenido poderia pensar que eu havia sido embalsamada viva, tão estática eu estava.
O supervisor daquela área se aproximou e acho que se compadeceu do meu aspecto esverdeado (estava nauseada devido ao cagaço com o berro dele), e falou calmamente que é de bom tom passar um rádio para ele toda vez que minha equipe fosse à sua linha de montagem. Agradeci como se ele estivesse me fazendo um enorme favor (ele acreditava com toda a confiança de que estava mesmo me prestando o maior favor do planeta!) e continuei meu trabalho.
Como dizia uma professora da minha época do ginásio (ensino fundamental atualmente, só para constar; têm certos hábitos que a gente não perde, mesmo se atualizando): cansei minha beleza, que já não é muita.


Embora eu esteja profissional há mais de três anos, ainda não estou segura de que realmente domino minha atividade.
Estranhou o “esteja profissional”? Pior que é isso mesmo. Eu não tenho profissão, assim como um frentista, um motorista, um mecânico, uma manicure, uma empregada doméstica, porque eu sou (e aqui vale mesmo a flexão do verbo ser) auxiliar administrativa, o que em termos realmente práticos, é o mesmo que NPD, ou seja, Nenhuma Profissão Definida.
(Perdoem-me todos os colegas dessa profissão de extremada e vital importância. Mas não é a mais pura verdade? Não somos pau pra toda obra? Quando o bicho pega, quem é que vai resolver a pendenga? O auxiliar administrativo, nem que tenha que ele próprio por mãos à obra.)
Muitas vezes somos a Tia do Café, seres iluminados de tamanha bonomia. Outras vezes, agimos como o mais cruel dos cobradores, azucrinando a vida de nossos clientes inadimplentes com ligações quase diárias. Há quem nos compare com o substituto do chefe quando quer pedir um adiantamento no momento em que estamos como auxiliar de recursos humanos, e outros juram de joelhos dobrados que somos os responsáveis para resolver as reclamações dos clientes. Ah! Tem também a parte do telefonista barra recepcionista e os talentos de contador e agente financeiro.
Meu chapéu! E aqui tome isso como uma expressão de completa admiração. Acredite. Já vivi esse drama na pele, na carne, no osso e até no espírito.
E outra, sabe por que nos “batizam” de auxiliar administrativo, não sabe? Porque é mais barato, porque os impostos são menores. Nem sempre a CLT (consolidação das leis trabalhistas) é justa. Quisera Getúlio Vargas que fosse assim quando instituiu as leis favorecendo a classe trabalhadora. Pena não ter sido beatificado ou coisa do gênero.
Imagine um auxiliar administrativo antes das leis do trabalho. Seria um office boy pela madrugada, um chefe da equipe de limpeza no turno matutino (no caso, a equipe é o próprio auxiliar administrativo), o cozinheiro na hora do almoço, um contador e assistente financeiro na parte da tarde, faria o inventário do estoque durante o noturno, sem direito a vale-refeição, vale-transporte, lanche, horas extras e para completar deveria servir as excentricidades do patrão nas horas improvavelmente vagas. Não duvido que as horas de descanso entre um dia e outro ainda lhe fossem descontadas do salário que os patrões lhe fazem o favor de pagar.
Ah, quando é que vou corrigir a minha falta de foco? Ouvi dizer que pau que nasce torto, morre torto, então não tem remédio nem terapia de choque que resolva. Mas será que quando chegava a hora de eu vir ao mundo, eu já tinha tantas prioridades para perder o foco, tipo: minha mãe no limite das dilatações suportáveis para eu nascer, eu me preocupasse com o que deixaria lá dentro do útero? E aí minha mãe tivesse que me dar uma palmada por sobre a barriga, tipo uma “pedalada” para me lembrar de que ela estava toda arregaçada aguardando por mim? Isso explicaria a intervenção. “Cesariana na criança, porque ela perdeu o foco do seu nascimento!”.
Mas eu quero mesmo lhe dizer sobre a minha “lida” atual. Não é assim que autores como Bernardo Guimarães ou Machado de Assis se referiam aos afazeres profissionais, mesmo para os escravos? Então, minha lida é essa de assistir vídeo. Bem, videozinhos, por assim dizer, amadores, desprovidos de efeitos especiais e narrados pela minha grave-sotaque-indefinida-voz. Estou perdendo dinheiro. Poderia usar minhas cordas vocais nas traduções contextualizadas do Google.
