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Joinville, Santa Catarina, Brazil

ENGRENAGEM DO CRIME – ÚLTIMO CAPÍTULO – SHOW DE SANGUE





- Um, dois, três!

Estéfanie aguarda as notas formando-se e, feliz, começa a cantar.

“Abandona, me erra,
você não tem cabeça
pra andar na minha.
Abandona, sai dessa,
assim você se ferra,
não quero ficar sozinha.

Tá lento, faz tempo
que já tô em outra,
querido, só lamento.
Você tanto demorou
que a fila já andou.
A gente não se encontra.

Você só quer pegar
e eu cansei de esperar
você tentar mudar.
Cai fora,
agora,
chegou a minha hora.

“Abandona, me erra...”

A casa está cheia. Os amigos da escola compareceram em peso. Enquanto canta, Estéfanie olha para Eduardo, que sorri absorvido em sua própria emoção; observa Peter mandando embora seu mau humor e Vinícius nervoso, naturalmente. É seu show, afinal. Olha para a plateia e vê os pais, mas não repara que seus movimentos frenéticos tratam-se de um alerta.

*****



- Senhor Prefeito, em resposta ao seu lindo discurso, segue como prometido – entra Ivo novamente no ar, desta vez em cadeia nacional. – Agora!


*****


Estéfanie percebe luzes alaranjadas e o ambiente fica muito quente. E ela vê a parede se enrolar nela como um cobertor de pedra incandescente. Suas mãos agora são da cor do concreto, e escaldantes como se tivessem derramado ácido nelas...


*****


- Tem um moço caído aqui!

Os bombeiros se apressam e afastam o rapaz do local do sinistro. Ele está vivo.

- Vanessa...

Renato acorda de um salto e sente o pulmão se rasgar em duas partes. O socorrista pede que ele se acalme, e reforça que fora um milagre ter sobrevivido.

- Vanessa... onde ela está?

- Não tinha mais ninguém ferido aqui, acalme-se – fala o bombeiro voluntário, firmemente.

- Ela foi sequestrada! Por favor! Ele vai matar ela! Faz alguma coisa!

Dor e impotência se misturam nele, que chora copiosamente.

*****


Castro está diante do prefeito agora, exigindo que ceda, e explicando-lhe que a rede de gás está fatalmente comprometida por explosivos como o próprio Ivo lhe informara.

- Não podemos fazer isso, Capitão! – assegura o prefeito.

Nesse momento, assessores informam-lhes da explosão na danceteria, com vítimas. O prefeito deixa-se cair em uma cadeira, esquálido, indefeso. Olha para Castro e pede:

- Precisamos pará-lo. Vou entrar agora em rede...

- Espere, prefeito!

Vera entra no gabinete apinhado e todos os rostos se voltam para ela.

- O exército e a aeronáutica estão enviando equipes para a cidade.

- Como ousa envolver o exército nessa... – inicia, levantando-se com ímpeto e se aproximando dela.

- Sou agente federal, prefeito. Tenho autoridade para isso. E o Ivo é um criminoso internacional que tem sido investigado por terrorismo, tráfico de drogas e homicídios.

Castro observa com assombro o distintivo que Vera apontava para o prefeito e olha-a com decepção e até certa repugnância. Ela percebe os sentimentos dele, mas demonstra não se abalar. Sua missão chega ao fim. Resta capturar Ivo.

- O senhor irá fazer exatamente o que eu mandar, está entendendo? – O prefeito limita-se a consentir. – E quanto ao senhor, Capitão Castro, devo lhe apresentar o líder do esquadrão antibombas...

- Negativo! – ruge, sobressaltando a todos. – Pessoas irão morrer! A Mansão acaba de ser explodida!

Vera abandona sua frieza com a notícia e lembra-se imediatamente da banda. Estava fora dos planos de Ivo explodir o que quer que fosse. Ela estava infiltrada, ela tinha certeza disso! Mas e Estéfanie e os garotos? E as pessoas que estavam lá? Por que Ivo resolvera fazer aquilo?

Sua cabeça subitamente rodopiou, contudo, não tinha tempo para ter um chilique, precisava enviar socorro imediatamente. Apanha um rádio de transmissão que não é o da polícia local e alerta:

- Unidade de comando! Terrorista ignorou estratégia! Alerta! Mansão Getúlio!

- Enviaremos ajuda.

Castro aproxima-se dela.

- Satisfeita agora, agente Vera? – prolongou bastante a palavra que a identificava. Deixou o ambiente com César em seu encalço.

- Castro, espere!

Ele se volta, a fronte franzida.

- Precisamos de sua equipe para...

- Não, vocês não precisam de ninguém – interrompe. – E agora, se me dá licença, vou cumprir o meu dever como policial e como cidadão.

Vera acompanha-o se afastar, engole o nó na garganta e se volta para o prefeito.

- Senhor, precisamos ganhar tempo. Precisamos conquistar a confiança dele. O senhor vai dizer...

*****


- Estéfanie! Estéfanie!

Peter, Vinícius e Eduardo estão do lado de fora da danceteria com uma multidão. Os carros dos bombeiros chegam e as mangueiras entram em ação. Os três garotos procuram Estéfanie entre as centenas de rostos e não a encontram.

- Ela não saiu! – apavora-se Eduardo.

Volta correndo para a danceteria em chamas, não dando qualquer chance para ser segurado. Sua mãe chega um momento antes de vê-lo correndo para o fogo...