“Ah, que legal”, disse eu certa vez, sem qualquer entonação, o que me rendeu a alcunha de “Voz do Google”, dentre meus fãs, uma equipe inteira (bom, cinco pessoas, e entenda que é uma equipe inteira) e um ou dois simpatizantes de outras áreas.
Você provavelmente imagina que eu passe os dias inteiros assim, devaneando enquanto o serviço espera? Poxa, assim você me magoa profundamente. (Psiu? Você por acaso tem um bola de cristal aí? E a bateria dela está carregada? Parece que você me conhece há anos e eu fiquei emocionada de tão honrada).
(“Meu chapéu!”, penso, me pavoneando como balões inflados a gás).
E eu nem cheguei ainda a contar sobre minhas atrocidades linguísticas quando trabalhava em uma central de ordens de serviço.
Desculpe pela enésima interrupção.
Eu estava dizendo que faço vídeos amadores, baixo no computador e assisto as operações de uma linha de montagem. Pois bem, preciso analisar cada movimento, calcular a distância entre uma operação ou outra, aplicar o grau de dificuldade de uma “pega” e transformar isso em um código para o sistema calcular o tempo de execução. Ah! Mas não se preocupe, pois não pretendo dar treinamento a ninguém.
Agora vou lhe explicar por que é tão difícil manter o foco. Estou com a página da avaliação aberta em uma janela no computador e o vídeo em outra. Deixo o vídeo seguir até a finalização de um movimento, retrocedo, assisto novamente, dou uma pausa e avalio. Pronto. Duas horas depois consigo entender que o movimento em questão é de “pega” difícil, que o “colocar no lugar” tem um nível de precisão, que a faixa de distância é acima de vinte centímetros, que quatro ciclos de movimentos são necessários para complementar a tarefa e que são necessários dois movimentos de força para encaixe. Ah! Mas a peça não pode aparecer como mágica na mão do operador. Esqueço-me de calcular a distância em passos que ele precisa para chegar até o estoque de peças e retornar para o posto de montagem. Enfim, está aí, tudinho marcado na minha memória que muita gente diz que é como de elefante (mas eu duvido, às vezes). Começo a garimpar o sistema atrás do programa de tempo correto para a atividade que acabo de analisar. Enquanto minhas escavações arqueológicas prosseguem, infrutíferas, um colega vem ao lado e reclama que o condicionador de ar começou a derramar água.
Gostaria muito de lhe dizer que mandei meu colega plantar bananeira e que eu não sou técnica em refrigeração, mas, usando a coroa da Rainha da Perda de Foco, respondo a ele que vou abrir uma nota. Quando ele se afasta, observo ao meu redor (não é a primeira vez que isso ocorre e já sei o que está prestes a acontecer) e vejo subir da cabeça da Solange borbulhas ferventes de ira vulcânica.
      Que abusado! – ela entra em erupção e eu corro até o alto do vale para me proteger da lava incandescente de seu olhar.
Penso que estou em segurança e retorno para meu lugar. Percebo, então, que a Cintia está na moda O Incrível Hulk, com o atentado do meu colega ao andamento da atividade para a qual eu sou remunerada. E reflito que se ela fosse o Superman, eu teria alguma chance de me defender de algum ataque de lealdade conseguindo um estoque de criptonitas nos estúdios de gravação do seriado Smalville.
Afinal, descobri o código de identificação do aparelho e abri a nota. E agora, posso abrir novamente minha tela de análise e prosseguir com...
Ops! Onde eu estava mesmo? Ai, acho que fui dar um pulinho em Saturno, voltei mareada com a órbita dos anéis em torno do planeta e larguei todo o meu raciocínio anterior gravitacionando no espaço sideral.
Corajosamente, retomo meu trabalho, mas em vez de continuar, tenho de voltar ao meridiano de Greenwich, ou seja, ao ponto zero outra vez.