A fumaça atonteia Eduardo na mesma hora, e ele quase desfalece. Pensando tudo ao mesmo tempo, grita por ela. O calor insuportável deixa-o entorpecido, mas ele prossegue. Porque não falara antes? Porque esperara tanto?

Adentra mais na danceteria em chamas. Não há nada ali, nada em que ter esperança, mas seu amor é real, precisa encontrá-la viva...

Outra explosão culmina no desabamento do teto.


*****


Um grito de horror se propaga no espaço como se viesse das profundezas de algum pesadelo. Vanessa, dependurada pelas mãos algemadas, ergue um pouco a cabeça e, em uma visão parcial e enevoada, percebe que Pedro era quem gritava e se movia desesperadamente, como uma tocha humana. Em outros tempos, Vanessa teria sentido pesar por ele, mas agora, perto da morte, ignora qualquer emoção de compaixão, pois isso não existia mais dentro de sua alma. Ele merece padecer para morrer para saber o quanto de dor um corpo pode aguentar, pensa, esboçando quase um sorriso, que logo se dissipa. Sem forças, somente lhe resta esperar para morrer de igual maneira, seu corpo consumido pelas chamas que surgiram após aquela estrondosa explosão.

O calor sufocante aterrorizava Vanessa, que sentia que enormes mãos de fogo se aproximavam de seu corpo inerte. Tomara que eu sufoque antes de sentir o fogo queimando meu corpo, pensa, a mente tão lúcida quanto o corpo exaurido. Deus, tenha piedade de mim, ora, tremendo de pânico e de fraqueza.

Enquanto espera, Vanessa percebe algo escorrer em suas mãos, um líquido muito quente igual água fervida. Ela tenta desviar o corpo daquele filete incandescente, que ia enrugando sua pele à medida que escorria pela sua pele. De repente, um cano se rompe logo acima dela e esguicha água para o alto na direção das labaredas que se aproximavam dela. Um registro se rompe em seguida e despeja nela uma grande quantidade de água.

Seu último pensamento é a imagem de Renato e, então, ela desfalece.


*****


Vinícius cai em prantos. O que foi que ele fizera? Tinha se metido com um sujeito do mal e agora parecia que sua amiga... Não. Não permitiu esse pensamento.

Eduardo, quase sufocando, ainda procura.

- Estéfanie!

Ele vê um movimento atrás do palco desabado. Aproxima-se e, com renovada energia, passa um braço por baixo de Estéfanie e a ergue.

- Você... cof, cof, não... devia... cof, cof, cof, estar aqui... – ela reclama, surpresa, mas aliviada.

- Vem! cof, cof... vamos sair daqui!

Ela se agarra mais nele e tenta andar, mas sente uma dor lancinante no pé. Olha o sangue e a fratura exposta. Observa Eduardo sujo de fuligem e ordena:

- Vai... cof, cof... embora! Se salva!

- De jeito nenhum! Cof, cof... Eu te amo, Fan!

Eles ficam agarrados, e Estéfanie chora.

- Eu... também... cof, cof... te amo, Edu... cof, cof... pena que é... tarde demais...

- Não... cof, cof... não é tarde... nós vamos... cof, cof... ficar juntos pra sempre.

E ambos caem, agarrados, sufocando, enquanto o fogo consome tudo à volta deles.


*****


Ivo continua frio e decidido no estúdio, e entra novamente no ar.

- Habitantes da cidade de Joinville, seu prefeito tomou a decisão errada e algumas pessoas já morreram. O próximo alvo é o hospital municipal. Neste ponto todo o perímetro registrará óbitos. Estejam preparados.

Nesse momento, o prefeito e meia dúzia de homens do exército entram no estúdio.

- Pare, por favor, clemência!

- Decisão sensata, ex-prefeito – atalha Ivo, com um sorriso vitorioso.


*****


Vera deixa o estúdio de TV que fica nas proximidades da rua Timbó e segue para a danceteria.

Durante o trajeto, o sangue esvai de seu rosto, revelando profundas olheiras. Os olhos ardem como se algum tipo de bomba química os estivesse atacando. Quinze meses de investigação e planejamento e tudo fora pelos ares, juntamente com a primeira explosão. Achou que conseguiria chorar, contudo, desde jovem aprendera a suprimir suas emoções. Somente seu peito arfa, terrivelmente pesado.

Estaciona a viatura da polícia próximo ao hemocentro e de lá segue a pé. Basta atravessar a rua, mas as chamas ainda resistem aos cinco caminhões de bombeiros, e o local está tumultuado. Ajeita a postura, ergue o zíper da jaqueta de couro e se aproxima a tempo de assistir a gritaria de Jairo, que sacode os braços e berra:

- Minha casa noturna! E agora? Quem vai pagar pelo prejuízo? Perda total...

Vera avança para ele e ataca-o com uma chave de braço que o faz gemer e sucumbir.

- Cala a boca! – ordena, espumando de raiva. – Preocupe-se com o sepultamento de seus funcionários e prepare-se para indenizar as famílias!

- Que absurdo! – rosna.

- Ah, é?

Vera arrasta-o até uma fileira de corpos dispostos no asfalto, arranca o manto que envolve dois deles e, virando firmemente a cabeça de Jairo, vocifera em seu ouvido:

- Olhe para eles! Vamos, seu covarde! Olhe para eles agora!

- Não... – choraminga.

- As famílias deles terão apenas pedaços de carvão para se despedir e você está preocupado com o prédio! Olhe!

Ela empurra a cabeça dele bem próximo ao crânio com parte da pele derretida, carne exposta e ossos enegrecidos. Quando Jairo sente o odor que exala do corpo, prostra-se e regurgita. Vera larga-o com ódio e repugnância.

*****



Quando parte do teto ruiu com o incêndio, Sandra, a mãe de Eduardo, gritou.

- Ele não sabia que eu vinha! – soluça. – Quis fazer uma surpresa!

A mãe de Estéfanie chora desesperada, tentando se desvencilhar dos braços do marido para correr e salvar a filha.

- Iracema, aguenta firme, querida – incentiva Acildo, mas sua voz também fraqueja. – Ela não conseguiu sair, mas pode estar viva...

Uma explosão de soluços convulsiona o corpo de Iracema e ela desaba no ombro do marido.

Vinícius sentara na calçada. O rosto sujo de fuligem, olhos vidrados, em estado de choque. Um socorrista vem ao seu encontro e examina-o, porém, ele não reage.

- Levem ele pra observação – pede para um grupo de voluntários.

Castro e César circulam entre os sobreviventes. As chamas estão quase sendo controladas, mas ainda iluminam a rua. De vez em quando ajudam algum voluntário a posicionar os feridos em macas rígidas, por vezes Castro fala ao rádio, e outras vezes, supervisiona o trabalho dos bombeiros.

Abaixa-se para verificar o pulso de uma jovem e ouve seu nome. Vira-se e observa o bombeiro fazendo sinal para que ele e o detetive se aproximem.

- Tem uma moça algemada na tubulação – explica.

Castro olha para a garota inconsciente dependurada pelos pulsos a uma tubulação. Apressa-se a sustentar seu corpo e afasta os cabelos do rosto. Reconhece a moça, porém, não se lembra logo de onde.

- Depressa! Ela está viva!

O bombeiro traz uma ferramenta para cortar a corrente e quando ela desaba nos braços de Castro, prontamente a carrega para a ambulância mais próxima, horrorizado com tamanha crueldade. Quando descansa-a na maca e o médico começa a examiná-la e colocar a máscara de oxigênio, ela abre os olhos.

- Re... nato – esforça-se.

- O quê?

- Ele matou o Re.. nato... minha... casa... gás...

Castro não compreende a inesperada denúncia. Supõe que a vítima esteja delirando.

- Essa vítima foi encontrada no mesmo ambiente, totalmente carbonizada – avisa o cabo do exército que também presta ajuda.

- O IML já foi devidamente comunicado, imagino.

O cabo afirma e observa a garota.

- Ela se salvou porque a água da tubulação estava em temperatura suficiente para mantê-la resfriada, mas não sabemos quais os danos pulmonares.

- Por favor, leve-a e me mantenha informado. A forma como ela foi encontrada trata-se de uma cena de crime.

Castro olha em volta e encontra o olhar atento de Vera. Ela caminha entre os destroços, mas não carrega câmera alguma. Curioso e ainda se sentindo traído, ele se aproxima.

- Satisfeita com a conclusão dos planos perfeitos? – provoca.

Vera ignora a indireta e continua a observar cada centímetro das paredes que desabaram, o coração a romper o peito com aquilo que procura. Esquadrinha pedaços de madeira encharcados, porém, ainda mornos, buscando os corpos dos que sabiam não haver resistido. Fora treinada para não sentir dor nem remorso, mas agora que a missão fracassara e que Ivo não fora detido, duvidou de seu potencial como investigadora, soldado, agente federal, espiã ou o que quer que fosse. Matara dois jovens inocentes em nome de sua missão. Se alguma vez não enxergou limites para sua profissão, nesses minutos de agonia antecipada ela reconheceu que nem tudo vale a pena.

Notara os pais da garota em desespero do outro lado da rua e sacou que Vinícius é que tinha recebido a ordem de plantar a bomba. Sorte de todos o garoto ser inexperiente e ter instalado o explosivo na válvula de entrada de água e não na rede de gás, caso contrário, aquele perímetro inteiro teria desaparecido do mapa.

Suspira.

Eduardo já tinha saído, estava a salvo e voltara para buscar a garota que certamente era especial para ele. Ou talvez fosse um desses genuínos heróis, cujo sangue que corre nas veias é para salvar inocentes.

- Foi para isso que você entrou no departamento? – pergunta Castro, esticando os braços e girando no próprio eixo, iluminado pelas lâmpadas das sirenes e por algumas labaredas que ainda persistem. – A sua equipe de elite não poupa inocentes – acusa.

Vera range os dentes com inesperado remorso. Lembra-se de ter roubado o laudo da perícia logo após ter estado na cama com Castro. A experiência havia sido ótima, mas na época sua missão estava acima de qualquer outra expectativa.

- Você não compreenderia – pigarreou.

- Nem tente explicar. No meu departamento investigamos crimes para punir os culpados, mas não manipulamos cidadãos indefesos em troca de... – ele pensa um instante. – Em troca de prestígio? Promoção? Dinheiro? Investigamos os mortos, mas cuidamos que os vivos permaneçam vivos...

- Capitão! Detetive! Encontramos aqui! – chamou o bombeiro aflito.

- O que é? – Castro segue na direção do entulho e se surpreende com o que vê. Imediatamente, usa o rádio para pedir reforço, macas e ambulância.

- Nunca vi disso na minha vida – reforça o socorrista.