Teve épocas em que eu fui, indubitavelmente, irresponsável no mundo profissional. Hoje sou o oposto, meio Caxias, por assim dizer. Mas quem era meu conselheiro nessa época da Idade da Pedra? Sim, acertou: a falta de foco.
Lembro-me de que havia rivalidade entre as turmas do segundo grau noturno (tá bom, esqueci, é ensino médio), por motivo da gincana para angariar brindes para a festa junina da escola. E eu trabalhava na escola – meio período, mas trabalhava (ao menos eu achava que estava começando a ter uma carreira profissional).
Bem, enquanto isso, uma aluna da sala rival trabalhava na escola também no outro turno, e havia dias da semana em que dávamos expediente juntas.
Já pode imaginar o que aconteceu? Então, deixei que a rivalidade viesse à tona entre nós e como eu nunca fui boa de argumentação, fiquei umas dúzias de pilhas de nervos e chorei. Meu chapéu! (Na verdade, quero dizer: “Que coisa mais infantil!”). E pior: avisei a secretária da escola que eu não estava me sentindo bem e que ia embora.
Imagine que pessoa mais sem noção. Saí logo informando que iria embora mais cedo. Perceba que meu expediente era de quatro horas e eu não fui capaz de aguentar mais uma hora para voltar para casa choramingando por não ser uma pessoa de opinião. E acho que jamais teria percebido isso se não fosse a lição verbal que ouvi de minha mãe quando ela me viu chegando em casa mais cedo. Não me lembro de absolutamente nenhuma palavra do que ela tenha dito, mas deve ter surtido efeito, pois eu nunca mais saí do emprego por uma bobagem dessas. Isso mesmo! Por causa de assunto gincana, nunca mais mesmo, verdade!
Entretanto, teve vezes que eu soltei meu vocabulário em cima de um cliente, esmaguei um documento importante na frente da minha chefe, fui a uma entrevista de emprego bem no primeiro dia em que eu deveria cobrir férias de uma colega do financeiro, bati a porta do departamento até quase se soltar dos caixilhos, vi e imprimi mensagens de e-mails – dessas que quase fazem a gente chorar –, e levei para casa para colecionar (ufa! Larguei esse vício anos depois quando percebi que dois roupeiros e uma cômoda já não comportavam tanto papel. Acho que essa mania nasceu por causa das coleções de papel de carta que todo mundo na minha sala de aula do ensino fundamental – acertei! – fazia e eu nunca me iludi porque só meu pai trabalhava e eu não me sentia no direito de pedir dinheiro a ele para um souvenir como esses, mas isso é uma história para outro livro).
Resumindo, a falta de foco estava realmente no trabalho. Todos os outros detalhes da vida e da convivência eram prioridade.


Quando vi que esse negócio de análise de método tornava meu ânimo glacial como a Era do Gelo e eu me vi perseguindo minha noz por todo o meu labirinto cerebral, procurei meu superlegal (minha aglutinação para supervisor + legal) recém-nomeado (minha área nunca antes tivera supervisor e nos reportávamos diretamente ao chefe do departamento) para lhe informar de que meu aprendizado está em um nível próximo do péssimo, justificando que não vou alcançar os resultados previstos.
Imaginei que usando a honestidade como subterfúgio, ele poderia desistir de mim e mandar treinar outra pessoa, enquanto eu retornava ao meu antigo cargo de revisora de instrução de trabalho. E não pense que o superlegal me criticou, dizendo aquelas coisas esperadas de chefes, como as afamadas mijadas. Nada disso. Ele, ao ouvir minhas lamentações, me encorajou e ainda afirmou que daqui a uns três meses vou estar melhor do que esse pessoal que já tem experiência de anos.
Que ultraje! Afinal, não se fazem mais supervisores como antigamente, daqueles que tratam o subalterno como uma tropa de cavalo xucro, na base do arreio e do grito, ou daqueles chefes indecisos e insatisfeitos, que nunca o trabalho ou os lucros estão de acordo com o aguardado?
Bem, admito: perdi essa batalha para o meu histórico, ou seja, a da profissional que não rejeita serviço e aprende bem qualquer função que lhe ensinem. E acredite, em vez de sair da sala do superlegal com grilhões nos pés para não sair flutuando sob o efeito do meu ego superinflado, me senti esmagada pela gravidade.