Vera se aproxima também. Ali estavam em um leito de concreto, madeiras e telhas, dois corpos abraçados. A intensidade do fogo os uniu de modo que as peles deles se misturaram.

- Estéfanie! Eduardo! Estão vivos!

*****


Ivo ordena que o prefeito fique no centro do cenário para seu comunicado oficial. O prefeito, um senhor de 68 anos e olhos extremamente azuis, demonstrava desânimo frente ao que era obrigado a aceitar.

Ele ajeita a gravata, pigarreia, olha para a câmera, aguarda um sinal do cinegrafista e começa a falar:

- Caros joinvilenses, nossa administração sempre privilegiou o bem-estar da população, bem como sua saúde e segurança. Nossa cidade está enfrentando um momento dificílimo, com quadrilhas causando confusão, espalhando medo e assassinando pessoas trabalhadoras, pais e mães de família, adolescentes, estudantes, crianças...

Televisores em toda a cidade permanecem ligados. Nunca antes algo assim tinha ocorrido e a população continua apreensiva.

Ângela quis pedir para que os clientes saíssem, pois já passava do horário de fechar a loja, mas entendeu que a situação exige paciência.

Alberto acompanha o pronunciamento do prefeito, de pé, ansioso, pois há um perigo muito maior do que era anunciado.

Ricardo correra do banho ao chamado do enfermeiro que estava quase saindo do expediente. As notícias anteriores foram assustadoras.

“Para solucionar esses problemas que estão roubando nossa paz, e em favor da sua segurança, caro cidadão e cidadã joinvilense, nós, em decisão unânime, anunciamos minha renúncia ao cargo de prefeito desta querida cidade.”

Nas praças de alimentação dos shoppings centers, bares, lanchonetes e restaurantes, as pessoas respondem praticamente em uníssono. Alguns estudantes do ensino médio ou das universidades, sem compreender o exato teor do comunicado, ensaiam ovações e aplausos. Os jornalistas ficam apreensivos; os políticos das diversas chapas partidárias aguardam antes de realizarem contatos e providenciarem acordos. A tensão paira no ar feito uma densa nuvem – uma supercélula.

“Nós percebemos que nossa administração não tem atendido aos anseios dos eleitores e, dessa forma, estamos retirando nossos nomes para que outra administração atue e ajude e solucione o caos ao qual a cidade vem sucumbindo. – O agora ex-prefeito faz uma pausa, como se lhe doesse cada palavra. Inspira e, finalmente, anuncia: – Nomeio, então, o Sr. Ivo Fernandez o novo prefeito de Joinville”.

A câmera é movida para o rosto de Ivo, que sem qualquer demonstração de alegria ou vitória, olha profundamente para a lente, como se desejasse olhar diretamente dentro dos olhos de cada telespectador.

Ricardo sua frio. Alberto volta a se sentar na cama. Ângela deixa cair as chaves da loja sem desviar os olhos do televisor. Castro é chamado com urgência para assistir a transmissão em um smartphone.

- Cidadãos joinvilenses, na qualidade de prefeito dessa cidade, tenho o seguinte a declarar. A partir deste exato momento ninguém pode deixar a cidade e aqueles que estão fora não poderão retornar sem prestar previamente contas aos soldados que estão vigiando as entradas principais e secundárias do município. Um decreto de lei que será devidamente anunciado pelos jornais e emissoras de TV cria o Imposto de Previsão de Conflito ao que todos deverão honrar. As empresas da região são obrigadas, por meio deste decreto, a aceitar os termos de funcionamento e transferência de recursos para um fundo de reserva para a guerra. As escolas estaduais, municipais e particulares serão regidas por novos regulamentos e os estudantes passarão a receber disciplinas como Estratégia para Conflitos, Fabricação de Artefatos de Explosão, Ética de Guerra e Defesa Pessoal. Aqueles que se recusarem podem optar pelo regime fechado de treinamento na penitenciária municipal. O espaço aéreo da cidade está sendo monitorado durante 24 horas, e por essa razão, todos os voos devem ser previamente informados e cadastrados em nossa Comissão de Controle de Acesso. Caminhões de carga somente serão permitidos entrar no município com cadastro prévio na Comissão de Assuntos de Negócios. Os grupos de combate que estão nesse momento desembarcando em vários pontos da cidade passarão a fazer o patrulhamento do embarque e desembarque de nossos negócios. E agora tenho um recado especial para a agente Vera, que tenho certeza, está nos assistindo. Ordene a imediata evacuação das forças nacionais ou novas explosões acontecerão. Você tem uma hora.”


*****


- Agente Vera na escuta... agente Vera na escuta!

Vera dá entrada em Eduardo e Estéfanie em um hospital particular da cidade enquanto seu rádio chama incessantemente.

- Prossiga – ofega, apertando o botão e soltando logo em seguida.

- Remova as equipes de apoio imediatamente!

É Castro. Vera estava com ele havia dez minutos e estranha o tom de urgência.

- Impossível, senhor! – responde em tom imparcial.

- Isso é uma ordem! – insiste Castro, sua voz atravessando o rádio de comunicação quase com estrondo.

- Capitão, lamento, meu superior me deu ordens expressas de manter a armada nacional...

A comunicação é interrompida e ela solta o botão.

- Foda-se suas ordens, agente Vera! A cidade vai sofrer novo ataque se dentro de uma hora o exército e a aeronáutica não recuarem!

Vera estagna. De repente, a vida dos habitantes da maior cidade de Santa Catarina está inteiramente à mercê de uma decisão sua.



- Um, dois, três!

Estéfanie aguarda as notas formando-se e, feliz, começa a cantar.

“Abandona, me erra,
você não tem cabeça
pra andar na minha.
Abandona, sai dessa,
assim você se ferra,
não quero ficar sozinha.

Tá lento, faz tempo
que já tô em outra,
querido, só lamento.
Você tanto demorou
que a fila já andou.
A gente não se encontra.

Você só quer pegar
e eu cansei de esperar
você tentar mudar.
Cai fora,
agora,
chegou a minha hora.

“Abandona, me erra...”

A casa está cheia. Os amigos da escola compareceram em peso. Enquanto canta, Estéfanie olha para Eduardo, que sorri absorvido em sua própria emoção; observa Peter mandando embora seu mau humor e Vinícius nervoso, naturalmente. É seu show, afinal. Olha para a plateia e vê os pais, mas não repara que seus movimentos frenéticos tratam-se de um alerta.

*****



- Senhor Prefeito, em resposta ao seu lindo discurso, segue como prometido – entra Ivo novamente no ar, desta vez em cadeia nacional. – Agora!


*****


Estéfanie percebe luzes alaranjadas e o ambiente fica muito quente. E ela vê a parede se enrolar nela como um cobertor de pedra incandescente. Suas mãos agora são da cor do concreto, e escaldantes como se tivessem derramado ácido nelas...


*****


- Tem um moço caído aqui!

Os bombeiros se apressam e afastam o rapaz do local do sinistro. Ele está vivo.

- Vanessa...

Renato acorda de um salto e sente o pulmão se rasgar em duas partes. O socorrista pede que ele se acalme, e reforça que fora um milagre ter sobrevivido.

- Vanessa... onde ela está?

- Não tinha mais ninguém ferido aqui, acalme-se – fala o bombeiro voluntário, firmemente.

- Ela foi sequestrada! Por favor! Ele vai matar ela! Faz alguma coisa!

Dor e impotência se misturam nele, que chora copiosamente.

*****


Castro está diante do prefeito agora, exigindo que ceda, e explicando-lhe que a rede de gás está fatalmente comprometida por explosivos como o próprio Ivo lhe informara.

- Não podemos fazer isso, Capitão! – assegura o prefeito.

Nesse momento, assessores informam-lhes da explosão na danceteria, com vítimas. O prefeito deixa-se cair em uma cadeira, esquálido, indefeso. Olha para Castro e pede:

- Precisamos pará-lo. Vou entrar agora em rede...

- Espere, prefeito!

Vera entra no gabinete apinhado e todos os rostos se voltam para ela.

- O exército e a aeronáutica estão enviando equipes para a cidade.

- Como ousa envolver o exército nessa... – inicia, levantando-se com ímpeto e se aproximando dela.

- Sou agente federal, prefeito. Tenho autoridade para isso. E o Ivo é um criminoso internacional que tem sido investigado por terrorismo, tráfico de drogas e homicídios.

Castro observa com assombro o distintivo que Vera apontava para o prefeito e olha-a com decepção e até certa repugnância. Ela percebe os sentimentos dele, mas demonstra não se abalar. Sua missão chega ao fim. Resta capturar Ivo.

- O senhor irá fazer exatamente o que eu mandar, está entendendo? – O prefeito limita-se a consentir. – E quanto ao senhor, Capitão Castro, devo lhe apresentar o líder do esquadrão antibombas...

- Negativo! – ruge, sobressaltando a todos. – Pessoas irão morrer! A Mansão acaba de ser explodida!

Vera abandona sua frieza com a notícia e lembra-se imediatamente da banda. Estava fora dos planos de Ivo explodir o que quer que fosse. Ela estava infiltrada, ela tinha certeza disso! Mas e Estéfanie e os garotos? E as pessoas que estavam lá? Por que Ivo resolvera fazer aquilo?

Sua cabeça subitamente rodopiou, contudo, não tinha tempo para ter um chilique, precisava enviar socorro imediatamente. Apanha um rádio de transmissão que não é o da polícia local e alerta:

- Unidade de comando! Terrorista ignorou estratégia! Alerta! Mansão Getúlio!

- Enviaremos ajuda.

Castro aproxima-se dela.

- Satisfeita agora, agente Vera? – prolongou bastante a palavra que a identificava. Deixou o ambiente com César em seu encalço.

- Castro, espere!

Ele se volta, a fronte franzida.

- Precisamos de sua equipe para...

- Não, vocês não precisam de ninguém – interrompe. – E agora, se me dá licença, vou cumprir o meu dever como policial e como cidadão.

Vera acompanha-o se afastar, engole o nó na garganta e se volta para o prefeito.

- Senhor, precisamos ganhar tempo. Precisamos conquistar a confiança dele. O senhor vai dizer...

*****


- Estéfanie! Estéfanie!

Peter, Vinícius e Eduardo estão do lado de fora da danceteria com uma multidão. Os carros dos bombeiros chegam e as mangueiras entram em ação. Os três garotos procuram Estéfanie entre as centenas de rostos e não a encontram.

- Ela não saiu! – apavora-se Eduardo.

Volta correndo para a danceteria em chamas, não dando qualquer chance para ser segurado. Sua mãe chega um momento antes de vê-lo correndo para o fogo...

A fumaça atonteia Eduardo na mesma hora, e ele quase desfalece. Pensando tudo ao mesmo tempo, grita por ela. O calor insuportável deixa-o entorpecido, mas ele prossegue. Porque não falara antes? Porque esperara tanto?