Afinal, quanto mais aprendo sobre mim, menos eu me entendo.
Meu chapéu! Essa vale para “Que porra!”, com todo respeito.


Estou diante da página da análise de método. Não outro posto de trabalho, absolutamente, mas a mesma que comecei com você há dois dias. E juro para você que vou manter o foco do início ao final.
Que é isso, Edilene? Você tá fazendo algum feitiço? – pergunta a Verônica, com olhar de puro divertimento.
Eu ri, porque parecia mesmo um gesto dos aprendizes de bruxo da escola de magia de Hogwarts, da saga Harry Potter. Na verdade, eu estava repetindo um gesto em que o operador colava uma fita duplaface em torno de uma peça e tentava avaliar esse movimento circular. E parecia, ao espectador externo, que eu estava agitando uma varinha invisível no ar e murmurando algum encantamento.
Bem que eu poderia ter a determinação voraz de leitura da Hermione Granger para devorar minha apostila de método, ou talvez sua perspicácia insalubre para solucionar mistérios. Poderia até pedir a ela emprestado o Viratempo para acelerar o meu aprendizado, alterando o tempo para eu estar em várias fases simultaneamente (felizmente eu não teria de enfrentar uma aula sobre Criaturas Mágicas e nem salvar nenhum hipogrifo).
Ah, meus tempos de atendente de ordens de serviço. Monitorava a produção das máquinas e em caso de quebra cumpria a cadeia de ajuda: abrir nota, chamar mecânico/ferramenteiro/eletricista e informar supervisores e chefes. Mal sabia falar ao rádio (ainda posso me lembrar do iceberg na barriga quando precisava utilizar o rádio nas primeiras chamadas).
O pessoal da manutenção, sempre com atendimento diplomático tipo Jurassic Park (acontece que os bichinhos do filme perdiam feio para a ferocidade desse pessoal), reclamava que eu falava demais no rádio. Que minhas polidas frases – O senhor poderia, por gentileza, atender a máquina X, que está parada devido ao defeito Y? –, eram de péssima escolha quando eles estavam enfurnados dentro de um molde, ou de bruços dentro de uma máquina em algum local abaixo da linha dos joelhos e com as mãos ocupadas com ferramentas, isso nos melhores casos.
Aí, empenhada em fazer valer a seleção da minha pessoa no recrutamento interno, fui apresentada ao lado tosco da minha psique: Fulano na escuta. Máquina X parada, peça trancada na estação Y, parada de linha de montagem em dez minutos. (Aplausos!).
Meu chapéu! Perdi meu foco no corredor e quando me dei conta, vi que ele ficou esmagado pela empilhadeira.


Pronto. Resgatei o meu Foco (que ficara reduzido a uma folha de papel amarrotada), tratei de seus ferimentos e convidei-o para auxiliar no relacionamento com meu novíssimo Desafio. E, digo-lhe, com muita satisfação, que desta vez consegui finalizar a avaliação do posto de trabalho.
Agora, partiu próximo posto (com hash tag, para fazer bonito).
De volta ao DOA – departamento de operações arbitrárias, e sem a preguiça provocada pelos cinquenta graus centígrados dentro da fábrica, trato de contratar mais uma modelo exclusiva para a passarela da montagem de um produto de ponta, a Srta. Operadora de Produção da Silva, que fez a gentileza de nomear os bois – ou melhor, as peças –, me apresentando aos batentes, borrachas, parafusos sextavados, chaves phillips, parafusadeiras múltiplas, rodapés, etc, etc, além de explicar todas as atividades que executa no detalhe. Sem imprevistos desta vez, nem ninguém me acusando de uso indevido de imagens, voltei à minha sala e botei a engrenagem cerebral na quinta marcha, disparando pela fiação elétrica do sistema neurológico.
Agora passei a traçar o meu mapa de raciocínio (ideia brilhante, não acha?) e mesmo que ocorra alguma interferência externa, continuo a articular a avaliação sem medos. Poderia aparecer a sombra de As Luzes de Setembro, que não conseguiria me causar distração.