Adentra mais na danceteria em chamas. Não há nada ali, nada em que ter esperança, mas seu amor é real, precisa encontrá-la viva...

Outra explosão culmina no desabamento do teto.


*****


Um grito de horror se propaga no espaço como se viesse das profundezas de algum pesadelo. Vanessa, dependurada pelas mãos algemadas, ergue um pouco a cabeça e, em uma visão parcial e enevoada, percebe que Pedro era quem gritava e se movia desesperadamente, como uma tocha humana. Em outros tempos, Vanessa teria sentido pesar por ele, mas agora, perto da morte, ignora qualquer emoção de compaixão, pois isso não existia mais dentro de sua alma. Ele merece padecer para morrer para saber o quanto de dor um corpo pode aguentar, pensa, esboçando quase um sorriso, que logo se dissipa. Sem forças, somente lhe resta esperar para morrer de igual maneira, seu corpo consumido pelas chamas que surgiram após aquela estrondosa explosão.

O calor sufocante aterrorizava Vanessa, que sentia que enormes mãos de fogo se aproximavam de seu corpo inerte. Tomara que eu sufoque antes de sentir o fogo queimando meu corpo, pensa, a mente tão lúcida quanto o corpo exaurido. Deus, tenha piedade de mim, ora, tremendo de pânico e de fraqueza.

Enquanto espera, Vanessa percebe algo escorrer em suas mãos, um líquido muito quente igual água fervida. Ela tenta desviar o corpo daquele filete incandescente, que ia enrugando sua pele à medida que escorria pela sua pele. De repente, um cano se rompe logo acima dela e esguicha água para o alto na direção das labaredas que se aproximavam dela. Um registro se rompe em seguida e despeja nela uma grande quantidade de água.

Seu último pensamento é a imagem de Renato e, então, ela desfalece.


*****


Vinícius cai em prantos. O que foi que ele fizera? Tinha se metido com um sujeito do mal e agora parecia que sua amiga... Não. Não permitiu esse pensamento.

Eduardo, quase sufocando, ainda procura.

- Estéfanie!

Ele vê um movimento atrás do palco desabado. Aproxima-se e, com renovada energia, passa um braço por baixo de Estéfanie e a ergue.

- Você... cof, cof, não... devia... cof, cof, cof, estar aqui... – ela reclama, surpresa, mas aliviada.

- Vem! cof, cof... vamos sair daqui!

Ela se agarra mais nele e tenta andar, mas sente uma dor lancinante no pé. Olha o sangue e a fratura exposta. Observa Eduardo sujo de fuligem e ordena:

- Vai... cof, cof... embora! Se salva!

- De jeito nenhum! Cof, cof... Eu te amo, Fan!

Eles ficam agarrados, e Estéfanie chora.

- Eu... também... cof, cof... te amo, Edu... cof, cof... pena que é... tarde demais...

- Não... cof, cof... não é tarde... nós vamos... cof, cof... ficar juntos pra sempre.

E ambos caem, agarrados, sufocando, enquanto o fogo consome tudo à volta deles.


*****


Ivo continua frio e decidido no estúdio, e entra novamente no ar.

- Habitantes da cidade de Joinville, seu prefeito tomou a decisão errada e algumas pessoas já morreram. O próximo alvo é o hospital municipal. Neste ponto todo o perímetro registrará óbitos. Estejam preparados.

Nesse momento, o prefeito e meia dúzia de homens do exército entram no estúdio.

- Pare, por favor, clemência!

- Decisão sensata, ex-prefeito – atalha Ivo, com um sorriso vitorioso.


*****


Vera deixa o estúdio de TV que fica nas proximidades da rua Timbó e segue para a danceteria.

Durante o trajeto, o sangue esvai de seu rosto, revelando profundas olheiras. Os olhos ardem como se algum tipo de bomba química os estivesse atacando. Quinze meses de investigação e planejamento e tudo fora pelos ares, juntamente com a primeira explosão. Achou que conseguiria chorar, contudo, desde jovem aprendera a suprimir suas emoções. Somente seu peito arfa, terrivelmente pesado.

Estaciona a viatura da polícia próximo ao hemocentro e de lá segue a pé. Basta atravessar a rua, mas as chamas ainda resistem aos cinco caminhões de bombeiros, e o local está tumultuado. Ajeita a postura, ergue o zíper da jaqueta de couro e se aproxima a tempo de assistir a gritaria de Jairo, que sacode os braços e berra:

- Minha casa noturna! E agora? Quem vai pagar pelo prejuízo? Perda total...

Vera avança para ele e ataca-o com uma chave de braço que o faz gemer e sucumbir.

- Cala a boca! – ordena, espumando de raiva. – Preocupe-se com o sepultamento de seus funcionários e prepare-se para indenizar as famílias!

- Que absurdo! – rosna.

- Ah, é?

Vera arrasta-o até uma fileira de corpos dispostos no asfalto, arranca o manto que envolve dois deles e, virando firmemente a cabeça de Jairo, vocifera em seu ouvido:

- Olhe para eles! Vamos, seu covarde! Olhe para eles agora!

- Não... – choraminga.

- As famílias deles terão apenas pedaços de carvão para se despedir e você está preocupado com o prédio! Olhe!

Ela empurra a cabeça dele bem próximo ao crânio com parte da pele derretida, carne exposta e ossos enegrecidos. Quando Jairo sente o odor que exala do corpo, prostra-se e regurgita. Vera larga-o com ódio e repugnância.

*****



Quando parte do teto ruiu com o incêndio, Sandra, a mãe de Eduardo, gritou.

- Ele não sabia que eu vinha! – soluça. – Quis fazer uma surpresa!

A mãe de Estéfanie chora desesperada, tentando se desvencilhar dos braços do marido para correr e salvar a filha.

- Iracema, aguenta firme, querida – incentiva Acildo, mas sua voz também fraqueja. – Ela não conseguiu sair, mas pode estar viva...

Uma explosão de soluços convulsiona o corpo de Iracema e ela desaba no ombro do marido.

Vinícius sentara na calçada. O rosto sujo de fuligem, olhos vidrados, em estado de choque. Um socorrista vem ao seu encontro e examina-o, porém, ele não reage.

- Levem ele pra observação – pede para um grupo de voluntários.

Castro e César circulam entre os sobreviventes. As chamas estão quase sendo controladas, mas ainda iluminam a rua. De vez em quando ajudam algum voluntário a posicionar os feridos em macas rígidas, por vezes Castro fala ao rádio, e outras vezes, supervisiona o trabalho dos bombeiros.

Abaixa-se para verificar o pulso de uma jovem e ouve seu nome. Vira-se e observa o bombeiro fazendo sinal para que ele e o detetive se aproximem.

- Tem uma moça algemada na tubulação – explica.

Castro olha para a garota inconsciente dependurada pelos pulsos a uma tubulação. Apressa-se a sustentar seu corpo e afasta os cabelos do rosto. Reconhece a moça, porém, não se lembra logo de onde.

- Depressa! Ela está viva!

O bombeiro traz uma ferramenta para cortar a corrente e quando ela desaba nos braços de Castro, prontamente a carrega para a ambulância mais próxima, horrorizado com tamanha crueldade. Quando descansa-a na maca e o médico começa a examiná-la e colocar a máscara de oxigênio, ela abre os olhos.

- Re... nato – esforça-se.

- O quê?

- Ele matou o Re.. nato... minha... casa... gás...

Castro não compreende a inesperada denúncia. Supõe que a vítima esteja delirando.

- Essa vítima foi encontrada no mesmo ambiente, totalmente carbonizada – avisa o cabo do exército que também presta ajuda.

- O IML já foi devidamente comunicado, imagino.

O cabo afirma e observa a garota.

- Ela se salvou porque a água da tubulação estava em temperatura suficiente para mantê-la resfriada, mas não sabemos quais os danos pulmonares.

- Por favor, leve-a e me mantenha informado. A forma como ela foi encontrada trata-se de uma cena de crime.

Castro olha em volta e encontra o olhar atento de Vera. Ela caminha entre os destroços, mas não carrega câmera alguma. Curioso e ainda se sentindo traído, ele se aproxima.

- Satisfeita com a conclusão dos planos perfeitos? – provoca.

Vera ignora a indireta e continua a observar cada centímetro das paredes que desabaram, o coração a romper o peito com aquilo que procura. Esquadrinha pedaços de madeira encharcados, porém, ainda mornos, buscando os corpos dos que sabiam não haver resistido. Fora treinada para não sentir dor nem remorso, mas agora que a missão fracassara e que Ivo não fora detido, duvidou de seu potencial como investigadora, soldado, agente federal, espiã ou o que quer que fosse. Matara dois jovens inocentes em nome de sua missão. Se alguma vez não enxergou limites para sua profissão, nesses minutos de agonia antecipada ela reconheceu que nem tudo vale a pena.

Notara os pais da garota em desespero do outro lado da rua e sacou que Vinícius é que tinha recebido a ordem de plantar a bomba. Sorte de todos o garoto ser inexperiente e ter instalado o explosivo na válvula de entrada de água e não na rede de gás, caso contrário, aquele perímetro inteiro teria desaparecido do mapa.

Suspira.

Eduardo já tinha saído, estava a salvo e voltara para buscar a garota que certamente era especial para ele. Ou talvez fosse um desses genuínos heróis, cujo sangue que corre nas veias é para salvar inocentes.

- Foi para isso que você entrou no departamento? – pergunta Castro, esticando os braços e girando no próprio eixo, iluminado pelas lâmpadas das sirenes e por algumas labaredas que ainda persistem. – A sua equipe de elite não poupa inocentes – acusa.

Vera range os dentes com inesperado remorso. Lembra-se de ter roubado o laudo da perícia logo após ter estado na cama com Castro. A experiência havia sido ótima, mas na época sua missão estava acima de qualquer outra expectativa.

- Você não compreenderia – pigarreou.

- Nem tente explicar. No meu departamento investigamos crimes para punir os culpados, mas não manipulamos cidadãos indefesos em troca de... – ele pensa um instante. – Em troca de prestígio? Promoção? Dinheiro? Investigamos os mortos, mas cuidamos que os vivos permaneçam vivos...

- Capitão! Detetive! Encontramos aqui! – chamou o bombeiro aflito.

- O que é? – Castro segue na direção do entulho e se surpreende com o que vê. Imediatamente, usa o rádio para pedir reforço, macas e ambulância.

- Nunca vi disso na minha vida – reforça o socorrista.

Vera se aproxima também. Ali estavam em um leito de concreto, madeiras e telhas, dois corpos abraçados. A intensidade do fogo os uniu de modo que as peles deles se misturaram.