Vencida essa etapa, passei para a conferência de uma pessoa com uma vasta experiência – oito meses (qualquer pessoa com mais de duas semanas de atuação eu consideraria experiente ao extremo). Minha professora barra conferente barra colega confere movimento aqui, confere movimento ali, e minha sensação de brilhantismo vai esmorecendo, murchando feito um balão. O sentimento de “Merda! Você não aprende mesmo!” começa a me dominar, massacrando meu ânimo. Quem foi que disse que seria fácil, hein? E a correção foi criada para crescimento e aprendizado, mas não concorda que dá um baixo astral?
Então me lembro da época em que trabalhei em um call center. Adorava trabalhar naquela atividade. Eu, por vezes, me achava incrível (guardei a modéstia dentro da gaveta e passei a chave), porque eu fazia atualizações de cadastro e todo mês eu estava no topo do ranking, realizando mais que o dobro que todas as atendentes juntas. Contudo, até chegar a esse nível melhorado, foi sofrido como arar milhares de hectares de terra para o plantio e cuidar da plantação até a chegada da colheita.
Eu ficava na escuta do telefone que a atendente barra professora me treinava no script da coisa. “Posso dar conta disso”, jubilei, mas quando foi minha vez de atender, eu penava mais do que aprender a guiar um veículo. Até o boa tarde, tudo ia bem. Acontece que o cliente não conhece script. Poxa, deveria existir uma cartilha para saber o que perguntar em uma ligação para um setor de atendimento telefônico, tipo: primeiro você se identifica, depois diz o que precisa, depois recebe as informações, escuta, diz até logo e desliga, sem desvios. Nem tudo é perfeito.
E como o cliente não seguia o script, eu me embananava toda. Em vez de pesquisar no sistema, escutava o cliente e quando ele terminava de falar, eu já tinha esquecido o que ele pedira. E isso tudo porque quando você está sob treinamento, você se folga, confiando que a pessoa que treina irá salvar você na hora certa, como na autoescola quando o instrutor usa o freio do passageiro antes que a gente saia cruzando a frente de outro veículo. Só que eu não contava com a impaciência e severidade dela (acho que ela havia tido umas aulas com o Severo Snape, corrigindo Harry Potter em sua aula de poções).
Eu tinha acabado de superar uma depressão, doença que parece desativar a autoconfiança e soterrar a sua autoestima. A doença havia sido provocada por trabalhar em um emprego anterior embaixo de berros, humilhações e de os patrões acharem que estavam lhe fazendo um favor pagando seu salário, que era mais baixo que o da funcionária da limpeza (lembra o que lhe falei a respeito do auxiliar administrativo ser uma profissão miseravelmente sem reconhecimento digno?).
A profissional do call center nunca berrou comigo, nem me humilhou. O problema é que eu me sentia tão pouco importante, tão bestamente fazendo número nesse mundo, que travei durante as dezenas de primeiras ligações lastimáveis (pobres daqueles clientes; eram todos uns santos em pessoa, e digo isso com sinceridade).
Eu não dava certo de jeito nenhum, até que certo dia, como não havia atendentes em número suficiente devido a folgas, férias e absenteísmo, a minha treinadora foi obrigada a atender para agilizar a demanda, sendo que eu esbarrei no muro mais alto da minha existência. Ou voltava, derrotada, ou subia e pulava o muro. E antes que minha barriga entrasse em pânico, cliquei no ícone e a ligação caiu no meu ramal. E foi uma bênção, porque o cliente conhecia o nosso script, então facilitou as coisas. Quando me despedi, uma sensação balsâmica começou a se espalhar no meu corpo. E dali em diante, foi só alegria. Desliguei-me da empresa apenas por causa do salário, e onde fui parar na produção de uma fábrica. E agora estou aqui, soterrada novamente pela incapacidade inicial de aprender.
Eu me sinto como um peixe de água salgada preso dentro de um aquário. Eis aí uma descoberta: a falta do Sr. Foco Aparecido da Luz pode significar que estou realmente deslocada em matéria de profissão.

Bem, já dizia Monteiro Lobato: “A arte nasce da dor, como a pérola”. E prometo a você que um dia vou ter, finalmente, um colar. E quem sabe, até substituir minha estimada expressão “meu chapéu!” por um sutil “minhas pérolas!”.