- Estéfanie! Eduardo! Estão vivos!

*****


Ivo ordena que o prefeito fique no centro do cenário para seu comunicado oficial. O prefeito, um senhor de 68 anos e olhos extremamente azuis, demonstrava desânimo frente ao que era obrigado a aceitar.

Ele ajeita a gravata, pigarreia, olha para a câmera, aguarda um sinal do cinegrafista e começa a falar:

- Caros joinvilenses, nossa administração sempre privilegiou o bem-estar da população, bem como sua saúde e segurança. Nossa cidade está enfrentando um momento dificílimo, com quadrilhas causando confusão, espalhando medo e assassinando pessoas trabalhadoras, pais e mães de família, adolescentes, estudantes, crianças...

Televisores em toda a cidade permanecem ligados. Nunca antes algo assim tinha ocorrido e a população continua apreensiva.

Ângela quis pedir para que os clientes saíssem, pois já passava do horário de fechar a loja, mas entendeu que a situação exige paciência.

Alberto acompanha o pronunciamento do prefeito, de pé, ansioso, pois há um perigo muito maior do que era anunciado.

Ricardo correra do banho ao chamado do enfermeiro que estava quase saindo do expediente. As notícias anteriores foram assustadoras.

“Para solucionar esses problemas que estão roubando nossa paz, e em favor da sua segurança, caro cidadão e cidadã joinvilense, nós, em decisão unânime, anunciamos minha renúncia ao cargo de prefeito desta querida cidade.”

Nas praças de alimentação dos shoppings centers, bares, lanchonetes e restaurantes, as pessoas respondem praticamente em uníssono. Alguns estudantes do ensino médio ou das universidades, sem compreender o exato teor do comunicado, ensaiam ovações e aplausos. Os jornalistas ficam apreensivos; os políticos das diversas chapas partidárias aguardam antes de realizarem contatos e providenciarem acordos. A tensão paira no ar feito uma densa nuvem – uma supercélula.

“Nós percebemos que nossa administração não tem atendido aos anseios dos eleitores e, dessa forma, estamos retirando nossos nomes para que outra administração atue e ajude e solucione o caos ao qual a cidade vem sucumbindo. – O agora ex-prefeito faz uma pausa, como se lhe doesse cada palavra. Inspira e, finalmente, anuncia: – Nomeio, então, o Sr. Ivo Fernandez o novo prefeito de Joinville”.

A câmera é movida para o rosto de Ivo, que sem qualquer demonstração de alegria ou vitória, olha profundamente para a lente, como se desejasse olhar diretamente dentro dos olhos de cada telespectador.

Ricardo sua frio. Alberto volta a se sentar na cama. Ângela deixa cair as chaves da loja sem desviar os olhos do televisor. Castro é chamado com urgência para assistir a transmissão em um smartphone.

- Cidadãos joinvilenses, na qualidade de prefeito dessa cidade, tenho o seguinte a declarar. A partir deste exato momento ninguém pode deixar a cidade e aqueles que estão fora não poderão retornar sem prestar previamente contas aos soldados que estão vigiando as entradas principais e secundárias do município. Um decreto de lei que será devidamente anunciado pelos jornais e emissoras de TV cria o Imposto de Previsão de Conflito ao que todos deverão honrar. As empresas da região são obrigadas, por meio deste decreto, a aceitar os termos de funcionamento e transferência de recursos para um fundo de reserva para a guerra. As escolas estaduais, municipais e particulares serão regidas por novos regulamentos e os estudantes passarão a receber disciplinas como Estratégia para Conflitos, Fabricação de Artefatos de Explosão, Ética de Guerra e Defesa Pessoal. Aqueles que se recusarem podem optar pelo regime fechado de treinamento na penitenciária municipal. O espaço aéreo da cidade está sendo monitorado durante 24 horas, e por essa razão, todos os voos devem ser previamente informados e cadastrados em nossa Comissão de Controle de Acesso. Caminhões de carga somente serão permitidos entrar no município com cadastro prévio na Comissão de Assuntos de Negócios. Os grupos de combate que estão nesse momento desembarcando em vários pontos da cidade passarão a fazer o patrulhamento do embarque e desembarque de nossos negócios. E agora tenho um recado especial para a agente Vera, que tenho certeza, está nos assistindo. Ordene a imediata evacuação das forças nacionais ou novas explosões acontecerão. Você tem uma hora.”


*****


- Agente Vera na escuta... agente Vera na escuta!

Vera dá entrada em Eduardo e Estéfanie em um hospital particular da cidade enquanto seu rádio chama incessantemente.

- Prossiga – ofega, apertando o botão e soltando logo em seguida.

- Remova as equipes de apoio imediatamente!

É Castro. Vera estava com ele havia dez minutos e estranha o tom de urgência.

- Impossível, senhor! – responde em tom imparcial.

- Isso é uma ordem! – insiste Castro, sua voz atravessando o rádio de comunicação quase com estrondo.

- Capitão, lamento, meu superior me deu ordens expressas de manter a armada nacional...

A comunicação é interrompida e ela solta o botão.

- Foda-se suas ordens, agente Vera! A cidade vai sofrer novo ataque se dentro de uma hora o exército e a aeronáutica não recuarem!

Vera estagna. De repente, a vida dos habitantes da maior cidade de Santa Catarina está inteiramente à mercê de uma decisão sua.


A segunda parte  história sairá dentro de algumas semanas. Até lá!